CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

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17 de novembro de 2012

Estamos nas nuvens: Rita Magnago


Bom sábado, pessoal

Estamos lendo "As nuvens" e eis que me deparo hoje, no Caderno Prosa (infelizmente agora só, onde foram parar meus versos?) , com matéria sobre a escritora moçambicana (salve Mia Couto) Paulina Chiziane, que ficou internada uma semana em uma clínica psiquiátrica.
Conta a autora que tinha crises de calor e frio intercaladas com vertigens e que ouvia vozes, o que fazia com que falasse sozinha horas e horas e, durante a noite, não conseguisse dormir. Na clínica, ela entrevista outras mulheres com as chamadas alucinações, incluindo uma entendida em espiritismo, que vem a ser sua parceira no livro, e escreve o que os críticos dizem estar no limite entre literatura e paraliteratura, por tangenciar, em sua escrita influenciada pela oralidade e costumes africanos, esse universo dos espíritos. Ao fim e ao cabo a autora declara: "Foi um exercício psicológico interior muito grande e, mesmo assim confesso: acho que vão dizer que enlouqueci de vez."

Fascinante essa fronteira da loucura, até que ponto vai o que convencionamos chamar de normalidade e que tantas vezes é muito mais louco que a loucura em si. Há um preconceito gigantesco com as doenças mentais que nos faz inclusive optar pelo distanciamento destes enfermos, mas a loucura usa e abusa da razão. Como nos lembra Saer na página 135, "Todos os atos de um louco, por nímios ou absurdos que pareçam, são significativos" ou ainda na página 146, quando diz que é a razão que engendra a loucura.

Saer dialoga ainda com Clarice, e tantos outros, quando fala do medo que temos pelo que não conhecemos ou entendemos, como bem destacado no trecho abaixo, da página 146.

"E quanto à impossibilidade que o senhor assinala de conhecer os pensamentos de um colibri ou, se prefere, de um cavalo, quero sublinhar que frequentemente acontece a mesma coisa com nossos pacientes: ou eles prescindem da linguagem ou tergiversam com ela, ou utilizam uma linguagem de que só eles conhecem o significado. De modo que, quando queremos conhecer suas representações, descobrimos que são tão inacessíveis para nós quanto as de um animal desprovido de linguagem".

Esse livro, em minha opinião, joga luz sobre o sombrio em nós que renega o que foge a parâmetros socialmente aceitos justamente porque seus atores não foram socialmente aceitos. Valeu a dica, Ceci.

Abraços a todos,

Rita

P.S1 : Aproveito para convidá-los a rir um pouco com meu novo post. Tem uns quadrinhos muito bons. É só acessar abaixo.


P.S2: Para quem quiser ler a matéria com a moçambicana, segue o link.


Última atualização do blog: 17/11/2012
Confira em http://ritamagnago.blogspot.com.br

2 comentários:

  1. Rita, parabéns pelo excelente comentário ao livro , associado às suas leituras.Grande contribuição, o que não nos surpreende.Um bom livro eleva nossos sentidos!
    Bjs
    Elô.

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    Respostas
    1. Obrigada, Elô. Eu compartilho o mesmo sentimento que você, sobre um bom livro elevar nossos sentidos. Hoje me vejo mais sensível, mais apurada e perceptiva para o que a vida nos mostra nas entrelinhas. Agradeço ao Clic por isso, e a você, que sempre propaga e inclusive viabiliza boas leituras. "Trem noturno para Lisboa", que você gentilmente me emprestou, dentre outros, ficará eternamente no meu coração.

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