CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

12 de outubro de 2011

A Montanha, o Mar, a Cidade: Carlos Rosa Moreira

Mensagem do Autor após a Reunião:

Ao Clube de Leitura: A reunião de ontem ficará para sempre. Foi um momento de conversa, de se conhecer, de falar, calar e responder, sorrir, concordar ou não, ou seja, um momento simples entre seres humanos, tão simples que se torna grandioso e inesquecível. Agradeço a vocês a leitura atenta e o carinho pelo meu livro. De certa forma realizei um sonho do Borges, uma beleza de sonho. Contava ele que o seu livro "História de la eternidad", publicado na década de 30, após um ano nas livrarias teve apenas 37 compradores. Dizia ele que teve vontade de conhecer os 37, se desculpar com eles e agradecer pela compra. E isso porque eram pessoas reais, com rostos possiveis de serem conhecidos. "Se você vende 2000 exemplares é o mesmo que não vender nenhum, pois a imaginação não forma 2000 rostos. Já 37 pessoas... 37 está ao alcance da nossa imaginação." Assim contava o enorme Jorge Luis Borges, com aquela simplicidade que o fazia ser amado por todos. Para ele, conhecer os seus leitores, conversar com eles, saber onde moravam e perguntar por suas famílias era a coisa mais importante. Fiquei muito feliz e orgulhoso por conhecê-los. Muito obrigado.
Carlos Rosa Moreira.




Comenta-se muito no clube de leitura as coincidências entre a ficção do livro do mês e eventos do nosso dia a dia. Pois esse mês as sincronicidades romperam todos os limites,  saíram páginas afora, literalmente. Ou fomos nós que entramos no livro? Os frequentadores de nossas reuniões vivemos nos cenários das crônicas de Carlos Rosa, sentimos quase como se fôssemos o protagonista, escalando ou veraneando nas montanhas, caminhando à beira-mar ou nadando nas praias papagoiabas e capixabas como se fosse o narrador, flanando pelas ruas de Icarai e adjacências, no tempo presente ou na Niterói do passado; atravessando a baía, (re)conhecendo o Rio Antigo, indo além, cruzando o oceano rumo ao velho mundo, Paris, Madrid, Porto, ... tantos pontos inseguros para  o coração do poeta! Leio uma crônica e resolvo sair de casa para percorrer o trajeto feito pelo narrador. Pronto: faço parte da história!


"Vagueio sobre passos de outrora e estou conhecendo a cidade de maneira íntima".


Como bem lembrado por uma de nossas leitoras na troca de mensagens do grupo, o título do livro ainda pareceu incompleto. Ficou faltando "as Pessoas", porque Carlos fala de gente quase o tempo todo. E também "as Viagens", claro!

"Às vezes o autor é levado a ser otimista por acreditar na perfeição e na liberdade. E arrasta, com palavras, o leitor a viajar com ele pela vida, mesmo sabendo ser saboroso ler/ver que o personagem não busca respostas. Apenas conversa, imaginariamente, como quem se convida para um chope no bar da esquina."

Photo: Luiz Maron

Ah, Niterói ...!

Primeiro plano: Pedra do Indio
Segundo plano: Pedra de Itapuca
Terceiro plano: MAC
Quarto plano: Igrejinha da Boa Viagem
Quinto Plano: Corcovado


Dans l'une des chroniques, Marcel demande une madeleine dans une Confiserie, la serveuse lui apporte une madrilleno. Ouço, então, vozes e risadas nas mesas vizinhas e ... versos.


"une heure n'est pas qu'une heure,
c'est un vase rempli de parfums,
de sons,
de projets
et de climats"
(Proust)


 Cheiros, sabores, maresia, memórias ... tem muito mar no livro do mês, muito vento, muito Carlos. "A Montanha, o Mar, a Cidade" é uma bela surpresa!




"É bom errar
nas montanhas, nos mares,
nas cidades entre as gentes,
em si mesmo."


Entrevista com o autor:

EH: Rilke no diz, em Cartas a um jovem poeta,  que "Uma obra de arte é boa quando surge de uma necessidade." Você sente sempre essa necessidade, ela é diária, como se dá seu processo de escrita? Enfim , é  árduo ou se dá com facilidade? Existe algum método para sua escrita surgir?

CRM:  Eu mesmo digo que é "necessidade" de escrever, mas, no fundo, nem sei se posso chamar de necessidade. Talvez seja. Mas imagino que é algo maior, algo intrínseco, uma tendência natural e forte. Digo isso porque, antes da necessidade, antes de pensar na "necessidade" de escrever, a escrita já vem à cabeça. A literatura é algo muito natural, minhas observações do mundo são sempre literárias, e isso se dá de forma normal, sem pensar, apenas vem.

Sim, ocorre diariamente, ou quase. Os problemas normais da vida influem, mas nada impedem. Às vezes desviam o pensamento literário, mas ele sempre retorna. O processo da escrita não é fácil ´nem árduo, tem a complexidade de qualquer trabalho. Mas, para mim, um trabalho fascinante de ser feito. Não sei dizer se é difícil, mas digo que é gostoso. Prefiro usar a palavra "complexo", pois escrever envolve um mundo de questões.
Quando você pergunta se existe método para a escrita surgir, acredito que está perguntando sobre o assunto a escrever. Se for isso, não, não tenho métodos. O assunto surge simplesmente, depois é pensado e burilado. Mas às vezes foge, vai embora e não volta. Às vezes fica e vira um texto.


EH: Como você se sente diante das críticas aos seus textos?

CRM:  Me sinto à vontade perante as críticas. Assim como aceito elogios, aceito críticas negativas. Ninguém é obrigado a gostar de um livro. Da mesma forma como acontece com qualquer escritor, meus textos seguem um determinado estilo decorrente da minha maneira de ser, principalmente as crônicas. E sei que esse estilo pode não ser do agrado de muita gente. Já recebi críticas pelo "A Montanha, o Mar, a Cidade" sobre assuntos que outros adoraram. Portanto encaro com muita naturalidade as críticas, naturalidade e modéstia.


EH: Seus textos surgem de repente ou levam dias  numa espécie de gestação? Fale-nos ainda  de seu prazer durante a escrita. Existe? 

CRM:   Geralmente, no que toca às crônicas, elas surgem de repente. E surgem todo tempo. Às vezes até as evito, pois atrapalham quando minha cabeça está ligada em algo mais longo. Por exemplo, tenho dois esboços de romances e um livro de contos pronto (90% pronto), mas para escrevê-los tenho de me livrar das crônicas. Contudo, confesso que adoro escrevê-las, sou e sei disso, um cronista. Pelo menos acredito que sou. Depois de escrito é aconselhável guardar o texto por um tempo, depois relê-lo, enxugar, cortar, mudar, mexer ou seja, burilar, lapidar. Para mim, esse é um exercício delicioso, existe sempre prazer na escrita, além disso, amo o nosso idioma e adoro estudá-lo e trabalhar com ele. Talvez isso possa ser chamado de gestação: às vezes uma história fica na cabeça, prontinha, gestando, aí escrevo (um exemplo é a crônica "Tempo"). 


EH: Você teria algum conselho que pudesse dar a quem gosta de escrever? 

CRM: Quem quer escrever deve ir adiante. Tenho uma pequena e inocente crônica sobre esse assunto. Quem quer escrever deve ser independente, mas estudar bastante. Aconselho a não pedir opiniões a qualquer um, mesmo que pareça muito culto. Se quiser saber opiniões, procure alguém do meio literário, alguém que goste do idioma e que seja generoso. Viver e observar é muito importante para quem deseja escrever.


EH: Existe algum livro especial que  tenha mexido com sua visão de mundo, ou melhor, mudado muito sua vida?

CRM:  Nenhum livro mudou a minha visão do mundo, mas vários livros me ajudaram a refletir sobre o mundo, me instruiram, me mostraram caminhos. Mudaram coisas em mim, ilustraram minha vida. Sem dúvida, me tornaram um sujeito melhor.