CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

19 de abril de 2019

De volta ao CLIc em Maio, agora no grupo Master - O Estrangeiro: Albert Camus


MW: E ai, td bem? Li o estrangeiro.

Mr: Gostou?


MW: Mais ou menos. Não entendi tanto o que falaram sobre preconceito. Entendi que ele tomou uma série de atitudes suspeitas. E cometeu um erro que fez todas essas atitudes se encaixarem e acabaram com a vida dele. O que VC achou?


Mr: Bem absurdo. Ele matou o árabe por causa do sol. Acho que o preconceito tem a ver com a situação da época. A guerra de independência da Argélia. Franceses X árabes.


MW: Entendi. Eu não vi por esse lado. Mas que a história encaixou toda formando um perfil frio, encaixou.


Mr: Ele era um jovem imaturo. Meio que ia deixando a vida ir levando ele. Tinha dificuldade de escolher o que ele realmente queria.


MW: Entendi. Não gostei tanto. Esperei mais desenvolvimento e não aconteceu. Umas cenas que eu pensava que ia acontecer algo e não acontecia. Mas o autor faz a gente gostar do assassino. Eu senti pena. Vontade que ele não ganhasse a pena que ganhou.

Mr: A gente faz coisas absurdas na vida, sem razão nenhuma, a sorte é que no mais das vezes é sem maiores consequências.  A liberdade e uma vontade difusa pode levar a morte, embora dificilmente a gente acredite nisso.  O protagonista era como se fosse um estrangeiro neste mundo aparentemente sem sentido.

MW: 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻






O gatilho cedeu, toquei na superfície lisa da coronha e foi aí, com um barulho  ao mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo principiou. Sacudi o suor e  o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei então a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte, onde as balas se enterravam sem se dar por isso.




"A culpa não é minha!"




L'apologie de Socrate - Platão
O Estrangeiro traz o existencialismo, a sua razão existencial. A repetição do verbo “conhecer” e suas variações demonstra isso. Na Primeira parte, Albert Camus nesta obra quer mostrar, através do personagem central, a vida de um homem transparente, os valores mundanos da sociedade de sua época.

Ele é um homem sensível cuja vida e felicidades baseiam-se essencialmente na rotina de sua vida. A morte de sua mãe traz uma ruptura deste acontecimento . A morte dela faz alterar a sua rotina agindo de forma imperturbável e indiferente.

Na segunda parte, baseia-se no testemunho durante a sua estadia na prisão e sua visão sobre o julgamento em relação a um assassinato.

Assista o filme "O Estrangeiro" 


Comparação com Apologia de Sócrates: 


Já em Apologia de Sócrates (Πλάτωνος Ἀπολογία Σωκράτους), a análise do texto passa pela superação de algumas questões que não ficam evidentes na obra. Nesse sentido, a análise sobrecairá sobre as argumentações, as idéias, os conceitos, os problemas levantados, contra-argumentos, reputações, etc., procurando compreendê-los a partir das regras de abordagem teórica aprendidas na disciplina. 

Assista o filme Sócrates 

A obra compõe-se de um preâmbulo e três partes: Na primeira, está a “defesa” de Sócrates onde consta o dialogo com Meleto. Na segunda, “a pena” e “do esperado da pena”. Na terceira, parte da “condenação” e aos que “votaram contra”, onde Sócrates faz uma reflexão sobre as suas convicções de vida e de morte e a relação com os deuses.

Semelhanças:
  • Ambos falam sobre a sua visão de pena de morte.
  • Escritos em 1ª. pessoa.

Diferenças:

Apologia de Sócrates

  • A narração é de 1ª. Pessoa, embora feita por Platão.
  • É mais decidido a enfrentar e falar que não é difícil fugir da morte.

O Estrangeiro

  • A narração é de 1ª. pessoa é feita por ele mesmo
  • A visão de morte é de submissão e a morte é um destino.

    Assista documentário sobre Camus

(Frederico)



18 de abril de 2019

Em Junho - Se o passado não tivesse asas: Pepetela


Toulouse Lautrec

Será esse o nosso futuro, a ditadura da ganância?


Na janela com Ezequiel

"Olha, 
tenho uma coisa para te dizer, 
ouve com atenção..." 
é muito importante!


3 de abril de 2019

Shalimar, o equilibrista: Salman Rushdie







Atenção fãs do realismo mágico!


Clube de Leitura Icaraí se reúne nessa sexta-feira, dia 11, para debater a leitura de "Shalimar, o equilibrista", do autor Salman Rushdie, cujo estilo narrativo mescla fantasia com vida real.

Contém nessa história elementos como amor e vingança, além de todos os ingredientes dos grandes épicos: guerras, revoluções, heroísmo, assassinatos, tabus violados, destinos interrompidos e grandes deslocamentos no espaço ao longo de sessenta anos de história do século XX. 

Gostou? Então vem! Nas 2ªs Sextas Feiras mensais, às 19h, na Livraria Icaraí.






"Shalimar, O Equilibrista é uma obra de ficção de Salman Rushdie publicada em 2005 e que conta a história do personagem Shalimar, da infância à morte, da sua carreira como artista a assassino profissional, tendo em foco quatro personagens fundamentais: Índia/Caxemira, Boonyi, Max, e o próprio Shalimar. O livro não segue a ordem cronológica dos eventos e inicia-se com um misterioso assassinato que se desvenda ao longo do romance.

O lançamento mundial do livro teve como principal evento a Festa Literária Internacional de Paraty, no Brasil, em 2005, com a presença do autor."



ENTREVISTA DE SALMAN RUSHDIE À FOLHA


Folha - Quanto do sr. há em "Shalimar, o Equilibrista"?

Salman Rushdie
 - Não há um personagem que fale pelo autor. Meu objetivo foi criá-los como seres empenhados em suas próprias histórias. A maneira como os personagens do livro evoluem não tem nada a ver com uma vontade de expor meu ponto de vista sobre o mundo. Flaubert disse: "Madame Bovary, c'est moi", mas é claro que é mentira. Madame Bovary não é Flaubert. A verdade é que você deve estar em cada frase do seu livro. Há algo com que devemos lidar mais do que nunca agora, que é o fato de que nossas vidas não são mais vidas privadas. Quando Jane Austen escrevia, ela ignorava as guerras napoleônicas. Podia contar a história de seus personagens sem se referir à esfera pública, pois esta não interferia na vida dos seus personagens. Só que hoje não vivemos mais assim.

Folha - Hoje um escritor pode ignorar a situação mundial?

Rushdie
 - Não quero ditar regras, mas é difícil para mim. Para explicar a vida das pessoas, você precisa levar em conta o mundo em que elas vivem e o efeito direto que esse mundo causa nelas.

Folha - Como no exemplo da Caxemira, que está no livro.

Rushdie
 - Sim, a vida de Shalimar foi destruída por dentro, pela traição de sua mulher mas também por fora, pelas forças da história. A maneira como costumávamos acreditar no destino dos personagens não existe mais, agora é o destino que faz os personagens. É preciso trabalhar com esse duplo sentido para escrever. Uma boa questão é se somos os mestres ou as vítimas do nosso tempo. Nós comandamos nossas vidas ou não temos chances?

Folha - E o que o sr. acha?

Rushdie
 - As duas coisas. Às vezes, nós podemos comandá-la, noutras não. Por exemplo, esse concerto de rock que houve no fim de semana, o Live 8, foi uma tentativa de um grande número de pessoas de causar algum impacto transformador. Pode-se dizer que é simplista, mas pode funcionar. Mas é claro que, se você estiver num arranha-céu e um avião bater nele, não importará se você viveu sua vida bem ou mal. Nós vivemos num mundo muito estranho, e as conseqüências para a literatura são muito profundas.

Folha - Por quê?

Rushdie
 - Porque uma das grandes perguntas para um escritor é: como se diz a verdade sobre o mundo? De acordo com o nível do seu talento, a profundidade da sua visão, ou das limitações que todos nós temos. De outro modo, você não dirá a verdade.

Folha - Os americanos sabem o quanto o que acontece na Caxemira afeta a vida deles?

Rushdie
 - Acredito que o 11 de Setembro tenha sido um alerta. Mostrou que o mundo não está mais separado. Os americanos sentiram na pele as conseqüências de um mundo que encolheu.

Folha - Há uma grande importância em relação a nomes e identidades em seu livro.

Rushdie
 - Acho que a questão da identidade é central. Ninguém no livro gosta do nome que tem, exceto Max [o embaixador na Índia].

Folha - Max falsificava identidades quando estava na Resistência francesa.

Rushdie
 - Exato. Ele é o único que sabe quem é. O livro é sobre pessoas que não sabem quem são. No caso de India [filha de Max], há uma boa razão para isso. Durante toda a sua vida lhe mentiram, inclusive sobre seu nome.

Folha - Por que Max compara a situação na Alsácia, nos anos 30/40, ocupada por França e Alemanha, com a da Caxemira, disputada por Paquistão e Índia?

Rushdie
 - O interessante na região da Alsácia é a questão das fronteiras cambiantes. No livro, que é sobre a Índia, sobre a Caxemira, essa questão está em primeiro plano. Foi uma maneira de unir as pontas do mundo. Na França, durante o jugo nazista, há a Resistência, que é a reação militar à ocupação. Na Caxemira, há a resistência ao poder ocupante, e essa reação pode não ser necessariamente terrorismo --depende de que parte do mundo falamos. Temos aqui uma forma muito similar de ação, tomada em diferentes circunstâncias. O julgamento que fazemos desses momentos é diferente.

Folha - O destino da Caxemira é há muito tempo decidido por forças externas.

Rushdie
 - Sim, acho que essa é a grande tragédia da Caxemira. Os caxemirenses querem que os deixem em paz. Há o Exército indiano e há os grupos patrocinados pelo Paquistão. Ambos destruíram a Caxemira de diversas maneiras. A intelligentsia indiana não tinha idéia do quão grande era o ressentimento na Caxemira. Mas não era preciso ser profeta para ver a insurgência, bastava ter olhos. Quando chamei a atenção para o problema, me chamaram de "muçulmano comunista".

Folha - E além disso há os grupos terroristas...

Rushdie
 - Veja, o islã na Caxemira sempre foi místico, gentil e aberto, não como o dos jihadistas. Não havia segregação sexual. Havia uma grande mistura religiosa. Mas então vieram os grupos extremistas, que tentaram impor à Caxemira uma idéia de islã estranha a ela. A violência funcionou, e hoje na Caxemira se vêem mulheres cobertas, o que é anticaxemirenses. Sempre me senti mal sobre isso, porque minha família é de lá, passava férias lá quando criança. Para todos na Índia, a Caxemira é o espaço encantado da infância. E foi destruído, obrigando-nos a viver num mundo sem sonho. Meu livro é um pouco sobre como viver num mundo no qual seus sonhos são destruídos.

Folha - E, para Max, os sonhos acabaram na Europa. Ele é nostálgico. O sr. também parece saudoso dos velhos valores.

Rushdie
 - Não diria "velhos valores". Diria "valores", sem os quais é muito difícil viver, num mundo desenraizado. Sou saudoso de um mundo menos desenraizado. Há uma ausência de sutileza. O desenraizamento está barateando a vida humana. Mata-se por nada.

Folha - Qual é o papel da religião nisso?

Rushdie
 - É absolutamente catastrófico, quer seja o jihadismo ou o fundamentalismo cristão, ou os hindus fanáticos.

Folha - O sr. é religioso?

Rushdie
 - Não. Não. Não me considero religioso [risos]. Mas, quando você começa a escrever sobre humanos, passa a acreditar que haja algo sobre nós que não é apenas carne e ossos. Há coisas que não podemos explicar para nós mesmos. No entanto, se você não acredita na existência da alma, é muito difícil escrever sobre isso, porque faltam palavras.

Folha - O sr. acompanha a política brasileira?

Rushdie
 - Leio os jornais. Mas não me pergunte nada [risos].



Encontro Marcado


O amor nunca vem de onde a gente está olhando!


Os guerreiros do LeP não conseguiam tirar os olhos das mulheres que estavam se despindo devagar, sedutoramente, mexendo os corpos com ritmo, de olhos fechados. "Deus me ajude", gemeu em árabe um dos guerreiros estrangeiros do LeP, se retorcendo em cima do cavalo. "Essas diabas de olhos azuis estão roubando minha alma". O maníaco homicida de quinze anos apontou o Kalashnikov para Firdaus Noman. "Se eu matar você agora", disse, perverso, "nenhum homem em todo o mundo muçulmano vai dizer que não tenho razão." Nesse momento, um buraquinho vermelho apareceu na testa dele e a parte de trás de sua cabeça explodiu... Os militantes do LeP foram cercados e superados em número e em poucos minutos estavam também mortos. Firdaus Noman e as outras mulheres vestiram as roupas de novo. Firdaus falou, triste, para o corpo de quinze anos do comandante Lashkar. "Você descobriu que as mulheres são perigosas, meu filho", disse ela. "Azar seu não ter tido a chance de crescer para virar homem e descobrir que também somos boas para amar."


COMO PODE O ROSTO DE UMA MULHER
 SER O INIMIGO DO ISLÃ?










Terpsícore



Na raiz da religião está o desejo de esmagar o infiel. Esta é a força fundamental. Quando o infiel tiver sido esmagado, poderá haver tempo para o amor, embora isso seja de importância secundária. A religião exige austeridade e auto-renúncia. Ela não tem tempo para as branduras do prazer ou para as fraquezas do amor. Deus deve ser amado, mas com um amor masculino, um amor de ação, não uma aflição feminil do coração. Deve-se estar sempre pronto para uma guerra.


Ele ainda é jovem a ponto de ter a ideia de que pode mudar a História, enquanto eu estou me acostumando com a ideia de ser inútil, e um homem que se sente inútil para de se sentir um homem. Então, se ele está inflamado com a possibilidade de ser útil, não vamos apagar essa chama.


Mercader
Udham Singh
... nesse solo oculto estão sendo plantadas as sementes do futuro e o tempo do mundo invisível chegará, o tempo da dialética alterada, o tempo da dialética na clandestinidade, quando anônimos exércitos espectrais lutarão em segredo pelo destino da Terra. Um bom homem nunca é descartado por muito tempo. Sempre se encontra um uso para um homem desses. Max invisível terá um novo uso. Ele será um dos forjadores dessa nova era também, até a velhice finalmente baixar a cortina e a Morte vir bater à sua porta na forma de um belo homem, um Mercader, um Udham Singh, a Morte, em nome da mulher que um dia ambos amaram, lhe pedindo trabalho.



Ela o tinha perdido durante tanto tempo que temia nunca mais consegui-lo de volta. Mas ali estava ele, virando-se para olhar para ela de novo. Era isso que os dois tinham, disse ela a si mesmo, essa inevitabilidade. Eram construídos para durar. Levantou o copo para ele e um sorriso tremulou nos cantos de sua boca. Sou a mulher mais iludida do mundo, pensou. Mas olhe para ele, está aqui. Meu homem.





O que é convencional quando se olha de fato as coisas? Levante a tampa de qualquer vida e ela é estranha, borbulhante; por trás de toda porta doméstica sossegada o idiossincrático e o estranho estão à espreita. Normalidade, esse é que é o mito. Os seres humanos não são normais.      


Suponhamos que fosse eu naquela foto, Max pensou, de repente. Suponhamos que todos aqueles ataques verbais fossem sinais invertidos de amor, pedidos em código para que eu fizesse o que ela sozinha não podia fazer: que a arrancasse do seu casamento e a arrebatasse para algum impossível Éden do tempo de guerra. Tentou afastar essas especulações, que era apenas uma forma de vaidade, ralhou consigo mesmo. Mas a possibilidade de um amor mal compreendido continuou a mordê-lo por dentro. Blandine, Blandine, ele pensava. Os homens são tolos. Não é de admirar que a deixássemos tão louca. Nesta tarde, no arquivo, quando descobriu o destino de Suzette Trautmann, prometeu a si mesmo que se uma mulher um dia lhe enviasse esses sinais de novo, se uma mulher um dia tentasse dizer por favor, vamos sair daqui, por favor, por favor, vamos fugir e ficar juntos para sempre e para o inferno a danação de nossas almas, por favor, ele não deixaria de decifrar o código secreto.






Rumpelstiltskin




Existem grandes infiéis que negam Deus e seu profeta, e depois existem os pequenos infiéis como você, um cuja barriga o calor da fé há muito esfriou, que toma tolerância por virtude e harmonia por paz.

A natureza do poder dominador é tal que o homem poderoso não precisa aludir a seu poder. A realidade dele está presente na consciência de todo mundo. Assim, o poder faz seu trabalho em segredo e os poderosos podem subsequentemente negar que sua força jamais foi usada.


Fidayeen

Ele era apenas um clown e seu amor não levava a lugar nenhum, não mudaria nada, não podia me levar onde estava meu destino.


Não me peça o meu coração, porque estou arrancando o coração do meu peito, quebrando em pedacinhos e jogando fora, de forma que não terei coração, mas você não vai saber disso porque serei a contrafação perfeita de uma mulher apaixonada e você vai receber de mim a falsificação perfeita de amor.


Havia, então, duas cláusulas não expressas no Entendimento, uma relativa a dar amor, outra relativa a reter o amor, codicilos mutuamente contrastantes e impossíveis de conciliar. O resultado, como Max previra, foram problemas; o maior rebuliço diplomático indo-americano da História. Mas durante algum tempo o mestre falsificador foi enganado pela falsificação que comprou, enganado e satisfeito, tão contente de possuí-la  quanto um colecionador que descobre uma obra prima escondida num monte de lixo, tão feliz de mantê-la escondida das vistas quanto um colecionador que não consegue resistir a comprar o que sabe ser propriedade roubada. E foi assim que a esposa infiel da aldeia do bhand pather começou a influenciar, a complicar e até a moldar a atividade diplomática referente à incômoda questão da Caxemira.





Pensou em Shalimar, o equilibrista, e mais uma vez ficou horrorizada com a facilidade com que o abandonara. Quando deixou Pachigam, nenhuma das pessoas mais próximas adivinhou o que estava fazendo, os bobos. Ninguém tentou salvá-la de si mesma, e como poderia perdoá-los por isso? Que idiotas eram eles todos! Seu marido, o super idiota número um, e seu pai, o super idiota número dois, e todo mundo logo atrás. Mesmo depois de Himal e Gonwati voltarem a Pachigam sem ela e começar o falatório, mesmo então, Shalimar, o equilibrista, lhe mandava cartas confiantes, cartas assombradas pelo fantasma de seu amor assassinado. 'Estendo os braços e toco você sem tocar você como na margem do rio antigamente. Sei que está em busca de seu sonho, mas esse sonho vai sempre te trazer de volta pra mim. Se o amrikan está ajudando, muito bem. As pessoas sempre dizem mentiras, mas sei que seu coração é verdadeiro. Sento com as mãos no colo e espero sua volta.' Ela ficava transpirando na cama, presa nas correntes da solidão escravizante e rasgava as cartas em pedaços cada vez menores. Eram cartas que humilhavam tanto o autor quanto o receptor, cartas que não tinham de existir, que nunca deveriam ter sido mandadas. Essas ideias não deviam nunca existir, e não existiriam, não fosse a mente débil daquele homem sem honra que tivera a vergonha de desposar.









Os animais não têm opção senão serem o que são 100% do tempo. Eles não conhecem nem moldam a própria natureza, mas sim, a natureza que conhece e os molda. Não existem surpresas no reino animal. Só o caráter do Homem é suspeito e cambiante. Só o Homem, conhecendo o bem, pode fazer o mal. Só o Homem usa máscaras. Só o Homem decepciona a si mesmo.


Abdullah começou a ver lampejos de um outro Bombur, alguém melhor por baixo da superfície inchada e vaidosa que Yambarzal infelizmente apresentava ao mundo: um homem solitário, para quem a culinária era a única paixão da vida, que a encarava com um fervor quase religioso e que ficava, portanto, constante e ferozmente decepcionado com a facilidade com que seus semelhantes humanos se afastavam das extáticas devoções das artes gastronômicas por conta de distrações tão mesquinhas quanto vida familiar, cansaço ou amor. "Se você não fosse tão duro consigo mesmo", Abdullah disse uma vez a Bombur, "talvez pudesse ser mais brando com os outros e se apresentar melhor." Bombur arrepiou-se. "Não estou no jogo da felicidade", disse, duro. "Estou no negócio de banquetes". Era uma declaração que revelava o traço monomaníaco da personalidade do waza. 


Catacumbas da Cidade Reptiliana Assombradas

Los Angeles, apesar de pouco perceber na agitação da vida moderna, está acima de uma cidade perdida de catacumbas cheias de tesouro incalculável e registos imperecíveis de uma raça de seres humanos mais avançada intelectualmente e cientificamente, mesmo sob os atuais povos de hoje.




O único jeito sensato de amar é amar condicionalmente.









"Todos os temas recorrentes na obra de Salman Rushdie concorrem na trama de seu nono romance e se combinam para fazer de Shalimar, o equilibrista a narrativa mais impactante do autor de Os filhos da meia-noiteHaroun e o Mar de Histórias e O último suspiro do mouro. É uma história de amor e vingança, com todos os ingredientes dos grandes épicos: guerras, revoluções, atos heróicos, assassinatos, tabus violados, destinos interrompidos e grandes deslocamentos no espaço, ao longo de sessenta anos de história do século XX.

No cenário das questões políticas mais nevrálgicas da história contemporânea, Rushdie constrói um enredo em que a paixão súbita e proibida de um embaixador americano por uma dançarina belíssima de etnia hindu, habitante da Caxemira, desencadeia uma série de acontecimentos que apontará para os vínculos complexos entre Ocidente e Oriente nos dias de hoje.

Com avanços e recuos no andamento narrativo, Rushdie conduz as histórias dos personagens em vias paralelas, mas as entrecruza magistralmente à medida que a obra avança. Os pontos de contato entre a história da Índia, a política dos Estados Unidos durante a Guerra Fria e a formação dos grupos extremistas islâmicos depois da queda da ex-União Soviética vão se tornando cada vez mais estreitos, relacionando-se às histórias ficcionais de Max Ophuls, Boonyi Kaul e Shalimar, o equilibrista. No romance, as esferas da ficção, da história, do mito e da política se confundem e ganham estatuto artístico excepcional. 


A função de Shalimar, o equilibrista, é tentar desvendar o sentido da desarmonia que transformou sua vida em escombros. Para isso, durante sua representação - que outros chamariam vida -, terá de elevar-se por cima da copa de uma árvore em chamas e equilibrar-se numa corda feita de ar."




Nunca confie em homens que têm muita facilidade com as palavras.


1 de abril de 2019

Paixão fatal: Sonia Salim





A sua maneira de olhar
Quem não se apaixonaria?
Inteligência, sagacidade, perspicácia
O amor à flor da pele
A jovialidade entrelaçada à maturidade
Encontros marcados
coragem e medo se misturam
o tempero da paixão
Desejam aprisionar os seus passos
Mas você nasceu para a liberdade
o risco da leitura e o conhecimento
Impossível não ver o desenrolar do futuro em você
Entretanto, paixões e ódios explodem
Amigos, inimigos ou admiradores
de uma alma ambiciosa, fria, calculista
Máscara ou realidade?
A sociedade tem voz e grita
contra a sua personalidade inquietante
amante das páginas dos livros diversos
põe o mundo a seus pés
cede lugar à paixão
e o leva à condenação
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Poema inspirado no livro, O VERMELHO E O NEGRO, Stendhal.

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O vermelho e o negro: Stendhal


"Ao chegar a Florença, meu coração batia com força... em uma curva da estrada, meu olho mergulhou na planície e percebi, de longe, como uma massa escura, Santa Maria Del Fiori e sua famosa cúpula, obra-prima de Brunelleschi. Eu me dizia: ‘É aqui que viveram Dante, Michelangelo, Leonardo da Vinci! Eis esta nobre cidade, a rainha da Idade Média! É nesses muros que começou a civilização”... as lembranças se comprimiam em meu coração, sentia-me sem condição de raciocinar e entregava-me à minha loucura como junto de uma mulher a quem se ama... Eu já me encontrava em uma espécie de êxtase pela idéia de estar em Florença e pela vizinhança dos grandes homens dos quais eu acabava de ver os túmulos [Michelangelo, Alfieri, Machiavel, Galileu]... Absorvido na contemplação da beleza sublime, que via de perto, eu a tocava, por assim dizer. Tinha chegado ao ponto da emoção onde se encontram as sensações celestes proporcionadas pelas belas-artes e os sentimentos passionais. Saindo de Santa Croce, meu coração batia forte, o que em Berlim chama-se "nervos"; a vida esgotara-se em mim, eu andava com medo de cair...” STENDHAL (Nápoles e Florença: Uma viagem de Milão a Reggio)























O pós Reunião

Incêndio no céu.
Põe-se o ardente sol de agosto,
e as cigarras cantam.
(Elenir)




"Não há direito natural, essa ideia é só uma velha tolice muito digna do promotor que me acusou outro dia, seu avô enriqueceu com o confisco de Luís XIV. Só há direito quando há uma lei proibindo fazer alguma coisa, sob pena de punição. Antes da lei, de natural só há a força do leão, ou a necessidade da criatura que tem fome, que tem frio, a necessidade, numa palavra... Não, as pessoas que se honram são apenas bandidos que tiveram a sorte de não ser pegos em flagrante delito. O acusador que a sociedade lança contra mim enriqueceu com uma infâmia... Cometi um crime e fui justamente condenado, mas, a não ser por isso, o juiz que me condenou é cem vezes mais nocivo à sociedade."

Vocês só vêem o momentâneo! Seus olhos não conseguem seguir o trabalho subterrâneo das escolhas filosóficas sob o manto das decisões pragmáticas.

"É preciso renunciar a toda prudência. Este século é feito para tudo confundir! Marchamos para o caos."

"Repito máximas para servirem de dique às minhas paixões."

"Meu Deus, dai-me a mediocridade."



"Talento? 
Serviço? 
Merecimento? 
Que nada! 
Pertença a um grupinho." 





Palavras soltas, encontros ao acaso, transformam-se em provas mais que evidentes aos olhos do homem de imaginação, se ele tiver alguma chama no coração.

  • "— Você é predestinado, meu caro Sorel — diziam-lhe; — você tem, muito naturalmente, esse ar frio de quem está a 1 000 léguas da sensação presente que nós tanto procuramos adquirir. / — Você não compreendeu esse século — dizia-lhe o Príncipe Korasoff: — faça sempre o contrário do que esperam de você. Aí está, realmente, a única religião de nossos tempos. Não seja doido nem afetado, pois, nesse caso, esperarão de você loucuras e afetação, e o preceito não será mais cumprido." [p.264-265]

A sua grande missão é julgar com calma os pequenos acontecimentos da vida cotidiana dos povos. A sua sabedoria deve prevenir as grandes cóleras movidas por pequenos motivos, ou por eventos que a voz da fama transfigura, levando-os longe demais.




Sua resposta foi perfeita, sobretudo longa como um sermão; dava a entender tudo, mas não dizia nada claramente.




"La vérité est dans la bouche des enfants" (Platão/Sartre)




"O amor, isto é, a mulher, revela os verdadeiros fins da existência: o belo, a felicidade, a vivacidade das sensações e do mundo" (Simone de Beauvoir)



“As mulheres só perdoam depois de terem castigado.” 

“Parecer o que se é, é um crime; parecer o que não se é, um sucesso.” 
DELPHINE GAY DE GIRARDIN










30 de março de 2019

O sonâmbulo amador: José Luiz Passos

"...Diante do espelho, olhe nos olhos e repita duas ou três vezes aquele seu nome de infância. Jura, Jura, no meu caso. Vão e façam igual, qualquer coisa lá dentro se abre. Na vertigem dessa palavra, voltarão, tenho certeza, de bem longe, as cenas de um tempo adormecido, o começo das coisas, momentos que passaram a se fazer notar, com gente que não nos pedia nada em troca. Eram apenas o que eram. Não deixa de ser incrível que uma centelha disso tudo sobreviva nas cinzas de um mero apelido defasado".



Os que não nos veem por muito tempo acabam guardando consigo, como se dentro de um refrigerador, conservadas, aquelas nossas vontades de bem antes.

Cada pessoa tem seu modo de atar a razão dos eventos e o laço com os seus semelhantes.

Minie, num momento mais complicado, falou que eu tinha o que ela chamava de disponibilidade zero. Que não prestava atenção às pessoas e só vivia metido dentro de mim mesmo. Não era homem para ela e talvez nem sequer fosse bom amigo, já que ela não podia bater o telefone numa noite em que estivesse mal, pois eu não atenderia. Então que amizade era essa?

Pois é certo que nem o melhor nem o pior bastam ser realizados, precisam também ser comentados com todas as suas expressões. É de seu próprio relato que um beijo tira sua potência maior. De novo, não há mistério aqui. Amor não é mistério, é o gosto continuado na rotina, e tornado ainda mais vivo pela história dessa mesma rotina.






Poema transcrito por Jurubeba para Heloísa

Falem de mim como sou e nada menos, 
nem soado em qualquer malícia.
Digam de alguém que amou sem razão,
porém bem demais.
Alguém sem zelo fácil,
mas se alarmado, 
perplexo ao extremo.
Alguém cujas mãos, como as de um bárbaro,
atiraram fora uma pérola mais rica que seu clã.
Alguém que,
de olhos vencidos,
embora estranhos ao humor dissolvente,
choram tanto quanto as seringueiras que entornam sua pele de goma alva e medicante. 



Com muito carinho, a própria Heloísa, desde o período mais chegado da nossa convivência, me apanhava na boca, de joelhos ou deitada na cama. Antes de me agradar com a mão e com a língua, ela dizia alguma coisa proibida. Essas coisas hoje me soam tão bobas, e ao mesmo tempo não posso deixar de valorizar o que elas significavam para nós dois. Eram momentos de plena inconsciência, eu acho. Mais ainda, era a confiança em seu estado puro, entre marido e esposa. Heloísa fazia uma voz diferente, como se fosse de manha com criança, as pupilas grandes e paradas, e se dirigia às partes do meu corpo, dizia o que ia fazer, utilizando nisso expressões de baixo calão. O efeito era imediato. Meu corpo ouvia as suas instruções com interesse. Era como se nossa conversinha tola tivesse uma mágica qualquer. E penso que o verdadeiro mistério dos bem casados é que essas práticas mantêm sua eficácia por uma centena de anos. Quem vai explicar isso?  





Mande os seus saírem dos buracos, ele disse.
Não posso tirar ninguém de seu canto.
Já levantei o braço e daqui a pouco duzentos soldados vão estar aqui em cima de você, ele disse.
Então seremos duzentos e dois.
Onde estão os seus?
Hieronymus Bosch: navio dos loucos
Estão do seu lado.
Como assim?
Os meus estão do seu lado, eu disse.
Você agora está sozinho.
Eu estou com você, eu disse.
Você está preso e agora vai morrer.
Você também.
Como assim?
Você também vai morrer.
Eu vou morrer de quê? Quem vai me matar?
Isso importa?
Vou morrer mas não vou morrer agora, ele disse.
Você se importa com a hora certa?
Me importo que você agora esteja preso, ele disse.
Então pode baixar o braço.
Agora você vai ver o que vai lhe acontecer.
Agora somos duzentos e dois, eu disse.
E todos estão do meu lado.
São duzentos e dois os lados, eu disse.






Madame Góes é uma personagem dada a frases lapidares, daquelas que vemos nos parachoques de caminhões, balsâmicas às vezes, filosóficas outras, ditas naqueles momentos mais urgentes quando, então, redobra seu tom celestial. Eis algumas frases suas: 
  • Essa tendência de buscar coincidências de gosto e daí tirar um fio para mais, o começo de um contato continuado, ela me disse, isto é que é o verdadeiro sentido de uma vida sadia;
  • Maturidade nenhuma chega com o avanço da idade;
  • ... em matéria de sofrimento tudo é uma questão de memória e sempre, sempre e principalmente, da pura e simples comparação. 
  • A decência é o conjunto das exterioridades que, segundo a época em que se vive, harmonizam entre si a aparência da pessoa com o seu porte, sua linguagem, seu traje, seu modo de receber quem lhe procura, e assim por diante.
  • Para quem não tem vergonha o mundo inteiro parece que é só seu. 
  • O futuro pertence apenas aos espinhos no coração de Jesus.


Nunca entregue o que é seu de uma vez só.
Assim ninguém lhe dá valor;



Estamos sempre sendo arremessados ao confronto com a dureza daquilo que melhor estaria se fosse simplesmente esquecido.






       Na cama deitei Minie de costas e fiquei por cima, com cuidado por causa do meu peso. Ela é miudinha, parece um garoto de escola. Deitei nela e comecei a procurar. Ela afastou mais as pernas. Cheirei o seu pescoço e vi ali ao lado a tatuagem na descida do ombro direito, em direção às costas. Já tinha visto aquilo antes. Era um cavalo-marinho esverdeado, que agora estava de frente para mim, me olhando com aquela expressão curiosa.  Beijei várias vezes essa figura e, enquanto entrava em Minie, comecei a lamber o sal daquele animalzinho que me acenava mergulhado dentro da pele de minha amiga. Digo apenas que, após nosso encontro, quando então me aliviei, prontamente quis saber de Minie se ela precisava de um copo d'água ou que eu fosse buscar papel no banheiro. Ela disse que não. Ficou ali um tempo, de bom humor. Depois levantou e foi fazer alguma coisa no quarto, de que não me lembro, e só então saiu para se lavar. Foi caminhando completamente nua, era a primeira vez que via Minie assim, pelas costas, inteira, desprovida das roupas, indo dali adiante com a precisão ligeira dessas pernas, que agora me pareciam tão compridas. 
       Com essa tranquilidade, sem mostrar vigilâncias nem forçar absolutamente nada, ela fazia de um grande erro algo que nos chegava, de repente, como um bem durável e doce demais. 


A turba, a multidão, o populacho, com as pressões que exercem sobre o tino individual, acabam por nublar decisões que são as mais acertadas, decisões que têm a ver com o destino pessoal que cada qual traça minuto a minuto, dia após dia.



Grande vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2013, O sonâmbulo amador é um romance original, cativante e por vezes irônico, sobre os feitos nem sempre memoráveis de um homem marcado pela perda. Apesar de suas crises e incertezas, ele tenta se corrigir e acertar como marido, como funcionário, como amigo e até mesmo como herói. Jurandir é um pequeno funcionário da indústria têxtil pernambucana. Dias antes de se aposentar como chefe de segurança no trabalho numa tecelagem no interior de Pernambuco, empreende uma viagem ao Recife para resolver um processo trabalhista. A jornada prova-se um pesadelo; sem motivos aparentes, ele incendeia o carro da empresa e perde o controle de suas ações. Dois meses depois, é internado numa clínica psiquiátrica na cidade alta de Olinda e, a pedido de doutor Ênio, começa a escrever seus sonhos, que entrelaça com eventos do passado, relatos da juventude, suas opiniões e sua rotina de interno. Ao perder o limite das suas convicções, esmagado por eventos trágicos, tenta aceitar o passado e conviver com a precariedade do presente com a ajuda de um enfermeiro e de uma interna. Através do que Jurandir vê e narra, através mesmo do que ele tenta esconder, o leitor vai tomando consciência das tragédias que cercam a vida desse homem aflito: o acidente na juventude que o deixou manco; suas reflexões sobre a fragilidade das amizades; a traição e a crise no casamento; o desenlace fatal de seu único filho. Em quatro “cadernos”, José Luiz Passos mescla formas distintas de narrar — a vivência diária de Jurandir, seus sonhos, suas lembranças da juventude e do casamento, seus próprios textos sobre figuras do passado — para compor, gradualmente, um retrato comovente, que revela o personagem tanto no que ele diz quanto no que procura esconder.

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