CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

31 de outubro de 2013

O Deus das pequenas coisas, de Arundhati Roy, no Clube de Leitura Icaraí



Uma poesia em forma de romance. Assim pode ser descrito O Deus das pequenas coisas, de Arundhati Roy. Trabalhando com a cultura da Índia dos anos 1960 e 1970, a autora analisa algumas interessantes mudanças na cultura do povo afetado pelo que chega de novo da Europa. Essa incorporação de hábitos dos colonizadores europeus, junto com importantes tradições locais, promete gerar um excelente debate com um enredo cheio de romances. O debate em torno do livro acontece das 19h às 21h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9, em Niterói). A entrada é gratuita.
O livro desta autora indiana, em muitos aspectos autobiográfico é, antes de mais nada, um enredo tão intenso como o de "Romeu e Julieta". A força das histórias de amor destacada nessa obra é tão evidente devido a todas as barreiras de grandes ou pequenas coisas impostas por uma cultura tão tradicional e rígida. Todas essas dificuldades tornam O Deus das pequenas coisas um festival de relacionamentos proibidos. Sejam dois gêmeos que se amam com uma intensidade que ultrapassa os laços de sangue, a avó cuja história de amor tem as cicatrizes da violência, a tia-avó que esconde a paixão pelo Reverendo sob uma capa de austeridade e repressão, o tio que não ultrapassa o desamor pela sua musa britânica, todas possuem essa característica.
Com repetições, frases de uma palavra e adjetivos enriquecidos pelo uso de metáforas, sinestesias e personificações, o título aposta em uma intensidade textual fora do comum. As pequenas coisas são descritas até o mais íntimo significado como quem deseja prolongar aqueles momentos, muitas das vezes proibidos. Porque, nessa obra, são as pequenas coisas que ligam os personagens ao amor, à loucura e à infinita felicidade.

30 de outubro de 2013

CLIc 15 anos: viagem a Conservatória dá o que contar (Parte V)

Momentos sublimes II

Poesia de Elenir Teixeira, premiada no Festival de Poesias ... e



                                       
 Amanhecer

                                                                      
Pela minha janela entra a luz
despertando-me para um novo dia.
O mesmo trabalho... as mesmas esperas... os mesmos disfarces...
a mesma mesmice...

Pela minha janela entra o som de buzinas apressadas.
A impaciência também acorda ao amanhecer.

É a implacável corrida do homem contra o tempo.

Pela minha janela entra a algazarra das crianças no pátio da escola, 
misturada à dos pássaros
pousados nas grades que fatiam o azul do céu.

São livres. Invejo-os.

Pela minha janela entra o cheiro da terra lavada pela chuva da noite.
T
raz paz ao meu corpo. Aquieta meus sentidos.

Pela minha janela entra o ruído estridente e nervoso da moto-serra,
seco e monótono do  bate-estacas machucando o solo.
E a cidade vai se convertendo em concreto.

Pela minha janela entra, na carona da brisa, o aroma gostoso de café.
Traz-me de volta outros amanheceres.

Pela minha janela entram acordes suaves.
A professora de piano já iniciou suas aulas.

Pela minha janela entra uma menininha de tranças...
Vem de longe, estende-me sua mão
e convida-me a caminhar.

Pela minha janela entram seres, sons, aromas e cores.
Pela minha janela entra a VIDA!
                                                            

                                                                   lindamente declamada para o grupo

29 de outubro de 2013

CLIc 15 anos: viagem a Conservatória dá o que contar (Parte IV)

Momentos sublimes (I)




Acima, Zezé cantando Força Estranha e, em seguida, Cris e Dília declamando. Abaixo, poema declamado ao final do Café-concerto e gentilmente enviado por Cristiana .



SE EU FOSSE UM PADRE

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
– muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,
não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!
Porque a poesia purifica a alma
...e um belo poema – ainda que de Deus se aparte –
um belo poema sempre leva a Deus!

(Mario Quintana)



Abaixo, poema lido e gentilmente enviado por Marise ao final do encontro

SONETO DO AMIGO

Enfim, depois de tanto erro passado

tantas retaliações, tanto perigo
eis que ressurge noutro o velho amigo
nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado

com olhos que contêm o olhar antigo
sempre comigo um pouco atribulado
e como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano

sabendo se mover e comover
e a disfarçar com o meu próprio engano

O amigo: um ser que a vida não explica

que só se vai ao ver outro nascer
e o espelho de minha alma multiplica...


(Vinicius de Moraes)


Uma Imperatriz Despedaçada - por Wagner Medeiros Jr.


O augúrio de D. Leopoldina começou a ser traçado com a chegada de Domitila de Castro do Canto e Melo ao Rio de Janeiro. O príncipe D. Pedro a conhecera em São Paulo, através do irmão, alferes Francisco de Castro, durante viagem para debelar os conflitos que instabilizavam aquela província, dias antes da independência.

Domitila casara-se aos 15 anos, com o alferes Feliciano de Mendonça, com quem teve três filhos. Aos 21 se separara, após ser espancada e esfaqueada. Segundo Feliciano, por “violação da honra”, pois a encontrara “resvalada aos pés de um fauno”, como dizia do coronel Francisco Lorena, que viria a manter relação com Domitila até seus 24 anos, quando ela conhece D. Pedro.

Domitila não tardou a seduzir o regente, pois o primeiro encontro íntimo foi quase imediato, em 29 de agosto de 1822. Também não tardaria a abalar o prestígio do imperador D. Pedro I e o Império nascente. Mas, as feridas mais profundas seriam dilaceradas na Imperatriz, D. Leopoldina, pela ascensão de Domitila sobre D. Pedro. 

Ainda em julho de 1823 D. Pedro I demite José Bonifácio, amigo e confidente de D. Leopoldina, que é forçado ao exílio. Compõe, então, um governo de portugueses. A Imperatriz vai ficando isolada, o que é agravado quando o imperador nomeia a concubina para Primeira Dama da Imperatriz, em abril de 1825, dando-lhe lugar de honra e o direito de acompanhar D. Leopoldina por toda parte.

Segundo Maria Graham, isto causou à Imperatriz “o mais odioso dos incômodos”, pois permitia que Domitila a acompanhasse, desde que ela saía dos seus aposentos. Mesmo assim, pelo amor a D. Pedro e aos filhos, a Imperatriz mantinha-se altiva, por considerar um dever suportar situações adversas. Não raras vezes, ainda era submetida a restrições financeiras e obrigada a recorrer a amigos, enquanto Domitila e os seus eram contemplados por ricos presentes, cargos e títulos honoríficos.

Em 12 de outubro de 1825, no aniversário do imperador, Domitila é elevada à Viscondessa de Castro; no seguinte, à Marquesa de Santos. Antes, porém, em maio de 1826, D. Pedro reconhece publicamente a paternidade de Isabel Maria, filha com Domitila, impondo sua convivência com os filhos legítimos. Um duro golpe, que deixa a imperatriz muitíssimo ressentida.

Outro golpe foi a viagem à Bahia, com o fim de arregimentar tropas para a Guerra da Cisplatina, entre fevereiro e março de 1826. Para o povo baiano foi um escândalo a forma de D. Pedro tratar a concubina, se hospedando no mesmo lugar que ela, em detrimento de D. Leopoldina e da filha Maria da Glória, que ficaram em local mais modesto.

Em decorrência de tantas adversidades a imperatriz entra em grande crise depressiva, que só termina com sua morte, aos 29 anos, em 11 de dezembro de 1826. Deixa cinco filhos: o mais novo, Pedro de Alcântara, com um ano, seria Imperador do Brasil; a mais velha, Maria da Glória, com 7, seria Rainha de Portugal.

Tudo começou no dia 20 de novembro, quando D. Pedro I lhe passaria a Regência, para uma viagem de inspeção às tropas, no sul do país. D. Leopoldina, grávida, se recusara a ser acompanhada por Domitila, o que deixou o imperador furioso, por não poder mostrar aos presentes a “normalidade” da sua vida conjugal.

Na carta derradeira à irmã Maria Luíza, ditada à Marquesa de Aguiar no dia 8 de dezembro, D. Leopoldina diz que D. Pedro “acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento, maltratando-me na presença daquela que é a causa de todas as minhas desgraças. Muito e muito tinha a dizer-te, mas faltam-me forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa da minha morte”.

Se a Imperatriz morreu por septicemia puerperal após ser agredida por D. Pedro, não há provas. Do que há é que Domitila ainda tentou adentrar nos aposentos onde a Imperatriz agonizava, mas que foi impedida pela pronta ação dos que a acompanhavam  em sua agonia mortal.
e-mail: wagnermedeirosjr@gmail.com
Visite o blog: Preto no Branco

28 de outubro de 2013

CLIc 15 anos: viagem a Conservatória dá o que contar (Parte III)

Para ler as partes 1 e 2, clique nos links abaixo:



No ônibus fretado que nos acompanhou em todos os passeios, reparei que Zezé estava especialmente bonita, toda pintadinha, mas ... era domingo, Igreja de Santo Antonio, vai que... Nada disso que você pensou, chegando à praça principal, enquanto esperávamos a missa dos seresteiros acabar, ela sumiu. Mudou de roupa e foi aparecer de vestidinho preto no altar, ao lado de Cris e Dília, conversando com um violeiro que eu não conhecia. Será que ela vai cantar? Não deu outra, enquanto arrumavam o microfone a moçoila ficou de altos papos com o do violão, como quem combina o tom e outros detalhes. Dília era uma pilha de nervos - do lado de fora da igreja já tinha fumado todos -, e Cris estava,como sempre, calminha, em um penteado muito chique, cabelos presos com trança embutida.


O café concerto começou com Zezé cantando “Cio da terra”, lindamente. Nunca podia imaginar que nossa colega tinha também esse dom musical. Que graça e presença de palco, descontraída, livre, leve e solta. 


Divinos versos foram alimento para alma e lavaram todos os eventuais resquícios da noite anterior. Acho que foi por isso que quando saímos da igreja tinham uns pingos de chuva caindo. Teve quem foi às compras de novo e depois, nos reencontramos todos no ônibus. Se não me engano foi quando Rose T. me cutucou e disse que Elenir havia sido premiada também, em 7º lugar, sendo que não sabíamos porque perdemos o primeiro dia do festival. Uma sorte a organizadora lá do Café Literário ser também a que estava à frente do Festival e ter perguntado à Dília se não era do nosso grupo uma senhora de nome Elenir, que não tinha aparecido para pegar seu troféu, por conta do atraso devido ao trânsito.  Que ótima surpresa!

Durante o almoço aproveitei para tirar fotos de todas as mesas com Elenir e seu troféu e antes de partirmos de volta ela declamou sua bela poesia, arrancando aplausos e gritos de 1º lugar.

  

 

 

Todos já estavam a postos para o retorno, exceto o motorista, que havia nos advertido para não sairmos sem ele, há há há.  Dília e Cris bem que quiseram nos brindar com novo café concerto, um potpourri dos melhores cafés de 2013, mas o povo tinha almoçado bem, o balançar suave do ônibus, sabe como é. O sono ganhou do sonho daquela vez. 

Depois da breve parada, onde muitos se refrescaram com um picolé - não é Gracinda? -, cantamos muitas e muitas canções, de serestas e MPB. Zezé tentou dar mais uma canja, mas o microfone não estava nos seus melhores dias. Elô aproveitou e sugeriu que eu fizesse uma entrevista com nossa cantora-revelação para o blog do Clube. Anotado.  E assim voltamos aos pontos de encontro, deixando Cláudia, Rose T. e Sonia no Rio e todo o resto do povo em Nikit.


Não sei se deu pra você captar um pouco do clima. Embora eu tenha tentado cobrir os principais momentos, muita coisa com certeza ficou de fora. O mais bonito foi o carinho de Cris e Dília o tempo todo com a gente e da gente em momentos tão especiais onde sorrisos eram fartos como a presença da natureza. Não disse antes, mas Marise fez um bonito agradecimento antes de embarcarmos, logo após a declamação de Elenir, e finalizou lendo o poema do amigo. 

Difícil essa coisa de relatar uma vivência transparecendo o que a gente sente, espero que outros participantes possam compartilhar suas impressões também. De minha parte, se tivesse que escrever apenas uma palavra, seria a que aprendi no Clic: GRATIDÃO.

CLIc 15 anos: viagem a Conservatória dá o que contar (Parte II)

Para ler a parte 1, clique no link abaixo: 



   


As fotos acima foram gentilmente postadas no face pela Rose T. Não sei em que momento ela as tirou, mas deve ter sido bem no início, embora Beth e Vera já pareçam estranhar muito a situação. Bem, começam as poesias, do 5º ao 1º lugar, categorias A e B (acho que uma era para autores publicados e outra para os não publicados), e você vai ficando preocupada, os cabelos começam a ficar em pé, de espanto, de estarrecimento, de desespero. Você fica, literalmente, boquiaberta. Essas são as poesias premiadas? Dio mio, melhor não comentar. Sorte que a gente sabia que uma pelo menos era boa porque a colega Maria Luiza, assídua frequentadora dos cafés concertos da Dília e Cris, e poetisa de mão cheia, estava entre os finalistas. Aliás, ela foi a vencedora – parabéns, darling.

A turma do ‘deixa disso’ vai dizer que eu estou exagerando, mas não. Pela luz que me alumia, como diriam meus antepassados, pelos olhos que esta terra há de comer. Teve uma poesia chamada “Etnia” que era boazinha, e uma outra lá, acho que a do rapaz de Mesquita, que ficou chorando no palco, que dava pro gasto. Solamente. Nas palavras de Dília: “Eu queria morrer e não tinha tempo”.

Newton, estupefacto, me olhava como quem diz: me belisca, vai, diz que eu estou sonhando. Eu e Niza trocávamos olhares cúmplices e cochichos de incredulidade. Dília se contorcia no banco da frente. Era dantesco e, ao mesmo tempo, tão, tão... cristão. Pode isto? Ah sim, e entre uma coisa e outra um besouro pousa no vestido de Rose T, que dá um pulo, o vestido levanta (essa eu perdi, mas me contaram) esbarra no fotógrafo (esqueci de dizer que ele também foi homenageado) que derruba a máquina no chão, mas o espetáculo que acontecia a pouquíssimos metros à frente era por demais arrebatador para que tirássemos os olhos do altar.

E isso é pouco ainda.  Você tinha que ser um mosquitinho para estar lá na hora do “Príncipe negro”, inenarrável. Entra uma criatura afetadíssima, que já estava a mil por hora no banco da igreja, como quem soubesse que tinha ganhado por antecipação, e absolutamente performática, começa a declamar sua poesia, vencedora do 1º lugar numa das categorias, com direito a caras e bocas e outros gestos que prefiro omitir. Com certeza ela achou que a, digamos, poesia, era erótica - aqui em casa tem outro nome. Pena que minha memória não seja privilegiada e não tenha gravado alguns trechos para vocês – também procurei em algum blog de Conservatória, mas não achei -, tinha 'versos' absolutamente incríveis e tudo isto, não esqueça, em plena Igreja da Matriz. Perguntem aos demais presentes do CLIc que verão que não exagero uma vírgula. A Angela, que lamentou ter chegado após a epifânica cena, a definiu bem: histriônica.

Pois bem, finalmente um momento de normalidade literária se instaurou quando Maria Luiza subiu ao palco e teve seu lindo poema magnificamente declamado por Dília. Arre égua que eu já estava precisando disso. A loucura cansa, vocês não imaginam (imaginam?), essa experiência me confirmou. Espero depois poder postar uma das fotos que tirei de Maria Luiza, é que eu estava com a máquina dela, então não tenho as fotos comigo.

O que fizemos quando tudo terminou? Além de suspirar longamente, a gente queria um chopp, que ninguém é de ferro. Um não, vários, se não fizer falta pra casa, por favor, já dizia meu digníssimo. Alguém me disse que Norma voltou ao hotel; algumas outras meninas ficaram dando uma voltinha na cidade, outras procuraram barzinhos para ficar. O grupo em que eu estava foi para o Bar do Tom, acho que era esse o nome. Lá pedimos uns petiscos e falamos da noite inusitada. A conta não vinha nunca – assim como o filezinho que pedi - o pessoal ainda teve que matar o boi, coitados! Voltei para o ônibus com Gracinda e a galera veio logo em seguida, assim que a conta chegou. Esse foi nosso sábado.

Domingo de manhã, aquela coisa tristésima de tomar um café da manhã cheio de guloseimas se repetiu e, após, Café concerto na igreja apresentando “Divinos Versos”, uma seleção pra lá de especial. Em toda a longa carreira literária de Cris e Dília elas nunca tinham se apresentado numa igreja e eis que duas novas revelações acontecem. Só que isso eu vou deixar para a terceira parte, ok?

CLIc 15 anos: viagem a Conservatória dá o que contar

Participantes: Cristiana, Dília, Angela, Ceci, Celia, Claudia, Elenir, Elizabeth, Eloisa, Gracinda, Maria Helena, Marise, Newton, Niza, Norma, Sara, Sonia Lopes, Sonia Maria, Regina, Rita, Rose T., Vera Lucia, Vera Leite e Zezé

(Parte I)

Há muitos dias já estávamos no clima do passeio, arrumando as maletas de viagem, selecionando trechos de livros muito queridos, preparando o espírito para Conservatória. E não é que o Murphy deu um sossego? Tempo bom, ninguém se atrasou para os pontos de embarque, nem em Icaraí nem no Rio, mas ele, ele sim, ó intragável trânsito nosso de todos os dias, não perdoou a sexta-feira. Um engarrafamento e mais uma paradinha que virou uma paradona atrasaram nossa viagem. Da saída às 15:35h do Rio chegamos à pousada Araris perto das 20h, já atropelados pela programação do primeiro dia dos finalistas ao Festival de Poesias na Igreja Matriz de Santo Antônio.


E, para não contrariar o ditado que diz que ‘há males que vem para bem’, foi isso mesmo que aconteceu (mais à frente você vai entender porque, he he he). Não deu para pegar o primeiro dia do concurso, ma uma bela surpresa de Cris e Dília enfeitou nossa noite, com o show exclusivo do seresteiro Quinani para nós, enquanto sorvíamos deliciosos caldo verde e sopa de ervilha - Ah, por que foi que não levei a máquina fotográfica para o restaurante da pousada ? A fome, a fome quando não mata cega a gente. Cruz credo.

Após aquela seresta maravilhosa, que nos explicou a origem do nome Conservatória e a história da cidade enquanto eternas canções eram puxadas pelo nosso cancioneiro-mor e cantadas por todos nós, o grupo se dividiu entre os que preferiram ficar na pousada e os que ainda tinham pique para uma seresta pelas ruas da cidade. Isso já era 22h e varada.

(espaço para o relato de uma dessas animadas companheiras porque euzinha fui é pra cama).

Dia seguinte, aquele café da manhã do qual você se arrependerá durante toda a semana enquanto pensa nos bolos de aipim (hum, divino), de banana, de fubá, no sonho, pães e biscoitos diversos que você simplesmente não conseguiu deixar passar, fora é claro os sucos, café com leite, fruta, queijo, presunto etc e tal.


Mas, para não dizer que não falei de flores, digo, de silhueta, você vai toda animada fazer a aula que Norma preparou com carinho e dedicação. E se surpreende logo na chegada, onde é convidada a ficar sobre uma folha de jornal. Não sabia que meus pés tinham tanta versatilidade. Calcâneo (aprendi, mestra?), peito de pé e artelhos trabalharam e a folha que era lisinha ficou completamente amarfanhada, até virar uma bolinha que os dedinhos tinham que capturar. Mas isso era ainda pouco, pior foi depois desamassar tudo com as laterais dos pés e ainda rasgar e juntar. E isso só para os pés, pessoal. Professora Norma deu ordem de despertar para todo o corpo, braços, pernas, coluna, abdômen, caminhada de reconhecimento do lugar do outro, ligeiras massagens entre os companheiros, posturas sentadas, em pé, tudo animado, divertido e funcional, e para fechar, um relaxamento ao som de belas palavras da mestra.

   
Fotos "Despertando o corpo" gentilmente tiradas por Gracinda

Então fomos para a cidade porque mulher que se preze (e homens também) não dispensa umas ‘compritas’, não é mesmo? Retornando ao hotel para almoçar, um tempero caseiro desses de comer e repetir - sabe como? - , nos esperava quentinho. Hum, delícia. Depois, houve quem se animou para ficar na piscina vendo o sol brilhar, e até mergulhando - não é mesmo Ceci? 


A mim e a maioria, no entanto, a preguiça chamou mais alto. Uns e outros até perderam a hora da dinâmica da Gracinda, nem vou falar o nome da Adelina pra ela não ficar chateada, ô mulher boa de cama, sô. Olha o roto falando do esfarrapado, porque eu e Newton chegamos bem atrasadinhos, tínhamos entendido que começaria às 16h, mas que nada, a gargalhada já rolava solta no salão quando chegamos, felizmente a tempo de ainda ganhar um cartãozinho, só que três felizardos ficaram com cinco e outros ainda com quatro cartões (a dinâmica envolvia frutas, animais e flores e você ganhava um ponto quando conseguia tirar do saco um cartão correspondente ao que tinha escolhido, a cada rodada). Todos esses tiveram direito a escolher como brinde um dos livros doados pelo CLIc quando começamos as brincadeiras coletivas, lembram?



Na sequência, e acompanhados por bolo, chá e café, foi a vez do Sarau FLIC, onde os participantes levaram trechos de  livros muito queridos para partilhar junto ao grupo: Vinícius de Moraes, Cristóvão Tezza, Mia Couto, Amós Oz, Ivan Goncharov, Adélia Prado, Fernando Pessoa (você não achou que ia ficar de fora com a Dília lá, né?) e muitos outros autores preciosos nos acompanharam nesta tarde adorável.

Sabe que logo em seguida fomos comer de novo? Não é brincadeira não, mais caldos quentinhos porque afinal tínhamos que assistir ao Festival de Poesias. E aí foi uma coisa assim... como dizer? Daquelas que fazem você lembrar de Salvador Dali? É, para mim surreal foi a palavra. Depois, em troca de comentários diversos sobre o evento - que rolaram até a chegada em casa -, muitos acharam que foi assim ... didático, sob o ponto de vista antropológico e cultural.

Quer saber como funcionam as coisas em uma cidade do interior onde o pessoal todo se conhece? Vai lá no Festival que você vai ver. Muitas homenagens daqui e dali, presentinhos para os júri, presentinhos para a apresentadora, para o marido da apresentadora, para a viúva do homenageado, para a amiga da viúva, e todos com direito a discurso. Tá bom ou já chega? Ah sim, e tudo isso entremeado com músicas de seresta. Até agora, poesia que é bom... nada, mas vai piorar.

(Fim da primeira parte. Aguarde, momentos emocionantes vêm aí)


somatsE odnel - O Deus das Pequenas Coisas: Arundhati Roy

Bom dia, grupo

Vamos falar do livro do mês? 

Eu adorei conhecer Arundathi Roy através de sua escrita cativante. Excelente livro, que prende o leitor do início ao fim.

Tenho vários aspectos a destacar:

O livro é bastante informativo para quem desconhece a realidade da Índia, do preconceito enraizado em relação às castas, dos problemas com higiene, do 'lugar' da mulher, de sua falta de direitos, das guerras com a China e com o Paquistão. 

É questionador, a respeito da colonização inglesa, do papel viciante e emburrecedor da televisão e da concepção de turista, que assiste a verdadeiros espetáculos circenses montados à custa da corrupção da história para matar a fome de alguns indianos.

É emocionante, pois, contando a história de uma família de comerciantes, fala do amor, da morte, do preconceito, dos impulsos, da raiva, do recalque, da vingança, de abuso,  de pedofilia, e ainda outras coisas que não conto para não ser desmancha prazeres para os que ainda estão lendo. 

Gostei muito da forma como as coisas são narradas, com poesia e singeleza, um livro pleno de belas metáforas.

Deixo com vocês meu poeminha.


Índia de temperos e pimentas
terra rica, solo fértil
quanta pobreza em teus quintais.
Para além das riquezas 
mal distribuídas
sofro com a dor maior
o espírito em agonia
e a miséria dos preconceitos.

Castas te dividem
e a castidade te amaldiçoa.
Inocência pueril corrompida
gestos bruscos de horror
busco um sonho, uma quimera
gêmeos de loucura e de amor.


Com carinho,
Rita Magnago















 * * *

O deus das coisas pequenas
O deus dos pequenos meus
Pecados meus... minhas penas,
Meus sonhos... e os versos teus.

(I)


Da AFP 

No ponto em que as patas geladas a tocaram, ela se arrepiou.
Seis arrepios em seu coração descuidado.
Sua Ammu a amava um pouco menos .

Estha & Rahel - Amor impossível (?)


"O ar encheu-se de Ideias e Coisas a Dizer. 
Mas em momentos como esses, só as Pequenas Coisas são ditas. 
As Grandes Coisas jazem lá dentro, não ditas."

Photo: Steve McCurry

Mesmo de longe, era evidente que a menina estava morta. Nem doente, nem dormindo. Era alguma coisa na maneira como estava deitada. O ângulo dos membros. Algo a ver com a autoridade da Morte. Com sua terrível quietude. 




Never to Forget

To love.
To be loved.
To never forget your own insignificance,
To never get used to the unspeakable violence
and the vulgar disparity of life around you.
To seek joy in the saddest places.
To pursue beauty to its lair.
To never simplify what is complicated
or complicate what is simple.
To respect strength, never power.
Above all, to watch.
To try and understand.
To never look away.
And never, never to forget.


Arundhati Roy, in The End of Imagination, 1998






Na foto da direita, Arundhati Roy entre os guerrilheiros do movimento maoista na floresta de Dantewada, no coração da Índia, quando passou três semanas acompanhando a resistência da população indígena local contra a política governamental de exploração dos recursos minerais da região.




"Tudo que se eleva acima da sua condição, tanto no bem quanto no mal, expõe-se a represálias dos deuses. Tende, com efeito, a subverter a ordem do mundo, a pôr em perigo o equilíbrio universal e, por isso, tem de ser castigado, se se pretende que o universo se mantenha como é."

Ammu & Velutha: amor impossível
Ele deixou um buraco no Universo pelo qual a escuridão jorrava como asfalto líquido. Pelo qual a mãe deles seguiu, sem se voltar nem para acenar uma despedida. Ela os abandonou, girando no escuro, sem ancoradouro, em um lugar sem alicerces.

Quem era ele?
Quem podia ter sido?
O Deus da Perda.
O Deus das Pequenas Coisas.
O Deus de Arrepios e Sorrisos Súbitos.
Ele só conseguia fazer uma coisa de cada vez.
Se ela a tocasse, não tinha como lhe falar, se ele a amasse, não tinha como ir embora, se ele falasse, não tinha como escutar, se lutasse, não tinha como ganhar. 

"Um buraco no universo..." - NGC 4889, na constelação de Coma Berenices

As coisas podem mudar em apenas um dia.

Todos esperamos um certo dia, em que as coisas mudem. 
Tudo pode acontecer para qualquer um. 
É melhor estar preparado...

... leva apenas um momento! 



Rahel parou e virou-se para ele, e em seu coração uma mariposa parda com tufos de pêlo dorsal excepcionalmente densos desdobrou as asas predadoras.

Abrindo devagar.

Fechando devagar.

Por quê?

Ela está no CLIc          (photo: Cristiana)

O Marxismo como substituto histórico do Cristianismo. Substitui:

Deus por Marx
Satã pela burguesia
o Céu por uma sociedade sem classes
a Igreja pelo Partido

a forma e o propósito da jornada continuam os mesmos


O deus das coisas pequenas
deixou-nos uma charada...
transmutações pouco amenas
que são enormes charadas.

(I)

Locust stand I

De volta ao começo, 15 anos depois! 
Em novembro, o Clube de Leitura Icaraí volta a debater o livro que deu origem a sua história. 
Quem disse que não há uma nova chance de recomeçar, sempre?
Esperamos por você!




"... as coisas podem mudar num só dia... as vidas podem ter seu rumo alterado e assumir novas - e feias - formas."

Estha & Rahel

Só que mais uma vez eles quebravam as Leis do Amor. 
Que determinam quem pode ser amado. 
E como. 
E quanto.

Quer conhecer melhor o livro antes de decidir lê-lo? Leia aqui

How do you hold a moonbeam in your hand?

Quando se ama, não há muito que se possa fazer a respeito!



26 de outubro de 2013

DE REPENTE, UM CLIC


dadim
(Conversas trovadorescas)


(...)

Se nossa vida é alegria
a morte será mais doce,
chegando sem agonia
como se ser nunca fosse.

21/03/2012
Ilnéa


Sem rumo

para Ilnéa

Fosse a vida uma alegria,
um doce que a gente come
– sem fome, quem comeria?
– e a morte, seria a fome?

21/03/2012
Everardo


(...)

para Ilnéa & Everardo

Morte é doce que queimou
no fundo da panela agarrou
quem gosta nem quer provar
o sabor doce, pode amargar

22/03/2012
Rita


Sem rumo (2)

para Rita

Na panela cozinhamos
o doce da nossa história
– na morte nos consumimos?
– fica a raspa da memória?

22/03/2012
Everardo


Ao sabor da cozinheira

para Everardo

A raspa fica enquanto houver
quem remexa a panela, sentida
doce ou amarga, como prover
acho que a memória celebra a vida

22/03/12
Rita


Rumo/Rimo/Rindo

para Ilnéa, Rita, Everardo, Evandro e Elô

Cozinho apetitosa vida
Fagulhas estão pelo chão
Chega o tempo da partida
Morte, justa adequação?

22/03/2012
Luzia Veloso


Adoro doces  amargos..

para todos

Se rimas, acho pra  vida,
Na morte também me encaixo
Curando toda ferida,
Raspando todo meu tacho.

22/03/2012
Elô


(...)

às poetizas que cozinham tão bem as palavras

E eu que detesto as panelas e tachos
As vezes faço um arroz todo queimado
Só pra não perder o meu maridacho... hehehehe

22/03/2012
Lilian


(...)

E fica esse povo falando em morte,
falando em vida...
não sei bem, mas acho que foi sorte:
o papo descambou pra comida...

Newton Barra
22/03/2012


É mesmo  Newton !

Vida e Morte são utopias
Importante  é viver
Vamos falar de comidas
Porque dá muito  prazer!

Luzia Veloso
22/03/2012


Achando o rumo

para Luzia, Elô e Newton

Brincamos de vida e morte
que é fome e comida, em verso
– viver ou morrer, por sorte, é
tema que como e converso

22/03/2012
Everardo


(...)

para Everardo

Se o poeta come em versos,
Sua barriga é florida.
Sua estalagem se enfeita
E não teme a despedida.

22/03/2012
Elô


Achando o rumo (2)

para Elô

Dizia o bardo Pessoa
– o poeta é um fingidor:
ri da morte, chora à toa
teme a vida e come flor

23/03/2012
Everardo


(...)

Se não corro, morro.
Se não como, sumo.
Ai, socorro...!
Se não vivo, desaprumo.

23/03/2012
Newton Barra


(...)

para Everardo e amigos

Na pressa da partida
Comi letra em despedida...
Se ser poeta é comer flor,
O e é de  flor preferida.

23/03/2012
Elô


(...)

para todos

No blog está nossa rima, sucinta
E nós aqui, de alma faminta
Brincando de boa vida e boa morte
Na busca de uma receita consorte

23/03/2012
Rita


De volta ao começo

para Tod@s

Onde andará aquela
cuja quadra, no começo
foi doce, e depois – Ilnéa –
provocou tanto alvoroço!

23/03/2012
Everardo


(...)

Nos tempos de culinária
O que encontrar comer...
Raspar gamelas e tachos
Versejar com muito prazer.

23/03/2012
Luzia Veloso


(...)

para Everardo

Ilnéa deu a ideia
E da brincadeira fugiu
Evandro acompanhou...
Será esse um ardil?

Luzia Veloso
23/03/2012