CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

2 de novembro de 2012

Divagações em dia de romaria: Wanderlino Netto


     Assim meus finados, em nada confinados. Pelo que, mais que nunca, vivos estiveram nesse dia de choros (des) afinados. Não lhes levei flores nem luzes de velas. Ao invés, antigas cantigas de amenas cirandas. Mudas palavras, eles disseram, aos meus ouvidos. Quando menino, ouvi que puxavam pernas, assombravam...
         
    Imortais meus mortos. Em voláteis fardões, recitam poemas silenciosos e bebem a brisa da tarde em chávenas inexistentes.
         
       Ao partirem para o grande mistério, vão-se cônscios de ficarem. Em gestos, palavras, ações. Sendo assim, acodem na angústia e na efusão, que se uma machuca, a outra inebria. Provocam lágrimas e apagam sorrisos, quando chorar alivia e o riso é descabido. Quando não, fazem justo o contrário: secam o choro e acendem sorrisos.
         
     Na alegria, lá estão, a cirandar. Na tristeza, pousam-me nos ombros mãos de nuvens. Nas vitórias, dosam a vaidade. Nas derrotas, ensinam-me coisas.
         
      Assim meus mortos, mágica plateia a me observar enquanto busco o equilíbrio em invisível corda bamba. Não me negam aplausos nem de apupos me poupam. Podem vibrar ou se entediar, mas junto a mim sempre estarão. Mesmo que não lhes leve flores nem velas lhes acenda.
(Do livro Forca de seda. 1981.)


Dia de Finados.
Chuva fina, céu cinzento.
Lembranças...Saudade...

Elenir

* * *

"Na morte, a ausência ganha presença. É substantivo e concreto tudo aquilo que permanece. Daí os mortos passearem entre nós." (Bartolomeu Campos de Queirós)

5 comentários:

  1. Nesse caso, a imagem me comoveu tanto quanto as palavras. Saudades, Zé!

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  2. Talvez pudéssemos mudar o nome do dia para saudade
    Uma presença muda, um silêncio que fala à alma
    que lembra que o amor é eterno e desconhece idade
    qualquer passado é presente no coração que sente

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  3. Quando era criança brincava num cemitério e acho que por isso aprendi a não temer esses espaços. Nunca fui "visitar" os mortinhos, nem no dia de finados, nem em dia nenhum. Depois que deixo lá o corpo das pessoas queridas, só lembro delas vivas e não me apetece mesmo viver mais aqueles falecimentos. Não vou aos cemitérios e não curto esse dia de "finados" que a igreja resolveu nos impor. Peço desculpas aos vendedores de flores que hoje precisam faturar mais um pouquinho, mas especialmente neste dia é que eu não compro flores. Preferia que esse dia tivesse o cunho mexicano. E quanto aos mortos imortais, eles rondam para sempre a minha sala e a minha vida.

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  4. Wanderlino é sempre bom. Um texto realmente bonito, e instrutivo.
    Sim, nossos mortos imortais, como bem disse a Lilian Moura aí em cima, rondam para sempre a nossa vida e nos aplaudem ou apupam, para nossa felicidade.
    Parabéns, Wanderlino.
    Carlos.

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