CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

29 de abril de 2016

O homem que amava os cachorros: Leonardo Padura





Uma pedra jamais o será simplesmente
enquanto a boca sedenta do eterno
ungir com seu beijo a superfície da esperança.
O gosto do calcáreo-mármore-granito
toca o fluido-semente
troca o símbolo da vida
líquido e sólido
atmosfera em simbiose.

(Rita Magnago)




"...É então que o aparecimento de uma árvore, o perfil de uma montanha, a corrente gelada de um rio ou uma simples rocha no meio da estepe se transmutam em algo de tal forma notável que se tornam objeto de veneração. Os nativos daqueles desertos longínquos glorificavam as pedras porque asseguravam que na sua capacidade de resistência se expressava  uma força, presa para sempre em seu interior, que era fruto de uma vontade eterna".  

Que busquemos em nosso interior o belo e a paz da natureza e a força e resistência da pedra. Transcrevo, a seguir, uma estrofe do meu poema Fraternidade:

                                                 Se a tua alma se enternece
                                                com o céu, a pedra e o mar,
                                                as flores e os passarinhos,
                                                pois, pertencendo ao universo
                                               tu os abraças como irmãos:
                                               Isto é Fraternidade.

(Elenir)

* * *


Embora tenha tentado evitar, e tenha me agitado e negado, enquanto lia fui sentindo como era invadido pela compaixão. Mas só por Iván, só pelo meu amigo, porque ele sim a merece e muita: merece-a como todas as vítimas, como todas as trágicas criaturas cujo destino é dirigido por forças superiores que as ultrapassam e as manipulam até as transformarem em merda. Essa foi a nossa sina coletiva, e que Trotski vá para a puta que o pariu se, com seu fanatismo de obcecado e seu complexo de ser histórico, não acreditava que existissem as tragédias pessoais, mas apenas as mudanças de etapas sociais e supra-humanas. E as pessoas? Algum deles pensou alguma vez nas pessoas? Perguntaram-me, perguntaram a Iván, se concordávamos em adiar sonhos, vida e todo o resto até que se evaporassem (sonhos, vida e o raio que o parta) no cansaço histórico e na utopia pervertida?


A atriz espanhola teria visitado o assassino na prisão no México



– Se sou uma comunista defeituosa, Ramón, é por tudo isso – continuou Caridad, depois de servir um terceiro copo ao filho e de, ela própria, beber um quarto (quinto, sexto?). – Meu ódio nunca me permitirá trabalhar para construir a nova sociedade. Mas é a melhor arma para destruir esta outra sociedade, e por isso os transformei, a todos vocês, meus filhos, naquilo que são: os filhos do ódio. Amanhã, depois de amanhã, dentro de dois dias, quando estiver diante do homem que tem de matar, lembre-se de que ele é meu inimigo e também seu. De que tudo o que diz sobre a igualdade e o proletariado é pura mentira e de que a única coisa que ele quer é o poder. O poder para degradar as pessoas, para dominá-las, para fazer com que rastejem e sintam medo, para meter no cu delas, que é como mais gozam os donos do poder. E, quando você estourar a cabeça daquele filho da puta, pense que o seu braço é também o meu: estarei lá, te apoiando, e somos fortes porque o ódio é invencível. Beba esse copo, porra! Agarre o mundo pelos colhões e ponha-o de joelhos. E meta isto na cabeça: não tenha piedade, porque ninguém a terá de você. Nunca. E, quando estiver fodido, não aceite compaixão. Ninguém precisa se compadecer de você! Você é mais forte, você é invencível, você é meu filho, collons !


La societé c'est moi!

"Embora ainda não tivesse começado a acompanhar Ana à igreja, Dany, Frank e os outros poucos amigos que via diziam que eu parecia estar trabalhando para minha candidatura à beatificação e minha ascensão incorpórea aos céus. A verdade era que, lendo e escrevendo sobre como a maior utopia que alguma vez os homens tiveram ao alcance da mão fora pervertida, mergulhando nas catacumbas de uma história que mais parecia um castigo divino que obra de homens ébrios de poder, de ânsias de controle e de pretensões de transcendência histórica, tinha aprendido que a verdadeira grandeza humana está na prática da bondade incondicional, na capacidade de dar aos que nada têm não o que nos sobra, mas uma parte do pouco que temos. Dar até doer, e não fazer política nem pretender prerrogativas com essa ação, muito menos praticar a enganosa filosofia de obrigar os outros a aceitar nossos conceitos do bem e da verdade por (acreditarmos) serem os únicos possíveis e por, além disso, deverem estar agradecidos pelo que lhes demos, mesmo que não o tivessem pedido. E, embora soubesse que a minha cosmogonia era de todo impraticável (e que merda fazemos com a economia, com o dinheiro, com a propriedade, para que tudo isso funcione? e que porra fazemos com os espíritos predestinados e com os filhos da puta de nascença?), satisfazia-me pensar que talvez um dia o ser humano pudesse cultivar essa filosofia, que me parecia tão elementar, sem sofrer as dores de um parto ou os traumas da obrigatoriedade, por pura e livre escolha, por necessidade ética de ser solidário e democrático. Masturbações mentais minhas…" (p. 419)


Túmulo de Trotsky no México


“É terrível verificar que um sistema nascido para resgatar a dignidade humana tenha recorrido à recompensa, à glorificação, ao estímulo da denúncia, e que se apoie em tudo o que é humanamente vil. A náusea sobe-me pela garganta quando ouço as pessoas dizerem: fuzilaram M., fuzilaram P., fuzilaram, fuzilaram, fuzilaram. As palavras, de tanto as ouvirmos, perdem seu sentido. As pessoas repetem-nas com a maior tranquilidade, como se estivessem dizendo: vamos ao teatro. Eu, que vivi esses anos no medo e senti a compulsão de denunciar (confesso com pavor, mas sem sentimento de culpa), deixei de sentir na minha mente a brutalidade semântica do verbo fuzilar… Sinto que chegamos ao fim da justiça na Terra, ao limite da indignidade humana. Que morreram demasiadas pessoas em nome daquela que, prometeram-nos, seria uma sociedade melhor”…





Só a inocência absoluta pode salvar e, mesmo assim, muitos inocentes são capazes de confessar que mataram Cristo para que os deixem em paz e os matem o mais depressa possível. (p. 254)


Fonte: Época

"Nada mais próximo da moral comunista do que os preceitos católicos" (p. 93)

Olha, tem uma coisa muito importante que me ensinaram...: o homem é irrelevante, substituível. O indivíduo não é uma unidade excepcional, mas um conceito que se soma e forma a massa, esta sim real. Mas o homem enquanto indivíduo não é sagrado e, portanto, prescindível. Por isso arremetemos contra todas as religiões, especialmente o Cristianismo, que diz essa tolice de o homem ter sido criado à semelhança de Deus. Isso nos permite ser ímpios, desfazer-nos da compaixão que gera a piedade: o pecado não existe. Sabe o que isso significa?... É tudo a mesma merda, é nada. Nomina odiosa sunt. Importa o sonho, não o homem... (p.298)




"Ninguém escolhe o tempo de viver, morrer ou matar" (Pavel Sudoplatov)



Sant Feliu Guíxols


Oración al Glorioso San Luis Beltrán

Criatura de Dios, yo té curo, ensalmo y bendigo en nombre de la Santísima Trinidad Padre, Hijo y Espíritu Santo, tres personas y una esencia verdadera; y de la Virgen María, Nuestra Señora concebida sin mancha de pecado original, Virgen antes del parto, en el parto y después del parto y por la gloriosa Santa Gertrudis, tu querida y regalada esposa, once mil vírgenes, Señor San José, San Roque y San Sebastián y por todos los Santos y Santas de tu Corte Celestial; por tu gloriosísima Encarnación, gloriosísimo Nacimiento, Santísima Pasión, gloriosísima Resurrección, Ascensión; por tan altos y Santísimos meritos que creo y con verdad; suplico a tu Divina Majestad poniendo por intercesora a tu Santísima Madre y abogada nuestra, libres, sanes a esta criatura de esta enfermedad. Amén, Jesús. No mirando a la indigna persona que refiere tan sacrosantos misterios con tan buena fé, te suplico, Señor, para más honra tuya, y devoción de los presentes, te sirvas por tu piedad y misericordia de sanar y librar de esta herida, llaga o dolor, humor, enfermedad. Y no permita tu Divina Majestad, le sobrevenga accidente, corrupción ni daño, dándole salud para que con ella te sirva y cumpla tu santísima voluntad. Amén, Jesús. Yo te curo y ensalmo y jesuscristo Nuestro Señor Redentor te sane; bendiga y haga en todo su divina voluntad. Amén. (Esta oración se hace contra todo tipo enfermedades)


Ramón é um homem de outra época, de um tempo muito fodido, quando nem sequer a dúvida era permitida... pertenceu a uma geração de crédulos por obrigação. 

Karl Marx




Leia aqui "O homem que amava os cachorros" de Leonardo Padura!


28 de abril de 2016

Contra o Fanatismo: Amós Oz



O fanatismo é mais antigo que o Islã, mais velho que o Cristianismo, que o Judaísmo, que qualquer estado, governo ou sistema político, que qualquer ideologia ou fé no mundo. O fanatismo é, infelizmente, um componente onipresente da natureza humana, um gene do mal (…) O fanatismo é, com frequência, intimamente relacionado a uma atmosfera de desespero profundo. Num lugar em que as pessoas sintam que não há nada além de derrota, humilhação e indignidade, podem recorrer a várias formas de violência desesperada.” (…) ”O fanatismo está em quase todos os lugares, e suas formas mais silenciosas, mais civilizadas, estão presentes em nosso entorno, e talvez dentro de nós também. Conheço bem os antitabagistas que o queimarão vivo, se você acender um cigarro perto deles! Conheço bem os vegetarianos que o comerão vivo por comer carne! Conheço bem os pacifistas dispostos a atirar na minha cabeça só porque advogo uma estratégia ligeiramente diferente sobre como fazer a paz com os palestinos. (…) A semente do fanatismo brota ao se adotar uma atitude de superioridade moral que não busca o compromisso.


22 de abril de 2016

Bartleby, que reunião! - as impressões de Rita Magnago




Bom dia, cliceanos,

Sobre a reunião de ontem (8/5/2015), atendendo a pedido de Norma, teço alguns comentários.

Um pequeno grande livro. A frase poderia ser um resumo do que representou a leitura do mês para mim. Muito rico e questionador, dando ensejo a múltiplas interpretações, que é uma das coisas que mais adoro no CLIc. Bartleby, personagem enigmático, impressionou a todos, assim como seu chefe. Na volta para casa, eu e Newton continuamos debatendo sobre o livro, e debatendo sobre o debate, tirando ainda novas e possíveis interpretações que ele também vai dividir com o grupo.

Bem, pinçando o que me lembro da reunião:

Katia - nos falou de uma experiência própria semelhante e identificou que o chefe do escriturário foi profundamente atingido pela honestidade e caráter de Bartleby, sugerindo que ele, chefe, que inclusive tinha um principal cliente meio que desonesto, também deveria sê-lo, daí  esse impacto, mais pelo respeito e até admiração do que por piedade de Bartleby.

Joana – também compartilhou uma experiência pessoal e enfatizou como o que não compreendemos mexe e desestrutura os que estão em volta, nossas tentativas de fazer o ‘estranho’ se enquadrar no sistema.

Rose P. – destacou a tristeza e melancolia do livro, coisa não usual para a literatura da época, ‘mais alegrinha’.

Newton – abordou sobre a inverossimilhança do escriturário, se isso teria realmente  importância ou se muito mais relevante não seria a que construções e questionamentos o personagem nos leva, destacando ainda o caráter vanguardista de Melville, nos contemplando com um escrita tão atual.

Benito – perguntou se não seríamos nós, leitores, o personagem principal, já que o narrador leva a questão não para o lado do escriturário, mas para o chefe, o que fazem as pessoas , como reagem a esse estranho desestruturador presente na humanidade. Analisou também que o escritor  já falava de uma subversão ao capitalismo, representada pelas atitudes do escriturário, que se recusava a trabalhar em um país onde o dinheiro e o trabalho eram as bases da sociedade americana. Citou as cartas extraviadas, enviadas a mortos e a correlação que elas poderiam ter com a situação do escriturário, metaforicamente.

Rita – indagou o que é isso de se viver em um mundo próprio, a tênue fronteira entre loucura e realidade. Todos nós não vivemos em uma realidade meio que só nossa? Destacou como uma só pessoa pode mudar tantas outras e o mundo ao seu redor, a potência latente no ser humano e ainda a influência do que pensam os outros sobre o que fazemos, o medo do julgamento alheio, questionando também a aparente generosidade do chefe, que se achava uma boa pessoa.

Tânia (nova participante) – destacou, entre outros pontos, a potência do não, e o impacto desta ‘negativa educada’, prefiro não.

Daniel – considerou Bartleby consciente e refratário, comparando-o, neste sentido, a Jesus Cristo, Marx, e outros que mantiveram sua opinião a despeito das consequências. Daniel nos deixou uma pergunta que poderá render muito: o que faríamos no lugar do chefe do Bartleby? Qual seria nossa reação?

Gracinda – provocada pelo concièrge, disse em tom de brincadeira que ficou impaciente com o chefe, que não tomava atitude diante da situação.

Dília – abordou o pré-existencialismo da obra, fez referências a Kafka, Camus, Sartre, mostrando como a obra de Melville estava muito na vanguarda do seu tempo. Além do viés filosófico, mostrou também o literário, lendo uma passagem considerada pelos críticos primorosa e perfeita. Quem lembrar a passagem, por favor transcreva. Era sobre a mudança no rosto do personagem que acontece ao longo do dia, em uma poética comparação com o nascer do sol, o sol a pino e seu poente.

Evandro, quero dizer que gostei muito de a reunião de ontem não ter tido bastão da fala. Apesar de reconhecer que o bastão ajuda a ordenar o debate, não sei se já atingimos a maturidade de escutar e respeitar o outro para também poder exigir a recíproca, mas o fato é que fluiu muito gostoso. Todos participaram, inclusive os que não citei em falas específicas (por incapacidade minha, ó memória) como Cícero, você mesmo, Elô, Beth, Cyana, Niza, a advogada nova que também prestigiou o encontro, enfim, me senti assim como no anarquismo que utopicamente vislumbro um dia para os países desenvolvidos. Houve muita interação entre as falas dos participantes, concordâncias e discordâncias e complementos e novas visões que se entrecruzavam praticamente todas as vezes que nós leitores nos expressávamos. Meio que uma produção conjunta, sei lá, foi diferente.
Agradecemos à Cristiana pela indicação e pelo e-mail com suas impressões sobre o livro, que foi  impresso pelo concièrge e lido logo no início da reunião por Kátia e Beth.

Last but not least, senti falta de muitos cliceanos (em ordem alfabética) : Angela Stieger , Antonio, Benites, Cris, Elenir, Ilnea, Inês, Maria Marlie, Norma, Vera ...

Desculpem o tamanhão das anotações, mas é ainda pequena comparada à riqueza da reunião. Poderia falar menos, mas eu prefiro não, rsrsrs.

Beijos e até o Trópico de Câncer,


19 de abril de 2016

Quando secar o rio da minha infância: Frei Tito










Em tempos de louvores a torturadores no Congresso Nacional durante votação do Impeachment da Presidenta, um poema de Frei Tito, torturado por Fleury, e depois exilado na França, onde escreveu este poema.  (Antonio)

18 de abril de 2016

As palavras


A eternidade e o desejo: Inês Pedrosa


Na amabilidade das palavras oculto o rumor de desolação que me treme na garganta - mas a cegueira conduziu-me a esse dom que eu não queria, de ver as vozes à transparência das palavras. Não tenho como me distrair: sou inteiramente vulnerável à brutalidade das vozes, aos sentimentos incontrolados que circulam nelas. mordendo como piranhas. Centro-me no sentido específico de cada palavra, tento anular a voz que ouço, transformá-la numa cortina de fundo — mas a palavra dança e decompõe-se,quebra-se em estilhaços de vidro que voam dentro do meu corpo-ouvido,ferindo-o, primeiro, e abrindo-o em chaga, depois, porque dentro do ouvido do que é o meu corpo agita-se uma corrida de criança atraída pelo brilho das coisas perigosas. Palavras estilhaçadas. Despalavradas. Os substantivos abstractos, nenhum sobrevive ao impacto. Amor. Teríamos que inventar uma palavra para cada espécie de amor e para cada amante e para cada instante da experiência física ou metafísica dessa exaltação sem fórmula. Amor, diz-me a vendedora de bugigangas na rua, e quer dizer compra-me qualquer coisa. Ou quer dizer tenho fome. Ou quer dizer ajuda-me. Ou deixa-me em paz. E eu agora sei sempre o que quer dizer— e sei que quase sempre não quer dizer nada. As palavras já nãome protegem, estão todas em cacos.





alarve: que ou quem é rústico, abrutado, grosseiro, ignorante.

"Escondidas no silêncio da biblioteca, mascaradas pela escura monotonia das capas, todas as palavras estavam lá, esperando que eu as decifrasse. Eu sonhava me enfurnar  naqueles corredores poeirentos
e nunca mais voltar".Simone de Beauvoir.



"Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco. Algumas, tão fortes como o javali. Não me julgo louco. Se o fosse, teria poder de encantá-las. Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida. Deixam-se enlaçar, tontas à carícia e súbito fogem e não há ameaça e nem há sevícia que as traga de novo ao centro da praça. 

Carlos Drummond de Andrade, in 'Poesia Completa'





"A palavra cotidiana, ao mergulhar nas águas da poesia, recupera-se, renova-se. E os leitores de poesia renovam-se com a palavra. Para deixar a palavra em forma, a poesia transforma, altera sentidos, reforça a sonoridade, brinca. Se os dicionários preservam os significados coletivos dos vocábulos, a poesia trabalha com o que há de único  e insubstituível em cada palavra. A palavra sai do reino dos catálogos e, na magia poética, refaz sua música".




Literatura & Educação - Gabriel Perissé

12 de abril de 2016

Da adesão ao Império à tragédia

Por Wagner Medeiros Junior



A adesão do Grão-Pará ao Império do Brasil ocorreu em 15 de agosto de 1823, quase um ano depois de D. Pedro I declarar a independência. Tudo aconteceu muito rápido! Cinco dias antes, desembarcou em terra um oficial brasileiro, sob a escolta de um grupo de fuzileiros navais, procurando o Palácio do Governo. Lá chegando, intimou a junta provisória pela adesão ao Brasil, sob a ameaça de bombardear a cidade de Belém.
Pressionada, a junta provisória se reuniria no dia seguinte com as principais lideranças portuguesas e paraenses. A assembléia dividiu-se em discussões calorosas, mas, por fim, os portugueses foram vencidos. O descontentamento com o radicalismo das Cortes em Portugal foi decisivo para a adesão do Grão-Pará ao Império do Brasil, pois os liberais aspiravam por mais liberdade política e econômica, refutando voltar à condição de colônia.
Após o juramento de fidelidade ao Império aportou em Belém o brigue de guerra Maranhão, de bandeira brasileira, sob o comando do capitão inglês John Pascoe Grenfell. Os portugueses ao perceberem que a “esquadra” brasileira se reduzia a essa única embarcação já não possuíam forças para esboçar qualquer reação. A frota lusa fora toda apreendida e as tropas em terra desagregadas com a prisão do comandante João Pereira Vilaça e de diversos oficiais fiéis a Portugal.
O primeiro governo provisório da província foi de curta duração. Os defensores da união com o Brasil agora clamavam por um governo sem a presença dos portugueses, mesmo daqueles que assentiram fidelidade a D. Pedro I. Então, pela força, os lusitanos foram destituídos e o cônego Batista Campos elevado ao comando do governo. Batista Campos era a principal liderança liberal paraense. Antes de aderir em primeira hora a união com o Brasil, lutara em favor da independência do Grão-Pará e da fundação de uma nova República.
A desordem, entretanto, já estava instalada e a cidade de Belém ardia em chamas. Grupos de populares, chamados de patriotas, juntaram-se às tropas rebeladas e invadiam e saqueavam as casas e os comércios dos portugueses, clamando pela deportação de todos. Então, para conter a desordem o jovem capitão Grenfell manda executar cinco patriotas e prender Batista Campos, depois de acusá-lo de liderar a baderna e amarrá-lo à boca de um canhão. Batista Campos teve a vida poupada pela pressão popular, mas foi mandado como prisioneiro para o Rio de Janeiro.
Toda essa agitação resultaria na prisão de 256 indivíduos e em uma tragédia, que pela historiografia brasileira passaria a ser nominada “A tragédia do brigue Palhaço”.
Pela manhã do dia 21 de outubro os presos foram levados a bordo do brigue Palhaço, sob o comando do tenente Joaquim Lúcio de Araújo, e colocados em um pequeno porão, com intuito de humilhá-los. Amontoados e fatigados pelo intenso calor e pela falta de ar os prisioneiros exasperados começaram a entrar em desespero clamando por água. A disputa pela água suja do rio que lhes eram jogadas provocou um verdadeiro pânico e os mais fracos foram sendo pisoteados na luta pelo espaço, não obstante aos corpos colados.
Então, para conter o mau cheiro que aspergia junto a gritaria e a aflição, o tenente Araújo mandou que borrifassem cal virgem sobre os prisioneiros. No dia seguinte pela manhã, junto ao silêncio jazia um emaranhado de corpos, “com sinais de que tinham expirado na mais longa e penosa agonia”, conforme dizer de Laurentino Gomes. Apenas o preso de nome João Tapuia havia sobrevivido à tragédia!
O comandante Grenfell foi responsabilizado pela tragédia que enterneceu o Grão-Pará, mas acabou por absolvido depois de escapar da ordem de prisão. Os paraenses, entretanto, não esqueceriam o trauma da adesão e em anos mais tarde levantariam as armas contra Império no mais sangrento conflito ocorrido após a independência: A Cabanagem. 

Visite o nosso blog:   Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior

9 de abril de 2016

O sol é para todos: Harper Lee







Onde: 
Livraria Icaraí
Rua Miguel de Frias, 9
Icaraí
Niterói - RJ
Quando: 
sex, 08/04/2016 -
16:00 até 18:00
Descrição: 
A edição de abril do Clube de Leitura Icaraí traz um romance ganhador do prêmio Pulitzer de literatura: "O sol é para todos", de Harper Lee. Lançado pela primeira vez em 1960, o livro deu origem ao filme homônimo, ganhador do Oscar de melhor roteiro adaptado. O debate literário será no dia 8 de abril, a partir das 16h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9, em Niterói), com entrada franca.
Considerado um dos melhores romances do século XX, o livro trata de temas atemporais, como racismo, tolerância e justiça. A história se passa em 1930, quando, nos Estados Unidos, um advogado sofre represálias sociais por defender um homem negro acusado de estuprar uma mulher branca. O enredo é narrado pelos olhos de um menino, filho do advogado de defesa.
Criado em 1998, o Clube de Leitura de Icaraí se reúne toda segunda sexta-feira do mês para debates e troca de ideias sobre um livro previamente definido nos encontros. No dia 14 de maio, o clube vai discutir “A rainha Ginga”, de José Eduardo Agualusa.
OCULTARMAIS INFORMAÇÕES
Telefone de contato: 
2629-5289
Email: 
comunicacao@editora.uff.br
Setor responsável: 






Filme de Robert Mulligan é premiado com Oscar de
melhor ator (Gregory Peck),
melhor roteiro adaptado
e melhor direção de arte em P&B





“O sol é para todos”, da escritora Harper Lee, é um dos mais belos livros da literatura norte-americana. Foi ganhador do Prêmio Pulitzer, de 1961. É um livro que todo advogado deveria ler, todo humanista deveria ler, todo solidário deveria ler... E quem não é humanista e solidário, também, para aprender a ser.

A narradora é uma criança, menina, que vive no Sul dos Estados Unidos na época do racismo bravo, do preconceito estúpido, anos 30. O pai da narradora é um advogado, nomeado pelo juiz da cidade para defender um rapaz negro acusado de estuprar uma moça branca. O vizinho da narradora é um homem que, há anos, não sai de casa, o que levanta incontáveis mistérios nas cabeças das crianças. E há o irmão da narradora, o melhor amigo da narradora, a cozinheira, os vizinhos futriqueiros da pequena cidade sulista... E a menina não entende a diferença entre o preconceito de Hitler aos judeus e o preconceito do norte-americano branco aos negros...


Deu na CNN






         O que foi a Ku Klux Klan? Ela ainda existe?

KKK
A Ku Klux Klan (KKK) foi uma organização racista secreta que nasceu no final do século 19 nos Estados Unidos. Ela foi fundada em 1866, no Tennessee, como um clube social que reunia veteranos confederados, ou seja, soldados que haviam lutado pelos estados do Sul, o lado derrotado, na Guerra Civil Americana (1861-1865). As duas palavras iniciais do nome da organização, "Ku Klux", aparentemente vêm da palavra grega kyklos, que significa "círculo". Já o termo "Klan" teria sido acrescentado para dar melhor sonoridade à expressão, além de fazer uma referência aos velhos clãs, grupos familiares tradicionais. Muito mais do que um clube, a KKK se transformou numa entidade de resistência à política liberal imposta pelos estados do Norte após a Guerra Civil, que assegurava, entre outras coisas, que a abolição da escravatura fosse mesmo cumprida. Na defesa da manutenção da supremacia branca no país, o grupo promovia atos de violência e intimidação contra os negros libertados.
Seus militantes adotaram capuzes brancos e roupões fantasmagóricos para esconder a identidade e assustar as vítimas. A partir de 1870, o governo americano decidiu enfrentar a organização e, em 1882, a Suprema Corte do país declarou inconstitucional a existência da KKK. "Ela parecia ter desaparecido durante os últimos anos da década de 1880, mas foi revivida em meados do século 20", diz a historiadora e jornalista americana Patsy Sims, da Universidade de Pittsburgh. A nova KKK foi criada em 1915, no estado da Geórgia, e não era mais movida apenas pelo ódio contra os negros. Sua doutrina misturava agora nacionalismo e xenofobia a um sentimento romântico de nostalgia pelo "velho Sul". "Durante essa reencarnação, a KKK tinha como alvos de sua violência os imigrantes, além de católicos, judeus e negros", afirma Patsy. Uma cruz em chamas se tornou o símbolo da nova organização, que chegou a ter 4 milhões de membros. (Fonte)





“Havia de fato um sistema de castas em Maycomb e, na minha mente, funcionava assim: a geração atual de pessoas que se conheciam havia anos, eram totalmente previsíveis para as outras: presumiam que o comportamento, os traços de caráter e até os gestos se repetiam e se refinavam através das gerações. Assim as máximas “nenhum Crawford cuida da própria vida”; “de cada três Merriweather um é mórbido”; “os Dellafield nunca dizem a verdade”; “todos os Buford andam daquele jeito” serviam de guia da vida cotidiana (…).” O sol é para todos, pág. 166.



Coragem é fazer uma coisa mesmo estando derrotado antes de começar. E mesmo assim ir até o fim, apesar de tudo. Você raramente vai vencer, mas às vezes vai conseguir. 

A única coisa que não deve se curvar ao julgamento da maioria é a consciência de uma pessoa. 


A luz do mundo - Holman Hunt

A pessoas sensatas nunca se orgulham do próprio talento. 


Pedra de Roseta

Quando os filhos desobedecerem os pais, fumarem e brigarem, as estações do ano mudarão.




Se aprender um truque simples, vai se relacionar melhor com todo tipo de gente. 
Você só consegue entender uma pessoa de verdade quando vê as coisas do ponto de vista dela.




Anjo da Luz
vida na morte
saia da estrada
não sugue o meu ar


Jardins de Bellingrath

Ninguém precisa mostrar tudo que sabe.
Não é educado.
Em segundo lugar, algumas pessoas podem não gostar de quem sabe mais que elas.
Incomoda.

4 de abril de 2016

Infâmia: Ana Maria Machado


Ana Maria Machado estará no CLIc em 1 de março para debater "Infâmia". 
Transmissão pela Web - ao vivo 
(clique aqui)
Imperdível!


Ana Maria Machado, atual presidenta da Academia Brasileira de Letras (ABL), que desde 2003 ocupa a cadeira número 1 da ABL, é considerada pela crítica uma das mais importantes escritoras brasileiras contemporâneas.
Em seu romance "Infâmia", Ana Maria Machado faz uma releitura de duas histórias bíblicas  na realidade brasileira atual: as infâmias sofridas pela casta Suzana e por José em terras do Egito. Ao contrário das edificantes histórias bíblicas protagonizadas pelo profeta Daniel e por José, filho de Jacó, as infâmias brasileiras acabam em tragédias: Custódio, funcionário público, um José moderno, tem sua honra destruída ao detectar indícios de corrupção na repartição onde trabalha. Cecília, a Suzana moderna, uma brasileira difamada pelo próprio marido e silenciada pelo formalismo protocolar das relações internacionais, torna-se vítima do que poderíamos chamar de um apedrejamento moral.
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Resumo da história de José: José foi vendido pelos próprios irmãos como escravo a mercadores e posteriormente adquirido por Potifar, comandante da guarda do faraó egípcio. José logo ganhou a confiança de Potifar, passando a ser responsável pelos negócios da casa deste. Foi então que José passou a sofrer o assédio da esposa do comandante, que convidou-o a deitar-se com ela. José recusa veementemente trair seu senhor pois este lhe confiara tudo em sua casa, menos a própria esposa. Continuou a mulher em suas tentativas até que, certo dia, estando sozinhos, ela mais uma vez insistiu. José fugiu, mas ela segurou-lhe a capa, que ficou em sua mão. A mulher então, gritando, fez vir a si os homens da casa e, apresentando a capa de José como prova, acusou-o de tentar levá-la para a cama. Quando Potifar chegou em sua casa, a esposa anônima repetiu-lhe a história engendrada e este encolerizou-se. José foi então enviado para a prisão.

Para conhecer a história da casta Suzana, leia postagem anterior do blog clicando aqui

Trecho da entrevista de Ana Maria Machado ao Conexão Roberto D'Ávila, exibido em 19 junho de 2011 pela TV Brasil (extraído do Especial de Ano Novo - Conexão Roberto D'Ávila - 2012):

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Opiniões dos Leitores:



WB:



Cês estão gostando de nossa leitura atual? Da Ana Maria Machado eu só havia lido Alice e Ulisses, e isso já faz tanto tempo que não lembro chongas. Estou apreciando Infâmia. O texto flui muito bem, com bastante naturalidade, não dá vontade de parar.



Um detalhe sobre a edição que eu tenho: apesar de as páginas serem meio escuras, não me parecem feitas com papel reciclado (a Rita havia dito que eram, acho), pois não vi nenhuma referência a isso nos dados sobre a publicação. Será  se a colega se equivocou ao nos dar a informação?

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Rose T

O que eu tenho a dizer é que estou amando Infâmia!!! Quase no final!!!!

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Rita:



Sobre Infâmia, eu achei que era papel reciclado sim, não só pela cor como também pela textura, e como no dia da votação eu já tinha comprado mas ainda não tinha lido, na ânsia de defender o voto falei até do cheiro, lembra? Foi mais no estilo brincadeira, mas se colar é bom, sabe como é? 

Agora, falando sério, o papel que importa do livro é a grande reflexão que ele nos leva a fazer sobre nossas atitudes, a crença absurda numa imprensa comprada e descompromissada com a verdade, as consequências de uma frase leviana para toda a vida de quem foi caluniado. Fico feliz que tenha defendido a proposta original da Cintia, uma excelente leitura.

... Nunca tinha parado para pensar nas respectivas primeiras-damas, mas talvez povoasse meu imaginário a ideia de uma vida boa, sem preocupações financeiras, um pouco de glamour. Ana Maria nos traz o outro lado, o casamento de aparências, o rigor do comportamento esperado, as regras que se aplicam ao marido e à mulher, bem diferentes, a opressão sofrida pela filha do embaixador, também ela casada com um embaixador, a depressão subsequente, a manipulação do marido, sua crueldade, a covardia de ambos, o medo da mulher, a falta de visão de alternativas, a opção derradeira. Muita sujeira por baixo do tapete.



Transpondo para outras realidades, para as que conhecemos, inclusive a nossa, o que encontramos de comum? Esse é o cerne da questão que me interessa. O livro ratifica minha opinião de que não devemos compactuar com nada que nos traga infelicidade, não esconder os problemas, discuti-los, tentar uma solução que não maltrate o coração, mas se não der, partir para outra, sem a preocupação paralisante do que os outros vão pensar. Isso é um atraso que pode ser fatal e o tempo, sabemos, não para.



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Oi Rita


Essa possibilidade de ter uma ótica não imaginada é que nos engrandece e flexibiliza, que nos minimiza a chance de cometer infâmias. Clarice Lispector viveu esta situação como esposa de diplomata e nos deixou registrado sua angústia e desamparo. 

Quanto à sujeira por baixo do tapete, a sensação é de uma terrível impotência.  O verso que traduz o sentimento é do Quintana: "há tanta coisa para denunciar, mas a quem?".   Acredito que o Papa diria a mesma coisa...

Durante a leitura do livro, fiquei lembrando também da estratégia do Amós Oz: perceber a normalidade em meio à anormalidade, escrever sobre pessoas comuns e seu cotidiano em situações limites para que a poesia e a arte prevaleçam, para não dar vitória à opressão. Como é difícil adotar este olhar que busca a luz...  

Já acabei a leitura e estou preparando o bastão da fala...

Considerei o livro um compartilhar, uma denúncia, uma  crítica feroz, um reconhecimento do quanto estamos imersos em sistemas desumanos, que incapacitam o restabelecimento da vida e a dignidade perdidas.

O considerei um convite ao olhar mais sistêmico, ao questionamento socrático. Manoel de Barros como antídoto: “só dez por cento é mentira, o resto é invenção”; “as coisas jogadas fora tem grande importância, como um homem jogado fora...”; “é preciso desver o mundo, é preciso transver o mundo.”

As duas primeiras infâmias trazidas na narrativa foram desconstruídas com perguntas simples que tornavam óbvia a farsa e estancaram a fértil criatividade para o mal.

Uma das expressões que mais me impactaram foi a da “êxtase da santidade”: aquele estado que parece autorizar cada um a julgar o outro de forma hipócrita.

Agradeço à Cinthia pela indicação, perseverança e atitude ao convidar a autora.  Seu rico caminho literário transparece na escrita do livro, por exemplo, ao citar a lucidez da cegueira na literatura... como foi bom reler uma frase do Saramago: “A única coisa mais terrível que a cegueira é ser a única pessoa que consegue ver.” (p. 156).

Gostei da ênfase à importância do contexto: “A descontextualização é uma forma de desonestidade intelectual.” (p. 65). Fez-me lembrar de um trecho do “O lobo da estepe" de Hermann Hesse (1995, Vozes, p. 26):

“Um homem da Idade Média condenaria totalmente o nosso estilo de vida atual como algo muito mais cruel, terrível e bárbaro.  Cada época, cada cultura, cada costume e tradição têm o seu próprio estilo, têm sua delicadeza e sua severidade, suas belezas e crueldades, aceitam certos sofrimentos como naturais, sofrem pacientemente suas desgraças.”

Ainda desejo destacar outros pontos preciosos encontrados no livro, o que farei em breve.

Boa tarde a todos!

Cris