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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

18 de julho de 2018

La Jacressarde - Audio nº 1 - Os Trabalhadores da* MAR - Fernando Costa






Boa tarde amigas e amigos do inestimável Clube de Leitura de Icaraí.

- Aqui vai uma surpresa!

- Um extrato de "Os Trabalhadores da* Mar" gravado por mim para a minha amiga, a jornalista e romancista suíça Barbara Fournier, que resolvi partilhar escondido (psssiuuu... isto é segredo, viu?) com vocês. 

- Rsrsrsrs...

- Espero que vocês gostem.

Fernando Costa

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OS TRABALHADORES DA* MAR 

de Victor Hugo

capítulo VII do livro 5

Extrato de "A JACRESSARDE" em português (texto traduzido por Machado de Assis e ligeiramente modificado por Fernando Costa)

Em todas as cidades, e especialmente nos portos de mar, há, abaixo da população, um resíduo. Vagabundos, aventureiros, vivendo de expedientes, químicos de espécie larápio, pondo sempre a vida no alambique, todas as formas do andrajo e todas as maneiras de vesti-lo, os jubilados da improbidade, as existências em bancarrota, as consciências que já fizeram balanço, os que abortaram no assalto e no arrombamento de portas (porque os ladrões trabalham por baixo e por cima), os operários e as operárias do mal, os velhaquetes e as velhaquinhas, os escrúpulos rasgados e os cotovelos rotos, os tratantes chegados à indigência, os malévolos mal recompensados, os vencidos do duelo social, os famintos que foram devorados, os ganha-pouco do crime, os miseráveis, na dupla e lamentável acepção da palavra, tal é o pessoal.
Ali é bestial a inteligência humana. E o montão de imundícies das almas. Ajunta-se tudo aquilo a um canto, onde passa de quando em quando a vassoura policial. Em Saint-Malo esse canto era a Jacressarde.
O que se encontra nessas espeluncas não são os grandes criminosos, os bandidos, os grandes produtos da ignorância e da indigência.
Se o assassino é representado ali, é por algum bebado brutal; ali o roubo não vai além da ratonice. É antes o escarro que o vômito da sociedade. O vagabundo sim, o salteador não. Todavia não há que fiar. Aquele último degrau dos boêmios pode ter extremidades malvadas.
Um dia, lançando a rede no Epi-Scié, que era em Paris o que a Jacressarde é em Saint-Malo, a polícia apanhou Lacenaire.
Tudo entra naqueles albergues. A queda é um nivelamento. Às vezes a honestidade esfarrapada escoa-se por ali. A virtude e a probidade tem aventuras. Não se deve, à primeira vista, estimar os Louvres nem condenar as galés. O respeito público e a reprovação universal devem ser descascados. Quantas; surpresas não se dão! Um anjo no lupanar, uma pérola no monturo - não é impossível este sombrio e deslumbrante achado.
A Jacressarde era mais pátio que casa, e mais poço que pátio. Não tinha andares para a rua. A fachada era uma alta parede com uma porta baixa. Levantava-se o ferrolho, empurrava-se a porta, entrava-se em um pátio.
No meio desse pátio havia um buraco redondo, cercado de uma orla de pedra, ao nível do chão. Era um poço. O pátio era pequeno, e o poço era grande. Em roda do bocal do poço o chão era mal calçado.
O pátio, quadrado, tinha construções por três lados. Do lado da rua, nada; mas diante da porta, à direita e à esquerda, havia aposentos.
Quem, à noite, entrasse ali, um pouco arriscadamente, ouviria como que um rumor de respirações juntas, e se houvesse bastante luar ou estrelas, para dar forma aos lineamentos obscuros, eis o que veria: O pátio. O poço. Em roda do pátio, em frente à porta, uma palhoça figurando uma espécie de ferradura quadrada, galeria carunchosa, toda aberta, com teto de vigas, sustentada por pilares de pedra desigualmente espaçados; no centro, o poço; à roda do poço, em uma liteira de palha, e fazendo como que um rosário circular, viam-se solas de sapato umas direitas, outras acalcanhadas, dedos aparecendo pelos buracos dos sapatos, e muitos tornozelos pus, pés de homem, pés de mulher, pés de criança. Todos esses pés dormiam.
Depois desses pés, penetrando o olhar na penumbra da palhoça, distinguiam-se corpos, formas, cabeças adormecidas, prolongamentos inertes, farrapos de ambos os sexos, uma promiscuidade no monturo, um sinistro jazido humano. Era um quarto de dormir para todos. Pagavam-se 2 soldos por semana. Os pés tocavam no poço. Nas noites de tempestade, chovia sobre os pés; nas noites de inverno, caía neve sobre os corpos.
Quem eram aquelas criaturas? Os desconhecidos. Iam ali de noite e saíam de manhã. A ordem social anda misturada com aquelas larvas. Alguns esgueiravam-se ali de noite e não pagavam. A maior parte entrava em jejum. Todos os vícios, todas as abjeções, todas as suposições, todas as misérias, o mesmo sono de prostração no mesmo leito do lodo. Os sonhos de todas essas almas faziam boa vizinhança. Fúnebre entrevista em que se remexiam e se amalgamavam no mesmo miasma os cansaços, os desfalecimentos, as borracheiras incubadas, as marchas e contramarchas de um dia sem um pedaço de pão e sem um bom pensamento, as noites lividas e sonolentas, remorsos, cobiças, cabelos imundos, rostos com o olhar da morte, beijos, talvez, das bocas da treva. A podridão humana fermentava naquela tina. Eram atiradas àquele albergue pela fatalidade, pela viagem, pelo navio chegado na véspera, por uma saída de prisão, pelo acaso, pela noite. O destino vazava ali, todos os dias, a sua alcofa. Entrava quem queria, dormia quem podia, falava quem ousava. Era próprio para cochichar. Todos se apressavam em misturar-se. Tratavam de esquecer-se no sono, visto que não podiam perder-se na sombra. Tiravam à morte aquilo que podiam. Fechavam os olhos naquela agonia confusa que todas as noites começava. Donde saíam? Da sociedade, porque eram a miséria; da vaga, porque eram a espuma.
Nem todos tinham palha. Mais de uma nudez estava ali no chão; deitavam-se estafados; erguiam-se anquilosados. O poço sem parapeito e sem tampa, sempre aberto, tinha 30 pés de profundidade.
Caía ali a chuva, escorriam as imundícies, filtravam todos os escoamentos do pátio. A caçamba para tirar água ficava a um lado. Quem tinha sede bebia. Quem estava aborrecido afogava-se.
Do sono do monturo passava-se ao sono do poço. Em 1819 tirou-se dali um menino de catorze anos.
Para não correr risco naquela casa era preciso ser da laia. Os estranhos eram mal vistos.
Conheciam-se acaso entre si aquelas criaturas? Não; farejavam-se.
A dona da casa era uma mulher moça, assaz bonita, trazendo um barrete ornado de fitas, lavada às vezes com água do poço e tendo uma perna de pau.
Desde madrugada esvaziava-se o pátio; iam-se embora os fregueses.
Havia no pátio um galo e algumas galinhas, que esgaravatavam no esterco durante o dia. O pátio era atravessado por um barrote horizontal, colocado sobre postes, figura de forca, que não estava ali em terra estranha. Via-se às vezes estendido no barrote, no dia seguinte às noites chuvosas, um vestido de seda molhado e enlameado, pertencente à mulher da perna de pau.
Acima da palhoça e circulando o pátio havia um andar superior e acima do andar um celeiro. Subia-se até lá por uma escada de madeira podre que furava o teto; escada vacilante por onde subia com estrépito a mulher coxa.
Os locatários de arribação, por semana ou por noite, moravam no pátio; os locatários residentes moravam na casa.

Janelas, nem um caixilho; portas, nem uma ombreira; lareiras, nem um fogão; era a casa. Passava-se de um quarto a outro indiferentemente por um buraco quadrado e comprido que fora porta, ou por uma fresta triangular que ficava entre duas pilastras do tabique.
A caliça caída cobria o assoalho. Não se sabia como aquela casa estava em pé. O vento não a abalava. Mal se podia subir pela escada gasta e escorregadia. Tudo estava aberto. O inverno entrava na casa como água em esponja. A abundância das aranhas tranqüilizava os moradores contra o desmoronamento imediato.

Mobília nenhuma. Dois ou três enxergões nos cantos, rotos no centro, deixando ver mais cinza que palha, aqui e ali uma bilha e um alguidar, servindo para diversos usos. Cheiro insípido e hediondo.

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LA JACRESSARDE en français

LA JACRESSARDE


Il y a quarante ans, Saint-Malo possédait une ruelle dite la ruelle Coutanchez. Cette ruelle n’existe plus, ayant été comprise dans les embellissements.

C’était une double rangée de maisons de bois penchées les unes vers les autres, et laissant entre elles assez de place pour un ruisseau qu’on appelait la rue. On marchait les jambes écartées des deux côtés de l’eau, en heurtant de la tête ou du coude les maisons de droite et de gauche. Ces vieilles baraques du moyen-âge normand ont des profils presque humains. De masure à sorcière il n’y a pas loin. Leurs étages rentrants, leurs surplombs, leurs auvents circonflexes et leurs broussailles de ferrailles simulent des lèvres, des mentons, des nez et des sourcils. La lucarne est l’œil, borgne. La joue, c’est la muraille, ridée et dartreuse. Elles se touchent du front comme si elles complotaient un mauvais coup. Tous ces mots de l’ancienne civilisation, coupe-gorge, coupe-trogne, coupe-gueule, se rattachent à cette architecture.

Une des maisons de la ruelle Coutanchez, la plus grande, la plus fameuse ou la plus famée, se nommait la Jacressarde.

La Jacressarde était le logis de ceux qui ne logent pas. Il y a, dans toutes les villes, et particulièrement dans les ports de mer, au-dessous de la population, un résidu. Des gens sans aveu, à ce point que souvent la justice elle-même ne parvient pas à leur en arracher un, des écumeurs d’aventures, des chasseurs d’expédients, des chimistes de l’espèce escroc, remettant toujours la vie au creuset, toutes les formes du haillon et toutes les manières de le porter, les fruits secs de l’improbité, les existences en banqueroute, les consciences qui ont déposé leur bilan, ceux qui ont avorté dans l’escalade et le bris de clôture (car les grands faiseurs d’effractions planent et restent en haut), les ouvriers et les ouvrières du mal, les drôles et les drôlesses, les scrupules déchirés et les coudes percés, les coquins aboutis à l’indigence, les méchants mal récompensés, les vaincus du duel social, les affamés qui ont été les dévorants, les gagne-petit du crime, les gueux, dans la double et lamentable acception du mot ; tel est le personnel. L’intelligence humaine est là ; bestiale. C’est le tas d’ordure des âmes. Cela s’amasse dans un coin, où passe de temps en temps ce coup de balai qu’on nomme une descente de police. À Saint-Malo la Jacressarde était ce coin.

Ce qu’on trouve dans ces repaires, ce ne sont pas les forts criminels, les bandits, les escarpes, les grands produits de l’ignorance et de l’indigence. Si le meurtre y est représenté, c’est par quelque ivrogne brutal ; le vol n’y dépasse point le filou. C’est plutôt le crachat de la société que son vomissement. Le truand, oui ; le brigand, non. Pourtant il ne faudrait pas s’y fier. Ce dernier étage des bohèmes peut avoir des extrémités scélérates. Une fois, en jetant le filet sur l’Épi-scié qui était pour Paris ce que la Jacressarde était pour Saint-Malo, la police prit Lacenaire.

Ces gîtes admettent tout. La chute est un nivellement. Quelquefois l’honnêteté qui se dépouille tombe là. La vertu et la probité ont, cela s’est vu, des aventures. Il ne faut, d’emblée, ni estimer les Louvres ni mépriser les bagnes. Le respect public, de même que la réprobation universelle, veulent être épluchés. On y a des surprises. Un ange dans le lupanar, une perle dans le fumier, cette sombre et éblouissante trouvaille est possible.

La Jacressarde était plutôt une cour qu’une maison, et plutôt un puits qu’une cour. Elle n’avait point d’étage sur la rue. Un haut mur percé d’une porte basse était sa façade. On levait le loquet, on poussait la porte, on était dans une cour.

Au milieu de cette cour, on apercevait un trou rond, entouré d’une marge de pierre au niveau du sol. C’était un puits. La cour était petite, le puits était grand. Un pavage défoncé encadrait la margelle.

La cour, carrée, était bâtie de trois côtés. Du côté de la rue, rien ; mais en face de la porte, et à droite et à gauche, il y avait du logis.

Si, après la nuit tombée, on entrait là, un peu à ses risques et périls, on entendait comme un bruit d’haleines mêlées, et, s’il y avait assez de lune ou d’étoiles pour donner forme aux linéaments obscurs qu’on avait sous les yeux, voici ce qu’on voyait.

La cour. Le puits. Autour de la cour, vis-à-vis la porte, un hangar figurant une sorte de fer à cheval qui serait carré, galerie vermoulue, tout ouverte, à plafond de solives, soutenue par des piliers de pierre inégalement espacés ; au centre, le puits ; autour du puits, sur une litière de paille, et faisant comme un chapelet circulaire, des semelles droites, des dessous de bottes éculées, des orteils passant par des trous de souliers, et force talons nus, des pieds d’homme, des pieds de femme, des pieds d’enfant. Tous ces pieds dormaient.

Au delà de ces pieds, l’œil, en s’enfonçant dans la pénombre du hangar, distinguait des corps, des formes, des têtes assoupies, des allongements inertes, des guenilles des deux sexes, une promiscuité dans du fumier, on ne sait quel sinistre gisement humain. Cette chambre à coucher était à tout le monde. On y payait deux sous par semaine. Les pieds touchaient le puits. Dans les nuits d’orage, il pleuvait sur ces pieds ; dans les nuits d’hiver, il neigeait sur ces corps.

Qu’était-ce que ces êtres ? Les inconnus. Ils venaient là le soir et s’en allaient le matin. L’ordre social se complique de ces larves. Quelques-uns se glissaient pour une nuit et ne payaient pas. La plupart n’avaient point mangé de la journée. Tous les vices, toutes les abjections, toutes les infections, toutes les détresses ; le même sommeil d’accablement sur le même lit de boue. Les rêves de toutes ces âmes faisaient bon voisinage. Rendez-vous funèbre où remuaient et s’amalgamaient dans le même miasme les lassitudes, les défaillances, les ivresses cuvées, les marches et contre-marches d’une journée sans un morceau de pain et sans une bonne pensée, les lividités à paupières closes, des remords, des convoitises, des chevelures mêlées de balayures, des visages qui ont le regard de la mort, peut-être des baisers de bouches de ténèbres. Cette putridité humaine fermentait dans cette cuve. Ils étaient jetés dans ce gîte par la fatalité, par le voyage, par le navire arrivé la veille, par une sortie de prison, par la chance, par la nuit. Chaque jour la destinée vidait là sa hotte. Entrait qui voulait, dormait qui pouvait, parlait qui osait. Car c’était un lieu de chuchotement. On se hâtait de se mêler. On tâchait de s’oublier dans le sommeil, puisqu’on ne peut se perdre dans l’ombre. On prenait de la mort ce qu’on pouvait. Ils fermaient les yeux dans cette agonie pêle-mêle recommençant tous les soirs. D’où sortaient-ils ? De la société, étant la misère ; de la vague, étant l’écume.

N’avait point de la paille qui voulait. Plus d’une nudité traînait sur le pavé ; ils se couchaient éreintés ; ils se levaient ankylosés. Le puits, sans parapet et sans couvercle, toujours béant, avait trente pieds de profondeur. La pluie y tombait, les immondices y suintaient, tous les ruissellements de la cour y filtraient. Le seau pour tirer l’eau était à côté. Qui avait soif, y buvait. Qui avait ennui, s’y noyait. Du sommeil dans le fumier on glissait à ce sommeil-là. En 1819, on en retira un enfant de quatorze ans.

Pour ne point courir de danger dans cette maison, il fallait être « de la chose ». Les laïques étaient mal vus.

Ces êtres se connaissaient-ils entre eux ? Non. Ils se flairaient.

Une femme était la maîtresse du logis, jeune, assez jolie, coiffée d’un bonnet à rubans, débarbouillée quelquefois avec l’eau du puits, ayant une jambe de bois.

Dès l’aube, la cour se vidait ; les habitués s’envolaient.

Il y avait dans la cour un coq et des poules, grattant le fumier tout le jour. La cour était traversée par une poutre horizontale sur poteaux, figure d’un gibet pas trop dépaysée là. Souvent, le lendemain des soirées pluvieuses, on voyait sécher sur cette poutre une robe de soie mouillée et crottée, qui était à la femme jambe de bois.

Au-dessus du hangar, et, comme lui, encadrant la cour, il y avait un étage, et au-dessus de l’étage un grenier. Un escalier de bois pourri trouant le plafond du hangar menait en haut ; échelle branlante gravie bruyamment par la femme chancelante.

Les locataires de passage, à la semaine ou à la nuit, habitaient la cour ; les locataires à demeure habitaient la maison.

Des fenêtres, pas un carreau ; des chambranles, pas une porte ; des cheminées, pas un foyer ; c’était la maison. On passait d’une chambre dans l’autre indifféremment par un trou carré long, qui avait été la porte, ou par une baie triangulaire qui était l’entre-deux des solives de la cloison. Les plâtrages tombés couvraient le plancher. On ne savait comment tenait la maison. Le vent la remuait. On montait comme on pouvait sur le glissement des marches usées de l’escalier. Tout était à claire-voie. L’hiver entrait dans la masure comme l’eau dans une éponge. L’abondance des araignées rassurait contre l’écroulement immédiat. Aucun meuble. Deux ou trois paillasses dans des coins, ventre ouvert, montrant plus de cendre que de paille. Çà et là une cruche et une terrine, servant à divers usages. Une odeur douce et hideuse.




Por todo o mundo... - dupla-de-sushi 4 - Os Trabalhadores da* MAR - Fernando Costa




"O diabo possui delegados por todo o mundo."

tradução de Machado de Assis
OS TRABALHADORES DO MAR"


"Le diable a des envoyés par toute la terre."

Victor Hugo

LES TRAVAILLEURS DE LA MER"

16 de julho de 2018

Estamos lendo - Os vestígios do dia: Kazuo Ishiguro





"Uma coisa que constatei é que a vida pública pode tornar as pessoas irreconhecíveis em uns poucos anos."



Em Outubro - Machado: Silviano Santiago




Rio de Janeiro, começo do século XX. VIúvo e solitário, Machado de Assis sofre fortes dores e crises nervosas enquanto testemunha a modernização da antiga cidade do Rio de Janeiro. EM Mário de Alencar, filho de José de Alencar, o presidente da Academia Brasileira de Letras encontrará um precioso interlocutor, que também sofre terríveis crises nervosas e o encaminhará ao dr. MIguel Couto. QUal é a relação entre as convulsões de Machado e sua genial criação? Depois de narrar passagens inauditas das vidas de Graciliano Ramos e Antonin Artaud, Silviano Santiago oferece uma perspectiva totalmente original e audaciosa dos últimos anos de vida de um dos maiores romancistas de todos os tempos.

14 de julho de 2018

A noite da espera - o lugar mais sombrio: Milton Hatoum

"Um riso cansado...
Um sussurro de saudade...
Tão longe meu vô!..."

"Cerca-me o silêncio...
 Prédios escondem o sol...
Cidade vazia?..."


Martim e a solidão em Brasília.
(Haicais de Elenir)


OS DESERTOS DO AMOR

Tradução de Lucas Bertolo

Estes escritos são de um homem, todo jovem, cuja vida tem desenvolvido-se não importa onde; sem mãe, sem país, indiferente a tudo que se conhece, fugindo de toda força moral, como outros jovens lastimáveis já fugiram. Mas, ele, tão entediado e chate- ado, não fez mais que levar-se à morte como a um pudor terrível e fatal. Não tendo amado as mulheres – embora pleno de sangue! – teve sua alma e seu coração, toda a sua força, educados nos erros estranhos e tristes. Dos sonhos seguintes – seus amores! – que viriam-lhe em suas camas ou nas ruas, de sua continuação e de seu fim, emergiriam do- ces considerações religiosas. Talvez lembre-se do contínuo sono dos Maometanos le- gendários – corajosos e ainda assim circuncidados? Mas, como este bizarro sofrimento possui uma autoridade inquietante, há de desejar que esta Alma, perdida entre nós, que- rendo a morte, ao que parece, reencontre nesse instante sérias e dignas consolações!

É, decerto, o mesmo campo. A mesma casa rústica dos meus pais: a mesma sala donde se vê nas partes de cima das portas currais chamuscados, com armas e leões. Para o jantar, há um salão, com velas e vinhos e madeiras rústicas. A mesa de jantar é bem grande. As serventes! Eram várias, até quando recordo-me. Havia também um dos meus antigos jovens amigos, padre agora, e assim vestido: o fez para ser mais livre. Recordo- me de seu quarto púrpura, de vidros de papel amarelo; e seus livros, escondidos, que molharam-se no oceano! Eu estava abandonado, nesta casa de campo sem fim: lendo na cozinha, secando o barro de minhas roupas diante dos anfitriões, durante as conversas de salão: comovido até a morte pelo murmúrio do leite matinal e pela noite do último século.


Estava em um quarto muito sombrio: que fazia eu? Uma servente veio até mim: poderia dizer que era um pequeno cão: embora fosse bonita, e de uma nobreza maternal inexprimível para mim: pura, familiar, toda charmosa! Ela beliscou-me o braço. Não lembro-me muito bem de seu rosto: e não é para lembrar de seu braço, cuja pele retorcia entre meus dois dedos; nem de sua boca, que a minha tomou como uma pequena onda desesperada, minando algo sem fim. Eu derrubei-a num cesto de almofadas e de toalhas de navio, num canto escuro. Lembro-me somente de suas calças de rendas brancas. Logo, o desespero, a parede a tornar-se vagamente sombras das árvores e, eu, abismado na tristeza amorosa da noite.

Desta vez, trata-se da Mulher que vi na cidade, que saudei e que me saudou. Es- tava num quarto sem luz. Vieram dizer-me que ela estava em minha casa; então, a vi na minha cama, toda para mim, sem luz: comovi-me, e muito, porque era a casa de minha família: também fui tomado por uma aflição; estava em farrapos, ela, mundana, que se entregava, devia-se ir! Uma aflição sem nome: eu a tomei, e a deixei cair fora da cama, quase nua; e, na minha fraqueza indescritível, sobre ela caí, arrastando-nos sobre os ta- petes sem luz. A lâmpada da família incandescia todos os quartos vizinhos. Então a mu- lher desapareceu. Derramei mais lágrimas do que Deus poderia pedir.

Saí à cidade sem fim. Ó Cansaço! Inundado na noite surda e na fuga da felicida- de. Era como uma noite de inverno, com uma neve para sufocar o mundo decididamen- te. Os amigos com quem gritava: “onde ela está?”, respondiam falsamente. Estava dian- te dos vidros onde ela ia todas as noites: corria em um jardim sepultado. Fui empurrado. Chorava enormemente com tudo isto. Enfim, desci a um lugar cheio de poeira, e, senta- do sobre vigas, deixei terminar com a noite todas as lágrimas do meu corpo. – Minha exaustão regressando sempre, no entanto.

Eu compreendi que essa era sua vida de todos os dias, que a torre da bondade levaria mais tempo para reproduzir-se do que uma estrela. Ela não retornou, e nunca mais voltará, a Adorável que visitou minha casa – coisa que jamais presumiria. Em ver- dade, aquela vez, eu chorei mais que todas as crianças do mundo.


Fonte








O lugar mais sombrio - vol. 1










SINOPSE


Nove anos após a publicação de Órfãos do Eldorado, Milton Hatoum retorna à forma da narrativa longa em uma série de três volumes na qual o drama familiar se entrelaça à história da ditadura militar para dar à luz um poderoso romance de formação.
Nos anos 1960, Martim, um jovem paulista, muda-se para Brasília com o pai após a separação traumática deste e sua mãe. Na cidade recém-inaugurada, trava amizade com um variado grupo de adolescentes do qual fazem parte filhos de altos e médios funcionários da burocracia estatal, bem como moradores das cidades-satélites, espaço relegado aos verdadeiros pioneiros da capital federal, migrantes desfavorecidos.
Às descobertas culturais e amorosas de Martim contrapõe-se a dor da separação da mãe, de quem passa longos períodos sem notícias. Na figura materna ausente concentra-se a face sombria de sua juventude, perpassada pela violência dos anos de chumbo. Neste que é sem dúvida um dos melhores retratos literários de Brasília, Hatoum transita com a habilidade que lhe é própria entre as dimensões pessoal e social do drama e faz de uma ruptura familiar o reverso de um país cindido por um golpe.


Deus é uma mulher





13 de julho de 2018

6 de julho de 2018

O idiota: Dostoiévski

Haicais de Elenir inspirada no livro "O idiota"

Mulher e poesia.  
Também, beleza e cultura.

Comunhões felizes.

O homem é mais feliz
enquanto aguarda a chegada
do que ao realizá-la

Coisas inefáveis:
O rosto de uma criança,
o nascer do sol...





...O Catolicismo é o mesmo que uma fé não cristã! – acrescentou de repente [o príncipe], com os olhos brilhando, olhando à sua frente e ao mesmo tempo correndo a vista por todos.
-- Ora, isso é demais – proferiu o velhote e olhou surpreso para Ivan Fiódorovitch.
-- Então como é que o Catolicismo é uma fé não cristã?— virou-se na cadeira Ivan Petróvitch. – Então, que fé é?
-- Uma fé não cristã, em primeiro lugar – tornou a falar o príncipe com uma inquietação extraordinária e com uma nitidez fora da medida. – Isso em primeiro lugar; em segundo, o Catolicismo romano é até pior do que o próprio ateísmo, é essa a minha opinião! Sim! É essa a minha opinião! O ateísmo também prega o nada, mas o Catolicismo vai além: prega um Cristo deformado, que ele mesmo denegriu e profanou, um Cristo oposto! Ele prega o anticristo, eu lhe juro, lhe asseguro! Esta é uma convicção minha e antiga, e ela me atormentou... O Catolicismo romano acredita que sem um poder estatal mundial a Igreja não se sustenta na Terra e grita: “Non possumus!” A meu ver, o Catolicismo romano não é nem uma fé mas, terminantemente, uma continuação do Império Romano do Ocidente, e nele tudo está subordinado a esse pensamento, a começar pela fé. O papa apoderou-se da Terra, do trono terrestre e pegou a espada; desde então não tem feito outra coisa, só que à espada acrescentou a mentira, a esperteza, o embuste, o fanatismo, a superstição, o crime, brincou com os próprios santos, com os sentimentos verdadeiros, simples e fervorosos do povo, trocou tudo, tudo por dinheiro, pelo vil e poderoso poder terrestre. Isso não é uma doutrina anticristã?! Como o ateísmo não iria descender deles? O ateísmo derivou deles, do próprio Catolicismo romano! (...)
-- O senhor e-xa-gera muito – arrastou Ivan Petróvitch com um certo tédio e até como que meio envergonhado por algo – na Igreja de lá também há representantes dignos de qualquer respeito e be-ne-méritos...
--Eu nunca falei de representantes isolados da Igreja. Estou falando do Catolicismo romano em sua essência, estou falando de Roma. Por acaso a Igreja pode desaparecer totalmente? Eu nunca disse isso!
-- Concordo, mas tudo isso é sabido e inclusive – desnecessário e... pertence à teologia.
-- Oh, não, oh, não! Não só à teologia, eu lhe asseguro, lhe asseguro que não! Isto nos afeta muito mais de perto do que o senhor imagina. Todo o nosso equívoco está aí, em ainda não conseguirmos perceber que essa questão não é só e exclusivamente teológica! Porque o socialismo é criação do Catolicismo e da essência católica! Ele, como seu irmão o ateísmo, também foi gerado pelo desespero, em contraposição ao Catolicismo no sentido moral, para substituir o poder moral perdido da religião, para saciar a sede espiritual da humanidade sequiosa e salvá-la não por intermédio de Cristo, mas igualmente da violência! (...)

(p. 607)


A senhora leu um número exagerado de poemas e é instruída demais para a sua condição; a senhora é uma mulher livresca e boa vida. (p.633)


Nastácia Filíppovna

"Quem quiser poderá enganá-lo, e quem quer que o engane ele depois perdoará, a todo e qualquer um, e foi por isso que eu o amei." (p. 633)





Nada de ficar perturbado também com o fato de que somos ridículos, não é verdade? Porque é realmente assim, nós somos ridículos, levianos, cheios de maus hábitos, sentimos tédio, não sabemos olhar, não sabemos compreender, ora, todos nós somos assim, nós todos, e tanto os senhores quanto eu, quanto eles! (..) Sabem, eu não compreendo como se pode passar ao lado de uma árvore e não ficar feliz por vê-la! Conversar com uma pessoa e não se sentir feliz por amá-la! Oh, eu apenas não sei exprimir... mas, a cada passo, quantas coisas maravilhosas existem, que até o mais desconcertado dos homens as acha belas? Olhem para uma criança, olhem para a alvorada de Deus, olhem para a relva do jeito que cresce, olhem para os olhos que os olham e os amam..."


"Passe ao largo da gente e nos perdoe pela nossa felicidade"




by MelloRocks
Crianças e pássaros
o mundo enfeitam e alegram,

igualmente; ao príncipe.

Cultura, beleza
e educação ornamentam

a sociedade.

Mulher e poesia
uma feliz comunhão.

Sem falar em dote.

(Elenir)




Você não tem ternura: só verdade, portanto, é injusto.

Aí só há verdade, é até injusto. 




Entretanto a intranquilidade do príncipe crescia de minuto a minuto. Ele andava pelo parque olhando distraído ao redor e parou surpreso quando se aproximou da pista diante da estação e avistou uma série de bancos vazios e as estantes para a orquestra. Ficou admirado com o lugar e algo o fez achá-lo horrível. Tomou o caminho de volta e, seguindo direto por onde passara na véspera com as Iepántchin rumo à estação, chegou ao banco verde que lhe haviam designado para o encontro, sentou-se e súbito deu uma gargalhada, o que de imediato o deixou sumamente indignado. Sua melancolia continuava; estava com vontade de ir a algum lugar... não sabia para onde. Numa árvore, acima dele, cantava um pássaro, e ele ficou a procurá-lo entre as folhas com a vista; súbito o pássaro levantou voo da árvore, e por alguma razão no mesmo instante veio-lhe à lembrança a “mosca” na “réstia quente do sol”, sobre a qual Hippolit escrevera que até “ela conhece o seu lugar e é uma participante do coro geral, ao passo que ele é apenas um aborto”. Essa frase o deixara estupefato ainda há pouco, agora ele a memorizava. Uma lembrança há muito esquecida mexeu-se dentro dele e súbito se esclareceu de uma vez.
Isso havia acontecido na Suíça, no primeiro ano do seu tratamento, até mesmo nos primeiros meses. Naquela época ele ainda era inteiramente como um idiota, não era capaz nem de falar direito, às vezes não conseguia entender o que estavam querendo dele. Uma vez subiu às montanhas em um claro dia de sol, e andou demoradamente com um pensamento angustiante que, todavia, de modo algum se materializou. Diante dele havia um céu brilhante, embaixo um lago, ao redor um horizonte claro a não acabar mais. Ficou muito tempo a olhar e atormentar-se. Agora recordava que havia estendido as mãos naquele azul-claro e sem fim e chorado. Atormentava-o o fato de que ele era totalmente estranho àquilo tudo. Que festim é esse, que grande e sempiterna festa é essa que não tem fim e que há muito o vem arrastando, sempre, desde a infância, e à qual ele não encontra meio de juntar-se. Toda manhã nasce esse mesmo sol claro; toda manhã há arco-íris na cachoeira; toda tarde a montanha nevada, a mais alta de lá, ao longe, nos confins do céu, arde em chama purpúrea; cada “pequena mosca, que zune ao seu lado na réstia quente do sol é uma participante de todo esse coro: conhece o seu lugar, gosta dele e é feliz”; cada pé de relva cresce e é feliz! E tudo tem o seu caminho, e tudo conhece o seu caminho, sai cantando e chega cantando; só ele não sabe de nada, não compreende nada, nem as pessoas, nem os sons, é estranho a tudo e é um aborto. Oh, ele, é claro, não pôde falar naquele momento com essas palavras e externar a sua pergunta; atormentava-se de forma surda e muda; mas agora lhe parecia que dissera tudo e naquela ocasião, todas essas mesmas palavras, e que a respeito daquela “mosca” Hippolit falara com palavras dele mesmo, de suas palavras e lágrimas naquele momento. Ele estava certo disso e, sabe lá, seu coração batia movido por esse pensamento...
Caiu no sono no banco mas a sua inquietação continuou até em sonho. Bem antes de adormecer lembrou-se de que Hippolit iria matar dez pessoas e riu do absurdo da suposição. Ao seu lado fazia um silêncio maravilhoso, sereno, apenas com um farfalhar de folhas que, parece, provoca ainda mais silêncio e solidão ao redor. Teve muitos sonhos e todos sobressaltados, que o fizeram estremecer a cada instante. Por fim uma mulher veio ter com ele; ela a conhecia, e a conhecia a ponto de sofrer; ele sempre foi capaz de dizer seu nome e apontá-la mas - coisa estranha - agora era como se o rosto dela não tivesse nada daquele rosto que ele sempre conhecera, e era com angústia que ele se negava a reconhecer nela aquela mulher. Neste rosto havia tanto arrependimento e horror que, parecia, era uma assassina terrível e acabava de cometer um crime horrendo. Uma lágrima lhe tremia na face pálida; ela o chamou com um aceno de mão e pôs um dedo nos lábios como se o prevenisse para que a acompanhasse em silêncio. O coração dele parou; por nada, por nada ele queria reconhecer nela a criminosa; mas ele sentia que agora mesmo ia acontecer alguma coisa terrível para toda a sua vida. Parecia que ela queria lhe mostrar alguma coisa, ali mesmo perto do parque. Ele se levantou a fim de segui-la, e de súbito ouviu-se ao seu lado um riso radiante e fresco de alguém; súbito a mão de alguém se viu entre as mãos dele; ele agarrou essa mão, apertou-a com força e acordou. Aglaia estava à sua frente e ria alto.



Há muito tempo ela já me havia esclarecido a teu respeito, mas há pouco eu mesmo observei como tu estavas sentado com ela ouvindo música. Ela me jurou por Deus, ontem e hoje, que tu estás apaixonado como um gato por Aglaia Iepántchina. Para mim, príncipe, isso dá no mesmo, e além do mais não é da minha conta: se tu deixaste de amá-la, ela ainda não deixou de te amar. Tu mesmo sabes que ela está querendo te casar forçosamente com a outra, deu essa palavra, eh-eh! Diz ela para mim: “Sem isso eu não me caso contigo, eles na igreja, nós também na igreja”. O que existe aí não consigo compreender e nunca compreendi: ou ela te ama ilimitadamente ou... se ama, então como quer te casar com outra? Diz ela: “Quero vê-lo feliz” - logo, quer dizer que ama.




"Um dia, todos terão direito a 15 minutos de fama"

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"É possível anunciar a verdade de forma a convencer as pessoas em 15 minutos"


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"Teve um ataque de epilepsia, que há muito tempo o havia abandonado. Sabe-se que os ataques de epilepsia, a própria epilepsia, passam num instante. Nesse momento o rosto e particularmente o olhar sofre uma deformação instantânea e extraordinária. As convulsões e os tremores dominam todo o corpo e todos os traços do rosto. Um lamento terrível, inimaginável e sem semelhança desprende-se do peito; nesse lamento é como se desaparecesse de chofre tudo o que é humano, e é absolutamente impossível, ou pelo menos muito difícil, a um observador imaginar e admitir que esse grito venha do mesmo homem. Imagina-se inclusive que quem está gritando seria um outro qualquer, situado dentro desse homem. Pelo menos foi assim que muitas pessoas explicaram a sua impressão, em muitas pessoas a visão do homem tomado de ataque epiléptico provoca um horror decidido e insuportável, que traz em si até algo místico. [...]"


Hans Holbein “O Corpo de Cristo Morto na Tumba" (1521)

- De quê eu ri? É que me ocorreu que, se não tivesse havido essa desgraça contigo, não houvesse acontecido esse amor, pode ser que viesses a ser tal qual teu pai, e ademais muito em breve. Irias te enclausurar sozinho e em silêncio com a mulher, obediente e muda, falando raro e com severidade, sem confiar numa única pessoa, aliás sem precisar absolutamente disso, e limitando-se a amealhar dinheiro no silêncio e na penumbra. E quando viesses a elogiar livros esses seriam muito, muito velhos, e te interessaria pelos da antiga seita do sinal da cruz com dois dedos, e ainda assim pela antiguidade...


O terceiro selo do apocalipse


De que me serve toda essa beleza quando em cada minuto, em cada segundo eu devo e agora sou forçado a saber que até essa minúscula mosquinha ali, que está zunindo ao meu lado numa réstia de sol, até ela participa de todo esse banquete e desse coro, e conhece o seu lugar, ama-o e é feliz, enquanto eu sou um aborto e só por minha pusilanimidade eu não quis entender isso até hoje! (Dostoiévski, 2002, p. 464).


Perfeita é a tua beleza
Tudo em você é perfeição!

Não te amo por amor, mas por compaixão. 


À grandeza de uma alma

Ah! Sem dúvida não estava se sentindo bem, hoje, a bem dizer se achando quase no estado em que outrora se sentia quando estava para vir um dos ataques da sua antiga moléstia. Sabia que em tais ocasiões costumava pouco antes se sentir excepcionalmente “ausente” de tudo, e que então confundia coisas e pessoas, caso não se esforçasse por prestar bastante atenção nelas. E havia ainda um outro motivo especial para fazer com que desejasse realmente descobrir se antes tinha estado mesmo diante da tal loja. Entre os artigos expostos na vitrina havia um que ele admirara de modo particular, havendo até calculado que devia valer uns sessenta copeques de prata. Lembrava-se dessa particularidade, não obstante a agitação e seu estado mental. Portanto, se tal loja existisse, se tal artigo lá estivesse mesmo na vitrina, isso confirmava que de fato parara acolá, atraído simplesmente por aquele tal artigo. E por conseguinte tal artigo deveria interessá-lo muito, já que o atraíra messmo estando ele como estava, aborrecidíssimo e confuso por ter saído do trem e abandonado a estação. Enveredou para a direita, olhando para as lojas e eis que, quando mais batia seu coração tomado de impaciência, deu de súbito com a loja! Encontrara-a finalmente!
Estava a quinhentos passos dela, ainda agora, quando lhe veio a vontade irreprimível de voltar. E lá estava o artigo que devia valer uns sessenta copeques. Olhava-o e repetia: “Deve valer uns sessenta copeques, não mais”, e riu. Mas sua risada era histérica.
Sentiu-se indisposto, infeliz, zonzo. Lembrou-se claramente, então, de que quando ali estivera antes, ainda agora mesmo, repentinamente se tinha voltado da vitrina para a rua, como fizera aquela manhã ao descer do trem quando, já na rua, surpreendera os olhos de Rogójin sobre ele. Dando como certo que não se tinha enganado (muito embora antes soubesse que era verdade mesmo), afastou-se da loja e estugou o passo. Urgia dar tudo por acabado. Agora estava mais que ciente de que nem mesmo na estação aquilo fora imaginação sua.
Algo de verídico se passara com ele, ligado à sua inquietação anterior. Mas o subjugou uma intolerável repugnância; resolveu não pensar mais nessas coisas, e conseguiu dar um curso completamente outro às suas cogitações.
Lembrou-se, por exemplo, de que sempre um minuto antes do ataque epilético (quando lhe vinha ao estar acordado) lhe iluminava o cérebro, em meio à tristeza, ao abatimento e à treva espiritual, um jorro de luz e logo, com extraordinário ímpeto, todas as suas forças vitais se punham a trabalhar em altíssima tensão. A sensação de vivência, a consciência do eu decuplicavam naquele momento, que era como um relâmpago de fulguração. O seu espírito e o seu coração se inundavam com uma extraordinária luz. Todas as suas inquietações, todas as suas dúvidas, todas as suas ansiedades ficavam desagravadas imediatamente. Tudo imergia em uma calma suave. cheia de terna e harmoniosa alegria e esperança. Tal momento, tal relâmpago, era apenas o prelúdio desse único segundo (não era mais do que um segundo) com que o ataque começava. Esse segundo era naturalmente insuportável. Ao pensar depois naquele momento, quando outra vez bom, muitas vezes dissera a si próprio que aqueles relâmpagos e fulgores, lhe dando a mais alta percepção de autoconsciência e, por conseguinte, também de vida em sua mais alta forma. Não passavam de doença, isto é, de mera interrupção de uma condição normal. Portanto, não eram absolutamente a mais alta forma de existir e de ser, devendo muito ao contrário ser contada como a mais baixa. E acabava chegando, por último, a uma conclusão paradoxal. Que tem que seja doença? Que mal faz que seja uma intensidade anormal, se o resultado desse fragmento de segundo, recordado e analisado depois, na hora da saúde, assume o valor de síntese da harmonia e da beleza, visto proporcionar uma sensação desconhecida e não adivinhada antes? Um estado de ápice, de reconciliação, de inteireza e de êxtase devocional, fazendo a criatura ascender à mais alta escala da vivência?


Obrigado!

"O traço mais importante de minha vida é enganar-me constantemente com as pessoas" (Lisavieta Prokófievna)


Madona na família do burgomestre Jacob Meyer
Hans Holbein


Somos o virtual mais real do que nunca.

The beheading of John Baptiste


Todos sabem que só dizem a verdade aqueles que não são espirituosos.

Queria ponderar e decidir um passo a ser dado. Mas esse "passo" não era daqueles que se ponderam e sim daqueles que justamente não se ponderam e simplesmente se decide por ele. 



O Círculo Petrashevski foi um grupo de discussão literária
formado por intelectuais progressistas em São Petersburgo,
organizado por Mikhail Petrashevski,
um seguidor do socialista utópico francês Charles Fourier.





A vida é vida em qualquer lugar, a vida está em nós mesmos e não fora. Ao meu lado haverá pessoas, e ser homem entre elas e assim permanecer para sempre, quaisquer que sejam os infortúnios, sem perder a coragem nem cair no desânimo - eis em que consiste a vida, em que consiste o seu objetivo.






Em "O Idiota", Fiódor Dostoiévski constrói um dos personagens mais marcantes da literatura universal. Aos 26 anos de idade, o príncipe Míchkin é um homem de grande bondade e inocência, que mescla traços de Jesus Cristo e Dom Quixote.


(Foto: Eduardo Matysiak)


Leonardo Boff, com 79 anos, teólogo, escritor e professor universitário brasileiro, expoente da Teologia da Libertação no Brasil e conhecido internacionalmente por sua defesa dos direitos dos pobres e excluídos, impedido de visitar Lula, afirmou que não sairia até conseguir ver seu amigo, em Curitiba, em 2018.


Boff viajou a Curitiba para fazer um aconselhamento espiritual e entregar a Lula um cachecol vermelho que havia prometido para o ex-presidente, que está isolado em uma cela desde a prisão no dia 7 de abril, praticamente incomunicável.



Junto a ele, Adolfo Pérez Esquivel, Nobel da Paz, foi impedido. Há tratado internacional que garante aos detentores do Nobel da Paz o direito de inspecionar as condições de prisões. 



Hoje esse direito foi negado.






Pousados na grade, 
riscam, o silêncio, os pássaros.
Embalam meu sono.
(Elenir)