CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

9 de novembro de 2010

Indignation - Philip Roth



Nihao Laowai!

É Indignação o livro do mês de dezembro no Clube de Leitura Icaraí. Indignação conta a estória de Marcus Messner, um destemido e bem intencionado estudante universitário, seus encontros com a vida, e os caminhos que definem seu destino. A obra é de Philip Roth. A estória começa quando Messner vai para a Universidade e seu pai, se transforma em uma ‘máquina de preocupação’, como se tivesse uma premonição, como se subitamente acordasse de um conto de fadas e tivesse consciência do mundo e de todas as maneiras que um jovem rapaz pode ser destruído por ele. Fugindo da proteção opressora de seu pai, o jovem Messner decide realizar seus estudos distante de casa. Messner só desejava fazer tudo certo. Tirar seus A´s, trabalhar, dormir, e não brigar com o pai que tanto amava. Tentava assim, por um bom caminho, evitar a mediocridade, e alcançar o sucesso do qual sua família tanto se orgulharia.

E, nos subterrâneos da relação familiar dedicada e apaixonada, também as obsessões são transmitidas e atingem em cheio o jovem Marcus, dotado de uma perigosíssima ingenuidade e de uma rigidez ética e pessoal que não cabem no mundo.
(Júlio Pimentel Pinto, em Paisagens da Crítica)

Vejo Marcus, mesmo sendo ainda um homem imaturo, procurando através de suas incertezas, ser sujeito, e não sujeitado."

Despreparado para a vida o jovem é vítima de seu senso de ética super desenvolvido, de sua racionalidade (ou irracionalidade) exacerbada, vítima do mundo, dos caprichos da história.

A trama se passa em 1951-52, e tem como pano de fundo a Guerra da Coréia. Em entrevista, o autor comenta que, em Indignação, não teve interesse em escrever alegorias ou metáforas, mas trazer à vida algum momento do passado. Roth diz que ao iniciar o livro não havia estória alguma, mas um período somente em mente, o da Guerra da Coréia:

Qual estória posso contar que possa dar uma idéia deste momento e torná-lo dramático?
(Philip Roth)

Em Indignação, Philip Roth retrata as normas sociais, culturais e sexuais da América da década de 50. Regras tão fortes comparadas às da atualidade, que causam indignação ao jovem herói.



读书俱乐部
Ao fim da Segunda Guerra Mundial (1939-45) as forças Aliadas libertaram a Coréia do domínio japonês. Colônia japonesa de 1910 a 1945, a Coréia passou a ser alvo de outro conflito, a Guerra Fria, que levou a divisão da península Han ao longo do paralelo 38 e à formação de dois Estados separados: o do Sul, com administração americana sob direção do general Douglas MacArthur; e do Norte, com ocupação pela, na época, União Soviética, que estabeleceu um regime Stalinista sob o controle de Kim Il-sung. Após anos de incidentes na fronteira, em junho de 1950, a República da Coréia no Sul foi invadida pelas forças armadas do Norte. As primeiras tropas americanas foram então enviadas afim de fortalecer a resistência contra os invasores. Fortemente equipados com tanques russos e artilharia, os norte coreanos avançaram rapidamente em direção ao Sul, com o objetivo de ocupar o estratégico porto de Busan (Pusan). Com o apoio do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que enviou reforços de diversas nações dentre britânicos, australianos e milhares de reservistas chamados à ativa, a resistência se manteve forte. Em outubro de 1950, MacArthur encontrou o presidente americano Harry Truman, com a promessa de que a Guerra chegaria ao fim até o Natal. Contudo, após conflito no território norte coreano com vitória das forças das Nações Unidas, lideradas por MacArthur, próxima a fronteira da Manchúria (extremo oeste da China), Pequim (Beijing) deu sinais de que a China comunista interviria em defesa de seu território. Em novembro de 1950, os chineses se uniram ao conflito. Nos dois anos seguintes a região do paralelo 38 foi marcada por violento combate, com os dois lados fortemente armados para impedir o avanço do inimigo e a ocupação de pontos estratégicos. (Acima: Bandeira da República Popular da China em desfile militar no Dia Nacional).

O título, Indignação, de acordo com o 'herói' da trama refere-se a várias das personagem, sendo a palavra em si representada por uma canção: o Hino Nacional da República Popular da China: Marcha dos Voluntários (a China foi membro da Aliança Militar dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, que incluía também União Soviética, Estados Unidos, Império Britânico, Polônia, França, e outros países, incluindo o Brasil). Marcus Messner havia aprendido o hino ainda no colégio, na época da Segunda Guerra. O jovem costumava recitar sua letra silenciosamente, sempre que se sentia zangado, em protesto a atitudes indignantes de opressão e intrusão, tentando, assim, evitar passos em falso, construindo uma ‘grande muralha’ que pudesse protegê-lo. Para ele era a canção do inimigo.



IN - DIG - NA - TION ! ! !
(a mais bela palavra da lingua inglesa para Marcus Messner)

Acima: memorial dos veteranos da Guerra da Coréia - Washington DC, EUA. A placa diz: "Our nation honors her sons and daughters who answered the call to defend a country they never knew and a people they never met." (Nossa nação honra seus filhos e filhas que atenderam ao chamado para defender um país que nunca conheceram e um povo que nunca encontraram). O conflito entre a Coréia do Sul e a Coréia do Norte teve fim com o cessar fogo em julho de 1953, quando uma zona desmilitarizada foi estabelecida na fronteira entre os dois Estados. Ambos os lados abandonaram suas posições e uma comissão das Nações Unidas foi estabelecida afim de supervisionar o armistício. Não há um número oficial de quantos morreram nesta guerra. Dentre americanos, britânicos, chineses, sul e norte coreanos, estima-se mais de 700 mil soldados mortos em combate, 890 mil feridos e mais de 120 mil prisioneiros ou desaparecidos. Ao fim da Guerra, o povo coreano, uma das mais notáveis culturas da Ásia tinha sua dignidade abalada, com duas Coréias em ruínas, uma população desmoralizada levada a mendicância. Desde 1953, as Coréias têm trabalhado na reconstrução de seus territórios. A Coréia do Sul é, hoje, um Estado moderno. A Coréia do Norte tornou-se um dos países mais fechados ao mundo, e grande parte da população é pobre.

Acima, ao fundo: mapa mundial mostrando a superfície da Terra à noite. As luzes revelam áreas urbanizadas, o que possibilita a identificação de países, cidades, e até mesmo alguns rios ou estradas em torno das quais a urbanização ocorre (ex. Nilo e Trans-siberiana). No mapa sobreposto (à direita) vemos com mais detalhes a Península Han. A distinção entre as duas Coréias é marcante à noite. Enquanto a Coréia do Sul é altamente iluminada, o território da Coréia do Norte se encontra às escuras, a exceção da capital, Pyongyang, e outras poucas cidades. Esta diferença torna nítidas as fronteiras com a China, ao norte, e com a Coréia do Sul, no paralelo 38. A história continua e, ao longo das últimas seis décadas, conflitos de pequena escala, tanto terrestres quanto navais, têm ocorrido repetidas vezes ao longo da linha demarcatória entre as duas Coréias (1999, 2002, 2009 e 2010). À medida que cada Estado ambiciona re-unificar a Península de acordo com seus próprios termos e sistema de governo, o Mundo lembra a delicada relação entre os dois países e a Guerra, que terminou com uma trégua.


Indignação chama atenção pelos pequenos incidentes (familiares, ou do cotidiano) que alcançam conseqüências despropositadas.
.... a forma terrível e incompreensível pela qual nossas escolhas mais banais, fortuitas e até cômicas conduzem a resultados tão desproporcionais”.
E nos faz refletir, dentre outras coisas, sobre nossas escolhas (ou a falta delas). Afinal, até que ponto somos donos de nosso destino ou joguetes do tempo e espaço em que vivemos?

Recomendadíssimo!


MÚSICA: NUMB – LINKIN PARK

30 de janeiro de 2010

São Bernardo


A reunião de 29 de janeiro de 2010 foi a décima quarta na reitoria da UFF (mais a bissexta de Os Sertões). Nela, discutimos São Bernardo, de Graciliano Ramos. Já começo avisando: nem de longe conseguirei reproduzir as falas que ouvi.

Valeu a pena esperar!. O número de participantes estabilizou nos 30, o que é excelente. Ficou a conta, pelo número de cadeiras disponíveis. No final, até o segurança da portaria da reitoria ficou sem sua cadeira, emprestada para o último participante a chegar. Que noite quente! Reunimos análise técnica, conhecimento multidisciplinar, sensibilidade, seriedade, descontração, etc., tudo no devido tempo. Que noite! E na hora de terminar, a reunião parecia querer começar de novo. Mesmo assim, eu gostaria de continuar escutando.

As primeiras falas da noite enfatizaram a personalidade de Paulo Honório, sua formação agreste, sua maneira de lidar com as pessoas segundo o préstimo que cada uma poderia ter. Paulo Honório julgava as pessoas pelo seu custo/benefício. Foi aí que entrou a abordagem política do livro, de que, sendo Paulo Honório um homem de alma agreste, ele aprendeu cedo que o mundo era dividido entre molambos e dominadores. Ele nasceu mulambu, lutou na vida para se tornar dominador e ao galgar sua nova condição lidava com os “molambos” do jeito que os dominadores lidavam. Alguém questionou se a reflexão de Paulo Honório através da escrita de sua estória o mudaria realmente. Inicialmente ele tentou escrevê-la contratando aqueles que achava saber fazê-lo melhor que ele, porque afinal ele não sabia mesmo. O livro seria mais um empreendimento seu. Quando percebeu que para escrever sua estória dependia exclusivamente de si, de enfrentar sua consciência, suscitou em nós o sentimento de que haveria salvação para ele. Mas acho que foi só para nos revelar que somente Paulo Honório's chegam a este estado de angústia e acídia, resultado esperado para aqueles que passam por cima de seus semelhantes. Sofrem sim, é verdade, mas sofrem com conforto porque são proprietários de são bernardos. A escrita de Graciliano na 1a. pessoa nos aproxima perigosamente de Paulo Honório, nos contamina, e nos faz ter lampejos de identidade com um verdadeiro crápula. Existem surreais Paulo Honório's nas personalidades de muitos de nós. Aliás, merece destaque a análise feita, comparando o estado letárgico dele com o relógio parado, do seu estado de espírito e o ambiente ao seu redor.


Divulgação da EdUFF para o mês de Janeiro.


Foi interessante saber que o máximo de socialismo que existia em Marx equipara-se ao Ato dos Apóstolos (vou deixar distorcido assim mesmo porque só esse assunto daria para escrever páginas e mais páginas). Esta questão foi motivo de alerta sobre a necessidade de se ter uma visão crítica das leituras feitas na Internet. Tudo bem, mas não ler por não saber se terá o discernimento devido também é muito crítico. A solução seria ler e participar de um clube de leitura como o nosso. E mais uma coisa ... o que é o ponto de vista! Assim como para Freud tudo se resume ao sexo e à mãe, para Marx tudo se reduz ao econômico (desculpem-me os ortodoxos).

Afeto devia ser um sentimento estranho para Paulo Honório, que só o sentia pela velha Margarida. Foi muito interessante a análise psic em relação ao aspecto concreto da fala de Paulo Honório. Ele não sabia falar de seus sentimentos, o que não prestava era o coração, quem tinha defeito era o cérebro. Ao invés de falar dos sentimentos, ele se referia aos órgãos do corpo. (Algo aproximado)

Houve quem não perdoasse Madalena, pois ela, uma professora, não poderia ter fraquejado e aceitado casar com um cara matuto daquele, supostamente por uma garantia de vida com menos dificuldades financeiras. Expressei a dúvida se a aparente apatia de Madalena não decorreria da narrativa ser em 1a pessoa, porque víamos todos sob a ótica de Paulo Honório. Mas veio a contrapartida implacável: se Madalena ao menos amasse o filho, ela não teria suicidado. Alguém chegou a questionar se Madalena teria suicidado realmente, mas aí é especulação em terceiro grau, assim como a possibilidade do capanga assassino não existir, tratando-se de uma esquizofrenia de Paulo Honório. Acho que o arrependimento de Madalena era maior que seu amor pelo filho, por isso que ela se matou.

Clube de Leitura "..., você já fazia parte e nem sequer sabia."