CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

15 de novembro de 2019

A leste do Eden: John Steinbeck



“E Adão conheceu Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz Caim e disse: ‘Gerei um homem com o auxílio do Senhor.’ Em seguida ela deu também à luz Abel, irmão de Caim. Abel era pastor e Caim, lavrador. Passado algum tempo, Caim ofereceu ao Senhor os frutos da terra. E Abel também ofereceu os primogênitos do seu rebanho e as suas gorduras. E o Senhor olhou com agrado para Abel e a sua oferta, mas não olhou para Caim e a sua oferta. E Caim ficou muito irritado e seu semblante se cerrou. E o Senhor disse a Caim: ‘Por que estás zangado? E por que teu semblante está abatido? Se praticares o bem, poderás reabilitar-te. E se procederes mal, o pecado estará à tua porta, espreitando-te. Mas tu o dominarás.’” “E Caim disse a Abel, seu irmão: ‘Vamos ao campo.’ Logo que chegaram ao campo, Caim lançou-se sobre o irmão e o matou. Disse o Senhor a Caim: ‘Onde está Abel, o teu irmão?’ E ele disse: ‘Não sei. Sou porventura o guarda do meu irmão?’ E o Senhor replicou: ‘Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra por mim. De agora em diante serás maldito sobre a terra, cuja boca se abriu para receber de tuas mãos o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, ela te negará os seus frutos. E tu serás peregrino e errante sobre a terra.’ E Caim disse ao Senhor: ‘Meu castigo é maior do que posso suportar. Expulsai-me agora desta terra e devo ocultar-me longe da Vossa face, tornando-me um peregrino errante sobre a terra. O primeiro que me encontrar, matar-me-á.’ O Senhor respondeu-lhe: ‘Não, aquele que matar Caim será punido sete vezes mais.’ E o Senhor marcou-o com um sinal, para que, se alguém o encontrasse, não o matasse. Caim retirou-se da presença do Senhor e foi morar na região de Nod, a leste do Éden.”

Caim Mata Abel
Lucas Van Leyden
 gravura a água forte - 114 x 86 cm - 1520 (Rijksmuseum (Amsterdam, Netherlands))



Reconhecer o poder da natureza
A força, a mudança dos rumos 
Saber que devemos sempre observar e observar e observar
Se quando o rio enche é inverno

 - frios corações -

Se debaixo da capa encontra-se um braço-de-mar ou um homem que transpira de medo e angústia
a floresta de sequoia nos lembra que
Imperecíveis deveriam também ser os sentimentos nobres
as boas lembranças e o cheiro das estações

Rita Magnago
(Poema feito após a leitura das primeiras páginas)




"Logo no início da 2ª parte, quando os irmãos Caleb e Aron ainda são crianças, Adam, Sam Hamilton e Lee ... se juntam numa conversa sobre a bíblia. Lee então conta que resolveu pesquisar as versões existentes da bíblia e achou várias traduções que não batiam. Na versão do Rei James, no Genesis, onde Deus conversa com Caim, um versículo diz: “thou shalt rule over him” (como uma promessa, que ele iria dominar o pecado). Já na versão da bíblia americana comum, a frase é “do thou rule over it”, como se fosse uma ordem. Lee então foi procurar este versículo em hebraico, e percebeu que ambas traduções estavam equivocadas. A palavra encontrada em hebraico foi Timshel, que poderia traduzir a expressão como “thou mayest rule over it” (“Poderás”). Portanto, explica Lee, que Timshel significa uma escolha. Poderás OU não. É o que diferencia homens de bichos. Todo homem tem direito a uma escolha, o famoso livre-arbítrio." (Fonte)
...
“And you have your choices, 
and these are what make man great, 
his ladder to the stars”



Acredito que a mente humana possua uma técnica mediante a qual, no seu recesso obscuro, os problemas são examinados, rejeitados ou aceitos. Estas atividades às vezes revelam facetas que um homem desconhece possuir. Quantas vezes vamos dormir preocupados e cheios de dor, sem saber o que causou a aflição, e de manhã acordamos com uma nova direção e clareza, talvez resultante desse raciocínio sombrio. E outras vezes há em que acordamos com o êxtase fervilhando em nosso sangue, o estômago e o peito estão tensos e elétricos de júbilo, e nada em nosso pensamento justifica ou causa esse estado. (pág. 352)





Não existem perguntas feias exceto aquelas vestidas pela condescendência. Não sei por que ser um empregado possa ser uma desonra. É o refúgio de um filósofo, o alimento dos preguiçosos, e, adequadamente executada, é uma posição de poder, até mesmo de amor. Não posso entender por que pessoas mais inteligentes não a escolhem como carreira - aprendem a exercê-la bem e a colher seus benefícios... um bom empregado... pode controlar completamente seu patrão, dizer-lhe o que pensar, como se comportar... (pág. 178)



... Cathy também parecia felina. Tinha o atributo inumano de abandonar o que não conseguia obter e de esperar pelo que podia obter. Estes dois dons lhe davam grandes vantagens. Sua gravidez fora um acidente. Quando sua tentativa de aborto fracassou e o médico a ameaçou, ela desistiu daquele método, o que não quer dizer que tenha se reconciliado com a gravidez. Sentou-se e suportou-a como suportaria uma doença. Seu casamento com Adam fora a mesma coisa. Estava encurralada e escolhera a melhor saída. Não queria vir para a Califórnia também, mas outros planos lhe eram negados por enquanto. Ainda muito criança aprendera a vencer usando o ímpeto do oponente. Era fácil guiar a força de um homem até onde era impossível resistir-lhe. Pouquíssimas pessoas no mundo poderiam saber que Cathy não queria estar onde estava e na condição em que estava. Relaxou e esperou pela oportunidade que sabia que chegaria com o tempo. Cathy possuía aquela qualidade necessária a todo grande criminoso bem sucedido: não confiava em ninguém, não se abria com ninguém. Seu ego era uma ilha. É provável que sequer olhasse para a nova terra de Adam ou para a casa em construção, ou visse os planos imponentes dele se transformando em realidade, porque não tencionava morar ali depois que sua doença tivesse passado, depois que sua armadilha se abrisse. Mas às perguntas dele ela dava respostas adequadas; fazer o contrário seria movimento desperdiçado e energia dissipada, impróprios de um bom felino. (pág. 170-171)



Não era uma fazenda bonita nas proximidades da casa - nunca tinha sido. Havia detritos por ali, estava tudo arruinado, descuidado, fora de ordem; não havia flores, pedaços de papel e lascas de madeira espalhavam-se pelo chão. A casa também não era bonita. Era um barracão bem construído para servir de abrigo e cozinha. Era uma fazenda sinistra e uma casa sinistra, mal amada e sem amor para dar. Não era um lar, não era um lugar ao qual se ansiasse por voltar. Subitamente Adam pensou na madrasta - tão mal amada quanto a fazenda, adequada, limpa, à sua maneira, mas não mais esposa do que a fazenda era um lar.





O rumo de uma grande ação pode mudar a história, mas provavelmente todas as ações produzem o mesmo à sua maneira, desde uma pedra pisada no caminho até a visão de uma bela jovem ou de uma apara de unha no chão do jardim.






Quando dois acontecimentos têm algo em comum, em suas naturezas ou no tempo ou local, nós chegamos rapidamente à conclusão que são similares e, a partir desta tendência, criamos uma magia e a guardamos para contar de novo depois. 







Em torno das pequenas fogueiras onde borbulhava o ensopado comunitário circulava todo tipo de conversa e só os assuntos pessoais não eram mencionados. Adam ouviu falar do surgimento da Central Sindical dos Trabalhadores da Indústria com seus anjos irados. Escutou discussões filosóficas, sobre metafísica, estética e experiência impessoal. Seus companheiros da noite podiam ser um assassino, um padre destituído ou que largou a batina por escolha própria, um professor que deixou um bom emprego numa universidade enfadonha, um homem solitário perseguido pelas lembranças, um anjo caído e um diabo em treinamento, e cada um contribuía com nacos de pensamentos à fogueira assim como contribuía com cenouras, batatas, cebolas e carne para o ensopado. Aprendeu a técnica de fazer a barba com caco de vidro, a estudar uma casa antes de bater para pedir um prato de comida. Aprendeu a evitar ou lidar com policiais hostis e a julgar uma mulher pelo calor do seu coração.





 “O intervalo de tempo é uma questão estranha e contraditória na mente. Seria sensato supor que um tempo de rotina ou um tempo sem acontecimentos pareceria interminável. Deveria ser assim, mas não é. São os tempos monótonos e parados que não têm nenhuma duração. Um tempo salpicado de interesses, marcado pela tragédia, recheado de alegrias — este é o tempo que parece longo na memória. E é assim quando se pensa a respeito. A falta de acontecimentos não tem postes para marcar sua duração. De nada para nada não leva tempo algum.” 

"É basicamente inútil tentar definir em palavras o que é um clássico da literatura – assim como é impossível definir com exatidão o que é um romance. Mas pode-se falar em características. E uma das características que faz um clássico ser um clássico muitas vezes é a capacidade de tocar em temas universais, humanos, que valem para qualquer pessoa independente de época ou cultura.
E esse é o caso de A leste do Éden: a capacidade de falar de questões básicas da existência humana. Questões que fazem parte de todos e que mais cedo ou mais tarde no texto todos irão sentir que sabem do que determinado personagem está falando, ou o que está sentindo." (Fonte)




O pesadelo de ser humano


Tendo sido paga, e adiantadamente, ela se tornava uma mercadoria, e um homem tímido pode ser alegre ou até mesmo brutal com ela. Também, não há nada do horror da possível rejeição que mexe com as entranhas dos homens tímidos.

Eis a única técnica pela qual você consegue sobreviver: nunca se fazer notar, nunca falar a não ser que lhe dirijam a palavra, fazer o que se espera de você e nada mais, e não buscar nenhuma promoção. Tornar-se um soldado mais que raso. É muito mais fácil assim. Recolher-se ao fundo de cena até que mal o consigam ver. 

Algumas vezes você não sabe quem é bom e quem é ruim.


Eu amo mais você. Sempre amei. Pode ser uma coisa ruim de lhe dizer, mas é verdade. Amo você mais do que todos. Se não, por que me daria o trabalho de magoá-lo?




“Quando uma criança descobre pela primeira vez o que são realmente os adultos – quando entra pela primeira vez na sua cabecinha honesta que os adultos não possuem inteligência divina, que seus julgamentos nem sempre são sábios, nem seu pensamento sincero, nem suas frases justas – seu mundo cai num pânico desolador. Os deuses tombaram e toda a segurança se foi. E há algo de certo em relação à queda dos deuses: eles não caem um pouco; eles despencam e se despedaçam ou mergulham fundo no estrume verde. É um trabalho tedioso reconstruí-los; nunca chegam a brilhar mais. E o mundo da criança nunca mais é o mesmo. É uma espécie de crescimento doloroso.”
(John Steinbeck, em A Leste do Éden)

11 de novembro de 2019

ENSINAMENTOS DO IOGUE IYENGAR - por B. K. S. Iyengar





“Assim como um rio caudaloso, adequadamente dominado por represas e canais, cria um vasto reservatório de água, evita a fome e fornece energia abundante para a indústria, do mesmo modo, a mente, quando controlada, fornece um reservatório de paz e gera energia abundante para o enaltecimento da humanidade.”


“O iogue compreende as faltas dos outros, ao identificá-las e estudá-las primeiro em si mesmo. Esta auto-análise ensina-o a ser caridoso com todos.”
“A ignorância não tem um começo, mas tem um fim. Há um começo, mas não há fim para o conhecimento.”


“Quando as águas do amor fluírem através das turbinas da mente, o resultado será a força mental e a iluminação espiritual.”



“No verdadeiro amor não há lugar para o ‘eu’ e o ‘meu’. Quando o sentimento do ‘eu’ e do ‘meu’ desaparece, a alma individual atinge sua maturidade.”



“Não é só porque um homem é vegetariano que ele necessariamente deixa de ser violento por temperamento, ou se toma um iogue, embora a dieta vegetariana seja necessária à prática da ioga. Tiranos sanguinários podem ser vegetarianos, mas a violência é um estado de espírito, não uma questão de dieta. Reside na mente humana, e não no instrumento que o homem tem nas mãos. Pode-se usar uma faca para cortar uma fruta ou para matar um inimigo. A culpa não é do instrumento, mas de quem faz uso dele.”



“Há dois tipos de ira (krodha): uma que rebaixa a mente, ao passo que a outra leva ao crescimento espiritual. A raiz da primeira é o orgulho, que enfurece a pessoa quando preterida. Isso impede que a mente veja as coisas na proporção devida e toma o julgamento falho. O iogue, por outro lado, enfurece-se consigo mesmo quando sua mente se rebaixa ou quando todo o seu conhecimento e experiência não o impedem de agir insensatamente.”




(Texto extraído do livro “A Luz do Ioga” – B. K. S. Iyengar – Editora Cultrix.)


10 de novembro de 2019

Em Dezembro - Máquinas como eu: Ian McEwan






Nossas folhas tombam
Mas um dia voltarão
Vocês caem de vez




"Ler sobre o inferno público todos os dias é uma compulsão para muita gente, uma forma branda de doença mental."













Alan Mathison Turing foi um matemático, lógico, criptoanalista e cientista da computação britânico. Foi influente no desenvolvimento da ciência da computação e na formalização do conceito de algoritmo e computação com a máquina de Turing, desempenhando um papel importante na criação do computador moderno. Foi também pioneiro na inteligência artificial e na ciência da computação. É conhecido como o pai da computação.


Fonte











Fonte





A diferença entre o vivo e o não-vivo
(O que é vida? Schrödinger)

“Qual a característica particular da vida? Quando se pode dizer que uma porção de matéria está viva? Quando ela “faz alguma coisa”, como mover-se, trocar material com o meio etc., e isso por um período muito mais longo do que esperaríamos que uma porção de matéria inanimada o fizesse nas mesmas circunstâncias. Quando um sistema não-vivo é isolado ou colocado em um ambiente uniforme, usualmente todo o movimento cessa depressa, como resultado de vários tipo de fricção; diferenças de potencial químico ou elétrico são equalizadas, substâncias que tendem a formar compostos químicos o fazem e a temperatura se torna uniforme por condução térmica. Depois disso, todo o sistema míngua para um bloco inerte e morto de matéria. É atingido um estado permanente, no qual não ocorre nenhum evento observável. O físico dá a esse estado o nome de equilíbrio termodinâmico ou estado de “entropia máxima”.
Na prática, um estado desse tipo é atingido muito rapidamente. Na teoria, muito frequentemente não se trata de equilíbrio absoluto nem verdadeiramente de entropia máxima. Mas, a partir de então, a aproximação até o estado de equilíbrio é muito lenta. Pode-se levar qualquer coisa como horas, anos ou séculos...
(...)
É por evitar o rápido decaimento no estado inerte de “equilíbrio” que um organismo parece tão enigmático. Assim é que, desde os mais remotos tempos do pensamento humano, afirma-se que uma força especial não-física ou sobrenatural (vis vivs, enteléquia) opera no organismo, e, em alguns recantos, ainda se afirma isso.”pg 81-82 




O amor em seus olhos
Contém todo um universo. 
Ame o universo!


Gravidade quântica em loop

Beije o espaço em que ela
Andou daqui à janela.
Pegadas no tempo.

Fonte






9 de novembro de 2019

Ingrid Jonker, uma emocionante poetisa africana

Dia desses, uma grata surpresa: em um dos canais da TV por assinatura, assisti à "Borboleta negra", um filme sobre a vida de Ingrid Jonker, poetisa africana. Eu não a conhecia e fiquei realmente encantada com sua produção.

Na cena para mim mais marcante do filme, ela e seu amante estão seguindo de carro quando um bloqueio popular, uma manifestação pelo fim do apartheid, os impede. Os soldados, sem conseguir reprimir a multidão, começam a atirar e uma das balas mata  -como poderia ser diferente? -, uma inocente criança. Ingrid fez o poema abaixo, que anos depois foi lido por Nelson Mandela durante a abertura do primeiro parlamento democrático, em maio de 1994.

Seu fim foi trágico, como o de tantos talentosos artistas. Após ter sido internada em manicômios por duas vezes, ela se suicida atirando-se ao mar. Nunca conseguiu o reconhecimento do pai, um escritor direitista fdp que trabalhava para a censura. Ao saber de sua morte, ele declarou: "They can throw her back in the sea for all I care."




A criança não está morta!
Ela levanta os punhos junto à sua mãe.
Quem grita África ! brada o anseio da liberdade e da estepe,
dos corações entre cordões de isolamento.
A criança levanta os punhos junto ao seu pai.
Na marcha das gerações.
Quem grita África! brada o anseio da justiça e do sangue,
nas ruas, com o orgulho em prontidão para luta.
A criança não está morta!
Não em Langa, nem em Nyanga
Não em Orlando, nem em Sharpeville
Nem na delegacia de polícia em Filipos,
Onde jaz com uma bala no cérebro.
A criança é a sombra escura dos soldados
em prontidão com fuzis sarracenos e cassetetes
A criança está presente em todas as assembleias e tribunais
Surge aos pares, nas janelas das casas e nos corações das mães
Aquela criança, que só queria brincar sob o sol de Nyanga, está em toda parte!
Tornou-se um homem que marcha por toda a África
O filho crescido, um gigante que atravessa o mundo
Sem dar um só passo.
***

Em homenagem à Ingrid, fiz o poema abaixo:


Desmedida intensidade
adoeço no teu excesso
mas só por ele me escrevo
mais que isso: subscrevo-me
escavo, deixo à mostra
todos os buracos
que a hipocrisia não cobriu:
nunca, se me mato
ainda, se enlouqueço
já enlouqueci?

Mensagem ao CLIc: Rita Magnago


Caro Concièrge, 
 Que prazer ler segundo livro do CLIc! Como é bom ver que persiste o prazer da leitura, da discussão em torno da literatura. Mais ainda, como é bom ter registrados momentos artísticos de tantos membros do Clube inspirados a partir de leituras, de debates, da vida.

Meu agradecimento especial a você, que mesmo tendo diversas situações pessoais que ocupam seu tempo sempre consegue um jeitinho de dar atenção ao Clube, aos participantes, de incentivar e continuar o belo trabalho que Norma Lannes começou.
Meu agradecimento à Elô, que pegou firme essa tarefa de organizar o livro contigo, presenteando a todos nós com uma linda obra. E à Cintia, cujas mãos sentimos presente na delicadeza das páginas.
Foi tão gostoso poder reler Angela Elias; Benito Petraglia; Carlos Benites; Carlos Rosa; Ceci; Cristiana Seixas; Eduardo Leite; Elenir Teixeira; Eloísa Helena;  Emmanuel Paiva de Andrade; você, querido Evandro; Gracinda Rosa; Hélio Penna; Inês Drummond; Maria Marlie;  Neide Peixoto;  Novaes/; Rose Pinto; Sonia Salim; Vera Lúcia Freire; William Lial.


Como foi bom ver Elizabeth Almeida tão solta, tão à vontade com as palavras.


Como foi bacana conhecer as, para mim, novas escritas de Adriana; Cleir; Edmar; Everardo; Hilda; Maria Luiza; Mariney; Rita, minha xará; Riva.
Enfim, parabéns a todos os participantes!

Mesmo atualmente não podendo estar nas reuniões, sinto-me incluída, sinto-me cliceana. Meu coração de leitora e escritora pulsa pelas letras, pelas palavras, pelos homens e mulheres que as tornam belas em prosa ou poesia e nos deixam tantas questões a refletir.
Creio que assim nos reconstruímos mais humanos, mais sensíveis, mais afeitos ao entendimento, à aceitação da pluralidade de interpretações e de formas de ser. A literatura é tão inclusiva, tão abrangente, abre tanto a cabeça. Ah, como precisamos disso no Brasil, no mundo!
Abraço afetuoso,
Rita Magnago

7 de novembro de 2019

Ode a Um Rouxinol: John Keats

Leitura de referência - Shalimar, o equilibrista: Salman Rushdie
Debate: 11 de setembro de 2015 - 19:00 h
Livraria Icaraí - Icaraí - Niterói




Doi-me o coração, e um torpor letárgico

Fere meu sentido, como se tomasse cicuta,

Ou ingerisse até o fim algum ópio

Instantes atrás, e ao Letes me precipitasse.

Não que inveje teu alegre destino
Mas por ser feliz com tua alegria - 
Que tu, Dríade das leves asas,
Num lugar melodioso
De faias verdes, e sombras incontáveis,
Celebras a plena voz teu canto de verão.



II



Oh! Gole farto de vinho velho!

Fresco há muito no profundo coração da terra,

Com sabor da Flora e verdes prados,

Dança e canção Provençal, alegria queimada de sol!

Oh! taça plena do quente Sul
Cheia da vera e rubra Hipocrene
Com borbulhas qual contas piscando nas bordas,
Boca tinta de púrpura;
Se pudesse beber, e sumir deste mundo,
E contigo desvanecer na escura floresta.



III



Desvanecer, dissolver e deslembrar

O que tu entre as folhas jamais conheceste

O fastio, a febre, e o frêmito

Aqui, onde os homens sentam e se escutam gemer;

Onde a paralisia agita os últimos parcos cabelos brancos,
Onde os jovens empalidecem, e morrem qual espectros;
Onde apenas pensar causa a dor
E o desespero dos olhos plúmbeos,
Onde a Beleza não pode suster seus olhos brilhantes,
Nem um novo Amor definhar mais um dia.



IV



Longe, Longe! A ti voarei,

Não na carruagem de Baco e seus leopardos,

Mas nas invisíveis asas da Poesia

Embora o turvo cérebro retarde e confunda.

Já contigo! Suave é a noite,
E talvez a Rainha Lua esteja em seu trono
Cercada por suas Fadas estelares;
Mas aqui não há luz,
Senão aquela que do céu com as brisas sopra
Pelas glaucas trevas e sendas sinuosas de musgo.



V



Não vejo que flores estão a meus pés,

Nem qual suave incenso dos ramos exala,

Mas, na treva embalsamada, desvelo o aroma

Que cada mês regala

A relva, a coifa, as frutíferas árvores silvestres;
Branco pilriteiro e madresilva pastoral;
As violetas que cedo murcham veladas sob as folhas;
E a primeira filha dos meados de maio,
A rosa de almiscar, no vinho de orvalho imersa,
Murmúrea paragem de moscas das tardes de verão.



VI



No escuro escuto; por várias vezes

Que tenho sido seduzido pela suave morte,

Lhe dando ternos nomes em versos refletidos,

Para que pegasse no ar meu sutil alento;

Nunca como agora me parece tão boa a morte,
Findar a meia-noite sem nenhuma dor,
Enquanto tu em torno desvanesces a alma
Neste êxtase!
Ainda cantarias, e de nada valeriam meus ouvidos - 
A teu alto réquiem em terra transformado.



VII



Não nasceste para a morte, Ave imortal!

As gerações famintas não pisam em ti;

A voz que escuto esta noite foi ouvida

Pelo palhaço e o imperador nos tempos remotos.

Talvez a mesma melodia que encontrou lugar
No triste coração de Rute, quando, saudosa do lar,
Chorou entre o trigo estrangeiro;
A mesma que várias vezes encantou
As mágicas janelas, abertas sobre a espuma
Dos mares perigosos, nas encantadas terras perdidas.



VIII



Perdidas! Esta palavra é como um sino

Que, dobrando, me faz voltar a mim mesmo!

Adeus! A fantasia não pode tanto iludir

Como parece, ó elfo ludibriador.

Adeus! Adeus! Teu hino pungente se esvai
Além dos prados vizinhos, sobre o tranquilo riacho,
Subindo o monte; é agora profundamente enterrado
Nas clareiras do vale ao lado.
Foi esta uma visão ou sonhei desperto?
A música se foi: - Estarei dormindo ou acordado? 






ODE A UM ROUXINOL

 A “Ode a um rouxinol”, uma das prediletas no grupo das grandes odes, trata da felicidade que é o canto do rouxinol, das tristezas do mundo e da sedução da morte; todavia o canto da avezinha transcende a mortalidade e é tão belo que o poeta, no fim, indaga se não terá sonhado. Jorge Luis Borges toma a ode como “fonte de inesgotável poesia”. Além do rouxinol que havia na casa de Hampstead, conta-se que uma noite da primavera de 1819, Keats se encontrava com Severn e outros companheiros na “Spaniard’s Inn”, em Hanpstead Heath; Severn percebeu de repente que Keats se havia eclipsado e deu com ele, sob um grupo de pinheiros, a ouvir um rouxinol. Keats seguiu a inovação de Coleridge, que foi o primeiro, diz-se, a fazer do canto do rouxinol um canto de alegria. Dias antes de escrever a ode, Keats conversara com Coleridge, e na palestra entraram rouxinóis. A ode foi publicada nos Annals of Fine Arts em julho de 1819, contendendo-se sobre se foi escrita no início ou em meados de maio, se antes ou depois da “Ode sobre uma urna grega”.