CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

31 de dezembro de 2012

Break: THE STILLS "Changes Are No Good"







21 de dezembro de 2012

Participe de nossa Brincadeira de Natal


Prezados leitores,

Seguem, para sua apreciação e votação, textos e poemas enviados por participantes do Clic sobre o Natal. Você pode concorrer a um LIVRO GRATUITO, a ser retirado na reunião de janeiro do Clic ou enviado para sua residência - frete incluso caso você adquira algum livro de autores do CLIc que conste na estante do concierge -, fazendo a correta correlação dos textos e poemas, devidamente numerados, com sua autoria. A relação completa de todos os autores, em ordem alfabética, está abaixo. Atenção: Uma mesma pessoa enviou dois textos.

Elenir Teixeira - Ilnea País de  Miranda (2) - João Cabral de Melo Neto (enviado por Vera Leite) - Lilian Moura - novaes/ - Niza Monteiro - Vera Lúcia Schubnell Freire


QUEM PODE PARTICIPAR
Excetuando os leitores que enviaram sua colaboração, todos os demais podem participar da escolha da correta correlação texto/poema-autor.
Os colaboradores concorrem de outra forma, já que os participantes escolherão também o texto/poema de sua preferência, dando direito a um LIVRO GRATUITO para quem o enviou.

COMO VOTAR
Para votar no autor que corresponde ao texto/poema, use o campo COMENTÁRIOS.  Não se esqueça de se identificar colocando seu nome ao final da postagem.

REGRAS DA PREMIAÇÃO
Caso não haja quem acerte todas as opções, ganhará o leitor que chegar mais perto da correta correlação. Em caso de empate, ganha o leitor que responder primeiro.

O Clic agradece sua participação e lhe deseja Boa Sorte!

Boas Festas!


1 - Cartão de Natal


Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:
que desta vez não perca este caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.


2 - N’algum Natal por aí

Tinha quatro anos quando conheci Catarina, tamanha contadora de histórias! Russa de nascimento, loura de grandes olhos azuis, me apresentou natais que eu não conhecia: natais brancos, de intenso frio fora das casas, de lareiras - ou grandes fogões de lenha - que não se apagavam e de grandes reuniões de família à volta do fogo, de grandes caldeirões de sopa p'ra tomar enquanto se entoavam cânticos e se via cair a neve... 
... ouvindo a voz de suave sotaque de Catarina, eu sonhava um dia poder ter um natal assim.
Catarina também me ensinou que nem todo natal de neve é assim tão lindo... e me fez chorar com a Menina dos Fósforos que nem nome tinha.
Mas Catarina não me falou de árvores de natal. Estas conheci quando comecei eu mesma a ler minhas histórias e vê-las nas gravuras coloridas dos livros que ganhei. E também achei lindos os pinheiros enfeitados de bolas, laços e biscoitos de gengibre recortados em forma de estrelas, bengalas, anjos, todos salpicados de açúcar cristal.
E, de repente, havia o rádio que colocou fundo musical no meu Natal. De algumas  canções entendia as palavras, mas outras, eram cantadas por um cara de voz retumbantemente sonora que dizia coisas que meus ouvidos não conheciam mas meu coração era capaz de entender. Das que entendia desde os ouvidos, uma falava de pessoas que, ou não precisavam mais ganhar nada por que já tinham tudo, ou então não tinham nada, pois que até felicidade tinham que pedir a Papai Noel...

...Papai Noel, vê se você tem
a felicidade p'ra poder me dar...
E duvidava que todo mundo fosse filho de Papai Noel...
(acho que essa quem cantava era o Carlos Galhardo)
Ainda bem que eu era filha do meu pai e não precisava do Papai Noel para ter felicidade. E tinha minha mãe que dava uma forcinha para que não se incomodasse o bonachão de vermelho para aquele tal presente especial. 
Mas isso foi outra coisa que só descobri depois.
Pequena, eu pensava mesmo é que às vezes o velhinho de barbas brancas estava era meio caduco quando eu combinava lá com o Jesus Cristinho não fazer mais nenhuma bobagem, pedia uma boneca e acordava abraçada a caderno de desenho e caixa de lápis de cor. 
E fui crescendo com os natais da minha vida, aprendendo um pouco em cada um e com cada um - e crescer às vezes significa perder um pouco de ilusão e fantasia. Não sei se foi assim comigo, pelo menos com as coisas e as histórias do Natal. As ilusões perdidas foram outras, e nem cabem aqui. Minha  "sabedoria adulta" está informada que, nestes meus tempos, o Papai Noel que freqüenta portas de lojas e montagens natalinas de grandes shoppings - que nem sequer existiam na minha meninice - tem barbas e barriga falsas, faz parte de um  complexo programa de mídia para vender mais e cada vez mais e não passa de alguém recebendo um salário para cumprir um papel. 
Mas não importa. O que importa é que ainda encanta a garotada. 
Sábias crianças de emoções legítimas. Comércio? Jesus vendido embrulhado em papel de presente, vilipendiado pela mídia, Papai Noel de fancaria? Coisas de adulto contaminado pelo "politicamente correto". Criança não toma conhecimento disso. Criança é coisa pura e conversa com os anjos. E essa linguagem é outra. Não precisa de palavras porque é linha direta de coração para coração que adulto quase perde a capacidade de entender. E só não perde porque a criança em todos nós é mais forte que tudo e sobrevive quietinha, quase adormecida dentro de cada  coração às vezes durante todo o ano. Mas não resiste ao apelo de dezembro, aos sinos, às  bolas coloridas, aos anjinhos tocando trombeta, às estrelas de Belém sempre com cara de cometa dependurados em céus azuis de confecção nem sempre muito crível.
E não importa se há neve ou não, se o Natal é Branco ou não, se faz 40 graus acima ou abaixo de zero, se os presentes são muitos ou nenhum, porque o Jesus do Natal também é criança. O Jesus do Natal  é sempre menino pequenino mesmo que não balance as perninhas  na manjedoura do estábulo. Também ele, como o Papai Noel do shopping,  no presépio armado é só um bonequinho de um material qualquer. E assim, também ele seria de mentirinha. Mas não é. E não é porque a nossa criança está ali e acorda e sintoniza os anjos e com eles comunga o prazer de festejar o aniversário do Menino-Deus. 

3 - Sonhos


Não existia naquela época tecnologia avançada para registrar nossos sonhos.
Na verdade sonhos são para serem sonhados, imaginados, guardados dentro de nossos corações.
Quando criança morávamos todos próximos: avós, tios e, bando de primos!
Natal, ah, o Natal !
No quintal da casa de minha avó juntávamos as pequenas mesas que formavam uma fileira para mim INFINITA.
As mulheres na cozinha preparando os assados, os homens dividindo funções, as crianças mais brincando que ajudando, em busca das tanajuras.
O cheiro das rabanadas invadia o ar...
Quanta alegria!
Existia festa.
Festa simples.
Festa feliz!
A lembrança de minha mãe, (sempre cheia de sutilezas)
Talvez seja essa a minha mais doce lembrança em meio a tantos doces...
Em frente à casa havia um pinheiro plantado por meu avô.
Era tradição: minha mãe e eu colhíamos alguns galhinhos e dispúnhamos nos pratos, deixando em cada um, pequeno ramo para enfeitar.
Uma delicadeza...(coisas da minha mãe.)
 Desta forma, os pratos simples, vindos de casas diversas, se transformavam em peças preciosas.
A ansiedade em olhar a cama pela manhã em busca do presente deixado por Papai Noel.
Panelinhas, bonequinhas gêmeas, coisas simples mas que me enchiam de alegria!
Um pouco que era MUITO!
A festa de Natal sempre teve um peso maior que meu aniversário.
Certamente por essas lembranças que continuam a povoar minh'alma.
Que bom não terem sido registrados numa máquina esses momentos.
Talvez minha mesa não fosse tão grande.
Talvez não existisse tanta alegria nos olhos dos adultos...
Minha única certeza continua sendo os galhos do pinheiro ornamentando os pratos.
Eu e minha mãe.





4 - E eu? Estou procurando o Natal...


Procuro incessantemente
o Natal que eu conheci
cheio de sonho e presente...
mas, penso, já me esqueci.

Esqueci, era pequena,
e fui pequena, não nego,
por muitos anos, serena,
às lendas do conto cego.

Cego por que eu não sabia
da verdade por detrás
das mentiras que dizia
dos verdadeiros Natais.

Naquele tempo, por certo,
a historia era mais bonita
do menininho, que esperto,
já saia "bem na fita".

E eu punha na janela
o meu sapatinho mais novo
pois Noel chegava a ela
deixando coisas pro povo.

Ah, que santa encantaria
ah, Deus, que inocência plena
ah, Jesus, como eu queria,
ter meu Natal de pequena.

E terminando, talvez,
o meu desejo calado,
desejo a todos vocês
algum Natal do passado.



5 - Nunca acreditei em Papai Noel



Nunca acreditei em Papai Noel. Não me lembro dos adultos terem me ensinado a sonhar com sapatinhos na janela e com histórias de Natal. Desde muito pequena tive de crescer e prestar atenção na realidade nua e crua.
O Natal pra mim nunca teve esse sentido de festa, de reunião familiar, mesa posta e presentes na árvore. Na minha casa nunca teve essas coisas. Minha mãe nunca enfeitou uma árvore, talvez pra não criar em nós as doces ilusões que depois não fariam parte da nossa vida real.
De um Natal em especial eu nunca vou esquecer. Lembro que passei dias e dias escrevendo um bilhete pro meu pai. Pedia com muita esperança pra ganhar uma bicicleta de presente, mas quando o carro do Ponto Frio chegou, nunca esquecerei aquela cena! Aquele caminhão enorme parou em frente da minha casa. Mamãe saiu correndo e eu fui ver o meu presente chegar. Esperava ansiosamente a minha sonhada bicicleta. O homem abriu devagar a porta enorme e, ao invés da bicicleta, eu vi sair um ventilador azul da marca Arno. Mamãe se meteu na minha frente e agarrou aquela coisa com tanto afinco e alegria, que parecia ter visto o Papai Noel em carne e osso. Olhei aquele movimento todo ao meu redor e era como se o céu desabasse na minha cabeça. Era mais quem vinha pra janela e corria até perto do caminhão pra ver a minha desdita e o contentamento da minha mãe. Mamãe sorria e pulava  comemorando o “prêmio” que recebeu. Não teve tempo de olhar a minha cara de desapontamento e nem teve tempo de perceber que ali mesmo eu me desmanchava  em decepção, engolindo o choro seco que rasgava a minha garganta de menina. Mamãe, toda sorridente pegou o ventilador, deu as costas ao moço do Ponto Frio e olhou as vizinhas com desdém. Era dezembro e o calor certamente foi o grande e verdadeiro pretexto para ela ter negociado com meu pai o envio de um ventilador no lugar da minha bicicleta. Até hoje não sei se ela se preocupou com a minha tristeza! Não lembro de ter me refrescado na frente daquela coisa e, por anos e anos, prometi a mim mesma que quando crescesse e trabalhasse, com meu salário compraria a minha  tão sonhada bicicleta. E assim aconteceu. Trabalhei cedo, comprei a bicicleta e decidi que ventiladores Arno jamais entrariam na minha casa e muito menos trazidos pelo Ponto Frio Bonzão. Prometi também que ensinaria aos meus filhos que presentes de Natal chegavam no sapatinho, trazidos por Papai Noel, um velhinho com barbas brancas, num trenó vermelhinho, na noite de 24 de Dezembro, quando a estrela cadente rasga lá o céu, anunciando que a partir de então todas as crianças têm todo o direito do mundo de sonhar...


6 - Tempo de Natal


Mais uma vez, chega o Natal. Mais uma vez, vêm-me as recordações dos Natais de minha infância.
Comemorávamos na casa de meus avós. Eles faziam questão de que toda a numerosa família, nove filhos, muitos netos e até bisnetos, estivesse presente.
A mesa da sala de jantar era imensa e, ali, todos se acomodavam. Quanto mais juntinho melhor. Havia muito carinho e harmonia. Vô Chico, à cabeceira, quase não falava, era seu jeito, mas os olhos sorriam e diziam de sua alegria vendo todos reunidos.
Lembro bem do aroma adocicado daquela casa. Era vizinha de uma fábrica de balas. A doçura atiçava a gula da criançada e, certamente, a de muitos adultos. Sr. Álvaro, o proprietário, presenteava-nos com muitos sacos de balas de todas as cores e formas: vermelhas, amarelas, azuis, verdes, redondas, estrelinhas, cachimbinhos etc.
Antes de iniciarmos a ceia, meu avô fazia uma prece, não sei se de improviso ou originária de Portugal. Todos a ouviam contritos, com exceção das crianças, principalmente eu, que não parávamos quietas, implicando umas com as outras e recebendo, baixinho, repreensões de nossas mães. Após a oração, brindávamos a vinda do “Menino”.   
Havia frutas secas, frutas frescas, bacalhau em postas, bolinhos de bacalhau, uns bolinhos fritos, de abóbora, deliciosos, que só minha avó Cotinha sabia fazer, rabanadas com leite e com vinho, pastéis de Santa Clara e outras iguarias. Sendo uma casa portuguesa, não podia faltar, evidentemente, um bom vinho da “terrinha”. Para as crianças, havia groselha.
A hora mais esperada, entretanto, era a da chegada de Papai Noel.  Alvoroçadas, não parávamos  de perguntar se já estava na hora. Meia- Noite em ponto, os sinos da Igreja de São Lourenço, no Ponto de Cem Réis, começavam a tocar alegremente e o velhinho, vindo do corredor, com um saco enorme às costas, entrava na sala e era aplaudido por todos.
Em cada presente, encontrava-se colado o nome do presenteado e o conselho que Papai Noel deveria dar-lhe. Não sabíamos, ainda, que isto era obra de nossos pais. Por isso, eu pensava comigo: será que Papai Noel abre uma janelinha no céu para espiar o que estamos fazendo aqui embaixo?
Na hora da entrega do presente, ele chamava a criança, fazia a entrega, e dava os conselhos: “Pedrinho, você precisa estudar mais. Está muito preguiçoso”. “Zeca, não seja tão malcriado com seus pais”. “A mim, ele dizia: você é muito levada! Vive caindo e traz, sempre, um curativo na perna, no braço e, até, na testa. Precisa ser mais sossegada!” E assim por diante...
Meu pai era comerciante e, na época do Natal, atrás do balcão, trabalhava muito. Era simpático, paciente e, por isso, todos os fregueses da loja faziam questão do seu atendimento. Mas eu não entendia e ficava triste por ele nunca estar presente quando Papai Noel chegava. Trabalhar até meia-noite era demais, pensava. Minha mãe explicava-me que ele estava ajudando o patrão a contar o dinheiro recebido no dia. Eu não aceitava a explicação. Achava o patrão um homem mau. Quando meu pai chegava, logo depois que Noel partia, pendurava-me  no seu pescoço, cobria-o de beijos e dizia: que pena papai, você não viu Papai Noel!
Assim eram  nossos natais e, assim, se repetiam todos os anos. Às vezes, com algumas mudanças: um bebê novo que havia chegado; uma tia velha, vindo de Portugal e, por isso, a ceia tornava-se mais alegre ainda.
Quando já tinha dez anos, resolvi acompanhar Papai Noel pelo corredor quando ele se retirou da sala. Andava desconfiada... Vi quando entrou no quarto de meus avós. Que mal educado! Pensei. Entrar no quarto deles sem pedir licença. Será que está cansado e vai tirar uma soneca? Nesse momento, a porta abriu-se e eu me escondi. Meu pai saía, deixando as roupas, o saco, as botas, tudo espalhado pelo quarto. Minha decepção foi enorme, mas, naquele momento, acabava de descobrir o motivo de sua ausência permanente. Ele era o Papai Noel! Escondi o segredo. Não contei nem para o meu irmão. Sentia um misto de tristeza, pois gostaria de continuar acreditando no Papai Noel, e de orgulho, por compartilhar o segredo com os adultos. Por coincidência, no dia seguinte, tio Manoel chamou-me,  e ao meu irmão, para uma conversa em particular. Suavemente, revelou-nos o que eu já sabia: Papai Noel era o nosso pai. Fingi surpresa. Quanto ao meu irmão, custou a conformar-se. Não admitia ter sido enganado.
Poucos foram os Natais que comemoramos com o ”Papai Noel”, após a revelação. Em setembro de 1949, meu pai morreu, prematuramente, aos quarenta e seis anos. Nenhum outro queria ocupar seu lugar. Ele era insubstituível. Aos menores, foi dito que o velhinho estava cansado. Por essa razão, não viria. Minha mãe, eu e meu irmão passamos a comemorar o Natal, em casa, sozinhos, sentindo sua falta. Mas, como disse Bartolomeu Campos de Queirós: “Na morte, a ausência ganha mais presença”. Ele permanecia entre nós.




7 – O Natal que chega



O natal que chega esgueirando paredes

Tem cores fortes do meu passado

Tem cheiro doce e beijo quente

Miudezas que norteiam

O poema

Pelo mar imenso

De inutilidades.

Dentro de mim se ancoram tantos natais

Dentro de mim as cenas se misturam

Tortas e movediças

Sem qualquer adestramento

E rótulos

Em fluida existência.

Meu natal

Torna-se poesia

Quando batem à minha porta

Trazendo a inocência do mundo

Num último alvorecer

O resto é passagem do tempo

Pessoas que entram em minha casa

Pedem água fresca

E se deixam ficar.


8 - SE…


Se Jesus Cristo tivesse chegado
em algum ponto de Niterói
perguntaria aos motoristas estressados:
“irmãos, onde é que dói?”

O Filho de Deus, com sua túnica, é certo,
caminharia nas areias da praia de Icaraí
como se fossem as areias do seu deserto,
como se a Palestina fosse aqui.

Jesus pregaria para uns poucos
a bondade e o amor.
Pensariam dele que era louco
ou candidato a vereador.

Cristo, oh, Cristo
em pouco tempo iria saber
que a mensagem poderosa – isto
só mesmo pela tevê.

Bateria, então, nas portas da Rede Globo
tentando adaptar-se aos novos tempos.
E diria: “Sou Jesus e preciso falar ao povo”
Ao que responderiam: “isto aqui não é um templo!”

Não tardaria e Jesus Cristo,
informado sobre TV, rádio, jornal e TV a cabo,
gritaria aos céus: “Meus Deus, o que é isto?!”
E prosseguiria: “Isso é coisa do Diabo!”

Certamente o Salvador se referia
ao império midiático.
Este que inventa aleivosias
como um grupo de fanáticos.

Jesus soube o que era “horário nobre”,
viu jornal e viu novela.
E pensou: dois lados da mesma moeda,
tudo para enganar os pobres.

Até que na noite de Natal
um presente veio às mãos de Jesus:
era o livro “Infâmia”, o tal
que deixa os reis da mídia nus.

Depois de lê-lo, reanimado com o mundo,
Jesus declara: “Talvez aqui eu fique!”
Num instante escolheu Niterói e, no outro segundo,
compareceu à reunião do CLIc.

19 de dezembro de 2012

Crônica integrante da Antologia "Prêmio UFF de Literatura 2012"


BANHO DE LEMBRANÇAS

Rita Magnago

Uma banheira de plástico, rosa, no chão, perto de dois pequenos tanques de cimento onde, no do canto, minha mãe lavava nossa roupa. É a coisa mais antiga que me lembro da infância. Eu ficava sentadinha dentro da banheira, remexendo roupas sujas, enquanto minha mãe seguia esfregando, torcendo e falando com a vizinha, que também lavava, no tanque da ponta, ao lado do seu.
Morávamos em uma minúscula casa de uma pequena vila em Inhaúma, subúrbio do Rio de Janeiro, onde os tanques, dois a dois, ficavam dispostos para que se dividisse também o asseio. Quase tudo era público. O espaço entre as casas, mínimo. Quer dizer, não havia, duas casas contíguas e em frente a outras duas, à distância de um passo largo de homem. Porta contra janela. Janela contra porta. Intimidade só se sussurrássemos o dia inteiro. Eu sabia de você, você de mim. Seu programa de tevê predileto, suas músicas, suas brigas com a família, quando você fazia amor ou tinha uma febre.
Nessa época, meu pai, que trabalhava na Rede Ferroviária Federal, gostava de beber e estava se viciando no jogo, tanto no de bicho e de corrida de cavalo, quanto no de pôquer. Como quase toda sua geração, era muito machista. Em casa, a primeira e a última palavras eram dele e, se bobear, também as do meio. Minha mãe, também como a maioria das donas de casa, tentava o que podia para fazer as coisas do seu jeito, mas era muito difícil.
Quando eu tinha uns sete anos, as coisas começaram a piorar muito. Um dia voltei da escola e não tinha mais tevê; no outro, meu pai ficou sem ternos e relógios – e olha que ele era vaidoso – e a comida estava racionada. Não entendia bem aquilo, mas ouvia, assim como os vizinhos, as discussões da minha mãe dizendo que não tinha dinheiro para a feira e que meu pai não podia jogar com seu salário. Certa vez, na minúscula cozinha, peguei minha mãe escondendo dinheiro dentro de um saco plástico, no pote de café. Ela fez sinal de silêncio com o dedo indicador sobre a boca.
Depois daquela ocasião, vi minha mãe escondendo dinheiro na minha gaveta de roupa de dormir, no congelador da geladeira e até dentro da descarga sanitária, um modelo antigo em que saía a tampa e tinha um gancho pendurado com uma boa distância separando a boia da água. Minha mãe prendeu um saquinho com notas ali. Tudo em vão, meu pai parecia que tinha faro canino, achava tudo. Achava e perdia.
A vida seguia assim, pobre, simples, mas sobretudo temerária, era muito medo de não se ter o necessário para o dia seguinte. Minha mãe passou a aceitar ajuda da minha avó, mãe do meu pai – que conhecia bem os vícios do filho – para a feira e os mantimentos que faltassem. Minha avó era discreta, passava lá com duas sacolas cheias, deixava tudo, dizendo que tinha umas frutas e legumes que as crianças gostavam, ela comprava para mim e para o meu irmão. Mas os vizinhos todos viam e sabiam e minha mãe se envergonhava. Sorte era que, ali, a vergonha também era dividida.
A vizinha do lado estava com o casamento a perigo, porque o marido tinha amante e quantas madrugadas a gente acordava com ela berrando para saber onde ele estava, quem era a piranha que estava tirando ele de casa e esse tipo de diálogo saudável e bem indicado para as crianças ouvirem.
A vizinha de frente tinha uma irmã meio louca, a Carminha. Toda vez que ela ia à casa da irmã tomar conta do sobrinho, colocava na vitrola o disco da Betânia no volume máximo cantando “Dia ímpar tem chocolate, dia par eu vivo de brisa, dia útil ele me bate, dia santo, ele me alisa”. Era considerada bisca fácil na rua.
Só escapava dos mexericos a vizinha ao lado da casa de frente à nossa, que na verdade era minha tia, mas ela colocava dois tapumes bem altos, um na janela da sala, outro na janela do quarto, onde só sobrava espaço para entrar um arzinho. Não ouvia música e deviam cochichar lá dentro, ela, meu tio e minhas duas primas, porque a gente não ouvia nada. Ela era a antipática da vila, só cumprimentava se encontrasse alguém no corredor estreito, e isso porque para passar ao mesmo tempo, um tinha que ficar de lado, e se os dois fossem magros. Ah sim, ela reclamava com a minha mãe do barulho da minha bota ortopédica, nas vezes em que eu passava correndo pelo corredor. Havia duas tampas de ferro no chão, eu não sei se era de caixa d´água ou esgoto, mas reverberava no solado do meu pisante. Minha mãe retrucava: - Você quer que eu prenda a menina igual faz com suas filhas? Não faço não, ela precisa respirar.
Não lembro mais muita coisa dessa época, mas sei que meu pai continuava jogando. Às vezes tinha sorte, comprou outra tevê, e eu vi anunciar que o Uri Geller apareceria no domingo seguinte e ia entortar talheres, consertar despertadores, relógios de pulso e muito mais. Fiquei animada porque, há tempos, meu relógio de ouro, presente da minha madrinha no meu aniversário de nove anos, eu acho, estava escangalhado. Contei para minha mãe que eu ia me concentrar e consertá-lo vendo o Uri Geller. Contei para todo mundo. Só que no dia do programa, uns dez minutinhos antes, meu pai me chamou num canto e disse: “Olha, teu relógio não está aí não. Não fala nada para tua mãe”. Eu fiquei boba, muda, estupefata, tudo ao mesmo tempo. Não esperava isso do homem que, apesar de todos os defeitos, era carinhoso comigo. Na hora do programa, minha mãe falou: “Pega lá teu relógio, vai começar.” Eu disse algo como “não, deixa para lá, isso aí é tudo bobagem” e minha mãe insistindo, até que de repente ela me olhou, viu meus olhos cheios d´água e não falou mais nada.
Morei nessa casinha até meus 15 anos incompletos. Mudamos para a mesma rua, uma casa de fundos, mas decente, tinha até dois quartos e uma varandinha, embora o quarto - que eu dividia com meu irmão - fosse passagem para o quarto dos meus pais. Dessa casa minha mais forte recordação foi o dia em que apareceu um rato na sala. Eu saí correndo feito doida e me tranquei no meu quarto. Só que era o último capítulo da novela. Gritava pra minha mãe puxar a mesinha da tevê mais para cá. Vi o capítulo todo pelo buraco da fechadura.
Nossa, que viagem pelo tempo! E tudo isso porque hoje, no café da manhã, minha filha perguntou se eu me lembrava do dia em que ela nasceu, imagina. Aí me veio à memória essa história... a banheira rosa, coisa de bebê, coisa de menina, coisa de mãe.
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Leia também o conto de novaes/ clicando no link abaixo:
http://clubedeleituraicarai.blogspot.com.br/2012/12/conto-integrante-da-antologia-premio.html

Leia também o conto de Carlos Benites clicando no link abaixo:
http://clubedeleituraicarai.blogspot.com.br/2012/12/conto-integrante-da-antologia-premio_18.html

18 de dezembro de 2012

Conto Integrante da Antologia "Prêmio UFF de Literatura 2012" (2)


Miss Eucalipto
Carlos Benites

            Meus amigos, vocês me dão o prazer da visita toda noite para ouvir meus causos e tomar um cafezinho. Não sei se já lhes contei sobre a moça que vivia lá numa casa no morro no Bairro de Fátima. Não contei sobre a famosa Miss Eucalipto? Eu a revi esses dias lá num dos bares da Rua São José.  Eu a conheci quando tinha meus 13 anos, embora tanto eu quanto ela já morássemos há muito mais tempo. Segunda-feira, lembro bem desse dia, pois eu quis chegar mais cedo na escola já que no domingo o Fluminense tinha vencido o Fla-Flu e assim queria ter tempo para passar na banca e comprar o Jornal dos Sports e chamar os amigos tricolores para sacanear a urubuzada. Lembro que todas as discussões das segundas eram acaloradas e os derrotados do domingo nem podiam se dar ao luxo de se esconderem, pois ainda restavam mais cinco dias até que chegasse o próximo final de semana. Pois então, chegar mais cedo era uma tarefa inglória para mim, mesmo com o despertador altíssimo e com minha mãe precisando me chamar quatro vezes e até apelando para jogar uns pingos d’água no meu rosto. O uniforme foi colocado no automático, com os olhos ainda semicerrados e remelentos. O pão com manteiga e o café com leite foram engolidos em segundos e foi só ouvir a vinheta da Rádio Globo, “são sete horas em ponto” para ouvir o barulho do  motor do ônibus, o famoso 3, que passava de meia em meia hora. Desesperei-me, não vai dar tempo. Escovei os dentes tão cuidadosamente como coloquei o uniforme, que ficou com os botões em casas trocadas, e saí correndo para tentar alcançar o ônibus, aproveitando que ele daria a volta no quarteirão do Edifício Marilúcia para retornar à Rua Andrade Pinto.  Consegui. Esbaforido, entrei na condução, paguei a passagem, satisfeito por ver que chegaria bem cedo ao Grupo Escolar Raul Vidal. Em poucos minutos eu já ia descer do ônibus, que me deixava não muito próximo do colégio, pois meu ponto era próximo ao Moinho Atlântico, onde também desciam os operários que trabalhavam nos estaleiros próximos e no próprio Moinho. Quando me preparava para descer do ônibus, alguns bancos a frente se levanta a tal Miss.  Não reparei na hora, pois ela era apenas mais um passageiro querendo chegar a seu destino.  Mas assim que desci, e como ela ia na mesma direção que eu, comecei a nela reparar, pois ela ia na frente e todos os homens que vinham da direção contrária, ao passarem por ela, voltavam o pescoço em 180 graus. E a cena ia se repetindo. No início eu ri, mas aí passei a também a acompanhar com interesse o andar da musa dos operários que caminhavam pela Rua Feliciano Sodré. Vinicius diria que seu balançar era mais que um poema, a coisa mais linda que eu já vira passar. A calça jeans justa torneando os seus largos quadris lembravam aos da famosa mulata das Sardinhas 88. Devia ter 20 ou 22 anos no máximo. Minha timidez adolescente não me deixava olhar incessantemente para tal objeto de desejo de 10 entre 10 transeuntes do sexo masculino, mas cuidadosamente diminuí meu ritmo para poder ficar a uma distância dela e não ultrapassá-la. Até algumas mulheres tinham sua atenção voltada para a tágide operária. Ela entrava na Rua Barão de Amazonas e eu seguia meu caminho não sem antes dar uma última olhada em direção à morena de longos cabelos negros.
            Deixa eu pegar um café que a Cesária fez. Vocês querem com açúcar ou adoçante? Seu Libório poderia tocar uma modinha enquanto isso. Dona Das Dores, pegue uma bolacha nesse pote. Mestre Gaudêncio, o senhor é de casa, não está esperando que eu lhe leve a bandeja, né? Seu Firmino, a cegueira não impede do senhor saber de cor todos os cantos de minha casa.  Só vou colocar o cafezinho para o senhor, o restante pode se servir. ... Mas voltando à história, eu fiquei sem saber quem era aquela exuberante jovem, mesmo ela fazendo parte de minhas manhãs de segunda a sexta. Foi quando numa conversa entre minha mãe e minhas primas, ouço-as comentando daquela mulher que nenhum homem do bairro tira o olho, com um corpo de dar inveja,  que morava naquela casa que ficava isolada no meio do morro ao lado de um pé de eucalipto, e que todos diziam ser amante do português dono da quitanda. O português era todo sorriso quando a Miss Eucalipto passava, finalizou minha prima Lucia.  Aquele nome bateu nos meus ouvidos como música. Miss Eucalipto!  Miss Eucalipto! A Miss dos eucaliptos! Título bem merecido.  Nome bem mais justo do que aquele conto do Machado, Miss Dólar, que, se vocês não sabem, era o nome de uma cadelinha.  Mas a minha Miss Eucalipto não se perdia. Estava pontualmente no ônibus das 7 com suas calças jeans justas, requebrando os quadris, num rebolado natural. Pode ser que a nostalgia faça agora um desenho mais bonito às minhas lembranças, mas eu digo que era como uma cena em câmera lenta no cinema. No meu último dia de aula daquele ano ela apareceu diferente. Não estava com suas jeans. Estava com um vestido azul que ia na altura de seu joelho. Talvez por não estar acostumada a tal vestimenta, seu andar parecia meio atrapalhado, e ficou mais ainda ao perceber que ventava, não uma ventania, mas um vento suficiente para balançar o tecido do vestido. Os homens, que nos outros dias já voltavam o pescoço, naquele dia faziam também uma torcida silenciosa para que o vento lhes fosse generoso e lhes desse de presente uma visão até então misteriosa. Dessa vez eles passavam e paravam. E eu junto com eles na torcida. Disfarçadamente, pois temia ser chamada minha atenção por alguma senhora, afinal um menino teria que manter a compostura. E enquanto isso, a Miss Eucalipto tentava segurar o vestido num lado e depois em outro. O vento parecia sapeca, querendo surpreendê-la. Enfim, para alegria dos operários em volta, o vento dribla a atenção da morena, fingindo que levantaria na coxa direita e partiu para a esquerda. Nossa morena, surpreendida pelo vento, numa última tentativa de não dar o espetáculo esperado, foi com as duas mãos segurar as abas do vestido.  Além de não impedir que todos se alegrassem com a visão das coxas roliças e da calcinha branca, acabou por deixar cair uma pasta que trazia junto com sua bolsa. Envergonhada, abaixou-se para pegar a pasta. Intuitivamente, eu que estava atrás, mais rápido que ela, peguei sua pasta e algumas moedas que também foram ao chão e entreguei a ela. Ela parou e me deu um sorriso de presente. Pegou a pasta, as moedas... Você não é o Santiago, filho de Dona Rita? Ela me reconheceu. Eu não era invisível para a Miss Eucalipto. Disse então que estava com pressa, e que tinha que correr para não ser despedida. E por fim, agradeceu-me com um beijo. Intuitivamente eu girei meu rosto para que não tocasse na bochecha e sim nos lábios, mas ela deve ter percebido minha intenção e fez um contragiro, mas ao receber o beijo vi que meu movimento foi suficiente para a lateral de seus lábios tocassem a mesma parte dos meus.  Ou imaginei que houve esse toque. Um milímetro dos lábios da Miss Eucalipto foi como se tivesse recebido um beijo de cinema. Ela não me repreendeu. Sorriu e continuou sua caminhada, dessa vez sem vento.
            Como era meu último dia de aula no meu último ano no Raul Vidal, aquele tinha sido meu último encontro com ela naquela região.  E mesmo no bairro de Fátima, eu só a vi poucas vezes. Depois de algum tempo nunca mais a vi. Isso até semana passada. Fui com amigos beber uma cervejinha num bar perto do Paço Imperial. O dono do bar, seu João, bastante simpático, parou para conversar com meu grupo. Contava piadas e todos nós gargalhávamos. Meu amigo Zé falou que eu era o único que morava num local com uma bela vista, que eu era de Niterói e assim podia ver as belezas do Rio. Seu João disse então que sua mulher nascera em Niterói. De que bairro o senhor é? Bairro de Fátima? Acho que a Regina era de lá também.  Regina!  Regina! Venha cá.  Ela é quem faz essa comida gostosa que os senhores estão comendo. Uma figura feminina surge na porta da cozinha. Uma figura envelhecida, com as manchas de gordura no rosto e no avental. Quando ela se aproxima de nossa mesa, olho o seu rosto, e ao cruzar com seu olhar por um segundo, vi que a conhecia. Sim, era ela. Mas aquela visão maltratada me fez mal. Fiquei chateado por desmontar minha última imagem da Miss Eucalipto. Como aquela mulher ali em frente foi capaz, em um segundo, de destruir a bela lembrança que eu tinha? Tive vontade de me esconder, de não estar ali. Por vários anos, vez ou outra, principalmente ao me sentir solitário, recorria às recordações da Miss Eucalipto e daquele beijo. Pequeno, um milímetro, mas o melhor beijo que aquele menino de 13 anos podia ter. Seu João perguntou se ela era do Bairro de Fátima, e logicamente ela confirmou e me apresentou. Ambos nos olhamos, e acredito que a minha reação de repulsa, de querer expulsar a nova imagem da Miss Eucalipto, refletia no que ela sentiu e expressou.  Percebi que ela me reconheceu também, mas em um segundo mudou sua feição, como se estivesse buscando algo na memória. Disse que não lembrava. Intui que ela não queria que eu tivesse aquele choque de realidade, que a imagem que eu tivesse dela fosse aquela de 1982. Parecia que eu estava em frente da avó da Miss Eucalipto e não da própria.  Aos poucos passei a ter um pouco de carinho misturado com pena daquela senhora.  Possivelmente ela teria 50 anos ou um pouco mais, mas parecia ter bem mais de 60.  Disse que também não me recordava dela, me desculpando, pois eu não seria bom fisionomista, que costumava me esquecer de pessoas que conheci há uma semana. Aquela mudança também a machucava. Mas aquela situação me incomodava tanto, que logo arrumei uma desculpa para sair, que não podia ficar mais tempo por lá, que teria que acordar cedo. Mentira, mas todos acreditaram. Torci para que a ex-Miss Eucalipto, agora Dona Regina, voltasse para a cozinha. Vim para casa tentando apagar dona Regina da mente e imaginando aquele doce e sensual andar, na câmera lenta de um Sidney Polack ou de um Fellini. Da voz doce me agradecendo e não da voz rouca e cansada que saía da cozinha. Até Cesária ficou triste depois que eu lhe contei o que tinha acontecido. Mas essa reunião aqui é para a gente se divertir e não para que eu transmita minha tristeza. Prometo que amanhã eu conto uma história porreta. Vou abrir uma cerveja geladinha pra gente.

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Veja também o conto de novaes/ clicando abaixo:
http://clubedeleituraicarai.blogspot.com.br/2012/12/conto-integrante-da-antologia-premio.html

Veja também a crônica de Rita Magnago clicando abaixo:
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Antologia de textos premiados da UFF em 2012 tem três participantes do Clic


Noite quente. Lindos jardins do Solar do Jambeiro. Homenagem ao centenário do grande Pimentel. Suspense...

Benites, Rita e novaes/

Não, dessa vez o Clic não foi vencedor do Prêmio UFF de Literatura, mas três de seus integrantes – Rita Magnago, estreante no concurso, novaes /, vencedor de 2011 na categoria conto, e Carlos Benites, figurinha fácil nesta antologia, também na categoria conto -, honrosamente integram o livro intitulado “O contador de Histórias”.

Pimentel, o senhorzinho da frente, alegremente posou com a turma

Vários amigos do Clic estiveram presentes na torcida: Gracinda, Elenir, Dília, Marlie, Ilnea, Luzia, Fátima, Niza, Carlos Rosa, Winter, Cristiana, além de colegas da Academia Niteroiense de Letras, de familiares dos participantes e outros amigos. Após a solenidade, a turma foi comemorar no restaurante do Solar do Jambeiro.

A mesa foi pequena para tantos amigos,
aperta daqui, estica dali, coração de Clic cabe todo mundo


Em breve os textos de nossos participantes.


Conto Integrante da Antologia "Prêmio UFF de Literatura 2012" (3)


As histórias que contam

novaes/


Bom dia. Foi sim senhor, trabalhei na obra do Maracanã, virava cimento, levantava concreto, eu que tento me manter reto, no prumo dessa vida. Sim, me dava bem com os colegas. Trabalho em equipe. As metas? Cumpri todas. Sem atrasos, sem faltas. Não sou de faltar, nem nas segundas-feiras. O senhor sabe, segunda é o dia da falta no Brasil. O peão bebe o domingo todo e na segunda não consegue levantar. Eu, não. Gosto da minha cervejinha, mas nada que me derrube. Como? Foi... É... Derrubei um engenheiro lá. Enfiei um soco na cara dele. O cara tava de implicância comigo. Um dia ele me ofendeu. Falei que era a mãe dele, não a minha. E pra ele não esquecer, quebrei esses dente aqui dele, ó. Virou o engenheiro mais banguela do planeta. O quê? Ah, tá... sim senhor... eu aguardo o senhor entrar em contato. Bom dia.

* * * * 

Vem aqui, Zé. Põe a mão na barriga. Sente só. Esse menino pula demais, parece que está torcendo lá nesse Maracanã que você está construindo. Eu sei, eu sei, reformando. Pra Copa do Mundo! Uma obra daquele tamanho, vai ficar bonita? Como está indo? Você não tem me contado nada, antes sempre falava da obra, dos colegas, daquele engenheiro chato... Já tem uns meses que você não fala mais do serviço. Sai de manhã, volta de noite; só vejo que você está cansado, com esse ar aborrecido; aconteceu alguma coisa, Zé? 

Aconteceu, ora, aconteceu que a notícia mais importante, o que tenho pra dizer, é que sua barriga está linda. Lembra o que o doutor falou? Que pro neném vingar você não podia se aborrecer? Nada de esforço, nada de chateação. Até saiu do colégio, parou de dar aula. Repouso absoluto, lembra? E eu vou ficar aqui falando daquele engenheiro lambão? Nada disso! A única obra que me interessa agora é essa que estamos construindo juntos, Rosa, esse filho há tanto tempo querido. Além disso... aquele caso do engenheiro já foi resolvido...

Que sorriso maroto é esse, hem?...

* * * * 

Sim, senhor. Não, senhor. A fila está grande, mas não estou cansado não. É, eu sei. Em pé, lá fora, debaixo desse sol, bem umas três horas, mas eu tô acostumado. Meu trabalho é assim mesmo. Não tenho medo de serviço não. Chova ou faça sol, o suor é o mesmo, sempre molhado. Onde tem tabuleta de emprego, doutor, tem sempre muita gente querendo. O senhor já pensou se pudessem medir esses corações em fila? Quanto de angústia, de medo, de esperança? Quantas histórias tem aí nessa fila, doutor? E cada um chega aqui e conta um pouquinho pro senhor. Como o senhor faz? Escolhe a história mais bonita? A mais comum, né? É, a mais comum. Se tiver muita feiúra, ou muita beleza, o senhor descarta. História exagerada, muita desgraça ou sucesso demais, tudo isso se desconfia, sai do padrão, né? Pra que arriscar? Quanto mais comum, quanto mais igual, melhor. Eu entendo. São peças, né? Quanto mais previsíveis, melhor, menos dor de cabeça. Já pensou se a betoneira tivesse sentimento? Os tijolos? O cimento? Esse então mudava de humor de acordo com a situação. Seco e disperso quando pó. Maleável quando aguado. E finalmente um sujeito duro e definitivo, este senhor Cimento, quando adulto. Chova ou faça sol, doutor, os sentimentos não mudam, nem as pessoas, nem a função das máquinas e dos materiais, nem o trabalho que fazemos com eles. É isso que eu faço, chova ou faça sol. Viro cimento, levanto concreto, em qualquer tempo, isso é o correto. O quê? Por que eu saí da obra do Maracanã? Tô tentando melhorar de emprego, só isso. O quê? Engenheiro? Sei não... Dente quebrado?... ... ... É, tem o telefone aí anotado. Tá, sim senhor... eu espero sua ligação.

* * * * 

Oi, amor, que bom que você chegou mais cedo. Zé, fiquei com medo. Senti umas pontadas na barriga. Fiquei nervosa, aqui sozinha. Liguei pra minha mãe. Conversamos pelo telefone. Ela veio de novo com aquelas histórias de que você é muito esquentado, que não para nos empregos, que não acata chefia, que acaba brigando... Pois eu respondi a ela que você está muito bem lá no Maracanã. Pra ela parar com isso. Mas, quer saber?, mesmo que você seja um pouco revoltado eu não ligo. Você não é um cabeça-quente, suas revoltas têm sempre uma razão de ser. Se eu quisesse um marido frouxo tinha aos montes me querendo, até caras com situação. Mas eu escolhi você. Lembra? A família toda contra e até os vizinhos faziam carga. Inventavam histórias. Aumentavam. Tiravam conclusões. Tudo por causa daquele caso com seu pai. Tanto chamaram você de agressivo. Violento, revoltado, eles falavam. Dizem que você não aceita ordens desde aquele dia. 

Pai, chefe, presidente da República, Papa!... As pessoas pensam que posição é o que faz a pessoa. Eu vi muito cedo que isso não funciona. Um dia cheguei em casa e o velho estava lá, meu pai, bêbado, batendo, xingando, espancando a minha mãe. Parti pra cima dele. Eu tinha 15 anos. Explodi. Desde os cinco anos de idade eu via isso, se não com os olhos, fechados no quarto, via com os ouvidos, sentia com a pele arrepiada de raiva, me afogava, engolia salgado, porque eu não deixava a lágrima sair. Ficou tudo aqui no peito: o choro da minha mãe, os gritos, o corpo marcado, o sangue, junto com o grito que eu queria dar, o maior de todos os gritos do mundo, e que me queimava por dentro porque não conseguia sair. Era um grito adulto demais para a boca de um menino. Impossível de sair. Agora, sempre que eu sofro um abuso, esse salgado volta todo, amarga a minha boca, parece uma onda. Quem se prevalece de posição para ofender, eu não vejo pai, chefe, diretor, presidente; eu vejo só um verme, embriagado pelo poder que não sabe usar, um poder que está se vendo que não cabe dentro daquela pessoa, ela é pequena demais para ter aquele poder. Aí fica tudo deformado: a pessoa, suas atitudes e a função que se esperava dela. Dá tudo errado. Por isso, eu sei muito bem que não é um pedaço de papel que vai me dizer quem é pai, quem é chefe. 

Nem quem é mãe, Zé. As coisas que os papéis dizem, dizem por dizer. Porque as pessoas querem estabelecer por escrito, firmar, jurar de papel passado com registro em cartório, como se fosse possível transformar a verdade em palavras. Eu vejo isso lá na escola. De tempos em tempos mudam os livros de História. Até os de Geografia e Matemática! Descobrem-se novas verdades, novas histórias, que estavam ocultas. E com certeza ainda há outras tantas verdades que não conhecemos, histórias que ainda não contaram. 

De livros eu não entendo, Rosa, eu sei do que eu vejo na vida real. Um chefete não pode xingar minha mãe, do mesmo jeito que meu pai xingava. Se eu fui homem pra avançar pra cima do meu próprio pai, não vai ser ninguém que vai me intimidar e me ofender.

Você tem razão. Essas coisas escritas não valem muito mesmo. Pensa bem: como é possível pegar uma verdade inteira, cheia de senões, cheia de detalhes, de visões e razões diferentes e reduzí-la a uns sinais escritos num papel? As dores entram onde nessas letras? As raivas, as alegrias, as dúvidas? Os medos? A verdade só pode ser conferida com os olhos. Com o tato. Pelos ouvidos da alma. Com os sentidos e os sentimentos. Sou mãe, sou pai, sou chefe, sou presidente!... Podem escrever no papel o que quiserem, não passam de histórias que eles querem nos contar, como se fossem verdades só porque estão escritas num papel. Mas são apenas promessas. São obras de ficção à espera de serem confirmadas pelos sorrisos ou contestadas pelas lágrimas, aprovadas pela satisfação, pelo amor, ou irremediavelmente desacreditadas pela indiferença e pelo ódio.

Como aquela história do seu tio, não é? Ainda bem que você, mesmo adolescente, denunciou aquele safado. Ele teve o que merecia. Um tio de verdade não faria aquilo. Irmão da sua mãe, e ela não percebeu. Pior, não acreditou em você... Você foi valente. Sempre foi. Ainda é. Como você diz? “Nunca se esqueçam de que a rosa, além de beleza e perfume, também tem espinhos”... Mas, querida, chega de se aborrecer com isso, esses assuntos não fazem bem pro neném. Você não pode se exaltar. Agora está tudo bem lá no Maracanã, você não pode se alterar, vamos pensar no neném. 

Zé, por que você chegou mais cedo hoje? Que história foi essa?

* * * * 

José da Silva Quintino, sou eu. Currículo de trabalhador é a Carteira de Trabalho. O senhor pode ver aí onde já trabalhei, tá tudo anotado. É. Sim. Foi. Mas tem umas coisas que não estão escritas aí. O senhor sabe, nessa folhinha pequena aí não cabem as obras que eu já fiz. Não cabem as estradas, rodovias de se perder de vista; não está escrito aí quantos milhares de carros estão passando nelas neste exato momento. Também não diz aí do aeroporto que eu ajudei a reformar e ampliar. Já pensou se viesse na Carteira de Trabalho pelo menos um “muito obrigado” dos passageiros que agora podem pegar seu avião com mais conforto? Ia precisar de um chip nessa carteira, pra poder juntar tanta informação. E tem a barragem, é, hidrelétrica, foi em outro estado, mas a energia dela vai chegar num monte de cidades. Devia vir a lista aí, das cidades beneficiadas e até das famílias, né? Ou pelo menos um agradecimento do Governo Federal. Mas, não, aí tem só o nome da empresa em que trabalhei. É, só o nome do empregador. É a história que essa carteira conta: quem foram os meus empregadores, os meus patrões, e quanto tempo servi a cada um deles. Mais nada. Parece que é só o que conta, não é?... ...

* * * * 

Alô, senhora Rosa? Aqui é do departamento de Recursos Humanos. Estou ligando para dizer que seu marido será recontratado. É, ele vai voltar. Concordamos com seu argumento. Sim. Afastamos o engenheiro. É, foi advertido e afastado para outra obra. A senhora está certa, ninguém pode ofender um empregado daquele jeito. Sim, severamente advertido! Nossa empresa se pauta pela ética nas relações de trabalho, viu? Chefes e operários aqui fazem parte da mesma equipe, somos uma grande família e na nossa empresa todos são respeitados. Isso! Tem toda razão! E... quanto àquela ideia da senhora, de contar essa história horrível, esse caso infeliz, à imprensa e ao sindicato, justo nesse momento em que a comitiva da Fifa está vindo para ver a obra... vamos esquecer isso, não é? A situação já foi resolvida, não acha? Ah, muito obrigado! Obrigado mesmo!

* * * * 

Rosa, meu amor, nem te conto. A situação vai melhorar muito lá no Maracanã. 

É?

É. Me avisaram agora pelo celular. Afastaram aquele engenheiro. A paz voltou na minha vida. Amanhã começo uma nova etapa no meu trabalho!

Que bom, amor, fico feliz por você. Pois então vou lhe dar outra notícia: o médico marcou a cesariana para amanhã.

Vai dar tudo certo.

Vai sim.

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Leia também o conto de Carlos Benites clicando no link abaixo:
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16 de dezembro de 2012

UMA HISTÓRIA DE SUCESSO (DE MUITO SUCESSO): Héldice Armond




     ...Ainda menino em Itaperuna-RJ, permanentemente acompanhava minha mãe às missas aos domingos, ou nos dias normais durante a semana. Éramos muito religiosos e continuamos. Num determinado dia, missa acontecendo, hora do ofertório, numa igreja em fase de acabamento, ainda com as escoras do teto por retirar, naquela penumbra dos idos das dezenove horas com iluminação precária, lá vinha o "sacolinha" das ofertas intimando a todos, um a um, quando saí de perto de minha mãe e tentei me esconder para que não visse meus pés, um de meia preta e o outro marrom, sim, pois foi o que consegui de mais próximo de um par completo. Mesmo aos oito anos de idade e me escondendo, aquele escriba foi até onde me escondia para buscar aquela moedinha, ou um "dinheiro" sequer. Estranhando meu comportamento um tanto constrangido, o sacoleiro parou na minha frente e me olhou de cima para baixo, da cabeça aos pés, pois eu não tirava as mãos do bolso, daquela calça-curta que o Rodolfo havia me dado já fazia tempo!... Após o fuzilamento daquele olhar, o "sacolinha" deu uma risada e saiu balançando a cabeça como se estivesse me sacaneando, zombando, porque percebeu as minhas meias trocadas. Elas estavam trocadas sim, não porque me confundi na hora de calçá-las, mas porque meu primo Rodolfo ainda não havia me mandado um par de meias completo. Éramos treze, todos vivos, graças a DEUS,  e eu o 11º (décimo primeiro), minha mãe professorinha primária e meu pai, funcionário do DER. Imaginem que FESTA, mas todos ali juntos com a fé inabalável em DEUS e na Igreja... Naquele momento eu não saberia relatar de que cor fiquei, mas sei que me ardiam as faces e me doía o coração de tão vexado que fiquei. Do fundo de minha alma, alma de criança, prometi a DEUS que um dia seria um homem rico e de tão rico faria uma grande oferta para SUA Igreja, e com ela poderiam se erguer várias igrejas. 

    Hoje, do alto dos meus 55 anos me vejo um homem rico. Sou verdadeiramente um homem muito rico! Pai de um líder espiritual (Padre).

    Dispenso comentar sobre os dias e noites de fome e frio. Dias e noites de apertos, preocupações... Quase loucura! Dias e noites de entrega total à vontade de DEUS. Dias e noites de trabalho e orações...

    Hoje sou um colecionador de tesouros! Herdeiro, sim. Herdei de Tasso Armond e minha querida Margarida Ladeira Armond uma enorme coleção de tesouros que é minha grande família. Eles, Tasso e Margarida deixaram vivos, sadios, inteligentes, bonitos e acima de tudo tementes a DEUS 13 filhos, 34 netos, 23 bisnetos. Uma verdadeira fortuna viva que está aí para honrá-los e bem-dizê-los. E o meu grande tesouro, o maior, o mais precioso e reluzente entregue a DEUS e à Igreja para que se prossiga SUA grande Obra no seio da sociedade e de nossa família, verdadeira coleção de tesouros.

                                                            Obrigado meu DEUS! 

Muito obrigado, seu filho Héldice.





Natal: Ilnéa País de Miranda



E então era dezembro, como sempre era dezembro depois do trigésimo dia de novembro, que como sempre acontecera depois de outubro. É, era dezembro como no mínimo  vinha sendo dezembro por alguns tantos quase dois mil anos - um tempo maior que a eternidade para quem não era muito mais que um projeto de gente de uns poucos anos, aos quais tão logo juntaria mais um. Sim, pois como o Jesus do berço de palha que depois crescera e se encarrapitada sobre a bandeira da porta da sala de visitas da casa da Vó Neném , também  eu, menina pequenina, era de dezembro, como de dezembro era minha outra a Vó, a Betina, que era do dia seguinte. Que dia seguinte? Ora, do Natal, naturalmente. 
...e se passou muito tempo até que eu me desse conta de que Natal era aniversário de Jesus...
Naquele tempo ninguém falava disso, nem tampouco o Natal começava ontem: Natal, quando eu era pequena, era dia 25, a manhã do dia 25. A gente adormecia ontem e, pela manhã, com sorte, encontrava um - quase nunca mais que um - pacote, cujo conteúdo às vezes aproximava-se do desejo.
E o desejo era muito particular: um segredo entre eu e o menino. 
E não sei de onde partia a escolha do tal presente especial, recompensa por todo um ano de obediência e bons modos que haveria de chegar naquela tal manhã especial. 
Assim era dezembro, a um só tempo  mês de alegre expectativa de festa e de arrependimento pelas pequenas má-criações e maldades ainda menores porventura  praticadas, que, para os adultos eventualmente pudessem por um  momento ter sido motivo de alarde e censura - às vezes até uma palmada, um puxão de orelhas - não passavam de traquinagens sem consequência. Para mim, muito ao contrário, eram razão de profunda reflexão e recriminação.
Ah!... por que eu não deixara quieto o gato ao invés de lhe ter puxado o rabo quando dormia ronronando mansinho no canto da cozinha? por que sacudira o galho da mangueira para pegar a manga madura que eu não alcançava se eu sabia que o Vô Chiquinho não gostava porque fazia cair também as mangas verdes? e - grande pecado! - por que negara a Vó Neném a tampinha da laranja que ela descascara para mim? 
AH!... quanto remorso sentia o meu coraçãozinho apertado no peito!... e quanto medo de  não receber nenhum presente no Natal!
Pois é. Na realidade o remorso não era bem aquele do ter feito: o remorso era pelo efeito do ter feito.
E vinham as promessas solitárias para o ano seguinte. Promessas de não fazer e outras de remediar. O gato poderia dormir quieto quantas vezes quisesse, onde quisesse, por quanto tempo quisesse. Puxar-lhe o rabo? nunca mais! As mangas poderiam apodrecer no pé, eu é que não iria sacudir galho mais nada. E minha avó? Esta passaria a chupar todas as tampinhas de todas as laranjas - mesmo aquelas que eu mesma descascasse.
E sei lá se eu não rezava umas não sei quantas rezas truncadas, por que rezar não sabia direito. Às vezes até pensava rezar e pedir perdão de joelhos nos caroços de milho como eu havia visto a Santa Terezinha da peça do circo fazendo... mas voltava atrás porque achava que eu não era nem seria nunca santa mesmo.
Por tudo isso, e mais o fim do ano escolar - que nem era meu, mas da escola da minha mãe que era a ela muito dedicada - meu aniversário, que era a dezesseis, passava meio atropelado.  Não entendia por que - já que havia um tal Papai Noel responsável por trazer de algum lugar o tal presente especial e parecia que ninguém precisava pagar por ele - meus pais diziam que não podiam gastar muito com festas para mim porque já, já, seria Natal e tudo custava muito caro para o dinheiro pouco. Eu não entendia nada. Para mim gente grande era mesmo um pouco doida. Afinal, por que tinham que gastar dinheiro para me dar uma coisa que eu é que  teria que pagar com “boa-mocisse” e bom comportamento? 
Caro ficava era para mim que além de ter que barganhar com Jesus meus pecadilhos, ainda ficava meio sem festa de aniversário e meio sem presente.
Mas nada disso importava: eu adorava ser de dezembro. Só não gostava que fosse tão quente. Mas isso é coisa que nunca entendi porque. 
Não me lembro de presépios nem de árvores de Natal nas casas que eu freqüentava na minha infância. Lembro sim o enorme presépio armado na Catedral de São João Baptista, onde tudo se mexia. Acho que até o Menino Jesus mexia as perninhas enquanto a vaquinha balançava a cabeça. Tinha tudo no Presépio. Um bando de bonequinhos: uns, muito bem vestidos em seda e dourado que seriam os Reis Magos, uns outros vestidos com simplicidade diziam-me ser os pastores - o que não me incomodava, pois eu não estava nem aí para as tais ditas diferenças sociais. Eu gostava mais era de ficar olhando a mulher fiar a roca, o carpinteiro bater o martelo, o moinho ser tocado pela água do riachinho que nunca parava de correr.
E havia que preparar as comidas especiais. Na casa do Vô Chiquinho, português, não podiam faltar castanhas,  rabanadas ao vinho,  rabanadas ao leite    ( que a minha avó nunca me deixava de dar uma assim que pronta pois sempre gostei delas quentinhas, com bastante açúcar e canela) e o bacalhau de primeira, do Porto como convinha, regado ao melhor azeite da Terra, e ao bom vinho tinto da mesma procedência.
Isso tudo aí em cima era para o almoço de 25, pois que, como já disse, no meu tempo de menina nem se falava em ceia de 24. Muito menos de presentes de véspera. Na véspera, ouvia dizer, algumas pessoas iam a uma tal Missa do Galo, que eu em minha santa ignorância infantil, matutava: o que poderia fazer um galo dentro de uma igreja, durante uma missa, mais do que cacarejar atrapalhando o padre ou soltar porcarias pela nave.