CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

15 de janeiro de 2017

Revivendo leituras passadas - O Filho Eterno: Cristovão Tezza




Livros disponíveis na barraquinha da Joana no Campo de São Bento nos finais de semana 

Rio da Flores: Miguel de Souza Tavares - 02 exemplares
Lolita: Nabokov - 10 exemplares
Na praia: Ian McEwan - 01 exemplar
A desumanização: Valter Hugo Mãe - 01 exemplar
O clube da Felicidade e da Sorte: Amy Tan - 01 exemplar
O arroz de Palma: Francisco Azevedo - 01 exemplar
O dia do Curinga: Jostein Gaarder - 01 exemplar
Cemitério dos vivos: Lima Barreto - 02 exemplares
Incidente em Antares: Érico Veríssimo - 02 exemplares
O livro das Ilusões: Paul Auster - 01 exemplar




Visitei a banquinha de livros usados da APAE que fica localizada logo na entrada do Campo de São Bento, à direita,  pelo portão da Rua Gavião Peixoto,  e fiquei muito bem impressionado com a organização e variedade de títulos. Livros usados super bem conservados, alguns pode-se dizer novos, e num local muito agradável, onde conhecemos pessoas interessantes para uma boa conversa. A barraquinha é um charme comandada pela vibrante Cliceana Joana Darc Lapa que está de parabéns pelo belíssimo trabalho.






 

02/04 -Dia de Conscientização do Autismo




21 de Março - Dia Internacional da Síndrome de Down

Movimento Down

Nossa musa do "CLIc na Beleza" - Niterói Down

Joana em ação




  

O Filho Eterno: Cristovão Tezza 

 

 

Debatido no CLIc em 30/10/2009





Divulgação da EdUFF para a reunião de outubro 2009


Pai em idade avançada tem neto com maior risco de autismo, diz estudo


14 de janeiro de 2017

Clube da Lua: sobre voos e fases Cecília Meireles


VOO

Alheias e nossas
as palavras voam.
Bando de borboletas multicolores,
as palavras voam.
Voam as palavras
como águias imensas,
como escuros morcegos,
como negros abutres,
as palavras voam.
Oh! Alto e baixo
em círculos e retas
acima de nós, em redor de nós,
as palavras voam.

E às vezes pousam...

Cecília Meireles – Obra Poética




Lua Adversa
(Cecília Meireles)

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu... 




13 de janeiro de 2017

Os melhores livros de 2016 na opinião de participantes de clubes de leitura

Olá queridos!
Estou reproduzindo o post do meu Blog Mar de Variedade. 
Esse é o último post do ano, então, tem que ser especial.
Convidei participantes de três clubes de leitura dos quais faço parte, para dizerem quais foram seus livros favoritos do ano. Falei que não precisava ser livro lido no clube, pois o objetivo é indicarmos livros especiais, para inspirarmos os leitores. Nem todos conseguiram escolher apenas um favorito, mas dá para entender, diante de tantos livros excelentes!

Eu já falei que o meu favorito do ano foi Frankenstein, de Mary Shelley: Apesar de ser um clássico do terror, a escrita da autora é poética. O livro me surpreendeu muito positivamente, por isso achei que cabia o primeiro lugar.



Vamos às opiniões dos meus colegas dos seguintes clubes:
Clube de leitura Icaraí- CLIc;
Clube de leitura Leia mulheres Niterói-RJ;
Clube de leitura - O livro de areia (grupo de leitura no whatsapp).

Evandro Paiva de Andrade - Moderador do Clube de leitura Icaraí- O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati: "O deserto dos tártaros é uma extraordinária alegoria da existência humana cujo fundamento parece ser crer e esperançar, seja Canaã, Godot ou os Tártaros e, afinal, resignar-se perante o que se construiu ilusoriamente."



Léo Gomes - participante dos três clubes de leitura citados- O Deserto dos Tártarosde Dino Buzzati: "Camadas de interpretações, discurso fluido, histórias dentro da história. Um grande livro."

Antônio Rodrigues - Participante do Clube de leitura Icaraí e moderador do Clube de leitura O livro de areia- Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus: "'Quarto de Despejo' mexeu profundamente comigo. Esse rebuliço que um livro faz dentro de nós é o que importa ao final da leitura. Se um livro não buliu com nossas entranhas sentimentais, então não é digno de ser lembrado."



Ana Castelhano - Participante do Clube de leitura Icaraí-  Também elegeu Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus.

Inês Drummond - Participante do Clube de leitura Icaraí- Mulheres de Cinzas, do Mia Couto; Poemas escolhidos, do Mia Couto; Por enquanto agora, de Maria Christina Monteiro de Castro: "Bem, Mia Couto é maravilhoso. Sou uma perfeita Miete. Fala da dor e da beleza de existir. É sensível, poético... Por enquanto agora é dinâmico, engraçado, triste. Fala sobre Mulheres, família..."






Rose Pinto- Participante do Clube de leitura Icaraí- A Jangada de Pedra,  de José Saramago: "Quase uma fábula, A Jangada de Pedra narra a fictícia separação da península ibérica do continente. Contada através de um realismo mágico, a narração possui mais de uma voz narrativa e o narrador, muitas vezes, se coloca dentro do texto, estimulando várias reflexões. 
Traz personagens femininas de caráter forte, que tomam iniciativas e constroem seu destino.
Lírico do início ao fim, em muitos trechos a prosa se torna poesia."



Pastoral Americana, Philip Roth: "Tendo como personagem central um jovem judeu bonito, exemplar e bem sucedido - profissional e emocionalmente -, e perfeitamente ajustado e orgulhoso da sociedade norte-americana, mostra, no desenrolar do livro que 'tudo que é sólido se desmancha no ar'.
Narrativa fluida, onde tudo parece ser necessário à construção dos cenários e às características psicológicas dos personagens, traz como pano de fundo a política e a guerra do Vietnã, mas o que mais me impressionou foi a capacidade de aprofundar o comportamento dos personagens e mostrá-los sob os mais variados aspectos contraditórios."




Ceci Lohmann - Participante do Clube de leitura Icaraí- A Trégua, de Mário Benedetti.




Elenir Teixeira - Participante do Clube de leitura Icaraí- O Mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, de Evandro Affonso Ferreira: "Livro que considero excelente, opinião não compartilhada por todos, que o classificaram de deprimente, cansativo, entediante, chato etc.
Sim, deprimente, fala de criaturas miseráveis, alcoólatras, viventes em condições sub-humanas, sem casa, usando um tatame como teto, ou seja, vivendo num submundo, fedentinosos, desvalidos, patéticos e constrangedores. Contudo, mesmo vivendo à margem, sofrem, amam, se irmanam, têm lembranças, momentos de alegria, embora raros... E, no meio de todos eles, há um homem erudito, sofrido, com muitas cicatrizes na alma, que vagueia pelas ruas acompanhado pelos Adágios, de Erasmo de Rotterdam, os quais, segundo ele, são seus salmos, trazendo-os na memória, e pela infinita tristeza e solidão sofridas desde que sua amada o abandonou, há dez anos, deixando-lhe, apenas, um lacônico bilhete: 'Acabou-se. Adeus.' Mantendo a esperança de seu retorno, ele repete sua 'meta mântrica: Ela virá, eu sei.' Dizendo ainda: 'Amada aquela que levantou âncora jamais deixarei cair da memória: está tatuada em mim. Deveria ser contrário às leis da natureza abandonar crianças e poetas: somos frágeis demais.' Tudo isso, levou-me a conhecer melhor esses pobres indivíduos marginalizados, o submundo por eles habitado, emocionando-me. No livro, encontrei amor; poesia; ternura; erotismo; fraternidade; vida..." 





Solange Pinheiro-  Participante do Clube de leitura Icaraí- Panta Rei, de Luciano de Crescenzo.




Roberta Priscila - Participante do Clube de Leitura O livro de areia - O Último dos Canalhas, de Loretta Chase: "Um romance épico, empolgante, nem vulgar, nem sem sal, onde se percebe o poder real de uma mulher e de como ela pode mudar o maior de todos os cafajestes e ensinando o sentido do verdadeiro amor."



Midian Cruz- Participante do Clube de Leitura O livro de areia - Como eu era antes de você, da Jojo Moyes: "Sem dúvidas eu ameiiii 'Como eu era antes de você' de Jojo Moyes. É um romance de motivações e inspirações para seguir em frente. A vida é uma caixinha de surpresas que deve ser vivida a cada momento."




Geovanny Luz - Participante do Clube de Leitura Leia Mulheres Niterói-RJ -  A Revolução dos bichos, de George Orwell.



Janaina Soares (Nina) - Participante do Clube de Leitura Leia Mulheres Niterói-RJ- Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski: "Primeiro porque o Dostoiévski é o meu escritor favorito. Sei que parece favoritismo, mas eu adoro o jeito com o qual ele escreve. Além disso, eu não imaginava rir tanto com os Karamázov e isso me surpreendeu. Acho que também foi o melhor livro que eu li esse ano porque, embora não tenha lido tanto (se comparado aos outros anos), fiquei feliz por ler um livro que requer mais atenção. Ele trata de vários assuntos, vai de drama familiar até religião, e me interessa ler livros que me façam refletir sobre vários tipos de assunto ao mesmo tempo...ou seja, livros mais complexos. Para quem nunca leu Dostoiévski, acho que pode ser um pouco cansativo no início, mas conheço pessoas que só leram um  e depois pegaram os Karamázov e se apaixonaram. Ah, eu também curti o livro porque os três irmãos são bem diferentes entre si, mas não me pareceu forçado ou estereotipado, sabe? Acho que cada um tem sua peculiaridade e te faz refletir sobre."



Mariana Rio - Moderadora do Clube de Leitura Leia Mulheres Niterói-RJ- Hibisco Roxo, da Chimamanda Ngozi Adichie:  "Hibisco Roxo foi o primeiro livro que li da autora, gostei pela forma calma e detalhista que ela construiu os personagens."



O livro do Cemitério, de Neil Gaiman: "Neil Gaiman é meu escritor preferido. Em O livro do cemitério, ele mistura terror com infantil de uma forma bem feita e cativante."



Laura Isabel- Moderadora do Clube de Leitura Leia Mulheres Niterói-RJ- Frankenstein, de Mary Shelley: "Dos que lemos juntos, Frankenstein foi o que mais me marcou, amei a escrita da Mary Shelley e como ela aborda a filosofia e a ciência de uma forma tão tocante."
Quem me dera ser onda, do Manuel Rui: "Se tiver que escolher o melhor livro do ano MESMO eu diria que foi 'Quem me dera ser onda', do Manuel Rui. É uma história muito delicada sobre infância num pano político bem pesado, cheio de metáforas bem construídas, mas que tu observa pelo olhar das crianças que querem ter um porco de estimação num apartamento. Fora o contexto cultural angolano, que é uma viagem muito legal de se fazer. É lindo, tocante, real, simplesmente amei. Li duas vezes, na verdade. Haha."


Fernanda Marsico - Participante do Clube de Leitura Leia Mulheres Niterói-RJ- Hibisco Roxo, da Chimamanda Ngozi Adichie: "Acho que o Hibisco Roxo foi o livro que mais mexeu comigo esse ano, me deu muito para refletir."



Agradeço aos queridos colegas por essa valiosa contribuição a esse post. Tenho certeza de que muitos leitores serão influenciados por essas ótimas indicações.
Desejo a todos um ano novo maravilhoso, com muita paz, saúde, amor e muitas leituras grandiosas!





Participe e ganhe o livro "O homem que vendia ilusão" de Rudolf Bickel


Publique aqui no Blog suas impressões sobre o livro do mês no Clube de Leitura de Icaraí 

A Bagaceira: José Américo de Almeida







ou sobre o romance


A Experiência: Rudolf Bickel







e ganhe um exemplar do livro 

O homem que vendia ilusão: Rudolf Bickel







Escreva uma resenha do livro do mês do CLIc (A bagaceira: José Américo de Almeida) ou sobre o romance "O desaparecimento" de Rudolf Bickel com pelo menos 400 palavras para postagem no blog do Clube de Leitura Icaraí e concorra ao livro "O homem que vendia ilusões" de Rudolf Bickel. Envie sua resenha para grupo-de-leitura-agora-na-uff@googlegroups.com ou conciergeclic@gmail.com até 6/2/2017, 3 dias antes do debate de "A bagaceira" que será no dia 9/02/2017.


Exemplar gentilmente cedido pelo autor. Será entregue no dia do debate de Fevereiro, no dia 9/2/17, às 19:00 h, na Varanda do Centro de Artes UFF.



Outras obras de Rudolf Bickel: 

























10 de janeiro de 2017

Livro: A Tradutora, de Cristovão Tezza

Olá queridos!
Reproduzo a resenha que fiz no meu blog Mar de Variedade.
Esse é o livro do mês do Clube de Leitura Icaraí, cuja reunião será na quinta-feira.
É o primeiro livro que leio do autor, que escreveu o premiado "O Filho Eterno".

Sinopse da Saraiva: "O novo romance do autor de O filho eterno. Beatriz é uma tradutora de 30 e poucos anos às voltas com o desafio de traduzir o espanhol barroco do catalão Felip T. Xaveste. Em seu apartamento, depara-se com uma sucessão de acontecimentos que entrelaça a urgência do instante presente com a memória: um envelope em branco deixado misteriosamente sob a porta da sala; as pequenas e grandes dúvidas que envolvem a tradução e os desdobramentos que projeta para a sua carreira; a conversa ao telefone com o namorado escritor, que a assedia intelectualmente; e uma ligação inesperada propondo-lhe um trabalho como intérprete de um executivo da FIFA em visita a Curitiba para os preparativos da Copa do Mundo no Brasil. Sob a força do puro prazer narrativo, nossa curiosidade é sequestrada pelo cruzamento sutil de pontos de vista ao longo de três dias intensos. Lembranças, argumentos e percepções da personagem se desdobram em múltiplas combinações. Neste romance sofisticado, conduzido por um fio de leveza, humor fino e autoironia, encontramos Cristovão Tezza em pleno vigor de seu domínio narrativo – um livro que nos dá a sensação de vislumbrar a metade mais fascinante, complexa e misteriosa do universo humano: a feminina."


Essa é minha primeira leitura do ano. Confesso que não é o tipo de livro que está entre os meus favoritos.
A protagonista é a Beatriz, uma tradutora, que mora em Curitiba, e tem um namorado escritor, que mora em São Paulo, o Donetti, com quem tem uma relação conturbada. 
O livro vai mostrar a Beatriz traduzindo um livro do fictício escritor catalão Felip T. Xaveste, trabalho enviado pelo editor paulista Chaves, que pediu o término da tradução antes da Copa do mundo.
A narrativa é, na maior parte do tempo, em terceira pessoa. A Beatriz traduz, ao mesmo tempo que imagina situações com o namorado ou com a Bernadete, sua amiga. Algumas situações ela vivenciou, outras ela imagina. 
Sinceramente, eu achei um pouco confusa a narrativa. Tive que voltar algumas vezes para conseguir acompanhar a leitura. 
A Beatriz, nessas conversas com a amiga, ou quando está pensando, mostra um namorado ciumento e dominador:
"Eu não suporto mais o teu controle. Eu não aguento mais o teu ciúme psicopata mal reprimido que você deixa escapar até pela mínima entonação da voz, como alguém que quer dominar simultaneamente tudo e todos e principalmente a mim, oculto em si mesmo, no duplo da máscara..."
A protagonista recebe uma proposta para trabalhar como intérprete de um executivo da FIFA, o Erik, e acompanhá-lo durante três dias, em Curitiba, e prontamente aceita, já que ganhará um bom dinheiro. 
Ele pede para que ela vá aos pontos turísticos de Curitiba com ele e também em um terreiro de umbanda. 
No livro, os personagens acabam falando de política e, por conseguinte, tocando em nomes importantes. 
Ela acaba recebendo um envelope branco misterioso, com uma frase escrita  com letras recortadas de um papel (prestem atenção nessa parte, pois no final temos a explicação).
Em vários momentos, a Beatriz imagina o que o Donetti diria se estivesse com ela. 
"Para o aeroporto, por favor - e Beatriz fechou a porta do táxi vivendo a aflição antecipatória dos diálogos inexistentes que atormentavam a vida, esta maldita imaginação, os duplos mentais."
Conforme vai lendo Xaveste, vai pensando em sua vida e fazendo um paralelo.
"- a retórica do Xaveste começa a me influenciar, ainda que o amor não seja a matéria dele, embora a condição feminina seja. "
Aos poucos, a Beatriz vai conhecendo melhor o Erik e passa a analisar o seu jeito.
"Havia uma graça no método de Erik Höwes, ela percebeu imediatamente, quase um jeito de mestre-escola, vamos fazer tudo direitinho, deixar tudo resolvido, e em seguida vamos nos divertir!" 
A Beatriz também começou a fazer comparações do Donetti com o Erik e tenta, através deste, viver dias leves. O Erik, por sua vez, por ser estrangeiro, acaba mostrando uma outra Curitiba para ela, através de seu olhar. 
Achei interessante quando o autor utilizou, através da fala da Beatriz, a expressão "padrão FIFA", muito utilizada na época da Copa do Mundo. 
A narrativa não é linear, talvez por isso necessite de maior atenção do leitor, eis que a Beatriz intercala a tradução com falas e pensamentos. 
Assim, de uma forma geral, a Beatriz é essa pessoa com um turbilhão de pensamentos e devaneios, que, através do seu trabalho de tradutora, também tenta interpretar e "traduzir" as suas complexas relações de amizade e de amor.
Como falei, nem todos se identificam com esse tipo de narrativa, porém, reconheço o mérito do autor, por se tratar de uma personagem bem difícil de criar e de desenvolver. 


Boa leitura!

8 de janeiro de 2017

Sinopse de "A tradutora: Cristóvão Tezza" por Evandro





“A tradutora” de Cristóvão Tezza é uma história que se passa em três dias. Três dias tem uma simbologia interessante, pode significar um tempo insuportavelmente longo, agônico, e parece que é isso que acontece com Beatriz, balzaquiana à beira de um ataque de nervos, que mostra viver uma eternidade nesses três dias de experiências pessoais: um namorado a assedia moralmente, ela paquera um outro que lhe pediu um trabalho de tradução que sinaliza a nova onda conservadora mundial e fica com um alemão que a tinha contratado profissionalmente como intérprete durante sua estada em Curitiba para fiscalizar as obras da Arena da Baixada para a Copa do Mundo do Brasil. Ou seja, três amantes cada qual com seus tormentos específicos. E ainda, ela anda dura de grana e de onde vem a grana pode vir também o envolvimento pessoal, por que não?

“O sexo, finalmente, perdeu o mistério e o segredo, ela poderia dizer agora, eu estou madura, o sexo é apenas mais uma variável da vida e não está necessariamente atrelado a nada - apenas ao desejo, esta coisa volátil, venenosa e infiel.”

Sob pressão, é nessa hora que conhecemos as pessoas e, se for possível, brandimos a afiada arma da sedução nas entrelinhas das interações sociais, “o querer e o não querer abraçados” para ver o que acontece, que mal há nisso? Se no fim todos os relacionamentos estão fadados ao fracasso, por que não escapar de si mesmo, flanar baudelarianamente em seu próprio desejo e experimentar o sabor variado que vem dos prazeres desconhecidos e oportunos que se nos apresentam como por uma Abluftöffnung, porque ninguém é de ferro, não é mesmo?

Pero no hay coartada para la vida, Beatriz precisa pagar as contas e cada novo trabalho também lhe oferece a possibilidade de encontrar o anjo priápico da vez, tendo sempre o cuidado de nunca dar aquele pequeno passo que torna as coisas irreversíveis. Dies ist wichtig! Jantares aconchegantes, atenção a todas as pessoas do círculo social do alemão sem, contudo, deter-se em nenhuma em particular para cumprir profissionalmente seu trabalho, ao menos nesse quesito, guardando pra si mesmo a perversidade secreta de todo cerimonial do mundo dos negócios.

Não foi a primeira vez que li Cristóvão Tezza no Clube de Leitura Icaraí. Também lemos “O filho eterno” e lembro-me que fiquei chocado com o contundente relato do pai da criança com trissomia do cromossomo 21. Sete anos depois estou de volta com a leitura deste escritor que me revelou o significado da lumpem paternidade, dessa vez com a expectativa de que a leitura fosse mais light, uma umbanda literária, porque chega de querer brigar com as forças do mundo. Mas não foi isso que aconteceu. O mundo mergulhou num conservadorismo que não se via desde há muito. Parece mais uma premonição do escritor que traduziu na época o que viria a ser o Brasil e o mundo depois da Copa: impeachment, ministros desastrados, massacres, atropelamentos, Donald Trump, e vitória da direita partout. Mais tempos sombrios à vista. Ça y est!

7 de janeiro de 2017

Alvo Noturno: Ricardo Piglia (Prêmio Casa de las Américas 2012)



Sonhos noturnos (e diurnos) alvejados pela realidade 

Um ponto de vista (novaes/)

Achei este, de certa forma, um livro de paradoxos. Pelo menos, aparentes.

Apresenta-se como um "romance policial", pelo simples fato de girar em torno de um crime ocorrido logo ao início da história, mas na verdade mostra-se um livro revelador de uma estrutura social e econômica arcaica no campo argentino, o poder das famílias rurais inclusive historicamente explicado. Mas também não para por aí, e imiscui-se no psicológico, com maestria na construção do personagem Luca Belladona, mas também nas irmãs incestuosas e no comissário Croce, que esmagado pelo sistema poderoso e corrupto refugia-se entre os loucos para recompor sua sanidade, reconhecer-se são naquele ambiente hostil.

Ricardo Piglia, em seu "Alvo Noturno", usa um pensamento do personagem Renzi, na página 243, para resumir seu próprio livro:

A história continua, pode continuar. há várias conjecturas possíveis, fica aberta, só se interrompe. A investigação não tem fim, não pode terminar. Seria preciso inventar um novo gênero policial, a ficção paranoica. Todos são suspeitos, todos se sentem perseguidos. O criminoso não é mais um indivíduo isolado, mas uma quadrilha com poder absoluto. Ninguém entende o que está acontecendo; as pistas e os testemunhos são contraditórios e mantêm as suspeitas em aberto, como se mudassem a cada interpretação.

O autor argentino nos oferece um livro que usa o gênero policial como se fosse um mero disfarce, ou uma isca, como se pretendesse fisgar os ávidos e assíduos leitores desse gênero, para na verdade construir uma história bem diferente do que esperariam esses hipotéticos leitores, acostumados com a fórmula "crime-mistério-solução-castigo". Como a passagem destacada acima explica, em Alvo Noturno nada é tão simples. Termina o livro sem desvendar as motivações do crime e quem foram os criminosos. Um tanto frustrante, não?


Não. Não quando se percebe que a última coisa que interessa a Piglia é reduzir sua história a um conflito banal entre bandidos e mocinhos. Embora o livro gire o tempo todo em torno de um crime, por incrível que pareça o crime, em si, não é o centro da história. Ele não passa de um pretexto e por isso desvendá-lo não tem a menor importância para o autor. Pelo contrário, sua não-solução é exatamente a única solução que o autor vê como realista naquele vilarejo nos pampas argentinos. E, cá pra nós, não é mesmo assim também por aqui, em nossos grotões ou mesmo em nossas grandes cidades? Quantos crimes são desvendados? No Brasil este índice estava em 2%. No interior do país, quantas oligarquias não eliminam os que incomodam (sindicalistas rurais, sem-terra, indígenas, opositores políticos...) na base do assassinato, acobertados por um aparato local - policial, político e judicial - que efetivamente controlam com mãos de ferro?  Não há, afinal, diferença significativa entre nossos "coronéis" do interior e o Velho Belladona. Em Alvo Noturno, a solução realista, que é a não-solução do crime, é o recurso usado para denunciar essa triste realidade. Ricardo Piglia transforma, portanto, seu romance "policial" em algo mais, com pitadas políticas, sociais e econômicas que acabam servindo como um questionamento, talvez uma denúncia, de aspectos injustos da sociedade argentina (nos quais nos enxergamos integralmente, por sinal). 


Em meio a esse realismo cru, demonstrado naquilo que nos incomoda na leitura, ou seja, na sucessão de fatos e detalhes que aparentemente para nada servem, já que não desvendam o crime de fato - porque ocorreu e quem foram os envolvidos - em meio a essa realidade perdida, confusa, misteriosa, Piglia insere um Luca surreal que constrói sua "Nautilus", um "veículo imóvel que traz o mundo até nós". Parece-me uma alegoria ao livro, esse "veículo" que também traz o mundo até nós.


Está aí, a meu ver, o ingrediente mais interessante de Alvo Noturno, aquele que realmente acrescentou uma novidade à história, que me trouxe uma reflexão nova: o dado psicológico. Especialmente em Luca, o personagem que mergulhara em seus ilusórios projetos com uma determinação tão bela quanto doentia. A cena em que Luca está perante a Justiça e é obrigado a decidir-se, a chocar seus sonhos com a realidade nada agradável daquela região e seus podres poderes, parece-me o momento mais revelador e crucial do livro. 


Luca tinha força para defender sua utopia porque julgava-se certo em sua luta, julgava-se injustiçado, enfim, acreditava (literalmente, por sinal) em seus sonhos, acreditava que representava o Bem (digamos assim) em luta contra o Mal (do qual fazia parte o canalha Cueto). Quando, na audiência judicial, Luca é posto na encruzilhada e opta por manter sua ilusão a custa de uma injustiça, quando ele aceita compor com os interesses de Cueto, ceder a ele, submeter-se, e faz isso pelo dinheiro que garantiria a continuidade de seus sonhos e projetos, ali Luca, sem perceber, quebrou toda a força de sua alma. Não pôde viver em paz com aquilo, enfraqueceu sua determinação, corrompeu-se, perdeu as razões morais que sustentavam sua luta. E acabou como acabou - e aqui tanto faz se se matou mesmo ou foi vítima de "queima de arquivo". 


Ao fugir da realidade e não encará-la quando foi posto à prova, Luca foi engolido por ela. Talvez tenha sido esse o "recado" de Ricardo Piglia em Alvo Noturno. Depois de nos deixar naufragar naquela realidade inconclusa do crime, depois de nos mostrar como se deu a expulsão de índios, a ocupação e conquista de grandes glebas de terra no interior da Argentina, depois de nos mostrar as relações de poder (e sexo) entre os Belladona e polícia (Ada-Cueto) e imprensa (Sofía-Renzi), o autor parece nos dizer com Luca que não é possível iludir-se perante estes contextos bem reais. Todos ali estão muito conscientes do que fazem, inclusive as belas irmãs, e viver no mundo da Lua, inebriado por sua brancura noturna, não levará ninguém à redenção. Reparem que, caso Luca decidisse pelo oposto, ou seja, não incriminar um inocente e perder a fábrica aos credores, haveria sim o sofrimento, mas seria pela perda de uma ilusão. E perder ilusões, mesmo que isso doa muito, sempre traz benefícios, pois poderemos depois disso trilhar caminhos mais reais, verdadeiros e, agora sim, felizes.


novaes/


Em Março - Germinal: Émile Zola

A conduta humana é determinada pela herança genética, 
pela filosofia das paixões
e pelo ambiente.



Era preciso que o rosto de um desconhecido lhe agradasse e que ele estivesse tomado por um desses desejos imperiosos de confidências que fazem, às vezes, as pessoas idosas falarem sozinhas, em voz alta.


5 de janeiro de 2017

Participe e ganhe o livro "O desaparecimento" de Rudolf Bickel

Publique aqui no Blog suas impressões sobre o livro do mês no Clube de Leitura de Icaraí 

A tradutora: Cristóvão Tezza






e ganhe um exemplar do livro 

O desaparecimento: Rudolf Bickel






Escreva uma resenha do livro do mês do CLIc (A tradutora: Cristóvão Tezza) com pelo menos 500 palavras para postagem no blog do Clube de Leitura Icaraí e concorra ao livro "O desaparecimento" de Rudolf Bickel. Envie-nos sua resenha para grupo-de-leitura-agora-na-uff@googlegroups.com ou conciergeclic@gmail.com até 3 dias antes do debate do dia 12/01/2017.

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Exemplar gentilmente cedido pelo autor. Será entregue no dia do debate de Janeiro, no dia 12, às 19:00 h, na Varanda do Centro de Artes UFF.



Outras obras de Rudolf Bickel: 


























4 de janeiro de 2017

2016, um Ano Bom! para o Clube de Leitura Icaraí

Olá, Cliceanos!




Foi um ano importante para nós do Clube: lemos 4 autores brasileiros, 7 autores de língua portuguesa, 5 mulheres (viu, Clube Leia Mulheres?), um livro de poesias pela primeira vez em nossa história com grande sucesso (apesar de uma certa resistência da facção ortodoxa do Clube 😁), não aceitamos que decidissem por nós o horário de nossas Reuniões e mudamos para a Varanda do Centro de Artes da UFF, outro sucesso! Amadurecemos  nos renovando ainda mais e ampliamos bastante o Clube, com novos e entusiasmados participantes, interagindo harmoniosamente com outros clubes de leituras, reencontrando antigos Cliceanos que, pelas voltas que o mundo dá, precisaram se afastar por algum tempo sem contudo perderem o contato pela Grande Rede (Gmail, Facebook, Blog, Whatsapp e Twitter), retornando ao nosso convívio, criando novos amigos ou reforçando antigos laços de amizade.

Completamos 18 anos de existência com 167 livros lidos, contando com a presença de 13 autores nos debates literários, 186 participantes no grupo de mensagens do gmail, 653 participantes no grupo do Facebook, 26 participantes no grupo do Whatsapp, 46 seguidores e 347580 visualizações no Blog, oriundas de 2019 cidades diferentes mundo afora e com 564 seguidores no Twitter. Em 2017 queremos continuar a ser assim, um Clube aberto a todos que queiram compartilhar suas leituras, trocar ideias sobre livros, escritores, novos ou clássicos, com novos Encontros, novas descobertas e com a certeza de estarmos escrevendo uma bela história, não apenas pelas mãos dos diversos escritores , poetas e contistas que nos frequentam, mas porque estamos também construindo uma das belas histórias de nossa vida, inspiradas nos grandes livros e regadas na amizade que nutrimos em nosso Clube. 

Feliz 2017, Cliceanos!