CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

22 de abril de 2018

Estamos lendo - O vermelho e o negro: Stendhal

"Não há direito natural, essa ideia é só uma velha tolice muito digna do promotor que me acusou outro dia, seu avô enriqueceu com o confisco de Luís XIV. Só há direito quando há uma lei proibindo fazer alguma coisa, sob pena de punição. Antes da lei, de natural só há a força do leão, ou a necessidade da criatura que tem fome, que tem frio, a necessidade, numa palavra... Não, as pessoas que se honram são apenas bandidos que tiveram a sorte de não ser pegos em flagrante delito. O acusador que a sociedade lança contra mim enriqueceu com uma infâmia... Cometi um crime e fui justamente condenado, mas, a não ser por isso, o juiz que me condenou é cem vezes mais nocivo à sociedade."

Vocês só vêem o momentâneo! Seus olhos não conseguem seguir o trabalho subterrâneo das escolhas filosóficas sob o manto das decisões pragmáticas.

"É preciso renunciar a toda prudência. Este século é feito para tudo confundir! Marchamos para o caos."

"Repito máximas para servirem de dique às minhas paixões."

"Meu Deus, dai-me a mediocridade."



"Talento? 
Serviço? 
Merecimento? 
Que nada! 
Pertença a um grupinho." 





Palavras soltas, encontros ao acaso, transformam-se em provas mais que evidentes aos olhos do homem de imaginação, se ele tiver alguma chama no coração.

  • "— Você é predestinado, meu caro Sorel — diziam-lhe; — você tem, muito naturalmente, esse ar frio de quem está a 1 000 léguas da sensação presente que nós tanto procuramos adquirir. / — Você não compreendeu esse século — dizia-lhe o Príncipe Korasoff: — faça sempre o contrário do que esperam de você. Aí está, realmente, a única religião de nossos tempos. Não seja doido nem afetado, pois, nesse caso, esperarão de você loucuras e afetação, e o preceito não será mais cumprido." [p.264-265]

A sua grande missão é julgar com calma os pequenos acontecimentos da vida cotidiana dos povos. A sua sabedoria deve prevenir as grandes cóleras movidas por pequenos motivos, ou por eventos que a voz da fama transfigura, levando-os longe demais.




Sua resposta foi perfeita, sobretudo longa como um sermão; dava a entender tudo, mas não dizia nada claramente.




"La vérité est dans la bouche des enfants" (Platão/Sartre)




"O amor, isto é, a mulher, revela os verdadeiros fins da existência: o belo, a felicidade, a vivacidade das sensações e do mundo" (Simone de Beauvoir)



“As mulheres só perdoam depois de terem castigado.” 

“Parecer o que se é, é um crime; parecer o que não se é, um sucesso.” 
DELPHINE GAY DE GIRARDIN

19 de abril de 2018

Saudade




 Saudade, O Quadro – 1899 Autor: José Ferraz de Almeida Júnior

Paisagem
(Florbela Espanca)


Uns bezerritos bebem lentamente

Na tranquila levada do moinho.
Perpassa nos seus olhos, vagamente,
A sombra duma alma cor do linho!

Junto deles um par. Naturalmente
Namorados ou noivos. De mansinho
Soltam frases d’amor... e docemente
Uma criança canta no caminho!

Um trecho de paisagem campesina,
Uma tela suave, pequenina,
Um pedaço de terra sem igual!

Oh, abre-me em teu seio a sepultura,
Minha terra d’amor e de ventura,
O meu amado e lindo Portugal!


Em Julho, no CLIc - A noite da espera - o lugar mais sombrio: Miltom Hatoum






SINOPSE


Nove anos após a publicação de Órfãos do Eldorado, Milton Hatoum retorna à forma da narrativa longa em uma série de três volumes na qual o drama familiar se entrelaça à história da ditadura militar para dar à luz um poderoso romance de formação. Nos anos 1960, Martim, um jovem paulista, muda-se para Brasília com o pai após a separação traumática deste e sua mãe. Na cidade recém-inaugurada, trava amizade com um variado grupo de adolescentes do qual fazem parte filhos de altos e médios funcionários da burocracia estatal, bem como moradores das cidades-satélites, espaço relegado aos verdadeiros pioneiros da capital federal, migrantes desfavorecidos. Às descobertas culturais e amorosas de Martim contrapõe-se a dor da separação da mãe, de quem passa longos períodos sem notícias. Na figura materna ausente concentra-se a face sombria de sua juventude, perpassada pela violência dos anos de chumbo. Neste que é sem dúvida um dos melhores retratos literários de Brasília, Hatoum transita com a habilidade que lhe é própria entre as dimensões pessoal e social do drama e faz de uma ruptura familiar o reverso de um país cindido por um golpe.


15 de abril de 2018

Revivendo passados de novo - O Outro Pé da Sereia: Mia Couto

Ao sabor do vento,
lençóis bailam nos00 varais.
Me trazem a infância

O livro é um barco.
Ao outro lado do mundo
me leva, e a mim própria.

(Elenir)





A costa indiana é agora uma linha flutuando no horizonte. A nau tornou-se no último lugar do mundo. À volta tudo é água, transbordação de rios e mares. O navio é uma ilhota habitada por homens e os seus fantasmas.

... Inclinado na cesta da gávea, o marinheiro anunciava que a viagem já não teria mais retorno.

- Daqui em diante, nenhuma ave mais haverá.

Um vazio pesou sobre o estômago do sacerdote português. Quando saíra de Goa, ainda na proteção do estuário, a viagem surgia como um caminho dócil. Mas quando o mar se desdobrou em oceano e o horizonte todo se liquefez, lhe veio uma espécie de tontura, a certeza de que o chão lhe fugira e a nau voava sobre um abismo. Silveira não tinha dúvida: chegara ao irreversível momento em que a água perde o pé e o mar abandona o suave maneirar dos rios. Dali em diante, o mundo se resumiria àquela nau, rompendo caminho entre domínios que eram mais do Diabo que de Deus.

Em “O Outro Pé da Sereia”, o moçambicano Mia Couto, alterna entre passado e presente para nos apresentar Moçambique. Em 1560, revivemos a colonização portuguesa, acompanhando a expedição do jesuíta D. Gonçalo da Silveira (personagem histórico), da saída de Goa, na Índia, até a fronteira entre Zimbabwe e Moçambique, nas terras do chamado reino Monomotapa, da África do século XVI. A partir do resgate de fontes históricas, o autor romanceia a história do jesuíta em sua missão de conversão e moralização do reino e de seu imperador. Em 2002, nos deparamos com o retrato de uma Moçambique que, após a independência em 1975, foi assolada por quase 16 anos de guerra civil (1977 - 1992) e que luta para se erguer.




Escrevo na penumbra quase total do porão onde me aprisionaram. O escuro até me ajuda: afinal, esta carta é um adeus. Ou, quem sabe, um agradecer aos deuses? Navegamos entre perigos e incertezas. Salvamo-nos de fogos e tempestades. Contudo, esta viagem não se está fazendo entre a Índia e Moçambique. É sempre assim: a verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós. Quem conduz o barco, porém, não é o timoneiro. Quem guia o leme é a Kianda, a deusa das águas.

Kianda, Mama Wati ou Nzuzu é a deusa que mora em águas limpas. “... no leito do rio havia um lugar sem fundo, onde a propria água se afundava, afogada nos abismos. Nessas profundezas morava Nzuzu, a divindade do rio. De quando em vez, uma moça desaparecia nas águas. Não morria. Apenas permanecia residindo nos fundos lodosos, aprendendo a arte de ser peixe e os sortilégios da adivinhação. Ficava anos nessa submersa moradia até que, um dia, reemergia e se apresentava às famílias para exercer então, a profissão de curandeira.” “... Ela vive com a nyoka, a serpente. Quando a água fica suja, a serpente sai a espalhar maldades e feitiços”. (Acima: Mami Wata, de Moyo Ogundipe, 1999).

Quem nos leva nesta viagem é a personagem que tem “corpo de rio e nome de canoa”, Mwadia Malunga. Através dela, somos apresentados às personagens da atualidade: Zero Madzero, o pastor de burros e cabritos, que vive em Antigamente, e carrega em si a ambigüidade da presença e da ausência, do ser vivente e de um fantasma; Constança Malunga, a matriarca que revela a ligação de Mwadia com Nzuzu, a deusa das águas límpidas; Lázaro Vivo, o adivinho que faz a ponte entre o mundo dos vivos e o dos mortos, entre o universo sagrado da tradição e o da modernidade; Benjamin, o afro-americano que busca sua origem ancestral; e outros.

Nesses últimos dias, Mwadia fechava-se no sótão e espreitava a velha documentação colonial. Agora, ela sabia: um livro é uma canoa. Esse era o barco que lhe faltava em Antigamente. Tivesse e ela faria a travessia para o outro lado do mundo, para o outro lado de si mesma.

... Disto tudo sabia Constança quando pediu o seguinte a sua filha mais nova:

- Agora, leia para mim. Eu também quero ir nessa viagem ...

Mwadia aproxima culturas, religiões, momentos históricos, como uma embarcação capaz de ligar culturas e viajantes que entrecruzam fronteiras temporais, geográficas e interiores às personagens.

A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores” .

Certo excesso de frases de efeito, e elementos temáticos (silêncio e palavras, realidade e delírio; lucidez e loucura; razão e emoção; vida e morte; passado e presente; tradição e modernidade, escravidão, servidão feminina, simbolismos, mitificação, mestiçagem, incesto, aids) por vezes quebram a fluidez da leitura e nos lembram da presença do autor e de sua própria viagem. Porém, não há dúvidas de que Mia Couto domina os mistérios da contação, e na maior parte do tempo consegue nos envolver e nos prender nos meandros da trama. A cada momento somos surpreendidos por segredos e questões para as quais não são dadas respostas. E os elementos metafóricos são interpretados pelas personagens de maneira quase sempre tão duvidosa que exigem do leitor sua própria interpretação da obra. A minha, ainda não a tenho, mas penso que viver ausências, seja as de Antigamente ou as de Vila Longe, não seja viver. Nada simples se erguer, mas prefiro seguir o rio da vida e plagiar a personagem Rosie: como se diz lá no Brasil, “Sacode a poeira e dá a volta por cima”, pois, bom é “viver e não ter a vergonha de ser feliz”.

14 de abril de 2018

A resistência: Julián Fuks

Na dor, o silêncio...
Não da falta de palavras,
mas da própria ausência.

Gente brasileira!
De sua invejada alegria
fizeram o quê?

(Elenir)

Foi assim!

Só podemos nos apoiar no que resiste.
(Talleyrand)


Quinta-feira - 12/4/2018
Varanda lateral esquerda do Teatro da UFF
Centro de Artes UFF
Rua Miguel de Frías, 9 - Icaraí - Niterói - RJ
19:00 h

10 de abril de 2018

Suor: Rita Magnago




Uma pequena ostra
uma pequena abertura na ostra pequena.
Vejo o macio
sinto o escuro, o sinistro
o oco e a possível, improvável pérola.

Não posso pensar em caçar se quero encontrar.
O encontro é um acaso
ocaso.
Quero a aurora.
Não sei nada
e isso é tudo.

Incognoscível é a palavra que escolho
porque todas são nenhuma.
Não há letra nem sílaba
nem combinação que traduza a palavra não dita
a palavra que não se sabe, mas está lá
latente, latindo, mordendo a ponta da ostra
cansada de ser osso
ansiosa da carne rósea e macia
do lábio que não se diz.
Ainda.
Pra dentro da boca me levo
me engulo, engasgo
regurgito a palavra trabalhada 
por dentro da alma condoída, corroída.

Não é fluxo, é re-fluxo.
Não é poema, é floema.
É na troca que me faço orgânica.
Desfaço pesticidas de pele.
Sem superfície. 
A endoderme à mostra
Amostra de dentro da ostra
da dor, do re-torcer, do re-fletir.

Quem vai parir a pérola?

7 de abril de 2018

O Rochedo de Tânios: Amin Maalouf






Fonte

" - Então, Tânios, refletimos com os pés?

. . .

- Eu também reflito com os pés. Forçosamente, não faço mais que percorrer as estradas. As ideias que forjas com os pés e que sobem para a cabeça te reconfortam e te estimulam, as que descem da cabeça para os pés te pesam e te desencorajam."






"Há os que escolhem um caminho em vez de outro, que decide trilhá-lo neste ou naquele momento, e os que aceitam - e cumprem - o que o seu destino lhe reserva em todas as circunstâncias da vida."


Amin Maalouf



5 de abril de 2018

Títulos à Venda na Estante do Concierge: peça aqui nos comentários






Vida aos Oitenta: Aquiles Andrade - R$ 20,00

Travessia do Verso: Rita Magnago - R$ 25,00

Mosaico Vivo: Cristiana Seixas - R$ 25,00

Pequenos Amores: Gracinda Rosa - R$ 25,00


No Vale de Ossos Secos: Mike Sullivan - R$ 30,00

Belém do Grão Pará: Dalcídio Jurandir - R$ R$ 54,00

Marajó: Dalcídio Jurandir - R$ 54,00

Amor em tempos de solidão: Mike Sullivan - R$ 30,00

Histórias da noite: Carlos Rosa Moreira - R$ 25,00

Caminhos invisíveis: Carlos Rosa Moreira - R$ 25,00

Tiros de misericórdia: Flávio Ricardo Vassoler - R$ 25,00

Amanhã de manhã, em frente ao cinema, em Icaraí: Carlos Rosa Moreira - R$ 25,00

Brisas, marolas & rajadas de vento sul: Carlos Rosa Moreira - R$ 25,00

Da janela do trem: Carlos Rosa Moreira - R$ 25,00

Cem culpas, 100 páginas, só poéticas: maria tereza penna - R$ 25,00

O mundo de vidro: William Lial - R$ 25,00

Clube de Leitura Icaraí, 15 anos entre livros - R$ 30,00

letras rebeldes, fluidos insensatos: novaes/ - R$ 30,00

dentro das palavras: inês drummond - R$ 30,00

Des-Caminhos: Inês Drummond - R$ 30,00

A soma das lembranças: Inês Drummond - R$ 30,00




1 de abril de 2018

Opinião - Alma imoral, a peça: Emmanuel




O fio condutor de toda a peça, na minha leitura, é a ideia de que, na interação entre Corpo e Alma, o Corpo representa a tradição, o território, o passado, o fechado, o tangível, ao passo que a Alma representa a traição, a transgressão, o fluido, o líquido, o aberto, o intangível. 

Bonder vai buscar, como rabino que é, as três referencias fundantes da fé judaica, e como consequência também cristã, e as situa sobre três grandes traições. A primeira delas trata de Adão e Eva, como aqueles que traem o contrato original firmado com o Criador, segundo o qual eles não poderiam comer do fruto da árvore proibida. Ao traírem este contrato, eles iniciam a história da consciência humana, como humanos. Antes disso, eles eram macacos, imersos no Éden da Natureza, inteiramente submetidos à lógica e as delícias do seu ambiente. Com a traição, ingressam na grande aventura da consciência humana. 

A segunda traição ocorre no campo da cultura e tem em Abraão o seu grande protagonista. Abraão é aquele que ouviu certa vez, ou ao menos achou ter ouvido, uma mensagem de Deus, lhe dizendo: “pega suas coisas, sai desse lugar... vá para uma terra que vou lhe indicar”.  Saiu de casa, deixando pra trás pai, mãe e toda a sua gente com sua cultura. Na terra nova que Abraão vai ocupar, cedo ele se torna “prisioneiro” da nova cultura e, dentro dela, ouve de novo aquela voz dizer pra ele pegar o filho dele, que ele tanto ama, e oferece-lo em sacrifício no alto da montanha Moriat. Ele faz isso, provavelmente com muito pesar. Caminhou três dias com o filho que ele iria sacrificar, ouvindo do filho a indagação óbvia: “pai, cadê o cordeiro?”. Ao que ele responde, Deus proverá! No final, quando já preparava o sacrifício e levantava a mão com a faca, ouve o seu Deus advertir: “não levante a mão contra o menino”. Sim, o Deus de Abraão, diz e desdiz... essa é a terra prometida. Onde a consciência, em crise, debate e dialoga com a própria cultura, representante institucional do Corpo. 


A terceira traição fundante é no nível do indivíduo, quando Jacó, que viria a ser o Israel depois da sua luta com Deus, trai seu irmão Esaú, com o auxílio precioso da sua mãe, enganando o pai, idoso, meio cego e meio surdo. Essa traição inaugura a família, com seus interesses, as disputas, dentre elas a maior de todas, a do poder, da primogenitura, cuja função é preservar e multiplicar a semente do clã. 



31 de março de 2018

Que tipo de chocolate é você?


Elenir, entre a sacerdotisa do CLIc e a escritora GR

Que injustiça dizer que o Taurino é "pão duro"! Sou taurina e me considero muito generosa, embora, sempre, com os pés no chão, sem esbanjar. Realmente, gosto muito de Serenata de Amor.

Sou Taurina, pés na terra,
com medo do vôo alçar.
Mas tenho Vênus brilhando
para a estrada embelezar.

Por ter ascendente em Gêmeos,
trago em mim dualidade.
Ora alegre, ora triste,
vou fazendo a caminhada


As palavras são meus chocolates preferidos. Adoçam minha vida.

Muitos beijos para todos. Sem economia.


Páscoa ! Renascer.
Brindar a vida, espalhando
Alegria e Amor.


Carinho e Amizade
Elenir

Feliz Páscoa a todos os participantes do nosso clube de leitura Icaraí!!!