CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

31 de agosto de 2016

Hélio Penna comenta "Histórias da Noite" de Carlos Rosa


            Amigo Carlos, 

      O livro História da noite me emocionou profundamente. Foi uma viagem cheia de surpresas, emoções, sustos, reflexões e aprendizados.

            É difícil escolher os contos que mais me impressionaram neste mergulho (ou seria um
passeio numa dessas montanhas-russas?). Mas cometerei o absurdo de destacar alguns. São eles: A viagem; Eugênia, A escapada, Eguinha, Laize e João, O remorso, A casa dos gritos e Uma opinião.

          Fiz muitas anotações durante a leitura. As descobertas, os espantos, estão assinaladas nas páginas do livro, pois não havia tempo para encontrar lugar mais apropriado. Nomes de novos contos estão anotados ali, pois muitas vezes você me despertou a escrita. Também estão lá nomes de contos prontos, pois eu percebia que algo mais podia ser acrescentado, em função do que eu estava lendo.

          Uma riqueza o teu livro. Riqueza humana, artística e profissional.

          Fico a pensar como é o seu interior e suas noites de sono, diante de tantos e complexos personagens e pensamentos... Mas é você mesmo que nos salva ao dizer-nos que “somos um mundo, não temos conhecimento sobre até onde se estendem nossos horizontes.” e que “não devemos nos chocar com as descobertas que fazemos a respeito de nós mesmos.”

          Obrigado, amigo.


(Histórias da Noite: Carlos Rosa Moreira - R$ 25,00 (peça por conciergeclic@gmail.com))



29 de agosto de 2016

Revivendo passados de novo - O Outro Pé da Sereia: Mia Couto





A costa indiana é agora uma linha flutuando no horizonte. A nau tornou-se no último lugar do mundo. À volta tudo é água, transbordação de rios e mares. O navio é uma ilhota habitada por homens e os seus fantasmas.

... Inclinado na cesta da gávea, o marinheiro anunciava que a viagem já não teria mais retorno.

- Daqui em diante, nenhuma ave mais haverá.

Um vazio pesou sobre o estômago do sacerdote português. Quando saíra de Goa, ainda na proteção do estuário, a viagem surgia como um caminho dócil. Mas quando o mar se desdobrou em oceano e o horizonte todo se liquefez, lhe veio uma espécie de tontura, a certeza de que o chão lhe fugira e a nau voava sobre um abismo. Silveira não tinha dúvida: chegara ao irreversível momento em que a água perde o pé e o mar abandona o suave maneirar dos rios. Dali em diante, o mundo se resumiria àquela nau, rompendo caminho entre domínios que eram mais do Diabo que de Deus.

Em “O Outro Pé da Sereia”, o moçambicano Mia Couto, alterna entre passado e presente para nos apresentar Moçambique. Em 1560, revivemos a colonização portuguesa, acompanhando a expedição do jesuíta D. Gonçalo da Silveira (personagem histórico), da saída de Goa, na Índia, até a fronteira entre Zimbabwe e Moçambique, nas terras do chamado reino Monomotapa, da África do século XVI. A partir do resgate de fontes históricas, o autor romanceia a história do jesuíta em sua missão de conversão e moralização do reino e de seu imperador. Em 2002, nos deparamos com o retrato de uma Moçambique que, após a independência em 1975, foi assolada por quase 16 anos de guerra civil (1977 - 1992) e que luta para se erguer.




Escrevo na penumbra quase total do porão onde me aprisionaram. O escuro até me ajuda: afinal, esta carta é um adeus. Ou, quem sabe, um agradecer aos deuses? Navegamos entre perigos e incertezas. Salvamo-nos de fogos e tempestades. Contudo, esta viagem não se está fazendo entre a Índia e Moçambique. É sempre assim: a verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós. Quem conduz o barco, porém, não é o timoneiro. Quem guia o leme é a Kianda, a deusa das águas.

Kianda, Mama Wati ou Nzuzu é a deusa que mora em águas limpas. “... no leito do rio havia um lugar sem fundo, onde a propria água se afundava, afogada nos abismos. Nessas profundezas morava Nzuzu, a divindade do rio. De quando em vez, uma moça desaparecia nas águas. Não morria. Apenas permanecia residindo nos fundos lodosos, aprendendo a arte de ser peixe e os sortilégios da adivinhação. Ficava anos nessa submersa moradia até que, um dia, reemergia e se apresentava às famílias para exercer então, a profissão de curandeira.” “... Ela vive com a nyoka, a serpente. Quando a água fica suja, a serpente sai a espalhar maldades e feitiços”. (Acima: Mami Wata, de Moyo Ogundipe, 1999).

Quem nos leva nesta viagem é a personagem que tem “corpo de rio e nome de canoa”, Mwadia Malunga. Através dela, somos apresentados às personagens da atualidade: Zero Madzero, o pastor de burros e cabritos, que vive em Antigamente, e carrega em si a ambigüidade da presença e da ausência, do ser vivente e de um fantasma; Constança Malunga, a matriarca que revela a ligação de Mwadia com Nzuzu, a deusa das águas límpidas; Lázaro Vivo, o adivinho que faz a ponte entre o mundo dos vivos e o dos mortos, entre o universo sagrado da tradição e o da modernidade; Benjamin, o afro-americano que busca sua origem ancestral; e outros.

Nesses últimos dias, Mwadia fechava-se no sótão e espreitava a velha documentação colonial. Agora, ela sabia: um livro é uma canoa. Esse era o barco que lhe faltava em Antigamente. Tivesse e ela faria a travessia para o outro lado do mundo, para o outro lado de si mesma.

... Disto tudo sabia Constança quando pediu o seguinte a sua filha mais nova:

- Agora, leia para mim. Eu também quero ir nessa viagem ...

Mwadia aproxima culturas, religiões, momentos históricos, como uma embarcação capaz de ligar culturas e viajantes que entrecruzam fronteiras temporais, geográficas e interiores às personagens.

A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores” .

Certo excesso de frases de efeito, e elementos temáticos (silêncio e palavras, realidade e delírio; lucidez e loucura; razão e emoção; vida e morte; passado e presente; tradição e modernidade, escravidão, servidão feminina, simbolismos, mitificação, mestiçagem, incesto, aids) por vezes quebram a fluidez da leitura e nos lembram da presença do autor e de sua própria viagem. Porém, não há dúvidas de que Mia Couto domina os mistérios da contação, e na maior parte do tempo consegue nos envolver e nos prender nos meandros da trama. A cada momento somos surpreendidos por segredos e questões para as quais não são dadas respostas. E os elementos metafóricos são interpretados pelas personagens de maneira quase sempre tão duvidosa que exigem do leitor sua própria interpretação da obra. A minha, ainda não a tenho, mas penso que viver ausências, seja as de Antigamente ou as de Vila Longe, não seja viver. Nada simples se erguer, mas prefiro seguir o rio da vida e plagiar a personagem Rosie: como se diz lá no Brasil, “Sacode a poeira e dá a volta por cima”, pois, bom é “viver e não ter a vergonha de ser feliz”.

28 de agosto de 2016

Aconteceu na Bienal de 2009 no Riocentro - Os Sertões: Euclides da Cunha


No solo desértico
as raízes se entrelaçam
e, juntas, resistem.

(Elenir)





Cara Elô,


Que belas magens você nos enviou saudando a primavera! Desejo-lhe, também, uma primavera com muitas flores, perfumes e cores. A seguir os trechos de "Os Sertões" que você me pediu. Falando da flora desértica, Euclides cita as "favelas" que têm nas suas folhas a defesa, pois, à noite, a despeito da secura do ar, resfriam-se abaixo da temperatura deste, formando precipitações de orvalho, e, por outro lado, a mão que a toca encontra uma chapa incandescente, ardente. Descreve, a seguir, aquelas cujo comportamento me encantou e que citei na Bienal: 

"...quando ao revés das anteriores, as espécies não se mostram tão bem armadas para a reação vitoriosa, observam-se dispositivos porventura mais interessantes: unem-se, intimamente abraçadas, transmudando-se em plantas sociais. Não podendo revidar isoladas, disciplinam-se, congregam-se, arregimentam-se. ...Estreitamente solidárias, as suas raízes, no subsolo, em apertada trama, retêm as àguas... E vivem. Vivem é o termo, porque há, no fato, um traço superior à passividade da evolução vegetativa..." 

A meu ver, essas plantas dão ao homem um belo exemplo de solidariedade. E, mais adiante, falando dos preparativos para um assalto ao arraial a 13 de julho, ele diz, suponho, com certa ironia:


"...porque havia pouco mais de cem anos um grupo de sonhadores falara nos direitos do homem e se debatera pela utopia maravilhosa da fraternidade humana..." 

Comparei ambos os trechos que me tocaram muito.

Abraços.

Elenir



Quais são os seus sertões?


Os Sertões

Euclides da Cunha 

Debate: 20/09/2009 - 18:00 h 

Bienal do Livro Riocentro

26 de agosto de 2016

Quarto de despejo: Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus

Olá queridos!
Para complementar a postagem de leitura de novembro, trago o post que fiz no meu blog Mar de Variedade, sobre esse livro.

Esse foi um dos livros lidos no Clube de Leitura #Leia Mulheres. 
Esse livro infelizmente está esgotado. Ou você compra no sebo ou tenta conseguir algum arquivo em pdf.
Gostei muito da leitura!


Sinopse: Diário da Carolina, refente ao seu dia a dia, durante alguns anos, quando morava na favela do Canindé, em São Paulo.  O diário foi destaque na Revista O Cruzeiro, de 1959. No ano seguinte foi publicado o livro, com a ajuda do  jornalista Audálio Dantas.




Adoro ler histórias que mexam comigo, que toquem fundo a alma e o coração. E é o caso desse livro.
O legal de participar de um clube de leitura é a possibilidade de ler livros que talvez você não se interessasse em ler se não fosse o clube. Gosto de sair da minha zona de conforto.
Acho quase impossível alguém ler esse livro e não se sentir tocado de alguma forma.
A Carolina, na sua simplicidade e extrema pobreza, relata o seu dia a dia em alguns cadernos. O editor do livro não retirou os erros de português, então, o diário se torna ainda mais realista.
O título Quarto de despejo se deve ao fato de Carolina considerar as ruas e seus prédios como sala de visitas e a favela, com seus barracões, o quarto de despejo.
Ela conta a vida que leva com seus três filhos, sendo negra, mãe solteira, e vivendo em uma favela sem qualquer infraestrutura.
Ela precisa carregar água todos os dias. Nem sempre tem o que comer. Há dias em que só tem o almoço, às vezes, só o jantar. E há aqueles dias em que precisa procurar comida no lixo para ela e os filhos.
Ela relata as confusões entre alguns moradores, as brigas de casais, os vícios, principalmente o alcoolismo presente em algumas famílias.
Apesar de viver em um ambiente nada favorável, ela tenta não se envolver nas confusões da favela, está sempre lendo e escrevendo em seus diários. 
Ela é uma mãe exemplar e se entristece toda vez que não tem comida para dar aos seus filhos.
A autora encontrou na escrita uma fuga para a vida difícil que levava. Chegou a pensar em se suicidar, pois, em alguns momentos, achava que não valia mais a pena viver diante da miséria.
Ela não tinha o direito nem de ficar doente, pois era catadora de papel e ferro, e dependia do trabalho de cada dia para ter o que comer, além de não ter condição financeira para comprar remédios. 

"Resolvi tomar uma media e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as arvores, as aves tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos."


Ela consegue mostrar nesse diário que você pode fazer diferença e ser uma pessoa de bem, mesmo morando em um lugar totalmente desfavorável e vivendo na miséria. 
Um fato interessante é que a Carolina tinha orgulho de ser negra, mesmo com todo preconceito que sofria. E era muito sábia ao falar que não entendia por que o branco poderia se sentir superior ao negro, se ambos ficavam doentes da mesma forma e sofriam dos mesmos males. 
Sei que nem todo mundo gosta desse tipo de livro, por ser um diário, em que há partes um pouco repetitivas, mas eu gostei muito de ter a oportunidade de conhecer um pouco mais de perto sobre a realidade de uma favela de São Paulo, nos anos 50. 
A Carolina também publicou outros livros. Espero ter a oportunidade de lê-los. 
Recomendo!

23 de agosto de 2016

A menina que roubava livros - Markus Zusak


"Se o Clube de Leitura Icaraí leu...



... vamos filmá-lo!"



Sucesso garantido!



Caro Leitor, qual a cor de tua alma? Teus olhos revelam algo sobre o que brilha em teu interior? Que livro roubarias do inferno se este um dia te atormentasse? Qual a música que ouves em teus sonhos? Que segredo guardas no teu porão? Que respostas são essas que não ousas confessar a ti mesmo? Venha, vamos tomar de assalto o pomar da existência antes que as intempéries nos expulsem ou nos recolham para longe do que nos é mais querido.

Em fevereiro o Clube de leitura Icaraí lê “A Menina que Roubava Livros”, do australiano Markus Frank Zusak. O livro conta a estória de Liesel Meminger, menina que é entregue pela mãe aos cuidados de uma família adotiva que habita a periferia de Munique, Alemanha, durante a segunda Guerra Mundial. Filho de mãe e pai nascidos na Alemanha e Austria, na época da Segunda Guerra, o jovem escritor conta que cresceu ouvindo histórias a respeito da Alemanha Nazista e sobre judeus marchando pela pequena cidade alemã de sua mãe. Em entrevista, Zusak conta que partes do livro são inspiradas em fatos reais, como fragmentos da história de vida de sua mãe alemã, que cresceu sob os cuidados de uma família adotiva e nunca chegou a conhecer o próprio pai. E, assim como Liesel, que desenvolveu adoração por livros, Zusak brinca contando já ter “furtado” alguns livros de biblioteca na época de estudante.


"Livro comprado ou roubado
ajuda a gente a viver.
Pois estando ao nosso lado,
o mal nos leva a esquecer."

Após uma seqüência de livros que tratam de Guerras devastadoras, como a Guerra Civil em Moçambique, abordada por Mia Couto, em “O Outro Pé da Sereia”; e a Guerra da Coréia, por Philip Roth, em "Indignação"; é razoável temer outro laboratório, que nos leve a nova viagem a um período tão duro quando o da Segunda Guerra Mundial (mesmo após um agradável intervalo de “Pequenos Amores”). Mas a leitura de “A Menina que Roubava Livros” surpreende. O romance não é contado nem a partir da visão do Holocausto (“A Vida é Bela”, de Roberto Benigni – comédia dramática), nem das entranhas do Nazismo (“A Queda! As Últimas Horas de Hitler”, Oliver Hirschbiegel – drama). Em seu livro, Zusak tenta mostrar outro lado da Alemanha Nazista, a história de alemães comuns (“Alemanha, Mãe Pálida”, de Helma Sanders-Brahms), não dominados pelo ‘carisma’ e poder de seu líder e seus discursos. A versão dos que buscam “O Coração Informado” (cf. Bruno Bettelheim).

...o livro do mês faz referências aos holocaustos mas a ênfase, na minha maneira de ver, é no poder da leitura para enfrentar qualquer mal que seja. Os alemães eram queimadores de livros e uma menina alemã analfabeta, então, os salvava. O livro era sua esperança de vida contra os idealistas sem compaixão de uma sociedade “perfeita”. A Menina queria roubar a vida dos escombros e horrores do nazismo. A vida pode estar desmoronando e quando tudo parece perdido, um livro pode nos mostrar a saída. O livro mostra a tragédia nazista pela óptica de alemães. Particularmente, nunca tinha visto nada parecido.

Embora faça sucesso entre os jovens leitores, A “Menina que Roubava Livros” é leitura para adultos. Parte da mensagem é sobre o poder das palavras e da propaganda, o que nos remete a um questionamento já feito em leitura anterior: até onde, poderes dirigentes de um Estado de massa social, econômico e político são capazes de manipular a mente de um indivíduo, de uma sociedade? É fato que o ambiente pode influir, e de fato influi, em aspectos importantes do comportamento e da personalidade do homem. Mas, fugindo ao que diz o ditado: “o que os olhos não vêem o coração não sente”, é necessário “o coração informado” para o desenvolvimento e exercício de senso crítico. E se o homem nem sempre pode ser decisivo no que diz respeito ao que ele é e será dentro da sociedade, independente desta, que ao menos este seja capaz de usufruir de sua liberdade de pensamento e resguardar algum tipo de identidade e dignidade, junto a manutenção de valores importantes para si.







"Guarda chuva, guarda sol,
guarda tudo, até lembrança;
guarda sonhos de arrebol
desde que era criança."






Através de Liesel, conhecemos crianças e adultos que desafiavam as regras e ajudavam uns aos outros, 'vivenciamos' o amor entre estranhos, o céu queimar após um ataque aéreo, a emoção e coragem de resgatar um livro prestes a ser queimado em sessão pública por oficiais nazistas, a dor de famílias separadas. Engana-se, contudo, quem pensa que a leitura é mórbida e assustadora. Uma particularidade, torna o livro de Zusak muito interessante: é a Morte quem narra a história. Com um diferencial, que traz luz à leitura: nesta estória, é a morte que tem medo de nós. Zusak brinca com nossa tendência a ver “guerra e morte juntos, como se fossem melhores amigas”.

"I think war is more like the boss at death's shoulder, always wanting more work to be done. Death's as confused about everything as us." ("Eu acho que a guerra é mais como o patrão no ombro da morte, sempre querendo mais trabalho a ser feito. A morte é tão confusa sobre tudo como nós.") (Markus Zusak, The Sydney Morning Herald )

E assim, a história da Alemanha Nazista é contada através dos olhos de um(a) simpático(a) e bem humorado(a) ceifador(a), assombrado(a) pelas ações dos seres humanos. Nós, que ambiguamente podemos ser tão belos e tão feios.

A reunião ocorreu em 04/02/2011. Nela, reinou a diversidade de idades, opiniões, conhecimentos, vontades etc. Tivemos participantes de 12 a mais anos. Foi muito bom ver o entusiasmo dos jovens com suas leituras. Muito bom tê-los por perto. Dentre as curiosidades, fomos alertados para a inadequação do verbo ‘roubar’, utilizado na tradução do original em inglês para o português. Rigorosamente esperaríamos o uso do verbo ‘furtar’, visto nunca haver violência nos atos de Liesel. Assim, teríamos ‘A Ladra de Livros’ ou ‘A Menina que Furtava Livros’, mas talvez não parecesse belo aos ouvidos... Belo, na verdade, foi comprovar que opiniões contraditórias podem ser complementares. Tivemos exaltação da beleza poética do livro, seguida por crítica ferrenha a sua linguagem e conteúdo literário sem que uma anulasse o valor da outra, mas ao contrário se somassem, ampliando nossa visão para o que lemos. Notamos que nossa leitura é limitada, uma vez que podemos não ter o rigor técnico/literário, a sensibilidade poética, ou a devida atenção para a linguagem e semântica que felizmente muitos de nossos amigos carregam em suas bagagens, mas, ao ouvi-los, aprendemos. O clube é prova de que nossa maior riqueza pode estar na diferença, na não imposição de regras preconceituosas, na liberdade de escolhas. Viva a diversidade!





22 de agosto de 2016

Santa Trindade: Luiz Gavri


                         
                                      a Bernini.

Próton, elétron e neutron enganam.
Pois, a carga maior é de quem junta.
É o terceiro incorporado
Que não anula os opostos.

Lolita nunca teve orgasmos
Em Santa Tereza, ao contrário,
Mais que múltiplos,
Eram permanentes.

Santa contradição.
O Filho sem Pai,
O Espírito no anjo.
Bendita seta inflamada.

(Niterói,11/08/13)


20 de agosto de 2016

Erótico: Clara Nascimento







 Emily Dickinson,
Phil Z Clitzdaughter,
E.E. Cummings.
I touch myself.

You feel me.
Skin to skin,
Tongue to tongue.
It needs two to tango,
You grab me by the waist
I slightly bend forward,
What move is this,
Who dares to tell?

One leg up,
Curled around your hip,
I press you close to mine.
Eyes that gaze in a well
As deep as the desire.

What is this dance to me?
A flame that burns from inside out.

What is this flavour wire to you?
A land of lust and lost souls.

19/08/16





19 de agosto de 2016

Livro: O Verão sem homens, de Siri Hustvedt

Olá queridos!
Esse é o post que fiz no meu blog Mar de Variedade sobre o livro do mês.

Essa foi a leitura do mês do Clube de Leitura Icaraí



Sinopse da Companhia das Letras:

"Mia e Boris são casados há trinta anos. Ela é filósofa e poeta. Ele, neurocientista. Sem nenhum aviso, ele decide que é momento de dar um tempo no relacionamento. A pausa tem nome completo e endereço - é francesa, vinte anos mais jovem, colega de laboratório dele. Mia tem um colapso nervoso. Passa uma semana e meia internada no hospital. Quando volta para seu apartamento no Brooklyn, em Nova York, não consegue se sentir em casa. Decide passar as férias de verão em sua cidadezinha natal, em Minnesota. É lá que vive sua mãe, em um condomínio para pessoas idosas. Ela aluga uma casinha para a temporada, com um quintal com vista para um milharal, oferece uma oficina de poesia para estudantes locais e parte para sua jornada rumo ao interior.Uma vez lá, Mia toma contato com as amigas da mãe, com as meninas da oficina e suas interações marcadas por uma feroz rivalidade, e também com a nova vizinha, uma jovem mãe de duas crianças pequenas, casada com um homem ausente, estressado e agressivo. A partir da convivência com essas mulheres ao seu redor, e longe da sombra das figuras masculinas que marcaram sua vida, Mia enfim atinge a serenidade para reavaliar sua trajetória e encontrar suas próprias respostas."


Para ser bem sincera, essa leitura não me "prendeu". Demorei bastante para concluí-la. Os amigos do clube me ajudaram muito com seus ótimos comentários no dia da reunião. 
Claro que isso é muito pessoal. Muitas pessoas gostaram do livro e acho que sempre vale a pena ler e tirar suas próprias conclusões. 
O livro não fala só da pausa que Boris pediu para Mia. Esse é o ponto inicial do livro. 
Após essa "separação", Mia, que teve um colapso e até ficou internada em uma clínica psiquiátrica por um breve período, decide passar o verão na cidade de sua mãe, que vive em um condomínio de idosos. E lá ela faz amizade com as amigas de sua mãe, que participam do Clube do livro. 
Mia aluga uma casa e oferece uma oficina de poesia, onde vai conhecer várias adolescentes e enfrentar o problema de bullying das meninas da classe com uma delas. 
Ela continua a falar com seu "ex-marido" por mensagens. E fica sabendo de tudo que está acontecendo com ele, através de sua filha. 
Quem gostou do livro, destacou que ele pode parecer um livro "raso" que só aborda o relacionamento de Mia e Boris, mas ele vai muito além. Concordo com isso. 
Através das conversas entre Mia, sua mãe e as amigas dela, conhecemos um pouquinho da realidade de quem já envelheceu, seus problemas e sonhos. 
Por outro lado, na oficina de poesia, encontramos a realidade de adolescentes, que às vezes podem ser cruéis, precisando de um direcionamento. 
A Mia convive também com a Lola, jovem mãe de duas crianças, que tem um marido agressivo. Portanto, são abordadas relações amorosas e de amizade. Além de problemas conjugais de vários tipos. 
Imagino que terminar ou dar um tempo em um casamento de trinta anos não seja fácil, tanto que a Mia teve um colapso nervoso. E no decorrer do livro, veremos o desenrolar dessa história entre Boris e Mia.

"Você se lembra, escrevi para Boris, uma noite há dois anos quando a gente percebeu que tinha pensado exatamente a mesma coisa, não era uma coisa nada óbvia, uma ideia bem excêntrica, aliás, que nos ocorreu a partir de um mesmo catalisador, e então você disse: 'Sabe, se a gente vivesse mais cem anos juntos, será que chegaríamos a virar a mesma pessoa?'. Ton Amie, Mia." (p.110)

Boa leitura!

18 de agosto de 2016

Revivendo leituras passadas - Sidarta: Hermann Hesse

Terá sido apenas uma coincidência estarmos lendo SIDARTA e ao mesmo tempo sermos "apresentados" a um Papa tão humano?

Estamos lendo SIDARTA, e, ao mesmo tempo nos deparamos com um ser amável, totalmente ligado e preocupado com as dores da humanidade, um Papa (finalmente) voltado para o social.

Esperemos que, independentemente da religião, essas sementes germinem...

Vera Lúcia Schubnell Freire

* * *

Na verdade estamos ligados às sintonias do Universo e concordo com a Vera que a escolha de Sidarta não foi casual com o momento que recebemos um importante líder religioso do Planeta.

(R)




"Quando foi alcançado o número de votos que me faria Papa, aproximou-se de mim o cardeal brasileiro Dom Cláudio Hummes, me beijou e disse: "Não te esqueças dos pobres". Em seguida, em relação aos pobres, pensei em São Francisco de Assis. Depois pensei nos pobres e nas guerras. Durante o escrutínio cujos resultados das votações se punham "perigosas" para mim, veio-me um nome no coração: Francisco de Assis. Francisco, o homem da pobreza, da Paz, que ama e cuida da criação, um homem que transmite um sentido de Paz, um homem pobre. Ah! Como gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres."


Papa Francisco - 16 de março - Aula Paulo VI (sala de audiências papais) - Roma




* * *

Tudo voltava, todos os sofrimentos que não tivessem encontrado uma solução final.

A roda do samsara

Govinda — pensou, sorrindo. — Tais pessoas ficam gratasapesar de poderem, elas mesmas, reivindicar gratidão. Todas elas são submissas, querem ser amigas, gostam de obedecernão gostam de pensar muito. Esses homens são verdadeiras crianças.


..aprendi com o rio:  tudo volta.  ...que tua amizade seja meu salário...

Olha, há mais uma coisa que a água já te mostrou:  que é bom descer, abaixar-se, procurar as profundezas

- senti que a percepção do Universo circulava em mim como meu sangue.



 "Fraternidade"

E se agora, neste instante,
nos olharmos com um sorriso
e apertarmos nossas mãos,
buscando a divina essência
que é comum a todos nós,
então, fraternos nós somos
e verdadeiros Irmãos.

(Elenir)

* * *

Yes se inspirou em Sidarta de Hesse para escrever a letra de "Close to the edge"
 
     "L’intérêt passionné de Hermann Hesse pour l’Extrême Orient était une tradition de famille. Son grand-père puis ses parents avaient tous longtemps vécu en Inde au service de la Mission protestante de Bâle, y avaient appris les langues locales, s’étaient familiarisés avec les coutumes et la pensée du pays. L’un de ses cousins, Wilhelm Gundert (1880-1971), était un savant de premier plan, établi au Japon, spécialiste du bouddhisme zen.

     Dès son enfance, Hesse avait ainsi fait la connaissance de l’Asie par des conversations éclairées et par la lecture des meilleurs livres. Rien d’étonnant à ce que le futur auteur de Siddhartha et du mythique Voyage en Orient ait désiré connaître à son tour physiquement quelques-uns des pays qui nourrissaient déjà une si grande part de son imagination et de sa philosophie."

(http://www.jose-corti.fr/titresetrangers/carnets-indiens.html)

* * *

Tu Hi Meri Shab Hai

Tu hi meri shab hai subha hai tu hi din hai mera

Tu hi mera rab hai jahaan hai tu hi meri duniya

Tu waqt mere liye main hoon tera lamha

Kaise rahega bhala hoke tu mujhse judaa


* * * 





Avant la naissance de Krishna, Vishnou révélant sa divinité à Vasudeva et Devaki. National Museum, New Delhi. Basé sur l'histoire du Bhagavata Purana, Bikaner, Rajasthan, vers 1725.






Disse Sidarta: " [...] tenho para mim que o amor é o que há de mais importante no mundo. Analisar o mundo, explicá-lo, menosprezá-lo, talvez caiba aos grandes pensadores. Mas a mim me interessa exclusivamente que eu seja capaz de amar o mundo, de não sentir desprezo por ele, de não odiar nem a ele nem a mim mesmo, de contemplar a ele, a mim, a todas as criaturas com amor, admiração e reverência."




Om é o arco; alma é a seta
Brama é o alvo da seta:
Cumpre feri-lo constantemente

O CLIc chega ao Nirvana
Que todos possam alcançar a Paz do Universo, deixo vocês mergulhados no Om. (R)



Uma porta após outra abre-se diante de ti. Como se explica isso? Dispões, por acaso, de algum feitiço?

Olha, Kamala: uma pedra que atirares na água, dirige-se ao fundo pelo caminho mais rápido. O mesmo sucede cada vez que Sidarta tem um objetivo, um propósito. Sidarta não faz nada. Apenas espera, pensa e jejua. Mas passa através das coisas deste mundo como a pedra passa pela água, sem mexer-se, sentindo-se atraído, deixando-se cair. Sua meta puxa-o para si, uma vez que ele não admite no seu espírito nada que se possa opor a ela. Eis o que Sidarta aprendeu dos samanas. É aquilo que os tolos chamam de feitiço e que na opinião deles é obra dos demônios. Nada é obra dos demônios, já que não há demônios. Cada um pode ser feiticeiro. Todas as pessoas são capazes de alcançar os seus objetivos, desde que saibam pensar, esperar, jejuar. 


* * *

O que é a meditação? O que é o abandono do corpo? Que significa o jejum? E a suspensão do fôlego? São modos de fugirmos de nós mesmos. São momentos durante os quais o homem escapa à tortura de seu eu.

* * *

Leitura jovem no CLIc

"Hermann Hesse é o maior escritor do século XX"
San Francisco Chronicle



Iluminação no CLIc


Sidarta, na minha estante,
passou anos escondido,
mostrou-se a mim, e num instante
sussurrou "Sou o escolhido".

(Ilnéa)





"Toda a vida de Hesse, até o último dia, foi uma série de fugas" escreveu Otto Maria Carpeaux, na orelha a 1a edição de "Sidarta". "E cada uma das fugas foi uma volta..."

... e há mais... muito mais!

Fomos, e somos, verdadeiramente um grupo... ou diria "maravilhosa familia".

Abraços ... num só abraço,

Abraço enoooorme... !!!!!!!!!!!!!!

Ilnéa

17 de agosto de 2016

O grito libertador: Elenir


Udi Peled


No palco verde, gramado,
homens valentes, velozes,
em bela coreografia,
disputam a soberana:
A bola.

Correm, caem, chutam, brigam.
A plateia brada, berra,
e com seus olhos nervosos,
acompanha a caprichosa:
A bola.

Atento, no seu quadrado,
o goleiro assiste ao jogo,
agarrando-a com bravura
se ela tenta entrar na rede:
A bola.

O Professor se levanta.
Ora de cara fechada,
ora aberta num sorriso,
se desesperando grita:
Na bola!

E é ele, um quase menino,
que ao recebê-la em seus pés,
faz magia, se diverte,
dança, roda, dribla, chuta:
Goool !

A torcida, agora, vibra,
alegre, entusiasmada,
e sacudindo as bandeiras
vai repetindo o refrão:
Campeão! É campeão!