CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de abril de 2014

A construção de uma amizade: William Lial


William Lial


Como é gostoso e importante para a formação da criança ouvir histórias. Ao contá-las instigamos a curiosidade e o desejo de “quero mais”, expresso pelas crianças no “conta outra vez”. São esses sentimentos que nos movem para conhecer e aprender as coisas que estão no mundo, e, sabendo-as registradas em livros, certamente iremos recorrer a eles, nos tornando, assim, leitores por desejo e motivação. (PERRONE; LARA, 2002, p. 123)



A literatura infantil, felizmente, é base da criação intelectual e prazer pela leitura de muitos de nós. Não são poucos os relatos de quem teve sua infância recheada de livros infantis, de Monteiro Lobato à Ana Maria Machado – para os mais jovens. Muito importante, portanto, como diz a professora e ensaísta Nelly Novaes Coelho,

A Literatura infantil é, antes de tudo, literatura, ou melhor, é arte: fenômeno de criatividade que representa o Mundo, o Homem, a Vida, através da palavra. Funde os sonhos e a vida prática; o imaginário e o real; os ideais e sua possível/impossível realização. (COELHO, 2000, p. 27)

O livro da professora e escritora Francisca Nóbrega, Uma pena, uma saudade (1989), é um bom exemplo dessa presença do imaginário que se funde ao mundo real, representado no encontro de uma menina com um pássaro falante, narrado sem digressões para explicar como esse diálogo fantástico é possível; antes deixando tudo ao correr da pena, como no mundo tradicional, onde todo fantástico é natural, sem estranhamentos da ordem do extraordinário e irreal, como se costuma ver na literatura infantil.


"Uma pena, uma saudade" é um dos livros do debate de julho no CLIc

No seu enredo, a história é de uma menina que conhece um pássaro, um Colibri, e este se torna seu amigo, companheiro das melhores horas, divertindo-a e trocando aprendizado, carinho e amor. Na narrativa, a menina parece ter como único amigo o pássaro que lhe faz grande falta na ausência. E essa amizade vai sendo construída aos poucos, passando pelo período da observação para o do primeiro contato, seguido pelo da descoberta do outro e da necessidade e prazer da sua companhia, como consequência do amor já instalado, chegando à concepção da amizade propriamente dita e à partida do amigo com os seus, no outono, “outro outono” (p. 20), como diz a narradora, sinalizando que esse outono é também de outra ordem, além da tradicional das estações, como veremos mais à frente.

No decorrer da leitura podemos encontrar muitas características que já fazem parte da tradição da Literatura Infantil, dentre elas: o texto conciso, marcado pela oralidade, com vocabulário familiar, o uso da fantasia como forma de experimentação da verdade, personagens impulsionados pelo livre arbítrio, pela aproximação afetiva, pela empatia – que aproxima Carolina do Colibri, além da curiosidade inicial –, pela busca da felicidade, o uso de personificações e antropoformizações (AZEVEDO, 2001), como o pássaro Colibri que age como humano, com sentimentos e reações comuns ao homem; enfim, são características que também contribuem para a concepção de uma narrativa de iniciação, a exemplo do que ocorre em algumas “literaturas para adultos” como Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister (2009), de Goethe, também comumente chamados de “Romance de Formação”. Além disso, essas formas de iniciação são tradicionais nos livros infantis.

Mas o livro é mais do que essas características. Sua narrativa delineia o surgimento e desenvolvimento de uma amizade de encantos, tanto do ponto de vista ficcional e fantástico, como do ponto de vista humano. A amizade retratada na fábula segue um crescendo, constrói-se, como podemos perceber de acordo com algumas observações que julguei mais distintivas, e que procuro desenvolver a partir do parágrafo seguinte.

No que chamo de primeiro estágio da amizade, a menina é atraída pela curiosidade e encanto de ver um passarinho – ou melhor, um bichinho; ela ainda não sabe o que ele é –, a voar sobre flores. Vítima de seu limitado conhecimento do mundo, ao ver o passarinho, julga que ele teria um segredo, “Aquele passarinho escondia um segredo” (p. 5), – suposto segredo que, na verdade, intrigou a menina pelo fato de todos os dias o pequeno pássaro estar a beijar as flores; o que, porém, não se configura num segredo, mas numa falta de conhecimento da atividade trivial do pássaro que não a exerce escondida de ninguém; contudo, sendo a menina uma menina, vivendo a descoberta inicial do mundo, obviamente não sabia o que fazem os Colibris – bichinho que até então ela nem sabia que existia.



Ainda como parte do primeiro estágio, e no campo da observação, a menina dá pouca importância ao pequeno voador, como muitas vezes acontece entre os adultos na construção de uma amizade – em princípio, aquele que um dia será nosso amigo do peito, não nos causa grande impressão –, por isso, relata a menina: “[...] logo, logo, [o bichinho] deixou de ser assunto para mim” (p. 7).

Mas como as futuras amizades parecem nos buscar e nos direcionar para o encontro delas, o desinteresse da garota dura apenas “por vinte e quatro horas” (p. 7), até o passarinho retornar no dia seguinte; quando ela toma a iniciativa do primeiro contato – alguém sempre dá o primeiro passo, caso contrário, sem passo inicial, as amizades não existiriam.

No entanto, a menina, que não sabia distinguir se a ave era ave ou inseto (p. 7), interroga a pequena criatura que, blasé, não responde: “— Você é ave ou inseto?” (p. 7). Porém, olhando o passarinho de perto, depois da repentina aproximação deste, quase a tocar o seu nariz, a menina tem sua primeira revelação: ele tem asas, e é um passarinho, não um inseto, como ela julgou possível nas suas especulações iniciais ao observar o pequeno voador. Caso relevante, o da descoberta, no mundo da criança, algo sempre revelador, novo e importante para um cérebro em desenvolvimento que a tudo capta e se maravilha. O ser novo soa encantado.

A partir daí, agora no segundo estágio da amizade, a menina não mais esquece o pequeno pássaro, como podemos ver no exemplo abaixo, em forma de poesia – gênero constante nessa fábula que, vez por outra, se mistura à narrativa em prosa do seu texto.

Vinha a tarde, ele vinha.
E eu ia correndo pra janela.
Louca pra vê-lo. (p. 8)

E dessa forma, foi-se construindo o início da convivência e do acostumar-se com a presença do outro, foi surgindo a necessidade de se verem e a constante dedicação de parte do seu tempo ao futuro amigo, passando a observá-lo e a apreciá-lo, principalmente por parte da menina – o que não é diferente do que fazemos com nossos amigos; normalmente os admiramos por algo, em muitos casos somos seus fãs, orgulhamo-nos de sermos amigos de alguém tão especial. E era especial para a menina o pequeno voador, mesmo que, nesse ponto, ainda não tivessem se comunicado verbalmente, apresentando-se mutuamente e formalmente.

Assim, a menina vem todos os dias a procura do passarinho, e quando não o encontra – por alguns dias em que ele fica sumido –, sente o vazio provocado pela falta: “Confesso que fiquei desapontada, sentindo a sua ausência. Fiquei triste mesmo” (p. 11), lembra a narradora, já deixando clara a necessidade da menina pelo outro.

A essa altura, quando já nos sentimos imersos na leitura e no universo do livro, ressurge o pássaro, que se dirige à menina, agora, por palavras – o que já não nos causa espanto, não por sabermos que se trata de uma fábula, coisa que sabíamos desde o início, mas porque, imersos na leitura e no seu universo, vestidos de observadores, quiçá tomados da própria menina, tudo nos é possível e aceitável, não buscamos diferenciar fantasia de mundo lógico real. Mas enfim, com o contado oral tomado pelo pássaro, a linguagem, antes era apenas corporal, agora se configura em voz e palavras. Então a amizade que, até aqui, parecia uma via de mão única, tendo em vista que o pássaro não havia se comunicado realmente com a menina, além de exibir-se, como julgava ela, a amizade, afinal, toma uma direção mais efetiva, o pássaro não só fala como declara o seu carinho e afeição pela criança: “— Menina sem graça! Eu estive doente, com indigestão de suco de frutas misturadas. Só fiquei bom para poder voltar para você” (p.11).



Com essa confissão, o pássaro não só corrige um caminho de amizade, antes defeituoso pela ausência do discurso de uma das partes, como também demonstra que se preocupa com o que o outro, no caso a menina, pode pensar dele, da sua ausência, já que faz questão de justificar essa ausência, causada por uma indigestão, e, como se não bastasse, ainda dá indícios do seu amor nascente pela criança: “Só fiquei bom para poder voltar para você”.

Nesse momento, a amizade se configura com o amor correspondido. O passarinho quer bem a menina, e a menina quer bem ao passarinho; ele esteve doente e voltou por ela, ela esperou por ele, e também esteve doente – embora de forma metafórica, também teve uma indigestão, “indigestão de saudade” (p. 11), feito vazio no estômago provocado pelo vazio circunstancial do outro. E a declaração da narradora aos leitores não deixa dúvida disso:

Naquele exato momento,
Eu entendi o que as pessoas
Sentem quando dizem:
“Eu te amo!” (p. 13)

Nesse ínterim, dá-se a epifania. A menina descobre o que está sentindo, e o pássaro se revela no mesmo nível de querer que ela. Amar, nesse contexto, é sentir esse vazio que comentei acima, é sentir a falta do outro, quando longe, é querê-lo sempre perto, se importar com ele e sentir-se feliz pela atenção recebida. Como dizia Schopenhauer: “a amizade verdadeira e genuína pressupõe uma participação intensa, puramente objetiva e completamente desinteressada no destino alheio; participação que, por sua vez, significa nos identificarmos de fato com o amigo” (SCHOPENHAUER, 2002, p.220); identificação clara no encontro dos dois, passarinho e criança. E este foi mais um estágio da amizade, a descoberta dos sentimentos.

Desse momento em diante, menina e passarinho, não se desgrudam, criam uma parceria; cúmplices, descobrem que para haver amizade, assim como amor, é necessário dois existirem. O amor precisa ser mútuo para se realizar com sucesso e felicidade. Isso é representado pela repetição no texto da palavra francesa “pás de deux”: “Parecia convidar-me para um pás de deux” (p. 14), diz a criança, e mais à frente: “aprendi a fazer ponto, giro, rodopio, corrupio... tudo em pás de deux” (p. 20). A amizade se constrói e caminha a dois, a passos de dois, juntos. Não se é amizade se apenas um caminha sozinho.



E inebriados pelos momentos de alegria vividos juntos, nem percebem que nunca haviam se apresentado formalmente: nem seus nomes sabiam. Quando se expõem com o nome, este se configura em um novo estágio na amizade e numa nova revelação: “— Eu, Colibri, da nobre geração dos Grandes Beija-flores” e “— Eu, Carolina, da geração das garotinhas que ninguém entende” (p. 17), apresentam-se.

Mas há outro dado importante nessa apresentação: eles trocam presentes como faziam muitos de nossos antepassados ao conhecerem alguém ou receberem visitantes em seu mundo. Os presentes, nessas condições, são uma amostra de consideração, de respeito e, no caso específico dessa fábula, de dar ao outro algo seu – percebam que os presentes dados pelos personagens são partes de cada um, inclusive, diretamente dos seus corpos. Literalmente eles dão parte de si, e isso é muito significativo. É como se dissessem “Eu estarei sempre com você!”, firmando um compromisso.

Outro dado relevante é o fato da menina se proclamar pertencente à “geração das garotinhas que ninguém entende”. Suas palavras a colocam dentro do campo das muitas crianças que se sentem pouco ou nada compreendidas, e que, ao encontrarem um novo amigo, ou simplesmente um primeiro amigo, dedicam a esse o seu carinho e com ele compartilham intensamente sua vida. Esse amigo salva seus dias, porque a compreende como ninguém até então, o que, por conseguinte, a aproxima ainda mais do novo companheiro; uma amigo que, na visão da menina, é a poesia, por tudo o que ele representa; pela amizade, pela aparência, pela beleza, enfim, pelo fascínio que lhe causa. Nos olhos repletos de poesia romântica de Carolina, o pássaro transmuta-se em poesia, representa-lhe a harmonia da vida, uma metáfora da liberdade e do viver solto, feliz: “— E os da minha raça vão saber o que é poesia, quando virem um dos teus” (p. 17), diz a menina ao Colibri. A importância disso, desse momento, é declarada pela narradora quando afirma que

Aquela hora foi solene e séria,
Pois é sempre solene e sério
O instante da revelação. (p. 19; grifos meus)

Entre os motivos que podem fazer de uma revelação algo solene e sério, no caso específico desse texto, e nesse momento, está a possibilidade dessa revelação tratar-se de uma nova entrega. Em nosso mundo, onde os nomes são tão importantes, onde eles nos antecedem e nos apresentam, fazê-los conhecidos é revelar-se mais; nomear é revelar, é confirmar a existência, a realidade, a presença como ser presente, real. E para uma criança que encontra alguém (se me permitem a personificação do Colibri) que a compreende e a acompanha nesse mundo de sonho – a amizade parece um sonho para Carolina –, isso é fundamental, dá um sabor especial a sua vida. Essa revelação dos nomes, e espécies (Colibri e garotinha), fortifica a relação. Além disso, o nome dado à menina pelo Colibri também é muito significativo: Menina-Flor.

Este nome entra no plano das proposições, ou seja, o nome se propõe a significar, a definir a menina; por um lado por que o pássaro a conheceu entre as flores, onde ele costumava passear; por outro, por que a delicadeza e a importância de Carolina para ele parece se assemelhar à atração e importância da flor para os Colibris; e tudo isso somado representa a importância das flores para ambos: foi entre as flores que se conheceram, é entre elas que se encontram, é delas que o Colibri vive e foi graças a elas que ele veio à casa da menina e ganhou uma amiga. As flores ainda aparecem mais à frente no texto como fonte de amizade, amor e mais, como veremos adiante. Assim, o que o nome Menina-Flor invoca não é exatamente o que o nome significa, como diria Agamben sobre as proposições dos nomes (2012, p. 102-103), porém está relacionado, representa o que significa a menina para o pequeno pássaro.

Dessa forma, a amizade dos dois segue seu caminho. Construída, não da noite para o dia, mas com o tempo, com a maturação, como costumam construírem-se as amizades. E ambos vivem esse sentimento por vasto tempo: “E nossa vida era uma longa caminhada que não acabava nunca” (p. 20), diz a narradora.



A amizade dos dois era uma parceria, um companheirismo e uma cumplicidade que representava uma caminhada a dois, o “pas de deux”, já dito antes e repetido nesse ponto da narrativa, corroborando com a ideia de parceria. Além disso, havia uma troca entre eles, “Eu tinha sempre coisas para contar e ele, coisas para ouvir. Depois ele contava e eu ouvia” (p. 20), como declara Carolina; uma troca que define toda amizade, proporcionando o enriquecimento e o crescimento mútuo dos amigos, sempre a dois, juntos e iguais.

E ser iguais é mais um ponto expressivo na narrativa e na amizade de ambos: não há diferença real entre os dois, desenvolvem-se e descobrem um mundo novo lado a lado. Não há diferenças, um voa com asas e coração, outro voa com a satisfação e coração; ele é pequeno diante dela, e grande, diante dos beija-flores, não colibris; ela é grande, diante dele, e pequena diante dos homens; contudo, os dois são grandes diante de si mesmos – grandes um para o outro.

Enquanto isso, imperceptível em meio a essa construção da amizade, o tempo é força estranha. Imersos no prazer da companhia, o tempo inexistiu para os dois. Nem sequer foi eliminado, pois não foi percebido, não existiu até então – existir é característica imprescindível para se fazer presente e, assim, ser eliminado. Desprendidos das amarras do tempo que os obrigaria a medirem-se diante o tempo do mundo, viveram livres, cada dia como o mesmo dia – estendido eternamente – e, ainda assim, como um novo dia – revitalizado e redescoberto, nascido a cada reencontro. Sobre isso diz Carolina: “Fazia tanto tempo que brincávamos juntos, que dava a impressão de que não tinha havido o ‘antes dele’” (p. 21).

Essa declaração de que parecia não ter existido “o antes” do pássaro, portanto, “o antes” desse tempo em que Carolina e o Colibri vivem agora, no momento da percepção do tempo, assemelha-se à definição de tempo na Física projetada por Aristóteles, ao afirmar que o tempo é “a medida do movimento segundo o anterior e o posterior” (apud NUNES, 2002, p.29). Nas palavras de Carolina, permite-se vislumbrar que ela sabe que o tempo se dá entre o antes e o agora (o posterior ao antes), porém, ela percebe que, durante o tempo compartilhado com o Colibri, não houve esse antes e depois, só o presente.

Apesar disso, como nada é para sempre, já dizia o ditado popular, um dia, de acordo com a rotação sazonal, o tempo passa, e dessa vez é percebido; o Colibri tem que partir: já era “outono, outro outono” (p. 20), como diz a narradora. E como falei ainda no início deste texto, esse outono a que Carolina/Narradora se refere, é também, e principalmente, de outra ordem. Ele representa, dentre outras coisas, a tristeza, a chegada da velhice, da queda dos frutos, folhas e flores, refere-se à derrocada, às noites mais longas, contrárias à luz do verão que se encerra; tudo o que se configura na tristeza da partida e do fim de um período, de uma estação de alegria.



Diante desse novo panorama, tem-se mais um estágio da amizade que agora se conservará na lembrança, como nos casos em que, mesmo estando os amigos distantes, não se esquecem, um do outro, e, se um dia reencontrarem-se, abraçar-se-ão e retomarão à conversa como se apenas ontem se tivessem visto pela última vez, menosprezando o longo tempo entre os dois pontos, o do distanciamento e o do retorno, como um mero espaço que separam os segundos.

Na partida, o Colibri presenteia a menina mais uma vez, agora com uma flor roxa, que não deve ter seu significado desprezado pelo leitor. Esse presente não é mera formalidade ou regalo de menos valia. A flor roxa possui vários significados e todos, ou quase todos, são coerentes com o momento da narrativa; e esses vários significados podem, por conseguinte, nos suscitar várias interpretações; dentre elas, o roxo como metáfora do amor roxo, como a extensão do carinho do pequeno voador para com a menina, e que, nesse momento de partida, significa a saudade que ele sentirá da amiga, uma saudade roxa, dolorosa, forte, intensa – como significações mais diretas, baseadas na enciclopédia comum da nossa bagagem cultural e conhecimento popular.

Contudo, há ainda outras definições, significados atribuídos a essa flor que atravessam os tempos e enriquecem o ato do Colibri para com Carolina, o que também demonstra o grau de acuidade da autora do livro para com a sua história, ao buscar entrelinhas e simbolismos mais profundos para seu texto.

Dentre esses simbolismos temos: a flor roxa como representação do amor e dos sentimentos bons – assim como os sentimentos que unem os dois amigos na fábula –; o roxo como a cor do primeiro amor – o que não difere também da relação entre a menina e o colibri (ambos se unem por um amor mútuo, um amor verdadeiro e primeiro, sobretudo para a menina – de quem temos mais informações, já que narra a história de dentro de suas lembranças, como um narrador personagem –, porque ela nos deixa ver claramente que essa é sua primeira amizade, sua grande descoberta do que é uma espécie de amor compreensivo e feliz). Contudo, a flor ainda pode representar admiração e mistério – outras duas características diretamente presentes na amizade dos protagonistas dessa fábula –; além disso, a flor roxa é símbolo da Páscoa, também chamada de "Quaresmeira", conhecida como a flor que anuncia a Páscoa, tanto por florescer próximo do período religioso da "Quaresma", como por sua cor assemelhar-se ao roxo que representa a Páscoa – e Páscoa, no hebraico, Passach, significa passagem; a ida de uma situação à outra, como a ressurreição de Cristo, e como o renascimento de Carolina através da amizade. Finalmente, a cor púrpura real, também representa prosperidade, excelência e felicidade. Enfim, tudo intimamente relacionado com a amizade do pássaro e da menina.

Mas voltando ao correr do texto, nesse momento em que o Colibri presenteia Carolina, ele se vai. É hora de partir e deixar saudades. Partiu rápido, quase imperceptível, e a menina só viu “uma peninha de asa e o brilho escasso de uma saudade roxa” (p. 21) – aqui voltando a se referir a um dos atributos da cor roxa da flor.

E agora, de onde conta a história, a menina é uma senhora de cabelos brancos, “Meu cabelo, agora, é todinho anel de nuvem branca” (p. 23). Do ocorrido, a lembrança que fica é a força que teve aquela amizade e o quanto ela significou para os dias e a formação daquela menina, hoje mulher madura. O pássaro deu-lhe vida, sua afeição fez florescer em si suas asas, com as quais voou naqueles dias e viveu intensamente; assim, a pena do pássaro, que ficou consigo, era “a pena que faltava a minha asa” (p. 23), reconhece, ela, hoje.



Partido o Colibri, exaltada sua companhia e sua importância na vida da narradora, o texto termina com um poema que funciona como uma moral da história, ratificando a qualidade de amizade que retrata toda a fábula; tendo entre seus versos, como um ponto marcante e um dos centrais da história, a palavra “cativar” (p. 24), no quarto verso, que pode remeter-nos ao livro O pequeno príncipe (2004), de Antoine de Saint-Exupéry, onde o “jogo” de cativar é também parte fundamental da narrativa.

Agora, em posse dos sentimentos vivenciados, a menina segue sua vida junto aos homens, na busca de estender aos outros o que sentiu e viveu, semeando alegria, amor e companheirismo. Enriquecidos pela experiência que compartilharam, menina e passarinho levam consigo, e legam ao mundo os valores descobertos e adquiridos.




REFERÊNCIAS

AGAMBEN, Giorgio. Ideia da prosa. Trad. João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012. (FILÔ/Agamben) 
AZEVEDO, Ricardo. “Literatura infantil: origens, visões da infância e traços populares”. In: Presença Pedagógica. - Belo Horizonte: Editora Dimensão, nº 27 - mai/ jun 1999. 
COELHO, Nelly Novaes. A Literatura Infantil: teoria, análise, didática. São Paulo: Moderna, 2000.
GOETHE, Johann Wolfgang von. Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister. Trad. Nicolino Simone Neto. 2. ed. São Paulo: Ed. 34, 2009.
NÓBREGA, Francisca. Uma pena, uma saudade. 4. ed. Rio de Janeiro: Editora de Orientação Cultural, 1989.
NUNES, Benedito. Heidegger & Ser e tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002. (Passo-a-passo)

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O pequeno príncipe. Trad. Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2004.

SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos para a Sabedoria de Vida. Trad. Jair Barboza. SP: Martins Fontes, 2002.

PERRONE, Ercília; LARA, Maria Lúcia Martins Pinto. “Era uma vez...”. In: SOUZA, Regina Célia; BORGES, Maria Fernanda S. Tognozzi (orgs.). A práxis na formação de educadores infantis. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

SIGNIFICADOS. Significado de Flores Roxas: o que são flores roxas. Disponível em: <http://www.significados.com.br/flores-roxas/>. Acesso em: 20 maio 2013.


William Lial é escritor (poeta, cronista, contista e ensaísta), autor dos livros "Sombras" (2001), "Noturno" (2001) e "O mundo de vidro" (2005), e colaborador de alguns sites e revistas de Literatura.



Ilustrações: Arthur H. Braga

25 de abril de 2014

Vida aos Oitenta:


Aprendendo a viver - Elenir


Amigos, na coluna de hoje, 25/4/2014, do Globo, Arthur Dapieve comenta os finais dos romances de Gabo. Segundo ele, o escritor nunca deixou o leitor com a impressão de que um romance fora "cortado pelo pé". Dentre todos os finais excelentes, o seu favorito é o de "O Outono do Patriarca" e, dentro desse, destaca: "o patriarca ao fim de tantos anos de ilusões estéreis havia começado a vislumbrar que não se vive, que porra, sobrevive-se, aprende-se muito tarde que até as vidas mais longas e úteis não chegam para nada mais que para aprender a viver (...)".

Completando meus oitenta, concordo plenamente,  ainda estou aprendendo a viver. E muito! E sempre!

Beijos dessa eterna aprendiz.



Olhando para trás - Gracinda






Lembrar e Esquecer - Aquiles Andrade



Eu não precisaria escrever nada como referência a este livro, bastaria relatar que ele nos direciona a uma reflexão sobre o passado de um homem que vivencia a sua história na dignidade e honradez. Mas é necessário acrescentar que o autor, Aquiles Andrade, tem como trunfo a base familiar, o que nos leva a grandes emoções. Ao longo da leitura percebemos o reconhecimento do autor à misericórdia divina que o acompanha em toda a sua trajetória de vida. Sobretudo, o que nos chama a atenção é o seu grande e único amor, Isabel, a mulher de sua vida, que hoje, junto ao PAI, ainda consegue deixar o perfume suave de sua nobre presença, que passa do coração do autor a todos os leitores.

Livros publicados por Aquiles Ernesto de Andrade:

1.      A Seção Dourada no Templo de Salomão e nas Pirâmides
2.      Crônicas de Itaperuna e Outros Contos Literários
3.      Se Esta Rua Fosse Minha
4.      Dados Cronológicos de Abraão a Jesus Cristo
5.      Jesus Cristo e a Grande Pirâmide
6.      Contos Sobre Contos  
7.      Uma Imagem Virtual Convertida em Desenho Real
8.      Vida aos Oitenta: Lembrar e Esquecer, como sempre



Você encontra o livro à venda no Shopping do Pão em Itaperuna, RJ, e na Estante do Concierge, claro!


Sonia Salim
Adornando a Vida

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24 de abril de 2014

SOMOS O CLUBINHO!



Clube de Leitura Jovem: A menina que roubava livros - Markus Zusak



Os jovens leitores de Niterói ganharão em breve um espaço especial para conversar sobre suas preferências literárias. O Clube de Leitura Jovem – versão teen do tradicional Clube de Leitura Icaraí – tem sua primeira edição marcada para o dia 24 de abril, às 18h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9, em Niterói). O evento é voltado preferencialmente para o público entre 13 e 18 anos, mas a participação de leitores fora desta faixa etária é permitida.
“O Clube de Leitura Icaraí é frequentado por escritores, críticos e profissionais de grande influência na literatura. Percebemos que a robustez dos discursos do grupo faz com que os jovens se sintam deslocados, uma vez que seu vocabulário é bastante diferente, descolado, sem tamanho rigor literário”, afirma o coordenador do projeto Evandro Paiva Andrade. Segundo ele, para atrair o novo público era necessário criar um clube “proibido para maiores”. Andrade enfatizou que o objetivo do Clube de Leitura Jovem não é ser pedagógico ou educacional: “Queremos conversar sobre o que os participantes gostam de ler. A voz é deles”.
A obra de inauguração do clube é o best-seller A menina que roubava livros, do australiano Markus Suzak. Ambientada na Alemanha da Segunda Guerra, a trajetória de Liesel Meminger é contada pela própria Morte que, ao perceber que a pequena ladra de livros lhe escapa, passa a seguir seus passos. Filha de uma comunista perseguida, Liesel e o irmão são enviados para um subúrbio, onde um casal se dispõe a adotá-los por dinheiro. Assombrada por pesadelos, Liesel canaliza o medo e a solidão para a leitura. A versão cinematográfica da obra chegou ao Brasil em 31 de janeiro e bateu recorde nas bilheterias nacionais no fim de semana da estreia.

19 de abril de 2014

Mia Couto






Amei-te sem Saberes


No avesso das palavras 
na contrária face 
da minha solidão 
eu te amei 
e acariciei 
o teu imperceptível crescer 
como carne da lua 
nos nocturnos lábios entreabertos 

E amei-te sem saberes 
amei-te sem o saber 
amando de te procurar 
amando de te inventar 

No contorno do fogo 
desenhei o teu rosto 
e para te reconhecer 
mudei de corpo 
troquei de noites 
juntei crepúsculo e alvorada 

Para me acostumar 
à tua intermitente ausência 
ensinei às timbilas 
a espera do silêncio


Eu era tua poesia


És parecida com a Terra. Essa é a tua beleza.
Era assim que dizias.

E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e,
entre suspiros, perguntava: em que dia nasceste?

E me respondias, voz trémula:
estou nascendo agora.

E a tua mão ascendia
por entre o vão das minhas pernas
e eu voltava a perguntar: onde nasceste?

E tu, quase sem voz, respondias:
estou nascendo em ti, meu amor.

Era assim que dizias.

Tu eras um poeta
Eu era a tua poesia.


18 de abril de 2014

Lembrando Gabriel García Márquez




"A vida não é a que a gente viveu e, sim, a que a gente recorda e como recorda para contá-la." (epígrafe de "Viver para contar", livro debatido no Clube de Leitura Icaraí em 11/3/2011).

"Sentiu-se tão velha, tão acabada, tão distante das melhores horas de sua vida que desejou, inclusive, as que recordava como piores, e, só então, descobriu quanta falta faziam as brisas de orégão na varanda e o vapor das roseiras ao entardecer e até a natureza animalesca dos que chegavam. Seu coração de cinza socada, que resistira sem quebrantos aos mais duros golpes da realidade cotidiana, desmoronou-se  aos primeiros embates da saudade. A necessidade de se sentir triste ia se transformando num vício à medida em que os anos a devastavam. Humanizou-se na solidão."  (belo trecho de "Cem Anos de Solidão").

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, cons­truídas à margem de um rio de águas diá­fanas que se precipitavam por um lei­to de pedras polidas, brancas e enor­mes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para men­cioná-las se precisava apontar com o dedo. (Um dos grandes COMEÇOS literários...)

14 de abril de 2014

Os coveiros: Hélio José Lima Penna


Fonte

É noite, o cemitério fechou os portões. Arlindo, chefe dos coveiros, recebeu as chaves das mãos do zelador. Hoje, especialmente, permanecerá no local. Com as chaves, foi à copa, fez o café e tomou um gole. Dirigiu-se então à sala do administrador. O ambiente suntuoso exalava o aroma das essências usadas para "combater o fedor da morte", como ensinava o chefe. A placa de bronze, na mesa metodicamente arrumada, chama a sua atenção: "Doutor Ary dos Santos Quintanilha", pronuncia Arlindo, ao sentar-se na cadeira do advogado. Como num carrossel infantil, rodopiou várias vezes no assento. Ao segurar a caneta dourada, admirou as suas mãos: gostaria de cuidá-las melhor. Se pudesse, também usaria roupas mais caprichadas. Não devia, porém, chamar a atenção. "O doutor não pode saber o quanto eu ganho nesse negócio: vai me pedir mais e mais...", refletiu. "E os meganhas me tomam até os dentes, se eu estampar algum luxo".

Ele deixa a sala. Tem o cuidado de manter as coisas como as encontrou. Segue para a área dos sepultamentos. Esperaria pelos companheiros já na sepultura escolhida. Era justo que tomasse conta do que lhe pertencia. "É o olho do dono que engorda o boi", pensou e achou graça dessa ideia. Sempre que havia um enterro luxuoso, ele ficava no cemitério. "Só tem barão no velório da capela dois", veio dizer-lhe a gostosa da cantina, rebolando a bunda. E, depois, a servente descrevera-lhe o anel, a pulseira, o relógio, as abotoaduras, o cordão e os sapatos que o morto, um vereador, levaria para o além-túmulo. A cara murcha e triste da faxineira era muito útil. Condoídos, sem perceberem, os parentes passavam-lhe informações preciosas sobre os defuntos.

Na noite clara de verão, Arlindo caminha pelas quadras do jardim dos mortos, que lhe parecem as vielas estreitas do bairro onde mora. Os túmulos são as casinhas apertadas, grudadas umas as outras. Ele avança; suas botas ferem o silêncio majestoso do lugar.

O líder dos coveiros chega à sepultura determinada. A Lua cheia derrama-se sobre o campo-santo. As árvores estendem sombras gigantes na superfície do ostentoso mausoléu que ele violaria com a ajuda dos outros companheiros. Roubava os mortos? Perguntou-se. Mas os mortos são donos do quê? Questionou-se. O quê fariam as almas com todos aqueles pertences? Os finados têm fome? O que ele subtraia dos falecidos, alimentava os vivos. A faxineira, o zelador, o administrador e os demais não partilhavam da viração? Ele mesmo se impressionava com a sua habilidade em administrar o esquema.

Cansou-se de ficar em pé. Doíam-lhe as pernas. Sentou-se no túmulo. Depois deitou-se no mármore frio, apoiando a nuca nas mãos. A pérola do céu sorria-lhe, esplendorosa. Uma vez fizera uns versinhos sobre a Lua e dedicou-os a professora. Ela ridicularizou a sua poesia e riu dele com toda a turma. Ele — apenas disso se recorda — rasgou os versos na cara da professora, tomado de repentina fúria. A escola o expulsou. Foi surrado sem dó pela mãe e pelo pai. Nunca mais estudou.

Arlindo adormece e sonha com sua escola primária. Está na sala de aula. Tímido, mostra os seus versos à professora... O rosto da mestra ilumina-se... Sua arte é aplaudida por ela e os alunos... O beijo suave da educadora toca a sua face... A fragrância feminina o envolve... O pai o elogia... A mãe o abraça... Um assovio longo e preciso desperta-o rapidamente. Mais dois assovios, curtos e ritmados, atingem os seus ouvidos. São os companheiros... Começaria o trabalho.

(Este Conto de Hélio Penna consta do livro "Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros")



Hélio José Lima Penna


Nasceu no Rio de Janeiro em 1961, é contista e poeta.

Foi levado ao Clube em 2012, pelas mãos da poetisa Rita Magnago.







'Fico muito feliz ao saber que os meus textos estão despertando a atenção dos meus companheiros. Estou com 53 anos e escrevo desde a adolescência. Filho de operários, morador em morros do Rio de Janeiro, não tive na família quem me despertasse o amor pela Literatura. Só aos cinquenta anos cheguei ao Ensino Médio, e agora estudo Letras. Não sei explicar de onde vem esta quase necessidade de escrever e ler. Apesar de estar empregado formalmente aos 14 anos numa metalúrgica, eu, e não lembro como, tive acesso a Literatura Brasileira, e isso acalentou os meus pensares e as minhas dores. Meus professores e psicólogos foram, entre outros,  Herberto Sales, Jorge Medauar, Jorge Amado, Cecília Meireles, Drumond, João Antônio. Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Lígia Fagundes Teles,  Massaud de Moisés, esses e tantos outros, sabiam o que se passava no meu interior; sabiam das injustiças que meu corpo e meus olhos presenciavam. Eles me deram, então, a chave da porta do "neurótico" mundo da ficção e me ensinaram a desaguar os meus rios e canalizar toda a reflexão que faço sobre as condições que vive o meu povo.

Veja, o nosso Clube dando, a um escritor, a chance de um fragmento tão íntimo. A chance de poder citar escritores e escritoras que, em certa medida, o adotaram.

Muito obrigado.

Hélio Penna


. . "O escritor criará um mundo  de dentro de si mesmo. Eis o ato neurótico. É o vazio e de repente o mundo" (Oswaldo de Camargo)'

4 de abril de 2014

O amor de uma boa mulher: Alice Munro (Nobel 2013)




“No pequeno prado entre a casa e a margem do rio criavam-se vacas. Ela podia ouvi-las mastigando ruidosamente e esbarrando umas nas outras enquanto pastavam durante a noite. Pensava naqueles vultos enormes e gentis em meio às ervas olorosas, chicórias e capins floridos (…): ‘Que boa vida levam as vacas!’.

Terminam, é verdade, no matadouro. O desfecho é um desastre.

Mas o mesmo acontecia com todo mundo. O infortúnio nos pega enquanto dormimos, a dor e a desintegração estão à espera. Os horrores do corpo, todos piores do que se pode prever. Os confortos da cama e a respiração das vacas, a configuração das estrelas à noite — tudo pode virar de cabeça para baixo num instante. E lá estava ela, lá estava Enid, dedicando sua vida ao trabalho e fingindo que as coisas não eram assim. Tentando levar consolo às pessoas. Tentando ser boa. Um anjo misericordioso, afirmava sua mãe com ironia cada vez menor à medida que os anos passavam.”

O amor de uma boa mulher - Alice Munro




(O sonho de mamãe)

"Acho que só então me tornei alguém do sexo feminino. Sei que a questão foi decidida muito antes de eu nascer e que isso era óbvio para todos desde que vim ao mundo, porém creio que só no momento em que resolvi voltar, quando desisti da luta contra minha mãe (em que exigia sua rendição incondicional) e de fato preferi a sobrevivência à vitória (a morte seria uma vitória), foi que assumi minha natureza feminina." (p. 370)

"Meu pai e sua família não tinham o menor interesse por música. Na verdade, ignoravam isso. Pensavam que a intolerância ou mesmo a hostilidade que sentiam com relação a certo tipo de música (visível até mesmo no modo como pronunciavam a palavra “clássica”) se fundamentavam na força de caráter, na integridade e na determinação de não se deixarem enganar. Como se qualquer música que fosse além de uma simples canção encerrasse uma tentativa de tapeá-los, coisa de que todo mundo no fundo sabia, embora algumas pessoas—por pretensão, falta de simplicidade e honestidade—jamais o admitissem. Sobre essa artificialidade e essa tolerância covarde se erguia o mundo das orquestras sinfônicas, das óperas, do balé e dos concertos que faziam todos dormirem." (p.348)





"Vamos ao que interessa": Reunião do Clube de Leitura Icaraí debaterá "O amor de uma boa mulher" em 11 de Abril de 2014 - 19h00 - Livraria Icaraí.

(Antes da mudança)

"Hipócrita, eu disse. Maricas. Professor de filosofia.

Mas não acabou aí porque nos reconciliamos. Sem nos perdoarmos. E não tomamos nenhuma providência. Ficou tarde demais, vimos que cada um de nós tinha investido demais em ter razão. Veio a separação, foi um alívio. Sim, naquele momento tenho certeza de que foi um alívio para nós dois, e uma espécie de vitória." (p. 312)






"'Ei, já tem cabelinho em volta dela?'

Quase perguntei: 'Em volta de quê?' Não me senti assustada ou humilhada, e sim aturdida. Que um adulto com encargos sérios pudesse se interessar pela germinação rala que me dava muita coceira no meio das pernas. Pudesse se dar ao trabalho de se sentir enojado com isso, como sua voz sem dúvida indicava."  (p. 290)





(As crianças ficam - Leia o conto)

"E aí sua mãe fugiu com Orfeu" (p. 237) - Porque cada um tem seu próprio inferno, o qual a ninguém mais é dado conceber. 

* * *

(Salve o ceifador)

Há pessoas que levam a decência e o otimismo sempre come elas, que dão a impressão de limpar a atmosfera nos lugares em que estão. A elas não se devem dizer certas coisas, é muito perturbador. Apesar de sua simpatia naquele momento, Ian parecia a Eve uma dessas pessoas, e Sophie era alguém que dava graças a Deus por tê-lo encontrado. Antes, eram as pessoas idosas que demandavam esse tipo de proteção, mas parecia que cada vez mais era o caso dos jovens, e alguém como Eve tinha que tentar não revelar como estava em situação difícil: toda sua vida podia ser vista como uma forma inapropriada de se debater, um erro radical. (p. 200)


Richard Bergh - After the sitting

* * *

(A ilha de Cortes)

"Ela é uma falsa, você sabe. Bastou olhar para ela e vi que era uma falsa. E mentirosa. Não é boa da cabeça. Ficava lá sentada e dizia que estava escrevendo cartas, mas escrevia as mesmas coisas uma porção de vezes. E não eram cartas, eram as mesmas coisas várias vezes. Tem um parafuso a menos."  (p. 160)






 (Jakarta)

As relações sexuais que Kath tinha com Kent eram ardorosas e bastante enérgicas, embora ao mesmo tempo reticentes. Um não havia seduzido o outro, tinham como que escorregado na intimidade, ou no que achavam que era a intimidade, por acaso, e nisso ficaram. Se é para ter um único parceiro na vida, nada precisa se tornar especial - já é especial. Haviam se vistos nus, mas nessas horas só por acidente tinham olhado um nos olhos do outro.


"Um Prêmio Nobel indiscutível" (Alfredo Monte)

(O amor de uma boa mulher)

'"Mentiras" é a palavra que Enid escuta agora entre todas que a sra. Quinn pronunciou naquele cômodo. Mentiras. Aposto que é tudo mentira.  

Seria possível alguém inventar alguma coisa tão pormenorizada e diabólica? A resposta é sim. A mente de um enfermo, de um moribundo, podia ficar repleta de coisas sujas e organizá-las de forma muito convincente. A mente da própria Enid, quando ela dormia naquele aposento, se enchera das invenções mais nojentas, de sujeira pura. Mentiras dessa natureza podiam estar à espreita nos cantos da mente de qualquer um, penduradas como morcegos, prontas para se aproveitarem de um momento de escuridão. É impossível afirmar: "Ninguém seria capaz de inventar isso". Basta ver como os sonhos são complexos, contendo camadas e mais camadas, de tal modo que aquilo que a gente se recorda e pode exprimir em palavras constitui apenas o pouquinho que se consegue raspar do topo. 

Quando tinha quatro ou cinco anos, Enid disse à sua mãe que havia ido ao escritório do pai e o vira sentado atrás da escrivaninha com uma mulher no colo. Tudo de que ela se lembrava daquela mulher, tanto na época quanto agora, se resumia ao fato de que ela usava um chapéu com muitas flores e um véu (algo bem fora de moda mesmo então), além de que a parte de cima do vestido ou da blusa estava desabotoada e um seio nu se projetava para fora, com o bico desaparecendo na boca do seu pai. Contara isso à mãe com a absoluta certeza de que havia visto a cena, dizendo a ela: “Uma frente dela estava enfiada na boca do papai”. Não conhecia a palavra que designava seios, embora soubesse que vinham em pares.

    Sua mãe disse: “Vamos, Enid. Do que você está falando? O que é essa tal de frente?” 

   “Igual a uma casquinha de sorvete”, respondeu Enid.

    Foi desse jeito que ela viu, exatamente. Ainda podia ver desse jeito. O cone cor de biscoito com sua porção de sorvete de baunilha apertada contra o tórax da mulher, a outra ponta espetada na boca do pai.

    Sua mãe fez então algo muito inesperado. Abriu o vestido e pôs para fora um objeto esmaecido, que sacudiu com a mão. “Como isso aqui?”

    Enid disse que não. “Uma casquinha de sorvete”.

   “Então foi um sonho”, disse sua mãe. "Os sonhos, às vezes, são muito bobos. Não conte nada para seu pai. É tolo demais."

Enid não acreditou logo na sua mãe, mas passado mais ou menos um ano entendeu que tal explicação deveria ser correta porque as casquinhas de sorvete nunca assumiram aquela posição no tórax das mulheres e nunca se mostraram tão compridas. Mais tarde ainda se deu conta de que devia ter visto o chapéu em algum quadro.

Mentiras. '




"Em 'O amor de uma boa mulher', Alice Munro oferece ao leitor mais uma fornada de seus contos de fôlego, marcados pela destreza dos planos cinematográficos e pelo olhar duplo, ao mesmo tempo panorâmico e intimista. A canadense fez das pequenas cidades espalhadas pelo condado de Huron o território privilegiado de sua ficção e detecta nas franjas do meio rural aqueles indivíduos de algum modo deslocados da norma. A velhice, a doença, o transtorno mental ou a simples diferença com relação à maioria pontuam os textos. Em Munro, há uma intuição de que a condição feminina se conecta por vários caminhos com a marginalidade. Uma personagem do conto 'Jacarta' sobrevive dando aulas de ballet depois que o marido jornalista supostamente morre num país distante; a protagonista de 'Ilha de Cortes' deseja ser escritora, mas fracassa; Pauline, a jovem mãe de 'As crianças ficam', tem uma aparência peculiar que a faz ser convidada para interpretar o papel de Eurídice numa montagem teatral amadora, experiência que irá transformar a sua vida. Retrocedendo da atualidade à década de 1950, as narrativas flagram um período em que, para as mulheres, o trabalho muitas vezes servia apenas como um intervalo entre o casamento e a chegada do primeiro filho. Na verdade, tratava-se de um hiato particularmente propício ao desconforto, pois aqueles foram os anos que precederam a Revolução Sexual. A posição gauche dessas mulheres as aproxima de zonas mentais obscuras, colocando-as em xeque diante da vida social. É como se a precisão do roteiro traçado para os homens se opusessem à precariedade e à deriva dos destinos femininos." (Google books)