CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de junho de 2016

Tiro de misericórdia: Flávio Ricardo Vassoler




Trechos do prefácio do livro, escrito pelo Prof. Dr. Daniel Puglia:

.“‘Tiro de Misericórdia’, de Flávio Ricardo Vassoler, é um livro perturbador, essencial. Não deve ser lido por todos aqueles que desejam permanecer anestesiados. Os espíritos assumidamente sensíveis devem evitar suas páginas. As almas autoindulgentes correm o risco de ficar ligeiramente enojadas. Os dogmáticos podem ser acometidos por momentâneos surtos de irritação. Tudo porque a sofisticação que flui ao longo dos textos não aplaca, não suaviza, nem acalenta. Em vez disso, oferece pequenos exercícios de violência domada pela força da linguagem – uma linguagem que é a razão em movimento. Como se lançasse pequenas cartas de punhos cerrados contra nosso tempo, um tempo que acolhe os mais variados irracionalismos, todos eles bastante ferozes, pouco receptivos ao gesto que ilumina e explica. Como se endereçasse sua violência comedida ao futuro, ao horizonte que estivesse preparado para uma nova comunidade – ainda que em nova desordem, talvez menos iníqua, possivelmente mais bela, e muito mais complexa. Por isso os punhos estão cerrados. Contudo os leitores perceberão que sua poesia anseia por um momento em que o soco possa ser desarmado, em que as mãos abandonem a defesa como estratégia de ataque e, finalmente, toquem uma realidade passível de ser transformada. Por outro lado, parece ser um anseio antes poético que político – ainda assim, um pedido de atenção, um aviso de incêndio. Mas para isso os sensíveis, os autoindulgentes e os dogmáticos terão de estar preparados para abandonar suas posições de combate. Sabemos da dificuldade dessa mudança. Entretanto, tudo isso não quer dizer que a pedagogia a golpes de martelo que emerge de cada sentença e de cada trecho não possa eventualmente oferecer alguma ajuda aos indiferentes convictos. Antes de morrerem de fato, os coniventes com o sistema em que vivemos bem podem aproveitar uma ou outra chance para recuperar algum traço de humanidade. Seja como for, ‘Tiro de Misericórdia’ é um sol de agonias: oferece suas inúmeras dúvidas a todos os que já tropeçamos demais em infindáveis certezas. E todos os que desejamos o horizonte preparado para uma nova comunidade teremos de saber lidar com esse sol de agonias”.
“O narrador faz flamejar um vasto material: aforismos, poemas em prosa, ensaios de cunho ficcional, ficções com tom ensaístico, todos talvez mais bem agrupados pela provisória classificação de fragmentos. O conjunto em sua totalidade é notável. Revela a saudável ambição de trafegar pelos mais variados assuntos, sempre com certa tinta de melancolia. Jamais sisuda, nunca trombuda, apenas fiel às horas escuras que ainda enfrentamos. O caleidoscópio de fragmentos revela, assim, algumas das preferências do narrador: um encantamento cada vez mais raro por obras e autores, um embate corpo a corpo com a literatura, uma mistura contínua de vida mediada pela arte e da arte enriquecida pela vida. Caminhamos por um bosque onde as observações a respeito de um livro, de um filme ou de uma ocorrência cotidiana adquirem todas as sombras, todos os rumores das copas das árvores as quais, quando crianças, observávamos em deleite, vislumbrando vez por outra os raios de sol que, atravessando as folhagens, pareciam tocar nossa face e revelar os mistérios do universo. O ímpeto de descoberta está presente em cada um dos fragmentos. O bosque é imenso, penumbra e luz mescladas, pois tem a dimensão das memórias que somos induzidos a esquecer, a talvez sequer observar, no eficiente trabalho de adestramento social, do esforço disciplinar da falsa maturidade útil, instrumental. Em virtude disso, o narrador dos fragmentos, construtor do bosque, é movido por um impulso contraditório: a energia verbal e vocabular carrega afinidades com a sagacidade infantil e seu destemor frente aos aparentes enigmas; porém as conclusões desenham a silhueta idosa, de um olhar absorto na chama que se extingue em restos, cinzas, e vazio. Se não estivermos errados em nossa percepção, existe no narrador uma luta – quem sabe reverberando antagonismos mais amplos, que emolduram todo o livro e seu funcionamento interno –, uma luta nada velada entre forma e conteúdo, entre a elaboração estética e o seu teor de verdade. Derrotadas todas as esperanças de redenção na vida real, restaria o consolo do pensamento que questiona a si mesmo. A palavra e o estilo elevados ao grau de templo onde deve ser velado o corpo das desilusões políticas. Entre a frase vívida e a ação prática mortificada residiria a chave do mistério: a charada insolúvel da assim chamada condição humana”.




Sobre o autor:
Flávio Ricardo Vassoler é escritor e professor universitário. Mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, é autor de O Evangelho segundo Talião(Editora nVersos, 2013) e organizador de Dostoiévski e Bergman: o niilismo da modernidade(Editora Intermeios, 2012). Apresentador do Espaço Heráclito, um programa de debates políticos, sociais, artísticos e filosóficos com o espírito da contradição entre as mais variadas teses TV Geração Zwww.tvgz.com.br. Periodicamente, atualiza o Portal Heráclitowww.portalheraclito.com.br, e o Subsolo das Memórias,www.subsolodasmemorias.blogspot.com, páginas em que posta fragmentos de seus textos literários e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo. E-mail: within_emdevir@yahoo.com.br e antíteses – para assistir ao programa, basta acessar a página da 

28 de junho de 2016

Livro: A eternidade e o desejo, de Inês Pedrosa

Olá queridos!
Segue o post que publiquei no meu blog Mar de variedade.

Esse foi o livro do mês do Clube de Leitura Icaraí. Gostei muito da leitura!

Sinopse: "Clara é uma jovem professora portuguesa que decide voltar a Salvador anos após uma terrível experiência na cidade: ao tentar salvar das balas o homem que amava, levou um tiro que a deixou cega.
Regressa ao Brasil para seguir as pegadas de padre Antônio Vieira, buscando conforto e inspiração em seus sermões, ao mesmo tempo que relembra o passado e começa, lentamente, a mergulhar no sincretismo religioso baiano. Na viagem, é acompanhada por Sebastião, amigo que lhe empresta a visão das coisas e das cores, e que não pode viver sem ela, apesar de não ser correspondido em sua paixão.
Guiando-se pelos textos sacros, inspirada pela força sensual de Salvador e seus contrastes, Clara irá reencontrar um caminho para a vida. E, acima de tudo, descobrir um novo significado para o amor e o desejo."



A discussão sobre o livro foi interessante, pois houve uma diversidade de opiniões. Alguns gostaram muito, como foi o meu caso, outros acharam a leitura difícil, enquanto alguns se encantaram apenas com as passagens de Sermões do Padre Antonio Vieira.
Eu achei o livro belíssimo, de fácil leitura e compreensão.
O livro é dividido em duas partes: 1- Eternidade; 2- Desejo.

Na primeira parte, a Clara está em busca de respostas para o que aconteceu com ela no passado. Ela perdeu um amor e ficou cega. Ela resolve seguir uma excursão, em que o pretexto da viagem é o itinerário do Padre Antonio Vieira. 
A Clara é acompanhada por Sebastião, amigo que é apaixonado por ela, mas não é correspondido. 
O livro ora é narrado por Clara, ora por Sebastião. As falas são intercaladas com passagens dos Sermões do Padre Antonio Vieira. Cada uma dessas passagens tem relação com o que está acontecendo com a protagonista e o seu amigo. 
A escrita da autora é muito bonita e poética.
As narrativas do Sebastião são pura poesia e declarações de amor para a sua amada, Clara. 
Uma fala do Sebastião que achei muito bonita é essa, em que ele fala enquanto a Clara está dormindo:

"...quero que o lume dos meus olhos derreta a porta do teu coração, quero que os meus olhos acendam os teus, dou-te os meus olhos, e dentro deles o rio da minha sede, um rio curvo, cheio, como o teu corpo, cegaria para todo o sempre por ti, Clara, para ficar às escuras dentro de ti." (p. 47)

A Clara vê o mundo através do olhar do Sebastião, o que também é interessante e poético.
Nessa parte, a Clara conhece e se encanta pelo sincretismo religioso baiano. 

Na segunda parte, a Clara já encontrou algumas respostas, então começa a parte do Desejo. 

Não posso contar muito para não dar spoiler para quem ainda não leu o livro, mas acho que é uma leitura que vale a pena, tanto pela história, quanto pela escrita poética da autora. Além disso, aprendemos um pouco mais sobre a Bahia e sobre o Padre Antonio Vieira. 



Recomendo!

27 de junho de 2016

Envolvimento e alienação: Norbert Elias

Há uma lenda Maia relatando que no final dos tempos potes, panelas e todos os outros utensílios domésticos vingariam as batidas, empurrões e esfregadelas sofridas e, por sua vez, bateriam e empurrariam as pessoas por todos os lados.




Às vezes os membros das sociedades mais desenvolvidas parece acreditar que o âmbito mais amplo, o menor teor de fantasia e o maior realismo de seu conhecimento são devidos não à sua posição na ordem sequencial do desenvolvimento social, mas a certas qualidades pessoais superiores - de "racionalidade", "civilização" ou "autocontrole" - inerentes à sua própria natureza e que os indivíduos das fases primitivas, incluindo seus ancestrais, não possuíam ou não possuem, ou, então, só possuem em pequenas doses.


Problemas e dificuldades também podem ser encontrados em nível e em forma diferente no prolongado debate acerca do relacionamento de "indivíduo" e "sociedade". Mais uma vez parece ter-se ficado diante da escolha entre duas alternativas insatisfatórias. Por mais que se tente alguma espécie de compromisso, no geral as opiniões estão até agora dispostas em dois campos mais ou menos irreconciliáveis. É possível se aproximar daqueles que pensam as sociedades como coleções ou massas de indivíduos e de suas propriedades e de seu desenvolvimento, como mero resultado de intenções e atividades individuais; ou daqueles que pensam as sociedades, os processos sociais em seus vários aspectos, mais ou menos como se, de certa forma, existissem fora e apartados dos indivíduos por que são formados.


Há em todos os grupos um ponto além do qual nenhum de seus membros pode avançar em sua alienação sem parecer e, no que diz respeito ao grupo, sem se tornar um perigoso herético, não importa o quanto as suas ideias ou suas teorias possam ser consistentes, internamente e em relação aos fatos observados, nem o quanto possam estar próximas daquilo que denominamos "verdade".



  A questão que desafia aqueles que estudam algum aspecto dos grupos humanos é a de como manter seus dois papéis, de participantes e de pesquisadores, clara e consistentemente separados e, enquanto grupo profissional, estabelecer em seu trabalho a incontestável predominância do último. 





Este livro focaliza, sobretudo, a sociologia do conhecimento, embora contribua para as teorias do processo civilizatório e da formação dos Estados, além de elucidá-las. O autor, Norbert Elias, apresenta suas reflexões sobre assuntos como a guerra fria e a corrida armamentista, e, acima de tudo, demonstra inequivocamente que a teoria do processo civilizatório não é uma roupagem moderna da teoria do progresso linear.






Norbert Elias

23 de junho de 2016

Lançamento do Livro Dentro das Palavras, de Inês Drummond

Olá queridos!
Esse é o post que fiz no meu blog Mar de Variedade.
Hoje foi dia de lançamento do livro da escritora e participante do Clube de Leitura Icaraí, Inês Drummond.
Esse é o seu segundo livro: Dentro das Palavras.
A autora, que é formada em Letras e Comunicação Visual, já escreveu também Des-Caminhos em 2014 e participou da Antologia "Gavetas Acesas", em 2015.


Pude participar desse lançamento, juntamente com alguns amigos do CLIc, bem como de outros convidados da autora, que aconteceu no Empório Del Gusto, em Icaraí, Niterói-RJ.

Eu com a querida escritora à esquerda e com Elenir, à direita

Esse é um livro que é dividido em verso e em prosa.
A primeira parte contém poemas sobre várias situações da vida, escritos com muita sensibilidade.
Na segunda parte, em prosa, são pequenas histórias escritas de forma poética, também. 

É o tipo de livro para se ter na cabeceira e saborear as palavras aos poucos.

"Convite

Quem estamos nos tornando?
Aonde vamos com tanta pressa
Além do nosso próprio encontro?
Melhor mesmo
É reaprender a caminhar.
Mover-se com graça
Resgatar um pouco
Da beleza
Da delicadeza.

Eu sei,
Às vezes a vida cansa
Esmaga a gente
Mas, aí a gente dança
Deixa acontecer o encontro
Da terra com o espírito
Firma pactos
E experimenta um sorriso de criança."
(p. 35)



Recomendo!

21 de junho de 2016

As incursões portuguesas na costa africana


Por Wagner Medeiros Junior

Ao final da Primeira Dinastia portuguesa, a de Borgonha (1139-1383), o território que compreende hoje Portugal já estava estabelecido. Sua reconquista começou pelo Condado Portucalense, de onde D. Afonso Henrique obteve sucessivas vitórias sobre os mouros, que desde o início do século VIII dominavam a Península Ibérica. D. Afonso Henrique foi aclamado rei em 1139, após vitória contra os muçulmanos na batalha de Ourique. Porém, a independência de Portugal só seria reconhecida pelo Reino de Leão e Castela em 5 de outubro de 1143.
O território constituído era extremamente carente de recursos naturais, com raríssima presença de metais preciosos e poucas terras férteis apropriadas à agricultura, o que tornava dramático o provimento de cereais por ocasião das adversidades climáticas e da incidência de pragas. Os mais pobres, durante esses períodos, chegavam ao limiar da própria sobrevivência. Outros fatores adversos eram a localização geográfica, que restringia a expansão do comércio com as grandes potências européias, e a dominação do Mediterrâneo pelos turcos e italianos.
O historiador português Bernardo Vasconcelos e Sousa, em História de Portugal, diz que Portugal estava, de fato, entalado entre o poderoso vizinho e o mar, confinado num espaço periférico. À época, a única via possível de buscar um caminho próprio era o mar. E desde há muito o mar ocupava um lugar de grande importância na vida do reino. A extensão da costa, a participação direta das populações do litoral em atividades marítimas como a pesca, a extração do sal e até a familiarização com o vaivém de embarcações... tudo concorria para uma relação de proximidade com os elementos marinhos.
Não foi ao acaso, portanto, que os portugueses se lançassem ao mar em busca de riquezas e de novos recursos. O primeiro grande impulso à expansão marítima portuguesa ocorreu no reinado de D. João I (1385-1433), com a conquista de Ceuta, no norte da África, em 1415. É a partir de Ceuta que o Infante D. Henrique, quinto filho de D. João I, inicia a exploração da costa ocidental africana penetrando em territórios e em regiões do Atlântico antes desconhecidas.
Ao conquistar Ceuta os portugueses saqueiam todas as riquezas encontradas e instalam uma linha de defesa de onde passam a praticar o corso contra embarcações muçulmanas em toda a entrada do Mediterrâneo. Com esse alargamento da navegação, em 1418 é encontrada a ilha de Porto Santo e em 1419 a ilha de Madeira. Tais triunfos valeriam a nomeação de D. Henrique como administrador da Ordem de Cristo, em 1420.
Na sequência, as frotas portuguesas chegam aos arquipélagos dos Açores e de Cabo Verde, enquanto no continente são instalados aparatos bélicos e de coerção e construídas as primeiras feitorias, para a efetivação do comércio com os africanos. 
O início do movimento comercial, entretanto, envolveu a aquisição e transporte de uma centena de escravos, ouro e alguns produtos exóticos. Supõem-se que entre meados do século e XV e 1530 os portugueses terão transportados a partir destas paragens cerca de 150 mil escravos, conforme fonte já mencionada. Outro produto com valor comercial extraído da África era o marfim. Em contrapartida às trocas com os africanos os portugueses forneciam cavalos, tecidos e trigo, entre outros produtos.

Em 1460, ano da morte do D. Henrique, os navegantes lusitanos já haviam ultrapassado o obstáculo do cabo Bojador e conheciam, além deste ponto, cerca de 2 mil quilômetros no sentido sul da costa, o que facilitou Diogo Cão chegar ao estuário do Rio Zaire e aos limites de Angola. Depois, Bartolomeu Dias dobra o cabo da Boa Esperança, em janeiro de 1488, e Vasco da Gama aporta na Índia em maio de 1498, abrindo, assim, um novo caminho de comércio com o oriente.

Visite o blog: 

Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior

17 de junho de 2016

O desaparecimento: Rudolf Bickel

Não tenho mais condições físicas de encarar grandes desafios. Que leitura! Rudolf Bickel constrói uma boa trama de suspense acredito que baseado na sua longa experiência de policial. Um exímio contador de histórias!

No entanto, há muita forçação de barra nessa ficção! O garoto acha que vai virar um piloto de F-1 da noite pro dia, até aí tudo bem, eu achava que era devaneio dele, mas - acreditem se quiser! - ele se inscreve na última hora e ganha a primeira corrida sem ter nunca participado de um treino sequer com o carro. Bem, nem tudo é mágico, e a história se torna um thriller instigante na volta do garoto pro Brasil acompanhado da noiva e da amante. A amante se revela para a noiva e segue daí uma sucessão improvável de acontecimentos que acaba levando nosso herói para uma penitenciária onde ficará trancafiado por muitos anos.

Há alguns pontos fracos no enredo, por exemplo, o de achar que fabricação caseira de peças de ferro numa fundição de fundo de quintal no Brasil possa interessar a uma escuderia italiana de fórmula 1. E outra coisa que me pareceu uma falha geográfica na história, posso estar enganado, mas não me consta que o Tâmisa seja na Itália!

Maceió - onde a farsa se consuma

ERA MELHOR NÃO TER COMEÇADO

Nunca damos muita importância a como as coisas começam em nossa vida. Quando nos damos conta, já estamos completamente envolvidos, e as coisas parecem que ganham vida própria . Tornamo-nos quase autômatos com o desenrolar dos acontecimentos. 

Erechim - Rio Grande do Sul

Cuidado com o que você deseja. Pode tornar-se realidade!


14 de junho de 2016

Recordando - O ano da morte de Ricardo Reis: José Saramago

O melhor livro de 2013 lido no Clube de Leitura Icaraí segundo os leitores



Quero dos deuses só que me não lembrem,
Serei livre -- sem dita nem desdita.
Como o vento que é a vida 
Do ar que não é nada.
O ódio e o amor iguais nos buscam: ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.
A quem deuses concedem
Nada, tem liberdade.



SEGUE O TEU DESTINO
(Ricardo Reis)

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dora nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

(Quando fui outro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006, p 71)



José Saramago dá continuidade à história de Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, em O ano da morte de Ricardo Reis, romance que tem como pano de fundo o início das ditaduras fascistas na Europa, na década de 1930. O livro entra em debate no encontro do Clube de Leitura de Icaraí, no dia 7 de junho, de 19 às 21h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9 – Icaraí – Niterói). A entrada é gratuita.

Através de dados biográficos deixados por Fernando Pessoa, Saramago constrói a história de um médico português que vive no Brasil, mas que retorna a sua terra natal após 16 anos distante. O ano é 1936, o mesmo em que Fernando Pessoa faleceu. Quando chega a Portugal, Ricardo Reis se hospeda em um hotel, onde começa a se relacionar com o fantasma de Pessoa, com quem o personagem trava longas conversas.



A primeira frase do romance “aqui acaba o mar e a terra principia”, é uma alusão ao canto terceiro, estrofe vigésima da epopeia “Os Lusíadas”:

"Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.

Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora, e lá na ardente
África estar quieto o não consente.”

--

“The God of labyrinth” de Hebert Quin não é nada mais do que um conto de Jorge Luis Borges 
(e aqui temos um caso de um livro dentro de outro livro).


O mundo não é verdadeiro,
mas é real.

(Fernando Pessoa)




"... em todas as ocasiões se encontra alguém para dar opiniões, mesmo quando não lhe são pedidas." (p. 417)

* * *

Vida Grata

Feliz aquele a quem a vida grata
Concedeu que dos deuses se lembrasse
E visse como eles
Estas terrenas coisas onde mora
Um reflexo mortal da imortal vida.

(Ricardo Reis)


* * * 

“Neste livro nada é verdade e nada é mentira”. (Saramago)



* * *


"Chove lá fora, no vasto mundo, com tão denso rumor é impossível que, a esta mesma hora não esteja a chover sobre a terra inteira, vai o globo murmurando águas pelo espaço, como pião zumbidor, E o escuro ruído da chuva é constante em meu pensamento, meu ser é a invisível curva traçada pelo som do vento, que sopra desaforado, cavalo sem freio e á solta, de invisíveis cascos que batem por essas portas e janelas, enquanto dentro deste quarto, onde apenas oscilam, de leve, os transparentes, um homem rodeado de escuros e altos móveis escreve uma carta compondo e adequando o seu relato para que o absurdo consiga parecer lógico, a incoerência rectidão perfeita, a fraqueza força, a humilhação dignidade, o temor desassombro, que tanto vale o que somos como o que desejaríamos ter sido, assim o tivéssemos nós ousado quando fomos chamados a contas, sabê-lo já é metade do caminho, basta que nos lembremos disto e não nos faltem as forças quando for preciso andar a outra metade."




Sábio é o que se Contenta com o Espetáculo do Mundo  


 

Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo,
          E ao beber nem recorda
          Que já bebeu na vida,
          Para quem tudo é novo
          E imarcescível sempre.

Coroem-no pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
          Ele sabe que a vida
          Passa por ele e tanto
          Corta à flor como a ele
          De Átropos a tesoura.

Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
          Que o seu sabor orgíaco
          Apague o gosto às horas,
          Como a uma voz chorando
          O passar das bacantes.

E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
          E apenas desejando
          Num desejo mal tido
          Que a abominável onda
          O não molhe tão cedo.

Ricardo Reis, in "Odes"

 

* * *


    Ricardo Reis lê os jornais. Não chega a inquietar-se com as notícias que lhe chegam do mundo, talvez por temperamento, talvez por acreditar no senso comum que teima em afirmar que quanto mais as desgraças se temem menos acontecem, Se isto assim é, então o homem está condenado, por seu próprio interesse, ao pessimismo eterno, como caminho para a felicidade, e talvez, perseverando, atinja a imortalidade pela via do simples medo de morrer. Não é Ricardo Reis como John D. Rockefeller, não precisa que lhe peneirem as notícias, o jornal que comprou é igual a todos os outros que o ardina transporta na sacola ou estende no passeio, porque, enfim, as ameaças, quando nascem, são, como o sol, universais, mas ele recolhe-se a uma sombra que lhe é particular, definida desta maneira, o que eu não quero saber, não existe, o único problema verdadeiro é como jogará o cavalo da rainha, e se lhe chamo verdadeiro problema não é porque o seja realmente, mas porque não tenho outro. Lê Ricardo Reis os jornais e acaba por impor a si mesmo o dever de preocupar-se um pouco. A Europa ferve, acaso transbordará, não há um lugar onde o poeta possa descansar a cabeça. Os velhos é que andam excitados, e a tal ponto que resolveram fazer o sacrifício de comprar o jornal todos os dias, ora um, ora outro, para não terem de esperar pelo fim da tarde. Quando Ricardo Reis apareceu no jardim a exercer a caridade habitual, puderam responder-lhe, com altivez de pobre afinal mal-agradecido, Já temos, e ruidosamente desdobraram as folhas largas, com ostentação, assim mais uma vez se provando que não há que fiar na natureza humana.



   
    "A treze de Maio, na Cova de Iria, de súbito faz-se um grande silêncio, está a sair a imagem da capelinha das aparições, arrepiam-se as carnes e o cabelo da multidão, o sobrenatural veio e soprou sobre duzentas mil cabeças, alguma coisa vai ter de acontecer. Tocados de um místico fervor, os doentes estendem lenços, rosários, medalhas, com que os levitas tocam a imagem, depois devolvem-nos ao suplicante, e dizem os míseros, Nossa Senhora de Fátima dai-me vida, Senhora de Fátima permiti que eu ande, Senhora de Fátima permiti que eu veja, Senhora de Fátima permiti que eu ouça, Senhora de Fátima sarai-me, Senhora de Fátima, Senhora de Fátima, Senhora de Fátima, os mudos não pedem, olham apenas, se ainda têm olhos, por mais que Ricardo Reis apure a atenção não consegue ouvir, Senhora de Fátima põe neste meu braço esquerdo a tua mirada e cure-me se puderes, não tentarás o Senhor teu Deus nem a Senhora Sua Mãe, e, se bem pensasses, não deveria pedir, mas aceitar, isto mandaria a humildade, só Deus é quem sabe o que nos convém. 

     Não houve milagres. A imagem saiu, deu a volta e recolheu-se, os cegos ficaram cegos, os mudos sem voz, os paralíticos sem movimento, aos amputados não cresceram os membros, aos tristes não diminuiu a infelicidade, e todos em lágrimas se recriminam e acusam, Não foi bastante a minha fé, minha culpa, minha máxima culpa. Saiu a Virgem da sua capela com tão bom ânimo de fazer alguns feitos milagrosos, e achou os fiéis instáveis, em vez de ardentes sarças, trémulas lamparinas, assim não se pode ser, voltem cá para o ano." 

* * *


"Algumas crianças brincavam ao pé-coxinho, saltando sobre um desenho traçado a giz no chão, de casa em casa, todas com seu número de ordem, muitos são os nomes que deram a esse jogo, há quem lhe chame a macaca, ou o avião, ou o céu-inferno, também podia ser roleta ou glória, o seu nome mais perfeito ainda será jogo do homem, assim de figura parece, com aquele corpo direito, aqueles braços abertos, o arco de círculo superior formando cabeça ou pensamento, está deitado nas pedras, olhando as nuvens, enquanto as crianças o vão pisando, inconscientes do atentado, mais adiante saberão o que custa, quando lhes chegar a vez." (p.233)


* * *

Quero dos Deuses só que me não lembrem  

Quero dos deuses só que me não lembrem.
Serei livre — sem dita nem desdita,
Como o vento que é a vida
Do ar que não é nada. 

O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
Cada um com seu modo, nos oprimem.
          A quem deuses concedem
          Nada, tem liberdade.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa


* * *




13 de junho de 2016

A trégua: Mario Benedetti

O que achou quem leu?


1- "Grande livro/leitura, uma lição de vida! Eu não sei o que eu vi neste livro em especial, mas tive todos os sentimentos através da leitura. A ansiedade com a aposentadoria, uma certa impotência no relacionamento com os filhos... não vou falar mais porque muitos estão lendo neste exato momento. Temas maravilhosos a abordar." - Sonia;

2- "Gostei muito. Para mim, ele está entre os melhores livros lidos no CLIC." - Elenir;

3- " Livro bom demais!" - Rosa;

4- " Passagens memoráveis que o livro tem!" - Evandro

5- Já li e gostei muito. Nos faz refletir sobre a solidão dos idosos. (Zilka)

6- Não atendeu às minhas expectativas. (Rose);

7- Achei que o livro conseguiu transmitir muito bem os sentimentos de Santomé pelas pessoas à sua volta, além de conseguir retratar o seu cotidiano, os conflitos e a mudança da sua vida com um amor. O autor conseguiu, através do diário de um viúvo prestes a se aposentar, descrever sentimentos e emoções dos personagens. Boa leitura! Recomendo! (Andreia)

8- "Estou encantada com a leitura . Excelente livro . Gostei muito Poema" (Rita)

9- Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Meu Deus. Por que não me avisaram? Povo cruel, insensível. Fui dormir arrasado, moído, como se eu estivesse de verdade ali, naquela história, empaticamente ligado a Santomé. Não quero mais falar sobre o livro. Estou exaurido após uma leitura de dois dias, e estou aborrecido, chateado. Terminei ontem, às 22:00h, depois de ler mais de 100 páginas de um fôlego só. Não sei o que aconteceu, fui tomado por uma "compulsão emocional" depois do "Meu Deus". Que livro! Estava na minha estante há mais de um ano essa preciosidade. Como se dizia lá na minha terra, na minha infância, o livro me buliu todo. Não sei quem o indicou, mas agradeço profundamente. Hoje amanheci outro, já não sou o mesmo que começou a ler o livro. E isso é fantástico. Isso é a literatura! (Antonio)

10- Destaco as seguintes passagens - "Tomara que se sinta ao mesmo tempo protetor e protegido, uma das mais agradáveis sensações que o ser humano se pode permitir." e "...quando essa solidão se transforma em rotina, ele vai perdendo inexoravelmente a capacidade de sentir-se sacudido, de sentir-se viver. Mas vem Avellaneda e faz perguntas, e, sobre as perguntas que ela me faz, eu me faço muitas mais, e então sim, agora sim, sinto-me vivo e sacudido." (Vera);





Amor aos oitenta
é tudo o que eu gostaria.
Trégua em minha vida.
(Elenir)


As provocações de Antonio:

1ª) “Na segunda parte do meu festim, entram os jornais.


Há dias em que compro todos. Gosto de reconhecer suas constantes. (...). Como são diferentes e como são iguais! Entre eles, jogam uma espécie de truco, enganando uns aos outros, fazendo-se sinais, trocando de parceiros. Mas todos se servem do mesmo maço, todos se alimentam da mesma mentira. E nós lemos, e, a partir dessa leitura, acreditamos, votamos, discutimos, perdemos a memória, esquecemos generosa e cretinamente que eles hoje dizem o contrário de ontem, que hoje defendem ardorosamente aquele de quem ontem disseram coisas terríveis, e, o pior de tudo, que hoje esse mesmo aquele aceita, orgulhoso e ufano, essa defesa. (...). Para ver os jornais, é preciso baixar os olhos.”

2ª) “A trégua” é tem seu argumento central orientado pela questão do tempo. E por isso mesmo invoca a questão da memória e indaga sobre as incertezas e fragmentações a que as recordações estão sujeitas no transcorrer do tempo. O que recordamos tem o que de real?  

Aqui, e nunca me canso de lembrar, podemos invocar a magnífica frase de Gabriel Garcia Marquez: 

“A vida não é a que a gente viveu e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”

A provocação de Benedetti fica por conta da frase: 
“Afinal, a memória importa alguma coisa?” 

Blanca, a filha de Santomé, pode nos indicar uma pista: 
“Às vezes me sinto infeliz, só por não saber do que tenho saudade”





 “Ela me dava a mão e nada mais faltava. Bastava para que eu me sentisse bem acolhido. Mais que beijá-la, mais que dormirmos juntos, mais do que qualquer outra coisa, ela me dava a mão e isso era amor." (A trégua: Mario Benedetti)



“(...) a vida é muitas coisas (trabalho, dinheiro, sorte, amizade, saúde, complicações), mas ninguém vai me negar que, quando pensamos nessa palavra Vida, quando dizemos, por exemplo, que “nos apegamos à vida”, estamos fazendo com que seja assimilada por outra palavra mais concreta, mais atraente, mais seguramente importante: estamos fazendo que seja assimilada pelo Prazer. Penso no prazer (qualquer forma de prazer) e estou certo de que isso é a vida.”




Egoísmo


Espaço vazio

O ócio da aposentadoria
deixou-me assim
Perdoa-me, não é isso...
Sinto a sua falta
Na memória, os seus movimentos
palavras, momentos
Na garganta, um nó
Lágrimas nos olhos
Eu pensei só em mim
Num futuro que não veio
que não vivi
Eu fui egoísta
A morte a levou... esta palavra forte
assim, sem dizer nada
Doçura no olhar
sensibilidade nas palavras
Eu queria ter sido mais intenso
como se vivesse o último dia da vida
e quisesse aproveitar tudo
mas não foi possível

Sonia Salim 23/02/16




Fonte: Focus Portal Cultural

23 de Setembro

Meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus!








Es evidente, Dios me concedió un destino oscuro. Ni siquiera cruel. Simplemente oscuro.









Um grande amor pode ser uma trégua na vida


Escrito em formato de diário e com fina ironia, 'A trégua' traz a história de Martín Santomé, um 'homem maduro, de muita bondade, meio apagado, mas inteligente'. Prestes a completar 50 anos, viúvo há mais de vinte, Santomé mora com os três filhos. Não se relaciona bem com nenhum deles, tem poucos amigos e mantém uma rotina monótona e cinzenta. No diário, conta os dias que faltam para a aposentadoria; mas não tem idéia do que fará assim que se livrar do trabalho maçante. Seu destino, no entanto, mudará quando conhecer Laura Avellaneda, uma jovem discreta e tímida contratada para ser sua subalterna. Com ela, Martín Santomé voltará a conhecer o amor, numa luminosa trégua para uma vida até então triste e opaca. Mas será que essa relação conseguirá ir adiante? Muito mais do que uma história de amor, 'A trégua' é um questionamento sobre a felicidade e um retrato às vezes bem-humorado, às vezes ferino, dos difíceis relacionamentos humanos.







Palacio Salvo - Montevideo



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