CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

27 de março de 2013

Indicação - Zorba, o grego: Nikos Kazantzakis


Já nos irritamos com Zeno, já nos culpamos com Raskólnikov,  já nos prostramos num quarto com uma barata,  já nos indignamos de infâmia, nos desbordamos em África, nos amargamos, desassossegamos e nos castigamos tantas vezes nos últimos meses. Não seria hora de experimentarmos a vida com Zorba, o grego, de Nikos Kazantzakis?




Zorba é um cântico à liberdade do ser humano! Chega de paixões solitárias, de vidas e mortes, de recordações e confissões, de caixas pretas e costuras, de estranhezas kafkianas. Voltemos à simplicidade existencialista. 

Glorifiquemos os sentidos, olhos, nariz, boca e ouvidos, a pele ao sol. Viva o passar do tempo, a vida que saboreia cada minuto desse erro humano que somos! Viva o pecado! Viva as manhãs do mundo, as tardes e as noites! As madrugadas! Viva o romance!

Viva Zorba!


Cinquenta Tons de Cinza: E L James


"Por ouvir pacientes comentarem e uma amiga/colega psicanalista ter "adorado", achando que "tem muitas interfaces com a psicanálise", que era "maravilhoso", "tudo a ver" etc, enfim, dizendo que eu "tinha" que ler, aventurei-me, não nego, com inicial preconceito, mas com muita boa vontade, a ler "50 tons de cinza"...




Resumo da ópera: não entendo porque tantas pessoas fanaticamente idolatrando tal obra por um lado e tampouco, por outro lado, tantos metendo o pau enfaticamente; nada mais se trata, em minha modestíssima concepção, claro, que uma versão anos 2000 do bom e velho "sabrina" que se vendia nas bancas de jornal, ou seja: pornografia e erotismo voltado sobretudo ao público-alvo feminino com baixíssimo valor literário - nada mais, nada menos.
Grande abraço a todos!"

FLR



25 de março de 2013

Você sabe o que é ‘teaser’?


Teaser é um recurso usado por algumas propagandas onde se omite a identificação do produto ou serviço para provocar a curiosidade do leitor. Hum, e o que isto tem a ver com o Clube de Leitura Icaraí? Já está curioso (a)?


Então, antes de revelar a próxima brincadeira, gostaria de propor que votássemos em temas que achemos interessante abordar em um texto. Abaixo seguem algumas sugestões. No campo Comentários deste post, vote em alguma ou proponha um tema novo. Assim que tivermos um mínimo de dez votos, a proposta será apresentada na íntegra. Espero pelo seu voto.

- Um dia, uma leitura
- Homem, esse ser hipócrita
- Sonhos que não sonhamos
- Novos arranjos familiares
- Uma reforma educacional

16 de março de 2013

Franz Kafka e a lei: Estado de Direito X Sociedade Libertária


(por: W.B.)


“Tacitamente ameaçados, estamos imobilizados dentro de espaços sociais condenados, locais anacrônicos que se autodestroem, mas onde temos o estranho e apaixonado desejo de permanecer, enquanto o futuro se organiza, debaixo de nossos olhos, em função de nossa ausência já programada de maneira mais ou menos consciente.”
(Viviane Forrester)

“Não há pior servidão que a esperança de ser feliz.”
(Carlos Fuentes)

O conto Diante da Lei, de Franz Kafka, narra a história de um homem que deseja passar por uma porta e “entrar na lei”. Mas, diante da porta, há um guarda que não o deixa passar. Transcorrem dias, meses, anos, na esperança de um dia lhe ser permitido o acesso. Já no final da vida, morrendo de cansaço, o homem pergunta ao porteiro por quê, se todos aspiram ao Direito, ninguém mais tentou entrar na lei em tantos anos. O guarda responde: “Esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a”.

Diante da Lei integra o livro Um Médico Rural e constitui uma espécie de protótipo do romance O Processo, onde Joseph K. é processado por um crime que não sabe qual é, e onde a mesma história do conto é narrada por um sacerdote ao acusado. Fica claro que, baseando-se na ideia desse conto, Kafka foi desenvolvendo uma narrativa longa, esta viria a se transformar em seu romance póstumo, o qual, junto com a novela A Metamorfose, é considerado sua obra-prima. Sabe-se que uma grande influência para a feitura de O Processo foi o romance Crime e Castigo, do escritor russo Dostoiévski. Como na obra de Kafka, sempre surgem processos judiciais nos escritos de Dostoiévski: ora processos penais, ora civis, o que – na Rússia da época – não fazia tanta diferença já que existia a prisão por dívidas. Até hoje, doutrinadores de Direito aconselham aos estudantes a leitura de Dostoiévski, pois este demonstra muito claramente que fatos que nos parecem obviamente verdade dentro de um processo podem ser completamente falsos, e não se pode prejulgar ninguém, pois assim se faz a pior das injustiças, pior até que os crimes comuns (o que se vê de forma mais clara em Os Irmãos Karamázovi).

Kafka, numa carta à noiva Felice Bauer, escreveu que quatro homens são seus “parentes consanguíneos”: Grillparzer, Kleist, Flaubert e Dostoiévski. Este, por sua vez, havia declarado: “todos nós descendemos de O Capote de Gógol”. O conto O Capote narra a história de um homem que trabalha a vida inteira para comprar um capote e, quando consegue, é assaltado.

Interessante notar a semelhança do conto O Nariz de Gógol – onde um homem acorda sem nariz – e A Metamorfose (de Kafka) – onde Gregor Samsa acorda transformado em barata. Em Notas do Subterrâneo, de Dostoiévski, a degradação em que o personagem se vê submerso também nos lembra um pouco A Metamorfose (“Declaro-vos solenemente que muitas vezes quis tornar-me um inseto. Mas nem disso fui considerado digno” – Notas do Subterrâneo). Dostoiévski também nos faz lembrar A Metamorfose num trecho do romance Os Demônios, onde uma personagem narra a seguinte fábula em versos: “Andava por este Mundo/ Uma barata. Mas veio/ Um dia cair no fundo/ Dum copo de moscas cheio.../ Sentiu-se ali muito bem./ Deixou-se ficar. As moscas/ Começam a protestar/ ‘Já não cabe mais ninguém!’/ Erguem aos céus o seu brado,/ E enquanto estão a gritar/ Aproxima-se o criado...”. A personagem então diz sobre a fábula: “Ainda não acabei (...), explicarei o resto em prosa. O criado pega no copo e, apesar da celeuma, atira tudo ao lixo, moscas e baratas. Mas repare (...) a barata não protesta. No que respeita ao criado ele personifica a natureza”. Não há saída, assim como no conto Uma Fabulazinha, de Kafka, onde um gato indica o caminho por onde o rato poderia escapar e o devora logo em seguida: é o humor negro e a desesperança que perpassam toda a obra kafkiana.

Os escritos de Gógol também tinham muito humor, assim como os de Kafka, que lia para os amigos trechos de O Processo quase chorando de tanto rir. Tanto Gógol quanto Dostoiévski eram eslavófilos, o que na Rússia da época representava um pensamento retrógrado, mas – pelo menos no caso dos dois – bem intencionado. No romance Os Demônios, Dostoiévski critica veladamente o escritor ocidentalista Turguêniev (amigo do socialista libertário Bakunin) criando um personagem escritor, pedante, chamado Karmazinov, que teria escrito um artigo medíocre, “cheio de pretensões poéticas misturadas com considerações psicológicas” onde é descrito um naufrágio na costa da Inglaterra exatamente como no conto Um incêndio no Mar de Turguêniev. Provavelmente a rivalidade entre os dois escritores se dava mais por razões políticas do que propriamente literárias. Realmente o Ocidentalismo pecava por valorizar exageradamente os avanços técnicos das sociedades européias; porém a crítica de Dostoiévski parece abarcar todas as ideologias antimonarquistas, demonstrando um certo reacionarismo no grande escritor russo.

Apesar de a esquerda ser um tanto caricaturada na obra de Dostoiévski, seus romances demonstram aversão à tortura, à pena de morte e à exploração. Mas o fato é que essa moral propalada por Dostoiévski não é exatamente humanista, mais sim religiosa. A grande questão que ele nos apresenta através do personagem Ivan Karamázov é: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Se tudo é permitido, inexiste uma moral: nada é errado. Satisfazer as paixões seria o único objetivo do indivíduo, que não hesitaria em causar mal ao próximo para alcançar a única finalidade da vida: o prazer. Deus, portanto, seria indispensável para a sobrevivência da raça humana, a qual sem ele estaria fadada à autodestruição. A fé é imprescindível.

Em Kafka a fé é a grande vilã. O castelo (no romance homônimo) só é poderoso porque todos lhe atribuem poderes, creem na força dos funcionários do castelo, que para o agrimensor K., estrangeiro, nada parecem ter de especial. O Deus/Pai/Estado aparece como elemento instituidor de um sistema incompreensível ao povo – incompreensível porque não estabelecido pelas pessoas que a ele se submetem. Um regime de normas é criado, mas o criador não se submete a elas – é um tirano.

A descrença é que salva em Kafka. Em O Processo, quando Joseph K. afronta o tribunal que o acusa e nega a validade dos procedimentos legais, até o submisso acusado Block se põe a reclamar: há um esboço de ruptura no sistema. K. não acreditava no advogado e o destituiu, gerando escândalo. Block cria no advogado, e assim se tornou escravo dele, submetendo-se a seus caprichos. No universo kafkiano, não crer é fundamental: só assim se é livre.

Quando se é livre, tudo é permitido? Quando se é livre, vive-se numa coletividade livre em que as normas advêm das pessoas que a elas se submeterão, logo serão normas que permitam o bem. Apenas existindo um Deus/Pai/Estado, o mal seria permitido, pois as normas adviriam de uma autoridade e não dos indivíduos que se submeteriam a elas, e que obviamente não prescreveriam o mal para si. Kafka não tece explicitamente considerações a esse respeito: não trata de idealização de sociedade futura. Ele não foi um utopista, suas preocupações não eram voltadas para as ciências sociais ou políticas. “Tudo que não é literatura me aborrece”, dizia. Apesar disso, em 1918, Kafka elaborou o programa para uma “Comuna de trabalhadores sem propriedade privada”, que pode ser lido como um projeto de “kibutzim” israelita baseado nas ideias de Piotr Kropotkin (anarquista comunista), Liev Tolstoi (pacifista cristão antiestatista) e Aaron David Gordon (um dos fundadores do movimento dos “kibutzim”).

Interessou-se por ideias radicais já na adolescência, tendo Espinosa como primeiro mentor espiritual, o qual – herege delicado, mas inflexível – havia sido expulso da comunidade judaica de Amsterdã dois séculos antes. Em 1899, aos 16 anos, Kafka entusiasmou-se com a publicação de Die Welträtsel (Os Mistérios do Mundo) do biólogo e filósofo alemão Erneste Heinrich Haeckel, cujas ideias baseadas em Darwin rejeitavam até mesmo a divindade monista da Espinosa. Kafka voltou-se para um ateísmo mais declarado. Veio a ler Niezstche. Interessou-se mais tarde pelas ideias de Liev Tolstói e Alexandre Herzen, bem como pelo Anarquismo de Piotr Kropotkin. Alguns biógrafos chegaram a afirmar que Kafka teve participação ativa no órgão anarquista checo Club Mladych (Clube dos Jovens) por volta de 1910. Porém na biografia O Pesadelo da Razão (Ed. Imago, RJ, 1986), Ernest Pawel afirma que a participação do escritor se restringiu a umas poucas reuniões ou demonstrações públicas na qualidade de observador interessado.

Não foi exatamente um “defensor do proletariado”, mas um escritor pleno que trabalhou para a radical libertação do ser humano. Em Kafka, a humanidade se contrapõe ao Estado, cuja burocracia estende seus tentáculos a todos os aspectos da vida humana. Nota-se que a linguagem forense é usada mesmo em relações que não seriam jurídicas. Há, por exemplo, um conto onde só aparecem pai e filho, mas cujo título é O Veredito, numa referência à condenação imposta pelo pai ao filho.

A obra de Kafka tem claramente uma temática ligada ao Direito, como vemos nos escritos O Processo, O Novo Advogado, entre outros. Falar de Direito foi a maneira da Kafka abordar seu grande tema: o poder. O Veredito representa o poder do pai; A Metamorfose, o poder da família e da sociedade; O Processo, o do Estado. Na época, o pensamento jurídico dominante dizia que estado de direito e estado democrático eram sinônimos. Se algo não fosse bem dentro de um ordenamento jurídico, interpretava-se que este sistema não havia sido plenamente jurídico: certamente o Direito havia sido ferido em algum ponto. Legalidade era Justiça.

Após a morte do escritor checo, houve a ascensão do Nazismo: as três irmãs de Kafka – que era judeu – morreram em campos de concentração, assim como Milena, ex-amante do escritor, que acolhia perseguidos em casa e, apesar de não ser judia, usava uma estrela de Davi amarela (uso impostos pelos nazistas a todos os semitas) como afronta aos hitleristas e solidariedade ao povo judaico.

Depois do Nazismo, os doutrinadores de Direito ficaram desconfortáveis com a noção de que legal é igual a justo. Como negar a juridicidade do Nazismo, já que ele tinha normas rígidas e coerentes, exercidas sem rupturas com a legislação? E negar a injustiça do regime seria impossível. Foi aí que se separaram um pouco as ideias de estado de direito e sociedade democrática. Já há, entre os juristas, quem fale de sociedade de direito não democrática (fascista, por exemplo) e até de sociedade democrática que não seja de direito (indígena).

Mas Kafka, antes de tudo isso, foi mais além, colocou a juridicidade como elemento necessariamente contrário à liberdade.

“Juridicidade” não passaria de uma bonita palavra atrás da qual se esconde a opressão burocrática. E a luta pela cidadania seria uma maneira de afastar as pessoas da verdadeira questão a ser tratada: a questão da liberdade. Cidadania aparece então como o contrário de humanidade: o cidadão-eleitor-contribuinte seria tudo menos um ser humano, pois, controlado por um Estado, não se é sujeito, mas objeto – coisa. Ser cidadão é exercer plenamente os direitos que o sistema governamental – de forma paternalista – concede à pessoa, e se comprometer a arcar também com os deveres impostos: é pactuar com o sistema, aceitá-lo. Ser cidadão é não romper com o regime governamental. E a função do governo é, como se sabe, manter a dominação da elite sobre a massa trabalhadora.

A burocracia surge a todo momento na obra de Kafka como uma teia em que os indivíduos se enredam voluntariamente, aceitando o absurdo de um sistema por considerá-lo natural, preexistente aos indivíduos. É como se houvesse uma burocracia celeste que frustrasse os sonhos de todos. No conto Uma Mensagem Imperial, o imperador envia um comunicado “a você, o só, o súdito lastimável”, mas uma multidão de pessoas, uma infinidade de casas e uma distância enorme entre o remetente e o destinatário impedem que a mensagem seja recebida. É interessante o fato de o narrador dirigir-se diretamente ao leitor (“você”) a quem é destinada a mensagem imperial que não chega. Mas a mensagem de Kafka chega até nós. E que mensagem seria essa? O conto – como sugere o título – é a mensagem, só que, na verdade, anti-imperial: mostra a impossibilidade de comunicação entre seres de diferentes classes, a burocracia inerente às relações interpessoais e a incompetência do próprio império.

O elemento tragicômico da prosa kafkiana reside no fato de os acontecimentos fantásticos serem tratados de forma absolutamente banal – o absurdo ser mostrado como natural – e no fato de os indivíduos serem cúmplices, ou agentes, de sua própria opressão. Em O Veredito, por exemplo, o personagem principal se mata pulando num rio, por que seu pai – velho, fraco e doente – ordena que ele se afogue. Em Na Colônia Penal, um personagem se submete voluntariamente à tortura. O personagem de Diante da Lei desperdiça a vida esperando por uma lei que tinha como função exclusiva fazê-lo esperar.
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Hoje, submetidos à lei do mercado, milhões de pessoas padecem em filas de emprego, esperando serem incluídas num sistema em que não há lugar para elas. Na verdade, de certa forma já estão incluídas nesse sistema – que lhes confere a função de esperar por um emprego que não existe, pois a população é muito maior que as vagas de trabalho oferecidas. Não são exatamente excluídas, estão representando o papel que lhes é dado por esta sociedade: servir de exército de reserva de trabalho , mantendo baixo o nível dos salários. Vive-se na fantasia de um dia entrar na Lei – ter direitos civis garantidos, ter emprego, ser alguém. Esta fantasia se baseia na crença de que a atual sociedade é boa, e que se a situação de um indivíduo não é satisfatória isto se deve ao fato de ele estar excluído desta sociedade. Na verdade ele está incluído, incluído num sistema que dele se utiliza para legitimar sua existência e perpetuar a exploração.

E não há como ter esperança? Certamente não há como ter esperança dentro deste sistema. Mas em Kafka surge uma tênue luz, uma possibilidade de algo diferente. Antes de morrer, Joseph K., personagem de O Processo, vê uma luz, uma janela que se abre. São as alternativas que se abrem. De forma mais explícita, no romance inacabado América, o personagem principal segue para um circo, onde todos teriam espaço para, de forma livre, exercer suas aptidões e desejos.

É nessa possibilidade que temos de apostar, na possibilidade de algo novo, e profundamente diferente do que aí está. Não é tão difícil. Não pactuar com a dominação e não alimentar esperanças falsas já abre perspectivas revolucionárias e libertárias.

(KAFKA AINDA NÃO FOI LIDO PELO CLUBE DE LEITURA ICARAÍ)

13 de março de 2013

Entrevista com o escritor Novaes/

Integrante do CLIc, que está lançando o livro de contos Letras rebeldes fluidos insensatos, deu entrevista à Unitevê, canal web da UFF, reproduzida também pela TV OFlu.

Em Niterói, o lançamento ocorre no próximo dia 18 de março, 2a feira, a partir das 18h30 no Botequim Informal, em São Francisco.


7 de março de 2013

Segredos de Algibeira: Ilnéa País de Miranda


       Uma outra história do "achamento" 

Sempre se ouviu dizer que o Brasil - que nem era Brasil naquela época e nem por muito tempo depois - foi descoberto "por acaso" o que nunca se firmou como verdade. E o que eu vou contar para vocês bem pode rezar pela mesma cartilha.

A história se conta assim...

Diz-se que D. Manuel I, venturoso Rei de Portugal, resolveu formar uma esquadra para refazer o caminho das Índias, descoberto por um tal Vasco, que também era da Gama, mas por certo não jogava futebol - que à época nem coisa de inglês era ainda - para buscar especiarias para a cozinha do palácio. 

No comando, Pedro Álvares Cabral, navegador português de quatro costados; de escrivão, o Caminha, para que de casos e acasos, nada ficasse sem registro, e de timoneiro da nau capitânia... alguém que não sei o nome, mas de importância vital nesta história. (aqui também pode entrar a versão do coelho de estimação que se chamava Acaso por conta da maneira como fora parar nas mãos do timoneiro)

Pois que este moço - ora pá! - adorava comer coelhos! Só de pensar no acepipe, sua boca salivava, lambia os beiços e estalava a língua. Pois para tristeza sua, disseram-lhe que, jeito e maneira, coelhos não fariam parte da dieta das caravelas "não dão sustância," diziam, "comem demais e fazem muita sujeira! Salgar não adianta, pois que com tão pouca gordura, no final sobrará nada." (é que, naquele tempo, como não havia refrigeração, as carnes viajavam salgadas, ou então vivas, na embalagem original.)

O moço timoneiro passava dias ensimesmado, andando de um lado para o outro, mãos enfiadas nas algibeiras, lamentando os dias, meses, que ficaria sem provar da iguaria preferida. Até que, para sua surpresa, achou, lá no fundo do bolso das calças, uns ossinhos do coelho que comera umas semanas atrás. Pensou, "Ora pois, pois! Visto essas calças o tempo todo! Se nem eu me apercebi que isto estava cá ..."

Sem demora foi ao curral de coelhos, pegou um dos "miúdos", meteu-o bem no fundo da algibeira e lá se foi para a caravela.

No dia aprazado, ou seja, "aos nove dias do mês de março do ano da Graça de 1500," sob auspícios de D. Manuel, e algazarra generalizada do povo da terra, partem as tantas caravelas, uma após outra, lideradas por aquela capitaneada por Cabral. 

Ao timão, o TIMONEIRO com seu coelho escondido lá no fundo da algibeira... (Nota - acho que aqui merecia uma musiquinha! Mas vamos deixar pra próxima!)

... e como era timoneiro da nau capitânia... de certa forma era ele que capitaneava aquelas outras tantas que lhe vinham atrás.

Em se considerando que o Norte é "lá em  cima," de lá veio nosso timoneiro arrastando uma fieira de caravelas mar abaixo, na direção do Equador. Nesta manobra, bom que se note, o Norte ficava-lhe às costas, o Leste à esquerda, o Oeste à direita, e o Sul à frente... enfim: tudo ao contrário! Mas, seguindo sem piscar as instruções do navegador, não havia o que errar. Para frente e para baixo, um olho na carta o outro no mar, segurando o timão com firmeza. 

 Vez em quando o coelho miúdo se lhe agitava a algibeira. Acalmava-o com uns tapinhas, uma cenoura, uma folhinha verde, uns grãozinhos de cereal. À noite, quando não havia ninguém por perto, prendia o timão na rota e ia até a beira do tombadilho descartar as porcarias com que o bichinho presenteara seu bolso. 

No princípio, tudo isso era manobra fácil. Mas com o passar dos dias, o coelho foi crescendo, cada vez comendo mais, cada vez .... mais, tomando mais lugar, e ficando mais e mais impaciente.

Uma noite, lá pelas tantas da viagem, o bichinho - já nem tão "inho" assim - mui arreliado, pulou tanto que o timoneiro, ocupado em seu mister num mar um pouco agitado, deu-lhe uma espremida de encontro ao timão. O coelho, já de bom tamanho para a panela, pulou fora da algibeira e saiu pulando pelo tombadilho. Vendo seu prato favorito ameaçado, nosso moço largou o timão e correu-lhe atrás. 

Nem é preciso entender de navegação para perceber o que aconteceu. O coelho sumiu porão adentro; o timoneiro, desolado, voltou ao timão sem nem notar certo desvio para a direita que, nas circunstâncias já descritas, significava para o Oeste, ou seja contrário à pretensa rota declarada - as Índias.

A esquadra, distraída, continuou seguindo atrás.      

Dias mais de bons ventos, o vigia, encarrapitado no alto do mastro, em seu cesto da gávea, anunciou o que todos esperavam:
                 
"Terra a vista!" gritou bem alto.
  
Os que puderam, correram para a proa. Todos queriam avistar a terra que pensavam ser as Índias. 

E de sua posição privilegiada, lá do alto da gávea, gritou outra vez o encantado vigia:

"Ora cá! Já "posso ver as índias! Todas lá na praia, peladinhas, com as vergonhas de fora!"

Foi uma correria ainda maior. De capitão a marinheiro raso. De tombadilho ao fundo do porão. Todos queriam ver o que o vigia anunciava. Índias, peladinhas... e com as vergonhas de fora?! Isso era coisa que nunca tinham visto e faziam questão de ver. No afã de ter a melhor visão, nem se lembraram de fechar portas e alçapões.

O porão foi deixado aberto, e de lá subiram galinhas cacarejantes e famintas e aquele coelho do qual o timoneiro talvez nem lembrasse mais. Foi um fuzuê só! E tamanha barulheira acordou um bando de papagaios que dormitava nas árvores. Acordados, saíram voando na direção da caravela. Assustados, alguns se juntaram à gritaria. E foi aí que, abrindo os bicos no grito, deixaram cair no tombadilho uns caroços que carregavam.

As galinhas - como já disse - famintas, danaram de comer as tais sementes! E comeram tanto, tanto, que, ao findar a refeição, nada mais queriam do que tirar uma soneca.

O povo das caravelas seguiu como pode para a "confraternização" que durou dia inteiro. À noitinha, voltaram os homens ao navio - mortos de fome de tanta atividade. Mas descobriram que não havia nada para comer senão os ovos que as galinhas haviam deitado.

"Vamos fazer omeletas!" e prepararam os apetrechos. Só que, quando foram quebrar os ovos... descobriram que aqueles não tinham clara nem gema. Primeiro pensaram em jogá-los fora e até matar as galinhas que botavam ovos tão esquisitos. Afinal, podiam ser venenosos!!!

Mas... e sempre há que haver um "mas" para que as histórias façam sentido,  um dos ovos, descascados, caiu no chão. 

E quem estava lá? O nosso amigo coelho, o salvador! Também com fome, comeu o ovo. Os homens ficaram olhando, curiosos e intrigados. Se o coelho morresse.... mas se não morresse... 

Morrer? Claro que não morreu! E ainda postou-se nas patas de trás como que pedindo mais. Os homens provaram do ovo escuro. Era uma delícia de gosto… e cheiravam como só!

E foi assim, que naquele Domingo de Páscoa - e sempre por conta do Acaso, além do Brasil, foram descobertos, servidos… e comidos Ovos de Chocolate… da Páscoa! 

Ah! Penso que esqueci de dizer: Acaso era o nome do coelho do Timoneiro que… 

… mas isso é uma outra história que, qualquer dia  - quem sabe? - eu conto para vocês.



4 de março de 2013

Um outro final: brincadeira coletiva em homenagem à mulher, sugerindo um final diferente para o texto a seguir


Caros leitores,

Nossa brincadeira de março, baseada na sugestão da Cristiana Seixas, é propor um outro final para o texto abaixo, de Affonso Romano de Sant'Anna (o final original foi inclusive  removido para não influenciar os participantes). O texto foi uma contribuição mais do que oportuna trazida por Joana Lapa, sendo este o mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher. 

Damas e cavalheiros, apresentem suas versões de possíveis finais no campo COMENTÁRIOS, s´il vous plaît.




A Mulher Madura, de Affonso Romano de Sant'Anna, COM DIFERENTES FINAIS PROPOSTOS PELO CLIc

 
Anouke Aimé
  O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.
Melina Mercouri 

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no
balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a
entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso
esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou
de Anouke Aimé.



Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência,
quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não
sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um
nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim,
desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio
em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar
sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as
coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o
mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um
tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos
dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio
em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a
sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada
e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha
para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são
líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de
setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram
em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste
possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica
as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os
mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade
também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte
e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho
interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade
é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa
coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um
relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do
tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do
próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando
com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher
madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da
superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher
madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se
naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde,
quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos
pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos
escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe,
mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman,
quando nos seus filmes.





                                                                                                   


(15.9.85)

O texto acima foi extraído do livro "A Mulher Madura", Editora Rocco - Rio de
Janeiro, 1986, pág. 09.

2 de março de 2013

Sobre "Os Extremos do Arco-íris"


(por: W.B.)


O romance "Os Extremos do Arco-íris" (Edições Bagaço, 2004, 96 p.), do escritor pernambucano Raimundo Carrero, é narrado em 1ª pessoa e conta a história de um desempregado que, ao se tornar detetive, fica encarregado de proceder uma investigação sobre um homem encontrado morto no telhado dum hospício.

Poetas, romancistas, artistas em geral, até o cantor heavy Ozzy Osbourne são citados ao longo do livro. Isso poderia resultar em uma bobagem tentando se escorar em textos de autores consagrados; aliás é o que geralmente ocorre com quem se utiliza de citações aos montes. Mas não é o caso aqui.

Os trechos de outros ficcionistas, transplantados para a narrativa de Carrero, tornam-se quase irreconhecíveis e compõe uma obra distinta e válida. Um bom livro, que, porém, está longe de ser o melhor do autor.

1 de março de 2013

Entrevista coletiva com Carlos Rosa Moreira



O CLIc traz mais uma novidade para você. A entrevista coletiva com nossos leitores-escritores. Libere o jornalista que há dentro de você e faça suas perguntas a Carlos Rosa, que recém lançou seu livro de contos, Histórias da noite*.

Histórias da noite, cujas impressões dos participantes que já leram podem ser conferidas na aba Review deste blog, é o primeiro livro de contos de Carlos Rosa, figura já consagrada no gênero Crônicas.



São dele ainda A Montanha, o Mar, a Cidade* e Amanhã de manhã, em frente ao cinema Icaraí*.

Então, o que você gostaria de perguntar ao escritor? Deixe sua questão no campo Comentários e aguarde pela resposta do autor.


* À venda na estante do concièrge. Peça o seu enviando um email para conciergeclic@gmail.com.

A Paixão Segundo G.H.: Clarice Lispector


Versos

Clarice viu o que não estava lá
e eu ainda no óbvio
não sigo seus passos
recuo, refaço e nada
a meus olhos as mesmas
letras irreveladas
tal qual sua imagem
sisuda e compenetrada
vegetando em cada hiato sem criação.

Insisto ainda
debato comigo
indago a própria pergunta
a necessidade de entender
o que foge a meu parâmetro
o que está distante do que penso ser.

Começa a doer repensar o que
julgava certo, seguro, sem risco.
Revolvo o velho presente
cavuco arraigados conceitos
aderidos às membranas do costume.
Perco o chão, o foco, o limite
me vejo na vida feia e suja
lutando pela sobrevivência
em silêncio.
Vejo através de mim e além
enxergo o tempo contínuo
nada nunca passou nem passará
o tempo se me corre.

Meu prédio inteiro rui
arcabouços de humanidade desabam
rótulos navegam em meu sangue
de barata
à procura do ralo.
Quebro o que era hermético
testemunho a dor gigante
sou disforme
uma massa branca
desconexa e solitária.
Tenho medo de mim.
Provo, desconheço
atravesso, abandono,
mato e ressuscito-me,
mais densa e amadurecida
pelas mãos dessas páginas.

Rita Magnago
Última atualização do blog: 24/10/2012
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Travessias
* * *

Abujamra declama Clarice




Entrevista com Clarice Lispector

"Sou o silêncio gravado numa parede, e a borboleta mais antiga esvoaça e me defronta: a mesma de sempre. De nascer até morrer é o que eu me chamo de humana, e nunca propriamente morrerei.

Mas essa não é a eternidade, é a danação.

Como é luxuoso este silêncio. É acumulado de séculos. É um silêncio de barata que olha. O mundo se me olha. Tudo olha pra tudo, tudo vive o outro; nesse deserto as coisas sabem as coisas. As coisas sabem tanto as coisas que a isto...a isto chamarei de perdão, se eu quiser me salvar no plano humano. É o perdão em si. Perdão é um atributo da matéria viva."
Senti muito, Êlo... esse trecho em especial revelou muito do livro para mim. O momento do impacto, de estar presa ao horror, ao momento, ao silêncio, que a levou ao confronto com si mesma. Muito especial, Clarice Lispector, uma excelente escolha! Beijos, querida.

(Maria Lucia)
Olá Leitor CLIc, bem vindo ao encontro de si mesmo










Clarice