CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de maio de 2015

DESPERTAR: Elenir Teixeira



                                                                                             
            É chegado meu momento
         de muita meditação,
         vão para longe a saudade,
         as trevas e a escuridão!

         Mas por que tanta saudade
         se presa eu vivia então !?
         Se nem as flores eu via
         e nem sentia a canção !?

         Se do tempo fui escrava
         pois dele fiz o meu dono !?
         se as coisas boas da vida
         releguei ao abandono !?

         E lá estou eu, outra vez,
         do passado a me ocupar,
         tenho que seguir em frente
         para o tempo resgatar!

         Quero sol, quero alegria,
         com muito amor minha estrada
         dizendo no fim bem alto:
         Cheguei! Venci a escalada!

         E trazendo um coração
         livre,sem qualquer maldade,
         poder dizer mais  ainda:
         Tenho LUZ, PAZ e VERDADE!

 Elenir (1995)



O Multiverso de Fernando Pessoa




[Em um trecho de Carta a Adolfo Casais Monteiro - 13 Jan. 1935]

Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por estas razões, e ainda outras, a Ordem Extrema do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (excepto a Maçonaria anglo-saxónica) a expressão «Deus», dadas as suas implicações teológicas e populares, e prefere dizer «Grande Arquitecto do Universo», expressão que deixa em branco o problema de se Ele é criador, ou simples Governador do mundo. Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação directa com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos. Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também), caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeiro de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm. Quanto a «iniciação» ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde à sua pergunta: não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe ao meu poema Eros e Psique, de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente — o que é facto — que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1881. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a ordem) trechos de Rituais que estão em trabalho.





Na pessoa de Bernardo Soares em "O livro do desassossego"





23 de maio de 2015

Maria Teresinha recomenda - O reencontro: Carlos Rosa Moreira



Carlos Rosa Moreira

No restaurante da sobreloja do shopping, o movimento não era grande. Apenas algumas mesas estavam ocupadas naquele canto do corredor. Por isto, foi o ponto escolhido para o reencontro.

‒ Nós não devíamos estar aqui ‒ disse ela.

‒ Por que não? O que tem se nos virem? Somos dois amigos que se encontraram casualmente na hora do almoço.

‒ Muita gente nos conhece, e ele morre de ciúme de você.

‒ E eu tenho muito mais do que ciúmes; tenho uma saudade infinita de nós dois.

‒ Se fosse verdade, teria ficado comigo.

‒ Já conversamos tantas vezes sobre isso...

‒ É, você não quis deixar sua família, prefere “ser infeliz dentro de casa”. Sabe de uma coisa? Você não é infeliz, muito pelo contrário, gosta da vida que tem.

‒ Eu não quis arriscar a paz e a felicidade dos meus filhos. Você é que não teve paciência para esperar.

‒ Esperar... Até seus filhos ficarem independentes? Acha que nasci pra amante?

‒ Nunca pensei em fazer de você minha amante. Eu me envolvi seriamente. Mas nós só provávamos o lado adocicado da vida; eram passeios, jantares, tardes maravilhosas e a cama desprovida de amarguras, cobranças e preocupações. Não sabemos como poderia ser o dia a dia: você nunca me viu acordar e eu não conheço suas manias.

‒ Quem ama não pensa nisso.

‒ Olhe, não foi por isso que a chamei, já discutimos tanto sobre esse assunto... 

Eu quero dar uma coisa a você.

‒ É? Finalmente.

‒ Você me ajudou muito. Naquela época de horror, se não fosse você, não sei o que teria acontecido.

‒ Fui uma boa amante, não?

‒ Não, foi minha amiga, meu amor. Não consegue entender, não é?

‒ Claro que não. Se eu era o seu amor, como pôde ficar com ela?

‒ É a minha família! Não entende?

‒ Não!

‒ Não adianta essa conversa. Você me ajudou, conseguiu aquele emprego com seu pai quando eu já tinha perdido tudo, foi o que me salvou.

‒ Não poderia imaginar que estava ajudando sua mulher... Ela deveria me agradecer, sabia?

‒ Isso não interessa, o que interessa é que eu ganhei as ações na justiça e recuperei tudo. Foi por isto que a chamei. Lembra-se de quando recebi o primeiro ordenado no emprego com seu pai? Você disse: Quero um presente! Pois aqui está.

Ele escorregou a mão fechada sobre a toalha da mesa e colocou algo na mão dela.

‒ O que é isso, um cheque? É um cheque! Dez mil reais! Você está me dando essa grana?

‒ Estou. E se pudesse daria mais, você merece tudo.

‒ Não sei o que dizer... estou boba ‒ disse ela enquanto admirava o cheque esticado entre os dedos.

‒ Compre um carro, viaje, mesmo com aquele chato, ficarei feliz por você.

‒ Meu Deus...

‒ Morro de saudade de você...

Ele entrelaçou seus dedos aos dela. Ela olhou as mãos unidas e acariciou, com o polegar, o dorso da mão dele.

‒ Eu também sinto...

‒ Vamos ficar juntos, uma vez que seja, agora!

‒ Não, eu não posso fazer isso. Faz dois anos que estou casada, e você tem a sua mulherzinha.

‒ Nada tem a ver com eles. Antes do seu marido nós já existíamos, e quando você o namorava ainda estávamos juntos. Temos nossa relação no tempo, é uma coisa que pertence a nós!

‒ Vocês homens são engraçados... Para mim isso se chama traição!

Ela se desvencilhou da mão dele.

‒ Eu estava casado e fiquei com você, por que agora não fica comigo? Isso se chama falta de amor!

‒ Gostaria que sua mulher o traísse?

‒ Lembra-se dos nossos momentos, nossas brincadeiras? Era tão bom... Lembra quando te paguei?

Ele sorriu, esticou o braço e pegou a mão dela. Ela também sorriu, olhando-o carinhosamente de baixo para cima.

‒ Lembro... até isso eu fiz.

‒ Estava linda naquele vestido vermelho: as unhas pintadas, o batom carmim...

‒ Parecia uma puta.

‒ E era. Era a minha puta.

Ela sorria parecendo envergonhada, desenhava na toalha com a unha.

‒ O que a gente não faz... Cento e cinquenta reais pra ser puta...

Ele não respondeu, perdeu-se na face dela. Deixou-se transportar para o quarto de motel, sempre o mesmo nos seus encontros. Ela estava deitada de bruços completamente nua. As três notas de cinquenta dobradinhas sobre a mesinha. Beijou-a dos dedos dos pés aos cabelos. Percorreu com a ponta da língua as pétalas úmidas, desabrochadas, tocando-a no ponto mais sensível para que explodisse num gozo louco. Ele se viu em riste, admirando as pernas longas afastadas, deixando entrever os pêlos castanho-claros. Ela esticou os braços para trás e, com as pontas dos dedos, abriu as nádegas alvas e arredondadas oferecendo-lhe o que tanto desejava. O contraste das unhas longas, vermelhas, com a brancura da pele, as carnes íntimas, tão róseas, o oferecimento...

‒ Daria qualquer coisa para ter de novo aquele instante. Vamos ficar juntos agora, por que não? Eu sei que você quer...

Ela abaixou os olhos e movimentou negativamente a cabeça.

‒ Eu pago qualquer coisa. Por favor, mostre que é verdade quando dizia que me amava, eu preciso ter certeza!

‒ Paga?

‒ Pago. Pago dez mil!

‒ Mais dez?

‒ Isso. Eu amo você de verdade, quero vê-la feliz, nunca vou deixar de amá-la.

Ela olhou para ele, depois se virou e olhou à volta, puxou os cabelos loiros para trás com as duas mãos, prendendo-os com um estilete de madeira trabalhada. Apertou a mão dele que jazia sobre a mesa.

‒ Vamos, disse ela.



Conheça mais sobre a leitora CLIc Maria Teresinha que indicou este Conto de Carlos Rosa


Clube Jovem - A letra escarlate: Nathaniel Hawthorne



Participantes do Clube Jovem, fora a letra A

A humanidade tem uma propensão de denunciar o pior de si mesma quando esse pior está personificado em outra pessoa. 


Considerado um dos maiores romances da literatura norte-americana, A letra escarlate, de Nathaniel Hawthorne, é o tema do debate da edição de maio do Clube de Leitura Jovem. O evento acontece na quinta-feira, dia 21, a partir das 18h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9, em Niterói). A entrada é gratuita.
Lançada em 1850, a obra explora questões como o preconceito, a intolerância e o moralismo. A história se passa em Boston, no século XVII, em uma comunidade puritana e tem como foco a narrativa de Hester Prynne. Enquanto seu marido estava desaparecido, Hester engravida e tem uma filha ilegítima, Pearl. Pelo relacionamento extraconjugal, ela é julgada e condenada por todos na cidade, que passam a desprezá-la. Como forma de marcá-la por sua traição, ela é obrigada a usar sempre a letra A, bordada em escarlate em suas roupas, para que todos a identifiquem como adúltera.
Apesar de ser questionada diversas vezes sobre o pai da criança, Hester não revela quem é o homem com o qual teve um relacionamento. Após o julgamento, seu marido reaparece na cidade e assume uma nova identidade, como Roger Chillingworth, para não ser associado ao adultério da esposa. No entanto, Roger não perdoa a traição de Hester, e busca descobrir quem é seu ex-amante e se vingar dele.


Que direito tem um fraco de se sobrecarregar com um crime? O crime é para os que possuem nervos de aço, para os que podem escolher entre suportar-lhe as consequências ou, se elas lhe pesam demasiado, devotar energias rígidas e bravias a um bom propósito, enxotando assim o remorso.





A indizível desventura numa vida falsa como a sua é que ela rouba a seiva e a substância das realidades que nos cercam, e o Céu destinou à alegria e à nutrição do espírito. Para o homem insincero, todo o universo é abstrato - é impalpável -, míngua-lhe nas mãos até desaparecer. E ele próprio - à medida que se mostra por esse prisma mentiroso - torna-se sombra, ou mesmo, deixa de existir. Os únicos elementos que continuavam lhe proporcionando uma existência real neste mundo eram a angústia do mais fundo da sua alma e o seu indisfarçável reflexo no organismo físico. 


Num campo severo
imenso
negro e triste
gravada a vermelho
a letra A subsiste!





O ambiente não deixava de refletir o respeito que sempre envolve o espetáculo da culpa e da degradação de um semelhante, enquanto a sociedade não estiver bastante corrupta para sorrir em vez de tremer diante dele. 






“Sem dúvida, alguns desses austeros e carrancudos puritanos devem ter pensado que seria mais que suficiente castigo de seus pecados que, com o rodar dos anos, o velho tronco da árvore familiar, coberto de respeitável camada de musgo, houvesse de produzir, na extremidade do seu ramo mais elevado, um preguiçoso como eu. Nenhuma das aspirações, que eu tenha acariciado, eles a teriam reconhecidas como digna de louvor. Nenhum êxito da minha existência - se, além do campo doméstico, ela algum dia brilhou num sucesso - seria por eles considerados senão como desprezível ou mesmo positivamente vergonhoso. 'Quem é ele?' - murmura uma sombra cinzenta de antepassado para a outra. 'Um escritor de novelas! Que espécie de ocupação na vida, que maneira será essa de glorificar Deus, ou de ser útil à humanidade dos seus dias e de sua geração?'"





RECOMENDAÇÃO PEDAGÓGICA

"Os brinquedos devem ser proibidos em todas as suas modalidades. As crianças devem ser doutrinadas neste assunto de tal maneira que se lhes mostre o que todos os divertimentos representam como perda de tempo e futilidade. Devem ser levadas a ver que os brinquedos distrairão de Deus os seus corações e as suas almas e não farão mais do que prejudicar a sua vida espiritual".






Nas ruas relvadas ou nas portas das casas, encontrava as crianças da colônia brincando dos brinquedos soturnos que o puritanismo permitia: ir à igreja, flagelar quacres, escalpar índios em combates simulados, ou apavorarem-se mutuamente imitando esgares de feitiçaria. 




Na rígida comunidade puritana de Boston do século XVII, a jovem Hester Prynne tem uma relação adúltera que termina com o nascimento de uma criança ilegítima. Desonrada e renegada publicamente, ela é obrigada a levar sempre a letra “A” de adúltera bordada em seu peito. Hester, primeira autêntica heroína da literatura norte-americana, se vale de sua força interior e de sua convicção de espírito para criar a filha sozinha, lidar com a volta do marido e proteger o segredo acerca da identidade de seu amante.




Aclamado desde seu lançamento como um clássico, A letra escarlate é um retrato dramático e comovente da submissão e da resistência às normas sociais, da paixão e da fragilidade humanas, e uma das obras-primas da literatura mundial.








Uma característica — que, acredito, pode-se observar mais ou menos em todo indivíduo num cargo público — é que, valendo-se do poderoso braço da República, torna-se desprovido de vigor  próprio. Perde, proporcionalmente à fraqueza ou à força que tivesse por natureza, a capacidade de se autossustentar. Se possui uma quantidade incomum de energia inata ou se a enervante magia da posição que ocupa não consegue encantá-lo por muito tempo, talvez recupere o poder que lhe foi   confiscado. O funcionário demitido — um privilegiado, mesmo que vítima do grosseiro empurrão que o atira cedo às batalhas de um mundo hostil — pode chegar a retornar a si e se tornar aquilo que nunca foi. Mas isso raramente ocorre. Geralmente, o sujeito finca pé o maior tempo possível até a própria ruína, e então é descartado, completamente sem estrutura, e sai cambaleante pelos difíceis caminhos da vida, fazendo o melhor que pode. Consciente da própria enfermidade — de que perdeu a têmpera de aço e a capacidade de adaptação —, dali em diante e para sempre, ele passa a olhar melancolicamente à sua volta em busca de ajuda externa. Sua esperança difusa e persistente — uma alucinação que, em face de todo o desânimo e da revelação de algumas claras impossibilidades, vai assombrá-lo enquanto viver e, imagino, como a agonia convulsiva da cólera, atormentá-lo até mesmo por um breve período depois da morte — é a de que, finalmente e sem muita demora, por alguma feliz conjunção de circunstâncias, possa ser reabilitado em sua função. Essa crença, mais do que qualquer outra coisa, é o que lhe rouba a energia e a disposição para qualquer empreendimento que talvez sonhasse em levar a cabo. Por que deveria trabalhar duro e mourejar, e dar-se a tamanho incômodo para se levantar da lama, se, não demoraria muito, o braço forte de seu Tio viria erguê-lo e ampará-lo outra vez? Por que tentaria ganhar a vida aqui ou achar ouro na Califórnia quando logo voltaria a ser feliz todo final de mês, com uma pequena pilha de moedas reluzentes saídas do bolso daquele mesmo Tio? É tristemente curioso observar como apenas um gostinho da repartição já chega para contaminar um pobre sujeito com essa singular doença. O ouro do Tio Sam — com todo respeito a esse valoroso senhor — tem, nesse aspecto, a capacidade de encantamento de um pacto com o Diabo. Quem quer que toque nessa riqueza deve ter cuidado ou pode acabar sendo engolido pela barganha, o que custará, senão sua alma, ao menos muitos de seus melhores atributos; sua tenacidade, sua coragem e sua obstinação, sua verdade, sua autoconfiança e tudo o mais que conforma o caráter de um autêntico homem.

Fonte

20 de maio de 2015

Releituras





Em rápida reflexão sobre o quão delicado pode ser escrever sobre momentos que correspondem à vivência conjunta de distintos indivíduos (como os momentos do Clube de Leitura), uma palavra, a princípio desconfortável, me vem à mente: pastiche.

Na literatura, ou na arte, pastiche pode ser definida como uma imitação grosseira da obra ou do estilo de escritores, pintores, ou músicos. Etimologicamente, pastiche deriva do italiano “pasticcio” (ou “pastitsio”), um prato italiano com diferentes compostos a base de massa. Durante a Renascença, o termo era aplicado de forma pejorativa a cópias de obras de grandes pintores italianos, criadas com propósitos fraudulentos. Posteriormente, tanto na literatura quanto em trabalhos não-literários, como artes ou música, o termo passou a ser aplicado como uma técnica de imitação de estilo. Não mais necessariamente visto como plágio, mas, de forma mais respeitosa, como uma releitura.

No ramo da pintura, a releitura implica numa expressão da compreensão da obra, sem preocupações com semelhanças fiéis. “É o sentimento se aliando à observação na produção de um trabalho.” Um exemplo, é o espanhol Pablo Picasso (1881 - 1973). A despeito de sua criatividade e originalidade, Picasso, abusou das releituras. Quase como uma fixação, buscou, de modo incansável, inspiração em obras como "Almoço na Relva" (Dejeuner Sur L´Herbe), do francês Éduard Manet (1832 - 1883), criando 27 óleos e mais de 150 desenhos inspirados no original. Outro trabalho que encantou Picasso foi "Las Meninas", do espanhol Diego Velázquez (1599 -1660).


Esquerda: As Meninas, pintura de 1656, de Diego Velázquez. O quadro retrata a infanta Margarida Teresa de Habsburgo, filha do rei espanhol Filipe IV, acompanhada de damas de companhia e de outros serviçais, numa das salas do Palácio Real de Madrid. Há também um auto-retrato de Velázquez e reflexo do rei e da rainha num espelho atrás da infanta. Direita: Releitura da obra, feita por Pablo Picasso. Em 1957, Picasso havia pintado 58 versões de As Meninas.

Como técnica literária, o pastiche pode ser entendido como uma colagem ou montagem. Quase uma colcha de retalhos de vários textos. A imitação de um estilo literário, nem sempre é vista como grosseira.  Vide Fernando Sabino e Domício Proença Filho, que reescreveram Dom Casmurro, de Machado de Assis, em seus respectivos trabalhos: “Amor de Capitu” e “Capitu – Memórias Póstumas”. Já o romance “Em Liberdade”, de Silviano Santiago, é pastiche do estilo de Graciliano Ramos.
Interessante o que o Silviano Santiago disse de que escrever o romance foi uma espécie de estofamento dos dados e fatos que compilou sobre Graciliano.”
O exercício da releitura pode ser interpretado de diversas formas. Ela nem sempre é exercida. Como num ato de libertação, necessário à conclusão de um trabalho, muitos autores afirmam que não tem o costume de reler o que escrevem. Esta afirmação foi feita por José Saramago, em entrevista, e presencialmente compartilhadas por Gustavo Bernardo e Silviano Santiago, em suas visitas ao Clube de Leitura nas reuniões de janeiro e setembro de 2009, respectivamente. Ambos, utilizando palavras semelhantes afirmaram “Eu não me releio”.

O NÃO à releitura de suas obras, porém, parece não ser regra entre os mestres da literatura. Segundo Silviano Santiago, em conversa com o grupo, Graciliano Ramos não só releu São Bernardo, como o reescreveu.
Muito interessante saber que São Bernardo foi reescrito por Graciliano, em brasileiro, quando caiu-lhe a ficha de quão europeizado sua linguagem era.”
De fato, no posfácio de São Bernardo está registrado que Graciliano “escreveu à esposa que, quando terminou de compor o romance tratou de 'traduzi-lo' para 'brasileiro'...”, tamanha a preocupação do autor com o uso da língua portuguesa. E o romance, lançado em 1934, foi publicado várias vezes durante a vida do autor.

Para um tradutor, como Paulo Bezerra, por exemplo, o exercício de diversas releituras e auto-releituras deve ser quase obrigatório.

Segundo Nelson Rodrigues, "Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos."

No Clube de Leitura, houveram duas releituras: “Ensaio sobre a Cegueira” (lido em janeiro de 1999 e posteriormente em outubro de 2008), e “Lavoura Arcaica” (maio de 2002 e novembro de 2009). A simpatia do grupo por releituras é reflexo da própria essência que dá continuidade às reuniões: leituras compartilhadas.

Para muitos dos integrantes “as releituras, em geral, se constituem em outra leitura porque o leitor nunca é mais o mesmo.” Discutir um livro em grupo é uma espécie de releitura, pois ouvir as impressões pessoais dos outros leitores “significa estar desenvolvendo um novo olhar, através do outro”. E até mesmo filmes inspirados em livros podem ser interpretados como releituras:
O cinema é uma linguagem diferente, é quase um outro livro.”
Como diz Heráclito de Éfeso, ‘não se pode entrar duas vezes no mesmo rio’. Tenho aproveitado para ler algumas resenhas sobre 'Ensaio...' e estou perplexo com o que ainda não tinha ‘visto’.”
As reuniões do grupo também sempre fazem alguma referência à sua história. Sintomático também que a primeira leitura do grupo na universidade tenha sido de um livro que já fora lido anteriormente (O ensaio sobre a cegueira do Saramago), sinalizando que há leituras e re-leituras, que o ato de ler é também um ato político, que há texto e contexto que se interpenetram e se influenciam mutuamente etc.”
Tão verdadeira é a essência das leituras compartilhadas para os participantes do Clube de Leitura, que o próprio termo “colcha de retalhos” já foi empregado, em referência a síntese mensal feita pelo “concierge” após cada reunião:
A cada véspera de uma reunião mensal fico aqui a imaginar o encontro e as descobertas que cada um deve apresentar a respeito do texto, do autor e das entrelinhas que nem sempre são desnudadas... sobretudo, a interpretação de cada um, num pedacinho aqui e outro ali que o nosso Coordenador tão pacientemente coleciona num lindo emaranhado em forma de cesto. Depois ele tece com maestria, desata os nós, mergulha nos vossos discursos e gentilmente nos apresenta em forma de ‘relato’ aquela colcha de retalhos lindamente colorida e sofisticada,... Ele nos prepara para uma nova leitura. Trata-se de um costureiro! ... Cada retalho é uma palavra, uma emoção, uma leitura. Ele pega, cose direitinho com fio colorido, com agulha grossa e prepara tudo para a exposição.”
Ponho então a desconfortável conotação de pastiche de lado. Pego minha agulha, e respeitosamente tento montar mais uma ou duas releituras do Clube de Leitura. Obra infindável de vários autores, em seus encontros e reencontros, leituras e releituras.

15 de maio de 2015

A emoção se foi: B(ye). B(ye). King





Hoje, somente  agora, me dou conta
de que eu vivia cifras.
Buscava cifras, Estudava cifras.
Calculava cifras. Cobrava cifras.
Minha mente era, apenas, cifras.
O tempo me escravizava..

Hoje, eu vou morrendo...
Ou melhor, estou vivendo flores.
Eu vejo flores, eu sinto flores,
eu faço flores, eu canto as flores.
Meu coração é todo flores.
O verso me libertou...

Elenir




“Amanhã eu farei...

Amanhã eu terei...

Amanhã eu serei...

Por quê esperar amanhã para viver?

Um dia não haverá mais amanhã para você, e você não terá vivido...”



(Michel Quoist)





"Assim como os picos cobertos de neves são bonitos,
os cabelos brancos da velhice também tem sua beleza.  
Não apenas beleza, mas sabedoria também,
de que nenhum jovem pode se vangloriar”.  

Osho


"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,  
nem estes olhos tão vazios,  
nem o lábio amargo.  
Eu não tinha estas mãos sem força,  
tão paradas e frias e mortas;  
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,  
tão simples, tão certa, tão fácil:  
em que espelho ficou perdida a minha face?” 



(Cecília Meireles)



Follow you, follow me: Genesis


“Só na velhice a mesa fica repleta de ausências.  
Chego ao fim,  
uma corda que aprende seu limite
após arrebentar-se em música.  
Creio na cerração das manhãs.  
Conforto- me em ser apenas homem.  
Envelheci,
tenho muita infância pela frente”. 

Fabrício Carpinejar





"A velhice é a última chance que a vida nos oferece para acabar de crescer, madurar e finalmente terminar de nascer. Neste contexto, é iluminadora a palavra de São Paulo: ”na medida em que definha o homem exterior, nesta mesma medida rejuvenesce o homem interior”(2Cor 4,16). A velhice é uma exigência do homem interior. Que é o homem interior? É o nosso eu profundo, o nosso modo singular de ser e de agir, a nossa marca registrada, a nossa identidade mais radical. Esta identidade devemos encará-la face a face." 

(Leonardo Boff)


9 de maio de 2015

MÃE: Elenir


Em homenagem ao seu dia, envio alguns Haicais, desejando a todas as mamães, aos filhos, às titias, aos papais e, também, ao nosso Clube, que nos traz o aconchego  e  carinho de mãe, muitas alegrias nesse dia.



Mãe! suavemente
norteastes minha vida.
 Saudade sofrida.

Maior que o oceano
infinito como o céu
é o teu amor Mãe!

Mãe, teu nome é símbolo
do amor incondicional.
Dá sem cobrar troca.   


Mãe, o teu silêncio
dizia mais que as palavras.
Escuto-o, ainda.


Às mamães do CLIC, aos pais-mães, às titias-mães, enfim, a todos os  que, mesmo não tendo gerado, abrigam  no coração o inigualável amor de mãe, meu carinhoso abraço. Parabéns! Um domingo muito feliz para vocês!


Charles Sillem Lidderdale

No brilho da estrela
e na doçura da brisa,
eu te encontro, Mãe!
                                  
Mãe, nome pequeno
que traduz sabedoria,
amor e coragem.

Flor de lis e luz
tu perfumas e iluminas
os teus filhos-Mãe!
                                    
Mãe, o teu amor
nosso caminho ilumina.
Evita os tropeços. 
                                
Beijos.
Elenir


Paula Modersohn-Becker


Ensinamento 

Minha mãe achava estudo 

a coisa mais fina do mundo. 

Não é. 

A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 



Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, 

ela falou comigo: 

"Coitado, até essa hora no serviço pesado". 



Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente. 

Não me falou em amor. 

Essa palavra de luxo.

Adélia Prado




Para Sempre 

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento. 


Morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

- mistério profundo -

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.