CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de novembro de 2015

Copacabana - conto escrito por Hélio Penna, participante virtual do CLIc

COPACABANA

Hélio Penna


            O pedreiro José procurava um banco na Avenida Atlântica para sentar-se e descansar um pouco do trabalho de reforma de um apartamento, ali em frente. Acomodou-se ao lado da estátua do poeta Carlos Drummond de Andrade, num pedacinho de sombra que o bardo generosamente lhe ofertava, num dia muito quente. Ajeitou o boné surrado que usava para protegê-lo na obra. Pensou até em deitar-se ali. Mas não ficava bem esticar-se num banco em Copacabana. E do jeito que estava vestido e sujo, podiam tomá-lo como um mendigo.
Olhou para a escultura, e pensou que um homem assim, de modos tão finos, não podia aguentar o trabalho em obra.  Não durava um dia. Ainda mais com aquela patroa que não prestava. A dona do apartamento era conhecida artista de TV. Famosa pelos papéis de mocinha nas novelas, a patroa era mão-de-vaca, rude e preconceituosa na vida real.
            José distraiu-se com uma jovem volumosa e bela que acenou para a estátua de bronze e seguiu feliz em sua vistosa bicicleta. Enquanto o seu olhar tímido seguia a formosura, uma senhora fazia gestos ríspidos em sua direção:
            - Chega pra lá! Quero tirar foto do meu filho!
            Ele afastou-se, com os olhos na madame corpulenta, vermelha, imponente. Um chapéu largo projetava uma sombra austera no seu rosto. O menino, rechonchudinho, estava de uniforme colegial, lembrando uma farda militar e uma boina na cabeça, fazendo-o parecer um soldadinho roliço.
            - Sorri! - ordenou a mãe.
            A criança sentou-se de má vontade ao lado da escultura e, aborrecida, não sorriu.  A máquina fez o registro fotográfico, e os dois se afastaram. A mulher ainda olhou o pedreiro com repulsa.
.
O pedreiro não aprendeu a ler nem escrever, mas seus filhos completaram o ensino fundamental na escola pública. E um deles, o mais velho, era muito apegado à leitura. “Seu filho tem um dom. Não o deixe abandonar os estudos.” Recomendou-lhe um dia a professora. Mas o pedreiro se viu obrigado a deixar o local pobre em busca da vida nova na Capital.  Aqui, o primogênito trocou o ensino pelo balcão de uma padaria, para contribuir com o sustento dos seus cinco irmãos.
            A moça ondulante retorna em sua bicicleta. Novo adeusinho para a estátua do poeta. Deteve-se logo adiante para atender ao telefone. O pedreiro a admirava discretamente. Na ligação, lhe perguntaram onde ela se encontrava. “Na Atlântica... perto da estátua do velhinho.”, respondeu e seguiu em frente.
 José aproxima-se novamente da efígie. Intrigado, olha-a detidamente. Tira o boné, e coça os ralos cabelos crespos e embranquecidos: do quê aquele homem se ocupara? Pergunta-se em vão. E desconhecendo que aquele poeta mergulhou nos seus sonhos, ele se levanta, e retorna ao seu cotidiano intenso.. 

25 de novembro de 2015

Niterói de todas as tribos



1. O Clube de Leitura de Icaraí nasceu como uma reunião de amigos, certo? Ainda hoje há esse clima intimista nos encontros?


Correto, Pamella.  Começamos de forma bastante informal com um grupo de amigos que decidiu ler o mesmo livro e se encontrar para conversar sobre ele, revezando o local da reunião entre as casas dos participantes. Hoje somos um grupo aberto a toda comunidade Niteroiense, o que não significa que tenhamos perdido o espírito amistoso e festivo original, porque é ótimo fazer novas amizades em torno de algo tão enriquecedor como o livro.


2. Por que criar um espaço como esse de leitura em Niterói?


A criação do Clube de Leitura não foi premeditada, aconteceu espontaneamente. A gente percebeu que este era um anseio de muita gente que foi aderindo ao grupo inicial, até que recebemos o convite de uma Livraria do bairro para que abríssemos o movimento para mais pessoas. Foi uma oportunidade muito feliz criar esse espaço para mais pessoas participarem.


3. Quais temas vocês costumam abordar nos encontros?


Os temas são a literatura, as leituras realizadas, os escritores, o amor pelo livro, a amizade e tudo o que diz respeito a um ambiente em que estas coisas são vivenciadas com respeito à diversidade de opinião e fundamentadas na experiência de vida dos participantes. É uma oportunidade ímpar que coloca lado a lado pessoas das mais diferentes formações profissionais: psicólogos, engenheiros, donas de casa, estudantes, etc.


4. Qual é a importância que o Clube de Leitura traz para a cidade de Niterói e seu cenário literário?


Niterói é uma cidade eminentemente cultural e com grande produção literária. E cultura é como fogo, se intensifica e se alastra quanto mais gente culta e oportunidades de se encontrarem existirem. Um clube de leitura possibilita esse encontro, além de atrair grandes nomes da literatura brasileira para debater suas obras in loco. Já compareceram a debates na Livraria Icaraí nomes como, Rubens Figueiredo, Godofredo de Oliveira Neto, Silviano Santiago, Gustavo Bernardo, etc., e, também, autores locais, como Gracinda Rosa, Novaes Barra, Carlos Rosa, Dília Gouveia, entre outros.


5. Como surgiu a ideia de criar um novo clube que fosse direcionado para o público mais jovem? Qual é o propósito?


A ideia partiu da própria Editora da UFF quando percebeu que havia um gênero literário a ser explorado pelo clube de leitura, que funcionasse como porta de entrada na formação de um público leitor quando adulto. Uma livraria universitária como a Icaraí é a agente ideal para essa formação, porque dá a liberdade de escolha necessária para a formação de um leitor culto e crítico em relação à sociedade que o rodeia.
 


6. Acredita que os dois clubes de leitura já fazem parte da própria história da cidade? Qual é o significado disso?


O Clube de Leitura Icaraí já existe há dezessete anos e tem uma belíssima história que foi retratada no livro “Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros” publicado pela própria Editora da UFF por ocasião dos quinze anos do Clube. O Clube Jovem tem apenas dois anos e ainda está engatinhando, buscando sua identidade a partir dos interesses de leitura dos jovens que o frequentam. Para nós será uma honra se um dia formos lembrado como contribuintes para a bela história que tem a nossa cidade.


7. Afinal, literatura e Niterói se complementam? O que há de comum entre os dois?


A Arte, a grande Arte, porque Niterói é uma das cidades mais bela do mundo, e tanta beleza não deixa indiferente seus moradores, que encontram na Literatura a forma ideal de expressão do que vivem e sentem pela Cidade. O clube de leitura é certamente um lugar onde essa complementaridade acontece de forma prazerosa.


8. Acha que ainda faltam espaços para a literatura na cidade ou isso vem crescendo cada vez mais?

Existem diversos movimentos literários na cidade dialogando com espaços de leituras, música, filosofia, e diversas manifestações artísticas. A cidade de Niterói fervilha de eventos culturais em cafés concertos, associações e academias literárias, lançamentos de livros, clubes culturais, terapias com livros, corujões poéticos, etc. E que cresçam cada vez mais esses espaços, por toda cidade, nunca é demais.


21 de novembro de 2015

Uma homenagem a Zumbi dos Palmares




O Dia da Consciência Negra é comemorado em 20 de novembro como forma de homenagem a Zumbi dos Palmares, um dos maiores heróis da história do Brasil. A data marca o dia de sua morte, ocorrida no ano de 1695, por ocasião da guerra travada entre o governo brasileiro e os negros inseridos no Quilombo dos Palmares.

A comemoração do 20 de Novembro como Dia Nacional da Consciência Negra surgiu na segunda metade dos anos 1970, no contexto das lutas dos movimentos sociais contra o racismo. E o ano de 2011 foi instituído pela ONU como Ano Internacional dos Afrodescendentes, para fortalecer o compromisso político de erradicar a discriminação a descendentes de africanos.

Quilombos eram locais de refúgio para escravos no Brasil. Geralmente eram estabelecidos em locais de difícil acesso, embrenhados em matas, florestas ou montanhas. O mais famoso dos quilombos foi o de Palmares - localizado na Serra da Barriga, região pertencente ao atual estado de Alagoas -, criado no início do século 17.

Os relatos históricos existentes são muito controversos e pouca certeza há na origem de Zumbi. Isso se deve ao fato de que os relatos acerca de sua vida foram feitos por seus inimigos: os colonos e portugueses que se puseram a combatê-lo, pagos por senhores escravagistas. Entre as diversas versões, conta-se que era um chefe africano trazido à força para ser escravo, ou um homem livre que nasceu em Palmares, ou ainda um filho de escravos que foi criado por um padre até os 15 anos, tendo aprendido a ler, a falar e a escrever em português e em latim.

O que se sabe com mais certeza é que Zumbi foi o grande líder do Quilombo dos Palmares. Sua lendária imagem o apresenta como um homem forte, orgulhoso e inconformado com sua condição social, que resolveu enfrentar aqueles que torturavam seu povo.

Palmares, durante quase todo o século 17, foi alvo de mais de 40 incursões militares, que buscavam terminar com o quilombo. Afinal, a autonomia dos negros ameaçava a hegemonia dos senhores de engenho, pois seguidamente seus escravos fugiam para a Serra da Barriga, ou eram libertos por guerreiros quilombolas, em expedições ocasionais.

Durante o tempo em que liderou seu povo contra a ganância e o ódio dos escravagistas, Zumbi organizou uma resistência poderosa, que conseguiu manter a estabilidade do quilombo por muitos anos. Em 1694 e 1695, ocorreu uma verdadeira cruzada contra Palmares. O drama finalmente terminou quando o mulato Antônio Soares (ex-companheiro de Zumbi que foi capturado e torturado pelos expedicionários paulistas), atraiu o grande líder para uma emboscada e apunhalou-o no estômago, dando sinal para os paulistas avançarem. Zumbi lutou até o fim.

Depois disso, muito da história se perdeu, mas a história legendária de Zumbi permaneceria. Foi citado pelos abolicionistas, no século 19, como grande herói e mártir.

A partir da década de 1980 novos estudos buscaram traçar a real identidade de Zumbi e dos quilombolas e, em 1995, a data da morte do maior herói negro e símbolo da liberdade foi adotada como o Dia da Consciência Negra.


(Texto enviado ao CLIc por Daniel Chutorianscy)

20 de novembro de 2015

Sobre Destino Estrangeiro


Daniel, ao abrir a primeira página do seu livro, me lembrei imediatamente de Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, uma de minhas paixões infantis. Lírico, acordando a criança que habita os adultos. Fui logo envolvida pela escrita diferenciada, marcando com repetições o que importa perceber. Gostei muito da anonimidade. Embora não seja estrangeira, partilhei o sentimento de angústia e temor, tanto mais agora que recentes acontecimentos terroristas nos deixam tão à mercê do ‘de repente’.

Reflexões acerca do comum e do diferente: escrever sobre sua casa para abranger o mundo; ser simples para abarcar a complexidade da vida, a mistura dos tempos, das memórias, dos afetos e dos medos.

Ao terminar, lembrei também de Vermelho Amargo, do Bartolomeu Campos. Um livro igualmente pequeno em número de páginas e igualmente rico em conteúdo. Um livro que também conta de uma família, um livro belo como o seu.

Foi um prazer conhecê-lo através de sua escrita. O poema que segue, fiz inspirada nas ilustrações do livro e no sentimento despertado.
Grande abraço,
Rita Magnago



Pássaros. 
Vejo pássaros em todas as folhas
árvores em formação
ex-árvores em floração.

Pássaros solitários
em voo
mergulhando
planando
sendo aves.

Pássaros em busca de pouso
posados
pensando
refletindo sobre outros serem que voam.
Patos.

Bicos abertos
bicos calados
asas em exibição
de quem pode sonhar.
Esperteza de gavião.


Pássaros variados
espécies-exceção.
Homobirds dividindo galhos
família com garras.

É preciso pinicar a madeira de que somos feitos
porque o melhor está por dentro 
e há que sair.

14 de novembro de 2015

Tocaia grande, a face obscura: Jorge Amado




Hoje tem Clube de Leitura na Livraria Icaraí!

Daqui a pouco, às 16h, acontece mais uma edição do Clube de Leitura Icaraí. E o livro escolhido para o debate de hoje é um clássico da literatura nacional: ''Tocaia Grande: a face obscura'', de Jorge Amado, um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

A ideia do livro surgiu de um texto que o próprio Jorge Amado havia escrito, no qual contava lembranças de sua infância na Bahia. A trama descreve o processo de fundação de uma cidade nordestina em meio a uma disputa por terras que resultou em um massacre. O romance aborda diversos temas próximos da realidade do Nordeste brasileiro, entre eles o coronelismo e os conflitos territoriais, questões que ainda hoje perduram na região. Gostou dessa sinopse? Então venha para o Clube de Leitura!

A Livraria Icaraí fica na Rua Miguel de Frias, nº 9, em anexo à reitoria da UFF, em Niterói.




Caros colegas,

espero que esteja tudo bem com todos vocês.

Qual o dia, horário e local de nosso próximo encontro? Na Livraria da EdUFF mesmo? 

Estou terminando de ler TOCAIA GRANDE, mas tendo alguma dificuldade. São 472 páginas, a trama não se desenvolve. Tenho a obra completa de JORGE AMADO, sou admiradora inconteste do escritor, do cidadão, premiado no Brasil e no exterior. 

Leio e releio MAR MORTO, CAPITÃES DA AREIA, A MORTE E A MORTE DE QUINCAS BERRO D'ÁGUA,  TENDA DOS MILAGRES, DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS, TIETA DO AGRESTE, com imenso prazer e orgulho: é a verdadeira literatura brasileira! 

Em TOCAIA GRANDE, 
Elói Coutinho, Natário, Venturinha, Hermenegildo Cabuçu, Zezinha do Butiá, Boaventura Andrade Junior, Fadul Abdala, Capitão Natário da Fonseca, Coronel Robustiano de Araújo, Jacinta Coroca, Manuel Bernardes, Valério Cachorrão, Pergentino, Jussara Ramos Rabat, o negro Castor Abduim, Bernarda, o velho Ambrósio, a velha Angelina (Vanjé), Prudêncio de Aguiar, Emílio Medauar, a médium Zorávia, Dona Ernestina, Fuad Karam, Pedro Cigano, Nora Pão-de- ló, Durvalino, Zé Luiz, Carlinhos Silva, Frei Theun, Frei Zygmunt Martelo de Deus, Carlinhos Silva (fluente em alemão!!!), Benaia Cova Rasa, Coronel Agostinho, Fuad Karan, Ludmila Gregorióvna Cytkynbaum, Dudu Matias, Senhorita Dona Deuza...  
discutem, matam, morrem, não são felizes, não conseguem alcançar seus objetivos na vida. 

'E AQUI SE INTERROMPE EM SEUS COMEÇOS A HISTÓRIA DA CIDADE DE IRISÓPOLIS, quando ainda era Tocaia Grande, a face obscura. aqui se interrompe em seus começos'. são as palavras com que Jorge AMADO encerra o livro. 

O posfácio de MIA COUTO garante que é imperdível. 

O que vocês acharam? Estou sendo muito exigente? (rs)

Abraço carinhoso,


Cyana Leahy
Professora (UFF), escritora, tradutora
PhD em Educação Literária (London University)
Coordena a CL Edições



E não é que nesse livro de Jorge Amado
logo no livro de um baiano
tem um personagem anti-oblomoviano:
Tição, Castor abduim, encarnação de Oxaguiã

Tocaia grande - A face obscura(1984)


As comemorações dos setenta anos da fundação de Irisópolis e dos cinqüenta de sua elevação a cidade, cabeça de comarca e sede de município, alcançaram certa repercussão na imprensa do sul do país. Se para tanto o dinâmico prefeito despendeu verba elevada, não incorre em crítica: tudo quanto se faça para divulgar as excelências de Irisópolis, o passado de epopéia, o presente de esplendor, merece aplauso e elogio. Além das matérias pagas os jornais do Rio e de São Paulo divulgaram algum noticiário sobre os eventos principais que abrilhantaram os festejos, com destaque para as cerimônias, ambas solenes, da inauguração dos bustos do coronel Prudêncio de Aguiar e do doutor Inácio Pereira, erguidos um em casa praça, a da Prefeitura e a
da Matriz.

A partir do revertério da situação política, com o fim do domínio da laia que assumira o mando após a morte dos Andrade, o pai e o filho, o fazendeiro mandou e desmandou na Intendência durante lustros, intendente ele próprio ou preposto de sua escolha, parente ou
compadre. Provas da capacidade administrativa do Coronel e de sua dedicação no exercício do poder ainda hoje são vistas e admiradas no perímetro urbano, inclusive a rua calçada com paralelepípedos ingleses
- importados da Inglaterra, sim senhores! -, orgulho da população irisopolense, enquanto as acusações de desvio dos dinheiros públicos desvaneceram-se no passar do tempo. Quanto ao escapulário, na qualidade de cunhado e conselheiro, de cidadão de aptidões singulares, exerceu os cargos mais elevados, assumiu as incumbências mais responsáveis, tendo presidido a comissão formada com o meritório objetivo de angariar fundos destinados à construção da Matriz, magnífico templo católico, outro orgulho da coletividade: símbolo da fé e do idealismo daqueles valentes que, empolgados com o denodo dos dois beneméritos pioneiros, colaboram na colocação da primeira pedra da localidade.






De tanto ouvir a mãe contar, a cena se tornou real na lembrança do menino: a égua tombada morta, e o pai, ensanguentado, erguendo o bebê do chão e o levando para casa no colo. O ano era 1913, e Jorge Amado tinha então dez meses. A imagem evoca a tocaia de que o pai do escritor foi vítima na época das lutas travadas pela posse de terras no sul da Bahia, durante o ciclo do cacau. 




"O Homem que outrora fui…" (Pushkin)
                             Tel j'étais autrefois et tel je suis encor 

                                                                 André Chenier
O homem que outrora fui, o mesmo ainda serei:
leviano, ardente. Em vão, amigos meus, eu sei,
de mim se espere que eu possa contemplar o belo
sem um tremor secreto, um ansioso anelo.
O amor não me traiu ou torturou bastante?
Nas citereias redes qual falcão aflante
não me debati já, tantas vezes cativo?
Relapso, porém, a tudo eu sobrevivo,
e à nova estátua trago a mesma antiga of'renda…





Trouxe uma apresentação pro Coronel e ele me acolheu.

A égua Imperatriz do coronel Robustiano e a mula preta do capitão Natário iam parelhas em passo lento e cuidadoso na vereda entre os cacaueiros.

O Coronel não comentou, o Capitão prosseguiu a narrativa:

- Coronel Boaventura já tava metido nos barulhos, como vosmicê sabe pois andaram juntos. Fez confiança em mim, me entregou uma repetição e me levou com ele.

Posso dizer que ele me criou, sempre me tratou como se deve tratar um homem, devo a ele o que sou e o que tenho. Não me lembro de meu pai: comeu os tampos de minha mãe, capou o gato. O pai que conheci foi o coronel Boaventura.

- Mas ouvi ele mesmo dizer que você salvou a vida dele mais de uma vez. Boaventura não lhe fez favor quando mandou botar em seu nome o chão que nós tamos pisando.

- O Coronel me acoitou e me pagava o soldo de jagunço pra velar por ele. Sou ligeiro no gatilho e no pensamento. Só fiz a minha obrigação. Se ele quisesse, podia não ter me dado nem terra nem patente.

Não vou dizer a vosmicê que não mereci, mereci bem merecido, só que ele não tava obrigado a reconhecer pois havia o couto e a paga.

O Capitão soltara a rédea sobre o cabeçote da sela, deixava a mula ir a locé pela trilha conhecida, ele percorria outros caminhos, os do passado, onde, às vezes, nem trilha havia:

- O coronel Boaventura foi o homem mais valente e o mais direito que conheci e eu não me importava se tivesse de morrer por ele. Foi por isso que mesmo depois de ser possuidor de terra e de ter plantado cacau, não larguei do serviço dele, continuei cuidando da Atalaia.

Disse a ele em mais de uma feita: enquanto vosmicê for vivo e me quiser, sou um cabra a seu serviço.

Pra depois da morte dele só prometi uma coisa e essa tou cumprindo. Mas nada tem que ver com roça de cacau e com posto de administrador.

- Me disseram que Venturinha ofereceu lhe pagar o que você pedisse.

- Coronel, eu penso que todo homem tem vontade de ser dono de sua sina. Quando eu comecei a ganhar a vida, acompanhando romeiro lá no São Francisco, ouvi o povo dizer que a sina da gente tá escrita no céu e ninguém pode mudar, mas meu pensar é diferente.

Acho que cada criatura tem de cuidar de si e sempre tive vontade de ser dono de mim mesmo. Servi o Coronel por mais de vinte anos: tinha dezessete quando arribei por aqui, já festejei quarenta e dois.

Nunca prometi servir à viúva ou ao filho. Nem nunca ele me pediu.





"Iá-rára-dináh! Rára! Rára!

Deus da ruindade e da desolação, impiedoso, atrabiliário, carrasco!"





O marido deu um passo à frente, colocou-se entre a mãe e a mulher; respondeu ao sorriso aflorando com os dedos o rosto lasso da companheira. Ele, João José, desaprendera de sorrir.

Antes dos acontecidos de Maroim - fora ontem ou decorrera muitos anos? - Dinorá povoava a casa de cantigas, face louçã, olhos vivos, garrida, alvoroçada. À noite, ele a tomava nos braços, riam e suspiravam juntos.

Dedos toscos, mão calosa e suja: o carinho inatendido não tocou apenas a face de Dinorá ampliando o sorriso tímido nos lábios ressequidos. Ungüento milagroso, derramou-se sobre as chagas, por fora e por dentro, no exposto e no recôndito.

As pontas dos dedos tocaram cada fibra de seu ser: bálsamo suave, chama voraz. Dinorá sentiu-se renascer, outra vez mulher para a labuta e a cama.



Pássaro sofrê



Dona Ernestina, entregue por completo à religião e à indolência - para matar a saudade do doidivanas empanturrava se de doces e chocolates - envelhecia obesa e pudibunda.

 Dos deboches de cama a que se entregara outrora com o marido nem queria se lembrar - deboches em sua opinião,pois jamais os cônjuges foram além de modesto papai-mamãe procriador.

Cumprira o dever de esposa, concebera e dera à luz um filho. Na esperança de ter uma menina e assim completar o casal, ainda aceitara durante alguns pares de anos a frequentação do Coronel, aliás a cada dia mais vasqueira.

Ela o fez pela menina que não veio, por nenhum outro motivo: como a grande maioria das senhoras casadas, suas conhecidas e amigas, nunca soubera, nem por ouvir dizer, o significado da palavra orgasmo e o que fosse gemer de gozo nos braços do parceiro.

Umas poucas descaradas, bem certo, se comportavam no leito conjugal como putas em cama de bordel, não se davam ao respeito, maculavam a nobreza do matrimônio e a sublime condição de mãe de família. Pouquíssimas e indignas.

Para as baixas necessidades dos homens sobravam as mulheres damas, as públicas e as exclusivas. Dona Ernestina tinha conhecimento da existência de Adriana, amásia do Coronel havia mais de dez anos: não lhe causava mossa.

Tampouco a ofendia o desinteresse do marido: fazia um século que não se punha nela, que a deixara em paz. Graças a Deus.


Bernarda

"Sou da cor do cacau seco

sou o mel do cacau mole"




Torquemada

Depois, no cabaré, Fuad Karan acrescentara novos dados, referira circunstâncias curiosas, ampliara a lista dos galãs. Cidadãos os mais diversos se atropelavam na caudalosa crônica da cabocla. Ninguém poderia acusar Jussara de preconceituosa em matéria de homem: desde que vestisse calça e levantasse o pau merecia-lhe atenção e, ocorrendo circunstância propícia, levava-o para a cama. Fuad Karan, erudito, resumira: Jussara sofre de furor uterino, meu Fadul, não há jeito a dar. Fogo no rabo, confirmava Zezinha, não há macho que apague


"Quem arruma briga com puta não regula bem, é fraco da cabeça."

Não parou de incriminar-se enquanto o homenzarrão levantava-se da cama, fechava a porta e se despia: nu, crescia de tamanho, tornava-se ainda maior. Da cama, estirada, olhava-o de soslaio, um marido e tanto! Trabalhador e cobiçoso, presumido e tolo, igual a Kalil Rabat, bobo alegre nascido para cabresto e chifre. Com a vantagem de ser grandão, bem-parecido e possuir aquele pé-de-mesa. Jussara chegava com as mãos cheias: o resplendor do rosto, a tentação do corpo, dinheiro a rodo, a mais sortida loja de tecidos de Itabuna, a insolência e o dengue, o fogaréu. Que mais podia desejar um tabacudo bodegueiro confinado em remota caixa-pregos?



No dia magno da formatura, pela manhã, o arcebispo da Bahia, primaz do Brasil, celebrara missa cantada na Catedral Basílica e no verboso sermão conclamou os formandos “à defesa intransigente do direito e da justiça, missão sagrada daqueles que adotavam a meritória carreira da advocacia”. No silêncio da catedral, o coronel resmungara ao escutar as palavras de sua reverendíssima: bonitas porém falsas, sem sentido. Os bacharéis não passavam de uns trapalhões, metidos a sebo, úteis sem dúvida, indispensáveis exatamente para coonestar as violações do direito e da justiça. Caríssimos, ademais. Agora o coronel tinha um em casa, ao seu dispor.




Ainda assim pagava a pena: o título de doutor valia tanto quanto uma boa fazenda, chave para abrir as portas da política e proporcionar um casamento afortunado. Com o filho doutor ali à mão, o coronel não mais precisaria utilizar os serviços de outros bacharéis para cuidar-lhe os interesses nos fóruns e cartórios, tampouco depender de terceiros a quem eleger para cargos de confiança, a quem delegar comandos. Ficava a salvo de aleives e falsidades, de surpresas: assunto mais traiçoeiro do que a política só mesmo a justiça. Por isso andam sempre juntas, de mãos dadas.




É público e notório que a delicada flor do bem-querer não desabrocha nem resplandece se não houver interesse e concordância de ambas as partes, do homem e da mulher. Não adianta um dos dois se enrabichar sozinho: se não for correspondido, fica no alvéu, roendo beira de sino, situação penosa e deprimente, bastante triste.




Por vos me rompo toda!






Levava na bagagem vestidos chiques, uma batelada de remédios, aflitas recomendações maternas e a excitante informação de Madeleine.

A princípio tudo foi novidade e animação, motivo de festa e de riso, mas a monotonia não tardou a prevalecer.

Cansada dos bailes provincianos nos quais, por causa da elegância e dos costumes europeus, provocava inveja e conquistava aversões entre o mulherio atrasado e maledicente, cansada sobretudo da presunção e da tolice do Senhor de Itauaçu, tão cheio de si quanto vazio de interesse, para conter os bocejos e suportar o desterro, Marie-Claude dedicou-se à equitação e à fodilhança.

Ginete petulante, sozinha ou acompanhada pelo Barão, cruzava os campos nos cavalos de raça, os mais árdegos do Recôncavo.

Consorte atenta, comprovou na prática que, iguais aos tenentes-coronéis, todos os barões nascem com irremissível vocação para corno manso: impossível impedir que a realizem.

Em sendo assim, uma esposa devotada deve estar apta a cumprir o seu dever, solidária com o destino do marido. Um dia, quando dissertavam, sobre a pureza e a beleza das raças equinas e similares, andando pelos arredores do banguê, o Barão Adroaldo apontara um negro adolescente, envolto em fagulhas, na oficina do ferreiro, chamando a atenção de Madame la Baronne para aquele magnífico espécime de animal de raça:

— Repare no torso, nas pernas, nos bíceps, na cabeça, ma chère: um belo animal. Exemplar perfeito. Observe os dentes.

Reparou, obediente e interessada. Demorou os olhos molhados no exemplar perfeito, no belo animal. Observou os dentes brancos, o sorriso vadio. Malheur! Uma faixa de pano escondia lhe a primazia.

O Barão era deveras autoridade em raças, herdara a competência do pai, perito na escolha e compra de cavalos e escravos.

Mas Marie-Claude aprendera com as freiras do Sacré Coeur que os negros também têm alma, adquirem-na com o batismo.

Alma colonial, de segunda classe, mas suficiente para distingui-los dos animais: a bondade de Deus é infinita, explicava Sóror Dominique dissertando sobre o heroísmo dos missionários no coração da África selvagem.

 - Mais, pas du tout, mon ami, ce n’est pas un animal. C’est un homme, il possêde un’âme immortelle que te missionaire tal a donné avec le baptême.

Un homme? O Barão desatou a rir.

Quando o Senhor de Itauaçu ria em francês, posando de aristocrata culto e irônico a se divertir com a tolice humana, tornava-se intolerável por afetado e arrogante.

 Um seu xará, Adroaldo Ribeiro da Costa, bacharel e literato de Santo Amaro, ao ouvi-lo rinchavelhar massacrando sem piedade a língua de Baudelaire, mestre bem-amado, passara a designá-lo por Monsieur le Franciú para gáudio dos ouvintes e pelas costas do Barão: o poeta.



Consorte atenta, comprovou na prática que, iguais aos tenentes-coronéis, todos os barões nascem com irremissível vocação para corno manso: impossível impedir que a realizem.





Ao regressar de Guadalupe onde o marido, tenente-coronel de artilharia, comandara a guarnição, Madeleine fizera duas declarações peremptórias: a) todos os tenentes-coronéis nascem com irrevogável vocação para corno-manso, nem a mais pateta da esposas pode impedir que cumpram seu destino; b)os negros, em matéria de cama, são absolutamente insuperáveis. Não havia melhor prova da primeira afirmativa do que o próprio esposo de Madeleine: fora ele que trouxera para casa, na qualidade de ordenança, o negro Dodum, exatamente a melhor prova, a mais esplêndida da segunda revelação. 



"Depois de liderar uma tocaia sangrenta contra um inimigo de seu patrão, o jagunço Natário da Fonseca recebe alguns alqueires próximos ao palco da matança. Ali, passa a cultivar cacau. Agora proprietário de terras, Natário encomenda no Rio de Janeiro, então capital do país, patente de capitão. Assim, nos moldes de um coronel nordestino, começa a ampliar seus domínios e a impor sua autoridade.


O Lugar da Tocaia Grande cresce e de local de pernoite passa a lugarejo, depois a arraial. Recebe prostitutas, tropeiros, jagunços, ciganos e trabalhadores que perderam emprego nos latifúndios. Vários personagens compõem a história do povoado: Bernarda, afilhada e amante de Natário; Venturinha, filho do coronel Boaventura e bacharel em direito; a cafetina Jacinta Coroca; a feiticeira Epifânia; o negro Castor Abduim, conhecido como Tição, e o comerciante libanês Fadul Abdala. Aos poucos, de terra sem lei o povoado amplia-se até alcançar estatuto de cidade e receber o nome de Irisópolis.



Em Tocaia Grande, Jorge Amado descreve o processo de formação de uma cidade nordestina nascida sob o signo da violência e da disputa de terras. Romance caudaloso e panorâmico, revela a “face obscura” de um lugar em que a lei não vigora nem há presença formal do governo.



Na região cacaueira, a pequena cidade de Irisópolis é o microcosmo de uma sociedade de funcionamento tradicional e arcaico, que recebe os ventos da modernização sem perder a herança perversa. Apesar do progresso, da emancipação e dos elementos civilizatórios, o lugar vai conservar seus traços originais: o sangue derramado, a marca do pecado e a memória da morte."


Tiago Hoisel



Publicado em 1984, Tocaia Grande descreve o processo de formação de uma cidade nordestina, nascida sob o signo da violência e da disputa de terras, em inícios do século XX.Depois de liderar uma tocaia contra o oponente de seu patrão, o jagunço Natário da Fonseca recebe alguns alqueires próximos ao palco da matança, onde passa a cultivar cacau. A chegada de comerciantes, prostitutas, tropeiros e ex-escravos ao local dá vida e contornos ao arraial.Personagens fortes, independentes e solitários - como a cafetina Jacinta Coroca; o negro Castor Abduim, conhecido como Tição Aceso, e o comerciante libanês Fadul Abdala -, encontram em Tocaia Grande um refúgio e o conforto da amizade.Com a prosa leve e bem-humorada de sempre, Jorge Amado relata a união profunda e os laços de afeto que se desenvolvem entre os habitantes de Tocaia Grande, e que serão responsáveis pelo crescimento do povoado e por sua resistência à pressão da Igreja e do poder político-econômico para se enquadrar no sistema coronelista.Este e-book não contém as imagens presentes na edição impressa.



Bang bang dos bons em Tocaia Grande

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