CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

21 de agosto de 2017

Oblómov: Ivan Goncharov (Clássico)


Uma mestra na arte da leitura e da reflexão. Sobre " Oblómov", de Ivan Gontcharóv, em 14 /3/2014:

Posted by Clube de Leitura Icaraí on Sunday, March 16, 2014

Oblómov? Recomendo


Dostoiévski
 “ Oh, se eu não fizesse nada unicamente por preguiça! Meu Deus, como eu me respeitaria então! Respeitar-me-ia justamente porque teria a capacidade de possuir em mim ao menos a preguiça; haveria, pelo menos uma propriedade como que positiva, e da qual eu estaria certo. Pergunta: quem é? Resposta: um preguiçoso. Seria muito agradável ouvir isto a meu respeito. Significaria que fui definido positivamente; haveria o que dizer de mim. “Preguiçoso!” realmente é um título e uma nomeação, é uma carreira. Não brinqueis, é assim mesmo. Seria então, de direito, membro do primeiro dos clubes, e ocupar-me-ia apenas em me respeitar incessantemente. Conheci um cavalheiro que, a vida inteira, orgulhava-se com o fato de ser entendido em Laffite-(vinho francês Château-laffitte). Ele considerava isso sua qualidade positiva e nunca duvidava de si. Morreu com a consciência não só tranquila, mas triunfante até, e tinha toda a razão. E eu poderia, neste caso, escolher uma carreira para mim: seria preguiçoso e comilão, não do tipo comum, mas, por exemplo, dos que comungam com tudo que é ‘belo e sublime’¹. Que tal? Há muito que isto me vem à mente. Este “belo e sublime” apertou-me com força a base do crânio aos quarenta anos; sim foi aos quarenta, mas agora, oh, agora seria diferente! Imediatamente eu encontraria também o setor correspondente de atividade, ou, para ser mais exato: beber à saúde de tudo o que é belo e sublime. Eu me agarraria a toda oportunidade para, em primeiro lugar, verter uma lágrima na minha taça e, a seguir, esvaziá-la em intenção de tudo o que fosse belo e sublime; haveria de encontrar este belo e sublime até na mais ignóbil, na mais indiscutível das porcarias, e transformaria em belo e sublime tudo o que existisse no mundo. Tornar-me-ia lacrimejante como uma esponja molhada. Um pinto, por exemplo, pinta um quadro de Gué². Imediatamente, eu beberia à saúde do pintor que realizou o quadro de Gué, porque amo o que é belo e sublime. Um autor escreve “como apraz a cada um”³; imediatamente eu beberia à saúde de “cada um”, porque amo tudo o que é “belo e sublime”. E exigiria por isto respeito a mim mesmo, e perseguiria quem não me tributasse este respeito. Vive-se com tranquilidade, morre-se solenemente… É o encanto, um verdadeiro encanto! E eu criaria então um tal barrigão, armaria um tal queixo tríplice, elaboraria um tal nariz de sândalo que todo transeunte diria, olhando para mim: “Este é que é um figurão! Isto é que é verdadeiro e positivo!”. Seja o que quiserdes, mas é agradabilíssimo ouvir opiniões assim em nosso século de negação, meus senhores. ”



Nota de rodapé:



¹ Alusão à obra de Kant, ‘Observação sobre os sentimentos do belo e do sublime’ (1764). Segundo afirmação de I.Z. Siérman, em nota à edição soviética de 1956-1958, o livro tornou a expressão “belo e sublime” muito popular entre os críticos russo das décadas de 1830 e 1840.

² Alusão provável ao quadro de N.N. Gué (1831-1894) Vésperas secretas, exibido, em 1863, na exposição de outono da Academia de Belas Artes, e que provocou grandes discussões na imprensa, devido ao tratamento original, realista, de um tema religioso. Dostoiévski escreveria, em 1873, no ‘Diário de um escritor’, sobre o mesmo assunto: “No quadro… do Sr.Gué… saiu algo falso e uma ideia preconcebida, e toda falsidade constitui mentira e já não é realismo”.

³ Alusão ao artigo de Schedrin “ Como apraz a cada um”, publicado no ‘Sovrienmiérik (O Contemporâneo), em 1863.



Trecho do livro “Memórias do subsolo” de Fiódor Dostoiévski. 






O Oblómov brasileiro

Barriga é barriga, peito é peito e tudo mais.

Confesso que tive agradável surpresa ao ver Chico Anísio no programa do Jô, dizendo que o exercício físico é o primeiro passo para a morte..

Depois de chamar a atenção para o fato de que raramente se conhece um atleta que tenha chegado aos 80 anos e citar personalidades longevas que nunca fizeram ginástica ou exercício entre elas o jurista e jornalista Barbosa Lima Sobrinho mas chegou à idade centenária, o humorista arrematou com um exemplo da fauna: A tartaruga com toda aquela lerdeza, vive 300 anos. Você conhece algum coelho que tenha vivido 15 anos?

Gostaria de contribuir com outro exemplo, o de Dorival Caymmi. O letrista compositor e intérprete baiano era conhecido como pai da preguiça. Passava 4/5 do dia deitado numa rede,bebendo, fumando e mastigando. Autêntico marcha-lenta, levava 10 segundos para percorrer um espaço de três metros. Pois mesmo assim e sem jamais ter feito exercício físico viveu 90 anos.

Conclusão: 

Esteira, caminhada, aeróbica, musculação, academia? Sai dessa enquanto você ainda tem saúde... E viva o sedentarismo ocioso!!! 

Não fique chateado se você passar a vida inteira gordo. Você terá toda a eternidade para ser só osso!!!

Então: NÃO FAÇA MAIS DIETA!! Afinal, a baleia bebe só água, só come peixe, faz natação o dia inteiro, e é GORDA!!! O elefante só come verduras e é GORDOOOOO!!! VIVA A BATATA FRITA E O CHOPP!!!

Você, menina bonita, tem pneus? Lógico...todo avião tem!

Arnaldo Jabor




Conclamo todos os leitores a resistir passivamente, acomodando-se confortavelmente em uma chaise longue, por exemplo. Refugiem-se num esconderijo em que possam passar despercebidos, cultivando a própria preguiça, trabalhando o menos possível, evitando conflitos. Adequem-se docilmente a seja qual ditame organizacional taliônico vocês dependam, se existir algum. Isentem-se de responsabilidades, passem a batata quente aos motivados, curtindo, enrolando e esperando passivamente a próxima reunião do CLIc. Se der tempo, leiam o livro do mês! (Baseado em texto de Corinne Maier)


EXTRA! EXTRA! EXTRA! EXTRA! EXTRA! EXTRA! EXTRA! EXTRA! EXTRA! EXTRA!

"Edição 2009 de 5 a 11 de janeiro de 2014 
Euler de França Belém

Crime sem castigo: escritor russo é vítima de fraude editorial no Brasil

A Germinal Editora e a “tradutora” Juliana Borges copiam tradução e ferem os direitos autorais da Edições O Cruzeiro e do tradutor Francisco Inácio Peixoto
Capa da Edições Cruzeiro, à esquerda,
e da Germinal Editora
[Texto publicado no Jornal Opção na edição de 28 de novembro a 4 de dezembro de 2004]
Há quase 40 anos, em 1966, o romance “Oblómov”, do russo Ivan Alexandrovitch Gontcharóv (1812-1891), foi publicado no Brasil pela Edições O Cruzeiro (do Rio de Janeiro), na coleção Romances Eternos, com tradução do escritor e industrial mineiro Francisco Inácio Peixoto, possivelmente do francês. Trinta e cinco anos depois, em 2001, a obra sai pela segunda vez, com o selo da Germinal Editora (de São Paulo), pela coleção também intitulada Romances Eternos, com tradução de Juliana Borges. Uma professora me alertou que a “nova” edição era/é, na verdade, plágio da tradução do modernista Francisco Inácio Peixoto. Publiquei uma nota na coluna Imprensa e sugeri que algum leitor me apresentasse provas. Na semana passada, o professor-doutor Anselmo Pessoa, da Universidade Federal de Goiás, entregou-me uma cópia da tradução do escritor que fundou a revista “Verde” e pude compará-la com a versão da Germinal. Antes de examinar a fraude, mostrando que as duas traduções são idênticas do começo ao fim, cito parte de um artigo (Oblómov, obra-prima assassinada pela edição) do jornalista Arthur Danton, publicado no site Todapalavra (www.todapalavra. jr.br), que, competente e perspicaz, chega perto de descobrir o crime cometido pela Germinal e pela tradutora Juliana Borges, se este nome não for invenção da editora.
Escreve Arthur Danton: “A publicação no Brasil de Oblómov, romance do russo Ivan Gontcharóv — uma das obras-primas da literatura ocidental —, pela Germinal Editora (SP), pode ser considerada, por suas vicissitudes, um caso editorial para lá de curioso. Publicado na Rússia em 1859, o livro trata da vida do plácido Ilia-Ilytch Oblómov, um bárin (senhor de terras) que, quando o conhecemos, às primeiras linhas, vive tranquilamente em seu apartamento de São Petersburgo, aos trinta e poucos anos, com o criado e a empregada. Tal foi o sucesso do romance que o nome criado pela própria personagem para explicar sua passividade — ‘Oblómovchtina’, ou Oblómovismo — passou a designar, na Rússia da segunda metade do século 19, uma atitude um tanto cética diante da realidade.

“Em artigo sobre o livro publicado no ano passado, na ‘Folha de S. Paulo’ [em 2002 — o texto de Arthur Danton é de 2003], o jornalista José Maria Cançado reclama da tradução, para ele muito ruim [José Maria Cançado escreve que a tradução “de” Juliana Borges “é pateticamente ruim, com um acúmulo inacreditável de erros gramaticais, de vírgulas estúpidas, embora se deva dizer que vale assim mesmo a leitura, tal é indestrutível a grandeza do romance”). Bom, começa por aí o tal caso curioso. Pois o fato é que a tradução, ao contrário, parece ser de alta qualidade! Verte para o português, com clareza e elegância estilística, os muitos climas, moods e nuances da longa e envolvente narrativa (552 páginas). Claro, para um juízo mais justo deveríamos ler também no original, seguindo o conselho de Nabokov — ao comentar a obra de Gógol —, para quem é preciso aprender o idioma para fruir na totalidade o prazer proporcionado pelas mil sutilezas do texto do autor.
“Mas o problema da publicação do romance no Brasil está exatamente em ter sido mal editado. Ao perceber a quantidade absurda de erros gramaticais e de todo tipo, tive a paciência de contá-los. Há nada menos que 270 incorreções, o que deve ser algum recorde. Incluindo erros de digitação, inversão de letras, repetição de palavras, além da ausência de crases que esvaziam de sentido o texto. Nestes 270 não estão incluídos os muitos erros de pontuação: vírgulas, principalmente elas, uma torrente, desde as simplesmente desnecessárias até as incorretas, que corrompem o sentido da frase. Devido à péssima revisão (ou à não-revisão), encontram-se, aqui e ali, pérolas como ‘obserdantes’, ‘prenúncias’, ‘cantinelas’, ‘protestades’, ‘luzídia’, ‘ressumiavam’.
“O dado curioso é que o elegante texto da tradutora (Juliana Borges), quase assassinado pela digitação aloprada, contém vários arcaísmos, principalmente formas verbais antigas: ‘falseam’, ‘fôste’, ‘fôra’, ‘lêste’, ‘instrues’. Ou seja, parece que se está diante da recuperação de um texto produzido há anos [grifo do Jornal Opção]. Fico curioso em conhecer a história da publicação deste livro no Brasil... Na tradução, apenas um equívoco: trasladar literalmente Nevski Prospekt, o que resulta em ‘Perspectiva Nevski’, algo ininteligível a princípio. Trata-se da Avenida Nevski, a principal de São Petersburgo, presença marcante em tantas histórias que se passam na cidade e que é quase a personagem de uma pequena obra-prima de Gógol, Avenida Nevski. Nada que um editor com conhecimentos mínimos sobre a Rússia não pudesse ter corrigido.


“Mas o livro é tão bom que, apesar de tudo, ainda vale a pena ser lido (mesmo!).”

Arthur Danton (como José Maria Cançado) observa que Otto Carpeaux considerava Oblómov uma obra-prima — “o romance do ‘enfado universal infinito’”.

Na dúvida, Arthur Danton não afirma, mas sugere: “Parece que se está diante da recuperação de um texto produzido há anos”. Ele está certo, embora não tenha ido mais longe na sua crítica certeira. Comparando as “duas” traduções descobre-se que, na verdade, a Germinal tão-somente copiou a versão da Cruzeiro e mudou o nome do tradutor. Curiosamente, o jornalista mineiro José Maria Cançado, biógrafo do modernista Carlos Drummond de Andrade, não percebeu a fraude. No quadro ao lado, publico o início e o fim do livro e o leitor poderá verificar que “Juliana Borges” copia até os “erros” (alguns nem são erros, pois o livro foi publicado antes da reforma ortográfica de 1971. A Germinal fez algumas correções e manteve alguns “falhas”) da versão de Francisco Inácio Peixoto. (Outra revelação notável de Arthur Danton: o ensaísta percebe, ao contrário de José Maria Cançado, a fluência e a elegância da tradução, apesar de a tradução ser indireta. Francisco Inácio Peixoto, escritor, era ligado aos modernistas mineiros e encomendou projetos para Oscar Niemeyer já no início da década de 40, antes de Juscelino Kubitschek. Não era, pois, néscio.)
A Germinal abala sua reputação e seu belo nome."
Extraido do Jornal Opção


... minha vida hoje é um poema ... que outra atividade esperam de mim? Poderia eu estar mais ocupado do que estou? ... Diz-se dos americanos que não fazem senão trabalhar, que só pensam no trabalho. Viajam pela Europa, alguns vão mesmo até a Ásia e a África sem a menor necessidade. Seja para colecionar fotografias, esquadrinhar ruínas antigas, seja para caçar leões ou pegar serpentes, ... só sabem me dizer "trabalha, trabalha como um cavalo". Para quê? Estou bem alimentado e bem vestido!


Meu Deus, como é bom viver!


Oblomovismo: 

  1. Buscar o equilíbrio;
  2. Jamais exigir de alguém uma coisa francamente contrária aos seus desejos;
  3. Jamais contrariar a vontade de uma pessoa querida ou desprezar seus conselhos;
  4. A confiança é a base da felicidade recíproca.

... talvez, então, tenha atingido a plena maturidade, ... aquele momento em que a vida cessa de multiplicar-se em nós ... quando não há mais problemas, quando todos eles estão resolvidos.


"Em tudo o que fizeres, apressa-te lentamente." (Augusto)




Do momento em que Olga concebe um propósito, todas as suas faculdades se movimentam. Não fala mais de outra coisa. E, mesmo quando cala, sente-se que o tem sempre presente na ideia, que não o esquecerá, não renunciará a ele, não se deixará deter, que pesará os prós e os contras e que atingirá o alvo.

Oblomov não podia compreender donde lhe vinha tanta força, esse tato, essa faculdade de apegar-se, de agir em face de algum acontecimento qualquer...

"Isso provém, julgava ele, do fato de que uma de suas sobrancelhas jamais se alinha com a outra, está sempre um pouco levantada; em cima, forma-se um vinco apenas perceptível... ali, nesse vinco, aninha-se sua obstinação."

...

Muitas mulheres não estão nunca muito seguras do que querem. Se tomam uma decisão, fazem-no sempre frouxamente, interrogando se é preciso ou não. Deve-se isso, com certeza, às suas sobrancelhas, que são regulares, traçadas em arco de círculo, sabidamente adelgaçadas com os dedos, bem como às suas frontes sem rugas, sem um vinco...

"Uma tarde, interrogou-o acerca das estrelas binárias. Teve ele a imprudência de se referir a Herschel, foi mandado à cidade para ler o livro e voltou para explicar o fenômeno, afim de satisfazer a curiosidade de Olga."


Estrelas binárias


O amor próprio é a única alavanca que comanda a vontade. Se não nos importarmos com a gente mesmo, caímos num oblomovismo decadente. 


Nebulosa do Esquimó, descoberta por Herschel 








Homenagem à Maria Marlie, a nebulosa do CLIc.











Oblomovshchina


In poetic language, Oblomov describes for his friend Stolz the ideal life he has created and planned for himself. This life is characterized by quiet strolls, homemade ice cream and the simple delicacies of estate life. Stolz criticizes this dreamlike existence, saying, “You’re drawing me the exact same thing your
fathers and grandfathers had” (194). From Oblomovs view, his lifestyle represents a type of “paradise lost” (196) that his ancestors attained. Stolz disagrees, and in introducing his opinion, he coins the word that is now permanently a part of the Russian language.
            Stoltz first uses the word “Oblomovshchina” on page 196. Since then, the word—обломовщина—translated in various English translations as “Oblomovism,” has become a noun in the Russian language that appears in every Russian dictionary.  
            “Until we’re old and gray, to the grave. That’s the life!”
            “No, it’s not!”
            “How is it not? What’s missing? Just think about it. You would never see a single pale face full of suffering, a single care, a single question about the Senate, the stock exchange, shares, reports, meetings with the minister, ranks or allowance increases. And all the conversations to your liking! You would never have to move from your apartment—that alone is worth it! That isn’t the life?”
            “No, it’s not!” repeated Stolz stubbornly.
            “Then what is it, in your opinion?”
            “It’s …” Stolz began to think and search for what to call this life. “It’s … Oblomovshchina,” he said at last.
            “O-blo-mov-shchi-na!” Ilya Ilich pronounced it slowly, amazed at this strange word and breaking it into syllables. “Ob-lo-mov-shchi-na!”
            He stared strangely at Stolz.
            “Where does life’s ideal lie, in your opinion? What is it if not Oblomovshchina?” he asked timidly, deflated. “Doesn’t everyone want what I dream of? Gracious!” he added more boldly. “You mean the purpose of all your running, passions, wars, commerce, and politics isn’t your portion of serenity, not the desire for this ideal of paradise lost?”
            “Even your utopia is Oblomovan,” objected Stolz. (196)



обломовщин|а,ы f. ‘oblomovism’ (sluggishness and indecision, as typified by the hero of Goncharov’s novel ‘Oblomov’). Oxord Russian-English Dctionary. 2nd ed. 1984.



обломовщин|а,ы f. Oblomovism, lethargy, apathy. Oxford Russian Dictionary. 3rd ed. 2000.



(Note: the word can be found between обломаться—”to break off,” “snap,” or “fail” and обломок—”fragment” or “debris,” the diminutive of облом, (the noun from обломаться) meaning “breaking off,” “failure” or “misfortune.”



Oblómov, by Lis Andrade


Stoltz temia acima de tudo a  imaginação, essa companheira ambígua, de aparência afável por um lado e, por outro, hostil. Amiga, se nos precavermos contra ela; inimiga, se adormecemos crédulos ao embalo de suas cantinelas ... colocava acima de tudo a tenacidade no perseguir um objetivo: era isso, a seu ver, um índice de caráter.

Querem um conselho? Excesso de imaginação faz mal à saúde!

"Em amor, o mérito adquire-se de maneira cega, ilógica, e nessa cegueira, nessa ausência de lógica reside a felicidade."

O casamento é um assunto poético, é verdade, mas também material, oficial, relativamente a uma realidade substancial e grave, relativamente a toda uma série de severas obrigações.

Não se ama duas vezes na vida. É imoral! A mulher virtuosa só ama uma vez.

Que outros revelem os aspectos inquietantes da vida, movam suas forças construtivas e destrutivas. Cada um tem a sua predestinação! (Oblómov, o Platão de chambre)

"Como, amanhã? Vocês são, todos, apressados, parece que estão com o pai na forca! Vamos refletir, voltaremos a falar no assunto e depois ... seja como Deus quiser!"

"Há pessoas que não têm mais o que fazer senão falar. É uma vocação como qualquer outra."





Only once was the monotony of Oblomovkan life broken by a wholly unexpected circumstance. The household, exhausted by the labours of dinner, had assembled for tea, when there entered a local peasant who had just been making an expedition to the town. Thrusting his hand into his bosom, he with difficulty produced a much-creased letter, addressed to the master of the house. Every one sat thunderstruck, and even the master himself changed countenance. Not an eye was there which did not dart glances at the missive. Not a nose was there which was not strained in its direction. 

"How unlooked for!" at length said the mistress of the household as she recovered herself. "From whom can the letter have come?" 

Old Oblomov took it, and turned it over in his hands, as though at a loss what to do with the epistle. 

"Where did you get it from?" he inquired of the peasant. "And who gave it you?" 

"I got it at the inn where I put up," replied the man. "Twice did folk come from the post-office to inquire if any peasantry from Oblomovka were there, since a letter was awaiting the barin. The first time they came, I kept quiet, and the postman took the letter away; but afterwards the deacon of Verklevo saw me, and they came and gave me the letter, and made me pay five kopecks for it. I asked them what I was to do with the letter, and they said that I was to hand it to your Honour." 

"Then at first you refused it?" the mistress remarked sharply. 

"Yes, I refused it. What should we want with letters? We have no need for them, nor had I any orders to take charge of such things. So I was afraid to touch it. 'Don't you go too fast with that thing,' I said to myself. Yet how the postman abused me! He would have complained to the authorities had I left the letter where it was." 

"Fool!" exclaimed the lady of the house. 

"And from whom can it be?" said old Oblomov meditatively as he studied the address. "Somehow I seem to know the handwriting." 

Upon that the missive fell to being passed from one person to another; and much guessing and discussion began. Finally the company had to own itself nonplussed. The master of the house ordered his spectacles to be fetched, and quite an hour and a half were consumed in searching for the same; but at length he put them on, and then bethought him of opening the letter. 

"Wait a moment," said his wife, hastily arresting his hand. "Do not break the seal. Who knows what the letter may contain? It may portend something dreadful, some misfortune. To what have we not come nowadays? To-morrow, or the day after, will be soon enough. The letter will not walk away of itself." 

So the letter was placed under lock and key, and tea passed round. In fact, the document would have lain there for a year, had it not constituted a phenomenon so unusual as to continue to excite the Oblomovkans' 
curiosity. Both after tea and on the following day the talk was of nothing else. At length things could no longer be borne, and on the fourth day, the company being assembled, the seal was diffidently broken, and old Oblomov glanced at the signature. 

"Radistchev!" he exclaimed. "So the message is from Philip Matveitch!" "Oh! Ah! From him, indeed?" resounded on all sides. "To think that he is actually alive! Glory be to God! And what does he say?" 

Upon that old Oblomov started to read the letter aloud. It seemed that Philip Matveitch desired him to forward the recipe for a certain beer which was brewed at Oblomovka. 

"Then send it, send it," exclaimed the chorus. "Yes, and also write him an answer." 

Two weeks elapsed. 

"Really we must write that note," old Oblomov kept repeating. "Where is the recipe?" 

"Where is it? " retorted his wife. "Why, it still has to be looked for. Wait a little. Why need we hurry? Should God be good, we shall soon be having another festival, and eating flesh again. Let us write then. I tell you, the recipe won't run away." 

"Yes, I daresay it would be better to write when we have reached the festival."

Sure enough, the said festival arrived, and again there was talk of the letter. In fact, old Oblomov did in truth get himself ready to write it. He shut himself up in his study, he put on his spectacles, and he sat down to the table. Everything in the house was profoundly quiet, since orders had been issued that the establishment was not to stamp upon the floor, nor, indeed, to make a noise of any kind. "The barin is writing," was said in much the same tone of respectful awe that might have been used had a dead person been lying in the house. 

Hardly had old Oblomov inscribed the words "Dear Sir"--slowly and crookedly, and with a shaking hand, and as cautiously as though he had been engaged in a dangerous task--when there entered to him his wife. 

"I have searched and searched," she said, "but can find no recipe. 

Nevertheless the bedroom wardrobe still remains to be ransacked, so how can you write the letter now?" 

"It ought to go by the next post," her husband remarked. 

"And what will it cost to go?" 

Old Oblomov produced an ancient calendar. "Forty kopecks," he said. 

"What? You are going to throw away forty kopecks on such a trifle?" she exclaimed. "We had far better wait until we are sending other things also to the town. Let the peasants know about it." 

"That might be better," agreed old Oblomov, tapping his pen against the table. With that he replaced the pen in the inkstand, and took off his spectacles. 

"Yes, it might be better," he concluded. And to this day no one knows how long Philip Matveitch had to wait for that recipe. 


Princípio



"A vida é um espetáculo!"
Goncharov antecipa aqui uma visão que Saramago repetirá em "O ano da morte de Ricardo Reis"

"Ama-se apenas uma só vez na vida!"

Alguém pensa seriamente que se pode deixar de amar?
... Com você junto de mim, não me amedrontará o destino.

"Entre um homem e uma mulher não existe amizade"

"Não entrego nunca aquilo que, uma vez, entendi ser meu, a menos que o tomem de mim."

"Como pode alguém se condenar a ocupar-se diariamente com as notícias do mundo?"


Обломов

Conheça o supremo drama humano entre o sentimento do eterno.e a experiência da necessidade no cotidiano.

Oblomov é um jovem e generoso nobre que procrastina decisões e ações supostamente importantes em sua vida.

Até que ponto a vida vale a pena, a ambição tem sentido? O que significa viver bem e o que realmente compensa na jornada que compartilhamos, todos?

Meio 




Suddenly old Oblomov would (to take a typical incident) halt in the middle of his pacing, and clap his hand anxiously to the tip of his nose; whereupon there would ensue some such dialogue as the following:-- 

The master of the house: What on earth is the matter with me? See! Some one must have passed away, for the tip of my nose is itching!

His wife: Good Lord! Why should any one have passed away because the tip of your nose is sore? Some one has passed away only when the bridge of one's nose is hurting one. What a forgetful man you are, to be sure! Were you to say a thing like that before strangers, you would make us blush for you. 

The master of the house: But every part of my nose is hurting me? 

His wife: Pain at the side of it means news to come; in the eyebrows, sorrow; in the forehead, a greeting; on the right side, a man; on the left side, a woman; in the ears, rain; in the lips, a kiss; in the whiskers, a present of something to eat; in the elbow, a new place to sleep in; and in the sole of the foot, a journey. 

And so forth, and so forth. 


Fim



In his dream Oblomov saw not only an evening spent in this manner, but whole weeks and months and years of such evenings. Never did anything occur to interrupt the uniformity of that life, nor were the Oblomovkans in any way wearied by it, since they could conceive no other existence, and would have turned from any other with distaste. Had there been imported into that existence any change due to circumstances, they would have regretted the fact, and felt troubled by the thought that to-morrow was not going to be precisely as to-day. What wanted they with the diversity, the changes, the incidents, for which others yearned? "Let others drink of that cup," said they; "but for us Oblomovkans--no such thing. Let others live as they please." Incident--even pleasing incident--they considered to bring disturbance and fuss and worry and commotion in its train, so that one could not sit quietly in one's seat and just talk and eat one's meals. Therefore, as decade succeeded decade, the Oblomovkans dozed and yawned, and indulged in good-humoured laughter at rustic jests, and assembled in corners to relate of what they had dreamed during the previous night. 





20 de agosto de 2017

Goethe e a Solidão: Antonio Rodrigues




“Quando sentimos falta de nós mesmos, falta-nos tudo.”

Outro dia reli o clássico “Os sofrimentos do jovem Werther”, de J. W. Goethe, a procura da frase acima, que o meu esforço de memória não me havia feito recordá-la com precisão. A certa altura, finalmente, a encontrei na página 75 da 6ª edição da editora Estação Liberdade.

A pós-modernidade, de certa forma, nos roubou a experiência da solidão. E não só nos roubou como nos legou uma verdadeira ojeriza, um inaudito pânico da solidão. A solidão vista assim é um mal a ser evitado, preenchido com mil coisas, pois ela pode nos levar a experiência da depressão (?).

Mas o que seria a solidão? Em abordagem sobre o tema, a Revista Superinteressante traz a fala do psicólogo existencial Jadir Lessa, que recorre a Heidegger:

“O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) afirma em Ser e Tempo que estar só é a condição original de todo ser humano. Que cada um de nós é só no mundo. É como se o nascimento fosse uma espécie de lançamento da pessoa à sua própria sorte. Podemos nos conformar com isso ou não. Mas nos distinguimos uns dos outros pela maneira como lidamos com a solidão e com o sentimento de liberdade ou de abandono que dela decorre, dependendo do modo como interpretamos a origem de nossa existência. O homem se torna autêntico quando aceita a solidão como o preço da sua própria liberdade. E se torna inautêntico quando interpreta a solidão como abandono, como uma espécie de desconsideração de Deus ou da vida em relação a ele. Com isso abre mão de sua própria existência, tornando-se um estranho para si mesmo, colocando-se a serviço dos outros e diluindo-se no impessoal. Permanece na vida sendo um coadjuvante em sua própria história.”

Não quero aqui definir nada sobre essa questão complexa da solidão. Quero apenas provocar-lhes uma reflexão. Será que a pós-modernidade nos fez chegar ao ponto de sentirmos falta de nós mesmos? E sentir falta de nós mesmos seria a expressão máxima do vazio existencial? 

Antonio Rodrigues
Deixo aqui outro belo fragmento de "Os sofrimentos", na página 22 da edição citada, uma contribuição da literatura à reflexão sobre a urgente questão da solidão, uma questão do nosso tempo , mas também  uma questão intemporal do homem. Um possível encontro de "si consigo mesmo", e daí um encontro fecundo com o mundo:  

"Volto-me para dentro de mim mesmo e encontro um mundo! Mais de pressentimentos e desejos que de raciocínios e forças vitais. E então, tudo flutua ante meus olhos, sorrio e sonhando penetro ainda mais neste mundo."


19 de agosto de 2017

Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa


video



17/08/2017
19:00h

Varanda do Teatro da UFF







“Diadorim levantou o braço, bateu mão. Eu ia estugar, esporeei, queria um meio-galope, para logo alcançar os dois. Mas, aí, meu cavalo f’losofou: refugou baixo e refugou alto, se puxando para a beira da mão esquerda da estrada, por pouco não deu comigo no chão. E o que era que estava assombrando o animal, era uma folha seca esvoaçada, que sobre se viu quase nos olhos e nas orêlhas dele. Do vento. Do vento que  vinha, rodopiado. Redemoinho: o senhor sabe – a briga de ventos. O quando um esbarra com o outro, e se enrolam, o dôido espetáculo. A poeira subia, a dar que dava escuro, no alto, o ponto às voltas, folharada, e ramarêdo quebrado, no estalar de pios assovios, se torcendo turvo,
esgarabulhando. Senti meu cavalo como meu corpo. Aquilo passou, embora, o ró-ró. A gente dava graças a Deus. Mas Diadorim e o Caçanje se estavam lá adiante, por me esperar chegar. – “Redemunho!” – o Caçanje falou, esconjurando. – “Vento que enviesa, que vinga da banda do mar…” – Diadorim disse. Mas o Caçanje não entendia que fosse: redemunho era d’Ele – do diabo. O demônio se vertia ali, dentro viajava. Estive dando risada. O demo! Digo ao senhor. Na hora, não ri? Pensei. O que pensei: o diabo, na rua, no meio do redemunho…Acho o mais terrível da minha vida, ditado nessas palavras, que o senhor não deve nunca de renovar. Mas, me escute. A gente vamos chegar lá. E até o Caçanje e o Diadorim se riram também. Aí, tocamos.” (p.262)





NONADA!

O alemão Berthold Zilly foi o tradutor da última versão de Grande Sertão para o alemão. Quando estava em processo de tradução, o "Jornal Cândido", da Biblioteca Pública do Paraná, publicou uma entrevista com ele, que já havia traduzido para o alemão "Lavoura Arcaica", Os sertões e "O triste fim de Policarpo Quaresma. Deixo aqui a pergunta sobre a questão da palavra "nonada": 

- A primeira palavra de Grande sertão: veredas é “nonada”, um termo que tem um significado enigmático na boca de Riobaldo. O senhor poderia explicar como verterá ao alemão esse tipo de palavra, que, ao longo das mais de seiscentas páginas do livro, se prolifera?


- “Nonada” realmente é uma palavra-chave, com seis ocorrências no total em Grande sertão: veredas, a primeira abrindo o romance e a última, de certa maneira, fechando-o, já que ocorre na penúltima linha da última página. Esta palavra constitui, além disso, o antônimo ao último sinal gráfico do livro, que é o símbolo do infinito. Assim, o movimento da trama e das ideias de certa maneira vai do quase nada ao infinito. Assim como muitas outras palavras e frases do livro, esta é por um lado coloquial e quase banal, tão banal quanto o sentido dela, ou seja: “coisa sem importância, um quase nada”, sendo por outro lado palavra estranha, rara, enigmática, principalmente no início, sendo esclarecida depois, parcialmente, pelo contexto. Esta tensão entre o corriqueiro, o popular, o cotidiano por um lado e o estranho, o enigmático, o hermético, por outro lado, é também uma característica do romance todo. Aliás, diferentemente de muitas outras palavras do livro, esta não é um neologismo rosiano, pois é uma palavra popular e meio antiquada, caída em desuso hoje, que se encontra em vários autores do século XIX e do início do século XX, inclusive em Os sertões, de Euclides da Cunha. Como vou traduzi-la? Ainda não sei, estou procurando uma expressão mais ou menos equivalente que também seja curta e concisa, popular, meio datada, e que tenha, no plano sonoro, pelo menos um elemento repetitivo, já que “nonada” tem até dois fonemas repetidos, o “n” e o “a”. Infelizmente, em alemão não temos uma palavra equivalente em termos semânticos, estilísticos e fonéticos, diferentemente do italiano, que tem “nonnulla”, ou o francês, que tem “que nenni”, e também não posso fazer o que fizeram os tradutores para o espanhol, que simplesmente mantêm “nonada”, que é neologismo em espanhol, mas que funciona nesse idioma, já que tem aí uma qualidade auto-explicativa. Em quatro das seis ocorrências, a palavra “nonada” constitui uma frase, o que não facilita a tarefa do tradutor. Estou cogitando diversas soluções, mas nenhuma me agrada muito. Antes de tomar uma decisão sobre a tradução desta palavra introdutória do livro todo, tenho que ver como os possíveis equivalentes funcionam nas outras cinco ocorrências de “nonada”. Pois quando a gente traduz uma palavra-chave com várias ocorrências, a gente deve tentar manter essa isotopia, ou seja, a igualdade do meio expressivo em todas as suas ocorrências, para que ele possa ser identificado pelo leitor do texto-alvo como elemento estruturador e orientador, função que tem no texto de partida e que o tradutor precisa respeitar. Em outras palavras: é desejável traduzir “nonada”, nas suas seis ocorrências, sempre de modo idêntico.





Viver - não é? - é negócio muito perigoso!