CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

Fundado em 28 de Setembro de 1998

24 de setembro de 2016

Ingrid Jonker, uma emocionante poetisa africana

Dia desses, uma grata surpresa: em um dos canais da TV por assinatura, assisti à "Borboleta negra", um filme sobre a vida de Ingrid Jonker, poetisa africana. Eu não a conhecia e fiquei realmente encantada com sua produção.

Na cena para mim mais marcante do filme, ela e seu amante estão seguindo de carro quando um bloqueio popular, uma manifestação pelo fim do apartheid, os impede. Os soldados, sem conseguir reprimir a multidão, começam a atirar e uma das balas mata  -como poderia ser diferente? -, uma inocente criança. Ingrid fez o poema abaixo, que anos depois foi lido por Nelson Mandela durante a abertura do primeiro parlamento democrático, em maio de 1994.

Seu fim foi trágico, como o de tantos talentosos artistas. Após ter sido internada em manicômios por duas vezes, ela se suicida atirando-se ao mar. Nunca conseguiu o reconhecimento do pai, um escritor direitista fdp que trabalhava para a censura. Ao saber de sua morte, ele declarou: "They can throw her back in the sea for all I care."




A criança não está morta!
Ela levanta os punhos junto à sua mãe.
Quem grita África ! brada o anseio da liberdade e da estepe,
dos corações entre cordões de isolamento.
A criança levanta os punhos junto ao seu pai.
Na marcha das gerações.
Quem grita África! brada o anseio da justiça e do sangue,
nas ruas, com o orgulho em prontidão para luta.
A criança não está morta!
Não em Langa, nem em Nyanga
Não em Orlando, nem em Sharpeville
Nem na delegacia de polícia em Filipos,
Onde jaz com uma bala no cérebro.
A criança é a sombra escura dos soldados
em prontidão com fuzis sarracenos e cassetetes
A criança está presente em todas as assembleias e tribunais
Surge aos pares, nas janelas das casas e nos corações das mães
Aquela criança, que só queria brincar sob o sol de Nyanga, está em toda parte!
Tornou-se um homem que marcha por toda a África
O filho crescido, um gigante que atravessa o mundo
Sem dar um só passo.
***

Em homenagem à Ingrid, fiz o poema abaixo:


Desmedida intensidade
adoeço no teu excesso
mas só por ele me escrevo
mais que isso: subscrevo-me
escavo, deixo à mostra
todos os buracos
que a hipocrisia não cobriu:
nunca, se me mato
ainda, se enlouqueço
já enlouqueci?

22 de setembro de 2016

O deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati - livro e filme

Olá queridos!
Segue o post que fiz no meu blog Mar de Variedade
Esse foi o livro do mês do Clube de Leitura Icaraí. A discussão foi nessa quinta, dia 22.
Eu gostei do livro, que é muito bem escrito.

Sinopse da Livraria cultura: "Ao alcançar o posto de tenente, o jovem Giovanni Drogo é designado para o Forte Bastiani, o que crê ser a primeira etapa de uma carreira gloriosa. A má impressão que tem ao chegar ao isolado forte o abala. A espera pelo inimigo, que justifica a permanência do comando militar na região, transforma-se na espera por uma razão de viver, na renúncia da juventude e na mistura de fantasia e realidade. Militares apáticos veem aos poucos seus sonhos serem minados numa rotina angustiante e alimentam a ilusão ou o temor de que um dia a batalha de suas vidas aconteça, quando os inimigos finalmente surgirem do deserto."


Como falei anteriormente, é um livro muito bem escrito, que narra a trajetória de Giovanni Drogo e sua carreira militar. 
Ao ser designado para o Forte Bastiani, Drogo fica feliz, acreditando que irá para um lugar de destaque e que participará de batalhas importantes.
Lá chegando, descobre o quanto aquele lugar é deserto e sem qualquer perspectiva de batalhas futuras.
Ele, então, tenta sair do Forte e é aconselhado a ficar por quatro meses. Posteriormente, resolve ficar por um tempo, mas descobre o quanto é  difícil conseguir a remoção para a cidade. 

"Drogo decidiu permanecer, retido por um desejo, mas não apenas por isso: o pensamento heroico talvez não fosse suficiente para tanto. Por ora ele acredita ter feito algo nobre, e de boa-fé se orgulha disso, descobrindo-se melhor do que supunha. Só muitos meses mais tarde, olhando para trás, reconhecerá as míseras coisas que o ligam ao forte." (p. 56)

Volta à cidade para visitar a mãe, os irmãos e uma amiga, de quem gostava, mas descobre que mudou como pessoa, assim como aqueles com quem convivia. Não vou contar mais do que isso, para não dar spoiler. Várias pessoas no clube comentaram o quanto foi impactante esta parte, já que o próprio Drogo havia mudado e não conseguia ter o mesmo sentimento pelas pessoas de antes. 
O livro consegue captar bem o estilo de vida no forte: um lugar deserto, sem vida, sem emoção. E mostra que as pessoas que ali vivem acabam incorporando as características daquele lugar. Elas veem o tempo passar à espera de que algo surpreendente aconteça para justificar aquela vida monótona.
Um colega do clube falou das metáforas que são utilizadas para falar da vida cotidiana em geral. 
É um livro um pouco melancólico e que nos faz refletir.
Boa leitura!

O filme (comprei da coleção da Folha de São Paulo), dirigido por Valerio Zurlini, é menos detalhado, mas também consegue passar um pouco dessa mudança de comportamento dos militares que vivem ali no Forte e dessa espera sem fim.



Nesse filme da Folha contém um catálogo com algumas explicações sobre a obra de Dino Buzzati: "Em uma entrevista, Buzzati afirmou ter-se inspirado 'na monotonia do trabalho que exercia na redação do 'Corriere' para escrever o romance'. (...)"
Portanto, pela inspiração do autor, podemos entender um pouco mais de sua obra. 


Boa sessão!

21 de setembro de 2016

A Cabanagem - O levante.


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A Cabanagem foi o movimento popular mais violento que eclodiu no período regencial (1831-1840). A revolta começou na madrugada do dia 7 de janeiro de 1835, conforme o Dicionário Brasileiro das Batalhas, com a tomada do quartel de artilharia e do palácio de governo do Grão-Pará, na então cidade de Santa Maria de Belém, capital da província. A adesão ao Império do Brasil, em agosto de 1823, fora muito traumática, de modo que a animosidade contra o governo continuou a afluir por todo estuário do Amazonas, em cada ponto da província.
A elite paraense queixava-se de não participar das decisões locais e do abandono que fora relegado o Grão-Pará pelo Rio de Janeiro. Já a população pobre, constituída de índios, negros (escravos e libertos) e mestiços - os cabanos - clamava por melhores condições de vida, devido a extrema miséria em que vivia às margens dos rios, ilhas e igarapés em pequenas cabanas de palha. É nesse quadro que Bernardo Lobo de Souza é nomeado presidente da província, em dezembro de 1833.
O ano de 1834 seria marcado por hostilidades entre o governo e os cabanos. Tais hostilidades chegam às margens da intolerância, quando Lobo de Souza, com seu temperamento autoritário e explosivo, instaura a perseguição e manda prender as lideranças cabanas. A maior autoridade entre os cabanos, desde a adesão do Grão-Pará ao Brasil, era o cônego Batista Campos. Para não ser preso, o cônego se refugia na fazenda de Félix Clemente Malcher, de onde passa a planejar a tomada do poder junto aos demais líderes. O fazendeiro e dono de engenho Clemente Malcher fora aprisionado.  
O cônego Batista Campos, entretanto, veio a falecer no dia 31 de janeiro de 1834, dias antes da eclosão do levante, devido a uma infecção causada por um corte no rosto ao barbear-se com uma navalha. As forças do governo ainda comemoravam a sua morte, quando tropas cabanos e da guarda municipal, comandadas por Antônio Vinagre, iniciam o levante. O presidente Lobo de Souza e o Comandante das Armas, tenente-coronel Joaquim José da Silva Santiago, são brutalmente assinados e seus corpos profanados, depois de arrastados para frente do palácio do governo.
A barbárie toma conta de Belém: os cabanos executam os oficiais e soldados que resistiam ao levante, apoderando-se das armas e munições. Não obstante a libertação de Clemente Malcher e sua elevação a presidente da província, os cabanos marcham em caçadas sangrentas aos portugueses e àqueles que julgavam não “patriotas”. Muitos prédios comerciais e residenciais são invadidos e saqueados, e as mais terríveis e repugnáveis atrocidades executadas.
De temperamento rude, Malcher não consegue controlar a desordem. Também não demora entrar em conflito com o Comandante das Armas, Francisco Pedro Vinagre. Então, ao acusar e mandar prender o jovem líder cabano Eduardo Angelim “por conspirar contra o governo”, Malcher acaba por sucumbir às tropas de Francisco Vinagre, após intensa batalha que dura todo o dia 19 de fevereiro. Já no dia 20, Malcher é covardemente assassinado a caminho da prisão, enquanto Francisco Vinagre assume o governo.
Em junho de 1835, após longa pressão do clero paraense, Francisco Vinagre acaba por renunciar a favor de Manuel Jorge Rodrigues, indicado pela Regência para presidente e Comandante das Armas. No entanto, Manoel Rodrigues não consegue pacificar a província, como também deixa de cumprir o acordo de anistia, mandando prender Francisco Vinagre. No dia 14 de agosto, após nove dias de combate, os cabanos retomam Belém, sob o comando de Eduardo Angelim e de Antônio Vinagre, este último morre em combate.
Os cabanos assumem novamente o governo do Grão-Pará, mas muito sangue ainda seria derramado, pois o conflito só termina em 1840, cinco anos depois.
NOTA: Continua com o artigo “Da pacificação ao extermínio”.
Visite nosso blog: 

Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior

19 de setembro de 2016

Em Novembro, no CLIc - Quarto de despejo: Carolina Maria de Jesus


Morro da favela









O povo brasileiro só é feliz quando está dormindo





Muito bem, Carolina!




Eu ouvi dizer que o General Teixeira Lot não vai enviar tropas para o Oriente Medio. Se for assim creio que devemos considerar e venerar nosso general que já demonstrou seu desvelo pelo povo e o paíz.

Amarelo é a cor da fome

a voz dos que não têm a palavra


Carolina Maria de Jesus - foto: Arquivo Audálio Dantas

A Bíblia não manda ninguém casar.

Manda crescer e multiplicar.





18 de setembro de 2016

Shalimar, o equilibrista: Salman Rushdie







Atenção fãs do realismo mágico!


Clube de Leitura Icaraí se reúne nessa sexta-feira, dia 11, para debater a leitura de "Shalimar, o equilibrista", do autor Salman Rushdie, cujo estilo narrativo mescla fantasia com vida real.

Contém nessa história elementos como amor e vingança, além de todos os ingredientes dos grandes épicos: guerras, revoluções, heroísmo, assassinatos, tabus violados, destinos interrompidos e grandes deslocamentos no espaço ao longo de sessenta anos de história do século XX. 

Gostou? Então vem! Nas 2ªs Sextas Feiras mensais, às 19h, na Livraria Icaraí.






"Shalimar, O Equilibrista é uma obra de ficção de Salman Rushdie publicada em 2005 e que conta a história do personagem Shalimar, da infância à morte, da sua carreira como artista a assassino profissional, tendo em foco quatro personagens fundamentais: Índia/Caxemira, Boonyi, Max, e o próprio Shalimar. O livro não segue a ordem cronológica dos eventos e inicia-se com um misterioso assassinato que se desvenda ao longo do romance.

O lançamento mundial do livro teve como principal evento a Festa Literária Internacional de Paraty, no Brasil, em 2005, com a presença do autor."



ENTREVISTA DE SALMAN RUSHDIE À FOLHA


Folha - Quanto do sr. há em "Shalimar, o Equilibrista"?

Salman Rushdie
 - Não há um personagem que fale pelo autor. Meu objetivo foi criá-los como seres empenhados em suas próprias histórias. A maneira como os personagens do livro evoluem não tem nada a ver com uma vontade de expor meu ponto de vista sobre o mundo. Flaubert disse: "Madame Bovary, c'est moi", mas é claro que é mentira. Madame Bovary não é Flaubert. A verdade é que você deve estar em cada frase do seu livro. Há algo com que devemos lidar mais do que nunca agora, que é o fato de que nossas vidas não são mais vidas privadas. Quando Jane Austen escrevia, ela ignorava as guerras napoleônicas. Podia contar a história de seus personagens sem se referir à esfera pública, pois esta não interferia na vida dos seus personagens. Só que hoje não vivemos mais assim.

Folha - Hoje um escritor pode ignorar a situação mundial?

Rushdie
 - Não quero ditar regras, mas é difícil para mim. Para explicar a vida das pessoas, você precisa levar em conta o mundo em que elas vivem e o efeito direto que esse mundo causa nelas.

Folha - Como no exemplo da Caxemira, que está no livro.

Rushdie
 - Sim, a vida de Shalimar foi destruída por dentro, pela traição de sua mulher mas também por fora, pelas forças da história. A maneira como costumávamos acreditar no destino dos personagens não existe mais, agora é o destino que faz os personagens. É preciso trabalhar com esse duplo sentido para escrever. Uma boa questão é se somos os mestres ou as vítimas do nosso tempo. Nós comandamos nossas vidas ou não temos chances?

Folha - E o que o sr. acha?

Rushdie
 - As duas coisas. Às vezes, nós podemos comandá-la, noutras não. Por exemplo, esse concerto de rock que houve no fim de semana, o Live 8, foi uma tentativa de um grande número de pessoas de causar algum impacto transformador. Pode-se dizer que é simplista, mas pode funcionar. Mas é claro que, se você estiver num arranha-céu e um avião bater nele, não importará se você viveu sua vida bem ou mal. Nós vivemos num mundo muito estranho, e as conseqüências para a literatura são muito profundas.

Folha - Por quê?

Rushdie
 - Porque uma das grandes perguntas para um escritor é: como se diz a verdade sobre o mundo? De acordo com o nível do seu talento, a profundidade da sua visão, ou das limitações que todos nós temos. De outro modo, você não dirá a verdade.

Folha - Os americanos sabem o quanto o que acontece na Caxemira afeta a vida deles?

Rushdie
 - Acredito que o 11 de Setembro tenha sido um alerta. Mostrou que o mundo não está mais separado. Os americanos sentiram na pele as conseqüências de um mundo que encolheu.

Folha - Há uma grande importância em relação a nomes e identidades em seu livro.

Rushdie
 - Acho que a questão da identidade é central. Ninguém no livro gosta do nome que tem, exceto Max [o embaixador na Índia].

Folha - Max falsificava identidades quando estava na Resistência francesa.

Rushdie
 - Exato. Ele é o único que sabe quem é. O livro é sobre pessoas que não sabem quem são. No caso de India [filha de Max], há uma boa razão para isso. Durante toda a sua vida lhe mentiram, inclusive sobre seu nome.

Folha - Por que Max compara a situação na Alsácia, nos anos 30/40, ocupada por França e Alemanha, com a da Caxemira, disputada por Paquistão e Índia?

Rushdie
 - O interessante na região da Alsácia é a questão das fronteiras cambiantes. No livro, que é sobre a Índia, sobre a Caxemira, essa questão está em primeiro plano. Foi uma maneira de unir as pontas do mundo. Na França, durante o jugo nazista, há a Resistência, que é a reação militar à ocupação. Na Caxemira, há a resistência ao poder ocupante, e essa reação pode não ser necessariamente terrorismo --depende de que parte do mundo falamos. Temos aqui uma forma muito similar de ação, tomada em diferentes circunstâncias. O julgamento que fazemos desses momentos é diferente.

Folha - O destino da Caxemira é há muito tempo decidido por forças externas.

Rushdie
 - Sim, acho que essa é a grande tragédia da Caxemira. Os caxemirenses querem que os deixem em paz. Há o Exército indiano e há os grupos patrocinados pelo Paquistão. Ambos destruíram a Caxemira de diversas maneiras. A intelligentsia indiana não tinha idéia do quão grande era o ressentimento na Caxemira. Mas não era preciso ser profeta para ver a insurgência, bastava ter olhos. Quando chamei a atenção para o problema, me chamaram de "muçulmano comunista".

Folha - E além disso há os grupos terroristas...

Rushdie
 - Veja, o islã na Caxemira sempre foi místico, gentil e aberto, não como o dos jihadistas. Não havia segregação sexual. Havia uma grande mistura religiosa. Mas então vieram os grupos extremistas, que tentaram impor à Caxemira uma idéia de islã estranha a ela. A violência funcionou, e hoje na Caxemira se vêem mulheres cobertas, o que é anticaxemirenses. Sempre me senti mal sobre isso, porque minha família é de lá, passava férias lá quando criança. Para todos na Índia, a Caxemira é o espaço encantado da infância. E foi destruído, obrigando-nos a viver num mundo sem sonho. Meu livro é um pouco sobre como viver num mundo no qual seus sonhos são destruídos.

Folha - E, para Max, os sonhos acabaram na Europa. Ele é nostálgico. O sr. também parece saudoso dos velhos valores.

Rushdie
 - Não diria "velhos valores". Diria "valores", sem os quais é muito difícil viver, num mundo desenraizado. Sou saudoso de um mundo menos desenraizado. Há uma ausência de sutileza. O desenraizamento está barateando a vida humana. Mata-se por nada.

Folha - Qual é o papel da religião nisso?

Rushdie
 - É absolutamente catastrófico, quer seja o jihadismo ou o fundamentalismo cristão, ou os hindus fanáticos.

Folha - O sr. é religioso?

Rushdie
 - Não. Não. Não me considero religioso [risos]. Mas, quando você começa a escrever sobre humanos, passa a acreditar que haja algo sobre nós que não é apenas carne e ossos. Há coisas que não podemos explicar para nós mesmos. No entanto, se você não acredita na existência da alma, é muito difícil escrever sobre isso, porque faltam palavras.

Folha - O sr. acompanha a política brasileira?

Rushdie
 - Leio os jornais. Mas não me pergunte nada [risos].



Encontro Marcado


O amor nunca vem de onde a gente está olhando!


Os guerreiros do LeP não conseguiam tirar os olhos das mulheres que estavam se despindo devagar, sedutoramente, mexendo os corpos com ritmo, de olhos fechados. "Deus me ajude", gemeu em árabe um dos guerreiros estrangeiros do LeP, se retorcendo em cima do cavalo. "Essas diabas de olhos azuis estão roubando minha alma". O maníaco homicida de quinze anos apontou o Kalashnikov para Firdaus Noman. "Se eu matar você agora", disse, perverso, "nenhum homem em todo o mundo muçulmano vai dizer que não tenho razão." Nesse momento, um buraquinho vermelho apareceu na testa dele e a parte de trás de sua cabeça explodiu... Os militantes do LeP foram cercados e superados em número e em poucos minutos estavam também mortos. Firdaus Noman e as outras mulheres vestiram as roupas de novo. Firdaus falou, triste, para o corpo de quinze anos do comandante Lashkar. "Você descobriu que as mulheres são perigosas, meu filho", disse ela. "Azar seu não ter tido a chance de crescer para virar homem e descobrir que também somos boas para amar."


COMO PODE O ROSTO DE UMA MULHER
 SER O INIMIGO DO ISLÃ?










Terpsícore

Marina Orlova em El Pueblo de Nuestra Señora la Reina de los Angeles de Porziúncola


Na raiz da religião está o desejo de esmagar o infiel. Esta é a força fundamental. Quando o infiel tiver sido esmagado, poderá haver tempo para o amor, embora isso seja de importância secundária. A religião exige austeridade e auto-renúncia. Ela não tem tempo para as branduras do prazer ou para as fraquezas do amor. Deus deve ser amado, mas com um amor masculino, um amor de ação, não uma aflição feminil do coração. Deve-se estar sempre pronto para uma guerra.


Ele ainda é jovem a ponto de ter a ideia de que pode mudar a História, enquanto eu estou me acostumando com a ideia de ser inútil, e um homem que se sente inútil para de se sentir um homem. Então, se ele está inflamado com a possibilidade de ser útil, não vamos apagar essa chama.


Mercader
Udham Singh
... nesse solo oculto estão sendo plantadas as sementes do futuro e o tempo do mundo invisível chegará, o tempo da dialética alterada, o tempo da dialética na clandestinidade, quando anônimos exércitos espectrais lutarão em segredo pelo destino da Terra. Um bom homem nunca é descartado por muito tempo. Sempre se encontra um uso para um homem desses. Max invisível terá um novo uso. Ele será um dos forjadores dessa nova era também, até a velhice finalmente baixar a cortina e a Morte vir bater à sua porta na forma de um belo homem, um Mercader, um Udham Singh, a Morte, em nome da mulher que um dia ambos amaram, lhe pedindo trabalho.



Ela o tinha perdido durante tanto tempo que temia nunca mais consegui-lo de volta. Mas ali estava ele, virando-se para olhar para ela de novo. Era isso que os dois tinham, disse ela a si mesmo, essa inevitabilidade. Eram construídos para durar. Levantou o copo para ele e um sorriso tremulou nos cantos de sua boca. Sou a mulher mais iludida do mundo, pensou. Mas olhe para ele, está aqui. Meu homem.





O que é convencional quando se olha de fato as coisas? Levante a tampa de qualquer vida e ela é estranha, borbulhante; por trás de toda porta doméstica sossegada o idiossincrático e o estranho estão à espreita. Normalidade, esse é que é o mito. Os seres humanos não são normais.      


Suponhamos que fosse eu naquela foto, Max pensou, de repente. Suponhamos que todos aqueles ataques verbais fossem sinais invertidos de amor, pedidos em código para que eu fizesse o que ela sozinha não podia fazer: que a arrancasse do seu casamento e a arrebatasse para algum impossível Éden do tempo de guerra. Tentou afastar essas especulações, que era apenas uma forma de vaidade, ralhou consigo mesmo. Mas a possibilidade de um amor mal compreendido continuou a mordê-lo por dentro. Blandine, Blandine, ele pensava. Os homens são tolos. Não é de admirar que a deixássemos tão louca. Nesta tarde, no arquivo, quando descobriu o destino de Suzette Trautmann, prometeu a si mesmo que se uma mulher um dia lhe enviasse esses sinais de novo, se uma mulher um dia tentasse dizer por favor, vamos sair daqui, por favor, por favor, vamos fugir e ficar juntos para sempre e para o inferno a danação de nossas almas, por favor, ele não deixaria de decifrar o código secreto.






Rumpelstiltskin




Existem grandes infiéis que negam Deus e seu profeta, e depois existem os pequenos infiéis como você, um cuja barriga o calor da fé há muito esfriou, que toma tolerância por virtude e harmonia por paz.

A natureza do poder dominador é tal que o homem poderoso não precisa aludir a seu poder. A realidade dele está presente na consciência de todo mundo. Assim, o poder faz seu trabalho em segredo e os poderosos podem subsequentemente negar que sua força jamais foi usada.


Fidayeen

Ele era apenas um clown e seu amor não levava a lugar nenhum, não mudaria nada, não podia me levar onde estava meu destino.


Não me peça o meu coração, porque estou arrancando o coração do meu peito, quebrando em pedacinhos e jogando fora, de forma que não terei coração, mas você não vai saber disso porque serei a contrafação perfeita de uma mulher apaixonada e você vai receber de mim a falsificação perfeita de amor.


Havia, então, duas cláusulas não expressas no Entendimento, uma relativa a dar amor, outra relativa a reter o amor, codicilos mutuamente contrastantes e impossíveis de conciliar. O resultado, como Max previra, foram problemas; o maior rebuliço diplomático indo-americano da História. Mas durante algum tempo o mestre falsificador foi enganado pela falsificação que comprou, enganado e satisfeito, tão contente de possuí-la  quanto um colecionador que descobre uma obra prima escondida num monte de lixo, tão feliz de mantê-la escondida das vistas quanto um colecionador que não consegue resistir a comprar o que sabe ser propriedade roubada. E foi assim que a esposa infiel da aldeia do bhand pather começou a influenciar, a complicar e até a moldar a atividade diplomática referente à incômoda questão da Caxemira.





Pensou em Shalimar, o equilibrista, e mais uma vez ficou horrorizada com a facilidade com que o abandonara. Quando deixou Pachigam, nenhuma das pessoas mais próximas adivinhou o que estava fazendo, os bobos. Ninguém tentou salvá-la de si mesma, e como poderia perdoá-los por isso? Que idiotas eram eles todos! Seu marido, o super idiota número um, e seu pai, o super idiota número dois, e todo mundo logo atrás. Mesmo depois de Himal e Gonwati voltarem a Pachigam sem ela e começar o falatório, mesmo então, Shalimar, o equilibrista, lhe mandava cartas confiantes, cartas assombradas pelo fantasma de seu amor assassinado. 'Estendo os braços e toco você sem tocar você como na margem do rio antigamente. Sei que está em busca de seu sonho, mas esse sonho vai sempre te trazer de volta pra mim. Se o amrikan está ajudando, muito bem. As pessoas sempre dizem mentiras, mas sei que seu coração é verdadeiro. Sento com as mãos no colo e espero sua volta.' Ela ficava transpirando na cama, presa nas correntes da solidão escravizante e rasgava as cartas em pedaços cada vez menores. Eram cartas que humilhavam tanto o autor quanto o receptor, cartas que não tinham de existir, que nunca deveriam ter sido mandadas. Essas ideias não deviam nunca existir, e não existiriam, não fosse a mente débil daquele homem sem honra que tivera a vergonha de desposar.












Os animais não têm opção senão serem o que são 100% do tempo. Eles não conhecem nem moldam a própria natureza, mas sim, a natureza que conhece e os molda. Não existem surpresas no reino animal. Só o caráter do Homem é suspeito e cambiante. Só o Homem, conhecendo o bem, pode fazer o mal. Só o Homem usa máscaras. Só o Homem decepciona a si mesmo.


Abdullah começou a ver lampejos de um outro Bombur, alguém melhor por baixo da superfície inchada e vaidosa que Yambarzal infelizmente apresentava ao mundo: um homem solitário, para quem a culinária era a única paixão da vida, que a encarava com um fervor quase religioso e que ficava, portanto, constante e ferozmente decepcionado com a facilidade com que seus semelhantes humanos se afastavam das extáticas devoções das artes gastronômicas por conta de distrações tão mesquinhas quanto vida familiar, cansaço ou amor. "Se você não fosse tão duro consigo mesmo", Abdullah disse uma vez a Bombur, "talvez pudesse ser mais brando com os outros e se apresentar melhor." Bombur arrepiou-se. "Não estou no jogo da felicidade", disse, duro. "Estou no negócio de banquetes". Era uma declaração que revelava o traço monomaníaco da personalidade do waza. 


Catacumbas da Cidade Reptiliana Assombradas

Los Angeles, apesar de pouco perceber na agitação da vida moderna, está acima de uma cidade perdida de catacumbas cheias de tesouro incalculável e registos imperecíveis de uma raça de seres humanos mais avançada intelectualmente e cientificamente, mesmo sob os atuais povos de hoje.




O único jeito sensato de amar é amar condicionalmente.









"Todos os temas recorrentes na obra de Salman Rushdie concorrem na trama de seu nono romance e se combinam para fazer de Shalimar, o equilibrista a narrativa mais impactante do autor de Os filhos da meia-noiteHaroun e o Mar de Histórias e O último suspiro do mouro. É uma história de amor e vingança, com todos os ingredientes dos grandes épicos: guerras, revoluções, atos heróicos, assassinatos, tabus violados, destinos interrompidos e grandes deslocamentos no espaço, ao longo de sessenta anos de história do século XX.

No cenário das questões políticas mais nevrálgicas da história contemporânea, Rushdie constrói um enredo em que a paixão súbita e proibida de um embaixador americano por uma dançarina belíssima de etnia hindu, habitante da Caxemira, desencadeia uma série de acontecimentos que apontará para os vínculos complexos entre Ocidente e Oriente nos dias de hoje.

Com avanços e recuos no andamento narrativo, Rushdie conduz as histórias dos personagens em vias paralelas, mas as entrecruza magistralmente à medida que a obra avança. Os pontos de contato entre a história da Índia, a política dos Estados Unidos durante a Guerra Fria e a formação dos grupos extremistas islâmicos depois da queda da ex-União Soviética vão se tornando cada vez mais estreitos, relacionando-se às histórias ficcionais de Max Ophuls, Boonyi Kaul e Shalimar, o equilibrista. No romance, as esferas da ficção, da história, do mito e da política se confundem e ganham estatuto artístico excepcional. 


A função de Shalimar, o equilibrista, é tentar desvendar o sentido da desarmonia que transformou sua vida em escombros. Para isso, durante sua representação - que outros chamariam vida -, terá de elevar-se por cima da copa de uma árvore em chamas e equilibrar-se numa corda feita de ar."




Nunca confie em homens que têm muita facilidade com as palavras.


17 de setembro de 2016

Clube jovem - O fantasma da ópera: Gaston Leroux

"Receio que apenas um espectador e um outro ouvinte privilegiado, dentro de um remoto ponto de observação - quem sabe uma outra bolha? E a contemplar uma cena tão ofuscantemente bela que faria palpitar o coração entediado do próprio 'Fantasma da Ópera'". (A tragédia brasileira - Sérgio Sant'Anna - livro do mês de Outubro de 2016 no CLIc)

O fantasma e os jovens da ópera

Terrível fantasma ou anjo da música?

O fantasma da ópera é um romance francês, considerado por muitos uma obra gótica, por combinar romance, horror, ficção, mistério e tragédia.


A única pessoa que não se intimida com essa misteriosa presença é a jovem e inexperiente bailarina Christine Daaé, que, acreditando ser guiada por um "Anjo da Música", executa sua performance no espetáculo com perfeição.




A novela foi publicada pela primeira vez como uma série e em forma de volumes, em abril de 1910, por Pierre Lafitte (capa original ao lado).



Hoje em dia possui várias adaptações para o teatro e o cinema, inclusive um espetáculo na Broadway, que bateu recorde de permanência em cartaz superando Cats.



Foi inúmeras vezes traduzida para o português do Brasil, sendo que as versões mais difundidas são das editoras Ediouro e Ática. A preferência por essas versões deve-se à maior fidelidade à história originalmente criada por Gaston Leroux.


O camarote do Fantasma

A ação desenvolve-se no século XIX, em Paris, na Ópera de Paris, um monumental e luxuoso edifício, construído entre 1857 e 1874, sobre um enorme lençol de água subterrâneo. A ópera se encontra assombrada por um misterioso fantasma, que causa uma variedade de acidentes. O Fantasma chantageia os dois administradores da Ópera, exigindo que continuem lhe pagando um salário de 20 mil francos mensais e que lhe reservem o camarote número cinco em todas as atuações. 





Contexto histórico - 1870: Paris é cercada pelos alemães

Em 19 de setembro de 1870, o cerco das tropas alemãs a Paris marcou o início do fim da guerra de Bismarck contra Napoleão 3º.
Após a guerra teuto-francesa,
Bismarck governou a Prússia de 1871 a 1890

O fato que conduziu diretamente ao irrompimento da Guerra Franco-Prussiana de 1870 foi a candidatura do príncipe Leopoldo von Hohenzollern-Sigmaringen, um parente distante do rei prussiano Guilherme 1º, ao trono espanhol, que havia ficado vago após a revolução de 1868.

Embora sem o consentimento de Guilherme 1º, o então chefe de governo da Prússia, Otto von Bismarck, convenceu Leopoldo de que o trono espanhol deveria ser ocupado por alguém da dinastia Hohenzollern. Já a França, governada por Napoleão 3º, sobrinho de Napoleão Bonaparte, foi contra, por temer um desequilíbrio de poder na Europa em favor dos alemães.

Num gesto extremo, Paris ameaçou a Prússia com guerra, caso não retirasse o apoio ao candidato ao trono espanhol. A pressão de Guilherme 1º cresceu, a ponto de Leopoldo desistir oficialmente. Mas Napoleão 3º, que pretendia ver a Prússia humilhada, exigiu do soberano alemão um pedido oficial de desculpas e, acima de tudo, a garantia de que também no futuro a dinastia Hohenzollern não ambicionaria o trono espanhol.

Esta exigência foi manipulada por Bismarck para ser entendida como um ultimato da França. Ele não só acreditava que seu país estivesse preparado para um conflito armado; apostava, também, no efeito psicológico que uma declaração de guerra contra a Prússia teria nos países vizinhos. Contando com a solidariedade dos países de idioma alemão, estaria praticamente atingida a meta da unificação. (Fonte: Wikipedia)


Lago Averno, próximo à Morada do Lago recentemente descoberta

Comuna de Paris foi o primeiro governo operário da história, fundado em 1871 na capital francesa por ocasião da resistência popular ante a invasão por parte do Reino da Prússia.
A história moderna registra algumas experiências de regimes comunais, impostos como afirmação revolucionária da autonomia da cidade. A mais importante delas — a Comuna de Paris — veio no bojo da insurreição popular de 18 de março de 1871. Durante a guerra franco-prussiana, as províncias francesas elegeram para a Assembleia Nacional Francesa uma maioria de deputados monarquistas francamente favorável à capitulação ante a Prússia. A população de Paris, no entanto, opunha-se a essa política. Louis Adolphe Thiers, elevado à chefia do gabinete conservador, tentou esmagar os insurretos. Estes, porém, com o apoio da Guarda Nacional, derrotaram as forças legalistas, obrigando os membros do governo a abandonar precipitadamente Paris, onde o comitê central da Guarda Nacional passou a exercer sua autoridade. A Comuna de Paris — considerada a primeira república proletária da história — adotou uma política de caráter socialista, baseada nos princípios da Primeira Internacional dos Trabalhadores.
Barricadas erguidas pelos
communards em frente à 
Igreja da Madalena
O poder comunal manteve-se durante cerca de quarenta dias. Seu esmagamento revestiu-se de extrema crueldade. De acordo com a enciclopédia Barsa, mais de 20 000 communards foram executados pelas forças de Thiers.
O governo durou oficialmente de 26 de março a 28 de maio, enfrentando não só o invasor alemão como também tropas francesas, pois a Comuna era um movimento de revolta ante o armistício assinado pelo governo nacional (transferido para Versalhes) após a derrota na guerra franco-prussiana. Os alemães tiveram ainda que libertar militares franceses feitos prisioneiros de guerra para auxiliar na tomada de Paris. (Fonte: Wikipedia)








Assim, os mais inocentes, surpreendidos na paz de seu coração, parecem de repente, devido ao golpe que os atinge levando-os a empalidecer, ou a corar, ou a titubear, ou a se levantar, ou a se prosternar, ou a calar quando se deveria falar, ou a falar quando se deveria calar, ou a demonstrar calma quando se deveria demonstrar agitação, ou a demonstrar agitação quando se deveria demonstrar calma, parecem de repente, dizia eu, culpados.




Todos aprenderam a gostar dela, pois ela se interessava pelas aflições e pelas manias de cada um. Sabia de recantos desconhecidos habitados secretamente por velhos casais.




Esta noite ela permanece com o anel de ouro, e não foi você quem o deu para ela. Esta noite ela entregou outra vez a alma, e não foi para você.





Cada vez que eles não obedeciam aos desejos do fantasma, logo algum acontecimento fantasioso ou funesto se incumbia de lhes restituir o sentimento de subordinação. 


Polyeucte de Gounod

Somente a música e o amor são imortais!



Que aterrorizante segredo esconde-se nos subterrâneos da Ópera de Paris? Que mistério atormenta um dos mais majestosos palácios dedicados à arte na capital francesa? 'O Fantasma da Ópera' narra o triângulo amoroso entre a linda e talentosa cantora lírica Christine Daaé, o frágil e apaixonado visconde Raoul de Chagny e o sinistro e obcecado gênio da música que habita os porões do teatro.





Um homem deformado se esconde num teatro e se apaixona por uma jovem atriz. Fantasmas e assassinatos cercam essa história de mistério.





Um homem é encontrado enforcado em um dos subsolos do teatro. Uma lanterninha conversa com uma voz que se identifica como Fantasma da Ópera. Os diretores do teatro recebem bilhetes assinados pelo Fantasma. Uma cantora, Cristine, tem aulas com uma voz masculina que ela pensa ser o Anjo da música. Raul, visconde de Chagny, apaixona-se por Cristine, sua amiga de infância. A partir daí desenvolve-se uma narrativa cheia de suspense, amor e humor.





Quem não tiver aprendido a pôr uma máscara de alegria sobre suas dores e o disfarce da tristeza, do desgosto ou da indiferença sobre sua alegria íntima nunca será um parisiense. Se você descobrir que um de seus amigos está prostrado, não tente consolá-lo: ele dirá que já foi reconfortado. E, se acontecer algo de bom para ele, evite felicitá-lo: como acredita ter boa sorte natural, ele ficará admirado que alguém lhe fale sobre isso. Em Paris se vive um eterno baile de máscaras.