CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

29 de abril de 2016

O homem que amava os cachorros: Leonardo Padura





Uma pedra jamais o será simplesmente
enquanto a boca sedenta do eterno
ungir com seu beijo a superfície da esperança.
O gosto do calcáreo-mármore-granito
toca o fluido-semente
troca o símbolo da vida
líquido e sólido
atmosfera em simbiose.

(Rita Magnago)




"...É então que o aparecimento de uma árvore, o perfil de uma montanha, a corrente gelada de um rio ou uma simples rocha no meio da estepe se transmutam em algo de tal forma notável que se tornam objeto de veneração. Os nativos daqueles desertos longínquos glorificavam as pedras porque asseguravam que na sua capacidade de resistência se expressava  uma força, presa para sempre em seu interior, que era fruto de uma vontade eterna".  

Que busquemos em nosso interior o belo e a paz da natureza e a força e resistência da pedra. Transcrevo, a seguir, uma estrofe do meu poema Fraternidade:

                                                 Se a tua alma se enternece
                                                com o céu, a pedra e o mar,
                                                as flores e os passarinhos,
                                                pois, pertencendo ao universo
                                               tu os abraças como irmãos:
                                               Isto é Fraternidade.

(Elenir)

* * *


Embora tenha tentado evitar, e tenha me agitado e negado, enquanto lia fui sentindo como era invadido pela compaixão. Mas só por Iván, só pelo meu amigo, porque ele sim a merece e muita: merece-a como todas as vítimas, como todas as trágicas criaturas cujo destino é dirigido por forças superiores que as ultrapassam e as manipulam até as transformarem em merda. Essa foi a nossa sina coletiva, e que Trotski vá para a puta que o pariu se, com seu fanatismo de obcecado e seu complexo de ser histórico, não acreditava que existissem as tragédias pessoais, mas apenas as mudanças de etapas sociais e supra-humanas. E as pessoas? Algum deles pensou alguma vez nas pessoas? Perguntaram-me, perguntaram a Iván, se concordávamos em adiar sonhos, vida e todo o resto até que se evaporassem (sonhos, vida e o raio que o parta) no cansaço histórico e na utopia pervertida?


A atriz espanhola teria visitado o assassino na prisão no México



– Se sou uma comunista defeituosa, Ramón, é por tudo isso – continuou Caridad, depois de servir um terceiro copo ao filho e de, ela própria, beber um quarto (quinto, sexto?). – Meu ódio nunca me permitirá trabalhar para construir a nova sociedade. Mas é a melhor arma para destruir esta outra sociedade, e por isso os transformei, a todos vocês, meus filhos, naquilo que são: os filhos do ódio. Amanhã, depois de amanhã, dentro de dois dias, quando estiver diante do homem que tem de matar, lembre-se de que ele é meu inimigo e também seu. De que tudo o que diz sobre a igualdade e o proletariado é pura mentira e de que a única coisa que ele quer é o poder. O poder para degradar as pessoas, para dominá-las, para fazer com que rastejem e sintam medo, para meter no cu delas, que é como mais gozam os donos do poder. E, quando você estourar a cabeça daquele filho da puta, pense que o seu braço é também o meu: estarei lá, te apoiando, e somos fortes porque o ódio é invencível. Beba esse copo, porra! Agarre o mundo pelos colhões e ponha-o de joelhos. E meta isto na cabeça: não tenha piedade, porque ninguém a terá de você. Nunca. E, quando estiver fodido, não aceite compaixão. Ninguém precisa se compadecer de você! Você é mais forte, você é invencível, você é meu filho, collons !


La societé c'est moi!

"Embora ainda não tivesse começado a acompanhar Ana à igreja, Dany, Frank e os outros poucos amigos que via diziam que eu parecia estar trabalhando para minha candidatura à beatificação e minha ascensão incorpórea aos céus. A verdade era que, lendo e escrevendo sobre como a maior utopia que alguma vez os homens tiveram ao alcance da mão fora pervertida, mergulhando nas catacumbas de uma história que mais parecia um castigo divino que obra de homens ébrios de poder, de ânsias de controle e de pretensões de transcendência histórica, tinha aprendido que a verdadeira grandeza humana está na prática da bondade incondicional, na capacidade de dar aos que nada têm não o que nos sobra, mas uma parte do pouco que temos. Dar até doer, e não fazer política nem pretender prerrogativas com essa ação, muito menos praticar a enganosa filosofia de obrigar os outros a aceitar nossos conceitos do bem e da verdade por (acreditarmos) serem os únicos possíveis e por, além disso, deverem estar agradecidos pelo que lhes demos, mesmo que não o tivessem pedido. E, embora soubesse que a minha cosmogonia era de todo impraticável (e que merda fazemos com a economia, com o dinheiro, com a propriedade, para que tudo isso funcione? e que porra fazemos com os espíritos predestinados e com os filhos da puta de nascença?), satisfazia-me pensar que talvez um dia o ser humano pudesse cultivar essa filosofia, que me parecia tão elementar, sem sofrer as dores de um parto ou os traumas da obrigatoriedade, por pura e livre escolha, por necessidade ética de ser solidário e democrático. Masturbações mentais minhas…" (p. 419)


Túmulo de Trotsky no México


“É terrível verificar que um sistema nascido para resgatar a dignidade humana tenha recorrido à recompensa, à glorificação, ao estímulo da denúncia, e que se apoie em tudo o que é humanamente vil. A náusea sobe-me pela garganta quando ouço as pessoas dizerem: fuzilaram M., fuzilaram P., fuzilaram, fuzilaram, fuzilaram. As palavras, de tanto as ouvirmos, perdem seu sentido. As pessoas repetem-nas com a maior tranquilidade, como se estivessem dizendo: vamos ao teatro. Eu, que vivi esses anos no medo e senti a compulsão de denunciar (confesso com pavor, mas sem sentimento de culpa), deixei de sentir na minha mente a brutalidade semântica do verbo fuzilar… Sinto que chegamos ao fim da justiça na Terra, ao limite da indignidade humana. Que morreram demasiadas pessoas em nome daquela que, prometeram-nos, seria uma sociedade melhor”…





Só a inocência absoluta pode salvar e, mesmo assim, muitos inocentes são capazes de confessar que mataram Cristo para que os deixem em paz e os matem o mais depressa possível. (p. 254)


Fonte: Época

"Nada mais próximo da moral comunista do que os preceitos católicos" (p. 93)

Olha, tem uma coisa muito importante que me ensinaram...: o homem é irrelevante, substituível. O indivíduo não é uma unidade excepcional, mas um conceito que se soma e forma a massa, esta sim real. Mas o homem enquanto indivíduo não é sagrado e, portanto, prescindível. Por isso arremetemos contra todas as religiões, especialmente o Cristianismo, que diz essa tolice de o homem ter sido criado à semelhança de Deus. Isso nos permite ser ímpios, desfazer-nos da compaixão que gera a piedade: o pecado não existe. Sabe o que isso significa?... É tudo a mesma merda, é nada. Nomina odiosa sunt. Importa o sonho, não o homem... (p.298)




"Ninguém escolhe o tempo de viver, morrer ou matar" (Pavel Sudoplatov)



Sant Feliu Guíxols


Oración al Glorioso San Luis Beltrán

Criatura de Dios, yo té curo, ensalmo y bendigo en nombre de la Santísima Trinidad Padre, Hijo y Espíritu Santo, tres personas y una esencia verdadera; y de la Virgen María, Nuestra Señora concebida sin mancha de pecado original, Virgen antes del parto, en el parto y después del parto y por la gloriosa Santa Gertrudis, tu querida y regalada esposa, once mil vírgenes, Señor San José, San Roque y San Sebastián y por todos los Santos y Santas de tu Corte Celestial; por tu gloriosísima Encarnación, gloriosísimo Nacimiento, Santísima Pasión, gloriosísima Resurrección, Ascensión; por tan altos y Santísimos meritos que creo y con verdad; suplico a tu Divina Majestad poniendo por intercesora a tu Santísima Madre y abogada nuestra, libres, sanes a esta criatura de esta enfermedad. Amén, Jesús. No mirando a la indigna persona que refiere tan sacrosantos misterios con tan buena fé, te suplico, Señor, para más honra tuya, y devoción de los presentes, te sirvas por tu piedad y misericordia de sanar y librar de esta herida, llaga o dolor, humor, enfermedad. Y no permita tu Divina Majestad, le sobrevenga accidente, corrupción ni daño, dándole salud para que con ella te sirva y cumpla tu santísima voluntad. Amén, Jesús. Yo te curo y ensalmo y jesuscristo Nuestro Señor Redentor te sane; bendiga y haga en todo su divina voluntad. Amén. (Esta oración se hace contra todo tipo enfermedades)


Ramón é um homem de outra época, de um tempo muito fodido, quando nem sequer a dúvida era permitida... pertenceu a uma geração de crédulos por obrigação. 

Karl Marx




Leia aqui "O homem que amava os cachorros" de Leonardo Padura!


28 de abril de 2016

Contra o Fanatismo: Amós Oz



O fanatismo é mais antigo que o Islã, mais velho que o Cristianismo, que o Judaísmo, que qualquer estado, governo ou sistema político, que qualquer ideologia ou fé no mundo. O fanatismo é, infelizmente, um componente onipresente da natureza humana, um gene do mal (…) O fanatismo é, com frequência, intimamente relacionado a uma atmosfera de desespero profundo. Num lugar em que as pessoas sintam que não há nada além de derrota, humilhação e indignidade, podem recorrer a várias formas de violência desesperada.” (…) ”O fanatismo está em quase todos os lugares, e suas formas mais silenciosas, mais civilizadas, estão presentes em nosso entorno, e talvez dentro de nós também. Conheço bem os antitabagistas que o queimarão vivo, se você acender um cigarro perto deles! Conheço bem os vegetarianos que o comerão vivo por comer carne! Conheço bem os pacifistas dispostos a atirar na minha cabeça só porque advogo uma estratégia ligeiramente diferente sobre como fazer a paz com os palestinos. (…) A semente do fanatismo brota ao se adotar uma atitude de superioridade moral que não busca o compromisso.


24 de abril de 2016

Trópico de Câncer: Henry Miller



CLIc na foto do escritor ao lado para ler a crítica feita por  W.B., que foi quem indicou a leitura de "Trópico de Câncer" para debate no Clube de Leitura Icaraí. 






"Não sei vocês, mas gosto muito de ler um livro que eu saiba que outras pessoas estão lendo ao mesmo tempo para ouvir diferentes interpretações. Essa troca é interessante!"

Leia a sinopse do livro segundo Andreia Borges visitando seu blog  e conheça também seu mar de variedade no Facebook.




Trópico de Câncer, romance do americano Henry Miller, foi o tema de debate no Clube de Leitura Icaraí no dia dos namorados. Polêmico, o livro só foi lançado no país de origem do autor 30 anos depois de ser editado. O evento aconteceu na sexta-feira, dia 12, às 19h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9, em Niterói), com entrada gratuita.



Considerado como uma grande influência para o movimento beatnik, o livro tem características autobiográficas e narra a boemia da cena parisiense do começo do século. Miller havia emigrado para a França na década de 1920 e suas experiências como estrangeiro servem de inspiração para o livro. Trópico de Câncer mostra uma cidade multifacetada, com seus lugares da boemia, da arte e da prostituição. No meio de grandes intelectuais e artistas, encontram-se também figuras decadentes e ambientes lúgubres e cruéis. Miller revela uma Paris menos romântica, da miséria e da prostituição, mas que ainda assim encanta e vicia os visitantes.



"Como tantos escritores que emigraram para a Paris dos anos 1920-30, o norte-americano Henry Miller experimentou na capital francesa tudo o que há de bom e de ruim na condição de exilado voluntário: o desenraizamento, a liberdade, o desespero, a vida anárquica e boêmia, a falta de dinheiro.

Narrado em primeira pessoa, Trópico de Câncer é o resultado literário dessa experiência, um confronto direto entre o vigoroso individualismo de Miller e o mundo caótico e ameaçador do entreguerras.

Sem obedecer a uma sequência linear, o romance se estende pelos bulevares da cidade, entra em suas pensões baratas, se embebeda nos cafés ordinários, convive com uma multidão de artistas e intelectuais igualmente desenraizados e sem dinheiro, dorme com prostitutas e mulheres solitárias. O ritmo é do relato rápido, ansioso, de quem quer chegar à medula das coisas.

Tendo sido acusado de pornográfico e obsceno quando foi lançado, o livro de Henry Miller pode, hoje, ser lido, sem as lentes do preconceito, como um dos mais intensos testemunhos literários de uma geração que mergulhou de cabeça na vertigem do século XX."




'Trópico de Câncer', publicado no ano de 1934, em Paris, foi imediatamente proibido em todos os países de língua inglesa. Tachado como pornográfico, o livro, assim como seu sucessor Trópico de Capricórnio, só foi liberado nos Estados Unidos e na Inglaterra nos anos 60, aclamado como parte da revolução sexual. Polêmicas à parte, Trópico de Câncer foi celebrado pelos maiores intelectuais da época e se tornou um dos grandes clássicos da literatura americana.

Samuel Beckett o saudou como 'um evento monumental da história da escrita moderna'; George Orwell, mesmo não compartilhando dos valores morais de Miller, após a leitura de Trópico de Câncer reconheceu o autor como 'o único escritor de prosa com algum valor que apareceu entre as raças anglofônicas em algum tempo'. Outros nomes como T. S. Eliot, Ezra Pound e Lawrence Durrell também notaram rapidamente o talento de Miller.

O livro traz um relato autobiográfico e idiossincrático de Miller, que chega a Paris após abandonar nos EUA um casamento arruinado e uma carreira estagnada. Mesmo sem um centavo no bolso, Henry Miller é apresentado à boemia francesa e redescobre seu próprio talento em dias e noites de liberdade e alegria sem fim.



Nunca também em minha vida havia trabalhado sem pagamento. Senti-me livre e acorrentado ao mesmo tempo - como a gente se sente imediatamente antes da eleição, quando todos os crápulas já foram indicados como candidatos e nos apelam para que votemos no homem certo. Senti-me como um homem assalariado, como um pau para toda obra, como um caçador, como um pirata, como um escravo de galé, como um pedagogo, como um verme e um piolho. Era livre, porém meus membros estavam acorrentados. Uma alma democrática, com um vale para refeição grátis, mas sem poder de locomoção, sem voz. 





"Quando olho para dentro dessa boceta fodida de puta sinto o mundo inteiro embaixo de mim, um mundo vacilante e desmoronante, um mundo gasto e polido como um crânio de leproso. Se houvesse um homem que ousasse dizer tudo quanto pensa deste mundo, não lhe restaria um palmo quadrado de terra onde ficar. Quando um homem aparece, o mundo cai sobre ele e quebra-lhe a espinha. Restam sempre em pé pilares apodrecidos demais, humanidade supurada demais para que o homem possa florescer. A superestrutura é uma mentira e o alicerce é um medo enorme e trêmulo. Se com intervalos de séculos aparece um homem de olhar desesperado e faminto, um homem que vira o mundo de cabeça para baixo a fim de criar uma nova raça, o amor que ele traz ao mundo é transformado em fel e ele se torna um flagelo."




Fazia frio borrascoso e úmido contra o qual não havia proteção a não ser um espírito forte. Dizem que a América é um país de extremos, e é verdade, que o termômetro registra graus de frio praticamente desconhecidos aqui; mas o frio do inverno de Paris é um frio desconhecido na América, é um frio psicológico, um frio tanto interior como exterior. Se nunca há gelo aqui, também nunca há degelo. Assim como se protegem contra a invasão de sua vida privada, com seus altos muros, seus ferrolhos e venezianas, suas "concierges" resmungonas, xingadoras e desleixadas, as pessoas também aprenderam a proteger-se contra o frio e o calor de um clima estimulante e vigoroso. Fortificaram-se. Proteção é a palavra-chave. Proteção e segurança. Para poderem apodrecer confortavelmente. Em uma noite úmida de inverno não é necessário olhar um mapa para descobrir a latitude de Paris. É uma cidade do norte, posto avançado construído sobre um pântano cheio de crânios e ossos. Ao longo dos bulevares há uma fria imitação elétrica de calor. Tout Vá Bien em raios ultravioletas que fazem os fregueses dos cafés Dupont parecerem cadáveres gangrenados. Tout Vá Bien!

Esse é o lema que alimenta os desconsolados mendigos que andam para cima e para baixo a noite inteira sob o chuvisco dos raios ultravioletas. Onde há luz há um pouco de calor. A gente esquenta-se olhando os bastardos gordos e seguros que engolem seus grogues, seus cafés pretos fervendo. Onde há luz há gente nas calçadas, acotovelando-se, emitindo um pouco de calor animal através de sua roupa de baixo suja e de seu hálito fétido e praguejante.




Menciono Tânia agora porque ela acaba de voltar da Rússia - havia poucos dias. Sylvester ficou lá para ver se arranjava um emprego. Abandonou completamente a literatura. Dedicou-se à nova Utopia. Tânia quer que eu volte para lá com ela, para a Criméia preferivelmente, e comece vida nova. Tomamos bela bebedeira outro dia no quarto de Carl, discutindo as possibilidades. Eu queria saber o que poderia fazer para ganhar a vida lá - se poderia ser revisor, por exemplo. Ela disse que não precisava preocupar-me com o que iria fazer - eles me arranjariam um emprego desde que eu fosse sério e sincero. Tentei parecer sério, mas apenas consegui parecer patético. Eles não querem ver caras tristes, na Rússia; querem que você seja alegre, entusiástico, sereno, otimista. Para mim pareceu muito semelhante à América. Não nasci com essa espécie de entusiasmo.

The Music Lesson Matisse
henri matisse

Em todo poema de Matisse há a história de uma partícula de carne humana que rejeitou a consumação da morte. Toda a extensão de carne, dos cabelos às unhas, expressa o milagre da respiração, como se o olho interior, em sua sede de maior realidade, tivesse transformado os poros da carne em famintas bocas videntes. Por qualquer visão que se passe há o cheiro e o barulho de viagem. É impossível fitar mesmo um canto de seus sonhos sem sentir a elevação da onda e o frio dos borrifos no ar. Ele se mantém no leme perscrutando com firmes olhos azuis a pasta do tempo. Em que cantos distantes não lançou seu longo e enviesado olhar? Olhando do vasto promontório do seu nariz para baixo, contemplou tudo - as Cordilheiras caindo no Pacífico, a história da diáspora escrita em papel velino, venezianas estriando o frufru da praia, o piano curvando-se como uma concha, corolas emitindo diapasões de luz, camaleões serpeando embaixo da prensa de livros, serralhos extinguindo-se em oceanos de poeira, música saindo como fogo da cromosfera oculta da dor, espórios e madréporas frutificando a terra, umbigos vomitando sua brilhante semente de angústia... Ele é um sábio brilhante, um vidente dançarino que, com um golpe do pincel, remove o feio patíbulo a que o corpo do homem está acorrentado pelos fatos incontroversos da vida. É ele quem, se algum homem hoje possui esse dom, sabe onde dissolver a figura humana, tem a coragem de sacrificar a linha harmoniosa a fim de captar o ritmo e o murmúrio do sangue, toma a luz que se refratou em seu interior, e deixa-a inundar o teclado de cor. Por trás das minúcias, do caos, da irrisão da vida ele percebe o padrão invisível; anuncia suas descobertas no pigmento metafísico do espaço. Nenhuma procura de fórmulas, nenhuma crucifixão de idéias, nenhuma compulsão a não ser a de criar. Mesmo quando o mundo se desmorona existe um homem que permanece no centro, que se torna mais solidamente fixado e ancorado, mais centrífugo à medida que se acelera o processo de dissolução.


Henri Matisse, The Dance I, 1909, Museum of Modern Art, New York

É somente mais tarde, durante o dia, quando me encontro numa galeria de arte na Rue de Sèze, cercado pelos homens e mulheres de Matisse, que sou novamente arrastado de volta para os limites apropriados do mundo humano. No limiar daquele grande salão cujas paredes estão agora em chamas, paro por um momento para recuperarme do choque que se experimenta quando o habitual cinzento do mundo é rasgado e a cor da vida salta para a frente em canto e poema. Encontro-me em um mundo tão natural, tão completo, que fico perdido. Tenho a sensação de estar mergulhado no próprio plexo da vida, no ponto focal seja qual for o lugar, posição ou atitude em que me coloque. Perdido como quando me afundei no centro de um bosque em formação e, sentado na sala de jantar daquele enorme mundo de Balbec, compreendi pela primeira vez a profunda significação daquelas quietudes interiores que manifestam sua presença através do exorcismo da vista e do tato. Em pé no limiar do mundo que Matisse criou, voltei a experimentar a força da revelação que permitiu a Proust deformar tanto o quadro da vida, que somente aqueles que, como ele próprio, são sensíveis à alquimia do som e do sentido, são capazes de transformar a realidade negativa da vida nos contornos substanciais e significativos da arte. Só os que são capazes de admitir a luz em suas entranhas podem traduzir o que há no coração.




Alguém já fez isso antes?... Por que diabo está sorrindo? Parece ingenuidade?" Estou sorrindo porque sempre que ele toca na questão desse livro que vai escrever um dia, as coisas assumem aspecto incongruente. Basta dizer "meu livro" e imediatamente o mundo se reduz às dimensões privadas de Van Norden e Cia. O livro precisa ser absolutamente original, absolutamente perfeito. Por isso, entre outras coisas, torna-se-lhe impossível começar a escrevê-lo. Logo que tem uma ideia começa a pô-la em dúvida. Lembra-se de que Dostoiévski a utilizou, ou Hamsun ou algum outro. "Não estou dizendo que quero ser melhor do que eles, mas quero ser diferente", explica. E assim, ao invés de cuidar de seu livro, lê escritor após escritor a fim de ter absoluta certeza de que não vai invadir a propriedade privada deles. E quanto mais lê, mais desdenhoso se torna. Nenhum deles é satisfatório; nenhum chegou àquele grau de perfeição que ele impôs a si próprio. E esquecendo completamente que não escreveu sequer um capítulo, fala a respeito deles com condescendência, como se existisse uma estante de livros exibindo seu nome, livros com que todos estão familiarizados e cujos títulos é portanto supérfluo mencionar. Embora nunca tenha mentido abertamente sobre esse fato, é evidente que as pessoas com quem conversa a fim de arejar sua filosofia privada, suas críticas e suas queixas têm como certo que por trás de suas observações imprecisas ergue-se um sólido conjunto de obras. Especialmente as virgens jovens e tolas que atrai a seu quarto com o pretexto de ler-lhes seus poemas, ou o pretexto ainda melhor de pedir-lhes conselhos. Sem o menor sentimento de culpa ou constrangimento entrega-lhes um pedaço de papel sujo no qual rabiscou algumas linhas - a base de um novo poema, como diz - e com absoluta seriedade pede-lhes sincera opinião. Como em geral elas nada têm a apresentar a título de comentário, absolutamente desnorteadas pela completa falta de sentido das linhas, Van Norden aproveita a ocasião para expor-lhes sua opinião sobre a arte, opinião, é desnecessário dizer, criada espontaneamente para adaptar-se à circunstância.


Rodin - Antes da Criação

E quanto mais substancial, quanto mais sólido se tornava o meu núcleo, mais delicada e extravagante parecia a realidade próxima e palpável para fora da qual eu estava sendo espremido. Na mesma proporção em que me tornava cada vez mais metálico, a cena diante de meus olhos tornava-se inflada. 

O estado de tensão era tão finamente traçado agora, que a introdução de uma única partícula estranha, até mesmo uma partícula microscópica, como disse, teria destroçado tudo. Por uma fração de segundo experimentei talvez aquela completa clareza que, segundo afirmam, é dado ao epiléptico conhecer. Naquele momento, perdi completamente a ilusão de tempo e espaço: o mundo desdobrou seu drama simultaneamente ao longo de um meridiano que não tinha eixo. Nessa espécie de eternidade de fácil disparo senti que tudo era justificado, supremamente justificado; senti as guerras que haviam deixado dentro de mim esta polpa e esta ruína; senti os crimes que lá estavam fervendo para emergir amanhã em gritantes manchetes; senti a miséria que se estava moendo com pilão e almofariz, a longa e monótona miséria que escorre em lenços sujos. No meridiano do tempo não há injustiça: há apenas a poesia do movimento criando a ilusão de verdade e drama. Se a qualquer momento e em qualquer lugar encararmos frente a frente o absoluto, desaparece aquela grande simpatia que fez homens como Gautama e Jesus parecerem divinos; o monstruoso não é que homens tenham criado rosas com este monte de esterco, mas que, por uma ou outra razão, tenham desejado rosas. Por uma ou outra razão o homem procura o milagre e, para realizá-lo, chafurda no sangue. 

Corrompe-se com idéias, reduz-se a uma sombra, se por um único segundo de sua vida pode fechar os olhos à hediondez da realidade. Tudo se suporta, desgraça, humilhação, pobreza, guerra, crime, ennui - na crença de que, da noite para o dia, algo acontecerá, um milagre, que tornará a vida tolerável. E durante todo o tempo um medidor está correndo lá dentro e não há mão que possa alcançá-lo lá e fazê-lo parar. Durante todo o tempo alguém está comendo o pão da vida e bebendo o vinho, algum padre sujo e gordo como uma barata que se esconde na adega para emborcá-lo, enquanto lá em cima, na luz da rua, uma hóstia fantástica toca os lábios, e o sangue é pálido como a água. E do interminável tormento e miséria nenhum milagre surge, nenhum vestígio microscópico sequer de alívio. Só idéias, pálidas, e atenuadas idéias que precisam ser engordadas por carnificina; idéias que saem como bílis, como as entranhas de um porco quando se abre a carcaça. 

E assim penso que milagre não seria se este milagre que o homem espera eternamente, nada mais viesse a ser do que aqueles dois enormes troços que o fiel discípulo lançou no bidê. Se no último momento, quando a mesa do banquete estiver arrumada e os címbalos soarem, aparecer de repente e absolutamente sem aviso, uma salva de prata na qual até mesmo os cegos possam ver que há nada mais nada menos que dois enormes montes de bosta. Isso, creio eu, seria mais milagroso do que tudo quanto o homem tem esperado. Seria milagroso porque seria o não sonhado. Seria mais milagroso do que o sonho mais louco porque qualquer um podia imaginar a possibilidade, mas ninguém jamais a imaginou, e provavelmente ninguém jamais a imaginará. 

Por uma razão qualquer, a compreensão de que nada havia a esperar teve salutar efeito sobre mim. Durante semanas e meses, durante, na realidade, toda minha vida, eu vinha esperando que acontecesse algo, algum fato extrínseco que alterasse minha vida; e agora, de repente, inspirado pela absoluta desesperança de tudo, sentia-me aliviado, sentia como se tivessem arrancado um grande peso de meus ombros. Ao amanhecer, separei-me do jovem hindu, depois de lhe ter tomado alguns francos, o suficiente para um quarto. Caminhando em direção a Montparnasse, decidi deixar-me arrastar pela maré, não opor a menor resistência ao destino, fosse qual fosse a forma sob a qual se apresentasse. Nada do que me acontecera até então fora suficiente para destruir-me; nada fora destruído, exceto minhas ilusões. Eu mesmo estava intacto. 

O mundo estava intacto. Amanhã talvez houvesse uma revolução, uma epidemia, um terremoto; amanhã talvez não restasse uma única alma a quem se pudesse recorrer para obter simpatia, auxílio, fé. Pareceu-me que a grande calamidade já se manifestara, que eu não poderia ficar mais verdadeiramente sozinho do que naquele próprio momento. 

Decidi que não me apegaria a nada, que não esperaria nada, que a partir de então viveria como um animal, como uma fera carnívora, um nômade, um rapinante. Mesmo que declarassem a guerra e fosse meu destino partir, eu agarraria a baioneta e a enterraria, a enterraria até o punho. E se o estupro for a ordem do dia, então estuprarei, e com uma vingança. Nesse próprio momento, no quieto alvorecer de um novo dia, não estava a terra tonta com crime e miséria? 

Algum único elemento da natureza do homem teria sido alterado, vitalmente, fundamentalmente alterado, pela incessante marcha da história? Pelo que ele chama de melhor parte de sua natureza, o homem foi traído, só isso. Nos extremos limites de seu ser espiritual o homem se encontra de novo nu como um selvagem. Quando encontra Deus, por assim dizer, ele está bem arrumado: é um esqueleto. A gente precisa afundar-se de novo na vida a fim de ganhar carne. O verbo precisa fazer-se carne; a alma tem sede. Qualquer migalha em que meus olhos pousem, agarrarei e devorarei. Se viver é a coisa suprema, então viverei, mesmo que precise tornar-me canibal. Até agora eu vinha tentando salvar meu precioso couro, preservar os poucos pedaços de carne que escondem meus ossos. Estou cheio disso. Atingi os limites da resistência. Minhas costas estão contra a parede; não posso recuar mais. No que tange à história, estou morto. Se existe algo além terei de saltar para trás. Encontrei Deus, mas ele é insuficiente. Só espiritualmente é que estou morto. Fisicamente estou vivo. Moralmente estou livre. O mundo que abandonei é uma jaula. A aurora está nascendo sobre um mundo novo, um mundo de selva no qual os espíritos descarnados rondam com garras afiadas. Se sou uma hiena, sou uma hiena descarnada e faminta: avanço para engordar-me.  


Trópico de Câncer exprime a angústia duma consciência torturada pela visão alucinatória de catástrofes imensas. 
(Fluchère)






Exercem um efeito terapêutico maravilhoso sobre mim essas catástrofes cuja revisão faço. Imaginem um estado de perfeita imunidade, uma existência encantada, uma vida de absoluta segurança no meio de bacilos venenosos. Nada me toca, nem terremotos, nem explosões, nem distúrbios, nem fome, nem colisões, nem guerras, nem revoluções.

Estou vacinado contra toda doença, toda calamidade, toda tristeza e miséria. É a culminância de uma vida de fortaleza. Sentado em meu pequeno nicho, todos os venenos que o mundo solta diariamente passam por minhas mãos. Nem sequer a unha de um dedo fica manchada. Estou absolutamente imunizado. Estou melhor do que um assistente de laboratório, porque aqui não há maus cheiros, apenas o do chumbo queimando. O mundo pode estourar - estarei aqui do mesmo jeito para pôr uma vírgula ou um ponto e vírgula. Talvez até mesmo ganhe um pequeno extraordinário, pois com um acontecimento como esse haverá fatalmente uma edição extra final. Quando o mundo estourar e a edição final for para a rotativa, os revisores reunirão quietamente todas as vírgulas, pontos e vírgulas, hífens, asteriscos, colchetes, parênteses, pontos finais, pontos de exclamação etc. e os porão em uma pequena caixa sobre a mesa do redator-chefe. Comme ça tout est réglé... 


Fora as lamentações!

Fora elegias e réquiens!


O sexo como caminho da salvação
Primeira edição proibida em UK & USA

"Sei, estou convencido no Senhor Jesus de que nenhuma coisa é impura em si mesma;
somente o é para quem a considera impura...
Feliz é aquele que não se condena a si mesmo no ato a que se decide...
Tudo o que não procede da convicção é pecado."

(Epístola de Paulo aos Romanos, XIV - 14; 22; 23)


22 de abril de 2016

Bartleby, que reunião! - as impressões de Rita Magnago




Bom dia, cliceanos,

Sobre a reunião de ontem (8/5/2015), atendendo a pedido de Norma, teço alguns comentários.

Um pequeno grande livro. A frase poderia ser um resumo do que representou a leitura do mês para mim. Muito rico e questionador, dando ensejo a múltiplas interpretações, que é uma das coisas que mais adoro no CLIc. Bartleby, personagem enigmático, impressionou a todos, assim como seu chefe. Na volta para casa, eu e Newton continuamos debatendo sobre o livro, e debatendo sobre o debate, tirando ainda novas e possíveis interpretações que ele também vai dividir com o grupo.

Bem, pinçando o que me lembro da reunião:

Katia - nos falou de uma experiência própria semelhante e identificou que o chefe do escriturário foi profundamente atingido pela honestidade e caráter de Bartleby, sugerindo que ele, chefe, que inclusive tinha um principal cliente meio que desonesto, também deveria sê-lo, daí  esse impacto, mais pelo respeito e até admiração do que por piedade de Bartleby.

Joana – também compartilhou uma experiência pessoal e enfatizou como o que não compreendemos mexe e desestrutura os que estão em volta, nossas tentativas de fazer o ‘estranho’ se enquadrar no sistema.

Rose P. – destacou a tristeza e melancolia do livro, coisa não usual para a literatura da época, ‘mais alegrinha’.

Newton – abordou sobre a inverossimilhança do escriturário, se isso teria realmente  importância ou se muito mais relevante não seria a que construções e questionamentos o personagem nos leva, destacando ainda o caráter vanguardista de Melville, nos contemplando com um escrita tão atual.

Benito – perguntou se não seríamos nós, leitores, o personagem principal, já que o narrador leva a questão não para o lado do escriturário, mas para o chefe, o que fazem as pessoas , como reagem a esse estranho desestruturador presente na humanidade. Analisou também que o escritor  já falava de uma subversão ao capitalismo, representada pelas atitudes do escriturário, que se recusava a trabalhar em um país onde o dinheiro e o trabalho eram as bases da sociedade americana. Citou as cartas extraviadas, enviadas a mortos e a correlação que elas poderiam ter com a situação do escriturário, metaforicamente.

Rita – indagou o que é isso de se viver em um mundo próprio, a tênue fronteira entre loucura e realidade. Todos nós não vivemos em uma realidade meio que só nossa? Destacou como uma só pessoa pode mudar tantas outras e o mundo ao seu redor, a potência latente no ser humano e ainda a influência do que pensam os outros sobre o que fazemos, o medo do julgamento alheio, questionando também a aparente generosidade do chefe, que se achava uma boa pessoa.

Tânia (nova participante) – destacou, entre outros pontos, a potência do não, e o impacto desta ‘negativa educada’, prefiro não.

Daniel – considerou Bartleby consciente e refratário, comparando-o, neste sentido, a Jesus Cristo, Marx, e outros que mantiveram sua opinião a despeito das consequências. Daniel nos deixou uma pergunta que poderá render muito: o que faríamos no lugar do chefe do Bartleby? Qual seria nossa reação?

Gracinda – provocada pelo concièrge, disse em tom de brincadeira que ficou impaciente com o chefe, que não tomava atitude diante da situação.

Dília – abordou o pré-existencialismo da obra, fez referências a Kafka, Camus, Sartre, mostrando como a obra de Melville estava muito na vanguarda do seu tempo. Além do viés filosófico, mostrou também o literário, lendo uma passagem considerada pelos críticos primorosa e perfeita. Quem lembrar a passagem, por favor transcreva. Era sobre a mudança no rosto do personagem que acontece ao longo do dia, em uma poética comparação com o nascer do sol, o sol a pino e seu poente.

Evandro, quero dizer que gostei muito de a reunião de ontem não ter tido bastão da fala. Apesar de reconhecer que o bastão ajuda a ordenar o debate, não sei se já atingimos a maturidade de escutar e respeitar o outro para também poder exigir a recíproca, mas o fato é que fluiu muito gostoso. Todos participaram, inclusive os que não citei em falas específicas (por incapacidade minha, ó memória) como Cícero, você mesmo, Elô, Beth, Cyana, Niza, a advogada nova que também prestigiou o encontro, enfim, me senti assim como no anarquismo que utopicamente vislumbro um dia para os países desenvolvidos. Houve muita interação entre as falas dos participantes, concordâncias e discordâncias e complementos e novas visões que se entrecruzavam praticamente todas as vezes que nós leitores nos expressávamos. Meio que uma produção conjunta, sei lá, foi diferente.
Agradecemos à Cristiana pela indicação e pelo e-mail com suas impressões sobre o livro, que foi  impresso pelo concièrge e lido logo no início da reunião por Kátia e Beth.

Last but not least, senti falta de muitos cliceanos (em ordem alfabética) : Angela Stieger , Antonio, Benites, Cris, Elenir, Ilnea, Inês, Maria Marlie, Norma, Vera ...

Desculpem o tamanhão das anotações, mas é ainda pequena comparada à riqueza da reunião. Poderia falar menos, mas eu prefiro não, rsrsrs.

Beijos e até o Trópico de Câncer,


19 de abril de 2016

Quando secar o rio da minha infância: Frei Tito










Em tempos de louvores a torturadores no Congresso Nacional durante votação do Impeachment da Presidenta, um poema de Frei Tito, torturado por Fleury, e depois exilado na França, onde escreveu este poema.  (Antonio)

18 de abril de 2016

As palavras


A eternidade e o desejo: Inês Pedrosa


Na amabilidade das palavras oculto o rumor de desolação que me treme na garganta - mas a cegueira conduziu-me a esse dom que eu não queria, de ver as vozes à transparência das palavras. Não tenho como me distrair: sou inteiramente vulnerável à brutalidade das vozes, aos sentimentos incontrolados que circulam nelas. mordendo como piranhas. Centro-me no sentido específico de cada palavra, tento anular a voz que ouço, transformá-la numa cortina de fundo — mas a palavra dança e decompõe-se,quebra-se em estilhaços de vidro que voam dentro do meu corpo-ouvido,ferindo-o, primeiro, e abrindo-o em chaga, depois, porque dentro do ouvido do que é o meu corpo agita-se uma corrida de criança atraída pelo brilho das coisas perigosas. Palavras estilhaçadas. Despalavradas. Os substantivos abstractos, nenhum sobrevive ao impacto. Amor. Teríamos que inventar uma palavra para cada espécie de amor e para cada amante e para cada instante da experiência física ou metafísica dessa exaltação sem fórmula. Amor, diz-me a vendedora de bugigangas na rua, e quer dizer compra-me qualquer coisa. Ou quer dizer tenho fome. Ou quer dizer ajuda-me. Ou deixa-me em paz. E eu agora sei sempre o que quer dizer— e sei que quase sempre não quer dizer nada. As palavras já nãome protegem, estão todas em cacos.





alarve: que ou quem é rústico, abrutado, grosseiro, ignorante.

"Escondidas no silêncio da biblioteca, mascaradas pela escura monotonia das capas, todas as palavras estavam lá, esperando que eu as decifrasse. Eu sonhava me enfurnar  naqueles corredores poeirentos
e nunca mais voltar".Simone de Beauvoir.



"Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco. Algumas, tão fortes como o javali. Não me julgo louco. Se o fosse, teria poder de encantá-las. Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida. Deixam-se enlaçar, tontas à carícia e súbito fogem e não há ameaça e nem há sevícia que as traga de novo ao centro da praça. 

Carlos Drummond de Andrade, in 'Poesia Completa'





"A palavra cotidiana, ao mergulhar nas águas da poesia, recupera-se, renova-se. E os leitores de poesia renovam-se com a palavra. Para deixar a palavra em forma, a poesia transforma, altera sentidos, reforça a sonoridade, brinca. Se os dicionários preservam os significados coletivos dos vocábulos, a poesia trabalha com o que há de único  e insubstituível em cada palavra. A palavra sai do reino dos catálogos e, na magia poética, refaz sua música".




Literatura & Educação - Gabriel Perissé

12 de abril de 2016

Da adesão ao Império à tragédia

Por Wagner Medeiros Junior



A adesão do Grão-Pará ao Império do Brasil ocorreu em 15 de agosto de 1823, quase um ano depois de D. Pedro I declarar a independência. Tudo aconteceu muito rápido! Cinco dias antes, desembarcou em terra um oficial brasileiro, sob a escolta de um grupo de fuzileiros navais, procurando o Palácio do Governo. Lá chegando, intimou a junta provisória pela adesão ao Brasil, sob a ameaça de bombardear a cidade de Belém.
Pressionada, a junta provisória se reuniria no dia seguinte com as principais lideranças portuguesas e paraenses. A assembléia dividiu-se em discussões calorosas, mas, por fim, os portugueses foram vencidos. O descontentamento com o radicalismo das Cortes em Portugal foi decisivo para a adesão do Grão-Pará ao Império do Brasil, pois os liberais aspiravam por mais liberdade política e econômica, refutando voltar à condição de colônia.
Após o juramento de fidelidade ao Império aportou em Belém o brigue de guerra Maranhão, de bandeira brasileira, sob o comando do capitão inglês John Pascoe Grenfell. Os portugueses ao perceberem que a “esquadra” brasileira se reduzia a essa única embarcação já não possuíam forças para esboçar qualquer reação. A frota lusa fora toda apreendida e as tropas em terra desagregadas com a prisão do comandante João Pereira Vilaça e de diversos oficiais fiéis a Portugal.
O primeiro governo provisório da província foi de curta duração. Os defensores da união com o Brasil agora clamavam por um governo sem a presença dos portugueses, mesmo daqueles que assentiram fidelidade a D. Pedro I. Então, pela força, os lusitanos foram destituídos e o cônego Batista Campos elevado ao comando do governo. Batista Campos era a principal liderança liberal paraense. Antes de aderir em primeira hora a união com o Brasil, lutara em favor da independência do Grão-Pará e da fundação de uma nova República.
A desordem, entretanto, já estava instalada e a cidade de Belém ardia em chamas. Grupos de populares, chamados de patriotas, juntaram-se às tropas rebeladas e invadiam e saqueavam as casas e os comércios dos portugueses, clamando pela deportação de todos. Então, para conter a desordem o jovem capitão Grenfell manda executar cinco patriotas e prender Batista Campos, depois de acusá-lo de liderar a baderna e amarrá-lo à boca de um canhão. Batista Campos teve a vida poupada pela pressão popular, mas foi mandado como prisioneiro para o Rio de Janeiro.
Toda essa agitação resultaria na prisão de 256 indivíduos e em uma tragédia, que pela historiografia brasileira passaria a ser nominada “A tragédia do brigue Palhaço”.
Pela manhã do dia 21 de outubro os presos foram levados a bordo do brigue Palhaço, sob o comando do tenente Joaquim Lúcio de Araújo, e colocados em um pequeno porão, com intuito de humilhá-los. Amontoados e fatigados pelo intenso calor e pela falta de ar os prisioneiros exasperados começaram a entrar em desespero clamando por água. A disputa pela água suja do rio que lhes eram jogadas provocou um verdadeiro pânico e os mais fracos foram sendo pisoteados na luta pelo espaço, não obstante aos corpos colados.
Então, para conter o mau cheiro que aspergia junto a gritaria e a aflição, o tenente Araújo mandou que borrifassem cal virgem sobre os prisioneiros. No dia seguinte pela manhã, junto ao silêncio jazia um emaranhado de corpos, “com sinais de que tinham expirado na mais longa e penosa agonia”, conforme dizer de Laurentino Gomes. Apenas o preso de nome João Tapuia havia sobrevivido à tragédia!
O comandante Grenfell foi responsabilizado pela tragédia que enterneceu o Grão-Pará, mas acabou por absolvido depois de escapar da ordem de prisão. Os paraenses, entretanto, não esqueceriam o trauma da adesão e em anos mais tarde levantariam as armas contra Império no mais sangrento conflito ocorrido após a independência: A Cabanagem. 

Visite o nosso blog:   Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior

9 de abril de 2016

O sol é para todos: Harper Lee







Onde: 
Livraria Icaraí
Rua Miguel de Frias, 9
Icaraí
Niterói - RJ
Quando: 
sex, 08/04/2016 -
16:00 até 18:00
Descrição: 
A edição de abril do Clube de Leitura Icaraí traz um romance ganhador do prêmio Pulitzer de literatura: "O sol é para todos", de Harper Lee. Lançado pela primeira vez em 1960, o livro deu origem ao filme homônimo, ganhador do Oscar de melhor roteiro adaptado. O debate literário será no dia 8 de abril, a partir das 16h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9, em Niterói), com entrada franca.
Considerado um dos melhores romances do século XX, o livro trata de temas atemporais, como racismo, tolerância e justiça. A história se passa em 1930, quando, nos Estados Unidos, um advogado sofre represálias sociais por defender um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca. O enredo é narrado pelos olhos de um menino, filho do advogado de defesa.
Criado em 1998, o Clube de Leitura de Icaraí se reúne toda segunda sexta-feira do mês para debates e troca de ideias sobre um livro previamente definido nos encontros. No dia 14 de maio, o clube vai discutir “A rainha Ginga”, de José Eduardo Agualusa.
OCULTARMAIS INFORMAÇÕES
Telefone de contato: 
2629-5289
Email: 
comunicacao@editora.uff.br
Setor responsável: 






Filme de Robert Mulligan é premiado com Oscar de
melhor ator (Gregory Peck),
melhor roteiro adaptado
e melhor direção de arte em P&B





“O sol é para todos”, da escritora Harper Lee, é um dos mais belos livros da literatura norte-americana. Foi ganhador do Prêmio Pulitzer, de 1961. É um livro que todo advogado deveria ler, todo humanista deveria ler, todo solidário deveria ler... E quem não é humanista e solidário, também, para aprender a ser.

A narradora é uma criança, menina, que vive no Sul dos Estados Unidos na época do racismo bravo, do preconceito estúpido, anos 30. O pai da narradora é um advogado, nomeado pelo juiz da cidade para defender um rapaz negro acusado de estuprar uma moça branca. O vizinho da narradora é um homem que, há anos, não sai de casa, o que levanta incontáveis mistérios nas cabeças das crianças. E há o irmão da narradora, o melhor amigo da narradora, a cozinheira, os vizinhos futriqueiros da pequena cidade sulista... E a menina não entende a diferença entre o preconceito de Hitler aos judeus e o preconceito do norte-americano branco aos negros...


Deu na CNN






         O que foi a Ku Klux Klan? Ela ainda existe?

KKK
A Ku Klux Klan (KKK) foi uma organização racista secreta que nasceu no final do século 19 nos Estados Unidos. Ela foi fundada em 1866, no Tennessee, como um clube social que reunia veteranos confederados, ou seja, soldados que haviam lutado pelos estados do Sul, o lado derrotado, na Guerra Civil Americana (1861-1865). As duas palavras iniciais do nome da organização, "Ku Klux", aparentemente vêm da palavra grega kyklos, que significa "círculo". Já o termo "Klan" teria sido acrescentado para dar melhor sonoridade à expressão, além de fazer uma referência aos velhos clãs, grupos familiares tradicionais. Muito mais do que um clube, a KKK se transformou numa entidade de resistência à política liberal imposta pelos estados do Norte após a Guerra Civil, que assegurava, entre outras coisas, que a abolição da escravatura fosse mesmo cumprida. Na defesa da manutenção da supremacia branca no país, o grupo promovia atos de violência e intimidação contra os negros libertados.
Seus militantes adotaram capuzes brancos e roupões fantasmagóricos para esconder a identidade e assustar as vítimas. A partir de 1870, o governo americano decidiu enfrentar a organização e, em 1882, a Suprema Corte do país declarou inconstitucional a existência da KKK. "Ela parecia ter desaparecido durante os últimos anos da década de 1880, mas foi revivida em meados do século 20", diz a historiadora e jornalista americana Patsy Sims, da Universidade de Pittsburgh. A nova KKK foi criada em 1915, no estado da Geórgia, e não era mais movida apenas pelo ódio contra os negros. Sua doutrina misturava agora nacionalismo e xenofobia a um sentimento romântico de nostalgia pelo "velho Sul". "Durante essa reencarnação, a KKK tinha como alvos de sua violência os imigrantes, além de católicos, judeus e negros", afirma Patsy. Uma cruz em chamas se tornou o símbolo da nova organização, que chegou a ter 4 milhões de membros. (Fonte)





“Havia de fato um sistema de castas em Maycomb e, na minha mente, funcionava assim: a geração atual de pessoas que se conheciam havia anos, eram totalmente previsíveis para as outras: presumiam que o comportamento, os traços de caráter e até os gestos se repetiam e se refinavam através das gerações. Assim as máximas “nenhum Crawford cuida da própria vida”; “de cada três Merriweather um é mórbido”; “os Dellafield nunca dizem a verdade”; “todos os Buford andam daquele jeito” serviam de guia da vida cotidiana (…).” O sol é para todos, pág. 166.



Coragem é fazer uma coisa mesmo estando derrotado antes de começar. E mesmo assim ir até o fim, apesar de tudo. Você raramente vai vencer, mas às vezes vai conseguir. 

A única coisa que não deve se curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa. 


A luz do mundo - Holman Hunt

A pessoas sensatas nunca se orgulham do próprio talento. 


Pedra de Roseta

Quando os filhos desobedecerem os pais, fumarem e brigarem, as estações do ano mudarão.




Se aprender um truque simples, vai se relacionar melhor com todo tipo de gente. 
Você só consegue entender uma pessoa de verdade quando vê as coisas do ponto de vista dela.




Anjo da Luz
vida na morte
saia da estrada
não sugue o meu ar


Jardins de Bellingrath

Ninguém precisa mostrar tudo que sabe.
Não é educado.
Em segundo lugar, algumas pessoas podem não gostar de quem sabe mais que elas.
Incomoda.