CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

27 de outubro de 2016

A Cabanagem - O levante.



Resultado de imagem para a cabanagem
A Cabanagem foi o movimento popular mais violento que eclodiu no período regencial (1831-1840). A revolta começou na madrugada do dia 7 de janeiro de 1835, conforme o Dicionário Brasileiro das Batalhas, com a tomada do quartel de artilharia e do palácio de governo do Grão-Pará, na então cidade de Santa Maria de Belém, capital da província. A adesão ao Império do Brasil, em agosto de 1823, fora muito traumática, de modo que a animosidade contra o governo continuou a afluir por todo estuário do Amazonas, em cada ponto da província.
A elite paraense queixava-se de não participar das decisões locais e do abandono que fora relegado o Grão-Pará pelo Rio de Janeiro. Já a população pobre, constituída de índios, negros (escravos e libertos) e mestiços - os cabanos - clamava por melhores condições de vida, devido a extrema miséria em que vivia às margens dos rios, ilhas e igarapés em pequenas cabanas de palha. É nesse quadro que Bernardo Lobo de Souza é nomeado presidente da província, em dezembro de 1833.
O ano de 1834 seria marcado por hostilidades entre o governo e os cabanos. Tais hostilidades chegam às margens da intolerância, quando Lobo de Souza, com seu temperamento autoritário e explosivo, instaura a perseguição e manda prender as lideranças cabanas. A maior autoridade entre os cabanos, desde a adesão do Grão-Pará ao Brasil, era o cônego Batista Campos. Para não ser preso, o cônego se refugia na fazenda de Félix Clemente Malcher, de onde passa a planejar a tomada do poder junto aos demais líderes. O fazendeiro e dono de engenho Clemente Malcher fora aprisionado.  
O cônego Batista Campos, entretanto, veio a falecer no dia 31 de janeiro de 1834, dias antes da eclosão do levante, devido a uma infecção causada por um corte no rosto ao barbear-se com uma navalha. As forças do governo ainda comemoravam a sua morte, quando tropas cabanos e da guarda municipal, comandadas por Antônio Vinagre, iniciam o levante. O presidente Lobo de Souza e o Comandante das Armas, tenente-coronel Joaquim José da Silva Santiago, são brutalmente assinados e seus corpos profanados, depois de arrastados para frente do palácio do governo.
A barbárie toma conta de Belém: os cabanos executam os oficiais e soldados que resistiam ao levante, apoderando-se das armas e munições. Não obstante a libertação de Clemente Malcher e sua elevação a presidente da província, os cabanos marcham em caçadas sangrentas aos portugueses e àqueles que julgavam não “patriotas”. Muitos prédios comerciais e residenciais são invadidos e saqueados, e as mais terríveis e repugnáveis atrocidades executadas.
De temperamento rude, Malcher não consegue controlar a desordem. Também não demora entrar em conflito com o Comandante das Armas, Francisco Pedro Vinagre. Então, ao acusar e mandar prender o jovem líder cabano Eduardo Angelim “por conspirar contra o governo”, Malcher acaba por sucumbir às tropas de Francisco Vinagre, após intensa batalha que dura todo o dia 19 de fevereiro. Já no dia 20, Malcher é covardemente assassinado a caminho da prisão, enquanto Francisco Vinagre assume o governo.
Em junho de 1835, após longa pressão do clero paraense, Francisco Vinagre acaba por renunciar a favor de Manuel Jorge Rodrigues, indicado pela Regência para presidente e Comandante das Armas. No entanto, Manoel Rodrigues não consegue pacificar a província, como também deixa de cumprir o acordo de anistia, mandando prender Francisco Vinagre. No dia 14 de agosto, após nove dias de combate, os cabanos retomam Belém, sob o comando de Eduardo Angelim e de Antônio Vinagre, este último morre em combate.
Os cabanos assumem novamente o governo do Grão-Pará, mas muito sangue ainda seria derramado, pois o conflito só termina em 1840, cinco anos depois.
NOTA: Continua com o artigo “Da pacificação ao extermínio”.
Visite nosso blog: 

Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior

24 de outubro de 2016

A Cabanagem – Da pacificação ao extermínio

Resultado de imagem para A cabanage
Por Wagner Medeiros Junior

A tomada do governo do Grão-Pará pelos cabanos, em janeiro de 1835, produziu uma profunda desordem na província. A capital, Belém, reduziu-se a um “aspecto deplorável e medonho”, conforme relato de Manuel Jorge Rodrigues, representante do Império. O comércio foi desmantelado por saques e as ruas marcadas pela artilharia das armas de fogo e projéteis de canhões. A cidade viveu o que passou a chamar-se “o tempo da malvadeza”, pela ação desmedida dos cabanos, que deliberadamente matavam os que não julgassem “patriotas” - os “bicudos”.
Da cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, o arcebispo geral do Brasil, D. Romualdo Antônio de Seixas, chocado com as notícias que chegavam de sua terra natal, decide-se por ultimar seus concidadãos através de mensagens pastorais. Tais mensagens foram encontrando eco no meio do clero e na população paraense, quer pelo forte apelo religioso que evocava as tradições locais, quer no aspecto político ao pedir “os habitantes da província para que não se separassem da União Brasileira”, lembrando conquistas passadas.
Da Catedral da Sé, em Belém, o bispo local d. Romualdo Coelho, já bastante debilitado pela idade avançada e doente, também se engajou ao apelo de d. Romualdo Seixas pela pacificação, suplicando pela ordem e incitando os cabanos a abandonar a cidade. Em uma de suas pastorais D. Romualdo Coelho dirige-se aos cabanos a seguinte mensagem:
Bem quisera, amados filhos, ir pessoalmente como bom pastor visitar os pontos em que vos achais, e falar-vos do doloroso estado de opressão em que gememos; mas não permitindo a molesta que me oprime cada vez mais, e próximo a comparecer no Tribunal Divino, tenho ao menos a consolação de cumprir este dever de pai pelos ministérios dos vigários gerais, de minha inteira confiança. Eles vos dirão que já é tempo de moderar o entusiasmo guerreiro e de restabelecer a ordem indispensável ao sossego público e continuação do Culto Divino.
D. Romualdo Coelho também insistia que já não havia mais a quem combater, senão “famílias ordeiras e pacíficas”. Assim, terminou por lograr em que o jovem líder cabano Eduardo Angelim, então com 21 anos, decidisse pela retirada de Belém com as suas tropas. Além de abatida pela guerra, a cidade sofria um surto de varíola, de larga mortalidade. É nesse quadro que o comandante Francisco José Soares de Andréa, depois de ser nomeado para presidente e Comandante das Armas pelo padre Diogo Antônio Feijó, regente do Império, retomou o controle de Belém, em 13 de maio de 1836.
Os governos cabanos de Félix Malcher, Francisco Vinagre e Eduardo Angelim pereceram pela falta de projeto político e por não consolidar a autoridade e a ordem, o que abalou profundamente a vida social e econômica de toda a província do Grão-Pará.
Com a retirada dos “rebeldes” de Belém, o comandante Soares de Andréa deu início à reconstrução da cidade, enquanto o levante se expandia pela imensa bacia hidrográfica, ganhando forças desde o médio ao alto Amazonas. As idéias difusas de liberdade haviam se popularizado por todo continente amazônico atraindo tapuias, escravos fugidios e libertos, tribos inteiras de índios e remanescentes dos aldeamentos, como também soldados desertados das tropas do Império.
As forças imperiais iniciaram então uma verdadeira caçada aos cabanos, impondo-lhes sucessivas e massacrantes derrotas. Em 1839 o governo concedeu-lhes anistia, mas o fim do conflito só aconteceria em 1840, quando o líder cabano Gonçalo Jorge de Magalhães ofereceu a rendição final. Para trás ficaram cerca de 30 mil mortos, ou aproximadamente 30% da população da província, de acordo com estimativas de Domingos Antônio Rayol. E a região amazônica acabou por integrar-se ao Brasil, deixando para trás o sangue dessa tragédia.

Visite nosso blog:

Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior

23 de outubro de 2016

CLássICos - "Livro das Mil e Uma Noites": trad. Jarouche


" Se houver algum amante no mundo, ó muçulmanos, sou eu. 
Se houver algum crente, ou eremita cristão, sou eu.
As borras do vinho, o escanção, o menestrel, a harpa e a música,
sou eu.
... A amada, a vela, a bebida e a alegria do bebado,
Os setenta e dois credos e seitas no mundo,
Na verdade não existem: juro por Deus que todo credo e seita sou eu.
Terra e ar e fogo, ou melhor, o corpo e a alma tambem sou eu.
A verdade e a falsidade, o bem e o mal, a facilidade e a dificuldade do principio ao fim, 
O conhecimento e o saber e o ascetismo e a piedade e a fé, sou eu.
O fogo do inferno, podem ter certeza, com os seus limbos flamejantes, sim , e o Paraiso e o eden e as huris, sou eu.
A terra e o céu com tudo o que contêm,
Anos, peris, genios e homens, sou eu. " 





Um poema forte,
preciso,
como o vento
que açoita as magnólias,
e levanta a minha alma
... para ver
a lança
que atravessa a noite,
rasga o peito do poeta,
tornando-o
numa caixa de jóias,
de onde a Poesia retira,
delicadamente,
um verso de esperança
para o amigo da alma.

*Carmen Regina

22 de outubro de 2016

Literatura na Varanda - Poesia

Olá queridos!
Segue o post que fiz no meu blog Mar de Variedade
Hoje aconteceu a segunda edição do Literatura na Varanda (poesia), evento organizado pela Tânia Ainat e pelo Winter Bastos, ambos escritores.
O evento aconteceu no Centro de Estudos Wilhelm Reich, em Niterói-RJ.
Informações:
IMERSÕES POÉTICAS: DIÁLOGOS CONTEMPORÂNEOS
(DEBATE + RECITAL + MÚSICA)

ESCRITORES CONVIDADOS:

MEDIADOR: MÁRWIO CÂMARA

APRESENTAÇÃO MUSICAL ACÚSTICA: BANDA SIRIUS BETA

O EVENTO TEM O APOIO DO CLUBE DE LEITURA ICARAÍ (CLIC)

A reunião foi ótima! É muito bom quando reunimos amantes de literatura. O mediador Márwio fez algumas perguntas aos poetas muito interessantes. Os autores declamaram alguns de seus poemas. Alguns participantes também quiseram declamar.
Que venham outros eventos como esse!



Livro que ganhei do autor



Banda Sirius Beta

Diário da Poesia é um evento que acontece em São Gonçalo





Winter e Tânia (Organizadores) e eu 


Livro da autora Inês Drummond que adquiri no evento

Aguardamos a próxima edição!
Participem!

Clube do Conto - O Candelabro: Elenir




Contrastando com a simplicidade da casa, havia, pendurado no teto da sala, um candelabro de cristal. Explicava-se: Seu Chico, velho comerciante, aceitara-o em pagamento de uma dívida. Poderia, assim, satisfazer antigo sonho de Dona Cotinha, sua mulher.


            Conforme previra, o presente encantou-a. Era muito mais belo do que em sonhos imaginara. Acariciou cuidadosamente os longos pingentes e as rosas com miolos feito velinhas, do mais puro, brilhante e transparente cristal.


            Desde então, aquela parte da casa foi batizada “A sala do candelabro”.


            Quando a noite descia e as luzes se acendiam, o candelabro que era branco muitas cores refletia.

Havia um arco-íris na sala.


            Se uma lufada de vento soprava pela janela, os pingentes tilintavam suavemente. 

Havia música na sala.


            Nas preguiçosas tardes de domingo, depois do ajantarado, alegres crianças brincavam, jovens casais namoravam e Vô Chico, mais uma vez, cochilava, debaixo do candelabro. 

Havia ternura na sala.


            Muitos anos se passaram. Os menininhos cresceram. Os jovens envelheceram. Os que eram velhos partiram. E o candelabro, coitado, escondido na poeira, com seus pingentes quebrados, sofria abandonado! 

Havia saudade na sala.


            Vendida aquela casa, foi parar, o candelabro, num quebra-galho qualquer:


---Quanto vale esta coisa?


---Sujo, quebrado, não dou mais que dez mil réis!


---Pois bem, negócio fechado!


Por dez mil réis!  se vendeu:

Um suave tilintar.
Um pedaço de arco-íris.
Um sonho. Muita ternura.

E um candelabro sofrido que iluminava o passado! 

                                                                                               

                                                                                                

20 de outubro de 2016

O EVANGELHO SEGUNDO ANTONIO





Conto inspirado na leitura do livro do mês:

O Evangelho segundo José

    “'Sempre o dia chega em que a verdade se tornará mentira e a mentira se fará verdade.' É o caso de nunca deixar que a verdade silencie, pois acontece de ser no silêncio em que a verdade cai, que a mentira se faz verdade, e para que nunca a verdade silencie, é necessário que se esteja sempre a pronunciá-la.  Havemos de falar sobre isto aqui, verdade e mentira, embora nem sempre se possa saber o que seja a mentira ou a verdade, pois há casos em que a mentira é mentira para uns, mas verdade para outros, ou a verdade que é verdade para uns, mas mentira para outros, todavia, a verdade ou a mentira que se há de falar aqui, deve-se a inusitada história que se há de contar, sem tirar nem pôr, exata como aconteceu, e que dará conta da fantástica origem do Evangelho de Saramago, o quinto eu diria, pois já os temos quatro, os canônicos, mas este último, porém, o de Saramago, é moderníssimo, além de surpreendente como é ter sido escrito por um incréu, mas que a boa observação de leitor fará perceber que a genialidade misteriosa e obscura de suas linhas, se nos pode revelar como sendo esta obra de alheia criatura, que aos leitores deste texto será dado saber. 

    Quando Deus deu por iniciado o seu projeto, o de fazer-se Deus de toda gente deste mundo e não somente do pequeno povo judeu, o que de errado viesse a ocorrer não poderia ser colocado em sua conta, pois que a Deus não se pode imputar coisas más, devia-se encontrar a quem de fato se pudesse acusar, e a quem tudo que de ruim acontecesse, a ele fosse atribuído, um bode expiatório, como na velha tradição dos judeus, um inimigo, um opositor para Deus era o que se devia encontrar. Pois encontrado foi, e não havia de ser outro senão o Decaído, o insubordinado anjo que abandonara a Deus e ao céu para se fazer presença neste mundo. Com cuidado, fez Deus com que as Escrituras não deixassem dúvidas, o Decaído, ou o Diabo, como seria mais conhecido posteriormente, é o pai da mentira, está escrito, “O ladrão não vem senão para roubar, matar, e destruir.” Claro está que a boa metáfora de João diz ladrão para dizer Diabo, e mais claro ainda está que desde sempre este pobre diabo do Diabo fora injustiçado, deram-lhe de ser pai de toda desgraça. Por isso lemos, no Evangelho de Saramago, o que Deus diz ao Diabo, “quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora, Porquê, Porque este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és, um Bem que tivesse de existir sem ti seria inconcebível, a tal ponto que nem eu posso imaginá-lo.” Mas tudo isto que até aqui lhes foi dito, soube eu quando passei por uma estranha e misteriosa experiência, e é o que passo a contar, para que melhor se possa compreender o que por agonia tentei lhes dizer até aqui. 

    Havia eu terminado de ler o livro de Saramago, e ruminava questões incômodas e sentenças inconcebíveis, e nisto me ia perdendo em confusas idéias, quando me ocorreu de numa tardinha, a hora do “sol-pôr”, que ao portão da minha residência batesse um homem;e foi com surpresa que ao atender vi um ser gigantesco, imenso, coberto de farrapos como só a um mendigo cabe tal aparência, e como era a hora última da tarde, a penumbra que já se aproximava não me deixava perceber o seu rosto com nitidez. Surpreso ainda fiquei ao perceber que não me viera pedir nada, ao contrário, com os braços estendidos, disse-me, Vim trazer-te isto, com estas minhas mãos amassei este pão que te trago, com o fogo que só dentro da terra há o cozi. Nem terminou de me dizer estas palavras já eu soube quem ele era. Mas por estranhas artes que não sabemos explicar, dele não senti medo. Fez um movimento, partiu o pão e me deu um pedaço, parecia muito apetitoso e dele emanava ainda uma leve fumaça revelando estar ainda quente. Novamente me dirigiu a palavra, Come e conhecerás a verdade. E eu não pude resistir, tomei do pão e comi-o, seduzido por uma vontade que não a minha. Após comer do pão, senti que um sono incontrolável me ia dominando o corpo, senti-me adormecer ao mesmo tempo que uma visão, como um sonho, passou-me pelos olhos. Nessa visão, eu via um homem sentado ao abrigo duma figueira, recostado ao tronco, apreciava o pôr do sol. Nesse momento, percebi um outro homem, alto, gigantesco, com uma cabeça de fogo, não, não era uma cabeça de fogo, pois logo percebi que se tratava de uma ilusão, tinha mesmo era uma cabeça grande, desproporcional. Atrás de si trazia um rebanho de ovelhas, um mar de ovelhas, metade exata desse rebanho era de ovelhas negras, a outra, de ovelhas brancas. As roupas compridas do homem, que agora me parecia com a figura dum pastor, não só por causa das ovelhas mas também por causa dum cajado que trazia na mão esquerda, agitavam-se como se um vento as tivesse agitando, mas não havia vento algum. Parou de frente para o homem que estava sentado ao abrigo da figueira e disse-lhe, José, em verdade, em verdade eu te digo, antes que o canto do galo de amanhã anuncie um novo dia, tu terás escrito a história que tenho de contar-te. Não é preciso dizer que o homem sentado ao abrigo da figueira, esse tal José, não pôde mexer um músculo da face, extasiado que estava. O pastor, a essa altura eu já tinha certeza de que se tratava mesmo dum pastor, fincou o cajado no chão e disse-lhe, Haverá de me fazer justiça a história que hás de escrever, tirar-me-á da maldição de ser o pai de todo esse Mal que há neste mundo, revelará a verdade aos homens antes que nos chegue o fim dos tempos, coisa que não creio deva ocorrer, posto que Deus não renunciaria a este poder sobre os homens. Ainda recuperando-se do espanto, José, numa voz que mal lhe saia da boca, pergunta ao homem, E tu, quem és, Eu sou aquele que não é, o outro lado dAquele que é. O tal José pareceu compreender estas palavras, podemos apostar, e pareceu também dominado por um sentimento que nunca lhe devia ter ocorrido, e podemos bem supor que um turbilhão de neurônios lhe deve ter feito ferver a cabeça, pelo que disse em seguida, Não existe isto de que falas, Deus e o Diabo são invenções do homem, Ora, o que me dizes não faz sentido, afinal, o que os homens inventam também existe, Não isto que me acabas de dizer, E eu, não me vês, estou aqui, não me crês, Devo ter adormecido, é isto, diz-me, é sonho o que sucede, não é, Não, o que vês é real, embora haja sonhos mais reais que isto, Não é possível, não me podes perturbar, não creio em nada, não creio em Deus, bradou José, Não te peço que acredites em Deus, quero que acredites em mim, Deus já tem lá os dEle, deixa de drama, homem, tu gostarás e até ser-te-às divertido escrever isto que quero que escrevas, é bem verdade que te atrairás a ira duma Igreja e serás massacrado pelo que hás de escrever, mas colherás a glória que te espera. 

    Aos poucos fui identificando melhor o homem da figueira que, ainda esforçando-se para contornar aquele choque de estar ali conversando com Diabo em pessoa, começava a gostar do que lhe estava a propor o dito cujo, o “Coisa ruim”, pai de todas as malignidades que se fazem sob o sol. E o que queres que eu escreva, como devo chamar-te, Chama-me de Pastor, é preciso mudar de nome para melhorar a minha imagem, Diabo é nome que já nem gostam de pronunciar, escreverás um Evangelho e não dirás que foi de mim que ouviste o que haverás de escrever, põe no título que foi segundo o filho dEle, vai funcionar bem e conferirá melhor propaganda, haverá de ser a história bem contada para que não restem dúvidas de que este Deus a quem devotam tanta consideração bilhões de pessoas, é o Deus a quem me refiro sempre que digo que é preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue, quero que também saibam que o projeto dEle era projeto de poder, e foi poder que conseguiu crucificando o filho, não falarás do Espírito Santo, aquele poeta cheio de heterônimos, a quem vós daqui tanto gostam, tinha razão, ele está sempre a voar por aí, é uma pobre pomba estúpida e sem graça, não vai cair bem na história, já do filho, podes bem fazer-lhe de herói e dizer o quanto que amou Madalena, e o tanto que se perdeu em seu sagrado corpo feminino, mas faz dele humano, demasiado humano, pois que na verdade era isto que era, nada do que fez, fez por ele, mas pela manipulação dAquele que se valeria de seus prodígios e o abandonaria na cruz depois, deve-se revelar que ele foi gerado como qualquer humano, e que nasceu da mesma forma, como todos os filhos de homens, sujo de sangue de sua mãe, viscoso da sua mucosidade e sofrendo em silêncio, não poupe a Igreja dEle, digo do pai não do filho, não esqueça de dizer das Inquisições e que ninguém pode continuar acreditando nesse Deus e essa Igreja depois delas, fala das Cruzadas e de todo o sangue das guerras que em nome dEle se fizeram. Neste ponto o Diabo parou, percebeu que falava sem parar e que José ainda o olhava incrédulo. Sabe, José, falo muito, mas não se preocupe, brinco quando digo que não haverá de cantar o galo de amanhã para que esteja pronto o Evangelho, sei como funcionam essas coisas por aqui, você precisa de tempo e eu tenho todo tempo do mundo, eu te ensinarei tudo que precisas saber, se fores aplicado, escreverás uma obra-prima e serás reconhecido, E porque então não escreves tu este Evangelho, Quem daria crédito a um Evangelho escrito pelo Diabo, além disso gosto de ti, José, porque és maravilhosamente mal disposto, é o que mais gosto em ti, E tudo o que tens me dito é verdade, Digamos que é a minha verdade, José. Aqui eu já os via caminhando juntos em direção a casa que estava ali perto, já ensaiando os dois uma intimidade, o diabo ia com a mão direita apoiada ao ombro esquerdo de José falando sem parar, José, é importante que digas que tenho coração bom e que sou capaz de pedir perdão mais que Deus fora capaz de me perdoar, e peço-te, por último, que me mostre na crucificação de Jesus, aliviando a sua sede mortal, assim como a dos ladrões que com ele foram crucificados, podes colocar-me no lugar daquele soldado romano que leva a esponja com vinagre, na ponta duma cana, até a boca de Jesus, para que saibam que sou Eu, faz uso da tigela negra, que será meu símbolo neste Evangelho. A noite chegou, e dos campos apenas se ouvia o tilintar das teclas duma velha máquina de escrever, era José, que sem parar digitava o que Pastor lhe ia ditando, palavra por palavra, o que depois viria a ser O Evangelho Segundo Jesus Cristo. 

    A visão se foi como veio, subitamente. Mas quando recobrei os sentidos, só havia o portão aberto e a escuridão da noite que já se fizera acontecer. Antes de fechar o portão, olhei para o chão e vi, com surpresa, um pedaço de pão, fumegando, e ao longe, um vulto perdendo-se na escuridão."


Você não sairá incólume da reunião de Janeiro do nosso clube de leitura Icaraí

O desafio para os nossos leitores este mês é discernir os limites entre o profano e o sagrado, a Literatura e o Religioso, a ficção e a fé, respeitando o outro ainda mais que a si mesmo, porque a liberdade é um direito que não devemos impor aos outros. Alertamos aos participantes que o autor faz  uso de técnica narrativa que deve ser interpretada no contexto do livro como uma obra de arte e, como tal, solicitamos que o debate se restrinja a seu aspecto literário.


Uma leitura literária do Evangelho

        O exercício fantasioso de um iconoclasta, assim se referiu ao livro do mês uma leitora do nosso clube de leitura Icaraí. O curioso em relação a essa leitora é que ela não gosta de livros de ficção, mas gosta do clube de leitura e por isso nos frequenta; o que tem sido um grande aprendizado para ela que, aos poucos, vai gostando de uma leitura aqui, outra ali, se enamorando dos textos de grandes autores. E agora vem esse livro de Saramago que por se basear em fatos religiosos profundamente arraigados em nossa alma, de todos sem exceção, mesmo dos ateus, nos fornece uma outra leitura sobre assunto sagrado para tantos. Temos assim a oportunidade de medir o poder da Literatura pelo quanto ela é capaz de mover nossas verdades pessoais, por mais inabaláveis que pensamos que elas sejam, quando precisamos confrontá-las com um belo texto que nos seduz a pensar que tudo que consideramos ser verdade poderia bem ser diferente. 


A Grande Paixão - Albrecht Dürer

"Uma gravura ou xilogravura de Albrecht Dürer, da série A Grande Paixão, é um pré-texto sobre o qual Saramago constituirá sua narrativa do livro que acabamos de ler. Não é uma das melhores gravuras, se a compararmos com, por exemplo, O Transporte da Cruz. A Lamentação de Cristo, A Última Ceia e tantas outras desta série. 

Quando Saramago chama nossa atenção para a obra de arte citando detalhes, parece que ele está criando uma gravura muito particular. Diz que tem tinta e papel. Podemos pensar no seu próprio ato de escrever, ou como se estivesse fazendo alusão a Dürer.

Por que teria escolhido esta gravura e em preto/branco?

Dürer é alemão, expoente da arte do séc. XVI. Dava seus desenhos para um artesão, que executava o corte na madeira, preparando a chapa para impressão. Quando chegou à 11ª, Dürer constatou que o profissional contratado não era cuidadoso, desenvolvendo seu ofício de forma precária. Resultado: os críticos fizeram severas observações sobra as gravuras do "A Grande Paixão". Dürer parou por um ano e em 1510, reiniciou a série com mais cinco gravuras.

A obra escolhida por Saramago, é a que Dürer coloca dados dos quatro evangelhos, mais uns anjos , cavalo na rua, sol e lua, enfim como pode uma gravura conter tanta informação?

Saramago inicia o livro já subvertendo a ordem cronológica que está na Bíblia - nascimento, vida e morte de Jesus. Estas mulheres da gravura, Maria, Salomé e a outra Maria também podem ser as santas que ressuscitaram... Ao morrer Jesus, a terra tremeu, os túmulos se partiram e muitos ressuscitaram... Um fenômeno meteorológico comum na Palestina na passagem do inverno para a primavera, onde um vento forte soprava no deserto trazendo uma forte nuvem esfumaçando tudo; poder ser o que ocorreu naquele exato momento."


Mais interessado na realidade humana que na onipotência do divino, o livro O evangelho segundo Jesus Cristo, do escritor português José Saramago, conta de forma diferente a vida de Cristo. O leitor é colocado diante de uma nova versão dos mesmos acontecimentos, com os mesmos personagens, só que, dessa vez, os feitos milagrosos são substituídos por atitudes humanas. A controversa abordagem da história bíblica será tema do nosso clube de leitura Icaraí, no dia 6 de Janeiro, das 19h às 21h. O debate literário acontece toda primeira sexta-feira do mês na Livraria Icaraí, localizada na Rua Miguel de Frias 9, em Icaraí, Niterói, e tem entrada franca.

O romance, que narra a história de um Jesus com dúvidas, fraquezas e tendo conversas com um Deus cruel foi publicado em 1991 e tornou-se um dos títulos mais polêmicos e mais vendidos da carreira do escritor. O livro chegou a ser proibido em Portugal no ano de 1992. Saramago foi duramente criticado pela apropriação e livre interpretação dos textos sagrados, e que teria desvirtuado de forma abusiva os evangelhos canônicos.

Sobre o autor – O escritor português José de Sousa Saramago foi um dos maiores nomes da literatura contemporânea, autor de títulos que vão do Manual de pintura e caligrafia até Ensaio sobre a cegueira, transformado em longa metragem. Em 1995, ganhou o prêmio Camões e em 1998 alcançou o topo do reconhecido de sua produção, recebendo o prêmio Nobel de Literatura. Na justificativa da premiação, a academia afirmou que o português criou uma obra em que, "mediante parábolas sustentadas com imaginação, compaixão e ironia, nos permite captar uma realidade fugitiva".


18 de outubro de 2016

Contos de autores do Clube de Leitura Icaraí - CLIc

Olá queridos!

Segue o post que fiz no meu blog Mar de Variedade
Tenho lido alguns contos ultimamente. O bom de serem histórias curtas é que podemos intercalar os livros com contos. 
No Clube de Leitura Icaraí, temos muitos escritores. Alguns deles já foram premiados.
Hoje vou dar minhas impressões sobre os contos de três autores do CLIc: 

Antonio Rodrigues

Ele participou de uma coletânea de contos eróticos do próprio Clube e escreveu "A puta das flores", que foi publicado na Academia Niteroiense de Letras, podendo ser encontrado aqui.

Eu gostei muito do conto. Não considero ele erótico. 
O conto (que é bem curtinho) vai abordar a história de uma prostituta do Rio de Janeiro que, no dia do seu aniversário, aparece com flores. 
A história é curta, mas é na medida, não fala nem mais nem menos do que deveria. 
O autor consegue, em poucas linhas, tratar de várias questões, entre elas: preconceito; a exploração que as prostitutas sofrem dos agenciadores; o sentimento delas.
Ele aborda esses temas, de forma muito sensível e bonita.
Leiam! Recomendo!

Evandro Paiva de Andrade

Ele participou do clube do conto, que era promovido pelo Clube de Leitura Icaraí, e escreveu "Abismo", que pode ser encontrado no blog do Clube (vejam neste link).  Esse clube do conto deveria voltar, pois revelou vários talentos.

O enredo já revela que o autor gosta de falar de estrelas e planetas. Rs. 
O conto fala da busca pelo amor da personagem Karina, habitante de outro planeta, que acaba parando na Terra, juntamente com Arturo, e das teorias de Etevaldo, oficial do sistema de vigilância espacial das Nações Unidas, sobre  afinidades e alma gêmea.

Primeiramente, achei interessante a forma como ele descreveu a personagem Karina: uma pessoa decidida e que vai atrás do que quer:

"Engajada numa operação de resgate do ser desejado, Arturo, em um planeta distante do seu, encontra resistência por parte dele para segui-la, mas rapta-o e foge para Terra."

E tem um certo humor, também, como no trecho acima. 
Gostei muito do conto, muito bem escrito, que fala de estrelas, de planetas, de teorias sobre afinidades e sobre alma gêmea. 
O autor teve muita sensibilidade para abordar essa busca pelo amor e, ao mesmo tempo, ele tratou do tema de uma forma bem diferente e original.
Leiam! Recomendo!


Foto do blog do CLIc

Winter Bastos

Ele tem uma coletânea com três contos premiados, além de outros livros publicados. Caso queiram entrar em contato para adquiri-los: oberrofanzine@gmail.com. Eu vou comentar sobre um deles, embora sejam todos ótimos: "(Des)encontro". 
A forma como o autor escreve "prende" a atenção do leitor. Ele utiliza expressões do dia a dia e consegue falar de vários assuntos com muita facilidade. A leitura dos contos é fluida.

Nesse conto, o autor vai tratar do encontro casual entre Armando, que está em um restaurante, bebendo um uísque, enquanto esperava a namorada, e a ex-esposa Lídia, que chega acompanhada no local. 

Achei muito interessante a forma como o autor consegue narrar a situação do ex-marido que não queria que a ex-esposa o visse desacompanhado. 
O autor consegue descrever muito bem o que se passa na mente de Armando, vendo a ex-esposa com outra pessoa, bem-sucedida, aparentando estar feliz. E ele ali, esperando a namorada que não chega. 
É interessante como o autor consegue pegar uma situação corriqueira, como esse encontro casual em um restaurante, e levar o leitor a compreender o Armando (protagonista) e se identificar.
Ótima leitura! Recomendo!

15 de outubro de 2016

A tragédia brasileira: Sérgio Sant'Anna


A garota devolve a Cristo um sorriso puro de dentes branquíssimos e é esse sorriso que exorciza de verdade o Demônio, que pode ser visto num relance, a afastar-se de Cristo na forma de uma velha beata e corcunda que sai de cena resmungando, com o rosto escondido por um xale.  Cristo percebe, nesse momento, que o Demônio era uma presença dentro dele próprio e não da garota.


Já com Buda não pode haver Demônio, pois ele próprio é, simultaneamente, Deus e o Demônio. Não lutando contra ou a favor de um ou de outro, Buda permite que os dois opostos dentro de si estejam conciliados e não em conflito.



A alavanca de mudança é um símbolo fálico. (Freud)



Também diante de Buda, agora, no espaço cênico, passam guerreiros. São guerreiros chineses e dirigem-se a derrubar uma dinastia. Vêem Buda, a princípio, com o desprezo com que o forte examina o fraco. Por puro tédio, ou crueldade, um daqueles guerreiros aproxima-se de Buda, desembainha a espada e pensa em atravessar com ela as carnes flácidas de Buda. Buda, que sabe ler a alma de um homem, pressente o perigo, mas se limita a cheirar uma flor e, nesse instante limítrofe da morte, descobre novas sutilezas na fragrância da flor. Pois é a possibilidade de morrer que faz Buda tornar-se ainda mais atento, embora sem intencionalidade, a seus sentidos. E ele sorri para essa nova oportunidade de penetrar no âmago da vida. Buda sopra a flor e suas pétalas voam ao vento. Buda sabe que nenhum homem é tão forte que não se defronte um dia com algo mais forte do que ele. E, como as pétalas de uma flor, às vezes a maior força de um homem é deixar-se ir, carregado pelo vento. 
O guerreiro chinês dá uma gargalhada, porque captou num relance a mensagem de Buda. Ele e seus companheiros, agora, estarão carregando Buda consigo para a China e o Japão e, sendo guerreiros, serão como uma revitalização de Buda. Atravessarão impiedosos os inimigos com as armas e, ainda assim, serão como Buda. Buda é todos os homens e assim passa por todas as provações e sentimentos deste mundo; deve-se sentir como o vencedor e como o vencido. Deve descer ao inferno, como Cristo em suas dúvidas, e ser o espectador e participante de acontecimentos tão terríveis quanto o de uma criança que perdeu os pais e mutilou-se numa guerra que não é sua. E que permanece ali, à margem, desamparada e sem nenhuma probabilidade de ter esperança. Mas é também nesse terreno que pode germinar a paz, o Nirvana, de Buda. Antes, porém, sentirá o gordo Mestre, diante de tal espetáculo, o desespero e a revolta contra o Poder Supremo. Até que, por exaustão, conheça que não há Poder Supremo a dirigir o Grande Espetáculo e que Deus - ele próprio, Buda - é apenas o fluir assim, eterno, daquilo que é comparado a um rio. 

Maomé e seus seguidores, ao contrário, combaterão pelos tempos afora o Mal e o Demônio, como se fosse possível aniquilá-los um dia. No Corão busca Maomé, através da certeza, a morte de toda angústia. Sem se dar conta de que o Mal e o Demônio se encaravam dentro dele mesmo e que, para destruí-los, deveria degolar a própria cabeça e não dos infiéis. 


Maomé e seus discípulos jamais beberão uma gota de vinho, porque esse vinho soltaria o Demônio tão sufocado dentro deles e os deixaria enlouquecidos. 

"Estou me acostumando com a ideia de considerar todo ato sexual como um processo em que quatro pessoas estão envolvidas" - (Freud)


O poeta é aquele que em primeiro lugar decifra, mergulha, (n)aquilo que ainda se encontra invisível para seus semelhantes. 

Na foto o Cliceano que indicou o romance-teatro
Entreatos
Dezoito anos depois, A Tragédia Brasileira, de Sérgio Sant’Anna, é uma representação quase perfeita do país nas últimas décadas  
A primeira impressão provocada por A Tragédia Brasileira, de Sérgio Sant’Anna, é a de que estamos diante de uma obra datada. Com uma trama que se passa em 1962, o livro foi publicado com uma tiragem reduzida pela Editora Guanabara em 1987 — um tempo em tudo distante do que vivemos agora, em 2005. A passagem do tempo, entretanto, acaba contando a favor deste livro definido como um “romance-teatro”, numa feliz convergência entre suas técnicas narrativas, o acaso do mercado editorial e a própria história do Brasil nestas últimas quatro décadas.
Dividido como uma peça de três atos, o livro tem justamente nas suas várias gradações, internas ou externas, seu elemento-chave. No primeiro ato, predomina a linguagem teatral, embora seja evidente que o palco a que Sant’Anna recorre não se presta à representação cênica; ele é uma fórmula que serve para agregar novos recursos à narrativa. É por meio dessa dramaturgia imaginária que se conta, logo de início, a história do atropelamento da menina de 12 anos Jacira, morta pelo personagem do Motorista quando lhe despontavam os pequeninos seios, surgiam as penugens púberes, manchava-se o vestido de sangue pela primeira vez.
Não faltará o erotismo típico de Sant’Anna, que vai de um tom rodriguiano de dessacralização da inocência até um mais provocador, com um pouco de pedofilia, e resvala em sugestões de necrofilia. Aqui e ali, apresenta-se um pouco daquele país que saía do pós-desenvolvimentismo de JK, preocupado com a contusão de Pelé na Copa do Chile e em dúvida se a solução para o Brasil estava nas mãos de Deus ou nas dos militares. Perguntas de quem se pôs a escrever duas décadas depois, quando já se tinha passado pela ditadura e o país do futebol andava meio traumatizado com o jejum de títulos.
Novas possibilidades, então, vão surgindo. À medida que Sant’Anna investe mais na prosa, desenham-se outros cenários e personagens. No segundo ato, Jacira se confunde com a atriz que a representa; o Negro misterioso, que espreitava a menina de um terreno baldio, reaparece como contra-regra; e o melancólico e apaixonado Poeta Roberto, que de sua janela viu a tragédia, mostra ser, em parte, uma idealização pessoal do demasiadamente humano Autor-Diretor, que é, lá pelas tantas, um eco do próprio Sant’Anna.
A partir do terceiro ato, a encenação se apresenta mais como ideia, e é quase como um romance de ideias que se cria um terceiro nível de ficção, em que já não há mais limites: unem-se as pontas da dramaturgia e da prosa, da representação e da “realidade”. Como num círculo, voltamos à tragédia por meio de Maria Altamira, Virgem pura transformada em estrela radiante no momento em que estava também prestes a deixar a infância, atropelada por um Motorista de caminhão na Belém-Brasília — um dos símbolos de uma já antiga concepção de progresso e, também, esboço de metáfora religiosa.
Já aqui, na própria narrativa, as perguntas são outras. E hoje, quase 20 anos depois de o livro ter sido escrito, temos tantas outras a acrescentar. No ato que encerra as três épocas da história da obra, a tragédia persiste. Orgulhosos de um futebol pentacampeão, também nos vemos — arrasadas de vez quaisquer ilusões políticas construídas desde os anos 80 — sem rumo. É como se Jacira renascesse e morresse perpetuamente, deixando no céu a luz de uma estrela incerta, que talvez leve a um lugar que não este.
BRAVO!, outubro de 2005
© Almir de Freitas




Existe algo à beira da possessão demoníaca no Islã. Como se o Fundador fosse um dos anjos aliados de Lúcifer que no último momento se houvesse contido. Esse anjo se embevecera com a arrogância de Lúcifer e sua beleza feminina, mas teve medo de Deus e do castigo. E também de um desejo seu, inexplicável e tido como terrível: o desejo da treva total que há dentro de um regaço feminino antes de um homem haver nascido. Mandou então que se cobrisse a beleza feminina e a rotulou para sempre como impura. Enquanto eles próprios, os homens muçulmanos, estarão condenados a cavalgar loucamente pelos tempos afora, brandindo a espada contra os infiéis. Fugindo, talvez, no eco das patas de seus cavalos, da parte de seu corpo e alma que é mulher.