CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de julho de 2013

Aconteceu em 5/7/2013 - letras rebeldes, fluidos insensatos: novaes/

Opinião dos participantes do debate


Opinião de leitores



Oi Newton,

Hoje, falando em sala sobre a capacidade humana de se comunicar e de comunicar algo em determinadas circunstâncias, advinha quem me veio à mente... Como eu estava com seu livro, li o conto "A carta" para a turma. Acredite, nem sei como posso descrever, rsrsrs, eles "piraram o cabeção" meu amigo, digo que você recebeu um dos maiores elogios que um escritor pode receber de minha tchurminha. Sem querer um aluno deixou escapar: "puta que pariu, esse cara é um foda"; quer elogio maior meu amigo? rsrsrsrsrrs. Não contentes com isso, foram falar nas outras turmas e eu tive que ler o conto para elas. Em algumas turmas não deu tempo de ler todas as versões da "carta" e eu acabei esquecendo que não tinha lido. Você acredita que eles, na aula seguinte, vieram me cobrar? O livro ficou meio amassado porque todo mundo queria ver com seus próprios olhos a engenhoca da transparência.

Helene Camille
* * *

Achei simplesmente GENIAL a inclusão da transparência para o último conto “A carta”. A princípio coloquei a transparência na folha em branco. A seguir abri a cortina e a olhei como se fosse uma imagem de RX. E, por último, quando já estava quase desanimando, fiz o que era para fazer (não vou dizer o que é, porque vai que alguém possa estar me lendo antes de ler o livro) e pude ler a “verdadeira carta”. Fiquei completamente maravilhada com esse exercício para o leitor, no final do livro. Parabéns, Newton, nunca tinha visto nada tão criativo num livro. Para mim, foi como um presente do autor para o leitor. Adorei !!!

Angela Ellias


* * *

Amigo,


Falei sobre o teu livro ao telefone e nas páginas do facebook. É sem dúvida uma excelente reunião de contos. Espero trabalhar com eles no curso de Letras. Não resisto à tentação de destacar os preferidos: "Um dia inesquecível", "Bernardo gandula", "O espião", "Eis que morto acordei", "Os famintos da rua cinco" e "Eu processaria Isaac Newton". 

O teu livro está com as páginas cheias de anotações. Coloquei-o junto aos contistas que mais admiro, e que me ensinam a escrever, como Jorge Medauar, Tchekhov, Moacyr Scliar, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles e Carlos Rosa Moreira. 

Parabéns, escritor.

Hélio Penna



* * *

Obrigado, Newton, ganhei bons momentos com seu livro, e uma surpresa, meio sem entender, no último conto. Entendi depois. Muito legal, uma interação a mais entre livro e leitor. 
Você tem um estilo, muita coisa de uma vivência onde se nota engajamento, sua literatura é, suavemente, mas claramente, engajada. Será catarse do primeiro livro? Haverá mudanças de estilo no próximo? Há aspectos que, tenho certeza, não mudarão, a exemplo do escritor de "Eis que morto acordei", "Pintor de paredes" e "A viagem do filho querido". Existem aspectos do estilo, especialmente nesses três contos (há em outros também) onde se nota a solidificação de características do autor. Digo isso com certo temor, pois não sou literato, mas assim me parece.
Muito bom de ler, Newton. Um forte abraço.

Carlos Rosa Moreira



* * *

Boa noite, Newton!

Tendo terminado a leitura de seu FLUIDOS INSENSATOS, liguei o computador exatamente para lhe falar sobre o prazer que ela me proporcionou e lhe dar os parabéns pelo seu belo trabalho. Seus contos têm o dom de mexer com nosso imaginário, pois buscam temas variados, intensos, que às vezes poderíamos chamar de estranhos, mas sempre muito envolventes. Durante a leitura de alguns dos contos, me via perguntando: "onde ele foi descobrir um tema desses?" Eles vão além dos fatos comuns que nos cercam. Estou com a Rita: o conto, "A Carta", é hors-concours, brindando o leitor com uma criatividade difícil de ser imitada. Quantas pessoas seriam capazes de escrever uma carta assim, com tríplice rota de leitura, levando a contradizer o que sua forma completa nos mostrava? Foi bom reler "A viagem do filho querido" e "Pintor de paredes", que já conhecia. É claro que me identifico melhor com alguns dos temas. E se precisasse indicar o que mais mexeu comigo, diria que foi "Eis que morto acordei". Eu me vi no lugar daquele cadáver e acho que seria capaz de pensar e sentir como ele.


Gracinda Rosa

* * *

Encantada, termino a leitura do "Letras rebeldes fluidos insensatos".
Por essa fértil imaginação, você merece ser incluído entre grandes escritores, igualmente imaginativos, como Saramago, Vargas Llosa, Garcia Márques, Júlio Cortázar...
Parabéns Novaes/! Estou certa de que este é o primeiro de muitos outros livros, pois antevejo uma longa e bem sucedida carreira.
Abraços.

Elenir Teixeira

* * *


Acabo de ler “Letras rebeldes fluidos insensatos” de Novaes/.
Se precisasse descrever o livro em uma única palavra seria: jorro. Digno da pulsão explosiva de quem contém, armazena, contrai, recua, as histórias trazidas pelo autor tem o ritmo de jatos de perspicácia, criticidade, sensibilidade e inteligência. Há algo que está presente em todos os contos, assim como no essencialmente humano: surpreender.

Cristiana Seixas





Sugestões de Leitura (Bel CLIc nº 004 de 30/07/2013)

Para comentar uma ou mais das sugestões de leituras abaixo, clique no campo Comentários.


Sonia Salim - Fahrenheit 451


"Indico Fahrenheit 451 – a temperatura na qual o papel do livro pega fogo e queima. Obra de ficção científica norte-americana lançada em 1953 que consagrou mundialmente o escritor Ray Bradbury e 13 anos depois chegou ao cinema pelas lentes de François Truffaut. Num regime totalitário, o bombeiro Guy Montag vivia com a sua mulher numa sociedade em que o seu trabalho era queimar livros já que as casas eram à prova de fogo. As mulheres eram débeis e fúteis, dependentes de ansiolíticos e o suicídio era algo normal. A leitura era crime e os que não podiam viver sem ela teriam a marginalidade a seu dispor. Os foragidos decoravam os livros e eram conhecidos pelos títulos para preservar a cultura. O livro é muito mais do que isso, mas como resumo, vale".


Rita Magnago - Tuareg

"Indico Tuareg (nome dado ao grupo étnico nômade que habita o deserto do Saara). É um livro que surpreende e nos leva a muitos questionamentos sobre nossos códigos de conduta, não escritos, mas tão presentes e determinantes em nossas vidas, para o bem ou para o mal. Excelente para reflexão, é ainda emocionante, tem um ritmo frenético e nos aproxima de uma realidade distante, abrindo horizontes. É uma viagem ao exterior e ao interior, muito bom mesmo.

Cito abaixo um trecho da opinião de outra leitora, que li no blog da LP&M:

Tuareg é um livro denso e ao mesmo tempo tenso. Que flui como grãos de areia esparramados pelo vento no deserto. E prende como um oásis. "

29 de julho de 2013

Suicídio: estética ou desespero? - Entrevista com o escritor Mike Sullivan

Você já pensou em se suicidar? Por volta do ano 2000 assisti uma entrevista com o diretor de cinema sueco Ingmar Bergman em que ele falava com naturalidade sobre a possibilidade de se suicidar. Seria sua preferência ao invés de presenciar a deterioração de seu próprio corpo. No livro que será debatido no CLIc em outubro de 2013, intitulado "1934", de Alberto Moravia, dois outros motivos são apresentados como razões de suicídio, um estético, exemplicado pelo caso Heinrich Kleist e Henriqueta Vogel, defendido pela personagem Beate, e um terceiro motivo, induzido por um estado de alma inerente ao ser humano, segundo o protagonista, o desespero. Para moderar nossa reunião de Outubro, convidamos o jovem psicólogo e escritor Mike Sullivan, autor de quatro livros, o último deles abordando a questão do suicídio "Terapia das almas suicidas". Mike prontificou-se a debater desde já com os participantes do nosso clube de leitura sobre o tema, sobre seus livros, e sobre sua paixão pela Literatura. Eis a produção literária de Mike:

RETORNO AO PÓ (2009)

Nosso destino é traçado pelas perdas ao longo da vida. A morte de outras pessoas, a decepção do mundo, o abandono de tudo aquilo que acreditamos e a nossa própria morte. Esse é o tema proposto por Mike Sullivan em seu romance de estréia. “Retorno ao pó” conta a história de vidas marcadas profundamente pela morte.


Ana Petterson é uma jovem de apenas vinte anos lutando para sobreviver em meio ao caos instalado depois que assassinou seu próprio pai o qual abusava sexualmente dela. Sua luta maior será esquecer o passado para absorver as exigências do presente. Sua vida muda completamente quando seu caminho cruza-se com o da prostituta Ilma Esquiavo.


Marta França, uma mulher de quarenta e poucos anos enfrenta uma dura depressão depois de ter abandonado as crenças religiosas para se casar com João Francisco. Ela se vê dividida entre a família, a religião e a difícil tarefa de perdoar seu marido depois que ele a trai.


Faustino Denegri, um escritor famoso, comete um crime aos doze anos. Por vingança ele mata o irmão recém-nascido afogado numa banheira. Aos sessenta anos ele tem visões e ouve vozes do fantasma do bebê. Atormentado por essas alucinações ainda terá de enfrentar um câncer no cérebro e a tristeza de ir morrendo a cada dia.


No meio de tudo isso está Catharina França, uma mulher que sonha em ser atriz e verá sua vida ser atingida por Ana Petterson, Marta França e Faustino Denegri. Uma trama contundente marcada por encontros e desencontros, onde todos os personagens têm suas vidas entrelaçadas de alguma forma. Uma história de assassinatos e segredos, genialidade e loucura.  


  NO VALE DE OSSOS SECOS (2011)

Ruy Dantas, um homem de cinquenta e poucos anos, vive sozinho num apartamento que passou a ser grande demais depois do fim de um casamento que perdurou por mais de vinte anos. Sua vida a essa altura passou a perder o sentido, como se nada a sua volta tivesse a profundidade necessária para dar razão à existência. Jornalista de formação, não consegue ver no trabalho a mesma motivação de tempos atrás quando pensou que seria um grande homem por meio das matérias que viria a produzir. Nessa época pensava em ser um intelectual, um homem que tivesse as respostas para todo o tipo de pergunta, um influente jornalista que poderia redigir textos e bonitas palavras carregadas de bom senso e da crítica aguçada que a carreira requer. Na contramão de todos os seus ideais começou com reportagens sobre esportes, depois com crimes de assassinatos e violência pela cidade e hoje, ironicamente, escreve apenas crônicas sobre o viver.

Num fim de tarde de uma sexta-feira, ao chegar em casa, Ruy Dantas, resolvera travar uma batalha existencial com sua própria mente, com seu ser, com sua essência. Buscava respostas e nos últimos dias vinha-se decepcionando com uma busca inútil e o aumento de questões pendentes só faziam de sua vida algo menor e deplorável. Queria era se esconder de tudo e de todos, buscar abrigo e refúgio num lugar deserto, numa praia paradisíaca. Levar seu corpo e sua mente para um silêncio que não os incomodasse, mas os beneficiasse com a oportunidade para pensar, refletir e conseguir se definir, voltar a se regozijar com o simples fato de existir.


E como se guiado por uma voz interior ele se vê diante do objetivo de realizar três tarefas inusitadas em apenas um fim de semana: visitar pacientes com câncer, ir a um templo religioso e entrar num cemitério. Ruy Dantas percebe que para recuperar o prazer pela vida e encontrar algum sentido para a existência deve ir de encontro àquilo que mais o assusta: a morte. E para isso é preciso ir até ela, mas sem ceder aos seus encantos. Era preciso ver a face da morte e aproximar-se de Deus. O que ele nem imagina é que cada tarefa tem uma  ligação íntima com o seu passando o que mudará sua vida para sempre.


AMOR EM TEMPOS DE SOLIDÃO (2012)


Eis os protagonistas deste livro: um estupro, uma criança com paralisia cerebral (e que, misteriosamente, deixa de crescer aos dois anos de idade), uma profunda depressão e o amor (o abstrato e simbólico amor) como única fonte de cura, perdão e redenção.

Para aqueles que irão se aventurar por essa história, o melhor seria não adiantar nada ou quase nada do que se passa nesse livro. A surpresa que se dá a cada página e com o desenrolar da trama é o maior mérito de Mike Sullivan, algo que pode ser observado nos outros dois romances que escreveu: “Retorno ao Pó” e “No Vale de Ossos Secos”.

O autor define a experiência de ler seu livro como o embarque numa montanha russa às escuras, onde o leitor nunca sabe onde se dá a próxima queda e a que profundidade essa queda o levará.

Numa trama bem arquitetada, que se apresenta com variações entre tempo presente e tempo passado, esse romance promove um renovo à linguagem literária brasileira, com uma narrativa inteligente que se preocupa com a condição psicológica de cada personagem (seus abismos, seus conflitos). É como estar diante de uma história incompleta que vai se fechando na medida em que se avança por ela. As peças são dadas aos poucos. Nesse sentido, o leitor sente-se também um participante ativo na construção do enredo.

Uma história em que não há a distinção clara entre mocinhos e bandidos. Apenas o ser humano em contato com as surpresas, dificuldades, encontros e desencontros que a vida nos reserva.



TERAPIA DAS ALMAS SUICIDAS

LANÇAMENTO: Setembro 2013


Numa determinada região do país, um Pastor, a crer no fim do mundo, convence um número expressivo de pessoas a cometerem suicídio coletivo após a pregação formal, exortação de palavras de melhores dias e abandono definitivo desta vida. Diz que o mundo está perto do fim. Nada mais sobrará. Todos se matam com uma bebida de origem desconhecida, mas de gosto amargo, cortante, que queima por dentro quando se espalha pelo estômago.


Ao chegarem do outro lado, as almas têm de esperar numa antessala de cor acinzentada, fria, com ventos brandos, incessantes. Estão sentadas a curta distância umas das outras. Cabisbaixas, não possuem nenhuma paisagem onde fixar o olhar. Nenhuma definição existe para os minutos seguintes. Isso se qualquer medição do tempo houver. Tudo parece parado em alguma espécie de torpor. Sem som, sem movimento, sem respiração, sem cor, pouca luz.


Cada alma terá de passar por um interrogatório. Devido ao suicídio, não poderão adentrar imediatamente o paraíso supremo onde elas desejam a todo custo descansar. Uma figura de palidez mórbida entra e avisa com voz baixa que elas terão de conceder esclarecimentos ao anjo analista. Uma explicação será dada. Deverão prestar um depoimento devendo ser o mais sincero possível, ainda que nenhuma garantia haja de conseguirem absolvição.


Os depoimentos selecionados para este livro pertencem às almas isentas de discurso religioso. O fanatismo proclamado pela maioria maciça dos demais suicidas foi ocultado para não tornar este romance uma narrativa de falas repetitivas e tediosas. 



Mike Sullivan


Quer saber mais? Pergunte ao Mike. O jovem autor está disponível para trocar ideias com você. Faça sua pergunta no campo de comentários desta postagem e espere a resposta do escritor.


Obs.: O tema "suicídio" é extremamente grave e nosso interesse aqui é abordá-lo do ponto de vista literário. As opiniões emitidas nesse blog são de inteira responsabilidade dos emissores, sobretudo as referentes ao aspecto clínico desse tema.


O transeunte: William Lial



Eu o vi caminhar sozinho,
transeunte monótono,
ignoto aos olhos vizinhos.
Caminhando como um turista
recém chegado a um lugar
que não conhece.

Eu o vi sorrir para as nuvens
e abraçar o vento.
Eu o vi sentar no banco
e conversar com seus sonhos,
parolar com seus fantasmas,
debochar de ridículas brincadeiras
e se despedir como num breve adeus.

Eu o vi saudar jovens senhoras
que ele não conhecia
e que se esquivavam de sua loucura,
eu o vi agradecer aos xingamentos
que recebia
como se recebesse ricas ovações,
eu o vi levar suas costas embora
a conversar e gesticular com todos
os seres que eu não podia ver.

Eu o vi descer a ladeira
para nunca mais voltar.



Poema extraído do meu livro Noturno, publicado em 2003.
Imagem:  Moshe Shai, Homeless man reading books, 1977.

24 de julho de 2013

Poesia ao tempo

By: Rose Timpone



Nuvens chumbo pairam sobre o mar
na linha do horizonte
o cinza mais pesado
o negro que vem esmaecendo
vento polar, conheço a tua origem
sinto o trovão nos meus pés
o ralhar do céu, a força da tempestade,
gosto do cair da tarde, assim,
de mansinho
luzes da noite acendendo
as do céu, as da rua
sons de folhas de árvores a conversar
rodas de carros no asfalto molhado
gaivotas apressadas no céu.
Depois que a noite cai
o que vejo é o branco balançar
cortina de voile que se movimenta
toque do vento.


20 de julho de 2013

Sobre o livro "A Dupla Face do Baralho"

(por: W.B.)

"Estou aqui sentado na cadeira de balanço em frente à minha casa, nesta cidade de Santo Antônio do Salgueiro, esperando a morte." Assim começam as revelações de Félix Gurgel, criação do escritor Raimundo Carrero na novela "A Dupla Face do Baralho". Tal personagem narrador, aposentado, sozinho, esquecido por todos faz um balanço de sua vida.

A novela acaba sendo também uma dissertação sobre culpa, não só em seu aspecto religioso, mas também no social e político. Na juventude, Félix Gurgel foi levado a roubar e matar. Remorso e agonia o consomem não só no presente, mas também na é poca em que cometera os crimes. Tornando-se comissário de polícia, desenvolveu um lado cruel em sua personalidade, espancando, humilhando, subjugando as pessoas.

Gurgel, ao relembrar toda a sua triste existência, tece uma narrativa em que os acontecimentos não seguem a ordem cronológica: uma lembrança atrai outra, e os fatos – muitas vezes – começam a ser contados e, antes da conclusão do episódio, se passa para outro fato, podendo depois retornar um acontecimento inicial ou um terceiro. Aos poucos vai se formando o ambiente, a história, os personagens, a cidadezinha de Santo Antônio do Salgueiro, os pensamentos sobre castigo e culpa.

No fim, quando se sente o quadro completo, a agonia da culpa, o peso dos pecados, o destino, tudo isso impulsionando o texto ao ápice da dramaticidade, a novela chega a seu desfecho com chave de ouro.

A DUPLA FACE DO BARALHO (CONFISSÕES DO COMISSÁRIO FÉLIX GURGEL), novela de Raimundo Carrero, 117 páginas. Editora Francisco Alves. Disponível em sebos.

(RAIMUNDO CARRERO AINDA NÃO FOI DEBATIDO NO CLUBE DE LEITURA ICARAÍ)

19 de julho de 2013

Livros, leitores e literatura: entrevista com Benito Petraglia

By: Rita Magnago

O CLIc traz para você entrevista exclusiva com Benito Petraglia, participante presencial renomado por fazer verdadeiras autópsias dos livros, desvendando mensagens implícitas, referências cruzadas e ajudando a dar ao texto um conteúdo ainda mais rico e diversificado.

Figura polêmica, Benito, doutor em Letras pela UFF, também é famoso por suas críticas contundentes às obras e é ardoroso defensor da literatura nacional, mais especificamente, do romance.

Conheça um pouco do que ele pensa sobre livros, leitores e literatura. E fique à vontade para saciar sua curiosidade com mais perguntas. Está feito o convite.




Para você, o que é a boa literatura?
Pra mim uma boa literatura é aquela que conjuga de maneira harmônica e justa forma e conteúdo. Engenho e arte nas palavras de Camões. Muitos não prestam a devida atenção à forma ou ela passa despercebida, mas é ela que dá a coerência interna ao romance. Falo romance porque é o gênero principalmente lido no clube. Além disso, deve apresentar uma visão problematizada da vida. Costumo dizer, brincando, que, na divisão cultural do trabalho, o escritor é aquele que sofre por nós, os leitores.


Na sua opinião um leitor comum tem plenas condições de aproveitar uma obra literária? Por quê?
Totais e absolutas. Os maiores críticos, que considero grandes leitores, não tinham formação acadêmica específica: Álvaro Lins, Otto Maria Carpeaux, Antonio Candido, que reputo o maior (tinha inicialmente formação em sociologia). Acho que é sobretudo uma questão de gostar com gosto, gostar muito.


Para um leitor que deseja mergulhar fundo num livro, que sugestões você daria?
Respondo unicamente com minha experiência individual. Três coisas são necessárias: reler, reler e reler. Acrescento uma quarta: reler. A primeira leitura nos dá um panorama geral do texto e alguma ênfase especial que o autor dá ao livro. As leituras posteriores aprofundam o panorama geral, destacam a ênfase especial. Eu também anoto o que considero importante, maneira de fixar estes pontos. Finalmente, a atitude, falo mesmo da postura física do leitor. Não dá pra ler, relaxado, espichado na cama, com olhos frouxos.


Há tanta variedade de autores e temas, como escolher um bom livro?
Pergunta difícil. Adoto basicamente dois critérios, os quais admito que são precários: o passado do escritor (prêmios recebidos) e o apanhado do que se diz a respeito dele (comentários da crítica).


Que características um livro deve ter para ser considerado literário?
Esta é aquela pergunta irrespondível. A tal da "literariedade" parece a descoberta da pedra filosofal. É um problema que tem variado no tempo. Antigamente literário era o texto edificante, que trouxesse algum ensinamento. Depois era o beletrismo, escrever difícil, uma linguagem parnasiana e rebuscada. Mais recentemente isso mudou, ainda bem, e o registro coloquial pode, sim, ser literário. Como você notou, não respondi à pergunta. Talvez ela esteja no conjunto representado pelas respostas às outras quatro perguntas.


14 de julho de 2013

Participe dos Rumos do CLIc

Você que participa de nossas reuniões mensais e/ou comenta os livros escolhidos pelo Clube está convidado também a dar sua opinião sobre algumas questões que sempre suscitam polêmicas.

Para votar:
- informe seu nome e seu e-mail nos campos correspondentes;
- marque a opção desejada em cada uma das questões;
- clique em "Submit" ou "Enviar", dependendo se seu computador está configurado em inglês ou português, para validar suas respostas.

Rumos do CLIc

Deixe sua opinião sobre questões importantes para a escolha dos livros lidos pelo CLIc. Agradecemos sua participação.
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10 de julho de 2013

Crônica - O saci: Carlos Benites




  • Você revisa o texto que vai enviar para a EdUFF uma, duas, três ... seis vezes. Olha todas as páginas, pois a gente sempre esquece de incluir uma vírgula ou coloca outra desnecessariamente. Ou então pode ter um verbo mal colocado, ter que acertar uma coesão, cortar uma parte pequena, trocar uma frase, diminuir aqui e ali, pois eles pedem que o texto tenha quatro páginas no máximo. Daí lembra que precisa ainda incluir a numeração das páginas e então corta mais um pouquinho. Revisa mais três vezes por conta das alterações. O total de revisões do texto inteiro deve ter ido a mais de dez. Aí você fica feliz por completar o trabalho perfeito e o envelopa e deixa na editora, com o sentimento de dever cumprido.

    Dia seguinte liga para o amigo, conta sobre o texto e aproveita para abrir o arquivo. Aí você, com cinco segundos após ter aberto o texto, logo dá de cara com aquele errinho NO PRIMEIRO PARÁGRAFO. Logo o primeiro parágrafo que foi o que você mais mexeu e cortou. Estava lá desde o princípio e não o encontrei no meio das revisões. Então lembro da imagem feita por Monteiro Lobato, que dizia que depois de enviar o livro para a editora o errinho aparece na figura de um saci, que fica acenando para você, sorrindo com ar de deboche.



6 de julho de 2013

Houve um pássaro*: William Lial


Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda.
(Cecília Meireles, O Romanceiro da Inconfidência)




Era final de tarde. Sozinho no meu canto mais seguro do mundo, eu regava as plantas do meu quintal. Nunca encontrei nada mais seguro que regar minhas flores, elas me escutam e eu as faço felizes com um pouco de água. São humildes, pedem pouco para me suportar. Enfim, eu estava lá, absorto na perfeição do silêncio, quando ele me apareceu como num flash: não estava lá, de repente estava. Com os pés plantados no chão, a um metro e meio de mim, com a cabeça inclinada para o lado, olhando-me com um olho só, espiava-me nada discreto.

Surpreso em vê-lo ali, tão perto, fato incomum entre os voadores, admirei-o, também de lado, com um olho só, mas meio encabulado. Era a primeira vez que um deles se aproximava tanto de mim, e o fato de me olhar daquela maneira direta, deixou-me incomodado; mas não tanto quanto o assombro que senti quando ele me dirigiu a palavra:

― E aí, rapaz, tudo bem?

(Eu, silêncio)

― Ô rapaz, estou falando com você!

(E eu, silêncio)

Enquanto meus olhos moviam-se convulsivamente para todos os lados, eu não encontrava forma de fechar a boca e articular alguma sílaba que fosse.

― O que é que há com você, meu camarada, é tímido ou idiota? Quem sabe mudo?! ― perguntou-me sem cerimônia.

― Você está falando comigo? ― consegui tremular essas palavras que, na verdade, não saíram da minha boca; caíram.

― Claro! Está vendo mais alguém aqui?

― Não... não estou. É que... é que estou..., há meu Deus! É que não consigo acreditar. Nunca um de vocês falou comigo antes.

― O que você quer dizer com um de vocês? Por acaso você não conversa com pardais? Tem algo contra nós? Prefere os bem-te-vis, as araras, os papagaios imorais ou alguma outra dessas aves ornamentais metidas?

― Não, não é isso, eu quis dizer que nunca um pássaro falou comigo.

― Ah, está bem, entendo, nós, pássaros, somos meio temerosos dos humanos, hahahaha, até mesmo esses exibidos que citei agora, na verdade, são temerosos. A verdade é que vocês não são muito gentis conosco. Sabe como é!

― É verdade ― respondi com os olhos incrédulos do feio que foi beijado pela rainha do baile; o que ele percebeu.

― Está tudo bem com você, rapaz? Parece meio esquisito.

― Estou bem, estou bem, é que você me pegou desprevenido.

― Sei, sei, peguei você com as calças arreadas, como vocês dizem, hahahahaha! Mas, se quiser, posso ir embora e deixar você aí com suas flores.

― Não, pode ficar. Fique, por favor!

― Certo, certo! Eu perguntei por que não gosto de incomodar ninguém, não sou esses pombos estúpidos que ficam por aí fazendo suas necessidades em qualquer lugar, sujando tudo e ainda sendo alimentados pelos humanos com migalhas de pão; isso é muito triste. E por falar em alimentar, você não teria aí um pãozinho para mim?

― Mas você acabou de reclamar dos pombos...

― Você se apega a cada detalhe, rapaz! Tem ou não um pãozinho para mim?

― Tenho sim, vou pegar para o senhor.

― Senhor, não! Eu pareço velho para você? Minhas penas estão desbotando? Meu bico está flácido? Minhas pernas estão tremendo? Faça-me o favor! ― falou alto com as mãos na cintura, digo, com as asas a cintura; se aquilo era uma cintura.

― Não! Falei apenas por respeito.

― Certo, mas me trate por você.

― Ok, como quiser. Vou pegar seu pão.

― Está bem! Eu aguardo.

Mas que diabos eu comi no almoço? eu me perguntava, enquanto caminhava em direção à cozinha e minhas pernas dançavam o samba do crioulo doido. Não é possível, nada me tira da cabeça que alguma coisa alucinógena está me afetando; quem sabe aquele arroz meio esquisito, de cor estranha. Tenho que me lembrar de nunca mais comprar aquela marca. Ou será que bati com a cabeça e não me lembro? Era tudo o que eu não precisava, enlouquecer antes de ser feliz. Que tipo de maluco acredita que conversa com pássaros? Qual será meu próximo passo, conversar com as lagartixas sobre o porquê de elas sempre concordarem com tudo? Minha cabeça rodava incrédula do absurdo da situação.

Apesar do assombro de Dr. Dolittle, consegui fingir ter uma mente saudável, pegar o pão e voltar ao pardal.

― Pronto! Aqui está, pode comer.

― O que é isso, ficou maluco? ― gritou abrindo as asas como se estivesse se preparando para me esbofetear a cara. Sua voz aguda tornava-se quase insuportável quando esbravejava; escavava meu tímpano feito uma agulha.

― O que foi, você não pediu pão?!

― Sim, mas como você quer que eu coma um pão desse tamanho? Eu sou um pássaro, não um crocodilo. Preciso que você o esmigalhe para mim.

― Tudo bem, tudo bem, desculpe-me, vou fazer isso já (Não acredito que estou mesmo falando com um pássaro, sussurrei para o outro Eu são que ainda devia estar dentro de mim).

― Assim está melhor ― disse o pequenino com um sorriso matreiro (Um sorriso matreiro? De um pássaro? Quanta loucura!).

Depois que esmigalhei o pão, não pude me furtar de observar a rapidez e a precisão com que aquela coisinha pequena bicava os farelos no chão; possuía a destreza e a agilidade de um... de um..., bem, de um pássaro, claro! E naquele mesmo momento surreal, eu me peguei imaginado como seria bom voar, conhecer o mundo, está acima de tudo e de todos, pousar sobre um fio de dezenas de mil volts e, não só não morrer eletrocutado como poder ficar lá observando a barafunda da rua, os sorrisos e gritos dos daqui de baixo, a beleza da vida que se movimenta sem cessar e a feiúra dos esgotos humanos que se escondem nos becos mais sombrios e furtivos ― eu sei, isso não era hora de pensar em feiúras; mas fazer o quê, não pude evitar. Enfim, seria bom voar como um pássaro que namora o vento e não se engarrafa com as máquinas velozes aqui de baixo. Como seria... mas não era, por que durante aqueles poucos segundos em que sonhava fui despertado pelo pequenino que me trouxe de volta à realidade com uma leve bicada no meu pé descalço.

― O que você está pensando aí, rapaz?

― Eu estava só imaginando como deve ser bom voar.

― Ah, é sim, é maravilhoso poder ser livre, dar uns rasantes, empoleirar-se numas árvores, nuns fios elétricos sem se eletrocutar; é maravilhoso, o que estraga é a sua raça, vocês, humanos invejosos de nossa liberdade.

― Nós?! Mas por quê?

― Ora, vocês parecem odiar nossa liberdade, sempre querem nos aprisionar como se fôssemos bibelôs sem sentimentos; é só um de nós darmos sopa que lá vem um alçapão desgraçado nos abocanhando, e pouco depois nosso mundo se transforma numa gaiola. Nós sofremos com isso, sabia? Eu quero ser livre, eu quero fazer aquilo que nasci para fazer, eu quero voar sem ter que me preocupar se algum humano egoísta não vai me privar disso para o seu bel prazer.

― É... Eu imagino. É muito cruel o que fazem com vocês. Você tem razão. Inclusive, certa vez, um dos nossos pensadores, um sábio homem chamado Spinoza disse que “ser livre é fazer o que segue necessariamente da natureza do agente”, ou seja, é aquilo que você acaba de me dizer, ser livre é fazer aquilo que a sua natureza destinou-lhe fazer. Ninguém tem o direito de tirar isso do outro... ― nesse momento parei de falar e, em silêncio, percebi-me ridículo: não acredito que estou citando Spinoza a um pássaro, que estupidez!

― Pois é! ― ele continuou, sem dar bola para minha cara de idiota. ― Eu queria ver se esses bandidos iriam gostar de ficar anos e anos presos numa gaiola, sem direito a sair, brincar com os amigos, viajar, ser livre. Afinal por que acham que têm o direito de nos aprisionar? Por que eles acham que têm mais direito do que eu de ser livre?

(Nesse momento, suas penas se agitavam como os braços de um italiano nervoso).

― É verdade ― corroborei.

― Isso é coisa de gente estúpida: não aceitariam ser presos, mas prendem os pássaros. Se não gostam de ficar engaiolados, não sei por que engaiolam a gente.

― Você tem razão.

― Eu sei que tenho! Agora me dá licença ― disse e se dirigiu em minha direção, sem a menor cerimônia ou preocupação. Tenho certeza que, se não fosse tão pequeno, passaria por cima de mim como o verdadeiro senhor do meu quintal.

― O que foi? ― perguntei.

― Eu quero beber um pouco dessa água aí do lado do seu pé; essa poça aí ― e me apontou com a asa direita uma pequena poça d’água que, levemente, ondulava ao sabor do vento, junto ao pé do meu roseiral.

― Ah, claro! Tudo bem!

― Estou meio entalado com esse pão ― explicou-me ― e preciso beber um pouco de água, antes que eu comece a perder a voz.

― Fique à vontade!

― Ahhhh, água boa, tá tá tá tá. Eu precisava disso.

Por alguns instantes, ele se esqueceu de mim e se ocupou apenas de sua água. Seus movimentos pareciam com o daquelas armações gigantescas de petróleo usadas para perfurar o solo em busca do ouro negro, baixando e levantando a cabeça continuamente, para sorver o líquido do chão. E como o silêncio já me incomodava, resolvi, mesmo desajeitadamente, reiniciar uma conversa com ele:

― Você voa sempre por aqui? ― perguntei com um sorriso de canto de boca, como um adolescente que não sabe o que dizer a menina linda a quem acaba de ser apresentado no aniversário de alguém.

― Sim, vôo ― respondeu-me borbulhando as palavras, enquanto mergulhava o bico na poça d’água. ― E você, cultiva flores?

― Só essas aqui. Gosto de tê-las no meu quintal; embelezam o ambiente.

― Embelezam o ambiente... Parece coisa de bichinha, hahahahaha ― soltou-me essa com um sorriso largo que jamais imaginei ver sair de uma boca, digo, de um bico, algum dia.

― Não sabia que você tinha senso de humor ― respondi (Palhaço! pensei).

― E por que não teria, acha que todo pássaro é estúpido? É claro que eu tenho senso de humor, o que você acha que nós pássaros fazemos quando não estamos voando? Nós conversamos uns com os outros, brincamos, contamos piadas, dançamos valsas ― e mexeu as pernas curtas feito um bêbado que teimava em não cair.

― E isso é uma valsa? ― perguntei tentando controlar o riso que explodia, por medo de sofrer umas bicadas insuportáveis nos meus pés.

― O que foi? É que eu estou meio enferrujado ― respondeu-me contrariado. ― Mas você tá pensando o quê? Todos nós dançamos. Somos exímios dançarinos. Você nunca percebeu a semelhança entre os passos de uma valsa e os movimentos dos pássaros num vôo? São iguais, rapaz, a valsa foi inspirada em nós, nós somos os verdadeiros idealizadores da valsa. Mas hoje eu estou meio mal, andei doente, esses últimos dias, e não posso dançar direito, mas logo logo volto a ter vento nas pernas.

― Sei, sei.

― O que foi, está duvidando de mim? Não debocha de mim não que eu te dou uma bicada nas fuças, rapaz. Tá pensando que tamanho é documento?!

― Desculpe ― respondi após dar um passo para trás ―, eu não queria debochar de você, é que eu não sabia que pássaros dançavam, muito menos que a valsa foi inspirada em vocês.

― Você não sabe de muitas coisas, hein?! ― disse balançando a cabeça com ar de desdém. E olhando para o lado sussurrou: ― Humanos, sempre achando que são os únicos no mundo que sabem se divertir.

― Eu não penso assim, eu acredito que todos merecem viver.

― Você deve mesmo achar que os pássaros são estúpidos... ― continuou sem dar a menor bola para a minha defesa, e seguiu falando sozinho como orador maluco. Parecia um palestrante italiano revoltado, gesticulando com as asas, apontando para o céu, para o chão, abrindo e fechando o bico feito uma matraca desgovernada. Eu quase não entendia o que dizia para si mesmo. Mas, já no final de seu monólogo, ouvi-o voltar ao assunto que havíamos abordado há alguns minutos atrás: ― Tenho certeza de que você deve ter alguma gaiola escondida por aí, com algum colega meu lhe servindo de decoração para a casa.

― Claro que não! Eu já deixei claro que não concordo com o aprisionamento de pássaros.

― Sei, sei.

― Falo a verdade!

― Tudo bem, rapaz, vamos esquecer isso. Eu acredito em você.

― Então por que disse aquilo?

― Só para desopilar. Precisava botar para fora a raiva que às vezes sinto dos humanos. Sabe o que mais me impressiona em vocês? É a capacidade que têm de serem escravos; talvez por isso queiram aprisionar a tudo e a vocês mesmos. Estão sempre criando máquinas que se obrigam a saber utilizá-las, mesmo que não tenham uma real necessidade delas, criam seus carros, criam suas geringonças, criam seus mitos e crenças e acabam tornando-se escravos de tudo o que criaram. Por que se enjaulam tanto? Por que não sabem ser livres com nós? Não precisam de asas para serem livres, precisam de desprendimento, precisam sentir o vento que todos os dias toca os seus rostos e aprenderem com ele que quando lhe obstruem o caminho, ele logo encontra outra saída, mas nunca se deixa prender, nunca se deixa governar pelos desejos de outros, pela imposições das formas ou modismos. Eu acredito, rapaz, que o destino de todo ser vivo é a liberdade, mesmo o de vocês que são tão incompetentes para ela.

― Isso foi bonito!

― Obrigado!

― Bonito mesmo! Você falou igual a um grande poeta que tivemos no meu país; ele se chamava Vinícius de Moraes, e certa vez disse que “o destino dos homens é a liberdade”.

― E ele tinha razão, é o destino de vocês, e é o nosso também, mas vocês atalham a sua liberdade e aniquilam a nossa e de vários outros seres que não respeitam; são egoístas, são egocêntricos. Já não é o bastante escravizarem-se em nome de seus bens, de suas posições sociais, de sorrisos e falsas ideologias, ainda querem usar-nos como presentes e objetos para decoração de suas vidas vazias?! Vocês têm muito que aprender conosco, os verdadeiros membros da liberdade, nós que ...

E continuou falando, falando e gesticulando aos quatro ventos como se palestrasse para um auditório ávido por sua sabedoria. Eu não sei onde e como um pássaro adquiriu tanta filosofia. Mas sei que, enquanto ele falava, veio-me à lembrança uma citação de Rousseau que há muito tempo não ruminava, desde os tempos de faculdade, quando um professor obrigava-nos a decorar algumas máximas de pensadores para recitarmos e comentarmos na sua aula, como prova de nossa capacidade de interpretação e apreço pelas ciências humanas, que ele, nosso professor, julgava indispensável para a formação do ser humano (hoje concordo com ele); enfim, as palavras de Rousseau eram as seguintes: “O cidadão, ao contrário [do homem selvagem], sempre ativo, cansa-se, agita-se, atormenta-se sem cessar para encontrar ocupações ainda mais trabalhosas; trabalha até a morte, corre no seu encalço para colocar-se em situação de viver ou renunciar à vida para adquirir a imortalidade; corteja os grandes, que odeia, e os ricos, que despreza; nada poupa para obter a honra de servi-los; jacta-se orgulhosamente de sua própria baixeza e da proteção deles, e, orgulhoso de sua escravidão, refere-se com desprezo àqueles que não gozam a honra de partilhá-la”. Será que o pardal já havia lido o mestre francês e o seu “Discurso sobre a desigualdade”? Claro que não! Quer dizer... Quem sabe?! Loucura? Eu sei.

Contudo, o importante é que senti vergonha, diante daquela criatura tão pequenina, por nosso orgulho, por nossas prisões, por nosso desprezo a tudo aquilo que não concordava com nossa forma arbitrária e megalomaníaca de gerir o mundo. Nós, servos de nossa própria criação, bajuladores, servis de homens que, muitas vezes são tão pequenos que temos que fazer um grande esforço para não os sublimarmos e acabarmos por perder alguma hipócrita ascensão; e tudo isso para fugirmos de nossa liberdade. É, empolguei-me um pouco. Mas, na verdade, e naquele instante, eu já sonhava com revoluções, lado a lado com o pardal, numa luta pelos direitos de liberdade. Porém, em meio a essa auto-pregação mental que me dominava, onde já me tornara professor e aluno, esqueci que havia outro palestrante diante dos meus pés. Mas acordei de mim mesmo ainda a tempo de ouvi-lo dizer:

―E por isso estamos aqui, escondendo-nos de vocês, brutamontes sem coração, invejosos de nossas asas...

― Acredito que você já disse isso ― não pude resistir, tive que interrompê-lo.

―E daí?! ― rasgou-me outra vez os tímpanos com sua voz argentina. ― Vale sempre à pena repetir uma boa frase.

― Todos os pardais são assim, animados como você?

― Não, mas nenhum é lerdo assim como você, hahahahaha!

Era incrível a capacidade que ele possuía de mudar de humor; chegava à beira do absurdo, da falta de bom senso.

― Você é mesmo muito engraçado ― eu ainda disse com sarcasmo; porém inútil.

― E sou mesmo! ― respondeu prontamente com a animação de um hiperativo. Não lhe restava mais o menor resquício da irritação de há pouco. E continuou, sem perder a piada: ― Já você é um mama-na-égua com cara de bundão, hahahahaha!

― O que é isso? Também não precisa xingar!

― Relaxa, relaxa e goza, eu estou só mexendo com você, rapaz, sossega, hahahaha!

― Desculpe, é que eu ando meio estressado ultimamente; tenho muita coisa na cabeça.

― É galhada?! Hahahahaha! Entendeu? Galhada, chifre, hahahahaha. Eu não podia perder essa, hahahahaha... Deixa pra lá, você não tem senso de humor mesmo.

― Eu entendi a sua brincadeira “espirituosa”. Mas não é chifre; não tem nada a ver com mulher.  É trabalho.

― Sei, sei. Mas você tem que aprender a relaxar, deixar as coisas rolarem, sdivertir-se, pegar umas pardalzinhas, quer dizer, umas gatinhas; aliás, que negócio é esse de gatinhas que vocês falam: é porque acham suas mulheres parecidas com gatos ou são chegados a um pêlo mesmo?

― É apenas uma forma carinhosa de nos referirmos às mulheres. Isso quer dizer que elas são bonitas, manhosas, macias, delicadas...

― Sei, sei, frescura pura!

― Você não é muito romântico, não é?!

― Por que diz isso?

― Está sempre debochando de coisas sensíveis. Primeiro foi das minhas flores, agora do nosso tratamento para com as mulheres.

― Espera aí, meu camarada, ser romântico é uma coisa, frescurite é outra! Eu sou romântico, muito romântico, para a sua informação ― e fez uma ridícula cara de amante latino; se é que posso me referir assim à expressão facial de um pássaro. Que expressão facial? você me pergunta. Mas eu garanto que vi uma expressão facial naquele rosto, digo, naquela cara.

― Você deve ser mesmo muito romântico ― falei com a credulidade de um niilista.

― Sou! ― disse com ira e deu dois passos para frente como se fosse dar início a algum desfile de moda. E continuou: ― Por exemplo: quando chamo uma pardalzinha para sair, eu a levo numa poça d’água brilhante, dessas que refletem a lua, aí batemos um papo, eu cubro suas asas com as minhas, assobio no seu ouvido, digo que ela tem penas lindas e macias, e algumas vezes até canto um pouco para ela. Aí a belezinha fica toda manhosa, toda mole, e pronto, tá no bico! Eu sou mais eu, rapaz ― encerrou abrindo as asas, como um verdadeiro canastrão (Eu sei, canastrão não tem asas para abrir, mas vocês me entenderam).

― É, parece bonito – respondi-lhe com a boca torta; tendo como único propósito irritá-lo.

― Parece bonito? O que é que foi, está de brincadeira comigo? Isso é lindo, rapaz, é o máximo do romantismo entre as aves. Você nunca levou uma menina para uma poça d’água?

― Poça d’água?

― Uma praia à noite, uma lagoa, lago, seja lá o que for que tenha água. A água é romântica, rapaz, deixa as fêmeas doidinhas; aquela água refletindo a lua, balançando mansamente, rumorejando, ahhh, é um barato! Você deveria experimentar.

― Tá bom, vou pensar nisso.

― Pense. Fique aí pensando que agora eu tenho que ir embora.

― Mas já?

― Desculpe-me, mas preciso ir. Tenho um encontro. Uma pardalzinha linda está me esperando no fio de telefone da esquina da Rua Gonçalves Medeiros com a Padre Xavier. Depois eu volto para a gente continuar o papo.

― Tá certo! Obrigado por descer aqui e falar comigo.

― Por nada! Foi um prazer, mané, hahahahaha!. Brincadeirinha! Estou tirando um sarro. Vou nessa, senão a presa vai embora. Elas não gostam de esperar, sabe como é que é: passam horas ajeitando as penas, esmaltando o bico, e sempre chegando atrasadas aos encontros, mas na hora de esperar a gente, não têm paciência.

― É, sei como é.

― Pois é! Bem, vou indo. Até mais!

― Até mais, foi um prazer!

― Tchau, rapaz!

― Tchau!

E ele se foi. Bateu as asas e alçou vôo como se fosse a coisa mais fácil do mundo, deslizando pelo céu azul. Ainda o consegui acompanhar por algum tempo, mas depois foi se tornando cada vez menor, mais distante, até sumir entre os prédios que, por aqui, brotam do chão como erva daninha no mato. E eu fiquei ali, parado, pensando que nem no mais psicodélico dos meus sonhos sonhei um pássaro de voz argentina que me pregava liberdade; não, nem no meu mais louco devaneio surreal da adolescência me vi personagem de um conto de fadas. E agora nem sei mais o que pensar de mim. Melhor não pensar nada. Mas quanto a ele, como não pensar? Aquela pequena matraca ambulante contagia a gente, e sua liberdade me deixou saudoso das asas que nunca tive.



*Texto publicado pela primeira vez em 2009, no site Cronópios.


William Lial é escritor (poeta, cronista, contista, romancista de um romance ainda não publicado), ensaísta literário, e mestre em Literatura Comparada. Autor de três livros de poemas, Sombras (2001), Noturno (2003) e O mundo de vidro (2005). Além de colaborar com jornais e revistas do país. Para saber mais sobre o autor e seus livros basta acessar e/ou seguir seu blog: http://williamlial.blogspot.com/, curtir sua página no Facebook: https://www.facebook.com/WilliamLialEscritor ou contatá-lo por e-mail: wlial1208@gmail.com.


Ilustração do texto: Tomasz Alen Kopera, 11H. Pintor surreal polonês, residente na Holanda. Sua inspiração é a natureza humana e os mistérios do universo. Procurando induzir-nos a refletir sobre nós mesmos, o artista usa temas da natureza mesclados ao homem e a divindades.