CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

28 de abril de 2013

O escritor inimigo dos uxoricidas brasileiros


(por: W. B.)

O amor mata? Um sentimento que leva ao assassinato é, sem dúvida, algo maldito e se afasta totalmente da emoção que aprendemos a exaltar como bela e elevada. Porém, ao longo de séculos, a sociedade brasileira tem considerado o assassínio compatível com o amor, e até prova de envolvimento verdadeiro e profundo: é a exacerbação da velha crença de que ciúme é atestado de carinho.

O uxoricídio – assassinato da esposa pelo marido – era permitido pelas Ordenações Filipinas que regeram os direitos civis no Brasil até o século 19. Assim, no Livro V, Título XXXVIII, estava estabelecido que: "Achando o homem casado sua mulher em adultério, licitamente poderá matar assim a ela, como ao adúltero". O Código Criminal Brasileiro de 1830, nos artigos 251 e 252, amenizou esta punição, determinando que o homem ou a mulher que cometesse adultério seria punido com prisão temporária. Na prática, quase sempre apenas a mulher era enquadrada nesse tipo penal, pois o Estado possuía – igual a hoje – um caráter fortemente patriarcal.

Este mesmo Estado tinha como ferrenho adversário o escritor anarquista Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922), que criticava com ardor o aparelho judicial brasileiro, por absolver continuamente uxoricidas que alegassem legítima defesa da honra ou "ter matado por amor". Contra esse falso amor, Lima Barreto publicou, no Correio da Noite, "Não as matem" em 27 de janeiro de 1915. Afirmava que a violência dos homens reside no fato de que eles se sentem donos das mulheres, portanto não admitem ser preteridos. A esse texto seguiram-se "Lavar a honra matando?" e "Os matadores de mulheres".

Em dois de março de 1919, ele publicou "Os uxoricidas e a sociedade brasileira", o artigo mais longo e importante sobre o assunto. Nele, Lima Barreto afirmou que parece existir "uma tácita autorização que a sociedade dá ao marido de assassinar a esposa quando adúltera". Condenou de forma veemente os advogados que, para defenderem os uxoricidas, atacam a honra das vítimas. Da mesma forma criticou o procedimento dos promotores de justiça que se limitavam a tentar provar que as mulheres assassinadas tinham uma conduta sexual irrepreensível.

Para Lima, a mulher tem que ser livre. A conduta sexual da esposa em hipótese nenhuma poderia ser justificativa para o assassinato. Contra os homens possessivos, ele já havia escrito em 1915: "Todos esses senhores parece que não sabem o que é a vontade dos outros". E bradava: "Deixem as mulheres amar à vontade. Não as matem, pelo amor de Deus!"

O escritor também usou da ficção para combater o falso amor, como na narrativa Clara dos Anjos, corajosa acusação à sociedade brasileira, desde os tempos de Lima uma sociedade racista excludente e machista.

(O ROMANCE "VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ", DE LIMA BARRETO, FOI DEBATIDO PELO CLIC EM 04/05/12) 

25 de abril de 2013

Pausa Musical - Helena, Helena: Taiguara






3: O GRITO: Da janela do apartamento um homem gritou alto para a cidade toda ouvir: "Homem Pássaro!".
9: LAMENTO: Para ele... Outra vez... Ah, Guiomar... Essa não.
2: NA PRAIA: Sentindo a brisa em sua face, ela pensou: "quero ficar para sempre."
8: REGRESSO A ITACA: Hesitou. O caminho de volta é o mais difícil. Continuou a VIAGEM. 

13: MEU HÓSPEDE: Pede carinho, não dou! Mesmo com seus olhos verdes. Saia gato!
1: SEM PALAVRAS: "Não tenho mais nada a dizer", repetia incessantemente.
4: O HOMEM DA ESTANTE: O homem da estante foi ver o pôr do sol com sua amada na varanda.
7: CAUSA MORTIS: Viu seu homem com outra. Morto o amor, quis morrer também.
12: Ao acordar, lembrou-se do sonho e decidiu: hoje não vou trabalhar. Vou à praia.
6: FIM: Acelerando o carro, viu quem procurava: "lá está ela!".
5: O SUSTO:  Ouvindo as fortes batidas acordou. Teria sido seu coração?


14 de abril de 2013

"Viagens de Gulliver" é para ser lido


(por W. B.)

“Viagens de Gulliver” (Gulliver’s Travels) é um romance escrito pelo irlandês Jonathan Swift (1667-1745) e publicado pela primeira vez, pelo editor Benjamim Motte, em 1726.

Na obra, o personagem narrador é Lemuel Gulliver, cirurgião que veio a se aventurar em viagens marítimas no intuito de aumentar seus haveres para melhor viver junto à esposa Mary Burton ao retornar.

À guisa de introdução, há um prefácio (ficcional) intitulado “O editor ao leitor”, assinado por Richard Sympson, e uma “Carta do capitão Gulliver a seu primo Sympson”: o personagem narrador teria dado suas lembranças de viagem a seu primo, para que este, auxiliado por acadêmicos, pudesse ordená-las convenientemente. Curioso o fato de tanto Richard quanto Lemuel negarem responsabilidade sobre o escrito – o editor só teria publicado as memórias do outro, enquanto o viajante teria tido seu relato modificado com supressões e acréscimos descabidos.

A narrativa propriamente divide-se em quatro partes: I - Viagem a Lilipute (composta por oito capítulos); II - Viagem a Brobdingnag (oito também); III - Viagem a Laputa, Balnibardi, Glubbdubdrib, Luggnag e ao Japão (nove segmentos), e IV - Viagem ao País dos Houyhnhnms (12).

A descrição das sociedades que Gulliver vem a conhecer parece trazer em si críticas na verdade destinadas aos países europeus. Em Lilipute, por exemplo, nação de homens diminutos cuja altura não chegava a seis polegadas, as politicagens, corrupções e atitudes antiéticas em geral são bem parecidas com as conhecidas na Europa. Apesar de seus habitantes gigantescos, também não existe grandeza moral alguma em Brobdingnag, terra repleta de semelhanças com a européia.

A única ilha com seres virtuosos é o País dos Houyhnhnms, mas esses não são humanos e sim cavalos. Os homens nativos (lá chamados yahoos) são animalizados e de hábitos grotescos, porém análogos a práticas correntes na Europa como: bebedeiras, brigas, avareza, desonestidade... Por outro lado, os cavalos (houyhnhnms) nem sequer tem uma palavra em seu idioma para designar “mentira”.

Já há algum tempo abundam adaptações para crianças de “Viagens de Guliver”, que – a pretexto de divulgar a obra de Swift – desvirtuam completamente sua criação, a qual nunca foi destinada à infância. Aliás, o escritor nem gostava de crianças e nunca escondeu isso.

Há trechos claramente voltados para um público maduro como, por exemplo, a parte na qual se insinua que moças gigantes de Brobdingnag usavam Gulliver como um brinquedinho sexual, obrigando-o a escalar seus seios. Não é nada tão explícito a ponto de desvirtuar algum leitor criança, mas é fato que a densidade dramática, a ironia mordaz, a complexidade da linguagem e os temas abordados não são próprios a essa faixa etária.

Não se trata de proibir os mais jovens de ler a narrativa, mas sim disponibilizar também a eles a versão integral do texto, para que leiam – se quiserem e conseguirem – o livro todo ou trechos selecionados por eles próprios. É preferível que pulem páginas consideradas chatas ou difíceis, a serem enganados com versões simplórias e falsificadas do texto de Swift. Por isso o escritor Daniel Pennac afirma, em seu livro “Como um Romance”, o leitor ter “direito de pular páginas”, para, aos poucos, desvelar de forma autônoma aqueles livros ainda não plenamente acessíveis a ele.

Porém o mais importante mesmo é que os adultos hoje descubram "Viagens de Gulliver", livro feito, aliás, para eles. É um tesouro posto a sua disposição, sem que se precise arriscar a vida nos mares como um personagem de romance aventuresco setecentista.

(JONATHAN SWIFT AINDA NÃO FOI DEBATIDO PELO CLUBE DE LEITURA ICARAÍ)

12 de abril de 2013

Opinião de uma leitora – Rose Timpone


Ler em ipad é tudo de bom!

Terminei de ler o livro “La isla bajo el mar”, de Isabel Allende, na sexta-feira à noite, totalmente capturada pela autora que brilhantemente nos leva nesta história que junta fatos reais com ficção. Este foi meu primeiro livro no Ipad, o primeiro que li todo. Fiz muitas marcações, comentários e adorei.

A experiência de ler em ipad está aprovada. Tem índice das minhas anotações que o ibooks faz sozinho.  Posso fazer uma busca de alguma anotação ou trecho do livro que eu digito a palavra e ele elenca tudo sobre a palavra. Além disso, eu tenho sempre o mesmo volume na mão e é mais cômodo para segurar do que o livro.  Posso recorrer ao dicionário ali mesmo dentro do livro. Posso marcar alguma coisa e mandar por e-mail, enfim, recomendo a todos.


Eu li com o ipad em Portrait, deitada, sentada, em pé.  Ele não é pesado, meu ipad é o 2 e eu acho ele leve e prático em comparação a livros grossos.  Por exemplo, La isla bajo el mar tinha mais de 700  páginas, o que eu considero bem grosso, e tem as inconveniências do livro grosso quando a gente chega numa parte do livro que tem que dar uma forçada para ele abrir mais, com o ipad não tem isso.


Os livromaníacos podem sentir a falta do cheiro do livro, mas posso dizer que compensa. Outra vantagem também é que você pode ter mil livros dentro dele. Eu adoro tecnologias e o ipad é transformador.


9 de abril de 2013

A Ilha sob o Mar: Isabel Allende




Tendo como pano de fundo o Haiti do século XVIII, A ilha sob o mar, da escritora chilena Isabel Allende, entra em discussão no encontro do Clube de Leitura Icaraí do dia 5 de abril, das 19h às 21h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9 –Icaraí – Niterói). A entrada é franca.
O romance narra a história de Zarité, uma escrava vendida aos nove anos para um dos maiores produtores de cana-de-açúcar das Antilhas e de quem mais tarde se torna amante. Mesmo sem sofrer maus-tratos, Zarité acompanha de perto o sofrimento de seu povo. Quando a revolução haitiana explode contra os colonizadores franceses, ela tem a oportunidade de fugir e recomeçar a vida em outro país.

Sobre a autora- Isabel Allende nasceu no Peru, mas considera o Chile a sua terra natal. É considerada uma das principais revelações da literatura latino-americana da década de 1980. Seu livro A casa dos espíritos (1982) foi adaptado para o cinema americano. A ilha sob o mar é o 16º romance publicado de Isabel Allende.




Erzuli me deu como céu
a ilha sob o mar
lá guardo meus mortos
lá meus mortos me aguardam
justos sonhos de ser gente
germinam e florescem
longe do açúcar vermelho.
Nossos pés sem calos se acariciam
numa eterna dança de pássaros
que voam no chão da terra
invertidos
livres
prontos para o amor.


Rita Magnago


* * *


E nos dias de hoje, mais de dois séculos após as histórias contadas no romance, e de cerca de 150 anos do assassinato de Lincoln ...




* * *

"Sobre esse livro A Ilha Sob o Mar... hummmmmm... Meu resumo é o seguinte: é um "Leque Secreto" afro-centroamericano... Só não tem pézinho quebrado pra caber no sapatinho mínimo, mas tem todo o resto, até a guerra que mata aos montes, as doenças que dizimam, os casamentos arranjados, o sofrimento feminino, a brutalidade masculina... Apenas sai o velho Oriente e entra o "Novo Mundo". Saem os olhos puxados e entram os negros. Sai a Flor da Neve e entra a Cana do Sol" (novaes /)


* * *



"Sentia que sua vida era uma navegação sem timão nem bússola, encontrava-se à deriva, esperando algo que não sabia nomear"





E se um dia se acabar

minha sacola de sonhos

vou ter que "costumizar"


meus pesadelos medonhos.


Ilnéa




* * *

"A Ilha Sob o Mar, dentre os de Isabel é o que eu gosto muito. Fiz a resenha no meu blog. Quem quiser dá uma olhada. Eu o li e confesso que já não acho tão legal, mas vale como ensejo para discussão." (Roberto)


* * *


Louisiana

* * *

"É uma leitura que nos envolve desde as primeiras páginas até as finais com um gosto enorme por saber mais e mais da história." (Sonia)



7 de abril de 2013

Clube do Conto - O Barqueiro: Hélio José Lima Penna



            O menino deixou o barco para explorar mais uma das casas inundadas com a cheia do rio Boca Grande.  Moisés, o barqueiro, o aguardava esperançoso de encontrar algo de mais valor.



        O rio transbordou no início da manhã, depois das violentas chuvas. A fúria da água partiu o dique e seguiu feroz, carregando árvores, gente, animais, móveis, lama e morte para o centro de Matozinho, o pequeno município.  Os moradores que escaparam da enxurrada abandonaram as suas casas, carregando o que podiam.

            O menino retornou ao barco com as mãos vazias. Continuaram a viagem pela rua principal, agora um braço do rio. Um televisor vinha boiando. Moisés movimentou depressa o remo para agarrar o aparelho. Na sua mercearia havia um idêntico, no qual ele e os fregueses assistiram as imagens da enchente no município vizinho, no ano anterior. “Taquaral tá parecendo um cemitério. O povinho sem sorte. É lugar cheio de pecados”, ele dissera para a freguesia, fixa na televisão que o rio roubaria no ano seguinte.

            Passavam agora pela igreja. Moisés acreditava que qualquer igreja guardava preciosidades. Mas o menino, devoto de São Benedito, negou-se a invadir a morada do santo. Diante da recusa, o barqueiro saltou do barco, muito aborrecido. Esforçou-se, mas não sabia nadar. Voltou ofegante. O moleque ria dele.  Teve ódio do garoto. Maldito! Imprestável! Mergulhava no Boca Grande e não prestava para pular naquela aguinha por causa do santo. Filho de seu ninguém! Vivia ao léu nas ruas de Matozinho. Aos cuidados de um e de outro. Nunca que voltasse a sua mercearia. Nunca que lhe pedisse um vintém. Pedisse a São Benedito, o santo preto que não impediu que a água tomasse a igreja dele.



Mais à frente, surgiu o prédio da Prefeitura, que ficava no ponto mais alto da cidade e serviu de abrigo à população. Antes, foi preciso enfrentar os seguranças do prefeito, numa batalha sem precedentes na história de Matozinho. Mulheres e homens, armados de paus, pedras, cachorros, dentes, facas e fúria atacaram os paus-mandados e tomaram o edifício. E ali acamparam com suas crianças e seus poucos pertences.

 Ao avistar o prédio municipal, Moisés lembrou-se, envaidecido, do dia em que o prefeito o convidou para representar o comércio na inauguração do dique. Foi uma solenidade com feriado, desfile dos funcionários e dos estudantes, banda de música, fogos, discursos e a promessa de que o helicóptero do governador pousaria no dique. A autoridade municipal acreditava que a presença do governador calaria os que se opunham à obra. Mas o piloto não conseguiu assentar a nave na construção.  O prefeito garantiu, no entanto, que a barragem era segura e que ele mesmo e a família fariam um passeio no topo da construção, para calar os opositores contrários ao progresso de Matozinho. O menino também se recordou da festa. Seus olhos se alegraram com a centena de balões que subiram pro céu, feito pipas coloridas. Ficou impressionado com o tamanho e a beleza do helicóptero que, ao alcance das mãos, sobrevoou várias vezes a cidade e fez acrobacias para descer no dique.



            O barco movia-se. Adiante avistaram a padaria. Uma parte estava sob as águas. Moisés pensou que ali poderia haver um cofre. O menino nadou e foi espiar pelo basculante da loja:
            - Não dá pra ver nada não.
            - Entra ai, homem... pelo basculante.
            - Não dá pra entrar aqui não, Seu Moisés... tá cheio de água.
            - Entra ai, garoto, deixa de besteira!
            - Tá escuro...
            - Entra!
            - Não!
 O barqueiro, enraivecido, move a canoa. O menino o chama:
            - Seu Moisés, Seu Moisés...
            O barqueiro segue remando a sua crueldade.

             
           

4 de abril de 2013

Da série temática Sonhos que não sonhamos (1)


S o n h o s    q u e    S o n h e i
(by Vera Lúcia Freire)

  
Queria poder falar,
Pra poder eternizar,
Os sonhos que ainda sonho,
E assim me apaziguar.

Sonho sonhos conturbados,
De amores mal amados,
De temores acanhados,
Que teimam em atormentar.



Ter a alma sonhadora,
Tem, por certo, um preço alto,
Pagamos com nossos sonhos,
Percalços e sobressaltos.

Que fazer se minha sina,
É viver de sonhador,
Já desde pequenininha,
Que carrego esse andor.


É verdade que sonhando,
Viajo dentro de mim,
Sou mares, terras e, voo,
Me perco e me acho, enfim.

Os sonhos que não sonhei,
Certamente vou guardar,
Pra sonhar aos pedacinhos,
E assim me lambuzar !



Resenhando “Viagem no Ventre da Baleia” – de Raimundo Carrero, Editora Tempo Brasileiro, 140 páginas


(por: W.B.)

Religiosidade, culpa, política, violência são os temas principais de “Viagem no Ventre da Baleia”, romance que conta principalmente a história de Jonas, Miguel e coronel Salvador Barros.

O romance se inicia com padre Paulo enfrentando a difícil situação de manter a paz do lugarejo onde o conflito sangrento entre camponeses e o dono de terras Salvador Barros parece inevitável. Miguel tenta lutar pelos campesinos, mas os meios pacíficos que usa são apontados como ineficientes. Jonas opta desde o princípio pelo confronto armado e incita os lavradores à luta.

Os dias vão se passando, a tensão crescente no vilarejo.

No meio do texto surge um pontilhado que ocupa duas linhas, e aí se inicia uma narrativa paralela em primeira pessoa, que, apesar da pontuação comum, segue toda em letra minúscula e num só parágrafo contínuo. Depois há novamente o pontilhado de duas linhas e se retorna ao estilo textual anterior. Isso se dá várias vezes ao longo do livro, e o leitor entende que os trechos contínuos em minúsculas são a confissão do Coronel Salvador Barros entrecortada à história.

Miguel, em vários momentos, folheia uma caderneta de lembranças onde anotou citações bíblicas, pensamentos religiosos e políticos, bem como acontecimentos de sua vida. Partes desse caderno também passam a integrar o romance, enriquecendo ainda mais a narrativa e trazendo passagens da vida de Miguel e Jonas, amigos desde muito tempo. Tais recursos, usados com a conhecida mestria de Carrero, resultam num romance substancioso e profundo.

(RAIMUNDO CARRERO AINDA NÃO FOI DEBATIDO PELO CLUBE DE LEITURA ICARAÍ)

1 de abril de 2013

O “poema de Maiakóvski” que tem DNA de Niterói


Dizem que em alguma parte, parece que diante de um livro, existe um homem feliz...


novaes/

Há uma sequência de coincidências nesta postagem, como se um karma houvesse determinado que hoje, dia 1º de abril de 2013, no aniversário de 49 anos do golpe militar de 1964, Niterói e o poeta futurista russo Vladimir Maiakóvski iriam se encontrar aqui, no blog do Clube de Leitura Icaraí, lugar de literatura, ideias e liberdade. O “dia da mentira” e a verdade sobre um poema ainda mal explicado marcaram encontro aqui, hoje.

Maiakóvski (foto) nasceu na Rússia Czarista (1893) e morreu na Rússia Soviética, em 1930. Entre uma coisa e outra, engajou-se com os bolcheviques e ainda menor de idade já havia sido preso três vezes pela polícia do czar. Escrevia poemas, elaborava cartazes, panfletos, o que fosse necessário. Não era um poeta das elites, era um poeta do povo, visceral, apaixonado. Aprendeu a ler quase sozinho, como explicou nos versos “Eu aprendi o alfabeto nos letreiros / folheando páginas de estanho e ferro”. No inverno de 1914, enojado com as notícias da guerra, descreveu sua repugnância desta forma: “Ah, fechem, fechem os olhos dos jornais”. Em 1917, quando operários, camponeses e soldados invadiram os palácios para derrubar a monarquia czarista, cantavam versos de Maiakóvski: “Come o ananás, mastiga a perdiz / teu último dia chegou, burguês!”

Foi este sonhador que, sem nunca ter vindo ao nosso país, em 1913 saiu-se com essa: “Dizem que em alguma parte, parece que no Brasil, existe um homem feliz”. Foi um dos líderes do movimento futurista russo. Pode-se fazer um paralelo entre o futurismo russo e o modernismo brasileiro, de certa forma, pela recusa aos estilos formais e acadêmicos então vigentes. Mas em Maiakóvski o futurismo ganhava um tom revolucionário, tanto na forma quanto no conteúdo. Escreveu o poeta: “Espero / tenho fé / que jamais / jamais passarei pela vergonha / de me acomodar”.

Por todo esse histórico, nas últimas décadas correram pela internet os versos abaixo, atribuídos a Maiakóvski:

Na primeira noite, eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Ocorre que este é um engano comum. Os versos acima são um fragmento do poema “No caminho, com Maiakóvski”, publicado em 1968 pelo niteroiense Eduardo Alves da Costa. Era um libelo contra o arbítrio, que se tornou bandeira contra o regime militar, ganhou o mundo e virou pôster em cidades como Praga, Paris, Londres, entre outras. Foi transformado em “corrente” na internet, mas sempre com a autoria errada. Maiakóvski principalmente, mas Brecht, Gabriel García Márques e até Jung já foram citados como autores. Mas o DNA destes versos famosos é, na verdade, de um niteroiense radicado em São Paulo.

Então hoje, 1º de abril, estamos aqui no Clube de Niterói, digo, Clube de Leitura Icaraí, falando de mentira e de verdade, de ditadura e de liberdade, de um russo e de um niteroiense unidos pela poesia, essa misteriosa criação humana, uma “arma” poderosa não porque seja capaz de matar, mas pela vida que é capaz de expressar e defender.

Sonhos que não sonhamos


Nosso clube já construiu dois contos conjuntos (Carnaval e Páscoa), ofereceu diferentes finais a uma crônica de Affonso Romano de Santanna (A mulher madura) e enviou dezenas de textos para publicação da Antologia CLIc 15 anos. É chegada a hora de aumentar o desafio.


 A proposta agora é cada um fazer um texto seu, sob qualquer formato (poesia/conto/crônica/ensaio), considerando Sonhos que não sonhamos como tema comum, escolhido pela maioria no post-teaser. Não há limites de páginas, pode ser desde um verso/parágrafo até quanto a imaginação permitir. Teremos todo o mês de abril para essa produção.

Será delicioso vermos, materializadas na escrita, as diferentes opiniões que expressamos verbalmente sob algum tema estimulante. Então, libere a imaginação, escreva, sonhe e realize.


O vídeo que segue é uma inspiração, linda música do Caetano que conta uma senhora história que poderia ser o sonho de tantos... Espero que gostem.



P.S: Essa ideia surgiu no sábado, 23/3/13, lendo uma matéria sobre Vargas Llosa no caderno Prosa. Lá diz que Carlos Fuentes, na década de 60, sugeriu aos colegas escritores latinoamericanos que colaborassem em um livro chamado “Os pais da pátria”, no qual cada escritor criaria uma narrativa sobre um tirano histórico em seu país. Embora o projeto não tenha ido adiante, inspirou romances consagrados nos anos seguintes, como ‘O outono do patriarca’, de GGM, ‘Eu, o supremo’, de Augusto Roa Bastos e ‘Conversa na Catedral’, do peruano já citado. Já pensou se acontece algo parecido por aqui? Uau!