CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

22 de junho de 2017

Silversun Pickups - Lazy Eye


I've been waiting;
I've been waiting for this moment all my life
but it's not quite right.

And this 'real',
It's impossible if possible;
At who's blind word,
So clear but, so unheard.

I've been waiting,
I've been waiting for this silence all night long;
It's just a matter of time.

To appear sad,
With the same 'ol decent lazy eye;
Fixed to rest on you,
Aim free and so untrue.

Everyone's so intimately rearranged
Everyone's so focused clearly with such shine

Everyone's so intimately rearranged
Everyone's so focused clearly with such shine

Lost and loaded
Still the same 'ol decent lazy eye
straight through your gaze
That's why i said i relate
I said we relate
It's so fun to relate

It's the room, the sun and the sky
It's the room, the sun and the sky

I've been waiting
I've been waiting for this moment...

 

19 de junho de 2017

A trovadora do CLIc, I, e o "espreitador de estrelas"...



No meio da madrugada
A Lua, e o céu tão bonito,
Lembraram-me, sou tua amada…
... sonhei o que estava escrito.





Espreitando o céu de estrelas,
silêncio morno na rua,
descobri o dom de vê-las
tecendo um véu para a lua.



No escuro do céu
Bailando a Lua passeia
Prima bailarina. 




No céu, bela lua cheia,
detrás de nuvens escuras,
mais longe o Sol se incendeia,
iluminando loucuras.


18 de junho de 2017

A mãe sob a lente de aumento - A Filha Perdida

​"Que bobagem é pensar que é possível falar de si mesmo aos filhos antes que eles tenham pelo menos cinquenta anos. Querer ser vista por eles como uma pessoa e não como uma função. Dizer: sou sua história, vocês começam comigo, escutem, pode ser útil."

A mãe sob a lente de aumento.

Vontades. Premências. Desejos. Fraquezas. Dores. Angústias.
Elena Ferrante traz a mãe e suas necessidades em um tom quase rascante em "A Filha Perdida". Sem medo de julgamento, Leda se descortina diante do leitor e traz à tona segredos da maternidade talvez partilhados por dezenas, centenas, milhares de mulheres em silêncio.
O totem da mãe perfeita surge colorido na relação Nina-Elena, para ser desconstruído paulatinamente aos olhos de Leda, que, ao mesmo tempo, também se desconstrói diante de Nina para que ela possa observar por si mesma - caso consiga - quão pujante é a maternidade imperfeita.
E, como pano de fundo, a traição feminina é colocada à prova, livre de moralismos, de achismos, de ismos quaisquer que a possam destituir da sua força e poder, legítimos ou não. Isso fica a cargo da leitura e do leitor.

Um livro que irrita, que provoca, que emociona, que traz à tona recordações antigas e desejos outrora vividos (ou não), “A Filha Perdida” é uma leitura ímpar e marcante. Inesquecível.

17 de junho de 2017

Revivendo leituras passadas - Grande Sertão: Veredas



"Tão bem, conforme. O senhor ouvia, eu lhe dizia: o ruim com o ruim, terminam por as espinheiras se quebrar – Deus espera essa gastança. Moço!: Deus é paciência. O contrário, é o diabo. Se gasteja. O senhor rela faca em faca – e afia – que se raspam. Até as pedras do fundo, uma dá na outra, vão-se arredondinhando lisas, que o riachinho rola. Por enquanto, que eu penso, tudo quanto há, neste mundo, é porque se merece e carece. Antesmente preciso. Deus não se comparece com refe, não arrocha o regulamento. Pra quê? Deixa: bobo com bobo – um dia, algum estala e aprende: esperta. Só que, às vezes, por mais auxiliar, Deus espalha, no meio, um pingado de pimenta...

Haja? Pois, por um exemplo: faz tempo, fui, de trem, lá em Sete-Lagoas, para partes de consultar um médico, de nome me indicado. Fui vestido bem, e em carro de primeira, por via das dúvidas, não me sombrearem por jagunço antigo. Vai e acontece, que, perto mesmo de mim, defronte, tomou assento, voltando deste brabo Norte, um moço Jazevedão, delegado profissional.Vinha com um capanga dele, um secreta, e eu bem sabia os dois, de que tanto um era ruim, como o outro ruim era. A verdade que diga, primeiro tive o estrito de me desbancar para um longe dali, mudar de meu lugar. Juízo me disse, melhor ficasse. Pois, ficando, olhei. E – lhe falo: nunca vi cara de homem fornecida de bruteza e maldade mais, do que nesse. Como que era urco, trouxo de atarracado, reluzia um cru nos olhos pequenos, e armava um queixo de pedra, sobrancelhonas; não demedia nem testa. Não ria, não se riu nem uma vez; mas, falando ou calado, a gente via sempre dele algum dente, presa pontuda de guará. Arre, e bufava, um poucadinho. Só rosneava curto, baixo, as meias-palavras encrespadas. Vinha reolhando, historiando a papelada – uma a uma as folhas com retratos e com os pretos dos dedos de jagunços, ladrões de cavalos e criminosos de morte. Aquela aplicação de trabalho, numa coisa dessas, gerava a ira na gente. O secreta, xereta, todo perto, sentado junto, atendendo, caprichando de ser cão. Me fez um receio, mas só no bobo do corpo, não no interno das coragens. Uma hora, uma daquelas laudas caiu – e eu me abaixei depressa, sei lá mesmo por que, não quis, não pensei – até hoje crio vergonha disso – apanhei o papel do chão, e entreguei a ele. Daí, digo: eu tive mais raiva, porque fiz aquilo; mas aí já estava feito. O homem nem me olhou, nem disse nenhum agradecimento. Até as solas dos sapatos dele –só vendo – que solas duras grossas, dobradas de enormes, parecendo ferro bronze. Porque eu sabia: esse Jazevedão, quando prendia alguém, a primeira quieta coisa que procedia era que vinha entrando, sem ter que dizer, fingia umas pressas, e ia pisava em cima dos pés descalços dos coitados. E que nessas ocasiões dava gargalhadas, dava... Pois, osga! Entreguei a ele a folha de papel, e fui saindo de lá, por ter mão em mim de não destruir a tiros aquele sujeito. Carnes que muito pesavam... E ele umbigava um princípio de barriga barriguda, que me criou desejos... Com minha brandura, alegre que eu matava. Mas, as barbaridades que esse delegado fez e aconteceu, o senhor nem tem calo em coração para poder me escutar. Conseguiu de muito homem e mulher chorar sangue, por este simples universozinho nosso aqui. Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal...

Tanto, digo: Jazevedão – um assim, devia de ter, precisava? Ah, precisa. Couro ruim é que chama ferrão de ponta. Haja que, depois – negócio particular dele – nesta vida ou na outra, cada Jazevedão, cumprido o que tinha, descamba em seu tempo de penar, também, até pagar o que deveu – compadre meu Quelemém está aí, para fiscalizar. O senhor sabe: o perigo que é viver... Mas só do modo, desses, por feio instrumento, foi que a jagunçada se findou. Senhor pensa que Antônio Dó ou Olivino Oliviano iam ficar bonzinhos por pura soletração de si, ou por rogo dos infelizes, ou por sempre ouvir sermão de padre? (...)”





Tudo fazia com um realce de simplicidade, tanto desmentindo pressa, que a gente só podia responder que sim.

Coração de gente — o escuro, escuros”.




No dia 26 de março de 2010, os participantes do Clube deLeitura se reuniram na reitoria da UFF para debater sobre o livro do mês. A obra escolhida foi Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. O encontro de março foi o primeiro a acontecer no terceiro andar do prédio, na Sala dos Conselhos. Lá, os leitores puderam falar sobre suas impressões, sensações e compartilhar pontos de vista acerca da obra.



Composição EdUFF para a reunião de março.


Viver é atravessar um terreno sem salvaguardas. Sem garantias. Sem proteção. Sobreviver as quedas é uma experiência ciclônica, um turbilhão atravessando o ser em alta velocidade. Os golpes e as quedas se repetem e se repetem... 
No entanto, apostando sempre no SER, penso que no meio, no entremeio da vida selvagem, pode-se também encontrar mansidão.
(Niza)


16 de junho de 2017

Eles estão de volta no CLIc - Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa

17/08/2017
19:00h

Varanda do Teatro da UFF

“Diadorim levantou o braço, bateu mão. Eu ia estugar, esporeei, queria um meio-galope, para logo alcançar os dois. Mas, aí, meu cavalo f’losofou: refugou baixo e refugou alto, se puxando para a beira da mão esquerda da estrada, por pouco não deu comigo no chão. E o que era que estava assombrando o animal, era uma folha seca esvoaçada, que sobre se viu quase nos olhos e nas orêlhas dele. Do vento. Do vento que  vinha, rodopiado. Redemoinho: o senhor sabe – a briga de ventos. O quando um esbarra com o outro, e se enrolam, o dôido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no alto, o ponto às voltas, folharada, e ramarêdo quebrado, no estalar de pios assovios, se torcendo turvo,
esgarabulhando. Senti meu cavalo como meu corpo. Aquilo passou, embora, o ró-ró. A gente dava graças a Deus. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam lá adiante, por me esperar chegar. – “Redemunho!” – o Caçanje falou, esconjurando. – “Vento que enviesa, que vinga da banda do mar…” – Diadorim disse. Mas o Caçanje não entendia que fosse: redemunho era d’Ele – do diabo. O demônio se vertia ali, dentro viajava. Estive dando risada. O demo! Digo ao senhor. Na hora, não ri? Pensei. O que pensei: o diabo, na rua, no meio do redemunho…Acho o mais terrível da minha vida, ditado nessas palavras, que o senhor não deve nunca de renovar. Mas, me escute. A gente vamos chegar lá. E até o Caçanje e o Diadorim se riram também. Aí, tocamos.” (p.262)





NONADA!

O alemão Berthold Zilly foi o tradutor da última versão de Grande Sertão para o alemão. Quando estava em processo de tradução, o "Jornal Cândido", da Biblioteca Pública do Paraná, publicou uma entrevista com ele, que já havia traduzido para o alemão "Lavoura Arcaica", Os sertões e "O triste fim de Policarpo Quaresma. Deixo aqui a pergunta sobre a questão da palavra "nonada": 

- A primeira palavra de Grande sertão: veredas é “nonada”, um termo que tem um significado enigmático na boca de Riobaldo. O senhor poderia explicar como verterá ao alemão esse tipo de palavra, que, ao longo das mais de seiscentas páginas do livro, se prolifera?


- “Nonada” realmente é uma palavra-chave, com seis ocorrências no total em Grande sertão: veredas, a primeira abrindo o romance e a última, de certa maneira, fechando-o, já que ocorre na penúltima linha da última página. Esta palavra constitui, além disso, o antônimo ao último sinal gráfico do livro, que é o símbolo do infinito. Assim, o movimento da trama e das ideias de certa maneira vai do quase nada ao infinito. Assim como muitas outras palavras e frases do livro, esta é por um lado coloquial e quase banal, tão banal quanto o sentido dela, ou seja: “coisa sem importância, um quase nada”, sendo por outro lado palavra estranha, rara, enigmática, principalmente no início, sendo esclarecida depois, parcialmente, pelo contexto. Esta tensão entre o corriqueiro, o popular, o cotidiano por um lado e o estranho, o enigmático, o hermético, por outro lado, é também uma característica do romance todo. Aliás, diferentemente de muitas outras palavras do livro, esta não é um neologismo rosiano, pois é uma palavra popular e meio antiquada, caída em desuso hoje, que se encontra em vários autores do século XIX e do início do século XX, inclusive em Os sertões, de Euclides da Cunha. Como vou traduzi-la? Ainda não sei, estou procurando uma expressão mais ou menos equivalente que também seja curta e concisa, popular, meio datada, e que tenha, no plano sonoro, pelo menos um elemento repetitivo, já que “nonada” tem até dois fonemas repetidos, o “n” e o “a”. Infelizmente, em alemão não temos uma palavra equivalente em termos semânticos, estilísticos e fonéticos, diferentemente do italiano, que tem “nonnulla”, ou o francês, que tem “que nenni”, e também não posso fazer o que fizeram os tradutores para o espanhol, que simplesmente mantêm “nonada”, que é neologismo em espanhol, mas que funciona nesse idioma, já que tem aí uma qualidade auto-explicativa. Em quatro das seis ocorrências, a palavra “nonada” constitui uma frase, o que não facilita a tarefa do tradutor. Estou cogitando diversas soluções, mas nenhuma me agrada muito. Antes de tomar uma decisão sobre a tradução desta palavra introdutória do livro todo, tenho que ver como os possíveis equivalentes funcionam nas outras cinco ocorrências de “nonada”. Pois quando a gente traduz uma palavra-chave com várias ocorrências, a gente deve tentar manter essa isotopia, ou seja, a igualdade do meio expressivo em todas as suas ocorrências, para que ele possa ser identificado pelo leitor do texto-alvo como elemento estruturador e orientador, função que tem no texto de partida e que o tradutor precisa respeitar. Em outras palavras: é desejável traduzir “nonada”, nas suas seis ocorrências, sempre de modo idêntico.





Viver - não é? - é negócio muito perigoso!




Num momento, despirar: Clara Nascimento





Cada momento, 
um beijo dos deuses. 
Cada suspiro, 
um desejo por tuas mãos. 
Cada lambida no meu ombro, 
uma lembrança do teu gosto na minha boca. 
Cada pôr do sol tocando o rio, 
um canto da natureza 
A me tontear com o grito Infinito de teu nome. 

28/11/2016





DESPIRAR 

Pra que pirar 
Se quando entras no meu sistema 
Posso inspirar, 
expirar,
Escolher mais plena respirar 
E contigo transpirar? 

24/11/2016






12 de junho de 2017

Eventos literários em Niterói-RJ, em março

Olá queridos!

Vou reproduzir o post do meu blog Mar de Variedade.

Esse mês teremos ótimos eventos literários em Niterói.

Eu vou falar por ordem cronológica.

O primeiro é a reunião do Clube de Leitura Icaraí-CLIc, clube do qual faço parte, onde será debatido o livro Germinal, de Émile Zola, no dia 16/03/17, de 19h às 21h, na varanda do cine arte UFF, com entrada franca. O evento é aberto ao público. 
Endereço: Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí, Niterói-RJ. 


O segundo é o Literatura na Varanda. Eu já participei de duas edições e gostei muito!

Literatura na Varanda - 4ª edição
Tema “Lima Barreto – literatura e denúncia”
Data: 18 de março (sábado)
Horário: das 16 às 19 horas (3 horas de duração)
Entrada franca (Colabore doando 1 livro)
Local: Parthenon Centro de Arte e Cultura
Endereço: Rua General Andrade Neves, 40 - Centro - Niterói
Telefone: (21) 2722-2256
Cronograma:

16h - 17h (1 hora): debate

intervalo de 15 min.

17:15h - 18:15h (1 hora): recital de poesias

intervalo de 15 min

18:30h – 19h (30 min): encerramento com a apresentação musical

Projeto Literatura na Varanda - bimestral




E por último, mas não menos importante, no dia 26/03/17, o Clube de Leitura Leia Mulheres-Niterói-RJ, do qual faço parte, irá debater o livro Persépolis, de Marjane Satrapi, de 18h às 20h, no Bizu bizu, no Reserva Cultural de Niterói. Entrada franca.
Endereço: Av. Visconde do Rio Branco, nº 880, São Domingos, Niterói-RJ. 




Participem! 

Dia dos namorados




11 de junho de 2017

Começa o inverno...



Para saudar o inverno (inicio em 21/06), envio-lhes meu Haicai:

No inverno gelado,
a palavra me acompanha
e se faz lareira.

Abraços.
Elenir


E, para quem ama os cachorros, igual ao homem do romance do mês



.




10 de junho de 2017

Trópico de Câncer: Henry Miller



CLIc na foto do escritor ao lado para ler a crítica feita por  W.B., que foi quem indicou a leitura de "Trópico de Câncer" para debate no Clube de Leitura Icaraí. 






"Não sei vocês, mas gosto muito de ler um livro que eu saiba que outras pessoas estão lendo ao mesmo tempo para ouvir diferentes interpretações. Essa troca é interessante!"

Leia a sinopse do livro segundo Andreia Borges visitando seu blog  e conheça também seu mar de variedade no Facebook.




Trópico de Câncer, romance do americano Henry Miller, foi o tema de debate no Clube de Leitura Icaraí no dia dos namorados. Polêmico, o livro só foi lançado no país de origem do autor 30 anos depois de ser editado. O evento aconteceu na sexta-feira, dia 12, às 19h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9, em Niterói), com entrada gratuita.



Considerado como uma grande influência para o movimento beatnik, o livro tem características autobiográficas e narra a boemia da cena parisiense do começo do século. Miller havia emigrado para a França na década de 1920 e suas experiências como estrangeiro servem de inspiração para o livro. Trópico de Câncer mostra uma cidade multifacetada, com seus lugares da boemia, da arte e da prostituição. No meio de grandes intelectuais e artistas, encontram-se também figuras decadentes e ambientes lúgubres e cruéis. Miller revela uma Paris menos romântica, da miséria e da prostituição, mas que ainda assim encanta e vicia os visitantes.



"Como tantos escritores que emigraram para a Paris dos anos 1920-30, o norte-americano Henry Miller experimentou na capital francesa tudo o que há de bom e de ruim na condição de exilado voluntário: o desenraizamento, a liberdade, o desespero, a vida anárquica e boêmia, a falta de dinheiro.

Narrado em primeira pessoa, Trópico de Câncer é o resultado literário dessa experiência, um confronto direto entre o vigoroso individualismo de Miller e o mundo caótico e ameaçador do entreguerras.

Sem obedecer a uma sequência linear, o romance se estende pelos bulevares da cidade, entra em suas pensões baratas, se embebeda nos cafés ordinários, convive com uma multidão de artistas e intelectuais igualmente desenraizados e sem dinheiro, dorme com prostitutas e mulheres solitárias. O ritmo é do relato rápido, ansioso, de quem quer chegar à medula das coisas.

Tendo sido acusado de pornográfico e obsceno quando foi lançado, o livro de Henry Miller pode, hoje, ser lido, sem as lentes do preconceito, como um dos mais intensos testemunhos literários de uma geração que mergulhou de cabeça na vertigem do século XX."




'Trópico de Câncer', publicado no ano de 1934, em Paris, foi imediatamente proibido em todos os países de língua inglesa. Tachado como pornográfico, o livro, assim como seu sucessor Trópico de Capricórnio, só foi liberado nos Estados Unidos e na Inglaterra nos anos 60, aclamado como parte da revolução sexual. Polêmicas à parte, Trópico de Câncer foi celebrado pelos maiores intelectuais da época e se tornou um dos grandes clássicos da literatura americana.

Samuel Beckett o saudou como 'um evento monumental da história da escrita moderna'; George Orwell, mesmo não compartilhando dos valores morais de Miller, após a leitura de Trópico de Câncer reconheceu o autor como 'o único escritor de prosa com algum valor que apareceu entre as raças anglofônicas em algum tempo'. Outros nomes como T. S. Eliot, Ezra Pound e Lawrence Durrell também notaram rapidamente o talento de Miller.

O livro traz um relato autobiográfico e idiossincrático de Miller, que chega a Paris após abandonar nos EUA um casamento arruinado e uma carreira estagnada. Mesmo sem um centavo no bolso, Henry Miller é apresentado à boemia francesa e redescobre seu próprio talento em dias e noites de liberdade e alegria sem fim.



Nunca também em minha vida havia trabalhado sem pagamento. Senti-me livre e acorrentado ao mesmo tempo - como a gente se sente imediatamente antes da eleição, quando todos os crápulas já foram indicados como candidatos e nos apelam para que votemos no homem certo. Senti-me como um homem assalariado, como um pau para toda obra, como um caçador, como um pirata, como um escravo de galé, como um pedagogo, como um verme e um piolho. Era livre, porém meus membros estavam acorrentados. Uma alma democrática, com um vale para refeição grátis, mas sem poder de locomoção, sem voz. 





"Quando olho para dentro dessa boceta fodida de puta sinto o mundo inteiro embaixo de mim, um mundo vacilante e desmoronante, um mundo gasto e polido como um crânio de leproso. Se houvesse um homem que ousasse dizer tudo quanto pensa deste mundo, não lhe restaria um palmo quadrado de terra onde ficar. Quando um homem aparece, o mundo cai sobre ele e quebra-lhe a espinha. Restam sempre em pé pilares apodrecidos demais, humanidade supurada demais para que o homem possa florescer. A superestrutura é uma mentira e o alicerce é um medo enorme e trêmulo. Se com intervalos de séculos aparece um homem de olhar desesperado e faminto, um homem que vira o mundo de cabeça para baixo a fim de criar uma nova raça, o amor que ele traz ao mundo é transformado em fel e ele se torna um flagelo."




Fazia frio borrascoso e úmido contra o qual não havia proteção a não ser um espírito forte. Dizem que a América é um país de extremos, e é verdade, que o termômetro registra graus de frio praticamente desconhecidos aqui; mas o frio do inverno de Paris é um frio desconhecido na América, é um frio psicológico, um frio tanto interior como exterior. Se nunca há gelo aqui, também nunca há degelo. Assim como se protegem contra a invasão de sua vida privada, com seus altos muros, seus ferrolhos e venezianas, suas "concierges" resmungonas, xingadoras e desleixadas, as pessoas também aprenderam a proteger-se contra o frio e o calor de um clima estimulante e vigoroso. Fortificaram-se. Proteção é a palavra-chave. Proteção e segurança. Para poderem apodrecer confortavelmente. Em uma noite úmida de inverno não é necessário olhar um mapa para descobrir a latitude de Paris. É uma cidade do norte, posto avançado construído sobre um pântano cheio de crânios e ossos. Ao longo dos bulevares há uma fria imitação elétrica de calor. Tout Vá Bien em raios ultravioletas que fazem os fregueses dos cafés Dupont parecerem cadáveres gangrenados. Tout Vá Bien!

Esse é o lema que alimenta os desconsolados mendigos que andam para cima e para baixo a noite inteira sob o chuvisco dos raios ultravioletas. Onde há luz há um pouco de calor. A gente esquenta-se olhando os bastardos gordos e seguros que engolem seus grogues, seus cafés pretos fervendo. Onde há luz há gente nas calçadas, acotovelando-se, emitindo um pouco de calor animal através de sua roupa de baixo suja e de seu hálito fétido e praguejante.




Menciono Tânia agora porque ela acaba de voltar da Rússia - havia poucos dias. Sylvester ficou lá para ver se arranjava um emprego. Abandonou completamente a literatura. Dedicou-se à nova Utopia. Tânia quer que eu volte para lá com ela, para a Criméia preferivelmente, e comece vida nova. Tomamos bela bebedeira outro dia no quarto de Carl, discutindo as possibilidades. Eu queria saber o que poderia fazer para ganhar a vida lá - se poderia ser revisor, por exemplo. Ela disse que não precisava preocupar-me com o que iria fazer - eles me arranjariam um emprego desde que eu fosse sério e sincero. Tentei parecer sério, mas apenas consegui parecer patético. Eles não querem ver caras tristes, na Rússia; querem que você seja alegre, entusiástico, sereno, otimista. Para mim pareceu muito semelhante à América. Não nasci com essa espécie de entusiasmo.

The Music Lesson Matisse
henri matisse

Em todo poema de Matisse há a história de uma partícula de carne humana que rejeitou a consumação da morte. Toda a extensão de carne, dos cabelos às unhas, expressa o milagre da respiração, como se o olho interior, em sua sede de maior realidade, tivesse transformado os poros da carne em famintas bocas videntes. Por qualquer visão que se passe há o cheiro e o barulho de viagem. É impossível fitar mesmo um canto de seus sonhos sem sentir a elevação da onda e o frio dos borrifos no ar. Ele se mantém no leme perscrutando com firmes olhos azuis a pasta do tempo. Em que cantos distantes não lançou seu longo e enviesado olhar? Olhando do vasto promontório do seu nariz para baixo, contemplou tudo - as Cordilheiras caindo no Pacífico, a história da diáspora escrita em papel velino, venezianas estriando o frufru da praia, o piano curvando-se como uma concha, corolas emitindo diapasões de luz, camaleões serpeando embaixo da prensa de livros, serralhos extinguindo-se em oceanos de poeira, música saindo como fogo da cromosfera oculta da dor, espórios e madréporas frutificando a terra, umbigos vomitando sua brilhante semente de angústia... Ele é um sábio brilhante, um vidente dançarino que, com um golpe do pincel, remove o feio patíbulo a que o corpo do homem está acorrentado pelos fatos incontroversos da vida. É ele quem, se algum homem hoje possui esse dom, sabe onde dissolver a figura humana, tem a coragem de sacrificar a linha harmoniosa a fim de captar o ritmo e o murmúrio do sangue, toma a luz que se refratou em seu interior, e deixa-a inundar o teclado de cor. Por trás das minúcias, do caos, da irrisão da vida ele percebe o padrão invisível; anuncia suas descobertas no pigmento metafísico do espaço. Nenhuma procura de fórmulas, nenhuma crucifixão de idéias, nenhuma compulsão a não ser a de criar. Mesmo quando o mundo se desmorona existe um homem que permanece no centro, que se torna mais solidamente fixado e ancorado, mais centrífugo à medida que se acelera o processo de dissolução.


Henri Matisse, The Dance I, 1909, Museum of Modern Art, New York

É somente mais tarde, durante o dia, quando me encontro numa galeria de arte na Rue de Sèze, cercado pelos homens e mulheres de Matisse, que sou novamente arrastado de volta para os limites apropriados do mundo humano. No limiar daquele grande salão cujas paredes estão agora em chamas, paro por um momento para recuperarme do choque que se experimenta quando o habitual cinzento do mundo é rasgado e a cor da vida salta para a frente em canto e poema. Encontro-me em um mundo tão natural, tão completo, que fico perdido. Tenho a sensação de estar mergulhado no próprio plexo da vida, no ponto focal seja qual for o lugar, posição ou atitude em que me coloque. Perdido como quando me afundei no centro de um bosque em formação e, sentado na sala de jantar daquele enorme mundo de Balbec, compreendi pela primeira vez a profunda significação daquelas quietudes interiores que manifestam sua presença através do exorcismo da vista e do tato. Em pé no limiar do mundo que Matisse criou, voltei a experimentar a força da revelação que permitiu a Proust deformar tanto o quadro da vida, que somente aqueles que, como ele próprio, são sensíveis à alquimia do som e do sentido, são capazes de transformar a realidade negativa da vida nos contornos substanciais e significativos da arte. Só os que são capazes de admitir a luz em suas entranhas podem traduzir o que há no coração.

Alguém já fez isso antes?... Por que diabo está sorrindo? Parece ingenuidade?" Estou sorrindo porque sempre que ele toca na questão desse livro que vai escrever um dia, as coisas assumem aspecto incongruente. Basta dizer "meu livro" e imediatamente o mundo se reduz às dimensões privadas de Van Norden e Cia. O livro precisa ser absolutamente original, absolutamente perfeito. Por isso, entre outras coisas, torna-se-lhe impossível começar a escrevê-lo. Logo que tem uma ideia começa a pô-la em dúvida. Lembra-se de que Dostoiévski a utilizou, ou Hamsun ou algum outro. "Não estou dizendo que quero ser melhor do que eles, mas quero ser diferente", explica. E assim, ao invés de cuidar de seu livro, lê escritor após escritor a fim de ter absoluta certeza de que não vai invadir a propriedade privada deles. E quanto mais lê, mais desdenhoso se torna. Nenhum deles é satisfatório; nenhum chegou àquele grau de perfeição que ele impôs a si próprio. E esquecendo completamente que não escreveu sequer um capítulo, fala a respeito deles com condescendência, como se existisse uma estante de livros exibindo seu nome, livros com que todos estão familiarizados e cujos títulos é portanto supérfluo mencionar. Embora nunca tenha mentido abertamente sobre esse fato, é evidente que as pessoas com quem conversa a fim de arejar sua filosofia privada, suas críticas e suas queixas têm como certo que por trás de suas observações imprecisas ergue-se um sólido conjunto de obras. Especialmente as virgens jovens e tolas que atrai a seu quarto com o pretexto de ler-lhes seus poemas, ou o pretexto ainda melhor de pedir-lhes conselhos. Sem o menor sentimento de culpa ou constrangimento entrega-lhes um pedaço de papel sujo no qual rabiscou algumas linhas - a base de um novo poema, como diz - e com absoluta seriedade pede-lhes sincera opinião. Como em geral elas nada têm a apresentar a título de comentário, absolutamente desnorteadas pela completa falta de sentido das linhas, Van Norden aproveita a ocasião para expor-lhes sua opinião sobre a arte, opinião, é desnecessário dizer, criada espontaneamente para adaptar-se à circunstância.


Rodin - Antes da Criação

E quanto mais substancial, quanto mais sólido se tornava o meu núcleo, mais delicada e extravagante parecia a realidade próxima e palpável para fora da qual eu estava sendo espremido. Na mesma proporção em que me tornava cada vez mais metálico, a cena diante de meus olhos tornava-se inflada. 

O estado de tensão era tão finamente traçado agora, que a introdução de uma única partícula estranha, até mesmo uma partícula microscópica, como disse, teria destroçado tudo. Por uma fração de segundo experimentei talvez aquela completa clareza que, segundo afirmam, é dado ao epiléptico conhecer. Naquele momento, perdi completamente a ilusão de tempo e espaço: o mundo desdobrou seu drama simultaneamente ao longo de um meridiano que não tinha eixo. Nessa espécie de eternidade de fácil disparo senti que tudo era justificado, supremamente justificado; senti as guerras que haviam deixado dentro de mim esta polpa e esta ruína; senti os crimes que lá estavam fervendo para emergir amanhã em gritantes manchetes; senti a miséria que se estava moendo com pilão e almofariz, a longa e monótona miséria que escorre em lenços sujos. No meridiano do tempo não há injustiça: há apenas a poesia do movimento criando a ilusão de verdade e drama. Se a qualquer momento e em qualquer lugar encararmos frente a frente o absoluto, desaparece aquela grande simpatia que fez homens como Gautama e Jesus parecerem divinos; o monstruoso não é que homens tenham criado rosas com este monte de esterco, mas que, por uma ou outra razão, tenham desejado rosas. Por uma ou outra razão o homem procura o milagre e, para realizá-lo, chafurda no sangue. 

Corrompe-se com idéias, reduz-se a uma sombra, se por um único segundo de sua vida pode fechar os olhos à hediondez da realidade. Tudo se suporta, desgraça, humilhação, pobreza, guerra, crime, ennui - na crença de que, da noite para o dia, algo acontecerá, um milagre, que tornará a vida tolerável. E durante todo o tempo um medidor está correndo lá dentro e não há mão que possa alcançá-lo lá e fazê-lo parar. Durante todo o tempo alguém está comendo o pão da vida e bebendo o vinho, algum padre sujo e gordo como uma barata que se esconde na adega para emborcá-lo, enquanto lá em cima, na luz da rua, uma hóstia fantástica toca os lábios, e o sangue é pálido como a água. E do interminável tormento e miséria nenhum milagre surge, nenhum vestígio microscópico sequer de alívio. Só idéias, pálidas, e atenuadas idéias que precisam ser engordadas por carnificina; idéias que saem como bílis, como as entranhas de um porco quando se abre a carcaça. 

E assim penso que milagre não seria se este milagre que o homem espera eternamente, nada mais viesse a ser do que aqueles dois enormes troços que o fiel discípulo lançou no bidê. Se no último momento, quando a mesa do banquete estiver arrumada e os címbalos soarem, aparecer de repente e absolutamente sem aviso, uma salva de prata na qual até mesmo os cegos possam ver que há nada mais nada menos que dois enormes montes de bosta. Isso, creio eu, seria mais milagroso do que tudo quanto o homem tem esperado. Seria milagroso porque seria o não sonhado. Seria mais milagroso do que o sonho mais louco porque qualquer um podia imaginar a possibilidade, mas ninguém jamais a imaginou, e provavelmente ninguém jamais a imaginará. 

Por uma razão qualquer, a compreensão de que nada havia a esperar teve salutar efeito sobre mim. Durante semanas e meses, durante, na realidade, toda minha vida, eu vinha esperando que acontecesse algo, algum fato extrínseco que alterasse minha vida; e agora, de repente, inspirado pela absoluta desesperança de tudo, sentia-me aliviado, sentia como se tivessem arrancado um grande peso de meus ombros. Ao amanhecer, separei-me do jovem hindu, depois de lhe ter tomado alguns francos, o suficiente para um quarto. Caminhando em direção a Montparnasse, decidi deixar-me arrastar pela maré, não opor a menor resistência ao destino, fosse qual fosse a forma sob a qual se apresentasse. Nada do que me acontecera até então fora suficiente para destruir-me; nada fora destruído, exceto minhas ilusões. Eu mesmo estava intacto. 

O mundo estava intacto. Amanhã talvez houvesse uma revolução, uma epidemia, um terremoto; amanhã talvez não restasse uma única alma a quem se pudesse recorrer para obter simpatia, auxílio, fé. Pareceu-me que a grande calamidade já se manifestara, que eu não poderia ficar mais verdadeiramente sozinho do que naquele próprio momento. 

Decidi que não me apegaria a nada, que não esperaria nada, que a partir de então viveria como um animal, como uma fera carnívora, um nômade, um rapinante. Mesmo que declarassem a guerra e fosse meu destino partir, eu agarraria a baioneta e a enterraria, a enterraria até o punho. E se o estupro for a ordem do dia, então estuprarei, e com uma vingança. Nesse próprio momento, no quieto alvorecer de um novo dia, não estava a terra tonta com crime e miséria? 

Algum único elemento da natureza do homem teria sido alterado, vitalmente, fundamentalmente alterado, pela incessante marcha da história? Pelo que ele chama de melhor parte de sua natureza, o homem foi traído, só isso. Nos extremos limites de seu ser espiritual o homem se encontra de novo nu como um selvagem. Quando encontra Deus, por assim dizer, ele está bem arrumado: é um esqueleto. A gente precisa afundar-se de novo na vida a fim de ganhar carne. O verbo precisa fazer-se carne; a alma tem sede. Qualquer migalha em que meus olhos pousem, agarrarei e devorarei. Se viver é a coisa suprema, então viverei, mesmo que precise tornar-me canibal. Até agora eu vinha tentando salvar meu precioso couro, preservar os poucos pedaços de carne que escondem meus ossos. Estou cheio disso. Atingi os limites da resistência. Minhas costas estão contra a parede; não posso recuar mais. No que tange à história, estou morto. Se existe algo além terei de saltar para trás. Encontrei Deus, mas ele é insuficiente. Só espiritualmente é que estou morto. Fisicamente estou vivo. Moralmente estou livre. O mundo que abandonei é uma jaula. A aurora está nascendo sobre um mundo novo, um mundo de selva no qual os espíritos descarnados rondam com garras afiadas. Se sou uma hiena, sou uma hiena descarnada e faminta: avanço para engordar-me.  


Trópico de Câncer exprime a angústia duma consciência torturada pela visão alucinatória de catástrofes imensas. 
(Fluchère)






Exercem um efeito terapêutico maravilhoso sobre mim essas catástrofes cuja revisão faço. Imaginem um estado de perfeita imunidade, uma existência encantada, uma vida de absoluta segurança no meio de bacilos venenosos. Nada me toca, nem terremotos, nem explosões, nem distúrbios, nem fome, nem colisões, nem guerras, nem revoluções.

Estou vacinado contra toda doença, toda calamidade, toda tristeza e miséria. É a culminância de uma vida de fortaleza. Sentado em meu pequeno nicho, todos os venenos que o mundo solta diariamente passam por minhas mãos. Nem sequer a unha de um dedo fica manchada. Estou absolutamente imunizado. Estou melhor do que um assistente de laboratório, porque aqui não há maus cheiros, apenas o do chumbo queimando. O mundo pode estourar - estarei aqui do mesmo jeito para pôr uma vírgula ou um ponto e vírgula. Talvez até mesmo ganhe um pequeno extraordinário, pois com um acontecimento como esse haverá fatalmente uma edição extra final. Quando o mundo estourar e a edição final for para a rotativa, os revisores reunirão quietamente todas as vírgulas, pontos e vírgulas, hífens, asteriscos, colchetes, parênteses, pontos finais, pontos de exclamação etc. e os porão em uma pequena caixa sobre a mesa do redator-chefe. Comme ça tout est réglé... 


Fora as lamentações!

Fora elegias e réquiens!


Primeira edição proibida em UK & USA

"Sei, estou convencido no Senhor Jesus de que nenhuma coisa é impura em si mesma;
somente o é para quem a considera impura...
Feliz é aquele que não se condena a si mesmo no ato a que se decide...
Tudo o que não procede da convicção é pecado."

(Epístola de Paulo aos Romanos, XIV - 14; 22; 23)


Revivendo leituras passadas - Sidarta: Hermann Hesse

"Não creio ser um homem que saiba. Tenho sido sempre um homem que busca, mas já agora não busco mais nas estrelas e nos livros. Começo a ouvir os ensinamentos que meu sangue murmura em mim.”  (Herman Hesse)






Terá sido apenas uma coincidência estarmos lendo SIDARTA e ao mesmo tempo sermos "apresentados" a um Papa tão humano?

Estamos lendo SIDARTA, e, ao mesmo tempo nos deparamos com um ser amável, totalmente ligado e preocupado com as dores da humanidade, um Papa (finalmente) voltado para o social.

Esperemos que, independentemente da religião, essas sementes germinem...

Vera Lúcia Schubnell Freire

* * *

Na verdade estamos ligados às sintonias do Universo e concordo com a Vera que a escolha de Sidarta não foi casual com o momento que recebemos um importante líder religioso do Planeta.

(R)




"Quando foi alcançado o número de votos que me faria Papa, aproximou-se de mim o cardeal brasileiro Dom Cláudio Hummes, me beijou e disse: "Não te esqueças dos pobres". Em seguida, em relação aos pobres, pensei em São Francisco de Assis. Depois pensei nos pobres e nas guerras. Durante o escrutínio cujos resultados das votações se punham "perigosas" para mim, veio-me um nome no coração: Francisco de Assis. Francisco, o homem da pobreza, da Paz, que ama e cuida da criação, um homem que transmite um sentido de Paz, um homem pobre. Ah! Como gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres."


Papa Francisco - 16 de março - Aula Paulo VI (sala de audiências papais) - Roma




* * *

Tudo voltava, todos os sofrimentos que não tivessem encontrado uma solução final.

A roda do samsara

Govinda — pensou, sorrindo. — Tais pessoas ficam gratasapesar de poderem, elas mesmas, reivindicar gratidão. Todas elas são submissas, querem ser amigas, gostam de obedecernão gostam de pensar muito. Esses homens são verdadeiras crianças.


..aprendi com o rio:  tudo volta.  ...que tua amizade seja meu salário...

Olha, há mais uma coisa que a água já te mostrou:  que é bom descer, abaixar-se, procurar as profundezas

- senti que a percepção do Universo circulava em mim como meu sangue.



 "Fraternidade"

E se agora, neste instante,
nos olharmos com um sorriso
e apertarmos nossas mãos,
buscando a divina essência
que é comum a todos nós,
então, fraternos nós somos
e verdadeiros Irmãos.

(Elenir)

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Yes se inspirou em Sidarta de Hesse para escrever a letra de "Close to the edge"
 
     "L’intérêt passionné de Hermann Hesse pour l’Extrême Orient était une tradition de famille. Son grand-père puis ses parents avaient tous longtemps vécu en Inde au service de la Mission protestante de Bâle, y avaient appris les langues locales, s’étaient familiarisés avec les coutumes et la pensée du pays. L’un de ses cousins, Wilhelm Gundert (1880-1971), était un savant de premier plan, établi au Japon, spécialiste du bouddhisme zen.

     Dès son enfance, Hesse avait ainsi fait la connaissance de l’Asie par des conversations éclairées et par la lecture des meilleurs livres. Rien d’étonnant à ce que le futur auteur de Siddhartha et du mythique Voyage en Orient ait désiré connaître à son tour physiquement quelques-uns des pays qui nourrissaient déjà une si grande part de son imagination et de sa philosophie."

(http://www.jose-corti.fr/titresetrangers/carnets-indiens.html)

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Tu Hi Meri Shab Hai

Tu hi meri shab hai subha hai tu hi din hai mera

Tu hi mera rab hai jahaan hai tu hi meri duniya

Tu waqt mere liye main hoon tera lamha

Kaise rahega bhala hoke tu mujhse judaa


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Avant la naissance de Krishna, Vishnou révélant sa divinité à Vasudeva et Devaki. National Museum, New Delhi. Basé sur l'histoire du Bhagavata Purana, Bikaner, Rajasthan, vers 1725.






Disse Sidarta: " [...] tenho para mim que o amor é o que há de mais importante no mundo. Analisar o mundo, explicá-lo, menosprezá-lo, talvez caiba aos grandes pensadores. Mas a mim me interessa exclusivamente que eu seja capaz de amar o mundo, de não sentir desprezo por ele, de não odiar nem a ele nem a mim mesmo, de contemplar a ele, a mim, a todas as criaturas com amor, admiração e reverência."




Om é o arco; alma é a seta
Brama é o alvo da seta:
Cumpre feri-lo constantemente

O CLIc chega ao Nirvana
Que todos possam alcançar a Paz do Universo, deixo vocês mergulhados no Om. (R)



Uma porta após outra abre-se diante de ti. Como se explica isso? Dispões, por acaso, de algum feitiço?

Olha, Kamala: uma pedra que atirares na água, dirige-se ao fundo pelo caminho mais rápido. O mesmo sucede cada vez que Sidarta tem um objetivo, um propósito. Sidarta não faz nada. Apenas espera, pensa e jejua. Mas passa através das coisas deste mundo como a pedra passa pela água, sem mexer-se, sentindo-se atraído, deixando-se cair. Sua meta puxa-o para si, uma vez que ele não admite no seu espírito nada que se possa opor a ela. Eis o que Sidarta aprendeu dos samanas. É aquilo que os tolos chamam de feitiço e que na opinião deles é obra dos demônios. Nada é obra dos demônios, já que não há demônios. Cada um pode ser feiticeiro. Todas as pessoas são capazes de alcançar os seus objetivos, desde que saibam pensar, esperar, jejuar. 


* * *

O que é a meditação? O que é o abandono do corpo? Que significa o jejum? E a suspensão do fôlego? São modos de fugirmos de nós mesmos. São momentos durante os quais o homem escapa à tortura de seu eu.

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Leitura jovem no CLIc

"Hermann Hesse é o maior escritor do século XX"
San Francisco Chronicle



Iluminação no CLIc


Sidarta, na minha estante,
passou anos escondido,
mostrou-se a mim, e num instante
sussurrou "Sou o escolhido".

(Ilnéa)





"Toda a vida de Hesse, até o último dia, foi uma série de fugas" escreveu Otto Maria Carpeaux, na orelha a 1a edição de "Sidarta". "E cada uma das fugas foi uma volta..."

... e há mais... muito mais!

Fomos, e somos, verdadeiramente um grupo... ou diria "maravilhosa familia".

Abraços ... num só abraço,

Abraço enoooorme... !!!!!!!!!!!!!!

Ilnéa