CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

22 de setembro de 2017

Extraindo o Ouro e as Riquezas do Brasil

Por Wagner Medeiros Junior
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Retirar todos os recursos possíveis das colônias para enriquecer a Metrópole era um fundamento do mundo colonialista. O diplomata Martinho de Melo e Castro, secretário de Estado da Marinha e Ultramar do reino português, sintetizou com precisão esse fato, em 1772, ao dizer: Todo o mundo sabe que as colônias ultramarinas, sendo sempre estabelecidas com preciso objeto da utilidade da Metrópole, ou da cidade capital do reino, ou estado a que são pertencentes, resultaram dessa essencial certeza máximas tão infalíveis, e tão universalmente observadas na prática de todas as nações.
Nesse contexto, a exploração do ouro achado no Brasil tornou-se de substancial importância para a economia de Portugal, em especial nos reinados de D. João V (1706-1750) e de D. José I (1750-1777). Tal importância, todavia, não se restringiu apenas à dependência da Coroa das receitas derivadas dos tributos incidentes sobre a produção aurífera. Em determinados períodos, o ouro que entrava em Portugal por meio dos viajantes egressos do Brasil chegou a ultrapassar a todas as receitas tributárias do Reino.
O maior problema para o controle sobre a produção aurífera era o contrabando, que exigia uma constante mobilização das tropas para manter a vigilância territorial e a fiscalização sobre as regiões mineradoras. Mesmo com um forte aparato, a ascensão do diplomata Sebastião José de Carvalho e Melo - futuro Marquês de Pombal - ao ministério português, em 1750, fez com que Portugal apertasse ainda mais a cobrança de tributos, tendo em vista aumentar a lucratividade extraída do Brasil para consolidar sua política de modernização do reino.
Por conseguinte, o governo central estabeleceu que o Brasil deveria encaminhar anualmente a Portugal uma cota mínima anual de 100 arrobas de ouro, o que equivale a 1.500 quilos, como forma de compensar o contrabando e o descaminho estimado. Caso a Receita Real não alcançasse essa quantia seria lançada a “derrama”, ou seja, a cobrança dos impostos se daria pela força, com o confisco de bens, se necessário. A “derrama” atingiria a todos, inclusive comerciantes, fazendeiros, artífices, entres outros profissionais liberais, não ficando restrita apenas aos mineradores e contratadores.
Nessa época, a produção de ouro no Brasil começava a escassear em todas as regiões produtoras, o que afetava diretamente a arrecadação da Receita Real. Portugal, por sua vez, enfrentava grandes problemas econômicos decorrentes da autodependência da Inglaterra e da perda de algumas colônias na África e na Ásia. Para piorar ainda mais a situação do reino, no primeiro dia de novembro de 1755, dia de Todos os Santos, ocorreu um grande terremoto em Lisboa, seguido de um forte tsunami e de grandes incêndios que devastaram diversas regiões aonde as águas não alcançaram. Quase toda cidade ficou destruída!
A capitania de Minas de Gerais tornara-se então de importância substantiva para a Metrópole.  De lá a Receita Real arrecadou, no período entre o início de 1762 ao final de 1764, a seguinte soma de impostos, equivalente em ouro: 549 Kg em Dízimos, 1.403 KG em Entradas e 2.950 Kg em Quinto. Estima-se que Portugal recebeu do Brasil, durante todo o século XVIII e a primeira década dos oitocentos, cerca de 56,5 mil arrobas de ouro, a maioria saída de Minas Gerais. É natural, portanto, que toda capitania se sentisse sufocada ao ver subtraída tanta riqueza.
Entretanto, a Coroa portuguesa não arrefecia seu ímpeto arrecadador, nem em tempos de crise, quando a diminuição da produção do ouro já se fazia sentir na própria vida da capitania. Acumulou-se, então, dívidas em imposto que seriam impagáveis ao peso do ouro, principalmente porque a colônia dependia de importar quase tudo que consumia e era proibida de produzir. Por isto, para a Coroa portuguesa, por um largo período a “dívida” do Brasil continuaria crescendo.

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Preto no Branco | Por Wagner Medeiros Júnior

Por todo o mundo... - dupla-de-sushi 4 - Os Trabalhadores da* MAR - Fernando Costa




"0 diabo possui delegados por todo o

Pergunta nº 4 - Jogo da Pergunta - Os Trabalhadores da* MAR - Fernando Costa






Pergunta nº 4 Que grande perversidade o diabo em pessoa costumava realizar junto à população católica do arquipélago normando durante o século XVIII, segundo o autor de OS TRABALHADORES DA* MAR?

A – Apavorar as mocinhas virgens durante a noite

B – Poluir a água dos

O Dia Em Que Virei Artista à la Big Brother: Aquiles Andrade



 Aprendi ao longo da vida que ninguém pode mesmo dizer aquele refrão   “dessa água não beberei jamais”. Pois vejam vocês! Quem diria que mesmo depois de ter ultrapassado oitenta anos de vida, me transformaria num tipo de artista à la Big Brother. Não talvez pelos meus dotes físicos ou intelectuais, porque estes a gente vai deixando pelo caminho. E não também por alguma capacidade estratégica que eu tenha de enredar pessoas em situações que, no final das contas, me permitam alcançar sobre elas ganhos ou vantagens.

Enfim, o meu ingresso neste mundo “bigbroziano” se deu pela atenção preocupada dos filhos com a minha cabeça dura de querer garantir minha autonomia em face da minha viuvez, de querer morar sozinho no meu canto, fazendo minha comida etc. A novidade nisso tudo é que tal atenção preocupada, nesse mundo louco, veloz e mutante, está sendo cada vez mais suportada pelas tecnologias mais avançadas do mundo, algumas surpreendentes e a maioria inimaginável.

Pra quem, como eu, viu surgirem o rádio, a televisão, o telefone e outras novidades do tipo, não poderia imaginar que um dia, ao invés de assistir a televisão da minha casa, eu seria “assistido” na televisão de todos os filhos.

Ainda bem que com o passar do tempo nossos espaços de segredo vão mudando de forma. De espaços exteriores, onde nos escondíamos ou escondíamos as coisas que queríamos preservar, vão se tornando espaços interiores, indevassáveis às câmeras desse mundo, para onde entramos sem precisar de chave, nem de senha, nem de portas.

Foi por isso que não me importei quando os familiares me disseram que, para minha própria segurança e bem estar, seria importante colocarmos algumas câmeras estrategicamente situadas na minha casa, de forma que os filhos ficassem tranquilos de que eu não estava pondo fogo na casa, esquecendo o gás acesso, ou deixando portas abertas, dormindo no chão, enfim, estava tudo sob controle.

Foi assim que me tornei um artista à  la Big Brother! Verdade que não tenho a audiência do BBB e nem a apresentação charmosa do Pedro Bial. Mas nem por isso me sinto menos poderoso de poder oferecer distração para os preocupados filhos e netos, em especial o neto Julio, que me atende dia e noite.

E como dizem os filhos que “a cabecinha de Aquiles” voa, fiquei imaginando que, no fundo, no fundo, estamos mesmo sempre envolvidos em alguma espécie de “big brother”, com câmeras ou sem câmeras.  Recordo-me que quando criança, ao fazer minhas travessuras, sentia como se estivesse sendo observado pelo Deus todo poderoso que, com infinita paciência, sacudia a cabeça e me dizia: Sim senhor, hein Aquiles!

Agora, tenho a impressão que esse papel ficou mais prosaico e simplificado, tendo sido designado como tarefa dos próprios filhos, ajudados pela poderosa tecnologia. Mas deixa estar que quando eu partir para o andar de cima e me juntar a Isabel, eu também vou ficar olhando na imensa televisão que tem lá, que possui câmeras espalhadas por cada pedacinho desse mundão de Deus e sacudindo a cabeça direi:

Não Contavam Com Minha Astúcia!


 20/11/2015

21 de setembro de 2017

19 de setembro de 2017

Voltou-se a moça - dupla-de-sushi 1 - Os Trabalhadores da* MAR - Fernando Costa





"De súbito, perto de uma moita de azinheiras, que forma o ângulo de uma horta rústica, no lugar denominado Basses Maisons, voltou-se a moça, e esse movimento chamou a atenção do

Duplas de Sushi - Os Trabalhadores da* MAR - Fernando Costa



Boa noite amigas e amigos do Clube de Leitura Icaraí.

Ainda sobre os Trabalhadores da* MAR, queria partilhar com vocês uma guloseima literária e iconográfica que eu adoro criar e

Pergunta nº 1 - Jogo da Pergunta - Os Trabalhadores da* MAR - Fernando Costa



A quem Victor Hugo, dedicou os Trabalhadores da* MAR?

a -  A Napoleão Bonaparte

b - À sua filha Adèle Hugo, que ele tomou como modelo para criar a...

Jogo da Pergunta 2 - Sobre os Trabalhadores da MAR do genial Victor Hugo - Fernando Costa



Olá amigas e amigos do Clube de Leitura Icaraí.

- Já que o nosso gentil Concierge Evandro deu-me sinal verde (obrigado por mais esse voto de confiança Evandro!) para realizar o Jogo da Pergunta, pretendo publicar alguns exemplos de questões que já redigi, para vocês irem se divertindo antecipadamente.

Fernando Costa

18 de setembro de 2017

Jogo da Pergunta - Sobre os Trabalhadores da MAR do genial Victor Hugo - Fernando Costa


Muito boa noite amigas e amigos do Clube de Leitura Icaraí.

Aqui quem lhes fala é Fernando Costa, que sugeriu a leitura de os "Trabalhadores da* MAR".

- Muito obrigado por terem votado  nessa incrível obra prima de Victor Hugo, que eu tanto

17 de setembro de 2017

Estamos lendo - Os trabalhadores do mar: Victor Hugo

Quando há duas criaturas, a vida é possível. Havendo uma só, parece que nem se pode arrastá-la. Renuncia-se a ela.

Ananke

A desolação e a paixão estavam impressas na fronte religiosa de Ebenezer. Havia também uma resignação pungente, hostil à fé , embora derivasse dela. Naquele rosto, simplesmente angélico até então, havia um começo de expressão fatal. Aquele que até então só meditara sobre o dogma, entrava a meditar sobre a sorte, meditação nociva ao pastor. Nessa meditação decompõe-se a fé.

Nada perturba tanto o espírito como curvar-se ao peso do ignoto.



O homem é o paciente dos acontecimentos. A vida é um perpétuo sucesso, imposto ao homem. O homem não sabe de que lado virá a brusca descida do acaso. As catástrofes e as felicidades entram e saem como personagens inesperadas. Tem a sua fé, a sua órbita, a sua gravitação fora do homem. A virtude não traz a felicidade, o crime não traz a desgraça; a consciência tem uma lógica, a sorte tem outra; nenhuma coincidência. Nada pode ser previsto. Vivemos de atropelo. A consciência é a linha reta, a vida é o turbilhão.


O turbilhão atira à cabeça do homem caos negros e céus azuis. A sorte não tem a arte das transições. Às vezes a vida anda tão depressa que o homem mal distingue o intervalo de uma peripécia a outra e o laço de ontem e hoje. Ebenezer era um crente mesclado de raciocínio e um pastor mesclado de paixão. As religiões celibatárias sabem o que fazem. Nada desfaz tanto o pastor como amar uma mulher. Todas as espécies de nuvens ensombravam Ebenezer.





Vós, que sofreis, porque amais, amais ainda mais. Morrer de amor é viver dele.


La pieuvre

Flama soberba essa, era a vontade visível. O olho do homem é feito de modo que se lhe vê por ele a virtude. A nossa pupila diz que quantidade de homem há dentro de nós. Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciências piscam o olho, as grandes lançam raios. Se não há nada que brilhe debaixo da pálpebra, é que nada há que pense no cérebro, é que nada há que ame no coração. Quem ama quer, e aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os olhos de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão dos pensamentos tímidos.


7 de setembro de 2017

Salve a Pátria!




Sete de setembro.
Eu, de uniforme, marchando...
Da Pátria, orgulhava-me!

                                                                    Pátria, hoje é o seu Dia!
                                                                    Nos orgulharmos de quê?
                                                                    Das suas tantas mágoas?

Nos jornais manchetes:
propina, assaltos, conchavos...
Eu te choro, Pátria!
                                                                  
                                 Elenir

                                  

O Patriarca da Independência

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Por Wagner Medeiros Junior

José Bonifácio de Andrada e Silva nasceu na cidade de Santos – SP, em 1763. Em 1783 mudou-se para Coimbra, como era tradição das famílias ricas da época, onde ingressou nas cátedras de Direito, Filosofia Natural e Matemática, com exímio desempenho. Depois de titulado foi conduzido à Academia de Ciência de Lisboa, em 1789, quando publica “Memórias sobre a pesca da baleia”. Nesse trabalho expôs suas primeiras inquietações com a forma irracional de explorar a natureza, sem sustentabilidade.
A repercussão do talento de Bonifácio levou a Coroa portuguesa a contemplá-lo com uma bolsa para o estudo de mineralogia, o que lhe permitiu conhecer os principais centros da Europa, durante um período que duraria 10 anos. Quando retornou a Portugal, em 1800, já se tornara reconhecido em todos os círculos das ciências no Velho Continente, pelo largo conhecimento adquirido em mineração e metalurgia. Nessa ocasião já dominava seis idiomas e lia em outros cinco, além de manifestar grande interesse nas questões do Estado.
Por essa razão é nomeado para vários cargos de governo e atividades acadêmicas, até ser aposentado e retornar ao Brasil, em 1819, aos 56 anos. No Brasil, tornou-se figura central contra as pretensões das Cortes portuguesas de restabelecer a submissão brasileira à Portugal, em moldes similares aos que precederam a chegada da família real, em 1808. Ao lado da princesa D. Leopoldina, grande amiga e confidente, articulou a declaração da independência do Brasil, em 1822, pelo príncipe regente D. Pedro.
Com a independência do Brasil é elevado ao cargo de ministro do Império e dos Negócios Estrangeiros. Preocupado em manter a integridade territorial brasileira, para evitar a ruptura, conforme nas colônias espanholas, dedicou-se a rebelar os focos internos da resistência portuguesa, sobretudo na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão, como também em construir um “projeto de Nação”. Nesse projeto, após demitir-se do cargo de ministro e assumir a cadeira de deputado por São Paulo, ainda em 1823, apresenta à Assembleia Constituinte a proposta de extinguir o tráfico negreiro e de abolir a escravidão.
Em discurso à Assembleia Geral Constituinte José Bonifácio diz ser “preciso que não venham mais a nossos portos milhares e milhares de negros..., que cessem de uma vez por todas essas mortes e martírios sem conta, com que flagelávamos e flagelamos ainda esses desgraçados em nosso próprio território. É tempo pois, e mais que tempo, que acabemos com um tráfico tão bárbaro e carniceiro; é tempo também que vamos acabando gradualmente até os últimos vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar em poucas gerações uma nação homogênea, sem o que nunca seremos uma nação verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes”.
As ideias de José Bonifácio suscitaram a reação escravista, o que ensejou-lhe um período de seis anos de exílio na França (1823/1829). Afirmativas como a de que “um senhor de terra é de fato pobríssimo, se pela sua ignorância ou desmazelo não sabe tirar proveito da fertilidade de sua terra, e dos braços que nela emprega” irritavam os traficantes e senhores de escravo. Outro ponto de conflito foi a ideia de retomar as terras improdutivas dos latifundiários e devolvê-las ao Estado, para que fossem subdivididas e redistribuídas "entre escravos libertos, mulatos e europeus pobres, em prol de uma reforma nos costumes da sociedade, da família e inclusive do clero". 

Também aventava pelo crescimento planejado das cidades, pelo uso racional dos recursos naturais, inclusive das águas, e preservação das florestas. Visionário, pensava na criação de escolas, de pelo menos uma universidade em cada uma das províncias e na interiorização da Capital no centro do Brasil, nas cercanias de onde seria construída Brasília. Por fim, foi nomeado por D. Pedro I como tutor do príncipe herdeiros, sendo posteriormente afastado por decreto, em 1833, quando abandou a vida pública.

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Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior

2 de setembro de 2017

Primavera: Elenir / Outras primaveras: Everardo


Amanhece...
Pela minha janela, uma brisa suave                        
traz o cheiro gostoso da terra
lavada pela chuva da noite.
Acalma o  meu corpo...
Acaricia a minha alma...
Desperta- me para a vida.                                            
                                                                         As árvores despem-se
                                                                         de suas folhas e nuas
                                                                         recebem  o outono.    

Chega a primavera!
     Cores, aromas e flores.
       Só minha alma inverna.

(Elenir)


Por todos tão esperada
ei-la que surge sorrindo.
Trazendo cor e alegria
com muitas flores se abrindo
Nos ramos brincam os pássaros 
e as crianças no jardim.
O mundo fica mais belo
Que bom fora sempre assim!
Há mais doçura na brisa
e doce é o perfume do ar.
Os que brigam fazem pazes
pois é tempo de se amar.
Não! Não pensem que isto é sonho,
que se trata de quimera.
É tempo de nós saudarmos
a querida PRIMAVERA!
.
* * *

outras primaveras

Everardo
no ermo campo do céu
onde não ousa medrar
um espinho, espelho meu
na primavera no mar

na tristeza de Orfeu
que Eurídice foi buscar
no mais longo e escuro breu
– setembro não vai chegar

espelho, espelho meu
que nada pode espelhar
do ermo campo do céu
à primavera no mar

(12/09/2012, d.)

Abraços (nada pessimista) a todos,


31 de agosto de 2017

Goethe e a Solidão: Antonio Rodrigues




“Quando sentimos falta de nós mesmos, falta-nos tudo.”

Outro dia reli o clássico “Os sofrimentos do jovem Werther”, de J. W. Goethe, a procura da frase acima, que o meu esforço de memória não me havia feito recordá-la com precisão. A certa altura, finalmente, a encontrei na página 75 da 6ª edição da editora Estação Liberdade.

A pós-modernidade, de certa forma, nos roubou a experiência da solidão. E não só nos roubou como nos legou uma verdadeira ojeriza, um inaudito pânico da solidão. A solidão vista assim é um mal a ser evitado, preenchido com mil coisas, pois ela pode nos levar a experiência da depressão (?).

Mas o que seria a solidão? Em abordagem sobre o tema, a Revista Superinteressante traz a fala do psicólogo existencial Jadir Lessa, que recorre a Heidegger:

“O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) afirma em Ser e Tempo que estar só é a condição original de todo ser humano. Que cada um de nós é só no mundo. É como se o nascimento fosse uma espécie de lançamento da pessoa à sua própria sorte. Podemos nos conformar com isso ou não. Mas nos distinguimos uns dos outros pela maneira como lidamos com a solidão e com o sentimento de liberdade ou de abandono que dela decorre, dependendo do modo como interpretamos a origem de nossa existência. O homem se torna autêntico quando aceita a solidão como o preço da sua própria liberdade. E se torna inautêntico quando interpreta a solidão como abandono, como uma espécie de desconsideração de Deus ou da vida em relação a ele. Com isso abre mão de sua própria existência, tornando-se um estranho para si mesmo, colocando-se a serviço dos outros e diluindo-se no impessoal. Permanece na vida sendo um coadjuvante em sua própria história.”

Não quero aqui definir nada sobre essa questão complexa da solidão. Quero apenas provocar-lhes uma reflexão. Será que a pós-modernidade nos fez chegar ao ponto de sentirmos falta de nós mesmos? E sentir falta de nós mesmos seria a expressão máxima do vazio existencial? 

Antonio Rodrigues
Deixo aqui outro belo fragmento de "Os sofrimentos", na página 22 da edição citada, uma contribuição da literatura à reflexão sobre a urgente questão da solidão, uma questão do nosso tempo , mas também  uma questão intemporal do homem. Um possível encontro de "si consigo mesmo", e daí um encontro fecundo com o mundo:  

"Volto-me para dentro de mim mesmo e encontro um mundo! Mais de pressentimentos e desejos que de raciocínios e forças vitais. E então, tudo flutua ante meus olhos, sorrio e sonhando penetro ainda mais neste mundo."


29 de agosto de 2017

Aconteceu na Bienal de 2009 no Riocentro - Os Sertões: Euclides da Cunha


No solo desértico
as raízes se entrelaçam
e, juntas, resistem.

(Elenir)





Cara Elô,


Que belas magens você nos enviou saudando a primavera! Desejo-lhe, também, uma primavera com muitas flores, perfumes e cores. A seguir os trechos de "Os Sertões" que você me pediu. Falando da flora desértica, Euclides cita as "favelas" que têm nas suas folhas a defesa, pois, à noite, a despeito da secura do ar, resfriam-se abaixo da temperatura deste, formando precipitações de orvalho, e, por outro lado, a mão que a toca encontra uma chapa incandescente, ardente. Descreve, a seguir, aquelas cujo comportamento me encantou e que citei na Bienal: 

"...quando ao revés das anteriores, as espécies não se mostram tão bem armadas para a reação vitoriosa, observam-se dispositivos porventura mais interessantes: unem-se, intimamente abraçadas, transmudando-se em plantas sociais. Não podendo revidar isoladas, disciplinam-se, congregam-se, arregimentam-se. ...Estreitamente solidárias, as suas raízes, no subsolo, em apertada trama, retêm as àguas... E vivem. Vivem é o termo, porque há, no fato, um traço superior à passividade da evolução vegetativa..." 

A meu ver, essas plantas dão ao homem um belo exemplo de solidariedade. E, mais adiante, falando dos preparativos para um assalto ao arraial a 13 de julho, ele diz, suponho, com certa ironia:


"...porque havia pouco mais de cem anos um grupo de sonhadores falara nos direitos do homem e se debatera pela utopia maravilhosa da fraternidade humana..." 



Comparei ambos os trechos que me tocaram muito.

Abraços.

Elenir



Quais são os seus sertões?


Os Sertões

Euclides da Cunha 

Debate: 20/09/2009 - 18:00 h 

Bienal do Livro Riocentro

Luís Antônio Pimentel




Caros amigos,

Hoje (7/5/2015) saiu no Segundo Caderno dO Globo, página 7, uma breve história de Luís Antonio PIMENTEL no obituário. Está bastante clara e é imperdível para todos os brasileiros conhecerem melhor um dos maiores escritores brasileiros, além da pessoa maravilhosa que sempre soube ser, aproximando as pessoas, contribuindo para a literatura, a fotografia, o jornalismo, sempre sorridente, com uma memória prodigiosa. Sempre que eu queria saber algo relativo à história fluminense, ou à política brasileira, era PIMENTEL que eu procurava. 

Ainda estou muito triste. Ele será inesquecível. 

Minha proposta de EDUCAÇÃO LITERÁRIA como metáfora Social tem sido provocar novas reflexões sobre os paradigmas impostos nos estudos da literatura brasileira. O processo de educar através da literatura é a representação simbólica dos espaços sociais de cidadania, mas nem sempre procuramos ampliar os limites, estimular a leitura da verdadeira literatura brasileira nas escolas, nas universidades. Incluir a obra de PIMENTEL nas escolas e universidades será uma perfeita contribuição para estimular novas leituras sobre a verdadeira literatura brasileira.  Além de historiador, fotógrafo e jornalista, foi certamente um dos escritores brasileiros mais conhecidos no exterior. 

A agenda Poética da Associação Niteroiense de Escritores de 1994 foi dedicada a Luis Antonio PIMENTEL. 

O Poesia Sempre de dezembro de 2002, ano 10 número 17, foi dedicado à 'grande poesia e cultura do Japão' e a Luis Antonio PIMENTEL, que aborda não apenas a formação do 'haicai', mas, sobretudo, certos matizes do pensamento oriental, após longa residência no Japão. 

O artigo tem por título 'A Poesia e suas demandas'. 

'Quem ainda não viu, ora em ouro, ora em prata, ora em madrepérola, uma porção de garatujas exóticas mas decorativas, arabescando o negror invejável e luzidio de uma caixa de charão? Não há quem ainda não as tenha visto e mesmo admirado. Viram nas casa de charão, nos vasos enramados de cerejeiras e ameixeiras floridas, nas lanternas de Gifu ou Odawara, nos leques cromados, nas ventarolas delicadas de bambu e papel, ou nas finíssimas xícaras de chá que o Japão exporta para o mundo inteiro. É sobre esses arabescos  retorcidos, que são quase sempre maravilhosos poemas de rara delicadeza e emoção,  quer pelo seu tamanho reduzido, quer pela sua essência, que escrevemos hoje. Esses arabescos são poemas de 31 sílabas, que formam as famosas poesias 'waka' (pronuncia-se 'uaca') e haicai - mostra magnífica do espírito delicado dos nipões, que parecem ter nascido para a arte, para a literatura. 

Embora os japoneses tenham herdado muito da cultura chinesa, através do budismo que ali chegou, atravessando a península da Coreia, no ano 600 da nossa era, quando adotaram a escrita chinesa, os caracteres chineses que chamam de 'Kan-ji' (letra ou ideograma da dinastia Kan) a waka e o haicai são poesias genuinamente japonesas. São poesias sóbrias, delicada e complexas como o povo japonês. 

A poesia espelha bem a alma de um povo. Uma nação cujos súditos se dedicam ao 'Bon-Kei', confecção de paisagens em miniatura, ao Bon-Sai', árvores anãs de 10 centímetros de altura ou pouco mais, florescendo e frutificando, ou escrevem poemas em grão de arroz, não poderia ter como poesia nacional, como não tem, uma composição agigantada. De uma síntese absoluta, essas poesias, que vêm desde o ano 840 a.C., serviriam para, com ótima documentação, rotular os 'marinetti' que andam por aí falando em modernismo, como ridículos, ridiculíssimos e bolorentos passadistas. A 'waga', que é poesia típica, vem desde a Era dos Deuses, quando o Japão era todo um céu. Foi, sem dúvida alguma, Susano-wo-no-Mikoto, irmão da Deusa Sol, fundadora do Império do Sol Nascente, quem compôs a primeira 'waka', que não se perdeu em sua trajetória através dos séculos. 

(....)

Há mais de 1.100 anos foi publicada a primeira obra clássica de 'waka', intitulada Manyo-shu. primorosa coletânea de poesias feitas por poetas de todas as castas, desde imperadores até soldados e agricultores, que ainda em nossos dias é editada, lida e comentada pelo seu grande valor como documento histórico. Os poetas máximos dessa época foram Hitomaro, Akahito, Okura, Yakamochi e outros. 

Mais tarde, na era do imperador Daigo (ano 922 da nossa era) foi compilada uma outra coletânea, ou melhor, uma antologia não menos notável, intitulada 'Koshin-shu' (coletânea de antigas e novas 'wakas'), de onde selecionaram os 100 poemas célebres que estão ornamentando as cartas usadas para jogar durante os dias festivos do ano-novo no Japão. Essa nova obra veio enriquecer sobremaneira a poesia japonesa, lançando nomes com Tsurayuki, Narahira e a poetisa Komachi, que marcou época no Império das Cerejeiras em Flor, ficando famosa não somente pelo seu talento invejável, pela sua inspiração divina, mas, principalmente por sua incomparável beleza. Seu nome ainda hoje no Japão é empregado como sinônimo de mulher bela e talentosa. 

Daí por diante, várias séires de 'waka' surgiram, mas já sob o controle do governo, sem contudo, lograr o sucesso marcante, definitivo, absoluto das publicações anteriores. 

(...)

No século XIII, com o evoluir da 'waka', surgiu um novo tipo de poesia que se chamou 'renka' (poema em sequência). Tornou-se hábito dois poetas ou mais comporem, alternativamente, em 14 sílabas métricas um poema do tipo tams peomas 

Tenho sua obra completa e a cada releitura mais me interesso, com as revelações construídas em sua própria vida, viajando e desenvolvendo sempre o diálogo com as pessoas, com a cultura, com a sociedade, com a vida. Foi o introdutor do Haicai no Brasil, em sua versão original: jornalista, morou no Japão e foi radialista da Rádio Meus alunos também ficam emocionados quando descobrem a profundidade dos textos, de forma simples e profunda. E quando descobrem o verdadeiro 'haicai', querem sempre saber mais e escrever os seus. 

'O que o haicai?
É o cintilar das estrelas
na gota de orvalho.'


Para apresentar seu trabalho em congressos no exterior, fiz a versão em inglês: 

'What is a haicu?
It's the dazzling of stars
on a drop of dew.


Ele também foi a capa da Agenda Cultural de Niterói, em março de 2012. Guardo dentro da carteira um cartão com seu retrato, e meu marcador de páginas é com fotos de PIMENTEL, sob a faixa 'Escritores ao Ar Livro'.

Na parede sobre o piano, tenho um pequeno quadro pendurado, dizendo

'Cyana Leahy-Dios.
Musical e sem fermata,
Teu nome é um acorde'.


A saudade será eterna. Seu exemplo de vida deve ser modelo para todos nós. Ainda estou muito triste e jamais esquecerei tudo o que fizemos juntos, com a presença maravilhosa da ZULEICA! Amigo maravilhoso, insubstituível, inesquecível. Ainda bem que conseguiu receber todas as homenagens prestadas, merecidamente!

Abraço carinhoso,




Cyana Leahy
Professora Universidade Federal Fuminense
PhD em Educação Literária (London University)
Autora de 18 livros de poesia, prosa literária, pesquisa acadêmica publicados pelas editoras Autêntica, Casa da Palavra, CL Edições, EdUFF, Franco, Martins Fontes, Papirus, 7 Letras
Contos Tradicionais Irlandeses (Franco Editora) recebeu o prêmio 'Ireland Literary Exhange Award, Dublin, 2005 por divulgar a literatura irlandesa no exterior. Todos os Sentidos: contos eróticos de mulheres (em co-autoria, foi premiado como 'melhor livro de contos de 2004', pela União Brasileira de Escritores. 
Tradutora de obras literárias e acadêmicas, publicadas pelas editoras Casa da Palavra, Bertrand, Fraiha, Martins Fontes