CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

26 de maio de 2013

Da série temática Sonhos que não sonhamos (8)

Meus sonhos, através do sonho dos outros 

(by Rosemary Timpone)


Decidido, amanhã o dia é meu.  Comprei o jornal de papel de amanhã para adiantar meu sonho, nunca sonhei poder ter acesso às notícias do dia seguinte na véspera.

De cara, tem Angeline e Brad Pitt que virão ao Brasil e todos estão na expectativa do que eles podem pedir.  Descobri recentemente que Brad pegou um avião para ir "ali" na Alsácia comprar sua geléia favorita.  Como eu gostaria de conhecer Metz, viajar no século dos Templários, conhecer os castelos e passar pela encruzilhada da Europa, fazer a rota do vinho e agora, com certeza comer geléia.

Pulei a parte da confusão do Bolsa Família, que ganhou este nome em 2003, dado pelo Lula, que permanece no poder há mais de 10 anos e a gente chega à conclusão que os 10 anos do Bolsa Família mais os anos anteriores dos planos que tinha, nomes diferentes, a longo prazo, acho que podemos falar que isso é longo prazo, não tirou as famílias da extrema pobreza porque todos ficaram loucos em pensar que o programa ía acabar.   Essa é a única Bolsa que dá dinheiro.

Uma checada no Boa Chance, mas nada para mim, nunca sonhei que depois de tantos anos de trabalho eu estaria tão despreparada para o mercado atual.  Aí me lamento, porque não fui costureira, professora, trapezista que eram minhas aptidões iniciais, mas sem nenhum planejamento entrei no mercado de trabalho como podia e agora me reinvento.


Seguindo com amenidades descubro que o filho do homem mais rico do Brasil nunca leu um livro, e não me refiro ao filho que não nasceu não.  Fiquei chocada, penalizada e achei ele o rapaz mais pobre do mundo.  Por conta de não ter lido nenhum livro se submeteu a uma dieta onde ele só comeu galinha e arroz sem tempero, mais espanto, porque só galinha? Colocando agora na minha lista de intenção de sonhos, se tiver que emagrecer assim prefiro morrer tomando muito sorvete Magnum, comendo muitos queijos e toda sorte de bobagem.

Nas páginas seguintes me deparo com a mania das mulheres que é a barriga negativa.  Para atingi-la, além de passar fome, porque ninguém quer comer frango, é necessário muito exercício que só tem tempo mesmo para tanta dedicação a "executiva" e a funcionária pública e que postam suas fotos na internet.  A minha barriga negativa, no sentido de não valer nada de só deixar a dever está em forma.  Posso tentar postar as fotos do meu abdômen negativo, quem sabe?

Levanto os olhos rapidamente e vejo a mocinha da novela desfilar em um longo de musselina de seda por um local popular e sentar na escada no meio da rua.  Será que algum dia vou incluir isso em algum sonho?

25 de maio de 2013

Estranho João do Rio


(por: W. B.)

Alguns biógrafos registram seu nome como João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Barreto; outros omitem "Emílio" e "dos Santos". Em que pese o fato de figurar João Paulo Alberto Coelho Barreto nos contratos assinados a partir de 1905, a pessoa em questão é até hoje conhecida apenas como João do Rio (pseudônimo mais comum desse controvertido repórter, cronista, crítico, teatrólogo, contista – autor carioca por excelência).

Nasceu na Rua do Hospício (atual Buenos Aires, Centro) em 5 de agosto daquele 1881, ano que vira o futuro escritor Lima Barreto vir à luz em maio.

Filho de Alfredo Coelho Barreto – gaúcho, professor de Matemática, republicano e positivista extremado – e de d. Florência (bela negra cerca de 10 anos mais jovem que o marido), o menino não foi batizado na Igreja Católica Romana, mas registrado no apostolado positivista contrariando costumes vigentes no Rio de Janeiro, a que mais tarde ele chamaria "Frívola City".

Iniciou vida jornalística com 18 anos no diário "Cidade do Rio", flanou por diversos jornais antes de pousar, 1903, na "Gazeta de Notícias", onde adotou o codinome João do Rio. Permaneceu lá mais de uma década. Suas famosas reportagens dinamizaram o jornalismo da época, então repleto de arcaísmos estéreis e grandes maçadas.

Quase todos atestam colaboração imensa de Paulo Barreto para a Comunicação Social. Depois dele, a imprensa teria mesmo outra fisionomia.

Infelizmente, muito menos gente repara que – além da relevância jornalística – João tem importantes obras propriamente artísticas, literárias.

É impossível não se impressionar com o escritor em "Histórias da Gente Alegre", coletânea de textos de João do Rio, seleção, introdução e notas feitas por João Carlos Rodrigues, publicada pela livraria José Olympio Editora em 1981. Foi uma rara, senão única, lembrança do centenário natalício de Paulo Barreto. O livro tem como subtítulo "Contos, Crônicas e Reportagens da ‘Belle Époque’ Carioca", mas não dá para separar o que ali dentro é trabalho cronístico, conto ou reportagem. João do Rio esgarçou limites entre esses gêneros, tornando-os quase indistinguíveis. Líquido e certo é que ali há texto denso, forte – um soco nos cornos.

Imagino alguém me perguntando: "E soco nos cornos é bom?" Camaradas, a verdadeira arte não é feita para nos acarinhar, mas para sacudir a gente. Quando li "Dentro da Noite", oitavo texto do volume, cheguei a sentir náuseas, porém não consegui largá-lo; ouso dizer que esse conto é comparável aos melhores de Edgard Allan Poe ao abordar perversidades humanas.

Ainda em "Histórias da Gente Alegre", encontramos os ótimos "O Bebê de Tarlatana Rosa", "A Aventura de Rozendo Moura", "A peste"... Há também a reportagem "A Fome Negra" – corajosa denúncia social sobre péssimas condições de vida do trabalhador. Qual jornalista hoje dá oportunidade para populares falarem, opinarem sobre desemprego, jornada de trabalho abusiva, repressão patronal?

Se é tão bom assim, por que João do Rio é pouco editado agora? Não sei. Seus livros sempre venderam à beça. Mais ou menos em 2006, a Companhia das Letras relançou "A Alma Encantadora das Ruas", que esgotou rápido; saiu novamente em 2008 pela coleção Companhia de Bolso, mas essas são exceções... Será que editoras têm preconceito com João do Rio por ele ter sido homossexual, mulato, afetado, obeso e com fortes preocupações sociais? Não duvido.

Quem quiser conhecer também o ambiente literário da época em que viveu esse autor – falecido num táxi nas proximidades da Rua Bento Lisboa, Catete, em 1921 – também apreciará "O Momento Literário", reunião de entrevistas feitas por João com vários escritores. Entre eles há Curvelo de Mendonça, Olavo Bilac, Fábio Luz, Elísio de Carvalho... O livro foi lançado pela Editora Fundação Biblioteca Nacional (Coleção Raul Pompéia) em 1994 na Frívola City – Cidade Maravilhosa para alguns.

(JOÃO DO RIO AINDA NÃO FOI DEBATIDO NO CLUBE DE LEITURA ICARAÍ)

Da série temática Sonhos que não sonhamos (7)





24 de maio de 2013

Da série temática Sonhos que não sonhamos (6)

Sonho que não sonhei
by Novaes/

Não sonhei a vida. Ela me veio
assustadora, definitiva,
isolando-me bem no meio
desta selva viva.

Assustam-me as feras,
os uivos, a escuridão:
devoram quimeras,
erguem solidão.

Não sonhei a vida e, sabei,
não sonhei afetos nem desafetos.
Nem mesmo os sonhos eu sonhei!
(nem os pesadelos, nem os prediletos).

Não sonhei o amor, tampouco o ódio;
não desejei o prazer, nem o asco.
Nascer é real – sonhar é ópio?
Sonhar é arriscar-se ao fiasco.

Não sonhei a vida. Ela me foi imposta.
E, mesmo depois de nascer,
entre choro, mamadas e bosta,
se tive, foram sonhos de bebê.


Mais tarde, criança,
sonhos eram limitados
a alguma esperança
de doces e bons-bocados.

Um dia, universitário,
sonhei com um mundo melhor.
Foi sonho solidário
e antigo, desde os tempos de minha avó.

Todo o povo unido
pelo fim da iniquidade,
slogans de tempos idos,
liberdade, igualdade, fraternidade.

Depois, mais maduro,
tive que cuidar da vida
em seu aspecto prático, duro,
dinheiro para a comida.

Comi arroz com ovo, quando tinha.
Vivi de biscates que, na classe média, chamamos “frila”.
E sonhava com uma fada madrinha...
que me arranjasse umas 100 “pilas”!

Sonhei com os livros que li.
Com as músicas que escutei.
Amei tudo o que apreendi
nas entrelinhas que saboreei.

Quando criança admirava a folha em branco
mesmo sem ter ideia do que nela fazer.
Talvez fosse o sonho se chegando,
sem forma ainda para aparecer.

Já desenhei, já escrevi, já transformei
a folha em branco em sonhos reais.
Até algum dinheiro eu ganhei,
aportando meus navios aqui, nesse cais.

Não sonhei viver, mas aconteceu.
A vida é um sonho não sonhado.
Um sonho lindo que, a quem me deu,
eu devo dizer “muito obrigado!”

Neste sonho não sonhado
há dores, fins e recomeços.
Mesmo assim é o sonho mais festejado
e louvo até os meus tropeços.

Se não sonhasse, eu não viveria!
E se não vivesse, mesmo sem olhos eu choraria.

Viver é, feliz e convicto,
arrebentar-se.
Sonhar é um irrestrito

amar-se.


Memorial do Convento: Edmar Monteiro Filho


             Nos últimos tempos, assistimos às quedas sucessivas de ditadores do mundo árabe, acontecimentos que, guardadas as proporções e peculiaridades, fazem recordar o fim dos regimes absolutistas na Europa. De fato, as mudanças que se anunciam fazem prever algo muito menos drástico que as transformações sofridas pelo mundo ocidental com o fim do absolutismo. Mas a História ensina que o tempo é sempre o melhor conselheiro, quando se trata de avaliar as dimensões de um dado acontecimento. Assim, acredito que somente décadas adiante seremos capazes de compreender o fenômeno em toda a sua riqueza e analisar com precisão as suas consequências, da mesma forma que hoje ocorre com o Onze de Setembro.

            Os monarcas absolutistas não tombaram em questão de dias, defenestrados por hordas de populares que invadiram as praças exigindo mudanças. Em geral, é possível dizer que caíram lentamente, numa longa queda de braços perdida para o liberalismo econômico, ávido por se livrar dos grilhões dos monopólios e privilégios impostos pelos reis. A própria atribuição de características divinas aos monarcas absolutistas dificultou sobremaneira um final rápido para tais regimes, além da feroz repressão usada contra eventuais oponentes.

           Os ditadores árabes em geral não foram capazes de opor grande resistência aos movimentos reformistas. Muitos, por cautela, apressaram-se a fazer determinadas concessões à população. O ditador líbio Muamar Ghadafi aferrou-se com exemplar afinco ao seu status de mais longevo tirano do planeta, talvez saudoso dos primórdios do século XVIII, quando o monarca Luis XIV, da França absolutista, afirmava: “O Estado sou eu”. Interesses distintos – não necessariamente a ânsia de seu povo por melhores condições de vida e liberdade – acabaram por derrotá-lo também.

Mas essa concentração de poder político e religioso na figura de um só governante atingiu um de seus momentos de esplendor durante o reinado de D. João V, de Portugal. O soberano português – segundo consta, como pagamento a uma promessa feita para que a rainha, D. Ana, lhe desse um herdeiro – mandou erguer um mosteiro na cidade de Mafra. Hoje, ainda é possível constatar o luxo e a riqueza da monumental obra, custeada pelo ouro brasileiro, pelas combalidas finanças da coroa portuguesa e pelo suor dos pobres. O episódio marca exemplarmente o estreito laço entre a Igreja e o Estado, personificados na figura do devoto D. João, que não poupou esforços para tentar erigir um monumento à cristandade que ombreasse com a catedral de S. Pedro, em Roma.


            Usando aquela que é uma das marcas distintivas de sua literatura, José Saramago aborda esses fatos a partir de uma perspectiva deslocada. Ainda que a promessa do rei e os acontecimentos da corte sirvam de ponto de partida para seu Memorial do Convento, o episódio é quase todo ele tratado segundo o olhar da população que se envolve, entre maravilhada e indignada, com a construção do convento. A devoção do povo, vigiada pelos rigores da Igreja, curva-se ao luxo que adorna os altares e as vestes dos nobres e dos prelados, confundidos com os poderes celestes.  

            Não é difícil imaginar a população, oprimida entre os desmandos do rei divino, o medo das fogueiras do inferno e aquelas - mais próximas - da Inquisição, murmurando seus temores e sua indignação, num tempo em que se declarar ateu ou se rebelar contra um decreto real era condenar-se à morte. Assim, Saramago, livre dos compromissos assumidos pela História, mas alçando vôo a partir dela, usa a ficção para discutir as relações sociais do Portugal absolutista. O tom irônico empregado pelo autor, carregado de um anticlericalismo que é sua marca, narra episódios das vidas do soldado Baltazar Sete-Sóis e sua mulher Blimunda, do músico italiano Domenico Scarlatti e do padre Bartolomeu de Gusmão, misto de padre e cientista, figura que encarna os dilemas por que passava o mundo ocidental que se abria à ciência, mas mantinha os pés fincados nas formas mais obscurantistas assumidas pela religião.



            José Saramago não é unanimidade no universo literário, principalmente por conta das posições políticas que revela às vezes explicitamente em seus escritos. Mas sua grande arte surge em todas as cores em Memorial do Convento, construído com uma linguagem barroca, digna das luxuosas minúcias do próprio palácio em que se inspira. 



23 de maio de 2013

Da série temática Sonhos que não sonhamos (5, parte 1)


Sonho que se sonha junto...
(by Antonio Rodrigues)


"Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade."
(J. Lennon)


Ontem um menino que brincava me falou
Hoje é a semente do amanhã
Para não ter medo que este tempo vai passar
Não se desespere, nem pare de sonhar
Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
Nós podemos tudo, nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será
(Nunca pare de sonhar - Música de Gonzaguinha )




Eu
era um meninote quando a década de 90 amanheceu sob o céu cinzento da poeira levantada pela queda do Muro de Berlim. Nem podia compreender ainda a razão pela qual os profetas do Liberalismo saíram pelo mundo a proclamar o fim da história, como o fez Francis Fukuyama,  filósofo e cientista político norte-americano, em seu livro “O fim da história e o último homem”, no qual retomava velha tese hegeliana para proclamar a vitória do Capitalismo Liberal sobre o Socialismo Marxista. Aqui, o fim da história significa tão somente que os processos históricos caracterizados por mudanças e transformações acabaram. A história finalmente alcançou seu equilíbrio. Mas será mesmo que chegamos ao fim da história? Será o fim das utopias? O que será da esperança de se construírem sociedades mais humanas? Ficam aí as perguntas como provocação e estimulo ao espírito pensante que nos habita a todos. 
A mim interessa apenas partir desse contexto para propor uma tese. A historiografia contemporânea não tem dúvidas de que os eventos históricos do final dos anos 80 e início dos 90 desencadearam uma grave crise ideológica ainda não assimilada.  Defendo que também uma grave crise dos sonhos se instaurou na década de 90 e ainda permanece ativa e cada vez mais séria em nossos dias. Não se trata de uma crise dos sonhos individuais. Estes são cada vez mais abundantes e variados, embora muitos deles possam ser questionáveis. A crise a que me refiro diz respeito aos sonhos coletivos. Por opção pessoal, prefiro chamar os sonhos coletivos de sonhos-utopia.  Um sonho-utopia é aquele sonho capaz de nos impulsionar para frente e para o alto, e de nos salvar do atoleiro comum da mesmice e do pessimismo maledicente. O sonho-utopia é essencialmente coletivo porque diferente do sonho individual, que se encerra no sonhador, o sonho-utopia encontra sua concreção nos eventos coletivos, eventualmente históricos, e por isso mesmo carrega em si a energia transformadora da realidade e talvez do mundo. São estes sonhos cada vez mais raros. São estes os sonhos que não estamos sonhando. Proponho refletirmos sobre isto. 
E para impulsionar nossa reflexão, cito como exemplo de sonho-utopia o sonho de Martin Luther King, que no dia 28 de agosto de 1963, nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C., proferiu aquele que seria considerado por muitos como o melhor e mais importante discurso americano do século XX. "Eu Tenho um Sonho" (em inglês: I Have a Dream) é o nome popular dado ao histórico discurso de L. King no qual falava da necessidade de união e coexistência harmoniosa entre negros e brancos, construindo assim uma verdadeira democracia racial. O discurso fez parte da Marcha de Washington por Empregos e Liberdade e foi um momento decisivo na história do Movimento Americano pelos Direitos Civis. Mais de duzentas mil pessoas sonharam juntas com L. King naquele dia. Segundo o historiador brasileiro Voltaire Schilling, “O dr. King fizera um dos mais belos salmos políticos da língua inglesa.” E completa:  “Mataram-no a tiros uns anos depois, em Memphis, em 4 de abril de 1968. Como estará o sonho do dr. King?”

Continua... 

19 de maio de 2013

Da série temática Sonhos que não sonhamos (4)



(by Ilnéa Miranda)


Sonhambulando ... cheia de reticências...


Dos sonhos que não sonhamos

fazemos realidade...

vivemos vida, e inventamos

uns outros... p'ra ser saudade


O que faço sonhos meus?

Aqueles que não sonhei...

será que roubo dos teus...

ou de histórias que inventei?



*****

Trovando versos... eu sonho... 


Esse tema é um devaneio 

que acorda de alma lavada
que me acalanta o que anseio
muito gostoso... obrigada (Rita)


*****


Para Evandro... e o sonho que não vivemos.


A vida, como inventamos,

sonhando por conta dela

são sonhos que não sonhamos
em suaves tons de aquarela.




Num desenho aquarelado 
uma árvore alta e esguia 
um cavalo, quase alado,
balança-se à revelia.

Balança-se descuidado,
aos cuidados da criança,
que inda não vê revelado
um futuro de esperança.

Voar... quem sabe é a meta,
dos sonhos de cada um
que sonha a verdade inquieta
mas não lembra sonho algum?

Sugestões de Leitura (BEL-CLIc nº 001 de 17/05/2013)


Para comentar uma ou mais das sugestões de leituras abaixo, clique no campo Comentários.

Maria Marlie: Cacau, de Jorge Amado

"Acho que o Clube deveria ler Jorge Amado. Ano passado comemoramos o centenário dele e é um escritor maravilhoso, regional mas ao mesmo tempo universal. Jorge tinha apartamento em Paris, era uma baiano europeu, foi inclusive cogitado para ser prêmio Nobel, pela projeção da sua obra. Ele teve três fases distintas. Do início, com grande influência do comunismo, época em que ele fazia viagens à Rússia, destaco Cacau e São Jorge dos Ilheús, para mim muito interessantes porque são fortemente críticos, mais elitizados, não muito conhecidos do grande público, e a boa literatura não fica antiga. Na fase intermediária temos Tocaia Grande, Velhos Marinheiros (contos). Depois veio a fase mais famosa, de Gabriela, por exemplo. Eu li todos, li também A tenda dos milagres, Capitães de Areia, a obra dele é muito importante. Creio que devemos nos voltar para as nossas figuras. Deve ser lido pelo Clube ao menos uma vez."


Gracinda Rosa: Os Catadores de Conchas, de Rosamunde Pilcher

“Há muitos livros que são importantes para mim, mas não sei se outros teriam o mesmo chamamento pela leitura. Alguns deles, estando esgotados, seriam de difícil indicação. Lembrei-me de um livro mais atual e que, segundo pesquisa que fiz no blog, nunca foi lido no Clube. Trata-se de Os Catadores de Conchas, de Rosamunde Pilcher. É da Editora Bertrand Brasil e o meu exemplar é de sua 26ª edição. O susto é que ele tem 632 páginas que, para mim, no entanto, foram maravilhosas de ler. Creio que ela é irlandesa. Vive, atualmente, na Escócia. "Reconhecida internacionalmente como uma das melhores escritoras de histórias de amor da atualidade. Já publicou diversos livros de contos e romances." (da orelha do livro).  Ela cria personagens convincentes, escolhe cenários muito bem descritos, e vai contando uma história que prende nossa atenção do começo ao fim. Não sei se o grupo também gostaria de ler esse livro.” 
Para ler mais sobre o livro, clique aqui


Antonio Rodrigues: O passado, de Alan Pauls

"Há um escritor argentino que tenho vontade de ler faz tempo. Trata-se de Alan Pauls. Se o CLIc ainda não o leu, sugiro "O Passado", caso já tenha lido este, sugiro "A  história do pranto". A curiosidade em ler Alan Pauls nasceu do sucesso obtido com "O Passado", que foi adaptado (e muito criticado) para o cinema pelo brasileiro Hector Babenco. Outra coisa que contribui com esse meu desejo em ler A. Pauls é a sempre elogiada escrita do argentino, que já é saudado por muitos como um dos maiores escritores latino-americanos da atualidade."
Para ler mais sobre o livro, clique aqui


Rose Pinto: Os Maias, de Eça de Queiroz

"Os Maias, de Eça de Queiroz, é um clássico e acho que está na hora de revisitarmos os clássicos.  É o livro mais famoso do autor, que contempla a trajetória da família Maia durante três gerações e, aparentemente, traçando um paralelo com o momento político e social de Portugal. Trata das hipocrisias da sociedade portuguesa na ocasião (publicado em 1888). Nunca li nada importante dele.  Só alguns contos, dos quais gostei. Pode ser que o grupo já tenha lido num passado longínquo.”
Para ler mais sobre o livro, clique aqui


Elenir Teixeira: Lendo Lolita em Teerã, de Azar Nafisi

"Torno a indicar "Lendo Lolita em Teerã", de Azar Nafisi, da Best Bolso. Trata-se de "Memórias de uma resistência literária", como consta da complementação ao título. Envio uma pequena resenha: "A autora iraniana nos conduz à intimidade da vida de oito mulheres que precisam encontrar-se secretamente para explorar a literatura ocidental proibida no seu país. Elas liam em conjunto Orgulho e Preconceito, Madame Bovary, Lolita e outras obras clássicas. Sua narrativa remonta aos primeiros dias da revolução islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini. Obra de grande paixão e beleza poética que nos ajuda a entender os sangrentos conflitos do Irã com o vizinho Iraque, e a tirania do regime islâmico." 
Para ler mais sobre o livro, clique aqui


Fátima Namen: A ilha do dia antes, de Umberto Eco

"A ILHA DO DIA ANTES - Livro para quem quer mergulhar na ficção, com história, geografia, poesia. Excelente para quem gosta de cartas de amor.
Um primor para quem quer conhecer a lenta e traumática iniciação ao mundo setencentista da nova ciência, da razão, da guerra dos Trinta Anos.
Paixões insatisfeitas, duelos, assédios e tramas de espionagem."
Para ler mais sobre o livro, clique aqui

17 de maio de 2013

Sobre "O Senhor dos Sonhos" de Raimundo Carrero


(por: W. B.)


O romance "O Senhor dos Sonhos" do escritor pernambucano Raimundo Carrero é um livro cheio de humanidade, para aqueles que gostam da verdadeira literatura. Nele, um senhor caridoso resolve construir um abrigo para velhas indigentes, desamparadas. Acaba entrando em conflito com a sociedade, com a polícia e, principalmente, com o poder político. Os problemas se dão porque - como é época de eleição - o prefeito pretende demonstrar ao povo que o abrigo da prefeitura já é suficiente para amparar as idosas.

O romance, publicado pela Atual Editora, tem 98 páginas, é dividido em 23 capítulos curtos, narrado em 3ª pessoa, sem flasbacks, com acontecimentos seguindo a ordem cronológica. Vale destacar, como pontos altos da narrativa, os capítulos em que o personagem principal dialoga em sonho (ou imaginariamente) com a mãe muda.

Um livro cheio de sonho e esperança, em oposição à realidade dura e cruel. Realidade esta que, mesmo vencendo, não pode impedir que se sonhe.

(RAIMUNDO CARRERO AINDA NÃO FOI DEBATIDO NO CLUBE DE LEITURA ICARAÍ)

16 de maio de 2013

Da série temática Sonhos que não sonhamos (3)



VEJO
(by Ceci Lohmann)

VEJO-a de longe, estava sentada num café, mostrava-se distante e alheia ao seu entorno. Sua aparência franzina era a mesma; sempre fora muito magra, o que dava a sensação de ser frágil. Mas, apesar disso,  tentava superar os obstáculos da sua vida, que não foi fácil. Quando a conheci, terminara a faculdade com muito sacrifício. Vou me aproximando, o pouco brilho no olhar, o sorriso contido, destoavam dos traços daquela moça jovem, alegre e sonhadora que conheci.


Primeiro o abraço forte, saudoso, encontro do passado. Depois, nos sentamos, e pedimos ao garçom um chá. Noto-a mais calada: a fala é lenta, com um tom de desesperança. Há tantas coisas a contar, fomos muito próximas, mas depois nos afastamos, seguindo nossos rumos, nossos sonhos. Algo deve ter ocorrido para estar agora tão diferente.

Desde criança tivera um sonho, o de reencontrar seu pai. Dele, apenas guardara leves lembranças remotas especialmente quando foi visitá-lo por ocasião de uma doença. Eram momentos de grande alvoroço já que alguns parentes não aceitavam sua presença. A pobre menina ficava no meio das discussões. O pai queria levá-la para seu convívio,  criá-la em melhores condições, mas a família materna, muito pobre e limitada, não aceitava e ainda o tratavam mal. Em sua memória, fatos como esses eram doloridos. Sofria, pois amava os pais, e não compreendia porque não lhe era permitida essa aproximação. Seu pai nunca fez objeção alguma ao seu convívio com a mãe.

Ela nascera num local distante da cidade do pai. A mãe era de uma posição social mais humilde, tivera um rápido relacionamento amoroso e, ao perceber a gravidez, mudou-se sem nada comunicá-lo. Suas irmãs a trouxeram para outro estado. Já trazia no nascimento a marca da falta, da ausência, que tentara mais tarde reparar. Mesmo em outros momentos, com exceção daquele em que ficara gravemente doente e seu pai foi comunicado e veio socorrê-la apesar dos conflitos, ficara impedida de ter qualquer contato com ele e toda família paterna. Foram poucos encontros e sua imagem nublada impedia de visualizá-lo mais nitidamente. O pai soubera de seu nascimento e havia tentado romper estas barreiras em vários momentos. Ela era ainda muito pequena e só lhe restavam sombras nas recordações desses fatos. Para atenuar seu sofrimento, tentou esquecê-lo, esvaziar da memória seu amor por ele. Eram artifícios que nem sempre conseguia manter.

Cresceu e, já adulta, fez muitas amizades, resplandecia alegria. Mas mantinha o sonho de um dia resgatá-lo e de preencher este vazio doloroso, sentimentos que  ela vivia ocultamente, evitando causar mágoas à sua mãe. Nunca aceitou essa atitude da mãe de excluí-lo. Ao mesmo tempo se sentia devedora dos cuidados que ela lhe dedicara. Esse desejo lhe acompanhava fortalecendo-a em seus propósitos.

Numa tarde outonal, a mãe, já debilitada, quis falar-lhe do passado. Sentia remorsos pelo fato de tê-la impedido de uma aproximação com o pai, buscando morar em locais que ele desconhecesse, dificultando esse encontro. Confessa-lhe que temia perdê-la - ela mesma havia sido deixada pela mãe a quem nunca mais viu e foi criada por parentes -, por isso precisava estar como filha perto para substituir seu  próprio abandono.

Preocupada, resolveu revelar tudo que sabia sobre ele, a cidade onde morava, sua profissão, vida pessoal...era casado, tinha filhos (portanto seus irmãos), possuía uma ótima condição social. Pede-lhe perdão pelo mal que lhe causara e implora que fosse procurá-lo.

Confusa e emocionada, percebe que agora poderia viver seu sonho, preencher este anonimato que tanto a afligia. Sabia que seria bem recebida. Mas, fica conflituada por já não saber sobre seu desejo, teme lidar com frustrações que possam ocorrer nesse reencontro.

Procura uma amiga muito fiel que se propõe a acompanhá-la. Elas planejam uma forma de, inicialmente, realizar esse contato sem o pai perceber. Usariam um artifício já que trabalhavam num ramo semelhante ao de seu pai, e iriam se apresentar como interessadas em conhecer sua empresa com o intuito de buscar trabalho e moradia. Era uma cidade que precisava de profissionais especializados e o curriculum de ambas permitia isso.

Ela está lá, frente a um homem bem velho, cabelos brancos, pele morena como a sua, olhar cansado. Ela teme chorar copiosamente e revelar seu segredo. Defrontam-se silenciosamente pai e filha. Treme e teme desmaiar. Ele, andando vagarosamente com o auxílio de uma bengala, mostra-se sorridente e as recebe de forma acolhedora. Afinal, vinham de tão longe... Como ela, também era franzino. Era realmente seu pai, este pai que só existira em seus sonhos.

Ficam juntos algum tempo, conversam, ele oferece-lhes um cafezinho e tenta manter uma conversa amena. Elas ainda iam ficar alguns dias e ele as convida para ir à sua casa jantar e conhecer sua família - naquela cidade havia esse  hábito, era uma maneira de acolher os estranhos.

No auge deste momento ela alega não se sentir bem e se recolhe ao seu hotel. Ele, preocupado, deseja ajudá-la. Mas ela recua e despede-se. Retorna ao hotel, tropeçando pelas calçadas. No interior do seu quarto, desaba na cama, e chora copiosamente, como jamais fizera.Transbordam todos os sentimentos que lhe foram negados e reprimidos todos esses anos. Queria gritar, dizer-lhe que era sua filha, mas preferiu fugir. No dia seguinte, envia-lhe um bilhete de agradecimento e desaparece num ônibus qualquer rumo à sua cidade. Prefere desistir e retornar ao conforto de uma situação já conhecida, do que suportar o sofrimento e o momento da revelação; já não seria possível negar a falta, ocultar o ressentimento, enfrentar o abismo dessa realidade, um pai que já não era mais seu, não mais aquele com quem sonhara. A tristeza e o escuro da dor psíquica vão num crescendo anunciando a agonia da desilusão.

Nunca mais foi a mesma; o rosto sorridente e esperançoso transformara-se numa face inerte, olhar sem  crenças; restava-lhe a dor de não mais sonhar, não mais viver, apenas caminhar.

Soubera que o pai logo depois adoecera e morrera e ela jamais se perdoou.

Agora, quando a reencontro, contando-me sua estória, penso nos anos que se passaram, na sua tristeza, no sonho não vivido, na inutilidade das coisas. Sonhos que se perderam, como sua vida.




15 de maio de 2013

Qual foi o mistério de Garbo?: Chico Lopes

Biografia fornece chaves parciais


Enquanto existir uma coisa chamada Cinema e outra, o cinéfilo, livros sobre Greta Garbo não deixarão de sair. Dentre os que li, existentes no mercado, creio que o mais completo, substancial (e contraditório, como não poderia deixar de ser) é “Garbo”, de Barry Paris, pela editora Nova Fronteira. São 554 páginas para o admirador de Garbo ficar satisfeito e, ainda assim, pedir mais.

A capa e a contracapa do livro trazem fotos tão belas de Garbo que o fã corre o risco de comprar o calhamaço, como muitos, só pela sedução que as fotos exercem. Se for do tipo superficial, que mais exibe do que lê livros, ficará contente, mas, se exigir mais, terá uma decepção com o que há lá dentro – as fotos internas, embora de importância histórica e documental inegável, são em geral reproduções de qualidade bem duvidosa. O livro acaba valendo de fato pelo que Barry Paris escreveu.

Mas, no caso de biografias de astros e estrelas de cinema, o fenômeno básico do “star system” – o da idolatria cega do espectador a seus deuses– continua em pé. Duvido que alguém que gostasse de, por exemplo, Lana Turner, e que fosse dotado de algum discernimento literário, pudesse apreciar o que a estrela escreveu sobre si mesma (com auxílio de algum “ghost writer”, sem dúvida alguma) num livro da Francisco Alves chamado “Lana”, ainda encontrável em sebos. Leu como fã, e nada mais.


LEITURA DE FÃ: CASO À PARTE

Leitura de fã é sempre apaixonada, uma espécie de consumo vicioso, e os livros desse tipo são consumidos sem muita exigência de que o escritor seja bom. Basta ser competente, na linha dos artesãos meticulosos, pesquisadores profissionais e jornalistas que conhecem seu ofício que a América oferece aos montes. Ninguém se importa muito com a qualidade literária da biografia das estrelas, na verdade, já que amá-las parece ser uma coisa que forçosamente implica em fraquezas e complacências.

Como cinéfilo, tenho dessas fraquezas desculpáveis à luz da paixão, acumulando um bom número de livros sobre atrizes e atores cuja qualidade está entre o dúbio e o razoável, quando não é ruim mesmo, como o tal livro autobiográfico de Lana Turner. Nos anos 70 e 80, livros desse tipo foram saindo sem cessar, pela Francisco Alves e outras editoras – sobre Lauren Bacall, Ingrid Bergman, Vivien Leigh, Elizabeth Taylor etc. Fazem sucesso até hoje, mas só são encontráveis nos sebos virtuais ou nos bons sebos reais de grandes cidades.

O autor de “Garbo”, Barry Paris, teve muito cuidado em seu empreendimento – um monte de gente é citada, agradecimentos aos depoimentos recolhidos são feitos em profusão e o livro tem um ar digno e convincente.

Mas, há algo com as biografias de estrelas que é sempre paradoxal: queremos saber muito, mais, mais, mais, queremos saber toda a verdade (se tal é possível), juramos exigir qualidade e rigor, mas ao mesmo tempo, estamos dispostos, por paixão, a ignorar as manipulações, adulterações, conciliações, remendos, que podem ter sido feitos pelos biógrafos – estamos ávidos por bisbilhotices saborosas, historinhas que nunca, na verdade, poderão ser comprovadas, detalhes engraçados, grotescos, comoventes. Em suma, todo mundo, ao ler um livro desses, é suspeito: suscetível de ser alimentado por mentiras ou fatóides, está na verdade se curvando ao ídolo, a um objeto de devoção – e o ídolo desperta um apetite pela irracionalidade que pode ser despudorado e sem limites. A verdade – onde será que mora essa senhora mesmo? – conta pouco, nesses casos.


TEMOR À IDOLATRIA

Curiosamente, Garbo foi vítima precisamente disso, em toda a sua vida. Vítima dessa idolatria que sufoca, que interroga desesperadamente, que quer entrar em todos os poros do idolatrado, não deixar um respiradouro para o ser humano, para a pessoa assustada e frágil que pode existir por debaixo do mito. Essa curiosidade (que nada tem de inofensiva, que pode ser doentia e violadora) sempre a apavorou.

No livro de Paris, que resumirei dentro do possível, ela surge como uma moça de grande beleza não lapidada (bem gordinha, aliás, e com dentes tortos), ao chegar a Hollywood, levada pelo diretor sueco Mauritz Stiller, foi “reformatada”  pela Metro para se tornar a divina Garbo que o mundo conheceu e amou. Com atos e perguntas ingênuos, que despertavam risadas, falando Inglês com dificuldade, simplória como uma camponesa sueca sob muitos aspectos, ficou isolada em Hollywood, detestando o sol e o calor da Califórnia, morrendo de saudades da Suécia. Molhava-se o tempo todo, para combater o calor, e sonhava com neve (ver, a este respeito, a volúpia com que se cobre de neve em “Rainha Cristina”).

Mauritz Stiller, o diretor que a levou, era um homem famoso na Europa e não gostou do sistema americano, pois os produtores não simpatizaram com seu excesso e, além disso, era homossexual, envolvia-se liberalmente com rapazes, ignorando o puritanismo da América. Resultado: acabou voltando para a Suécia sem fazer filme algum e morreu esquecido. Sem seu mentor, solitária, Garbo ficou em Hollywood como um alienígena perdido em planeta estranho e foi obrigada a construir sua carreira com dramalhões em geral horrorosos.

Ela detestava tudo aquilo e, forçada a adaptar-se aos modelos publicitários dos estúdios da Metro, foi aos poucos rebelando-se contra toda aquela hipocrisia puritana, alimentada por fuxicos sádicos. Recolhia-se, esquivava-se. Como se tornou um grande sucesso, aprendeu a fazer as coisas à sua maneira e a impor seu temperamento difícil.

 A “griffe” Garbo, no final dos anos 20 e nos anos 30, passou a incluir a recusa obstinada à publicidade. Era uma aversão verdadeira, e foi tomada como pose. Mas, ela estava envolvida em contradições insolúveis – ser uma estrela de cinema amada pelo mundo inteiro e ao mesmo tempo uma eremita é coisa para enlouquecer.


É muito boa a parte do livro que cuida de sua infância, quando Barry Paris a mostra como uma menina que parecia ter consciência de que era predestinada a ser uma rainha solitária e mostrava já um enorme medo da fama. Isso não parece charme nem teoria romanesca com fumaça de misticismo adequada à mitificação – Garbo parecia mesmo patologicamente sensível à superexposição, e, mesmo com uma vaidade humanamente compreensível, nunca se reconciliou com os preços concretos e inevitáveis decorrentes da fama.

Sofreu com essa situação mais que qualquer outra estrela que se conheça, pois foi a mais famosa de todas. Esse é seu maior enigma, e parece uma brincadeira particularmente cruel do Destino que uma mulher tão fóbica a essas coisas tenha se tornado a criatura mais famosa (e exposta) do planeta.

Quanto aos filmes, alguém escreveu que Garbo passava por eles como uma condessa fazendo visita a uma favela. E é verdade: a maior parte são peças de museu que não merecem reverência, embaladas pela música de certo Herbert Stothart, compositor da Metro que roubava escandalosamente melodias de Tchaicovksy. Seus galãs foram, no mais das vezes, atores fracos, quando não canastrões inaceitáveis. Os únicos filmes dela que se salvam são “Rainha Cristina”, “Ninotchka” e “A dama das camélias”, porque, tivessem quantos defeitos tivessem, ajustavam-se feito luva à sua personalidade. Há também a sua interpretação marcante para a heroína de Tolstoi em “Ana Karenina”, em que parece amar mais o filho que o amante (o conde Vronski, vivido por Fredric March) e está soberba como a grande suicida. Teria sido uma Ema Bovary perfeita, mas, quando Hollywood lembrou-se de filmar a heroína de Flaubert, confiou-a a Jennifer Jones num filme de Vincent Minnelli que ficou esquecido.

Sua carreira termina nos anos 40, com o fracasso de uma comédia, “Duas vezes meu”, que parece nem ser lembrada no Brasil (ou em qualquer outro lugar do mundo), quando foi dirigida por George Cukor. Já erguera sua fama dúbia – diziam-na lésbica, mas nada se provava, embora tivesse muitas amigas homossexuais e gostasse de ser cortejada por elas. A Metro inventou que tinha um caso com o galã John Gilbert (risível em “Rainha Cristina”), e ele na certa esteve apaixonado por ela, mas Garbo era avessa ao casamento, avessa a ligações, e sempre foi assim – parecia querer ser amada, mas a idéia de intimidade constante, regular, a apavorava.

Os casos mais ou menos públicos que teve foram célebres – com o maestro Leopold Stokowski e com o fotógrafo Cecil Beaton. Beaton era homossexual assumido e talvez por isso não a incomodasse muito (a agressividade que ela supunha ser inseparável dos homens heterossexuais a apavorava). Mas ele foi oportunista com ela, mais que a amou: fotografou-a e divulgou fotos sem a sua aprovação, e ela nunca o perdoou por isso. Traiu-a no que mais prezava: sua privacidade, a divulgação de sua imagem não-pública. Garbo temia essas coisas de maneira instintiva, quase primitiva, como algumas tribos indígenas que sempre acharam que as máquinas fotográficas roubariam as suas almas.

Tudo indica, a partir de Gilbert, Stokowski e Beaton, que foi bissexual, mas sem entusiasmo. Referia-se a si mesma, na intimidade com as amigas “entendidas”, como um homem, de vez em quando: “O garoto aqui fez isso... o garoto aqui fez aquilo.” Lançou uma moda andrógina, andava de calças masculinas, gostava de atitudes mais masculinas que femininas, pediu a Aldous Huxley, ninguém menos, que escrevesse um roteiro sobre a vida de São Francisco de Assis para ela – queria interpretar o santo, usando um bigode. Era uma grande caminhante, adepta do vigor físico com certo fanatismo, mas, a rigor, era tudo e nada, sexualmente.
  


LONGE DAS TELAS, QUEM FOI GARBO?

Quando se afastou do cinema, era já uma mulher muito rica (e com fama de sovina). Aí, afastada da tela, Garbo reassume, segundo Paris, uma personalidade um pouco árida superestimada pelo fato de ser uma reclusa, de ter sido quem foi. Volta e meia ameaça voltar às telas com roteiros que lhe são oferecidos por dezenas de diretores e produtores que a veneram, mas não volta. Dedica-se aos amigos (muito ricos, em geral) e a uma vida em fuga aos repórteres, fãs, revistas, jornais, televisões – sempre apavorada com ser reconhecida, multiplicando pseudônimos, arranjando endereços e números de telefone a que raríssimos tiveram acesso. Passará a sua vida, envelhecerá, como uma criatura “à deriva” (ela mesma dizia isso), contando com a cumplicidade dos amigos milionários para continuar esquiva, escondendo-se na Suiça, andando pelas ruas de Nova York como uma transeunte comum, debaixo de roupas sem graça e óculos escuros.

É onde o livro começa a pintar uma mulher mais para antipática. Garbo chega a nos parecer uma egomaníaca insuportável, abusiva com os amigos de quem exige códigos, mudanças de comportamento, dezenas de concessões e ajustamentos para que não seja perturbada, para que os importunos não apareçam. Não desperta simpatia essa ociosa que decide viver numa vadiagem sem sentido, abastecida por uma conta bancária segura, pelo resto da vida. Parece uma solteirona neurótica, desocupada e com mania de dietas, remédios, de freqüentar charlatões “esotéricos” etc. É dada a rompantes de generosidade, mas, em geral, como toda pessoa muito rica, tem um culto doentio ao dinheiro pelo dinheiro, e com um jeito de velha avarenta, egoísta, ranzinza, que não gostaríamos de ter como vizinha. Mas essa impressão pode não fazer muito sentido. No entanto, é louvável que Paris tenha adotado, em sua biografia, uma linha de investigação que não é reverente em excesso, podendo pintar também as contradições e facetas menos agradáveis de uma mulher tão mundialmente adorada.

Garbo fora das telas não podia se queixar: teve idólatras e fãs embasbacados até o fim da vida. Carregou para o seu pequeno círculo privado a adulação pública que teve na Metro, nos anos de cinema. Fugia a ser paparicada, mas, contraditoriamente, gostava bastante disso. O que queria era ser paparicada de um modo muito peculiar, segundo um código pessoal bastante restrito.


O que há de poesia, nessa árida segunda parte do livro, é uma confissão patética: saía de casa em Nova York e se punha a seguir qualquer pessoa desconhecida na multidão, indo onde a tal pessoa escolhida fosse, apenas para fazer de conta que possuía um objetivo, um rumo, confundindo-se com uma humanidade de que sempre procurou ficar distante.

Nessas perambulações, era reconhecida por muita gente – outros famosos, como o escritor Truman Capote. Faziam parte de um grupo informalmente conhecido como os “Vigilantes de Garbo”. Há uma grande beleza nisso – gente que protege a solidão de um mito das implacáveis investidas e da curiosidade estúpida do mundo. E morreu assim, com pouca gente por perto, sem voltar ao cinema, rarefeita, só lembrada pelo rosto e por ter sido o único encanto (aliás, eterno) de muitos filmes ruins.

“Garbo” junta muito material contraditório e é um pouco cansativo, apesar de detalhado e bem escrito. É o livro mais completo existente sobre a estrela no mercado brasileiro. E reconheço que, quem não a admire muito, não poderá ser criticado pela falta de paciência para ir até o fim com a leitura.

Mas, vale a pena comprá-lo, nem que não seja para lê-lo. Muita gente ficará satisfeita só de olhar para a capa e a contracapa. Um rosto como aquele, difícil haver outro.

Clarice Lispector carregava consigo uma fotografia de Garbo, diz sua biógrafa Olga Borelli. Faz sentido. Olhar para ela é olhar para uma belíssima pergunta, das muitas que a escritora formulou. Sem resposta possível.



Chico Lopes é autor do romance "O estranho no corredor", debatido no clube de leitura em 3/5/2013

O texto acima integra o livro de ensaio ainda inédito: "Amar e Morrer no Cinema - Cadernos de Cinéfilo".