CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de julho de 2015

Bartleby, o escriturário: Herman Melville




Empregado em um cartório de Nova York e inicialmente muito ativo, Bartleby é tomado de uma paralisia encantatória que o impede de fazer quaisquer serviços. Uma aura de mistério começa a envolver o contemplativo e borgiano personagem.

Síndrome de Bartleby: "pulsão negativa ou atração pelo nada".


“Nada acontece, duas vezes!”


"No ministério de… Não, é melhor não dizer seu nome. Ninguém é mais suscetível do que funcionários, empregados de repartições e gente da esfera pública. Nos dias que correm, todo sujeito acredita que, se nós atingimos a sua pessoa, toda a sociedade foi ofendida."  (O capote: Gogol)

“As honrarias desonram, os títulos degradam, os empregos entorpecem” (Flaubert)



“você é amavelmente convidado a compreender o absurdo de querer imitar ou eclipsar obras-primas e a ver que o melhor que poderia fazer é eclipsar-se a si mesmo”. (Enrique Vila-Matas)


Bartleby também foi tema do Círculo de Biblioterapia, você participou?

Teoria da Decisão

Em nossas vidas existe uma alternância entre eventos rotineiros e aleatórios. Assim, ou estamos executando eventos estruturados – as chamadas rotinas ou somos surpreendidos por eventos não estruturados que ocorrem ao sabor do acaso.

Isto ocorre ao longo da existência do ser humano, desde que tomamos o controle e passamos a ser os responsáveis pela condução de nossa vida, posto que, felizmente nos é dado o livre arbítrio.

Ao iniciarmos cada dia sujeitamo-nos a algumas rotinas, como as matinais (higiene, alimentação, locomoção, etc.), de aprendizado, de trabalho, etc. que são estruturadas, pois existe uma seqüência lógica em suas execuções, que nos foram passadas ao largo de nossa educação, sujeitas a horários, precedências, métodos, para o melhor resultado em suas realizações.
  
Outras nem tanto, como o lazer, obrigações familiares ou sociais, etc., que por não estarem estruturadas nos surpreendem por vezes com situações inusitadas. Neste tipo de eventos somos forçados a tomar decisões para levar a bom termo o seguimento destes eventos e conseguir o melhor resultado, geralmente com alto grau de improvisação, equívocos ou acertos, decepções ou alegrias resultantes de nossos conhecimentos, habilidades e atitudes (competências).

A Teoria das Decisões nasceu com Herbert Simon, um emblemático da Escola Comportamental da Administração Convencional e da Escola Cognitiva do Pensamento Estratégico – Prêmio Nobel de Economia em 1978 – influenciando os seguidores com a visão que o mundo é grande e complexo, ao passo que o cérebro humano e sua capacidade de processamento de informações são altamente limitados.

Assim é que a tomada de decisões, embora siga um roteiro prescritivo, está sujeita a cognição do responsável pela mesma que varia da extroversão à introversão, da sensação à intuição, do raciocínio lógico à sensação e do julgamento à percepção. (K. Jung).

R.J. Tersine configurou seis elementos que o tomador de decisões deve seguir:

• Atribuição do indivíduo autorizado, credenciado e competente para tal,
• Objetivos: o que se pretende atingir,
• Preferências: critérios subjetivos utilizados na escolha de alternativas,
• Tática: curso de ação para atingir os objetivos considerando os recursos disponíveis,
• Cenários: aspectos ambientais (risco, incerteza) que envolvem o tomador da decisão em suas escolhas,
• Resultado: grau de sucesso no atingimento dos objetivos, função das táticas escolhidas;

Em sete etapas:

• Percepção: etapa inicial onde o tomador obtém as informações sobre a questão,
• Analise e definição do problema,
• Definição dos objetivos,
• Elaboração de alternativas ou cursos de ação,
• Avaliação e comparação das alternativas,
• Eleição da melhor alternativa,
• Implementação da alternativa escolhida.

 Embora o método seja racional, criterioso, prescritivo, detalhado, deve ser seguido para evitar improvisações, extrapolações, tendências, casuísmos que redundem em escolhas equivocadas causando prejuízo pessoal ou organizacional.

A contribuição relevante da Teoria das Decisões na Escola Comportamental foi contrapor-se à Escola Clássica no aspecto que as organizações são Sistemas Decisionais embasados na racionalidade limitada de seus membros, na imperfeição e relatividade das decisões, na hierarquização do processo de escolha de alternativas (planejamento e racionalidade) e nas influências de premissas organizacionais (divisão de tarefas, padrões de desempenho, sistema de autoridade, canais de comunicação e treinamento e doutrinação).


Eu prefiro não!



I WOULD PREFER NOT TO (prefiro não ...)


O paradoxo da resistência passiva


26 de julho de 2015

Clube da 7 - Mar inquieto: Yukio Mishima

Mishima e a estranheza: Roberto Pedretti


Yukio Mishima, aparte a grandeza de sua literatura, é uma figura complexa o bastante para nos interessar simplesmente a partir de sua biografia: nascido numa família extremamente conservadora, que desestimulou-o o quanto foi possível a seguir a carreira literária, Mishima acabou por tornar-se o paradigma do conservadorismo japonês. Na contramão dos movimentos literários japoneses no pós guerra, defendeu ardorosamente o retorno aos valores fundamentais da cultura japonesa sob o domínio samurai, rejeitando virulentamente a influência nefasta dos modismos europeus e estadunidenses. Hábil na arte milenar do kendo (a espada samurai), conhecedor e estudioso de táticas militares e seguidor de um rígido programa de boa forma física, Mishima era a antítese do que um escritor de ficção deveria ser aos olhos do mundo - boêmio, libertário e volátil. Tanta disciplina e idealismo, provavelmente, tiraram de suas mãos, em 1968, o prêmio Nobel de Literatura que, conta-se, estava "encomendado" para ele por mais que justas motivações literárias, e que acabou destinado ao seu amigo e mentor Yasunari Kawabata, seu amigo e mentor, este muito menos ideológico em seu discurso. 


Em 1970, Mishima e um grupo de jovens seguidores que ele treinou pessoalmente como uma milícia paramilitar, os Tatenokai (algo como "sociedade do escudo") invadiram uma base militar em Tóquio. Lá, depois de fazer alguns reféns e dirigir um discurso inflamado aos soldados, que o repudiaram, praticou o harakiri, penetrando seu próprio ventre com sua espada, no que foi seguido pelos demais tatenokai (não sem que antes um deles o degolasse, como parte do ritual, conforme o código samurai). 

Ele mesmo homossexual, Mishima retratou com crueza relações amorosas entre seus personagens masculinos, além de nunca ter se esquivado de abordar a complicada relação entre o desejo e o "amor espiritual". Sua literatura acabou por ser o alarme de uma profunda meditação a respeito do conflito interno de seu país e dos japoneses individualmente entre as demandas criadas com a invasão ocidental subsequente ao fim da II Guerra e a preservação de um orgulho imemorial que lutava para ter onde se alicerçar. 

Que Mishima não seja um modelo pessoal, ao menos para mim, em nenhuma das formas pelas quais conduziu sua vida, não diminui em nada a grandeza de seu texto. Talvez seja justamente sua visão profundamente pessimista e obcecada pelo passado que o tenha tornado tão fascinante - e também o escritor japonês mais conhecido fora do Japão, seguido apenas, de uma certa distância, por Haruki Murakami.

21 de julho de 2015

A paixão segundo G.H. & a festa da insignificância: Elenir Teixeira

"A Paixão Segundo G.H.", para mim um dos melhores livros da Clarice, já foi lido e discutido no CLIC.





Selecionei o trecho abaixo:

"Oh Deus, eu me sentia batizada pelo mundo. Eu botara na boca a matéria de uma barata, e, enfim, realizara o ato ínfimo.  

Não o ato máximo, como antes eu pensara, não o heroísmo e a santidade. Mas, enfim, o ato ínfimo que sempre me havia faltado. 

Eu sempre fora incapaz do ato ínfimo. E  com o ato ínfimo, eu havia me deseroizado.  

Eu, que havia vivido do meio do caminho, dera, enfim, o primeiro passo de seu começo. 

[...] Enfim, quebrara-se realmente o meu invólucro, e, sem limite, eu era."


Só mesmo Clarice, não?





Fez-me lembrar "A festa da insignificância", de Kundera, embora sem o dizer da forma incomparável de Clarice.





19 de julho de 2015

Análise da Paixão: Rejane




 Tal como indicado no início do livro e percebido ao longo da leitura, a obra de Clarice se aproxima do Mistério. A narrativa é puro desencadeamento de pensamentos, que não se preocupam com o externo, mas com a riqueza interna que cada personagem tem dentro de si. Por isso é difícil de enquadrá-la como um romance tradicional, talvez realmente se aproxime do que V. Wolf escreveu a respeito do futuro do romance. E é isto que é o diferencial da obra de Clarice. Ela conseguiu atingir o que V. Wolf já antevia. A literatura de Clarice, ao meu ver se aproxima muito da “poesia” nesse sentido.

Poderíamos enquadrá-la, talvez, como literatura do fantástico, tal como observamos em Jorge Luis Borges, que chegou a mencionar, certa vez, que utilizava muito do material de seus sonhos em sua obra. Torre de Babel poderia ser um exemplo disto, mas ele se apropriava também da vasta cultura que tinha.

Mas falando especificamente da Paixão segundo G.H., vejo uma certa proximidade com Kafka em Metamorfose, quando Gregor narra seus pensamentos ao se ver transformado em um escaravelho. É meio grotesco, tal como a barata de Clarice, mas é apaixonante observar a riqueza da transformação interna dos personagens.

Acredito que Clarice realmente tenha tinha “insights” ao observar fatos corriqueiros; isto é recorrente em sua obra, tal como a partir de um cego mascando chiclete na rua consegue perdoar Deus no conto ou crônica “Perdoando Deus” (o qual recomendo a leitura). O olhar do artista é de fato apurado. Simples acontecimentos do cotidiano se transformam em obras de arte na mão destes. Admiro esse olhar atento e ao mesmo tempo “desligado” de Clarice.

Agora sobre ao que de fato ocorreu naquele quarto de GH, está claro para mim que foi a morte de uma vida pautada no externo, a partir da imagem que os outros e ela própria tinha dela, superficial, de extrema humanidade, no sentido de atrelamento ao “ego”, o que gera dor, pensamentos e sentimentos, para uma percepção totalmente diversa da “realidade”. Aquela a qual sua vida estava anteriormente atrelada era uma ilusão1, esta nova está muito mais próxima das sensações, do sentir, mas um sentir muito acima dos mero cinco sentidos que o humano usa para viver neste mundo.

Consigo observar isto em alguns trechos do livro quando GH “ vê através de um copo cheio de verde” ou quando fala de “som vibrando surdo", bem como quando fala da falta de tradução por palavras das sensações vivenciadas. Acredito que nós não somos treinados para tanto; se nunca fomos “lá" como poderemos reconhecer aquilo que ela relata. Tal como a própria personagem fala a respeito de traduzirmos em palavras o que vimos para um cego que nunca viu. Ou quando acrescenta “eu não estava mais me vendo; estava vendo... diferentes modos que significam “ver” : um olhar o outro sem vê-lo, um possuir o outro, um apenas estar num canto e outro estar ali também; a barata não me via com os olhos mas com o corpo (o corpo enxerga)... "eu estava saindo do meu mundo e entrando no mundo”.

No que se refere à “humanidade” retratada, GH diz que “Havia humanizado demais a vida” . Faz também uma separação entre os humanos e “não humanos, este tendo como contraponto o eterno, que representa o eterno2, o neutro, o não-tempo, o aqui e agora. Esse processo de desumanização vivenciado permeia todo o romance. A narrativa é basicamente sobre isto, principalmente quando acrescenta que a maior descoberta é que o mundo não é humano e de que não somos humanos (talvez nossa essência).

Outro ponto fundamental a respeito da descoberta desse não humanos que somos é a entrega ao momento presente, o instante, o momento já, o agora em sua plenitude, o tempo inchado até os limites ou como ela própria diz de um “passado como contínuo presente e futuro ou, ainda acrescenta “ a hora de viver estava sendo tão já que eu encostava a boca na matéria da vida”, ou quando equipara o presente ao nada, ao insosso, ao neutro, à face hoje de Deus e diz que o “o reino dos ceús já é”. Mas para se ter consciência deste agora é preciso estar consciente, atento3.

O presente, este não-tempo, é visto como o que há entre os números, as notas musicais, o espaço entre dois grãos de areia, nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquela que ouvimos e chamamos de silêncio . E o quarto, ao meu ver, poderia ser a representação desse não-tempo quando diz que “o quarto era a alta monotonia de uma eternidade que existia” … O quarto não tinha um ponto que se pudesse chamar de seu começo, nem um ponto que pudesse ser considerado o fim. Era de um igual que o tornava indelimitado.”

A reminiscência é outro aspecto na linha de pensamento da personagem, quando fala da vida pré-humana ou volta à origem da criação e diz que “eu já havia vivido com os primeiros bichos da terra” … “dois minutos depois de nascer e eu já havia perdido minhas origens” . Ou quando afirma que começou a marcha desde a pré-história caminhando sob o deserto, não tendo guia, mas perdição. Acrescenta: não sabia fazer a pergunta, mas a resposta já veio pronta assim que nascera; como um cego que não sabe perguntar sobre aquilo que nunca viu, sem saber perguntar sobre o que não sabia que existe.
 
O deserto é outra palavra usada constantemente no texto, comparando este ao “neutro”. Se resgatarmos o simbolismo da Bíblia tem-se que o deserto significa encontrar a nós mesmos, nossa essência. Isto é retratado na narrativa quando menciona “o deserto tem uma umidade que é preciso encontrar de novo”... “enlamaria a poeira até que nascesse umidade daquele deserto” , ou seja, a vida. Adiciona: “eu caindo séculos e séculos dentro de uma lama era lama, e nem sequer lama já seca mas lama ainda úmida e ainda viva, era uma lama onde se remexiam com lentidão insuportável as raízes de minha identidade”.

No que se refere a equiparar o viver (= desumanização4) ao sobrenatural, GH deixa isto bem claro quando diz “Essa coisa sobre natural que é viver” e relata seu encontro com o que chama de Deus ou Amor, por meio do reconhecimento da carência inerente a todos nós (talvez essa falta do útero, em que passamos a vinda inteira inconscientemente voltar). Traz ainda Deus como sinônimo de natureza – tal como o Criador é sinônimo de Natureza na cabala – ao dizer que “eu sabia que se atravessasse os portões que estão sempre abertos entraria no seio da natureza”, ou seja, entraria na ”unidade" a que liga todos nós e que convencionou-se chamar de “Deus”. E complementa “Eu talvez já soubesse que, a partir dos portões, não haveria diferença entre mim e a barata. Nem aos meus próprios olhos nem aos olhos do que é Deus.”
 
A personagem ainda confessa que a arte nos aproxima desse Mistério, ou porque trabalha com o inexpressivo – visto como “demoníaco” -ou por trazer uma calma quase sem alegria, quando trabalhava com escultura. Via o Mistério, ainda, como imanente ao ser humano quando, por exemplo, olhava sua fotografia e esta lhe revelava um silêncio no sorriso; um silêncio e um destino que a escapavam; “via O Mistério” ; ela era imagem do que não era. Tal como um dia veria no “outro”, que é parte dela mesma e do todo, quando afirma “vou te dizer que te amo” .

Para se viver realmente é preciso ter coragem ao assumir a carência, que se fosse revelada assustaria aos outros por ter saído dos regulamentos. E se “der o grito de alerta de estar viva, poderá ser arrastada por ter saído para fora do mundo possível.” .
 
A revelação do que se é e do que é o mundo depende de admitirmos essa carência. Aquilo que eu fizer do pedido e da carência esta será a vida que terei feito de minha vida (tenho que admitir internamente esta carência e de que dependo Dele). Para tanto, tem-se que aumentar infinitamente o pedido que nasce da carência (e o pedido é ser o mundo tal como Deus; simplesmente ser tudo ao mesmo tempo, ser a imagem e a semelhança Dele). Reafirma isto ao acrescentar que Deus queria que me igualasse a ele por um amor de que não sou capaz... Ele queria que eu fosse como ele o mundo - porque ele é tudo - ele queria minha divindade humana - santidade humana que não é a dos santos- em vez de sermos o Deus - assim como os outros seres O são, inclusive a barata que se entrega a ele e sua vida é um contínuo infinito - queríamos vê-lo.
 
Acrescenta que sua carência surgira de quando fora expulsa do paraíso e perdera o lado inumano. Afirma que a solidão é apenas destino humano; é não precisar; não precisar deixa o homem muito só. Mas a carência é o nosso destino maior, falta apenas o golpe da graça que se chama paixão.
 
Essa paixão é na maior parte das vezes adiada quando se inventa o futuro e esperança, justamente porque tinha pouca fé; adiava a atualidade como promessa de futuro... prescindir da esperança significa ação (é viver o agora)...a esperança machuca (gera expectativas que podem ser frustradas) . Não aguentamos essa luz sempre atual e a prometemos para depois.

A paixão pode muitas vezes vir sob a forma de violência somos felizes porque não há uma única forma de entrarmos em contato com a vida, inclusive, a dor, enquanto acordados. Deus sempre esteve, quem esteve pouco fui eu...podemos abrir caminho para ele por meio da violência... Ele nos escolhe e nos violenta ...minha pobreza extrema será uma grande vontade... tenho que me violentar até não ter nada e precisar de tudo.
 
Pelo o que parece, esta paixão não é afeta a todos, visto que se sabemos pouco de Deus é que precisamos pouco dele - muitas pessoas se bastam com sua vidas e são “felizes. A nostalgia é sabermos que não somos o bastante - para atingir esse grau de “alegria”que a personagem relata. Sofremos na realidade por ter tão pouca fome de Deus - ...a partir do momento que passamos a ter fome e querer Ele acima de tudo ficamos abaixo ou acima da dor- ...quanto mais precisaremos mais Deus existe.
 
E precisar Dele depende da prece verdadeira ...O que é Deus estava mais no barulho neutro das folhas ao vento (intenção) que na minha antiga prece humana (falação, sequência de palavras). A menos que eu pudesse fazer a prece verdadeira, e que aos outros e a mim mesma parecia a cabala de uma magia negra, um murmúrio neutro. Essa prece neutra seria apenas ser.
 
Para GH a desistência é a revelação... desistir do que chamávamos de “vida”... eu não alcançaria jamais a minha raiz, mas tinha a confiança de que ela existia. Para tanto, há a necessidade de despersonalizar-se - o que me caracteriza, como sou vista pelos outros e como sou superficialmente reconhecida em mim-visto que a vida é vista como missão secreta de despersonalizar-se (retirar as grilhões do ego) e buscar o indivisível , o que só poderá ser me dado através do fracasso de minha linguagem...inútil encurtar o caminho, pois a trajetória somos nós mesmos.

Deus não é bonito e não é uma conclusão O mundo não tem intenção de beleza (nem tampouco perfeição)... Deus é o que existe e todos os contraditórios estão dentro de Deus. GH encontrou um Deus que é indiferente , pois não é bom ou mal (é o neutro – a linha do meio). Para ela a vida não tem sentido apenas no humano... é muito maior... entregar-se com confiança de pertencer ao desconhecido...estava tão maior que não se via mais (quando não se vê mais, acredito que se apazigua o ego e passa-se a enxergar o outro, visto que quem atinge a personalização atinge ao outro sem qualquer disfarce.
 
No que se refere a chegar próximo do outro, GH fala de uma bondade diferente daquela dos santos, Basta viver, e por si mesmo isto resulta na grande bondade. Quem vive totalmente está vivendo para os outros, quem vive a própria largueza está fazendo uma dádiva. Em outro ponto acrescenta que O pecado renovadamente original é este: tenho que cumprir a minha lei que ignoro – conhecer-se e conhecer ao mundo é a lei que, mesmo inalcançável não pode ser infringida com o pecado original perdemos a máscara com que nos cumpriríamos.

O estado de graça é inerente a todos nós.. a questão é se arriscar a conhecer isso em si... existe permanentemente. E conclui GH que só dependemos de nós para realizarmos nosso destino final.


 Notas:

1 Quando fala na esperança da vida anterior como ilusão e questiona quem garante que a vida anterior também não foi inventada. Ou, mais a frente quando diz Mas se inventei o que ontem me aconteceu – quem não me garante que inventei toda a minha vida anterior a ontem?

2 ...de nascer até eu morrer é o que eu me chamo de humana... eu nunca propriamente morrerei...eu sempre estivera em vida

3 “...Estava atenta, eu estava todo atenta....- quem sabe aquela atenção era minha própria vida”. (…) Mais que atenção ã via, era o próprio processo de vida dentro de mim”.

4 a desumanização é tão dolorosa como perder tudo





13 de julho de 2015

Ode a Um Rouxinol: John Keats

Leitura de referência - Shalimar, o equilibrista: Salman Rushdie
Debate: 11 de setembro de 2015 - 19:00 h
Livraria Icaraí - Icaraí - Niterói







Doi-me o coração, e um torpor letárgico

Fere meu sentido, como se tomasse cicuta,
Ou ingerisse até o fim algum ópio
Instantes atrás, e ao Letes me precipitasse.
Não que inveje teu alegre destino
Mas por ser feliz com tua alegria - 
Que tu, Dríade das leves asas,
Num lugar melodioso
De faias verdes, e sombras incontáveis,
Celebras a plena voz teu canto de verão.



II



Oh! Gole farto de vinho velho!

Fresco há muito no profundo coração da terra,
Com sabor da Flora e verdes prados,
Dança e canção Provençal, alegria queimada de sol!
Oh! taça plena do quente Sul
Cheia da vera e rubra Hipocrene
Com borbulhas qual contas piscando nas bordas,
Boca tinta de púrpura;
Se pudesse beber, e sumir deste mundo,
E contigo desvanecer na escura floresta.



III



Desvanecer, dissolver e deslembrar

O que tu entre as folhas jamais conheceste
O fastio, a febre, e o frêmito
Aqui, onde os homens sentam e se escutam gemer;
Onde a paralisia agita os últimos parcos cabelos brancos,
Onde os jovens empalidecem, e morrem qual espectros;
Onde apenas pensar causa a dor
E o desespero dos olhos plúmbeos,
Onde a Beleza não pode suster seus olhos brilhantes,
Nem um novo Amor definhar mais um dia.



IV



Longe, Longe! A ti voarei,

Não na carruagem de Baco e seus leopardos,
Mas nas invisíveis asas da Poesia
Embora o turvo cérebro retarde e confunda.
Já contigo! Suave é a noite,
E talvez a Rainha Lua esteja em seu trono
Cercada por suas Fadas estelares;
Mas aqui não há luz,
Senão aquela que do céu com as brisas sopra
Pelas glaucas trevas e sendas sinuosas de musgo.



V



Não vejo que flores estão a meus pés,

Nem qual suave incenso dos ramos exala,
Mas, na treva embalsamada, desvelo o aroma
Que cada mês regala
A relva, a coifa, as frutíferas árvores silvestres;
Branco pilriteiro e madresilva pastoral;
As violetas que cedo murcham veladas sob as folhas;
E a primeira filha dos meados de maio,
A rosa de almiscar, no vinho de orvalho imersa,
Murmúrea paragem de moscas das tardes de verão.



VI



No escuro escuto; por várias vezes

Que tenho sido seduzido pela suave morte,
Lhe dando ternos nomes em versos refletidos,
Para que pegasse no ar meu sutil alento;
Nunca como agora me parece tão boa a morte,
Findar a meia-noite sem nenhuma dor,
Enquanto tu em torno desvanesces a alma
Neste êxtase!
Ainda cantarias, e de nada valeriam meus ouvidos - 
A teu alto réquiem em terra transformado.



VII



Não nasceste para a morte, Ave imortal!

As gerações famintas não pisam em ti;
A voz que escuto esta noite foi ouvida
Pelo palhaço e o imperador nos tempos remotos.
Talvez a mesma melodia que encontrou lugar
No triste coração de Rute, quando, saudosa do lar,
Chorou entre o trigo estrangeiro;
A mesma que várias vezes encantou
As mágicas janelas, abertas sobre a espuma
Dos mares perigosos, nas encantadas terras perdidas.



VIII



Perdidas! Esta palavra é como um sino

Que, dobrando, me faz voltar a mim mesmo!
Adeus! A fantasia não pode tanto iludir
Como parece, ó elfo ludibriador.
Adeus! Adeus! Teu hino pungente se esvai
Além dos prados vizinhos, sobre o tranquilo riacho,
Subindo o monte; é agora profundamente enterrado
Nas clareiras do vale ao lado.
Foi esta uma visão ou sonhei desperto?
A música se foi: - Estarei dormindo ou acordado? 






ODE A UM ROUXINOL

 A “Ode a um rouxinol”, uma das prediletas no grupo das grandes odes, trata da felicidade que é o canto do rouxinol, das tristezas do mundo e da sedução da morte; todavia o canto da avezinha transcende a mortalidade e é tão belo que o poeta, no fim, indaga se não terá sonhado. Jorge Luis Borges toma a ode como “fonte de inesgotável poesia”. Além do rouxinol que havia na casa de Hampstead, conta-se que uma noite da primavera de 1819, Keats se encontrava com Severn e outros companheiros na “Spaniard’s Inn”, em Hanpstead Heath; Severn percebeu de repente que Keats se havia eclipsado e deu com ele, sob um grupo de pinheiros, a ouvir um rouxinol. Keats seguiu a inovação de Coleridge, que foi o primeiro, diz-se, a fazer do canto do rouxinol um canto de alegria. Dias antes de escrever a ode, Keats conversara com Coleridge, e na palestra entraram rouxinóis. A ode foi publicada nos Annals of Fine Arts em julho de 1819, contendendo-se sobre se foi escrita no início ou em meados de maio, se antes ou depois da “Ode sobre uma urna grega”.