CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

REVIEW




Como em todo grupo social, o Clube de Leitura reúne participantes com diferentes potenciais. Boa parte tem um bom domínio do discurso falado, cada qual exaltando neste um traço ou interesse pessoal mais marcante: uma análise um pouco mais técnica dos livros, um discurso um tanto mais politizado, uma visão voltada para o lado emocional etc. Muitos têm o dom da socialização, fazendo papel de aglutinadores, outros de divulgadores. Algumas pessoas se dedicam ao resgate de informações fazendo com que estas se preservem além da memória, mas também aos olhos e ouvidos. Há aqueles felizardos que reúnem em si muitos destes potenciais. E, finalmente, mas não por último, existem os poetas e escritores. O resultado deste conjunto é um gratificante e ecléctico aprendizado.


"Litera scripta manet"
"Efficiunt clarum studio"
"Liber delectatio animae"


Este espaço visa divulgar o trabalho de poetas e escritores direta ou indiretamente ligados ao Clube de Leitura. A seguir, listamos alguns títulos publicados, de autoria de participantes ou de pessoas ligadas a participantes do Clube. Em caso de interesse em adquirir um volume, entre em contacto com conciergeclic@gmail.com.



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Review: Carlos Rosa Moreira

Livro: letras rebeldes / fluidos insensatos: novaes/




Estou a ler, como todas vocês, almas irmãs, estou a ler um livro de autor famoso, consagrado. E ainda a ler coisa ou outra que preciso pesquisar ou, simplesmente, me lembrei de que deveria ler porque é bom recordar. Portanto, talvez feito vocês, estou a ler, como de costume, várias coisas ao mesmo tempo. Hoje, peguei Novaes/ para ler, e o prazer de ler aumentou, ou melhor, foi acrescentado com um tempero interessante e saboroso. Espero logo terminar o escritor famoso, que já está mesmo no fim (é metonímia!),  e mergulhar na obra de Novaes/, esse nosso amigo, alma irmã, excelente contista. 












Leia também.

À venda na Estante do Concierge (conciergeclic@gmail.com): R$ 30,00



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Review: Rita Magnago

Livro - Mosaico Vivo: Cristiana Seixas


Cris,

Acabo de ler seu livro e preciso dizer a esse pedacinho do mundo que é nosso Clube o quanto gostei. Seu livro é lindo e super sensível, delicado e profundo sendo extremamente simples. Uma combinação mágica de entender a vida, a si, ao outro e de admitir imperfeições ao mesmo tempo em que se luta pela liberdade de alçar voos próprios e superar-se.

Emocionei-me em cada página, triste com a luta da criança com o urubu, alegre com o beijo na trave, reflexiva com a noção do tempo, dor e amor. Fiquei com uma vontade danada de conhecer a Chapada dos Guimarães e me deitar à beira do precipício. Cada árvore ganhou um sentido novo, a dimensão da paciência mudou. Uma lição de viver bem, aproveitar os momentos, eternamente efêmeros, de ficar em paz comigo, de me permitir receber a beleza e a felicidade e transbordar meu amor pela vida. Sabedoria para aceitação também e para o enfrentamento dos meus medos.

Eu me identifiquei com tantos pensamentos, palavras, sentimentos e me surpreendi com outros que me diziam o que na verdade eu já deveria saber, mas é sempre preciso que nos digam com a força da pureza que você sabe transmitir. Você faz uma metáfora da natureza com o homem que é maravilhosa. Tudo se pode aprender se se sabe olhar. Seu livro é poesia para os olhos, os ouvidos, as mãos, o coração, o corpo todo. Há frases sublimes que marquei para reler e reler e reler para ver se entram por osmose. Preciso de uma cabeceira maior.

Obrigada por escrever,


Eu vou aceitar o convite do vento
e me deixar levar pelas trilhas,
para dentro, para dentro, para dentro

Leia também.

À venda na Estante do Concierge (conciergeclic@gmail.com): R$ 25,00


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Travessia do Verso: Rita Magnago

            Bom dia, Rita.

            Em Bangu o dia começa lentamente. Choveu muito e o sol parece preguiçoso. Terminei neste momento a leitura do Travessia do Verso, e parece que a luminosidade do livro expandiu-se para a paisagem que vejo da minha janela.

            O comentário do grande Carlos Rosa nos dá sinais do que encontraremos na travessia: “há coragem, a extraordinária coragem feminina...” Depois, você, como que nos apresentando a moradia, nos alerta: “Estou fazendo as pazes comigo, permitindo mais imperfeição onde a severidade fazia morada.”

            Daí em diante, entramos inteiros na travessia. E quem tiver LIBERDADE para lançar-se no ÚLTIMO VENTO, aceitar a PROVOCAÇÃO do INACABADO terá MUITO PRAZER. Mas a travessia é longa e a IMPACIÊNCIA não nos ajudará a ver os REFLEXOS DO AVESSO. Então, REPENSANDO A VIDA, A ARTE e o ARTISTA, devemos, de ALMA CALADA, continuar o caminho.

            Não há que se preocupar se DEPOIS DOS 40 sentirei SAUDADE. Estamos A DESCOBRIR GENTE QUE SONHA SEM MÁSCARA. “Se pudesse te emprestava o brilho do sol para que fosse teu único vestido de dia”, nesta caminhada. SE EU FOSSE VOCÊ, e estivesse à procura do AMOR VERDADEIRO, continuaria a travessia sem nenhuma VERGONHA.

            Olhando para o longe, vemos que as pessoas NO TRÂNSITO, parecem sem VIDA. Qual PALAVRA dirá a essas pessoas? O PÁSSARO tem a resposta. Ele se alegra cantando a canção LUA DO MEU CORAÇÃO.

            Coragem! A travessia esta chegando ao fim. Foi boa para o seu CRESCIMENTO, não deve ser INTERROMPIDA. Não permita que lhe AMORDACem. Não tema nem mesmo a MORTE ou a SEPARAÇÃO. Continue o seu APRENDIZADO.

            Eu disse-lhe que seria boa a TRAVESSIA DO VERSO. Respire fundo; “liberta o espírito” e receba o PINGO DE LUZ, pois finalmente chegaram as ESTAÇÕES DA ALMA, onde “há sempre um perfume novo a desvendar.”

Bangu, 18,01,13
Hélio Penna.


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Querida Rita:

Concluí a "travessia" que você, corajosamente, nos convidou a fazer com seu belíssimo livro. E olha que eu hoje posso dizer que leio poesias com outros olhos, pois até então eu me desconcentrava ao iniciar qualquer leitura do gênero. Mas você me pegou de jeito, com sua verdade e intensidade presentes em cada verso. Meu livro está todo rabiscado com frases que muito me chamaram a atenção pela beleza, pela criatividade e pela sua força de SER exatamente o que você é, sem máscaras, verdadeira e linda, linda, linda ... Destaquei muitos poemas, mas aqui vou citar "SE EU FOSSE VOCÊ" (PG.50), apaixonante, como o que ele encerra em seu conteúdo (amor e sexo). É de uma sensualidade a toda prova. Lindo mesmo. E olha que antes de eu acabar, já sabia que ele havia sido feito para o "novaes/" (rs). Cito também "LUA DO MEU CORAÇÃO" (PG.73), um primor de beleza e criatividade - ah, a lua sabe de tantos segredos ... e também ama quando se esconde - e todos pensam que é eclipse. Danadinha essa escritora, quanta imaginação. Cito também "CRESCIMENTO" (PG. 81), mostrando com maestria as fases do "ser" desde o nascimento até a velhice. Demais!!! Cito também um poema pequenininho "APRENDIZADO" (PG.92): me levou ao mar e achei o final muito lindo - "Fico feliz, meu coração vê." Tem muitos outros que poderia ficar citando aqui, mas aí eu praticamente transcreveria TODO o livro. Mas não posso deixar de me referir à orelha do livro pois Carlos Rosa foi feliz demais nos comentários do livro e de você, Rita. Finalmente destaco sua "dedicatória" que eu achei genial logo no início (pg.3): "Dedico este livro à alma livre e poética que habita cada um de nós, ainda que não saibamos". Depois dessa, não tenho mais nada a dizer, só agradecer pelo presente que nos deu, Rita, com esse seu livro. Parabéns. Beijo de sua leitora e fã .....

Angela Ellias.


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Querida Rita,

Faço minhas as palavras de todos quanto à beleza de sua festa.

Seu livro maravilhoso! Poemas belíssimos! A capa elaborada primorosamente por Newton e as pinturas de Amanda e Helena, na capa e contracapa. O vídeo de Newton projetado por Felipe. Adorei ver Amanda com sapatinho vermelho, de salto alto, fotografando! Que bela família!

Sei que a alegria não foi completa. No seu coração havia, certamente, um misto de alegria pela concretização de um sonho há tanto acalentado, ter seu primeiro livro publicado, e a tristeza pela ausência de sua filhinha Helena. Gibran Khalil Gibran, falando da amizade, disse: "quando seu amigo se cala, vosso coração continua a ouvir o seu coração" e mais ainda: "...e na doçura da amizade, que haja risos e o partilhar dos prazeres" ao que eu acrescentaria: e o partilhar das tristezas e emoções.

Amiga bondosa, magnânima e sensível, você foi cercada por tantos amigos que, juntos, partilharam de sua alegria e tristeza. Nossos corações batiam em uníssono. Como disse, belamente, Antonio, a chuva que caía naquele momento era o símbolo de que novas sementes germinarão. Sementes de paz e alegria com a recuperação completa de nossa querida Helena. A chuva trazia as bençãos do céu para você e toda a família.

Beijos para todos.

Elenir




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Amigos do club,

Totalmente fora de controle, resolvi ler mais uma poesia do maravilhoso livro da Rita e como num passe de mágica atravessei o livro inteiro.

Totalmente desgovernada, iniciei na página 35, com o verso " A descobrir", bem de encontro aos meus momentos

...um terço
...um meio
...um quinto
...o inteiro

cálculos com segundas intenções que ajuda a dobrar e aprender sem quebrar  (nem preciso dizer que chorei)

Amei "Cacos de mim"
na página 13, número místico, ela fala de liberdade
"completo-me enquanto me busco
busco-te enquanto me completo"    LINDO

Em Estranhos (pag 19) disfarça-se angústias, enterra-se emoções puras e se vê morrer, sem sequer ter nascido (lágrimas)
...ria do nada, não sabia do tudo 
agradava falsamente, vivia sem viver  DEMAIS

Alma Calada também me tocou.

Dentro de mim, simplesmente adorei.
Meu bem querer - adorei também
Se eu fosse você é in-crí-vel acho que este é o pole position  "ilumino a tua sombra e a faço crescer, uau, sem palavras
cintilamos juntos, entre apertos

Em amor verdadeiro, muitos risos com a minha identificação total com a parte
e até mastigar é complicado,
dá uma moleza no maxilar...  
todas as vezes que me apaixonei eu emagreci,rsrsrs agora estou tomando remédio para tirar o apetite
Prece ao vento - awesome

"Você", é maravilhoso, conseguiu escrever só com a letra v coisas que fazem sentido - adorei

Larga tudo também é o máximo

No trânsito da página 67 é muito bom e pelo visto o engarrafamento era grande que deu o trânsito II também muito bom " impaciente momentos que passo enquanto não passo"

Vida é nota 10 - "escolho e piso onde me encaixo
não temo mais a ribanceira"
Lua do meu coração, Sem poesia, Vida e morte (sem palavras)
Crescimento que foi o primeiro que li e adorei de cara

Interrompida - destaco para a caixa do pensamento
"um feto em mim
que não cresceu

que o ventre é abrigo incerto
mas a única certeza, eu não queria   (LINDO)

Morte - "O rosto, sem brilho, cheio, mas de vazio"   - no words

Aprendizado também é lindo

Em Pingo de Luz, escrito para o filho, o conselho da mulher forte
"Se lhe amarram os pés, 
liberta o espírito
que sempre pode voar"  A-D-O-R-E-I

Em Estações da Alma ela nos lembra das estações que chegam sem flores para todos.

Terminado o livro pulei para o Prefácio (momento sem controle meu), ali ela explica que seus versos saíram dos pés, encontram-se agora no coração e não aprisionados sairão pela cabeça, ganharão o mundo e novos corações de quem precisa se manter em pé.

Aplausos para você, levarei ele no nosso encontro para um autógrafo.
Obrigada pela leveza e suavidade que trouxe com suas palavras.

Rose T

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Histórias da Noite: Carlos Rosa Moreira

Boa noite Evandro e Carlos


Já terminei a leitura do livro "Histórias da Noite", recentemente lançado por Carlos Rosa Moreira e, mais uma vez, devo expressar minha admiração pela riqueza da criatividade do autor, que busca os temas mais mirabolantes, personagens às vezes quase inacreditáveis, para nos oferecer algumas histórias  bem soturnas, que tanto podem ter ares de realidade como,  em alguns casos,  parecem ficção transcendente que quase nos tira o sono. Mas como tudo é muito bem escrito, com vocabulário preciso e fluência de ideias, a leitura prende e agrada.

Parabéns, Carlos, por mais essa obra que nos propicia bons momentos de leitura. 

Abraços de sua antiga leitora e admiradora, 

Gracinda.

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Terminei de ler o livro de Carlos Rosa. Achei surpreendente. Quem leu "Amanhã de manhã em frente ao cinema Icaraí" ou "A montanha, o mar, a cidade" tem dificuldades em reconhecer o estilo do escritor, pelo menos eu tive. Sim, o vento, o mar, a natureza aparecem, mas bem mais discretos. "Histórias da noite", como o nome sugere,trata de temas mais densos, fortes, violentos. As descrições das situações-limite são muito bem feitas, como no conto "Chuva de filho", um dos meus preferidos. Laíze e João é muito interessante, gostei da perspectiva do autor. A casa dos gritos é terrível e muito belo, adoro o que questiona a visão comum. Um estranho acontecimento é sinistro, sem falar em Eugenia, que eu já conhecia e gosto muito. Não sei se o que serviu de inspiração ao autor foi o conhecimento de algumas das situações narradas, mas parece, tem cheiro de realidade ali e a gente sai impregnado. Parabéns, Carlos.  

Rita Magnago


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Aos amigos do CLIC, e, especialmente, Carlos,

Parabêns, Carlos, por suas "Histórias da Noite"!

Mais uma vez, encantada, termino de ler um livro seu! Considero-o um excelente contador de histórias. À vezes, leves, saborosas, líricas. Outras, densas, cruas, mostrando a realidade cruel e o  cotidiano miserável e angustiante de certos habitantes da cidade. Principalmente, dos que vagueiam pela noite, tão bem descritos por você nesse livro. Mas, sempre, um escrever escorreito, espontâneo, conquistando o interesse de quem o lê. Mesmo nessas histórias, é possível encontrarmos o olhar lírico, sensível, humano, do escritor-poeta de "A Montanha, O Mar, A Cidade". "Tudo em minha cabeça vira literatura. É uma exigência escrever, uma deliciosa exigência", você disse em entrevista. Que bom haver essa exigência! Deliciosa, também, para seus leitores.

Que venham mais histórias!

Carinho e Amizade.

Elenir


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O livro chegou num clima de mistério: sem lançamento, capa em degradê de preto, sem prefácio ou apresentações de outrem, título sugestivo e um escritor que continuamente surpreende...

O que vi e senti foi uma diversidade de enredos, personagens, estilos, tamanhos, desfechos e fendas de dúvidas ou aberturas que parecem convidar o leitor a co-criar as histórias.


Carlos transita em mundos plurais como um menino voyer que capta o sublime e o repugnante.  Senti ternura, nojo, surpresa, perplexidade, dentre tantas outras emoções...  

Algumas frases que me pescaram:
"... quem muito ri acaba chorando." p. 93
"Fiquei com cicatrizes no corpo e na alma." p. 140
"Talvez o tempo houvesse parado naquele momento, ou talvez sejam parte da vida os acontecimentos extraordinários percebidos ou recônditos, nos quais podemos ser vítimas, participantes afortunados ou simples mensageiros.  Seja lá o que for, preferi deixar no rol das boas coisas provindas do obscuro destino."p. 166-7


Das histórias, me chamou a atenção o homem com sede de esperança.

Parabéns Carlos por mais um livro, por seu desprendimento, sensibilidade e coragem.

Cris


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Amigo Carlos, 

      O livro História da noite me emocionou profundamente. Foi uma viagem cheia de surpresas, emoções, sustos, reflexões e aprendizados.

            É difícil escolher os contos que mais me impressionaram neste mergulho (ou seria um passeio numa dessas montanhas-russas?). Mas cometerei o absurdo de destacar alguns. São eles: A viagem; Eugênia, A escapada, Eguinha, Laize e João, O remorso, A casa dos gritos e Uma opinião.

          Fiz muitas anotações durante a leitura. As descobertas, os espantos, estão assinaladas nas páginas do livro, pois não havia tempo para encontrar lugar mais apropriado. Nomes de novos contos estão anotados ali, pois muitas vezes você me despertou a escrita. Também estão lá nomes de contos prontos, pois eu percebia que algo mais podia ser acrescentado, em função do que eu estava lendo.

          Uma riqueza o teu livro. Riqueza humana, artística e profissional.

          Fico a pensar como é o seu interior e suas noites de sono, diante de tantos e complexos personagens e pensamentos... Mas é você mesmo que nos salva ao dizer-nos que “somos um mundo, não temos conhecimento sobre até onde se estendem nossos horizontes.” e que “não devemos nos chocar com as descobertas que fazemos a respeito de nós mesmos.”

          Obrigado, amigo.
Hélio Penna


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No Vale de Ossos Secos: Mike Sullivan


Review: Antonio R
O tenho a dizer sobre este seu primeiro (?) livro expressarei na forma de comentários. São apenas as minhas impressões, tal e qual costumo explicitar no Clube, aqui por e-mail ou nas reuniões sobre as leituras que fazemos. Esteja à vontade para questionar alguma insanidade que eu porventura venha a cometer ao escrever meus comentários. Vamos então ao livro.



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— Considerei o trecho a seguir, o mais importante para compreender essencialmente a história que você narra ao longo do livro, ela é, por assim dizer, o “Fio de Ariadne” da  história narrada em seu livro. Vejamos:

“Nosso destino vai sendo traçado pelas perdas ao longo do caminho, a morte de outras pessoas, o abandono de coisas que, de repente, deixamos de acreditar, a decepção do mundo e ao fim, morrer, sem ter a certeza definitiva de para qual lugar essa morte nos leva.”p. 127

O seu personagem principal, Ruy Dantas, parece ser conduzido por uma espécie de Fatum ou Moira; a trajetória dele parece moldada por um Destino, mas um Destino voluntário, que será capaz de influenciar o curso de sua vida; porém, não é um Fatum/Moira à moda greco-romana, mas sim o da visão pessoana, pelo heterônimo Ricardo Reis, que considera que os deuses estão acima por uma questão de grau, mas que acima dos deuses, no sistema pagão, se encontra o Fado, que a tudo submete :”Como acima dos deuses o Destino / É calmo e inexorável, / Acima de nós mesmos construamos / Um fado voluntário.” Ruy Dantas parece aceitar, em dado momento, esse Destino e segue pelos caminhos que ele aponta. E, por sorte ou Destino, os caminhos lhe serão bons, pelo que o futuro lhe reservará nos anos que seguirão após passar pela terrível noite existencial que o conduziu na busca por respostas.

O Autor
— Compreendo que o que foi dito acima tem muito a ver com o desenvolvimento inicial do livro, onde nos deparamos com um personagem angustiado, que chegou a um momento da vida em que se defronta com questões existenciais que o levarão a uma grande crise. Logo no início temos estes trechos:

“Ruy Dantas, a essa altura da vida, resolvera travar uma batalha existencial com sua própria mente, com seu ser, com sua essência.”  p.15

“Chegou em casa sentindo uma forte melancolia na alma, sentindo saudades de um tempo passado e sem retorno.” p.16

E mais à frente o personagem se encontra em seu ápice de crise, quando a idéia de suicídio começa a rondar-lhe o espírito:

“Olhou com extrema convicção para o abismo lá embaixo e no que aconteceria se deixasse seu corpo desabar de encontro ao chão. [...] Ah se pudesse sair voando sem rumo por aquela janela. Ruy Dantas se viu tentado a se jogar.”

Diante dessa angústia toda, Ruy Dantas irá tomar uma decisão, a meu ver, inusitada:
1) Visitar pacientes com câncer;
2) Ir a um templo religioso;
3) Entrar num cemitério.

A partir daí o Destino começa a guiar o personagem numa aventura que cuminará num futuro bom, ou melhor, grandioso, pois Ruy Dantas será laureado pela Academia Sueca e se tornará o primeiro brasileiro a ganhar um Nobel de Literatura. Aqui tenho duas observações:

a)      Não compreendi bem razão do personagem  fazer tais escolhas.
b)      Gostei do personagem principal, mas o considerei um tanto pretensioso. Pois, sabendo que Ruy Dantas será um futuro Nobel (o livro já começa nesse  futuro, quando ele se prepara para viajar e receber a honraria), há de se esperar que o personagem seja construído de acordo com essa característica, e é aí que ele não me convence. Fosse qual fosse um outro destino desse personagem, eu o consideraria muito satisfatoriamente bem construído.  Como já disse, aqui não é uma crítica, mas uma impressão que me ficou.

— Goste da abordagem ao sem-sentido da morte (talvez esteja aqui uma das razões daquelas escolhas) e do confronto que Ruy empreende contra os fantasmas que a muitos assola desde a infância, como é o caso dele. Gostei também da abordagem crítica à religião, em que considero os trechos abaixo dignos de nota:

“— Deus, você disse Deus? Não seja tolo. Num mundo dominado pela ganância dos homens não existe espaço para fé e tolas religiões. Deus não faz nada por mim nem por você. Estamos todos atolados num lamaçal de desgraça agora.” p .117

E Ruy, entregue a sentença do pai, diz a si mesmo:
“Eu só podia concordar com ele. Deus não havia feito nada. Minhas orações, meu pedido, foi tudo em vão. Talvez Deus nem existisse. “ p. 118

— Achei a temática da morte talvez um pouco excessiva. Ela torna a atmosfera do livro um tanto lúgubre, mas isto não quer dizer nada, pois pode ser justamente isto que desperte o interesse de outros, é apenas um questão mais de estética da recepção. 

Mike, há muito ainda que eu podia escrever, muitas impressões que eu poderia aqui colocar. Mas considero um bom começo o que já foi dito. Gostaria apenas de completar e dizer que no geral gostei bastante do seu livro, porque nele se percebe a gênese de um escritor com grande potencial. Não me eximi de expor a opinião crítica porque isto faço com qualquer livro que leio, e por mais consagrados que sejam, não há perfeição. E para não tornar este texto um ensaio, paro por aqui, e deixo logo abaixo um belo fragmento de um texto memorável de José Castelo. É bom para refletirmos, pois em geral, quando nos metemos a escrever , fazemos o movimento de dentro para fora. Queremos externar o que sentimos ou carregamos “dentro”. Mas esquecemos do movimento de fora para dentro, o “mergulho” no desconhecido mundo que há dentro de nós. Creio que é esse “mergulho” que permite, muito imperfeitamente, nos "tornar  o que somos" quando se nos entregamos à escrita.  


 “O escritor não é alguém que se veste com roupas suntuosas, ou da moda; é mais
alguém que se despe, se desnuda, não para exibir-se (não para chocar, ou para constranger), mas chegar ao centro de si. Cada um de nós tem seu centro: limitado, imperfeito, "torto" — mas ele está ali. Ele não nos equilibra, ele nos desequilibra. Não nos sustenta, mas nos desestabiliza. Fazer literatura é trabalhar com esse centro, dele fazer alguma coisa,"tornar-se" o que se é.” -  
José Castello





Um grande abraço, 
Antonio R



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Review: Angela Ellias


LIVROS : “PEQUENOS AMORES” e “CABINE INDIVIDUAL”

AUTORA: GRACINDA ROSA

Essas duas joias literárias abordam uma peculiar capacidade de amar, de se entregar, e de se revelar através da literatura.  A autora, com seu estilo espontâneo e direto, atrai o leitor durante toda a narrativa em primeira pessoa. Em “Pequenos Amores”, ao escrever suas lembranças, mesmo mesclando ao real alguma ficção, faz por se imortalizar e por imortalizar esses amores que fizeram parte de sua vida. E foi justamente essa peculiar capacidade de amar que me espantou já nas primeiras páginas de “Pequenos Amores” pois  foi a minha alma que eu vi ali naqueles contos. Isso era fantástico. Eu precisava conhecer essa autora e foi assim que eu a abordei na rua, dizendo da minha admiração pelo livro e da minha identificação com o seu conteúdo. Meus pequenos amores e minha capacidade de amar e de me entregar guardavam muitas semelhanças com o que “Rosa” contava.  O menino do circo que passou na minha cidade mereceu meu amor, o colega sem graça da minha sala de aula, o atleta do time da escola, o trocador de ônibus.  E  muitos outros  pequenos amores  que passaram por minha vida, mesmo  em situações um pouco diferentes, mas que também aconteciam, perdiam-se,  mas sempre surgindo outros amores a seguir, preenchendo rapidamente o vazio deixado pelo anterior.   

Rosa era rápida para identificar o seu eleito, que passaria a ocupar o lugar de honra no  seu coração e que estaria nos seus pensamentos nas 24 horas do dia. O olhar de Rosa era certeiro, auxiliado pelo pulsar forte do seu coração e pela adrenalina que corria pelo seu corpo nesses momentos especiais.  Assim era. Rosa amava. Alimentava seu amor até não poder mais. Eram amores puros, inocentes, platônicos, sonhadores. 

As perdas aconteciam, traziam dor para Rosa, mas logo logo Rosa era surpreendida com uma nova emoção, com outro amor, com o novo eleito. Era, como sempre, aquele pulsar desordenado de seu coração, aquela adrenalina do amor mais uma vez na sua vida. Ah, e não é que aqueles obstáculos do amor que a vidente previra se tornaram reais mesmo para nossa querida personagem  !!!  Os amores surgiam e desapareciam por variadas contingências, mas Rosa não sucumbia às perdas. Rosa tinha uma vida ativa, seus estudos, seus livros, suas praias, suas caminhadas, sua família, seus amigos.Penso eu que os  amores é que perdiam Rosa e não Rosa que perdia seus amores.  



Em “Cabine Individual”, volta “Rosa”, agora mais madura, contando seu caso de amor com”Hélio”. Por ele e para estar com ele, que fora morar em São Paulo, Rosa tira um mês de férias e parte numa viagem de trem, numa cabine individual. Ali, no balanço do trem, e na cabine individual, Rosa vai relembrando tudo que aconteceu com ela e Hélio, desde que se conheceram.   Após a chegada de Rosa em São Paulo,  a narração se modifica. Rosa agora está vivendo o presente com seu amor Hélio. Foi feliz por quase 30 dias. Um pouco antes de completar esse período  (Rosa não pediu demissão do trabalho, apenas férias; era preciso se certificar se esse romance era realmente verdadeiro antes de romper com todos os laços que a ligavam a sua família e a sua cidade) , Hélio a desapontou.  Rosa descobre que ele a traía num bilhete deixado pela outra em seu paletó, quando o esvaziava para mandar para a lavanderia. E assim Rosa deixa São Paulo e Hélio,  retornando para sua cidade numa viagem de trem, numa cabine individual. Mais um amor que perdia Rosa. 


A autora mais uma vez me deixa atônita por me ver ali, em situação semelhante, ao me entregar ao amor com a mesma coragem de “Rosa” de “Cabine Individual”.

MORAL DA HISTÓRIA:

Penso que eu, assim como a “Rosa”, temos uma outra capacidade além da de amar, que é a capacidade de sonhar. Talvez por isso mesmo, nós sejamos felizes com nossos amores feitos de sonho, inocentes, platônicos,  já que no amor real  surgem a todo momento aqueles incômodos obstáculos, que afastam de nós nossos amores. 


* * *


“Pequenos Amores” (Literatura brasileira. Ficção)
São insensatos os enamorados, em seu eterno recomeço da paixão.


Publicação/Edição: da autora. 124 p. [2005]

Sobre a Autora: Gracinda Rosa nasceu num lugarejo chamado engenheiro Passos, no município de Resende (RJ), em 1933. Reside em Niterói desde 1945. Formou-se professora no Instituto de educação de Niterói. Fez o curso de Pedagogia na antiga Faculdade Fluminense de Filosofia. Na UFF, completou o curso de Jornalismo e o Mestrado em educação. Foi professora primária e de ensino Médio. Atualmente, está aposentada. Participa da Associação Niteroiense de escritores.

Sobre a Obra: "Em seu livro de estréia, Gracinda Rosa nos encanta com a sutileza delicada com que fala de amor. Como todos sabem, amores podem ser imaginados, sentidos, vividos, pensados, correspondidos. Ou não. Neste livro, importa que eles são inequivocamente reais, e disso não se duvide. Pequenos Amores revela o toque da escritora que domina o ofício e a arte. Cenas cotidianas se recriam, transformadas em lembranças indeléveis. Olhar pela janela, ir ao circo ou à escola, passear pela praia, atos assim, tão simples, são cenários perfeitos para se encontrar o amor, alguns amores. Amar não tem medida. Pequenos amores preparam para a vida em plenitude, para reconhecer o grande, quando chega. É deles que trata este livro." (Cyana Leahy)



“Cabine Individual” (Romance)
Quando, finalmente, na segurança da cabine do carro leito em que me instalara, acompanhei os ruídos e os solavancos característicos da partida do trem, pude sentir certo alívio. Ele foi se afastando, lentamente no início e depois tomando o ritmo acelerado que manteria por longo tempo. Seu deslizar pelos trilhos era suave, macio, causando apenas um leve balançar que mais parecia um embalo. Passaria toda a noite ali, sentada naquela poltrona, viajando ao encontro do desconhecido.


Publicação/Edição: Nitpress. 80 p. [2007]

Sobre a Obra: "Gracinda Rosa lançou-se (de peito aberto, há um ano, com seu Penenos Amores, apresentação corretíssima de Sônia Peçanha e Cyana Leahy. Agora nos traz uma experiência coloquial, ao mesmo tempo feliz e decepcionante. Mas, sem quaisquer exageros, e mediante uma linguagem de estuilo cauteloso e leve, ela irrompe fronteiras de preconceitos e renova o inevitável - desejo, paixão, desengano. "...Já era tarde para qualquer esperança. Tinha que dar um basta às ilusões."

Gracinda Rosa tem, nos seus escritos, uma ardência de juventude, embora estabeleça uma feliz convivência com a maturidade. Lemos seus romances com imensa ternura" (Renato Augusto Farias de Carvalho).


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Casos: Luzia Veloso


REPENSANDO A VIDA

A reunião do belo, 
do simples, do comum, 
em outro olhar, singelo 
repensar dessa trama,
torcida e entrelaçada
tal qual roupa pendurada
mostrando a mim,
desnuda e desemoldurada

Nessa terra batida e castigada,
amassada, pisada e ressentida
plante, afofe, adube a vida,
hão de surgir espécies floridas
'cravos, rosas e margaridas'
aproveite, repense a vida,
reveja por meus olhos,
balance e perceba
o quanto pesa
a leveza sentida.

Rita Magnago


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Review - Rita Magnago

Presença literária é o nome da antologia que conta com poemas de Elenir Teixeira, dentre outras poesias, contos e crônicas de autores de destaque. A obra é lindamente impressa e requintada, presente para os olhos e a alma. Claro, comecei pelos escritos de nossa amiga, duas poesias belíssimas. Elenir, amei. 'Desassossego' é tão a minha cara. Na angústia dos 'nossos' contrastes também anseio pelo mesmo abraço. É um desassossego gostoso que procura o que não sei se perdi, mas vou reencontrar em mim.



"As estações" são tão precisas, guardam e mostram tudo. Sua imagem de outono é qualquer coisa e precisamos incorporá-la à vida, despindo-nos das nossas máscaras para receber o que a vida traz, sem couraças, mas com coragem. O inverno ser aquecido pelo calor das palavras, da forma como você falou, tão lírica, lindo, e invernar na primavera, ah minha amiga, é demais. Obrigada.


Luzia Veloso acaba de tirar sua obra do forno, e que forno, e que obra! Fiquei encantada com tudo, as imagens, divinamente reproduzidas, a escolha da tipologia, a criação de cada página, os textos de nossa amiga, suas experiências criativas, reflexões, provocações, mudanças... C´est super! Luzia, amei especialmente o "Sagrado" e "Simbiose, Planeta Utopia". Parabéns! Fiz o poeminha abaixo inspirada na sua criação e recriação. Dedico a você. Grande beijo.


A reunião do belo,
do simples, do comum,
em outro olhar, singelo
repensar dessa trama,
torcida e entrelaçada
tal qual roupa pendurada
mostrando a mim,
desnuda e desemoldurada

Nessa terra batida e castigada
amassada, pisada e ressentida
plante, afofe, adube a vida
hão de surgir espécies floridas
'cravos, rosas e margaridas'
aproveite, repense a vida
reveja por meus olhos
balance e perceba
o quanto pesa
a leveza sentida






“Crônicas de Itaperuna & Outros Contos Literários” (Contos)
Feliz por essa realização pessoal, fiquei aguardando o regresso da esposa para ver sua reação...

Autor: Andrade, Aquiles

Publicação / Edição: Livro artesanal produzido pelo escritor. 150 p. [2003]

Sobre a Obra: Através de textos como "Quando Itaperuna Nasceu", "Nem Freud Explica", "Nossos Humanos Direitos", "Para um Bom Entendedor Meia Palavra Basta", e outros, Aquiles Andrade nos apresenta lembranças, reflexões e relatos interessantes e curiosos de sua vida e da cidade de Itaperuna. "Crônicas de Itaperuna & Outros Contos Literários nos é apresentada em linguagem descontraída e bem humorada. É leitura imperdível. Uma versão eletrônica gratuita do livro se encontra em ItaperunaOnline.




“Inventário de Tudo” (Literatura brasileira. Poesia)
Visão do poema: única imagem, palavra que não me sai da ausência.

Autor: Dadinho, Everardo de Andrade

Publicação/Edição: Editora Cromos. 112 p. [1992]

Prêmio Nacional de Poesia Affonso Romano de Sant'Anna

Sobre a Obra: "Inventário de Tudo é a resenha do poético Everardo de Andrade Dadinho. Por outro lado, não é somatório de parcelas que se interligam para um resultado simplesmente editorial. Ele é, sim, e antes de um livro singular em talento e ousadia, um cancioneiro do reino de mágicas essências, uma estranha vocação para o mistério de vozes em surdina, um signo perfeito e acabado de suaves profecias.

Consciente de seu ofício, Everardo de Andrade Dadinho cumpre o seu destino de esteta, sua missão de artista, seu compromisso com a beleza. Por isso, talvez, a virtude maior deste Inventário de Tudo seja a magia seqüencial de amor, envolvendo a temática de errantes passos, no caminho dos sonhos e das fantasias. Seu autor madrugou bem cedinho nos segredos do metro e do ritmo, construindo pauta de dizer próprio e anunciar verão às andorinhas das torres mais altas.

Estreiando em livro, Everardo de Andrade Dadinho é autor de quase uma dezena de outros tantos livros virgens, maculado apenas pelas mãos da amada, se é que mão de amada macula alguma coisa. Com este volume - a amada preside um coração de festas em temporal de adeuses - seu autor resgata seu débito com a cultura da terra fluminense e alça vôo aos mais altos cumes da poesia contemporânea. Affonso Romano Sant'Ana e Maurício Cardoso Faria - mestres exigentes porque mestres - que o digam.

A Editora Cromos chancela Inventário de Tudo, de Everardo de Andrade Dadinho, agasalhando-o sob o volume 25 da Coleção Signo da Rosa. Ele próprio um signo de ternura e messe." (Angelo Longo)



“Belém do Grão-Pará” (Romance)

Autor: Jurandir, Dalcídio

Publicação: Fundação Casa de Rui Barbosa

Edição: Marta de Senna e Soraia Reolon Pereira.

Co-ed.: Editora da Universidade Federal do Pará. 548 p. [2005]

Sobre o autor: pai do nosso querido companheiro de leituras José Roberto.


2 comentários:

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