CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

23 de fevereiro de 2017

A noite das garrafadas

Por Wagner Medeiros Junior
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A decisão de permanecer no Brasil e declarar a independência de Portugal deu a D. Pedro I uma imensa popularidade. Entretanto, não demorou muito para que o prestígio alcançado fosse transformado em um sentimento de forte repúdio. A mudança no humor dos brasileiros começou a acentuar-se logo após a instalação da Assembléia Geral Constituinte, em 3 de maio de l823, com o embate de temas que intencionavam limitar o poder do Imperador, tal como conceder maior autonomia às províncias. Então, no mês de novembro, D. Pedro decide-se por dissolver, pela força, o parlamento Constituinte.
A primeira Constituição brasileira, de 1824, acabou por ser elaborada por um seleto grupo ligado ao governo, sem a participação do parlamento. Isto elevou ainda mais a animosidade nativista contra a centralização do poder e os privilégios sociais e econômicos dos portugueses. Depois emergiram a relação escandalosa do Imperador com a sua concubina, Domitila de Castro; a repressão violenta aos ativistas da Confederação do Equador; os desgastes com a Guerra da Cisplatina e a morte da Imperatriz Dona Leopoldina, após um largo período de sofrimento e humilhação e junto à corte.
Em 1830, a imprensa liberal e nacionalista já não dava mais tréguas a D. Pedro I. Cada ato do governo era invariavelmente questionado; cada ação dita como autoritária, vista com grande desconfiança. Ninguém perdoava o envolvimento do Imperador com os portugueses e nas questões políticas de Portugal. Neste quadro, no mês de novembro é assassinado em São Paulo o jornalista liberal Líbero Badaró, ferrenho defensor do Federalismo. A suspeição de crime de mando recaiu sobre os partidários de D. Pedro, sobrando-lhe sobre os ombros uma sombra da imputação da culpa.
O jornalista e historiador potiguar Tobias do Rego Monteiro (1866-1952), em sua obra “História do Império: O Primeiro Reinado”, resume o estágio a que chegou, em março de 1831, a animosidade dos brasileiros contra D. Pedro, ao descrever que por onde ele passava “gritavam-lhe vivas acintosos, vociferavam-lhe pragas, permitiam-se interpelá-lo, desconhecê-lo. Sua reputação desfazia-se, seu prestígio desmascarava-se, sua influência aniquilava-se, sua autoridade diluía-se”. O povo perdia-lhe o respeito!
No mês de fevereiro desse ano, D. Pedro viajou para Minas Gerais buscando reencontrar o apoio popular que alcançara em viagem anterior, depois da Independência. Entretanto, em cada lugar que passava era hostilizado pelo povo. Quando chegou a Ouro Preto não foi diferente, pois encontrou a população estampando faixas negras alusivas ao luto pela morte de Badaró e sinos repicando em protestos. Tais acontecimentos corroboraram para que o Imperador encurtasse a viagem e começasse a pensar na renúncia.
Então, os portugueses absolutistas ao lado dos conservadores brasileiros, resolvem organizar uma grande recepção a D. Pedro I em alusão ao seu retorno ao Rio de Janeiro. Por todos os logradouros onde passaria o cortejo imperial as casas foram enfeitadas. Todavia, a animosidade era tão grande que os opositores brasileiros, na noite de 13 de março, reagiram quebrando as luminárias e apedrejando as casas dos portugueses. Garrafas também partiam de ambos os lados! O conflito se estendeu por três dias, com focos espalhados nas principais ruas do Rio de Janeiro.
Depois dessa agitação a sorte de D. Pedro parecia selada. Mesmo assim, ele ainda tentou se reaproximar dos liberais brasileiros realizando mudanças em seu ministério, mas pela própria nacionalidade portuguesa e radicalismo de seus desafetos, todos os esforços foram em vão. Os agravos persistiram até o dia da abdicação ao trono, em 7 de abril de 1831. Com altivez, o Imperador D. Pedro I pagou o preço da impetuosidade de sua juventude, em um momento em que o Brasil buscava firmar sua nova identidade, soberana, como país independente.

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Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior


22 de fevereiro de 2017

O deserto dos Tártaros: Dinno Buzzati




Mortos estamos todos e sempre estivemos.

Na vida, cada um tem que aceitar o papel que lhe é destinado.




Depois, o areal extenso
Depois, o oceano de pó
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...

(Navio Negreiro - Castro Alves)

ISMAEL MONTICELLI


   Mesmo que tivessem tocado os clarins, que fossem ouvidas as canções  de guerra, que do norte chegassem mensagens inquietantes, se fosse somente  por isso, Drogo teria igualmente ido embora; mas já havia nele o torpor dos hábitos, a vaidade militar, o amor doméstico pelos muros cotidianos. Quatro meses haviam bastado para amalgamá-lo ao monótono ritmo do serviço. 

    Tornara-se hábito para ele...


Finalmente Drogo entendeu, e um lento arrepio percorreu-lhe a espinha. 
 Era a água, era uma longínqua cascata rumorejante, a pique nos despenhadeiros 
 próximos. O vento que fazia oscilar o longo jorro, o misterioso jogo dos ecos, o 
 diferente som das pedras em percussão, formavam uma voz humana, que falava, 
 falava: palavras de nossa vida, que se estava sempre prestes a entender, mas que 
 na verdade nunca se entendia.   





"Mas alguma coisa no fim da linha vem. Ela nos espera e, finalmente, para todos nós, chega o dia, a hora, o momento do acontecimento extraordinário. Não era exatamente o que estivemos ansiando, e só nos resta aceitá-lo com dignidade e estoicismo, como um soldado. Será que a última chance de uma vida equivocada é uma morte digna? Será o que resta? A única saída?"







O tempo entretanto corria, sua batida silenciosa marcando cada vez mais precipitadamente a vida, não se pode parar um segundo sequer, nem mesmo para olhar para trás. "Pare, pare!" se desejaria gritar, mas vê-se que é inútil. Tudo se esvai, os homens, as estações, as nuvens; e não adianta agarrar-se às pedras, resistir no topo de algum escolho, os dedos cansados se abrem, os braços se afrouxam inertes, acaba-se sendo arrastado pelo rio, que parece lento, mas não para nunca 



“Estirado na cama, fora da zona iluminada pelo lampião de querosene, enquanto devaneava sobre a própria vida, Giovanni Drogo foi repentinamente invadido pelo sono. Entretanto, justamente aquela noite — oh, se o soubesse, talvez não tivesse vontade de dormir —, justamente aquela noite iria começar para ele a irreparável fuga do tempo.
Até então ele passara pela despreocupada idade da primeira juventude, uma estrada que na meninice parece infinita, onde os anos escoam lentos e com passo leve, tanto que ninguém nota a sua passagem. Caminha-se placidamente, olhando com curiosidade ao redor, não há necessidade de se apressar, ninguém empurra por trás e ninguém espera, também os companheiros procedem sem preocupações, de-tendo-se frequentemente para brincar.
Das casas, a porta, a gente grande cumprimenta-se benigna e aponta para o horizonte com sorrisos de cumplicidade; assim o coração começa a bater por heroicos e suaves desejos, saboreia-se a véspera das coisas maravilhosas que aguardam mais adiante; ainda não se veem, não, mas é certo, absolutamente certo, que um dia chegaremos a elas.
Falta muito? Não, basta atravessar aquele rio lá longe, no fundo, ultrapassar aquelas verdes colinas. Ou já não se chegou, por acaso? Não são talvez estas árvores, estes prados, esta casa branca o que procurávamos? Por alguns instantes tem-se a impressão que sim, e quer-se parar ali. Depois ouve-se dizer que o melhor está mais adiante, e retomasse despreocupadamente a estrada. Assim, continua-se o caminho numa espera confiante, e os dias são longos e tranquilos, o sol brilha alto no céu e parece não ter mais vontade de desaparecer no poente.
Mas a uma certa altura, quase instintivamente, vira-se para trás e vê-se que uma porta foi trancada às nossas costas, fechando o caminho de volta. Então sente-se que alguma coisa mudou, o sol não parece mais imóvel, desloca-se rápido, infelizmente, não dá tempo de olhá-lo, pois já se precipita nos confins do horizonte, percebe-se que as nuvens não estão mais estagnadas nos golfos azuis do céu, fogem, amontoando-se umas sobre as outras, tamanha é sua afoiteza; compreende-se que o tempo passa e que a estrada, um dia, deverá inevitavelmente acabar.
A um certo momento batem às nossas costas um pesado portão, fecham-no a uma velocidade fulminante, e não há tempo de voltar. Mas Giovanni Drogo, naquele momento, dormia, inocente, e sorria no sono, como fazem as crianças.
Passarão alguns dias antes que Drogo entenda o que aconteceu. Será então como um despertar. Olhará à sua volta, incrédulo; depois ouvirá um barulho de passos vindo de trás, verá as pessoas, despertadas antes dele, que correm afoitas e o ultrapassam para chegar primeiro.
Ouvirá a batida do tempo escandir avidamente a vida. Nas janelas não mais aparecerão figuras risonhas, mas rostos imóveis e indiferentes. E se perguntar quanto falta do caminho, ainda lhe apontarão o horizonte, mas sem nenhuma bondade ou alegria. Entretanto, os companheiros se perderão de vista, um porque ficou para trás, esgotado, outro porque desapareceu antes e já não passa de um minúsculo ponto no horizonte.
Além daquele rio — dirão as pessoas —, mais dez quilômetros, e terá chegado. Ao contrário, não termina nunca, os dias se tornam cada vez mais curtos, os companheiros de viagem, mais raros, nas janelas estão apáticas figuras pálidas que balançam a cabeça.” 



Não é sobre a vida militar que fala o livro, mas sobre a vida de todos nós.

Fala da vida como uma aposta na imobilidade.  Se não fizermos nada além de aceitar as coisas como são, um dia algo virá para redimir nosso pobre cotidiano, algo notável e brilhante que a vida nos reserva mais para frente.


Embora escrito quase setenta anos atrás, o livro parece endereçar-se diretamente ao século XXI e nos atinge profundamente. Ou não é exatamente isso que diz a publicidade, a televisão, enfim, o pensamento médio reinante: seja disciplinado e trabalhador. Não mude sua vida. Trabalhe infatigavelmente que um dia algo maravilhoso vai lhe acontecer. Algo glorioso, que vai justificar sua existência, não uma batalha, claro, mas talvez uma linda mulher inatingível, uma esperada promoção, uma casa cercada de árvores, ou muito dinheiro. Só que isso sempre virá mais adiante. Cada vez mais adiante. Até que um dia nos damos conta que fizemos a aposta errada.

Os tártaros não vieram. 



"Era um trabalho monótono e aborrecido e os meses passavam, e passavam os anos e eu me perguntava se seria sempre assim, se as esperanças, os sonhos, inevitáveis quando se é jovem, iriam se atropelar pouco a pouco, se a grande ocasião viria ou não."



Viver a vida não possui outra finalidade senão deixá-la escorrer e a morte é a única justificativa. 




Aqui ou onde quer que seja, 
estamos todos em algum lugar por engano. 




A vida como exercício de espera jamais satisfeita, a morte como única resposta aos amores impossíveis, às amizades traídas e às esperanças frustradas. 


19 de fevereiro de 2017

Astronomia Literária com Wislawa Szymborska




"Excesso"


"Foi descoberta uma nova estrela,
o que não significa que ficou mais claro
nem que chegou algo que faltava.


A estrela é grande e longínqua,
tão longínqua que é pequena,
menor até que outras
muito menores que ela.
A estranheza não teria aqui nada de estranho
se ao menos tivéssemos tempo para ela.



A idade da estrela, a massa da estrela, a posição da estrela,
tudo isso quiçá seja suficiente
para uma tese de doutorado
e uma modesta taça de vinho
nos círculos aproximados do céu:
o astrônomo, sua mulher, os parentes e os colegas,
ambiente informal, traje casual,
predominam na conversa os temas locais
e mastiga-se amendoim.



A estrela é extraordinária,
mas isso ainda não é razão
para não beber à saúde das nossas senhoras
incomparavelmente mais próximas.



A estrela não tem consequência.
Não influi no clima, na moda, no resultado do jogo,
na mudança de governo, na renda e na crise de valores.



Não tem efeito na propaganda nem na indústria pesada.
Não tem reflexo no verniz da mesa de conferência.
Excedente em face dos dias contados da vida.



Pois o que há para perguntar,
sob quantas estrelas um homem nasce,
e sob quantas logo em seguida morre.



Nova.
- Ao menos me mostre onde ela está.
- Entre o contorno daquela nuvenzinha parda esgarçada
e aquele galhinho de acácia mais à esquerda.
- Ah, exclamo."



(Do livro Poemas de Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien, publicado pela Companhia das Letras.)

16 de fevereiro de 2017

A rainha Ginga: José Eduardo Agualusa


A roda do mundo não para nunca.
TUDO SÃO COMEÇOS

Para os amigos que não puderam estar presentes à reunião, de 12/05, transcrevo o trecho do romance  que foi marcado, entre outros,  por todos os presentes (pág.121) e creio que por vocês também:
"...o amor exige uma espécie de cegueira. Amamos não quem os nossos olhos enxergam, mas quem o nosso coração demanda. O ser amado é, quase sempre, uma invenção indulgente de quem ama."
Desejo que seus olhos e corações vejam, igualmente, o ser amado. Sem engano.

Bjs.

Elenir




“Sabendo que muitos dos Bantos eram embarcados para Pernambuco durante o início do século XVII, parece ser razoável supor que muitos deles pudessem ter sido aliados ou partidários de Nzinga, ou que, esporadicamente tivessem ouvido falar de sua fama. Se tal fosse o caso, isso nos forneceria uma importante explicação para a persistência da imagem de Nzinga no Nordeste do Brasil e, possivelmente, para parte da resistência afro-brasileira em certas regiões.” (Glasgow, p. 141)



DEU NO FOCUS PORTAL CULTURAL - CLIc na imagem

Os portugueses sempre foram mais africanos do que europeus.


Donana de Jânsen


Conquistei o paraíso, mas mordeu-me a serpente.





Os flamengos gostam tanto de beber que mesmo com a corda no pescoço, no patíbulo, são capazes de brindar ao carrasco e de partilhar com ele o derradeiro copo, de forma que se vão deste mundo borrachos e cantando. 

“O Inferno, de resto, não é tanto uma soma de tormentos, e sim a ilusão de que tais tormentos nunca cessam. O Inferno é eterno, ou não seria Inferno. tenho para mim que a principal diferença entre o Inferno e o Paraíso é que no Inferno nos pesa o tempo, o tempo todo, enquanto no Paraíso não se sofre dele.” 


«Meus senhores holandeses: o meu camarada, o índio Filipe Camarão, não está aqui; mas eu respondo por ambos. Saibam Vossas Mercês que Pernambuco é Pátria dele e minha Pátria, e que já não podemos sofrer tanta ausência dela. Aqui haveremos de perder as vidas, ou haveremos de deitar a Vossas Mercês fora dela.»





Os esparciatas educavam os filhos para a guerra. Eles espancavam os filhos para os fortalecerem. Os jagas também. Os esparciatas incentivavam os  rapazes a roubar comida. Se fossem apanhados seriam castigados não por terem roubado, mas por se terem deixado capturar.  Também os jagas incentivavam os filhos a  roubar gado e outros bens. Os esparciatas cultivavam a deusa Ártemis e houve um tempo que passaram a chicotear os meninos em seu altar. 



Maurício de Nassau

Principais realizações no período em que administrou a região conquistada pelos holandeses no Nordeste brasileiro:



Estabeleceu uma situação de boas relações entre holandeses e brasileiros (latifundiários e comerciantes);

- Melhorou o sistema de produção de açúcar no Nordeste;

- Diminuiu tributos dos senhores de engenho de Pernambuco; 

- Modernizou urbanisticamente a cidade de Recife, construíndo canais, diques, pontes, palácios, etc;

- Criou, Zoológico, Museu Natural e Jardim Botânico em Recife;

- Modernizou e melhorou a qualidade de serviços públicos na cidade como, por exemplo, coleta de lixo e bombeiros.






Muito mais tarde, enquanto envelhecia, compreendi que o amor exige uma espécie de cegueira. Amamos não quem os nossos olhos enxergam, mas quem o nosso coração demanda. O ser amado é, quase sempre, uma invenção indulgente de quem ama. 



Vista da Cidade Maurícia e Recife

Frans Janszoon Post
Cidade Maurícia hoje

Estou velho. 
Nesta altura da minha vida só a loucura me entusiasma. 
Ah! A loucura que o amor inflama. 



Cipriano defendia, como Valentino de Alexandria e outros panteístas, que tudo o que existe é Deus, incluindo cada homem e cada pedra, e que esse Deus que somos todos não é nem bom nem mau, ou é tudo isso sem distinção e alheadamente. 

Deus, disse-me Cipriano, é o que somos dormindo. — Todas as coisas têm o seu Deus — acrescentou. — Estamos cercados por Eles. 

Fiquei durante muito tempo pensando naquilo. Imaginando cada homem, cada ser, segregando o seu próprio deus a partir de algum órgão escondido sob a pele da alma: o grave Deus das corujas. O hábil Deus das cobras. O Deus generoso dos quintais. O Deus traiçoeiro das adagas. O Deus zebrado das zebras. O Deus tagarela dos corvos e dos advogados. O humilde Deus dos pardais. O Deus insalubre dos pântanos. O Deus cabisbaixo dos canalhas. O pálido Deus das osgas. O rápido Deus das tormentas. O líquido Deus dos peixes. O áspero Deus dos sertões. O cálido Deus das praias. O ressequido Deus dos cactos. O esquivo Deus dos jaguares. O Deus perfumado dos jasmins. 








A verdade é aquilo que está exposto.

Deus é o que somos dormindo.

13 de fevereiro de 2017

A Matemática e a Mona Lisa: Bulent Atalay


Eu gosto da relatividade e das teorias quânticas
porque não as entendo
e elas me fazem sentir como se o espaço se remexesse
tal qual um cisne que não consegue parar,
recusando-se a ficar quieto e ser medido;
e como se os átomos fossem uma coisa impulsiva,
sempre a mudar de ideia.
[poemas - amores perfeitos - D. H. Lawrence]


D. H. Lawrence


"Flexner foi designado o primeiro diretor do IAS (Instituto of Advanced Study), e um de seus projetos iniciais seria tentar recrutar Albert Einstein, já então reconhecido como o mais famoso cientista vivo. Flexner voltou de imediato para Oxford, onde encontrou Einstein "matando o tempo entre um emprego e outro" e lhe ofereceu um cargo na nova instituição. Einstein respondeu que tinha propostas da Universidade de Princeton, da Universidade de Oxford e do Caltech para ingressar em seus corpos docentes, mas que ainda estava indeciso. Acrescentou que tendia mais para Princeton (a primeira instituição acadêmica a ter aceitado a relatividade). "Mas", perguntou Einstein, "eu não precisaria lecionar nessa instituição do senhor?" (Einstein era um professor notoriamente ruim.) Flexner lhe garantiu que não, e Einstein aceitou o emprego. "Quanto o senhor pretende receber?", quis saber Flexner. Einstein, com sua considerável habilidade matemática, respondeu que 3 mil dólares por ano estaria perfeito. "Isso não será possível", retrucou Flexner. "Estamos pagando 16 mil a todo mundo. O senhor deveria receber pelo menos isso. " Einstein reclamou: "Os 3 mil já seriam suficientes". Flexner, com relutância, concordou em pagar apenas aquilo. Mas, felizmente para a família de Einstein, a esposa do cientista renegociou o salário, e Einstein já começou ganhando os 16 mil usuais."



Para veres um mundo num grão de areia
E um céu numa flor do campo,
Segura o infinito na tua mão
E a eternidade por uma hora.

(William Blake)

Lentes gravitacionais

A SINA DO SUCESSO PRECOCE

A idade, claro, é um tremor febril
Que todo físico precisa temer.
Para ele, melhor será estar morto do que vivo
Depois que passar dos trinta.
(Paul Dirac)

Quem não deu sua maior contribuição à Ciência antes dos trinta anos não a dará jamais. (Einstein)

(A música é outro campo em que se manifesta o mesmo padrão; outro é a poesia lírica, ao contrário, por exemplo, da ficção romanesca)




A simplicidade é o último grau de sofisticação. (Leonardo da Vinci)



Embora grande parte da composição tenha sido produzida por Verrocchio, o anjo da esquerda, que segura alguma roupa, foi totalmente pintado por Da Vinci. Alguns autores dizem que o pássaro também pode ser obra dele. Além de Da Vinci, Verrocchio contou com a colaboração de Botticelli para a produção da obra.

Virgem dos Rochedos

Leonardo da Vinci se destacou como cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta, músico e ainda foi conhecido como o precursor da aviação e da balística... ufa, como se diz: "precisa dizer mais?"


A lemniscata de Bernoulli



Parafuso de Arquimedes
Também chamado de bomba parafuso, sua função é de elevar líquidos. Além de líquidos, também pode servir como ferramenta de elevação de lama, esgotos e até pequenos resíduos sólidos, como grãos.
Seu nome é referência ao seu inventor, o grego Arquimedes, embora existam alguns indícios de que ele já havia sido criado antes. Até hoje, o feito é muito curioso, pois seu funcionamento consiste em nada mais, nada menos do que desafiar a própria gravidade. Com uma peça que, constantemente fica fazendo o movimento do rodear de um parafuso, ao redor de uma espécie de cilindro principal.
Muitas pessoas desconhecerem sua existência e, por conseguinte, sua funcionalidade. Por isso, é importante ressaltarmos sua importância no desenvolvimento de grandes estruturas urbanas. Em metrópoles como a cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, o parafuso de Arquimedes é usado para bombar os esgotos até os emissários submarinos.
Em diversos experimentos químicos, ele é aplicado para que algumas etapas mais complexas do processo possam ser realizadas. Por isso, para quem gosta de inventar ou complementar coisas, é interessante saber como funciona este equipamento tão inteligente.
Em indústrias de alimentos, o parafuso de Arquimedes também é muito aproveitado. Sua função no processo de transformação, é de elevar os grãos até a etapa determinada para a produção.
Apesar de sua excelência mecânica, é um item simples e lógico. (fonte)

Falsificadores de Arte são artistas (?!)

Han van Meegeren's Fake Vermeers: Ceia de Emaús


Proporção áureanúmero de ouronúmero áureosecção áureaproporção de ouro é uma constante real algébrica irracional denotada pela letra grega \phi (PHI), em homenagem ao escultor Phideas (Fídias), que a teria utilizado para conceber o Parthenon, e com o valor arredondado a três casas decimais de 1,618. Também é chamada de se(c)ção áurea (do latim sectio aurea), razão áurearazão de ouromédia e extrema razão (Euclides)divina proporçãodivina seção (do latim sectio divina), proporção em extrema razão ,divisão de extrema razão ou áurea excelência. O número de ouro é ainda frequentemente chamado razão de Phidias.
Desde a Antiguidade, a proporção áurea é usada na arte. É frequente a sua utilização em pinturas renascentistas, como as do mestre Giotto. Este número está envolvido com a natureza do crescimento. Phi (não confundir com o número Pi \pi), como é chamado o número de ouro, pode ser encontrado na proporção dos seres humanos (o tamanho das falanges, ossos dos dedos, por exemplo) e nas colmeias, entre inúmeros outros exemplos que envolvem a ordem do crescimento.
Justamente por estar envolvido no crescimento, este número se torna tão frequente. E justamente por haver essa frequência, o número de ouro ganhou um status de "quase mágico", sendo alvo de pesquisadores, artistas e escritores. Apesar desse status, o número de ouro é apenas o que é devido aos contextos em que está inserido: está envolvido em crescimentos biológicos, por exemplo. O fato de ser encontrado através de desenvolvimento matemático é que o torna fascinante. 


Os 2 outros únicos retratos femininos pintados por Leonardo da Vinci (1452-1519)

Ginevra de´ Benci, c. 1474-1478
óleo sobre madeira
National Gallery of Art, Washington, D.C., USA

Dama (Cecília Gallerani) com arminho  - 1491
óleo sobre madeira
Muzeum Czartoryskich (Cracóvia)



Emprestaram-me o livro "A Matemática e a Mona Lisa" para ler. Tenho certa precaução contra a mania que temos de querer ler nas entrelinhas de tudo que existe ao nosso redor, principalmente quando se usa um instrumento poderoso como a matemática para balizar o modo de ver as coisas. Creio que muitas das relações geométricas amostradas não devem ser exatamente a do número áureo, mas próxima dele, e apenas as que assim se relacionam são exibidas. Bem, estou lendo o livro para não alegarem que estou tendo ideias preconcebidas, mas resultado não está sendo diferente do esperado: o autor tentar enquadrar a criação artística dentro de um hipotético a priori matemático e que a consciência deste artifício é que torna o artista genial. Humpf!




12 de fevereiro de 2017

Um ouriço

Em 27 de março de 2009, o clube de leitura se reuniu para discutir “A Elegância do Ouriço”, da francesa Muriel Barbery. As trocas de mensagens tiveram como assinatura o entusiasmo contagiante dos participantes do clube.

A estória contada em “A Elegância do Ouriço” gira em torno de Renée, mulher de meia-idade que trabalha como concierge (zeladora) de um luxuoso prédio num elegante bairro parisiense, e de Paloma Josse, uma adolescente rica de 12 anos. Ambas, Renée e Paloma, cada qual por razões próprias, vivem vidas reclusas, isoladas, como ouriços. Renée teme seguir o destino dos marginalizados (pobre, sem beleza nem charme) e, numa mistura de auto-proteção e conformismo por pensar não ser possível mudar o destino, vive uma vida clandestina, que é seu alento. Por trás de uma aparência ranzinza e desconfiada, protege um espaço interior, cheio de cultura e requinte, de devoção à arte e à literatura. Já Paloma, uma esperta mocinha de personalidade rica e autêntica, mostra-se sempre calada e pensativa, e dedica seu tempo à duas séries de anotações: pensamentos profundos e o diário do movimento do mundo. “Vidas atrás de espelhos” é o emblema dos personagens principais e do universo no qual vivem. Porém, a vida de ambas muda com a chegada de um novo morador ao prédio, o rico e misterioso Kakuro Ozu. Kakuro consegue ultrapassar a barreira do espelho e enxergar, mais do que a si mesmo, mas às pessoas que existem em Paloma e Renée. Kakuro é chamado um “estranho no ninho”: “...uma pessoa de fora, que não precisa nem saber, nem se limitar às regras sociais estabelecidas, ele consegue estender sua amizade às duas mulheres ... quebrando as rígidas convenções sociais dentro do condomínio.” Além de alusão à arte, literatura e filosofia, o livro contem fortes críticas sociais e as protagonistas do romance mostram um sarcasmo tipicamente francês.

Ao longo do mês de leitura, “A Elegância do Ouriço” foi elogiada de modo entusiasmado por grande parte dos leitores do grupo:

“… a leitura foi um presente . Tamanha sofisticação e delicadeza do início ao fim.”

Este livro exprime a arte em diferentes palavras, em diferentes formas.”

“… não esperava me apaixonar pela narração na primeira hora de leitura.”

Achei muito sutil essa construção de idéias e palavras, me encantou essa alegoria.”

A escritora Barbery foi meio médica neste livro, usando tão bem sua inteligência, suas palavras.”

A Elegância do Ouriço é realmente uma elegância de texto e uma leitura muito gostosa. Estou achando fantástico.”

A leitura flui naturalmente e quando vemos, já acabou.”

Estou muito emocionado… o mergulho que fiz neste livro tão delicado e bonito. Desde o preâmbulo ('Marx', que também mudou totalmente a minha visão do mundo, como o jovem Pallières), o livro me envolveu numa espécie de curiosidade, encanto e perplexidade.”

“… terminei de ler o livro ontem e - what a book, hein, my friend!!! Em função certamente dele, meu dia hoje foi diferente. Situações outrora vistas e sentidas como corriqueiras, enfanhonhas ou mesmo desagradáveis, tiveram um novo significado.”

O texto é divertido, é profundo, é belo. Feliz por ter lido!

Quanta coisa aprendi nestes dias de leitura!!!!!!!!!!!! Que maravilhoso foi poder viver isto intensamente com este grupo.”

Agradeço ao grupo de leitura por pôr em meu caminho um livro tão bonito!
Um marco dentre as leituras do clube, “A Elegância do Ouriço”, foi chamada por alguns de “memorável”. O romance de Barbery foi tão envolvente, que muitos dos leitores se sentiram instigados a procurar ler ou conhecer algumas das obras artísticas, literárias e filosóficas citadas no livro. A temática artística do livro foi: pintura holandesa, livros de autores russos, cinema japonês (“As Irmãs Munakata” (“Munakata Shimai”), com direção de Yasujiro Ozu), gastronomia japonesa e francesa com toque português. Apesar do requinte artístico, a narrativa não mostra esnobismo por parte das personagens principais. Renée ouve os clássicos Mozart, Gustav Mahler, Sebastian Bach, Frideric Handel, assim como o hip hop e rapper do francês Mc Solaar (1969- ). Ouriços, ou não, a discussão foi de um requinte singular!

A personagem Reneé cita pintores do período barroco, como Willem Claesz Heda (1594 - 1680), Pieter Claesz (1596/1597 - 1660), Willem Kalf (1622 - 1693) e Osias Beert (1580 - 1624), todos holandeses que, dentre outros, brincam com o tema da mesa arrumada para refeição. Em particular, as obras do Willem e Pieter Claesz são muito semelhantes em estilo. Em um dos trechos, Renée descreve de modo emocionado a reprodução de um quadro de Pieter Claesz, exposta na entrada do apartamento de Ozu. Numa tentativa de vivenciar o ambiente do livro, alguns leitores se lançaram na procura da obra, mas logo descobriram que achar o quadro do rico e encantador senhor japonês poderia ser um exercício enlouquecedor, visto que existem muitas variedades do gênero natureza-morta (“still life”), com breakfasts e banquetes para todos os gostos: com nozes, ostras (com ou sem limaozinho), cerveja, presunto, peixe, caranguejo, sem pãozinho. Ao final, exceto pelas pimentinhas num pratinho de estanho, a mesa arrumada para uma refeição leve, de ostra e pão, de Pieter Claesz, parece ter sido encontrada como descrita no livro.


Pintura à óleo de Pieter Claesz (1597 - 1661), do gênero natureza-morta (“still life” - obra de 1633). Tentativa de encontrarmos a reprodução do elegante Kakuro. É possível que na reprodução de Kakuro Ozu, o artista quis dar um toque particular e não pôs as pimentinhas num pratinho de estanho.


Outras obras vivenciadas pelos leitores, foram Moça com Brinco de Pérola, de Johannes Vermeer (1632 - 1675), e O Homem na Latrina, de Bacon, ambos mencionado no romance por Paloma. Moça com Brinco de Pérola é por vezes referido como a “Mona Lisa do Norte” ou “Mona Lisa Holandesa” e há filme e livro (“Girl with a Pearl Earring”, de Tracy Chevalier) de mesmo nome inspirados na pintura.

A arte no esporte foi vivenciada através do Haka, dança tradicional dos Maori, da Nova Zelândia. De movimento vigorosos e ritimados, a dança é assinatura do time de rugby neozelandês, que faz a performance antes de partidas internacionais (Haka é AWESOME!!).

Em relação à música, o clube ouviu Dido and Aeneas, de Henry Purcell, (a mais bela obra de canto do mundo, segundo a ouriço), o Confutatis do Réquiem, de Mozart (a música que quase mata Renée de susto no banheiro do Sr. Ozu), e Erik Satie (música que Paloma e Kakuro ouvem ao piano no final do livro).

Finalmente, fomos apresentados à obra poética de Bashô, o poeta preferido de Paloma, e pela primeira vez o clube falou sobre haicais:

Antes eu não entendia como um haicai poderia ser considerado poesia, mas hoje percebo que a imagem nele contida expressa mais do que mil palavras.”

Num atalho da montanha
Sorrindo
uma violeta
(Matsuo Bashô)

terceto com 5, 7 e 5 sílabas métricas”:


O que é haicai?
É o brilho das estrelas
na gota de orvalho...

What is a haiku?
It is the dazzling of stars
in a drop of dew...
(Luiz Antonio Pimentel)
No dia da reunião, o entusiasmo dos participantes foi tamanho, que esta se tornou uma verdadeira celebração, externando o que antes estava no livro. A conversa foi regada a vinho tinto e camembert; torradas e patêzinhos, chás e gourmandise française (“tuiles aux amandes”, “madeleines”, “glutofs”, “mediants” de chocolate preto e “tarteletes”. Só faltou geléia de mirabela, a qual ficou na fenomenologia). Foi um dos mais festivos e animados encontros, além de agradável e descontraído. Os que não puderam comparecer sentiram ter perdido um daqueles momentos que Paloma registraria no seu "diário do movimento do mundo":

Sinto não ter estado com vocês. Preparei-me para a festa, mas a vida é imprevisível... deixei rolar pela face uma singela lágrima...”
Quanto às críticas ao livro, alguns participantes citaram o excesso de maturidade da personagem Paloma:

Uma garotinha de 12 anos citar Roman Jakobson, é brincadeira!!!!!!

Eu fiquei impressionada com a leitura de Paloma! Eu aos 12 anos era só poeira... e olha que ainda não cheguei nem perto de ser (ou ter sido) estrela!
O livro também foi indagado como auto-ajuda por gerar reflexões ao abordar questões fundamentais, que todos nós formulamos, e respondemos de modos tão distintos:

Qual o sentido da vida? Que conhecemos do mundo? O que te move? O que fazemos de manhã? Por que ficar nesse mundo? Qual a natureza da consciência humana?

“... fatalismo estarrecedor… O nome desse livro deveria ser “O fel da vida”. Adorei!

Quando se é um peixe vermelho no aquário, é preciso da camélia para criar a vacuidade para podermos responder a questão de Paloma: a vida tem algum sentido?
Para alguns a resposta a estas perguntas é muito simples :

“... a vida faz toda sentida”!
Em outubro de 2008, Le Hérisson, filme inspirado no livro, estreiou nas telinhas de Paris, sob direção da jovem cineastra Mona Achache. Nos papeis principais Josiane Balasko (Renée), Garance Le Guillermic (Paloma), Togo Igawa (de “Memórias de uma Gueixa”, fazendo Kakuro), Anne Brochet e Ariane Ascaride. Será bom?

A “Elegância do Ouriço” está entre os poucos romances lidos pelo grupo, que tem uma mulher como autora.

Recomendadíssimo!!!!!!!!!!!!