CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de setembro de 2013

Guarde seus manuscritos longe dos cachorros (Bel-CLIc nº 006 de 01/10/2013)

O conselho poderia ter sido dado a John Steinbeck, autor de Ratos e Homens. Parte importante de seu manuscrito foi literalmente comido por Toby, seu cachorro, em uma noite em que Steinbeck o deixou sozinho em casa. Em telefonema a seu agente o escritor disse: “Eu fiquei bem irritado, mas o pobrezinho deve ter feito isso em um momento crítico".



Se você conhece alguma curiosidade literária interessante, compartilhe com a gente escrevendo-a no campo "Comentários".

O que leem outros Clubes de Leitura? (Bel-CLIc nº 006 de 01/10/2013)

Abaixo a relação de livros lidos este ano pelo Clube da Travessa (7 de Setembro)

  • Flores Azuis: Carola Saavedra - 29/01/2013
  • O Professor do Desejo: Philip Roth - 26/2/2013
  • O Jantar Errado: Ismail Kadaré - 26/3/2013
  • Se um viajante numa noite de inverno: Italo Calvino - 30/04/2013
  • Uma solidão ruidosa: Bohumil Hrabal - 28/05/2013
  • Hotel mundo: 25/6/2013
  • Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra: Mia Couto - 30/07/2013
  • Alta Fidelidade: Nick Hornby – 27/08/2013
  • O amante do vulcão: Susan Sontag – 24/09/2013
Se você já leu algum destes livros, dê sua opinião no campo "comentários"

29 de setembro de 2013

1934: Alberto Moravia


  "Você está pensando em se matar?"
Getty Images

 Os sinais do suicídio



Champignon - músico do Charlie Brown Jr.


"É possível viver no desespero sem desejar a morte?"


"... a juventude não vê as coisas que a circundam no presente imediato, mas quer ver o que a espera no futuro longínquo. Mas no futuro não há nada, não pode haver, tudo aquilo que nos diz respeito está no presente. Com o passar dos anos, pensa-se sempre menos no futuro e sempre mais no presente. Ou talvez no passado, ..."




Eu dormia, dormia,
De um sono profundo acordei:
Profundo é o mundo,
E mais profundo que nos pensamentos do dia.

Profunda é sua dor,
Prazer - mais profunda ainda que o sofrimento:
Diz a dor: morre!

Mas cada prazer quer a eternidade,
- Quer profunda, profunda eternidade.

(Nietzsche)



"No meu lugar, sentia-me mais uma vez no estado de espírito desconcertante, e que para mim não era novo, de estar desesperado por não estar desesperado. Isto é: o desespero estava incubado no fundo de minha alma, como para sempre; mas isso não me impedia de apreciar o lindo dia, a paisagem magnífica, a boa comida e, naturalmente, a beleza áspera e ambígua de Trude. Poderia ser a chamada estabilização (do desespero) que eu perseguia há tanto tempo? Seria o desespero estável e normal que permite gozarmos o próprio prazer da vida, aliás gozá-lo ainda mais, já que não esperamos mais nada? Mas, em lugar da estabilização, tudo isso não ameaçava levar-me a uma espécie de hipocrisia? A sentir-me desesperado e, ao mesmo tempo, a comer e beber à vontade, a fazer amor sem remorsos e a exaltar-me liricamente com a natureza?"



Heinrich Kleist & Henriqueta Vogel
by 

kar2nist


Duplo suicídio?

Um "belo" suicídio a dois, à moda de Kleist: Lucio flerta com o suicídio por desespero, enquanto Beate por razões estéticas.

"Aquele que ama a vida com prudência, já está moralmente morto, pois sua mais intensa força vital, que é de podê-la sacrificar, atrofia-se, quando ele cerca-se de cuidados". (Heinrich Von Kleist)

Camus inicia sua obra "O mito de Sísifo" afirmando: “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio”;

Emil Cioran flerta com o suicídio e se indaga: "Por que eu não me mato?” Em outro momento ele responde: “faz bem pensar que a gente vai se matar”;

Assim falava Nietzsche:  “A ideia do suicídio é um poderoso consolo: ela ajuda a passar mais de uma noite ruim”;

Para os estóicos “o suicídio é visto como um ato de razão";

Para Tomás de Aquino "o suicídio é sempre pecado mortal, porque vai contra à caridade e à lei natural”.

Dante lança ao fogo do inferno todos os suicidas;

Para Kierkegaard, "o suicídio é o sinal mais claro de que o indivíduo deixou-se vencer pela doença mortal, o Desespero";

Lucio, protagonista do livro do mês de Outubro no CLIc quer estabilizar o desespero, seja porque o considera a condição normal da existência humana, seja porque se sente fascinado pela questão, sobretudo, do duplo suicídio como um possível ato de amor. O desespero do personagem é um tanto superficial, não se comparando ao sentimento expresso nas citações filosóficas de acima. Longe disso! A trama se desenrola num espírito totalmente diverso, divertida. Ele chega ao ridículo de se desesperar por estar se sentindo maravilhosamente bem em usufruir das delicias de um banho de mar na ensolarada Piccola Marina. Sem dúvida que se trata de uma narrativa bem humorada e irreverente, seu desespero sendo, talvez, uma forma de atrair a cumplicidade do leitor em sua aventura bizarra de intelectual burguês. O desespero para Lucio me parece apenas um conceito. A suposta vontade de cometer um suicídio duplo é puro jogo de cena, resulta de uma mescla de desejo erótico e fascinação mórbida. Não garanto, no entanto, que seja isso que o leitor vá encontrar nas páginas de "1934". Prepare-se para o inesperado. "Profundo é o mundo, e mais profundo que nos pensamentos do dia".




Vamos debater a psicologia do suicida em outubro no Clube de Leitura Icaraí sob a batuta do psicólogo e escritor Mike Sullivan, autor de "Terapia das almas suicidas", para quem a literatura o tem salvado do aniquilamento total. 

Capri




"Assim, iniciou-se uma espécie de diálogo entre os nossos olhos, que durou até o momento em que o vapor entrou no porto de Capri. Eu a olhava e ela me olhava. Com surpresa, descobria qualquer coisa que sempre soube, mas nunca experimentei, isto é, que com os olhos se pode não apenas comunicar, mas também falar de maneira particular e distinta... "








A obra "Melancolia I (1514), de Albrecht Dürer (© Trustees of the British Museum), autorizada sua publicação no livro comemorativo de 15 anos do Clube de Leitura Icaraí, estará em evidência, também, por ocasião do debate de 1934, do italiano Alberto Moravia.



"Amo-o e sei que você também me ama, mas entre nós dois não existirá nada mais do que olhares. Uma verdadeira e completa relação entre nós é impossível."







Alberto Moravia
Birth: Nov. 28, 1907
Death: Sep. 26, 1990
Writer. Born Alberto Pincherle, he was a major figure in the 20th-century Italian literature. In the 1930s he worked as a foreign correspondent for several major Italian newspapers and he travelled in the U.S., Poland, China, Mexico, and other countries. His works were censored by Mussolini's government, and placed by the Vatican on the 'Index librorum prohibitarum' (Index of Forbidden Books). Several of his books have been filmed, among them "Two Women" by Vittorio De Sica, "A Ghost at Noon" by Jean-Luc Godard" and "The Conformist" by Bernardo Bertolucci. Later in life, he entered the world of politics and represented Italy in the European Parliament from 1984 until his death. (bio by: MC) 


24 de setembro de 2013

Ah, você numa tarde em Itapuã...: Carlos Rosa Moreira


Itapuã Beach by Anna Brazão

           O calção de banho não era velho, foi presente seu, mas a conversa dos coqueiros era macia, lembra? Acho que não lembra, não é chegada a essas recordações, pensa que isso é nostalgia. Não é não, boba, sinto dor não, nem saudade; sinto felicidade por ter visto você naquela praia longa e deserta, numa tarde perdida de nossas vidas. Você caminhava pela areia seca e às vezes deixava as águas tépidas do mar de Itapuã molharem seus pés. Eu vigiava você com seu biquíni azul-marinho à procura de búzios na areia. Os mesmos búzios com os quais os babalorixás consultam seus deuses e que também enfeitavam seu biquíni. Todo homem deveria apreciar a amada vindo de longe, imersa em distrações, sem se perceber observada. Mas tem de ser a mulher amada, aquela amada pra valer, à qual dedicamos todos os tempos e espaços, pelo menos naquele instante da vida. Era assim que você vinha, com suas distrações, solta, livre, tornando-se para sempre uma doçura em minhas lembranças. Eu a olhava embevecido, orgulhoso por tê-la, cheio de intenções por sabê-la minha. Meu olhar a atraiu, você sorriu e eu vi seus dentes pequenos e perfeitos, e desejei que voltasse logo para perto de mim, para abraçá-la e sentir seus dentes em minha boca. À noite, em nossa casinha de pano, falávamos de amor enquanto ouvíamos os coqueiros dizerem coisas entre si, e eu cuidava de sua pele branca de carcamana que ardeu ao sol de Itapuã. Cedinho, você sempre dormia. Eu caminhava até a água, bem ali, a poucos passos da nossa casa. Recebia aquele afago morno das ondas mansas, depois me sentava na areia, diante do mar que inaugurava um verde novinho todas as manhãs. E me sentia um rei só por ter você, e, sem saber, por não ter passado. Tínhamos apenas o desconhecido. Você logo acordaria para viver junto comigo esse desconhecido, tão sem tamanho quanto o mar de Itapuã.

            Hoje, sou um homem feio, cheio de cicatrizes que desfiguram minha face. Aquela jovem de corpo perfeito e olhos brilhantes não olharia para mim. Tenho um passado e espero por algum futuro, mais um pouco pelo menos. Disseram-me que já não existem os serenos coqueirais nos longos espaços da praia de Itapuã. E a igrejinha da Praça Caymmi, referência naqueles tempos, é hoje humilde alegoria do passado. O desconhecido tornou-se conhecido. Mas isso não importa, também não ligo se me considera um nostálgico e não dê importância a essas lembranças. Saiba que ainda percebo o arrepio em nossa pele queimada pelo sol daquelas tardes, pois havia sempre um friozinho gostoso trazido pelo vento do mar. Do mar que Vinícius cantou e contou que se encontrava com o céu, onde até hoje meus olhos se esquecem, e se lembram de que a Terra toda rodava enquanto eu adormecia em seus braços, sob a Lua morena de Itapuã.

Carlos Rosa Moreira é autor de "A montanha, o mar, a cidade", 
livro debatido no clube de leitura Icaraí em 4/11/2011

À venda na Estante do Concierge:



(peça o seu volume ou a coletânea no campo de comentários ou pelo conciergeclic@gmail.com)

20 de setembro de 2013

Entrevista em dose dupla: Elenir Teixeira & Sonia Salim

Escritoras de várias antologias poéticas, Elenir e Sonia, ambas integrantes do Clic, nos brindaram com uma entrevista-desafio. As perguntas foram formuladas por elas próprias, sendo que a entrevistadora também tinha que responder à própria pergunta e à da colega. Vejam o resultado e deem continuidade à entrevista utilizando o campo “Comentários”.


 
                               Elenir Teixeira                                                            Sonia Salim

Que emoção você gostaria de despertar em um leitor de seus textos? 

Elenir: Que eu despertasse nele as mesmas emoções e sentimentos que me levaram a escrever. Se eu trouxer lembranças  de minha infância, que ele consiga, também, trazer as suas ao presente. Se houver carência e angústia no meu texto, que ele, igualmente, as sinta comigo. Se eu falar de amor, que ele se lembre dos amores vividos. Que ele sinta em seus cabelos a carícia da brisa, se ela afagar os meus no meu verso. Esta é a relação idealizada por mim entre  autor e  leitor.

Sonia: Quando eu escrevo, pretendo levar o leitor a uma cadência nas palavras fazendo com que ele entre nas emoções contidas no poema de maneira dançante, onde as letras e palavras brincam.



Como ou em quê, você se inspira para escrever seus poemas, haicais, trovas? 

Elenir:  Quando faço  Haicais, inspiro-me na natureza. As paisagens, as flores, os rios, o mar, as montanhas, me extasiam. Ando, sempre, com um caderninho e sob o efeito desse arrebatamento escrevo meu HAICAI.  Há textos que trazem aos meus olhos  lindas paisagens, descritas  com muita sensibilidade, como os da grande escritora Virgínia Woolf, inspirando-me um Haicai. Mas, algumas vezes, faço-os sentimentais. Como os dedicados à minha bisnetinha ao saber que estava a caminho. Quanto aos poemas e trovas, são, geralmente, inspirados na própria vida; no meu quotidiano; nas minhas memórias, nas minhas leituras.

Sonia: Às vezes me inspiro em conversas com amigos, outras em fotos ou imagens que vejo pelas redes sociais. Também me inspiro nas leituras diárias, alguns personagens tocam a minha alma  e impulsionam a imaginação. Sem contar dos momentos em que preciso sair correndo para escrever as palavras que fluem e já está pronto o poema, é só fazer pequenos acertos.



O que desencadeou ou concorreu para que você entrasse pelo caminho da poesia?

Elenir: Sempre gostei de poesia. Quando menina, gostava de recitar versos nas festinhas familiares e na escola. E, como todo jovem. rabiscava minhas poesias. Mas, se as palavras me eram apaixonantes, os números e as contas também me atraiam.  Assim, a vida me levou para esse lado. Trabalhei com cálculos e cifras por mais de quarenta anos. Ao aposentar-me, dediquei-me à antiga  paixão. Fiz várias Oficinas de Literatura, dinamizadas pelos grandes escritores e amigos Wanderlino T. Leite Netto e Lena de Jesus Ponte. Com ela, também, um Curso de Haicais, na Estação das Letras. Fiz o Curso de Arte de Dizer, "Via Látea", com Marly Prates. Dessa forma, novamente seduzida pela palavra, rendi-me de vez à poesia. 

Sonia: Eu já havia iniciado um blog, mas estava meio paralisado até que um dia eu fiz uma conta no Twitter e conheci muitos amigos. Meu primeiro poema "insensatez", surgiu em conversa com um deles, desse dia em diante fui registrando tudo que eu escrevia no blog que tornou-se mais e mais visitado. Então, eu diria que fui impulsionada para o mundo da poesia através da interação com as pessoas. 



Quais são seus autores preferidos? Nacionais e estrangeiros?

Elenir: São tantos que me é difícil relacioná-los. Vou fazê-lo por gêneros.
Poesia: Cecília Meirelles; Carlos Drummond de Andrade; Adélia Prado; Mário Quintana; Fernando Pessoa. Haicais: Luiz Antônio Pimentel e Lena de Jesus Ponte.
Contos e Crónicas: Clarice Lispector; Machado de Assis; Chico Lopes; Eduardo Galeano; Rubem Fonseca; Ondjaki; Rubem Braga...
Romances: Machado de Assis; Graciliano Ramos; Guimarães Rosa; Milton Hatoum; José Saramago; Mia Couto;  Camus, Dostoiévski...

SoniaEu caminhei pouco no mundo da literatura e penso que não dê para falar muito. Acho importante ser sincera porque os amigos ao tomarem conhecimento poderão ajudar nas indicações do que eu preciso ler, do que é imprescindível para o conhecimento. Deixarei alguns nomes, sem fazer distinção: Rubem Alves, Mario Sergio Cortella, Mario Vargas Llosa, Arthur Schopenhauer, Dostoiévski, Mia Couto, Eduardo Galeano.






18 de setembro de 2013

A miséria que alicerça o crime

A data do próximo encontro se aproxima, então vou deixar aqui algumas palavras sobre essa obra que é uma das melhores de um dos maiores escritores que o mundo já conheceu. Peço desculpas pelos parcos comentários sobre o livro, há bem mais o que dizer sobre ele do que o que direi agora, mas muito do que se pode dizer, já foi ou ainda será dito pelos membros do nosso clube e alguns críticos. Mas, depois de tantos “quês” e “ditos”, toda contribuição é válida quando se pretende valorizar um bom livro e conversar sobre ele. Então, vamos ao que interesse.

Angústia é um nome perfeito para o romance de Graciliano Ramos, tanto pela forma como vive e sente o mundo o protagonista, como por nós leitores que nos vemos angustiados, senão durante todo o livro, pelo menos durante grande parte dele, graças à narrativa de Luís Pereira da Silva e suas queixas e considerações sobre o mundo e as pessoas que o rodeiam e rodearam, condicionada na forma e estilo da poética de Graciliano Ramos.

Num fluxo de consciência e monólogo interior, o texto é contado a partir do fim, de cerca de trinta dias depois de Luís da Silva ter acordado dos delírios de febre que lhe acometeram após o dia em que assassinou Julião Tavares. Desde esse momento, através de um flashback, passamos a conhecer o passado do protagonista, sua vida na fazenda com seu pai, seu avô, mãe, caboclos, cangaceiros e pistoleiros que rendiam respeito ao seu avô, além de sua história recente com Marina e seus amigos, e, em pequenas digressões, determinados casos que viveu na sua terrível passagem pelo Rio de Janeiro, dentre outras lembranças periféricas.

O flashback a que me referi acima é, na verdade, uma soma de flashbacks coordenados, por assim dizer, em três grupos de memória, ou como nomina Silviano Santiago, três processos, sendo dois de rememoração e o último, um processo interno. Chamo de três grupos por entender que o terceiro também é memória. São eles: a lembrança do passado distante de Luís — sua vida no campo quando criança —, a lembrança mais recente — aquela de seu momento atual, referindo-se a sua vida pouco antes de conhecer Marina, por quem se apaixona, até o enforcamento de Julião —, e a derradeira, a qual se refere Silviano Santiago como processo interno, que "produz uma quantidade apreciável de casulos de redundância no tecido narrativo” (SANTIAGO, 2011, p. 344, grifos do autor). Santiago se refere às repetições que ocorrem durante o texto, com a aparição e sumiço repentino de certos elementos e passagens, o que para alguns críticos foi entendido como um defeito de pleonasmo, mas que na verdade é parte da forma e do estilo adotado para o livro que muito contribui para nos dar a sensação de ansiedade, bagunça mental e angústia por que passa o protagonista.

Todas essas lembranças, esse passado, pareciam fazer de Luís da Silva inferior, ou pelo menos sentir-se inferior, só — profundamente só —, e desiludido com a vida. Deduções a que podemos chegar através das declarações de Luís, sempre assombradas e feridas, e que, por sinal, vêm sobrepostas, entrelaçadas, com idas e vindas de uma história a outra, do passado ao presente, numa forma anacrônica; declarações que surgem atropelando-se e substituindo-se sem aviso de mudança temporal. As lembranças de ocorrências antigas invadem relatos de coisas recentes como para justificar ou complementar o sentido do que se diz agora; ou invadem simplesmente porque o pensamento de Luís é vago, desconexo, demonstrando pouca saúde mental — talvez devido a resquícios da febre pela qual passou, ou ainda, e mais provável, demonstra-se pouco saudável pela soma de acontecimentos que permearam sua vida, antiga e recente.

A soma desses passados, revividos na sua lembrança, incomoda Luís da Silva, funciona como combustível e fermento que se unem aos tormentos últimos e inflama a ferida já há muito aberta e recentemente agravada com a presença de figuras detestáveis aos seus olhos como o rico Julião Tavares, esnobe, metido a culto e literato, enganador de meninas pobres, mau-caráter e que, como se não bastasse, seduziu e lhe tomou a noiva. Além deste, o incomodam os vizinhos fofoqueiros, o trabalho e a sua desventurosa paixão por Marina, menina linda, sedutora, invejosa da riqueza, da suposta boa vida e bem-aventurança alheia, bem como sedenta por luxo e esbanjamento, apesar de ser filha de pais pobres e malfadados, atributos de Marina que a tornam nada confiável. Enfim, tudo engrossa o caldeirão de situações, piorando o estado de ânimo de Luís, que ainda perdeu com seu noivado todas as economias acumuladas sofregamente.

Talvez por Luís ter passado dias perdido em devaneios de febre, após o crime cometido, ele nos conta sua história como se turvado por sombras, como sonhos que ele mesmo parece não ter certeza se realmente aconteceram, ou se aconteceram como ele se lembra, segundo o próprio Luís da Silva deixa transparecer ainda no início do relato: “Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas umas sombras permanecem, sombras que se misturam à realidade e me produzem calafrios” (RAMOS, 2011, p. 21).

As noites compridas a que se refere são as que começaram logo após cometer o crime, quando volta para casa e parece entrar numa espécie de transe, alvejado por lembranças confusas e disformes, surrealistas como os quadros de Salvador Dalí.

Febril, histórias se sobrepõem, imagens alucinadas invadem seus olhos suspendendo-o num mundo fantástico e terrível, possivelmente vitimado pela culpa do crime, à semelhança do célebre estudante de direito, Rodion Românovitch Raskólnikov, de Dostoiévski, em Crime e castigo (1866), quando esse comete o assassinato e sofre por ter que viver com a culpa e toda a carga moral e psicológica do ato, quase enlouquecendo, expondo ao leitor todas as cores do sofrimento que acarreta o sentimento de culpa sobre um homem.

E é também dessa forma que se alucina e sofre Luís da Silva, homem simples de origem, marcado em sua simplicidade no próprio sobrenome, comum, vulgar entre as famílias brasileiras, “um cidadão como os outros, um diminuto cidadão que vai para o trabalho maçador, um Luís da Silva qualquer” (p. 35), como ele mesmo se define; porém consciente do mundo em que vive e dos seus atos. Como Raskólnikov no livro do russo. Semelhança que não pode nos causar estranhamento.

Entre Graciliano Ramos e os russos, sobretudo Dostoiévski, alguns pontos convergem: o estilo seco, duro, de traços naturalistas, sem pedantismo de linguagem ou mesmo maneirismo com o fim de suscitar esperanças românticas, e um forte apelo psicológico como, especificamente, ocorre em Angústia, à semelhança dos romances do autor de Crime e Castigo (1866), O idiota (1869) e Irmãos Karamázov (1881) — parte da obra que foi objeto dos primeiros estudos de Freud sobre a psicologia humana, segundo este revelou, tamanha é a carga humana e psicológica dos personagens do russo. Assim, se Freud é o pai da psicanálise, Dostoiévski seria uma espécie de avô?

Mas nos atendo ao romance do Velho Graça, através dessa enxurrada psicológica que quase transborda pelos quatro cantos do texto, toda a vida de Luís parece ter sido uma maçada, um incômodo. Oprimido pela realidade social e por si mesmo, via o mundo distante como se não vivesse realmente nele por inteiro. Havia sempre entre ele e os outros uma distância, um fosso de desconfiança e ódio. Não se entregava, não confiava em ninguém, não era parte de nada verdadeiramente. Até mesmo sua paixão por Marina era desconfiada e se assemelhava à posse e paixão sexual, e não a amor.

Ouvindo os relatos de Luís — digo ouvindo e não lendo porque, dada a qualidade deles, na sua força expressiva, podemos ter a impressão de que ele está a nossa frente nos narrando tudo, como num depoimento policial —, mas enfim, ouvindo Luís percebemos vários traços de sua personalidade, como certo ar de demência ranzinza: um homem distante, frio muitas vezes, e com atitudes sovinas que iam além da necessidade de seu estado de pobreza, e das exigências descabidas de Marina, como quando, conversando com esta e sua mãe, d. Adélia, sobre o casamento, considera razoável dispensar até mesmo o véu da noiva, normalmente um sacrilégio para esta:

— Estávamos combinando, Marina. Quanto mais depressa melhor, foi o que eu disse a d. Adélia. Gente pobre não tem luxo.
— É preciso fazer as coisas com decência, opinou Marina.
— Claro. Mas com modéstia. Não é, d. Adélia? Dispensa-se o véu. Para quê véu? Eu por mim casava hoje (2011, p. 81-82, grifo nosso).

Além disso, essa pressa para casar, “Quanto mais depressa melhor” e “Eu por mim casava hoje” mostram o medo da perda, a necessidade de se ver logo tudo decidido, irremediável, definido entre ele e a noiva, buscando com isso evitar um novo malogro na sua vida, uma nova decepção e tristeza; o que não consegue evitar, como sabemos.

Contudo, outros traços de sua personalidade nos surgem, como seu complexo de inferioridade; mas um complexo, por assim dizer, que não o reduz a zero, o diminui, mas o colocando dentro da sociedade, com certo valor, porém um valor baixo, o que indica que sofre, no entanto, não está de todo ausente de esperança ou algum amor próprio. Diz ele: “Considerava-me um valor, valor miúdo, uma espécie de níquel social, mas enfim, valor” (p. 50).

Possivelmente se considerava miúdo porque, vindo do mato para a cidade grande, primeiro sofre no Rio de Janeiro, passa fome, depois em Maceió, vive essa vida subjugada pelos boçais como Julião Tavares e pelos trabalhos que realiza para sobreviver — funcionário público e redator de textos políticos tendenciosos em troca de dinheiro, uma espécie de ghost writer. Enfim, um homem que se encolhe, como faz no café: “A mesa a que me sento fica ao pé da vitrina dos cigarros. É um lugar incômodo: as pessoas que entram e as que saem empurram-me as pernas. [...] passo ali uma hora, encolhido junto à porta, distraindo-me” (2011, p. 35), e completa na página seguinte: “Uma criaturinha insignificante, um percevejo social, acanhado, encolhido para não ser empurrado pelos que entram e pelos que saem” (2011, p. 37).

Como uma das consequências, tudo isso o deixa mais distante do mundo. E essa distância é mais sentida quando nos deparamos com seu relato sobre a morte e o velório do pai, quando Luís tenta chorar, mas não consegue; o pai é outro, distante dele, não lhe comove realmente, portanto, ele nada sente. Sua distância é marcada pela ausência de sentimentos, de lágrimas pelo pai; na verdade, todo aquele clima incomoda-lhe:

Penso na morte do meu pai. [...] Fui sentar-me numa prensa de farinha que havia no fundo do nosso quintal. Tentei chorar, mas não tinha vontade de chorar. [...] Sentia frio e pena de mim mesmo. A casa era dos outros. Eu estava ali como um bichinho abandonado, encolhido na prensa que apodrecia (2011, p. 31).

E quando chorou, não foi pelo pai: “Na verdade chorava por causa da xícara de café de Rosenda, mas consegui enganar-me e evitei remorsos” (2011, p. 33). Rosenda havia acordado Luís com um café no dia do enterro.

Já sua desilusão com a vida era fruto de uma forma de determinismo:

Estudava-me ao espelho, via, por entre as linhas dos anúncios, os beiços franzidos, os dentes acavalados, os olhos sem brilho, a testa enrugada. Procurava os vestígios das duas raças infelizes. Foram elas que me tornaram a vida amarga e me fizeram rolar por este mundo, faminto, esmolambado e cheio de sonhos (2011, p. 164).

Referia-se, quando falava das duas raças, ao avô negro chicoteado pelo feitor há 200 anos e ao avô caboclo, emboscado pelos brancos. Mas ainda sobre o determinismo, Jean-Paul Sartre dizia que, “[...] qualquer que seja o nosso ser, é escolha; e depende de nós escolhermos como ‘ilustres’ e ‘nobres’, ou ‘inferiores’ e ‘humilhados’” (SARTRE, 2001, p. 581). Ao contrário disso, o protagonista de Graciliano Ramos se vê escolhido.

Assim vive Luís da Silva, tomado pelo passado e pela fúria com o presente opressor. Sua angústia é a de Kierkegaard, que alega que a angústia surge da impossibilidade de realização de algo. Há a possibilidade, mas esta não se transforma em algo real, não se executa, daí a angústia pelo nada, pois essa realidade existe apenas como possibilidade e não como realidade, feito o que acontece com Luís da Silva que quer um mundo novo, diferente da dor em que vive, mas isso não acontece, e esse não acontecer o angustia. A falta de uma família feliz, de um amor verdadeiro, de amigos verdadeiros, tudo se mostra como a irrealização da possibilidade, ficando apenas na realidade do seu espírito. Nas palavras de Kierkegaard:

[...] A realidade do espírito mostra-se continuamente como uma forma que atrai sua possibilidade, todavia ela desaparece, tão logo que essa a agarra; é um nada, que nada pode, a não ser, angustiar. Mais ela não pode, enquanto ela meramente se mostra (KIERKEGAARD, 1952, p. 39).

Essa é a realidade da liberdade como possibilidade para a possibilidade, ou seja, o indivíduo tem na angústia uma forma de liberdade, porém, cativa, liberdade que só existe na possibilidade, que vive na angústia, e a angústia é a liberdade presa ali:

[...] a possibilidade da liberdade não é poder escolher entre o bem e o mal. [...] A possibilidade é o poder. Num sistema lógico é bem cômodo dizer que a possibilidade transforma-se na realidade. Na realidade, isso não é assim tão fácil e precisa-se de uma determinação intermediária. Essa determinação intermediária é a angústia, que tampouco explica o salto qualitativo como o justifica eticamente. A angústia não é nenhuma determinação da necessidade, mas também nenhuma da liberdade, ela é uma liberdade cativa, onde a liberdade em si mesma não é livre, mas sim cativa, não na necessidade, mas sim em si mesma (KIERKEGAARD, 1952, p. 47-48).

Aqui Luís da Silva aproxima-se ainda mais de Kierkegaard, essa angústia provoca uma ação, um salto para um novo estágio; estágio que, em Luís da Silva o leva ao assassinato, como uma busca pela liberdade de tudo o que o aflige. E na tentativa de realizar essa liberdade que, como eu disse, está apenas na possibilidade, presa na angústia, ele percebe que, após a morte, a liberdade seria impossível; daí vem a culpa, das consequências da ação que a angústia o levou a cometer.

A angústia para Kierkegaard permite que o homem descubra a diferença entre o bem e o mal; contudo, esse conhecimento também o angustia, pois percebe que não pode ser livre porque vive numa realidade de pecado. Dessa forma, a angústia é inerente ao homem, ela nos proporciona saltos, evoluções, faz-nos procurar ir adiante, e nos acompanha a vida inteira.

Outro ponto onde a angústia de Kierkegaard encontra a do protagonista de Graciliano Ramos é quando o filósofo afirma que não é possível angustiar-se do passado. E aí vocês me perguntam: mas no livro do Velho Graça não é também o passado que angustia o anti-herói? Sim, é. Por isso Kierkegaard diz que não é possível angustiar-se do passado, a não ser que haja uma relação de futuro com o indivíduo, ou seja, o que ocorreu no passado tem, no sentimento de culpa por ele, ou simplesmente na crença do indivíduo, a possibilidade de se repetir:

O passado, do qual eu devo me angustiar, precisa estar numa relação de possibilidade comigo. Se me angustio de uma desgraça passada, então, neste caso, não é que ela é passada, mas sim que ela pode, neste caso, se repetir, i. é, tornar-se futura. [...] Se ela é mesmo [realmente] passada, então não posso me angustiar, mas somente me arrepender. Se eu não o faço, então eu me permiti antes fazer minha relação com ela dialética, mas com isso, a infração se tornou ela mesma uma possibilidade e não algo passado. Se me angustio diante do castigo, então este é posto somente, tão logo, numa relação dialética com a infração (caso contrário, carrego meu castigo) e, então, eu me angustio diante da possibilidade e diante do futuro (KIERKEGAARD, 1952, p. 93).

E assim é Luís da Silva, constantemente relembrando o passado, a solidão, a tristeza, os dias de miséria, a falta de amor familiar e sua inadaptação ao mundo, fatos que ele teme se repetirem indefinidamente no futuro. O medo desse futuro ser um eterno moto-contínuo, a se repetir como um feitiço do tempo, quando os dias renascem iguais e a vítima desses dias revive tudo outra vez do mesmo jeito, provoca sua angústia. Daí, nesse sentido, o passado angustia e Luís da Silva encontra Kierkegaard.

Mas a angústia desse Silva também é a de Heidegger,

A angústia se angustia pelo próprio ser-no-mundo. [...]. O mundo não é mais capaz de oferecer alguma coisa nem sequer a co-presença dos outros. A angústia retira, pois, do ser-aí a possibilidade de, na decadência, compreender a si mesmo a partir do mundo e na interpretação pública (1986, §40, p.254).

A angústia do anti-herói de Graciliano Ramos é fruto do embate com a realidade, da sua presença nela, da sua existência em um mundo que não pode oferecer-lhe nada, ou pelo menos o que ele almeja. O ser-no-mundo de Heidegger, em Luís da Silva é a falta de compreensão com o outro, do seu papel, ou o que julgaria merecer, é a incompreensão da injustiça que julga sofrer. Angustia-se por não se realizar como ser-aí, que não vai a lugar nenhum.

Mas deixando a filosofia de lado e nos dirigido ao texto como estrutura, como construção. Para alcançar todo esse campo magnético de sombra e angústia, Graciliano Ramos não fez uso apenas de conhecimentos filosóficos, ou mesmo de suas próprias concepções do terror humano; uma boa dose de preocupação estilística foi usada em metáforas, em termos pesados, em declarações sufocantes, repetições que soam como redundâncias para alguns, mas que na verdade são formas de alcançar uma expressão que dê ao texto e, sobretudo à figura do anti-herói, a densidade necessária para ele ser quem é e para dar aos leitores a verossimilhança exigida que nos fará acreditar na história e no estado de ânimo de Luís, assim como no mundo existente no livro.

Alguns exemplos deixam clara essa intenção de intensificar o sentido do texto, como quando Luís da Silva está num bonde e este segue cruzando a cidade. Observando o tempo lá fora ele vê “os focos de iluminação pública, espaçados. Cochilando, piongos, tão piongos como luzes de cemitério” (2011, p. 26). Observação que dá vida a esses postes, na sua visão interior; vida bastante para cochilarem melancólicos (piongos), de uma tristeza tão profunda que se assemelham a “luzes de cemitério” — expressão que, assim como “cochilando” e “piongos”, remetem-nos à tristeza, a pesar; sensações presentes no ânimo de Luís, e imagens difíceis de serem lidas sem nos submeter à densidade do estado de espírito do personagem e do mundo segundo seus olhos.

Densidade que também recai sobre a chuva que envolvia Luís nos seus dias de inverno na serra: “Nos meses compridos daqueles invernos de serra muitas vezes fiquei tardes inteiras sentado à porta da nossa casa na vila, olhando a rua que desaparecia debaixo de um lençol branco de água em pó” (2011, p. 28, grifo meu). A cena traz solidão e desolação, vendo a rua sumir no véu da chuva, chuva que Luís descreve como “lençol branco de água em pó”. A densidade está na água que se assemelha a pó, embota a visão, turva, encobre e pesa. A água é quase sólida, é pó, e representa a vida de Luís, assombrada, sem limpidez. Por isso, seus olhos tristes já sofrem tendenciosos quanto a tudo o que presencia. Cada visão é distorcida para a sua dor da existência. No seu modo de ver, nada é claro e puro, nem mesmo a água que cai do céu.

Em outro momento, Luís da Silva nos descreve sua visão sobre si mesmo; um ponto de vista depreciativo e bastante significativo para que entendamos como ele mesmo se via e como queria que nós o víssemos, numa espécie de tentativa de nos causar empatia reversa, ou contraditória, como se buscasse nos impingir repulsa pelo seu estado miserável e pelo estado do mundo que o cerca, mas também nos causar pena, dó e sentimento de afeição e piedade pelo que ele tem se tornado. Seu mundo e sua vida claustrofóbica pela empatia, desejada ou imposta, causa-nos também claustrofobia. Acompanhamos sua história sempre com a sensação de que as paredes se fecham sobre nós, e a imagem de Luís pode nos dar pena ou repulsa. Enfim, diz ele sobre si: “Não sou o que era naquele tempo [da infância]. Falta-me tranquilidade, falta-me inocência, estou feito um molambo que a cidade puiu demais e sujou” (2011, p. 34, grifo meu). A cidade não o salvou do passado, ela potencializou seu estado de miséria.

Usei essas passagens, todas ainda do começo do texto, para mostrar que o narrador/personagem nos quer fazer entender sua condição desde o início do seu relato. Seu flashback vai gradualmente, e por intermédio de imagens fortes e histórias tensas de solidão e angústia, apresentando-nos seu mundo e o que construiu, o que pavimentou o caminho até este desembocar no assassinato.

Em suma, a vida de Luís da Silva é miserável como tudo o que ele descreve. O mundo parece acabar-se aos poucos, perder o sentido — se é que já teve um algum dia —, a depravação domina o mundo e a natureza de todos — menos a dele que, apesar de se esfregar com Marina no quintal, não se identifica como um depravado também, apenas como um infortunado miserável vítima das circunstâncias de sua vida passada e presente. Enquanto isso, a sombra que lhe embaçou os delírios na febre é a sombra que lhe embaçou toda a vida, mantendo-o sempre longe e distante da vida pulsante, deixando-lhe na eterna modorra, quebrada apenas pela agitação mental do romance com Marina e pelo crime que vem a cometer, em parte por ela, mas ainda mais por vingança contra toda a miséria que o subjugou, contra todos os folgados e inúteis Julião Tavares que lhe cruzaram o caminho, tomando seu lugar, empurrando-o para a mesa do canto do café.




BIBLIOGRAFIA

KIERKEGAARD, Søren A. Der Begriff Angst, Vorworte. Düsseldorf: Eugen Diederichs Verlag, 1952. [Trad. Iuri Andréas Reblin. In: Revista Eletrônica do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Protestantismo (NEPP) da Escola Superior de Teologia Volume 16, mai.-ago. de 2008]

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Trad. Márcia de Sá Cavalcanti Schuback. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2011. Edição comemorativa.

SANTIAGO. Silviano. “Posfácio”. In: RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2011. Edição comemorativa.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada. Trad. Paulo Perdigão. Petrópolis: Ed. Vozes, 2001.





Marcas de Portugal: Sonia Salim

Ele tinha o coração despretensioso
Era assim religioso
Nasceu na primavera e encantava
Quem o amava e respeitava

Generoso e nascido do Minho
Viu no Brasil a sua segunda pátria
Onde fez amigos e os ajudou
E no coração implantou

Admiração a Portugal
Ensinou coisas simples e grandes
Nos caminhos por onde passou
Conduziu a criança pela mão
Projetou a sua educação
Hoje é lembrança e símbolo
Saudade e certeza
De que a vida pode ser breve
Mas as pessoas de caráter
Deixam o exemplo na vivência 

                                                   @soniasalim    

Poema publicado na Antologia 

"E essa é uma forma carinhosa que preparei para homenagear os portugueses que tão gentilmente visitam o blog Adornando a Vida. Os meus sinceros agradecimentos."

"Agradeço a Deus pela suave existência do tio Manuel (1932-1985) que cuidou de minha educação. Ele nasceu em Paredes de Coura – Minho – Portugal."
                                                                          

Angústia


O desamor me angustia
as incertezas roem a minha alma
como ratos em seus ninhos
fazem com os trapos
Logo agora que a esperança
surgia feito algo tangível
fui abandonado 

Augusto Giacometti

com o coração ferido
Ah, como eu odiava!
Era uma golfada de ciúmes
que lambuzava o meu interior
ciúme da mulher, ciúme do homem
que desavergonhados se amavam
ambos descarados, felizes, com riso exposto
Prendo-me ao silêncio
Um silêncio temeroso que sufoca
e impulsiona-me para o beco da solidão
Escuro, frio, delgado, lúgubre
Assim era o meu mundo
longe daquele cruel e infiel amor
O vício me consumia lentamente
A insônia era a minha companheira, noite após noite
O livro e a imaginação eram os melhores afagos
dentro do peito lacerado pela vida
ali onde a morte faz a ronda
Nas madrugadas frias e sombrias
rompeu o fio da ilusão

               Sonia Salim

16 de setembro de 2013

O que é viver bem, segundo Cora Coralina?




“Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice.
E digo pra você, não pense.
Nunca diga estou envelhecendo ou estou ficando velha. Eu não digo.
 
Eu não digo que estou ouvindo pouco.
É claro que quando preciso de ajuda, eu digo que preciso.
Procuro sempre ler e estar atualizada com os fatos e isso me ajuda a
vencer as dificuldades da vida.
O melhor roteiro é ler e praticar o que lê.
 
O bom é produzir sempre e não dormir de dia.
Também não diga pra você que está ficando esquecida, porque assim você fica mais.
Nunca digo que estou doente, digo sempre:estou ótima.
 
Eu nunca digo que estou cansada. Nada de palavra negativa.
Quanto mais você diz estar ficando cansada e esquecida, mais esquecida fica.
Você vai se convencendo daquilo e convence os outros.
 
Então silêncio! Sei que tenho muitos anos.
Sei que venho do século passado, e que trago comigo todas as idades,
mas não sei se sou velha não. Você acha que eu sou?
 
Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias
minha própria personalidade, despedaçando dentro de mim tudo que é
velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e
determina os fortes.
 
O importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade.
Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça.
Digo o que penso, com esperança.
Penso no que faço,com fé.
Faço o que devo fazer, com amor.
Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende.”


13 de setembro de 2013

13 de Setembro - Angústia no Clube de Leitura Icaraí





“Nos meses compridos daqueles invernos de serra muitas vezes fiquei tardes inteiras sentado à porta da nossa casa na vila, olhando a rua que desaparecia debaixo de um lençol branco de água em pó”


12 de setembro de 2013

Museu das Belas Artes: W. H. Auden

Pieter Brueghel, A Queda de Icarus
Oil-tempera, 29 inches x 44 inches. Museum of Fine Arts, Brussels

Acerca do sofrimento, nunca se enganaram
Os Velhos Mestres: quão bem entenderam
A condição humana; como está presente
Enquanto os demais comem ou abrem uma janela ou seguem monotonamente a caminhar; 

Como, enquanto os velhos esperam reverente e apaixonadamente
Pelo miraculoso nascimento, deve sempre haver
Crianças que não queriam especialmente que acontecesse, patinando
Num lago na orla da floresta:
Eles nunca esqueceram
Que até o mais terrível martírio tem que seguir o seu curso,
A um canto, custe o que custar, nalgum local descuidado
Onde os canídeos acorrem com suas vidas de cão, e o cavalo do torturador
Coça o seu inocente traseiro atrás de uma árvore.
No Ícaro de Brueghel, por exemplo: como tudo se afasta 
Ociosamente do desastre; o lavrador poderá
Ter ouvido o splash, o grito desamparado,
Mas para ele não era um importante fracasso; o sol brilhou
Como devia sobre as pernas brancas que desapareceram na verde
Água; e o frágil e grandioso navio que deve ter visto
Algo de espantoso, um rapaz caindo do céu,
Tinha um destino para atender e afastou-se calmamente.
* * *

(original)
About suffering they were never wrong,
The old Masters: how well they understood
Its human position: how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer's horse
Scratches its innocent behind on a tree.

In Breughel's Icarus, for instance: how everything turns away

Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water, and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.