CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de novembro de 2012

SE MORRER, NÃO MORRE MAIS

Curiosa essa morte em pedaços
Essas punhaladas à prestação
Essa negação que nunca chega
Mas sempre vem.

Inusitado esse espancamento reincidente
Em petelecos insistentes
– aqui morro mais em verbos pretéritos
Do que em substantivos presentes.

Reveladora essa morte que não pode jamais morrer
Porque o fim precisa estar bem vivo e rendendo,
Cultivado a cada dia como profissão de fé, tortura
Que se certifica de um eterno morrendo.

novaes/

9 comentários:

  1. Lindo poema, Monsieur Novaes/, parabéns! Lembrou-me de um pensamento do Dalai Lama que adoro: ".... Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde.
    E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer... e morrem como se nunca tivessem vivido."

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  2. Parabéns, Newton. Um poema, decerto, e com muita poesia, e realidade. Pode ser impressão minha, mas há laivos barrocos bem interessantes ("negação que nunca chega mas sempre vem"; "morte que não pode jamais morrer"). Um forte abraço.
    Carlos.

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  3. Você que pensa ... ainda tem a tal da segunda morte!

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  4. Vejo no poema características possivelmente sociais.Aos petelecos, vai-se sempre morrendo, aos poucos, aos pedaços.E nunca termina esse morrer do ser, de morrer aos poucos, na vida de todos os tempos. Mas se morrer , ai sim , nãos se morre mais aos pedaços, não se tem consciência desse sofrer, ou então foi a alma, a consciência que já morreu. Engraçado , lembrei-me de um poema, Se se morre de amor...Lindo! E forte seu poema, Sr Novaes! Amo-os com todo respeito de quem morre a cada dia de uma morte que nunca chega ao fim.

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  5. É um poema que nos intriga e impulsiona a uma viagem para o interior do autor na descoberta de seus segredos. Eu também penso que há resquícios sociais envolvidos. Mas prefiro implicar com Evandro dizendo que ao nascer somos destinados a viver para sempre e que ao entrar nessa segunda morte também poderá ser "para sempre". O título nos leva por esses caminhos?

    Muito bom, Novaes, você provocou um labirinto literário!

    Abraços!

    Sonia Salim

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  6. Newton, não desejo ser repetitiva, mas esse poema e tantos outros seus, ainda me deixam espantada.
    Sempre uma nova forma estética, mas fico toda prosa achando que reconheceria qualquer poema seu, pois estilo é que não falta.
    Todos falaram sobre sua busca, mas ao escrever, o poder é tanto (escrever é poder, tanto quanto o conhecimento), que o poeta não sabe por que escreveu, certo?
    Fico imaginando que foi uma angústia no peito que te fez pegar a faca de açougueiro e escrever com sangue na folha de carne.
    Cada um projeta o que é no seu poema. Diria que você buscava o absoluto.
    Como não chega o fim, então vai se escrevendo na carne, tatuando a alma.
    Se eu fizesse um desenho, representando seu poema, seria um círculo, o círculo da vida e morte, Tanatos e Eros. Geometria é Poesia.
    Acredito que só se morre uma vez, de vez! Mas podemos negociar com a morte, como no Sétimo Selo (Bergman)?
    Se não, morremos todos os dias, independente do que ocorre lá fora. Dentro, pode haver mais deserto que fora de portas................
    Amo sua poesia, meu amigo.
    Abr.
    Fátima

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  7. Oi pessoal, obrigado pelos comentários.
    É bom quando, sobretudo um poema, consegue "dizer mil coisas", ou seja, 999 aspectos não pensados por quem o escreveu, mas que estão sim presentes nas palavras, nas entrelinhas, no "contexto", nos imaginários suscitados pelos versos. E quando os comentários levantam essas hipóteses, ganho eu ao ler de novo e ver muito bem encaixadas ali essas novas perspectivas. Isto é um presente para mim que, então, jamais cometeria o erro de tentar definir: foi isso ou foi aquilo que motivou a poesia. Fátima foi muito feliz, poeticamente inclusive, quando disse que "foi uma angústia no peito que te fez pegar a faca de açougueiro e escrever com sangue na folha de carne". De fato! E que bela poesia, Fátima! Só uma faca assim, cravada no peito, pode nos levar para o "labirinto poético (literário)" aventado tão inteligentemente por Sonia. Labirintos que são voltas, que não deixam de ser floreios, que remetem ao barroco. Sim, caro Carlos, há um quê de barroco mergulhado na realidade e eu costumo me deixar levar pelos detalhes dramáticos. Talvez eles estejam lá para nos mostrar a "segunda morte" e a terceira, quarta... são tantas durante a vida... quantas estrelas já morreram no Universo, Evandro?, e no entanto ele continua brilhando. Rita remete ao pessoal, à vida que levamos, e Eloísa ao social, à vida que nos deixam levar. É tudo isso e mais a faca no peito.
    Abs,
    Newton (novaes/)

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    Respostas
    1. Newton, seu poema é como um quadro, é como uma cena que vemos na rua e não dizemos nada, que de tão impactante, nos tira a voz e a ação. Seu poema sugere a morte, mas pra mim fala é da vida. Da vida como ela é. A morte, meu caro, é a vida inteira, é a sociedade em que vivemos, é a luta por uma sobrevivência que muitas vezes já nasce moribunda.
      Gostei, gostei muitíssimo e poesia pra mim é assim. Precisa ser sangrenta, precisa ter alma e ideologia.

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    2. Newton, seu poema é como um quadro, é como uma cena que vemos na rua e não dizemos nada, que de tão impactante, nos tira a voz e a ação. Seu poema sugere a morte, mas pra mim fala é da vida. Da vida como ela é. A morte, meu caro, é a vida inteira, é a sociedade em que vivemos, é a luta por uma sobrevivência que muitas vezes já nasce moribunda.
      Gostei, gostei muitíssimo e poesia pra mim é assim. Precisa ser sangrenta, precisa ter alma e ideologia.

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