CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

31 de janeiro de 2017

Obey your system











27 de janeiro de 2017

Far and Wide

Em tempos de Australian Open, os amantes do tênis também podem se deliciar com poesia. Infelizmente a tradução do grande poeta E. J. Brady não é boa e nem dá pra entender bem, a acústica do anúncio é péssima, mas o poema original é lindo.

From book: Bells and Hobbles 

FAR AND WIDE

I'll call you to the Beaches,
And you shall bide with me, 
Along the river reaches
And by the open Sea.
Far and wide I have to wander, 
Far and wide and to and fro;
'Cross the Seas and o'er and under
Everywhere the Rovers go.
“Rolling stones no mosses gather,” 
Let the careful critic moan; 
In my heart I know, I'd rather
Be a restless rolling stone.
When I feel the soul-relieving
Comfort of the cradling sea,
When the giant hills upheaving 
Into God's blue sky I see;
When the brown plains spread before me,
And I slacken out the rein, 
With a noon sun burning o'er me,
Then I know my loss is gain.
Let me watch the sea-rain falling,
Smell the salt, deck-driven spray;
Let me hear the bush-birds calling
At the dawning of the day.
Let me see the sun-bars streaming
Down the valleys, ere the night  
Fills the world with pleasant dreaming,
Love and coolness and delight.


25 de janeiro de 2017

Revivendo leituras passadas - A chave de casa: Tatiana Salem Levy


 A Chave de Casa

Abrir a porta de casa,
expulsar os meus fantasmas,
sem disfarce, expor-me inteira
a todos e a mim também.
Apresentar essa estranha,
que um dia, sob os escombros,
os silêncios e segredos,
tentou, em vão, se esconder.

E, agora, livre dos medos,
das amarras do passado,
quer fazer a caminhada
gozando o seu renascer.

(Elenir)




Oi Clube

Sei que já estão iniciando a discussão do livro do Padura, mas, como prometido, registro aqui algumas impressões sobre "A chave de casa".

Na minha leitura, a riqueza do livro encontra-se justamente no intervalo: é uma viagem real ou imaginada? Uma busca do avô ou dela própria? Deseja realmente encontrar a casa e a história dos antepassados ou não? É melhor prosseguir na busca ou desistir? Entregar-se ao amor ou reconhecê-lo como dor?  

Outros fragmentos da literatura revelam este campo tenso do diálogo dos opostos...

"Sou entre mim e mim o intervalo." Fernando Pessoa

"Hesito, logo existo." Lena Jesus Ponte

"Gostaríamos de ver e temos medo de ver. Eis o limiar sensível de todo o conhecimento. Nesse limiar, o interesse ondula, perturba-se, volta. [...] Como aumentam as ondulações de medo e curiosidade quando a realidade não está presente para moderá-las, quando se imagina." Bachelard

"Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida." Clarice Lispector

O desconforto da dúvida, da angústia nos faz dar passos, convida-nos (ou joga-nos) ao movimento. Suportar e ouvir a voz do conflito que habita o intervalo é sinal de vida em transformação.

A própria busca da casa é algo muito simbólico.  No livro A poética do espaço de Bachelard, há praticamente 2 capítulos que falam sobre a casa, vejam alguns trechos:

"Porque a casa é o nosso canto do mundo [...], o nosso primeiro universo.[...] A casa natal é um centro de sonhos. Cada um de seus redutos foi um abrigo de devaneios."

"É graças à casa que um grande número de nossas lembranças estão guardadas; e quando a casa se complica um pouco, quando tem um porão e um sótão, cantos e corredores, nossas lembranças têm refúgios cada vez mais bem caracterizados. A eles regressamos toda a vida em nossos devaneios."

A chave igualmente é um poderoso símbolo, relacionado ao duplo papel de abertura e fechamento, de permitir ou não o fluxo, a passagem, do mistério de penetrar, do enigma a resolver, da coragem de empreender etapas que conduzem à descoberta.

Uma história de uma buscadora, de local (fora e dentro de si) que pudesse florescer e renascer.
Neste sentido, cada palavra do livro equivale a um passo neste caminho.

--
Cristiana Seixas
Biblioterapeuta





Santa Sofia
A Mesquita do Sultão Ahmet
A mesquita azul do anjo

Olá Cliceanos, vamos visitar a Mesquita Azul? Tatiana Salem instigou-me a conhecê-la. 

Conhecer a Turquia, vocês já conhecem? Combinar literatura e viagem, do erotismo ao sacro, percorrendo o centro histórico de Istambul. Ainda não cheguei à metade do livro e já encontrei bastante erotismo na Salem, ao descrever sua relação com o amado. 




Caros amigos do Clic

sempre que leio um livro e a obra apresenta uma ambientação geográfica, tento me situar,  ler/ver outras obras onde eu possa estabelecer novas relações. A chave da casa lembrou-me um filme que assisti cerca de 05 anos e hoje corri atrás para revê-lo.

O TEMPERO DA VIDA - a estória inicia em Istambul, cidade onde a família se sente super ambientada e de repente por questões religiosas,sociais e políticas são deportados para a Grécia. Há uma forte relação do neto com o avô e um grande lirismo permeando toda a trama. Há inclusive uma cena onde o neto volta à casa do avô. Vale a pena ver. Penso que encontrarão com facilidade nas locadoras ou baixando na Internet.

grande abraço,  Joana


Fonte

"Nenhuma palavra dói mais do que a ausência de palavras. Você não é tolo e sabe muito bem disso. Você me impunha um silêncio devastador. Sumia, não dava notícias, fazia de propósito, queria me ver chegar perto da morte, paralisada, sem forças. Eu esperava o telefone tocar, ele não tocava.. E se porventura tocasse, não era a sua voz que eu escutava. Esperava o apito do meu computador avisando a chegada de um novo e-mail, ele não apitava. Esperava uma carta, um sinal de fumaça, uma mensagem no celular, esperava que você aparecesse e trouxesse consigo alguma palavra. Esperava e esperava e esperava. E você não vinha. Você me deixava a sós com esse silêncio que dói mais do que um grito arranhado, do que um corte profundo na carne, que dói mais do que a palavra dor”.



Estávamos na cama quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, uma voz grossa e firme perguntava se eu estava bem e dizia que tinha conseguido o meu número com uma amiga e comum, a dona da festa onde tínhamos nos encontrado havia cerca de uma semana. Como quem não quer conversar, mas precisa falar alguma coisa, ele disse: adorei nosso papo, apesar de rápido, e queria conhecê-la melhor. Só respondi com interjeições, mas nem por isso ele se apressou em desligar. Quando começou a falar dos meus olhos, dos meus cabelos, fiquei sem graça, afinal, você estava do meu lado. Como se não o conhecesse, levei um susto quando você, em vez de me pedir para arranjar uma desculpa e me livrar do telefonema, sussurrou baixinho: não desligue, continue falando. Nem tive tempo de esboçar resposta, de me opor à sua decisão. Quando me dei conta, você já tinha tirado a minha roupa e , olhando para o meu sexo, era a sua caeça que eu via. Tentei afastá-la. Você me fixou com um olhar de quem diz para não impedi-lo, um olhar que me afirmava com segurança que eu não me arrependeria. Então me deixei levar. Enquanto ouvia a voz de um estranho, sentia sua língua me umedecendo. Eu tinha o sexo todo depilado, e você passeava livremente por ele, como se agora, que estava descoberto, à mostra, ele escondesse ainda mais segredos. Não foi nada fácil controlar o tom da conversa, prestar atenção ao que ele dizia, para ao menos poder lhe responder: claro, vamos combinar alguma coisa, sim. Você não quer anotar meu e-mail? Minhas pernas se contorciam enquanto eu falava. Temi que ele desconfiasse de alguma peculiaridade na minha voz e me pus a falar como se estivesse com pressa. Você reparou e me repreendeu. Queria ir até o fim. Então, tive de inventar histórias, iventar assuntos, perguntei-lhe de onde conhecia a nossa amiga em comum, o que fazia da vida, entre outras coisas que não me interessavam absolutamente em nada. Enquanto isso, a sua língua ia ganhando mais intimidade com o meu sexo, e os dois se encaixavam de tal maneira que pareciam duas bocas se beijando, um beijo longo e molhado. Eu tinha a sensação de que os lábios de baixo eram comos os lábios de cima, decididos, independentes e, o que era mais inusitado, tinham paladar. Eu sentia o gosto da sua língua, o gosto que tanto conhecia, mas que sentido ali, naquele lugar e naquele momento inesperados, era completamente diferente. Quando, finalmente, resolvi desligar o aparelho, foi porque a minha boca estava entre as minhas pernas, e seria estranho continuar falando, se meus lábios estavam tomados pelos seus."


by Sara Augusto

[Você nunca pensa em coisas boas? Não tem sonhos?] Tenho, claro que tenho. Sonho que um dia um príncipe chegará montado num cavalo branco para me buscar.Não precisarei fazer esforço algum, ele saberá que sou a mulher por quem ele procura. Bastará nos olharmos para saber que fomos feitos um para o outro. Ele me pegará pela mão e me levará, a cavalo, para um lugar lindo, onde haverá uma grande festa, onde encontrarei todos que já partiram deste mundo e todos que nele ainda estão. Lá viveremos felizes, numa terra que não conhece a morte, não conhece tempo, não conhece a dor. [Então você sonha?] Sonho, claro. Tenho ainda outros sonho, que nunca contei a ninguém. [E o que é?] É tenho esse sonho impossível: escrever escrever escrever.






PRÊMIO SÃO PAULO DE LITERATURA

MELHOR LIVRO DE AUTOR ESTREANTE 2008


Eu sabia que ao tocar pela primeira vez a campainha da sua casa estava assinando um contrato sem vencimento. Se existisse alguma possibilidade de desistência, ela deveria ser fincada ali, naquele momento, antes de atravessar a porta. Mas como não atravessá-la? Por que não atravessá-la? Meu corpo ainda não estava paralisado, eu queria caminhar, queria ir ao encontro do que tinha me pego na esquina, descobrir o que me aguardava do outro lado da rua. Naquele início, a paixão se manifestava como fome - de novidades, conversas, toques, sexo -, eu queria engolir tudo o que estivesse à minha frente, tudo o que viesse de você. E assim foi. Toquei a campainha. Suava. Minha camiseta molhada se colova ao busto, marcando levemente os seios. Quando você abriu a porta, eu não podia esconder o desejo de pular em cima do seu corpo, ali, no corredor de entrada da sua casa. Tenho certeza que você sentiu meu cheiro de sexo prestes. Deslizou delicadamente a mão direita sobre meu rosto, demorando-se atrás da orelha, no pescoço. Arrumou meu cabelo e com a outra mão segurou minha nuca. Você me exigia demais naquele momento: exigia-me paciência. Deixei-me ser levada, controlando minha fúria e meu desejo de controlar. E nisso estava o meu prazer, em ser surpreendida, em ser guiada numa direção inusitada. A cada toque seu, a cada dedo, lábio, nariz, a cada extremidade sua esbarrando na minha pele, sentia os poros se eriçando, se antenando numa velocidade simetricamente oposta à de seus movimentos. Você demorou a me beijar, a enroscar sua língua na minha até quase a garganta. Antes disso, ficou me acariciando, aproveitando todo o deleite que eu estava disposta a lhe dar. Você me olhava - nos olhos, no queixo, nos seios, no ventre - como se quisesse me tirar toda a estabilidade, como se quisesse tirar meus pés do chão. E conseguiu. Naquele instante, eu já não pisava em lugar algum. Já não tinha os pés na terra, Não sabia onde estava, mas ao mesmo tempo tinha toda a certeza de que era ali que queria estar. Você não tinha dúvida, eu já era sua. E, como se quizesse me mostrar que estava ciente disso, me segurou com força, apertou meus braços e colou a boca à minha, sua língua à minha. Deslizou suavemente a mão pelo meu corpo. Quanto mais seus dedos descobriam o caminho, mais vulnerável eu me sentia. Nesse momento sabia que não haveria volta, já estávamos amarrados. Sua língua estava em meus seios - um e outro -, contornando os mamilos, deixando-os quase tão encharcados quanto meu sexo, ainda à espera. Não por muito tempo, é verdade, pois não demorou para você colocar, certeiramente, a mão por debaixo da minha saia. A calcinha abafada, úmida. As pernas se abrindo ligeiramente, o convite já feito. E, como pude confirmar tantas outras vezes, poucas coisas me excitavam tanto quanto seus dedos afastando a parte de baixo da calcinha para um lado só, deixando meu sexo descoberto. Para logo cobri-lo de novo, com seus dedos. Leve-me para a cama, eu disse. Você fingiu não ouvir. com as duas mão, levantou minha saia, arrancou minha calcinha e se abaixou aos poucos. Continuei de pé, enquanto você, ajoelhado, implorava não sei o que entre as minhas pernas, numa língua que só vocês dois entendiam, o meu sexo e a sua boca.



Eldorado: Milton Hatoum

Hoje, 27/02/09, foi dia de reunião do Clube de Leitura que se encontra para conversar na Livraria da UFF toda última sexta-feira de cada mes. O livro discutido foi "Órfãos do Eldorado", de Milton Hatoum, publicado pela Companhia das Letras em 2008.

Decididamente, este é um grupo bom de se pertencer. Seu traço mais marcante, se eu tivesse de escolher um, é a liberdade. Liberdade que permite que "leigos" e "ordenados" defendam seus pontos de vista com uma singeleza que, confesso, é rara, particularmente na academia, tão marcada pela mau humorada "meritocracia".

Enquanto isso, vai desfilando pela nossa frente a cegueira em ensaio de um Saramago, o emburrado Casmurro de Machado, a maluquinha da filha do escritor do Gustavo Bernardo (que brindou o grupo com uma participação riquíssima... a melhor oficina sobre como um escritor produtivo escreve de que eu já participei) e agora a rica contação de "causos" mitológicos, alinhavados em torno de uma estória de amor e sacanagem (no sentido político do termo, o mais usual evidentemente) que têm o horizonte do Eldorado (um navio que afunda, uma ilha que abriga leprosos e um lugar perdido no horizonte). Legal... muito legal...

Tudo isso acontecendo dentro de uma livraria universitária, com cafezinho, pãozinho de queijo e cachacinha especial da safra do diretor da EDUFF, o escritor Mauro Romero, que além de livros científicos na sua linha de pesquisa em DST (doenças sexualmente transmissíveis), também é um contador de "Casos e Causos Médicos".

O grupo já escolheu democrática e anárquicamente o que vai discutir nos próximos dois meses: no final de março "A elegância do ouriço" de Muriel Barbery e no final de abril "Dois irmãos", novamente do Milton Hatoum.
De fato... este é um grupo bom de pertencer... 





Divulgação preparada pela EdUFF para a reunião do clube em fevereiro.

Presságio: Fernando Pessoa





O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

21 de janeiro de 2017

Livro: Dois Irmãos, de Milton Hatoum e Minissérie da Globo

Olá queridos!
Estou reproduzindo o post do meu blog Mar de Variedade, pois sei que o clube já leu esse livro. 
Quando soube que a Globo iria passar essa minissérie baseada no livro Dois Irmãos, de Milton Hatoum, tratei logo de ler o livro. Na verdade, li concomitantemente à série. Terminei dois dias antes de a série acabar. Pude assistir fazendo a comparação com o livro. E posso dizer que a série da Globo foi bem fiel ao livro, teve muita qualidade. 

Sinopse do livro- da Livraria Cultura: "Dois irmãos' é a história de dois irmãos gêmeos - Yaqub e Omar - e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e seu filho. Esse menino - o filho da empregada - narra, trinta anos depois, os dramas que testemunhou calado. Buscando a identidade de seu pai entre os homens da casa, ele tenta reconstruir os cacos do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros. Do seu canto, ele vê personagens que se entregam ao incesto, à vingança, à paixão desmesurada. O lugar da família se estende ao espaço de Manaus, o porto à margem do rio Negro - a cidade e o rio, metáforas das ruínas e da passagem do tempo, acompanham o andamento do drama familiar."


Eu nunca havia lido nada do Milton Hatoum. Comecei por esse livro e adorei a leitura! 
Acho que o Milton soube construir os personagens principais de uma forma brilhante: deixando dúvidas no leitor sobre o caráter de cada um dos gêmeos. Claro que o caçula era o que "aprontava" todas, mas ainda assim o leitor ficava com algumas dúvidas sobre a motivação de cada um. 
Quando o livro começa, ainda não sabemos exatamente quem é o narrador. Com o decorrer da história, ficamos sabendo que o narrador é o Nael, filho da Domingas, empregada da família.
A história se passa em Manaus.
Nessa família de três filhos, tanto Halim quanto Zana sempre deram mais atenção aos gêmeos, em detrimento da filha Rânia.
A mãe sempre foi superprotetora com o caçula Omar, o que Halim não aprovava, mas acabava fazendo "vista grossa" por ser apaixonado pela esposa Zana. Na verdade, ele nem queria ter filhos. Queria viver o seu amor por Zana, apenas com ela, sem filhos. 
Quando os gêmeos tinham treze anos, após uma briga, em que Omar cortou o rosto do irmão, Yaqub foi mandado para o Líbano, a mãe não deixou Omar ir. 
"O que mais preocupava Halim era a separação dos gêmeos, 'porque nunca se sabe como vão reagir depois...'. Ele nuca deixou de pensar no reencontro dos filhos, no convívio após a longa separação."
Após cinco anos, Yaqub retorna do Líbano, calado e estranho.
"Zana logo percebeu. Via o filho sorrir, suspirar e evitar as palavras, como se um silêncio paralisante o envolvesse."
Omar sempre foi forte e bom de briga. Já Yaqub começa a estudar muito e a gostar de matemática. Yaqub começa a fazer sucesso também com as meninas, o que gera uma rivalidade com o irmão. Omar, que é muito mimado pela mãe, não suporta ver o Yaqub crescer nos estudos e se destacar com as meninas. Então, a sua raiva pelo irmão só aumenta. Já Yaqub nunca esqueceu o corte que o seu irmão deu em seu rosto, rendendo-lhe uma cicatriz. 
Yaqub acabou indo morar em São Paulo e lá se formou em engenharia e cresceu profissionalmente.
Acho que não devo contar além daqui, embora muitos tenham assistido à minissérie e já saibam do desfecho da história. 
No livro há insinuações de incesto. Também aborda violência e estupro.
Como o livro retrata a vida dessa família durante muitos anos, ele é muito rico, cheio de reviravoltas.
O que achei bem interessante também foi a abordagem sobre Manaus, a descrição de como era há muitos anos, com o crescimento do comércio e, depois, com o progresso, quando a empresa de Halim precisou se modernizar um pouco, com a ajuda da filha Rânia.
A história do narrador também é interessante, pois cresce sem saber quem é o pai. 
Gostei muito da forma como Hatoum escreve e descreve os acontecimentos. É uma leitura boa de se fazer.
Acho que uma boa lição dessa história é o quanto a superproteção a um filho pode estragá-lo como pessoa.

Quanto à minissérie, como falei antes, achei bem fiel ao livro. Gostei mais do livro, pois me encantei pela forma como o autor escreve, mas a série foi muito bem produzida e com ótimas atuações. Destaque para Cauã Reymond e Eliane Giardini.



Recomendo!

Dois irmãos

Dois Irmãos: Milton Hatoum - 24/4/2009



















Divulgação preparada pela EdUFF para a reunião do mês de abril.


(estofando)

20 de janeiro de 2017

A tradutora: Cristóvão Tezza

Ela guardou o conselho na memória. O sexo, finalmente, perdeu o mistério e o segredo, ela poderia dizer agora, eu estou madura, o sexo é apenas mais uma variável da vida e não está necessariamente atrelado a nada - apenas ao desejo, esta coisa volátil, venenosa e infiel.




As coisas enfim desabando, eis você.


Parque Tanguá


A arma da sedução é sua lisonja implícita, o que desperta a esgrima do afeto, o querer e o não querer abraçados.


Ópera de Arame


As pessoas pegam e absorvem na alma, no jeito e no gesto, o espírito dos outros, como vírus de comportamento. A diferença é que sou alguém de substância leve. Algumas pessoas são como alguém condenado à prisão perpétua de si mesma. 




O romance capta a personagem na casa dos 30 anos e à beira de uma crise pessoal. Com poucos amigos, envolvida em um relacionamento amoroso que está se esfacelando e com uma vida econômica apertada e sem perspectiva de melhora, Beatriz mergulha em seu trabalho de tradutora como uma forma de escapar da realidade. Ela traduz para o português um livro do fictício escritor catalão Felip T. Xavaste, um filósofo com inclinação conservadora que critica conceitos como a microfísica do poder de Michel Foucault.



15 de janeiro de 2017

Revivendo leituras passadas - O Filho Eterno: Cristovão Tezza




Livros disponíveis na barraquinha da Joana no Campo de São Bento nos finais de semana 

Rio da Flores: Miguel de Souza Tavares - 02 exemplares
Lolita: Nabokov - 10 exemplares
Na praia: Ian McEwan - 01 exemplar
A desumanização: Valter Hugo Mãe - 01 exemplar
O clube da Felicidade e da Sorte: Amy Tan - 01 exemplar
O arroz de Palma: Francisco Azevedo - 01 exemplar
O dia do Curinga: Jostein Gaarder - 01 exemplar
Cemitério dos vivos: Lima Barreto - 02 exemplares
Incidente em Antares: Érico Veríssimo - 02 exemplares
O livro das Ilusões: Paul Auster - 01 exemplar




Visitei a banquinha de livros usados da APAE que fica localizada logo na entrada do Campo de São Bento, à direita,  pelo portão da Rua Gavião Peixoto,  e fiquei muito bem impressionado com a organização e variedade de títulos. Livros usados super bem conservados, alguns pode-se dizer novos, e num local muito agradável, onde conhecemos pessoas interessantes para uma boa conversa. A barraquinha é um charme comandada pela vibrante Cliceana Joana Darc Lapa que está de parabéns pelo belíssimo trabalho.






 

02/04 -Dia de Conscientização do Autismo




21 de Março - Dia Internacional da Síndrome de Down

Movimento Down

Nossa musa do "CLIc na Beleza" - Niterói Down

Joana em ação




  

O Filho Eterno: Cristovão Tezza 

 

 

Debatido no CLIc em 30/10/2009





Divulgação da EdUFF para a reunião de outubro 2009


Pai em idade avançada tem neto com maior risco de autismo, diz estudo


14 de janeiro de 2017

Clube da Lua: sobre voos e fases Cecília Meireles


VOO

Alheias e nossas
as palavras voam.
Bando de borboletas multicolores,
as palavras voam.
Voam as palavras
como águias imensas,
como escuros morcegos,
como negros abutres,
as palavras voam.
Oh! Alto e baixo
em círculos e retas
acima de nós, em redor de nós,
as palavras voam.

E às vezes pousam...

Cecília Meireles – Obra Poética




Lua Adversa
(Cecília Meireles)

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu... 




13 de janeiro de 2017

Os melhores livros de 2016 na opinião de participantes de clubes de leitura

Olá queridos!
Estou reproduzindo o post do meu Blog Mar de Variedade. 
Esse é o último post do ano, então, tem que ser especial.
Convidei participantes de três clubes de leitura dos quais faço parte, para dizerem quais foram seus livros favoritos do ano. Falei que não precisava ser livro lido no clube, pois o objetivo é indicarmos livros especiais, para inspirarmos os leitores. Nem todos conseguiram escolher apenas um favorito, mas dá para entender, diante de tantos livros excelentes!

Eu já falei que o meu favorito do ano foi Frankenstein, de Mary Shelley: Apesar de ser um clássico do terror, a escrita da autora é poética. O livro me surpreendeu muito positivamente, por isso achei que cabia o primeiro lugar.



Vamos às opiniões dos meus colegas dos seguintes clubes:
Clube de leitura Icaraí- CLIc;
Clube de leitura Leia mulheres Niterói-RJ;
Clube de leitura - O livro de areia (grupo de leitura no whatsapp).

Evandro Paiva de Andrade - Moderador do Clube de leitura Icaraí- O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati: "O deserto dos tártaros é uma extraordinária alegoria da existência humana cujo fundamento parece ser crer e esperançar, seja Canaã, Godot ou os Tártaros e, afinal, resignar-se perante o que se construiu ilusoriamente."



Léo Gomes - participante dos três clubes de leitura citados- O Deserto dos Tártarosde Dino Buzzati: "Camadas de interpretações, discurso fluido, histórias dentro da história. Um grande livro."

Antônio Rodrigues - Participante do Clube de leitura Icaraí e moderador do Clube de leitura O livro de areia- Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus: "'Quarto de Despejo' mexeu profundamente comigo. Esse rebuliço que um livro faz dentro de nós é o que importa ao final da leitura. Se um livro não buliu com nossas entranhas sentimentais, então não é digno de ser lembrado."



Ana Castelhano - Participante do Clube de leitura Icaraí-  Também elegeu Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus.

Inês Drummond - Participante do Clube de leitura Icaraí- Mulheres de Cinzas, do Mia Couto; Poemas escolhidos, do Mia Couto; Por enquanto agora, de Maria Christina Monteiro de Castro: "Bem, Mia Couto é maravilhoso. Sou uma perfeita Miete. Fala da dor e da beleza de existir. É sensível, poético... Por enquanto agora é dinâmico, engraçado, triste. Fala sobre Mulheres, família..."






Rose Pinto- Participante do Clube de leitura Icaraí- A Jangada de Pedra,  de José Saramago: "Quase uma fábula, A Jangada de Pedra narra a fictícia separação da península ibérica do continente. Contada através de um realismo mágico, a narração possui mais de uma voz narrativa e o narrador, muitas vezes, se coloca dentro do texto, estimulando várias reflexões. 
Traz personagens femininas de caráter forte, que tomam iniciativas e constroem seu destino.
Lírico do início ao fim, em muitos trechos a prosa se torna poesia."



Pastoral Americana, Philip Roth: "Tendo como personagem central um jovem judeu bonito, exemplar e bem sucedido - profissional e emocionalmente -, e perfeitamente ajustado e orgulhoso da sociedade norte-americana, mostra, no desenrolar do livro que 'tudo que é sólido se desmancha no ar'.
Narrativa fluida, onde tudo parece ser necessário à construção dos cenários e às características psicológicas dos personagens, traz como pano de fundo a política e a guerra do Vietnã, mas o que mais me impressionou foi a capacidade de aprofundar o comportamento dos personagens e mostrá-los sob os mais variados aspectos contraditórios."




Ceci Lohmann - Participante do Clube de leitura Icaraí- A Trégua, de Mário Benedetti.




Elenir Teixeira - Participante do Clube de leitura Icaraí- O Mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, de Evandro Affonso Ferreira: "Livro que considero excelente, opinião não compartilhada por todos, que o classificaram de deprimente, cansativo, entediante, chato etc.
Sim, deprimente, fala de criaturas miseráveis, alcoólatras, viventes em condições sub-humanas, sem casa, usando um tatame como teto, ou seja, vivendo num submundo, fedentinosos, desvalidos, patéticos e constrangedores. Contudo, mesmo vivendo à margem, sofrem, amam, se irmanam, têm lembranças, momentos de alegria, embora raros... E, no meio de todos eles, há um homem erudito, sofrido, com muitas cicatrizes na alma, que vagueia pelas ruas acompanhado pelos Adágios, de Erasmo de Rotterdam, os quais, segundo ele, são seus salmos, trazendo-os na memória, e pela infinita tristeza e solidão sofridas desde que sua amada o abandonou, há dez anos, deixando-lhe, apenas, um lacônico bilhete: 'Acabou-se. Adeus.' Mantendo a esperança de seu retorno, ele repete sua 'meta mântrica: Ela virá, eu sei.' Dizendo ainda: 'Amada aquela que levantou âncora jamais deixarei cair da memória: está tatuada em mim. Deveria ser contrário às leis da natureza abandonar crianças e poetas: somos frágeis demais.' Tudo isso, levou-me a conhecer melhor esses pobres indivíduos marginalizados, o submundo por eles habitado, emocionando-me. No livro, encontrei amor; poesia; ternura; erotismo; fraternidade; vida..." 





Solange Pinheiro-  Participante do Clube de leitura Icaraí- Panta Rei, de Luciano de Crescenzo.




Roberta Priscila - Participante do Clube de Leitura O livro de areia - O Último dos Canalhas, de Loretta Chase: "Um romance épico, empolgante, nem vulgar, nem sem sal, onde se percebe o poder real de uma mulher e de como ela pode mudar o maior de todos os cafajestes e ensinando o sentido do verdadeiro amor."



Midian Cruz- Participante do Clube de Leitura O livro de areia - Como eu era antes de você, da Jojo Moyes: "Sem dúvidas eu ameiiii 'Como eu era antes de você' de Jojo Moyes. É um romance de motivações e inspirações para seguir em frente. A vida é uma caixinha de surpresas que deve ser vivida a cada momento."




Geovanny Luz - Participante do Clube de Leitura Leia Mulheres Niterói-RJ -  A Revolução dos bichos, de George Orwell.



Janaina Soares (Nina) - Participante do Clube de Leitura Leia Mulheres Niterói-RJ- Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski: "Primeiro porque o Dostoiévski é o meu escritor favorito. Sei que parece favoritismo, mas eu adoro o jeito com o qual ele escreve. Além disso, eu não imaginava rir tanto com os Karamázov e isso me surpreendeu. Acho que também foi o melhor livro que eu li esse ano porque, embora não tenha lido tanto (se comparado aos outros anos), fiquei feliz por ler um livro que requer mais atenção. Ele trata de vários assuntos, vai de drama familiar até religião, e me interessa ler livros que me façam refletir sobre vários tipos de assunto ao mesmo tempo...ou seja, livros mais complexos. Para quem nunca leu Dostoiévski, acho que pode ser um pouco cansativo no início, mas conheço pessoas que só leram um  e depois pegaram os Karamázov e se apaixonaram. Ah, eu também curti o livro porque os três irmãos são bem diferentes entre si, mas não me pareceu forçado ou estereotipado, sabe? Acho que cada um tem sua peculiaridade e te faz refletir sobre."



Mariana Rio - Moderadora do Clube de Leitura Leia Mulheres Niterói-RJ- Hibisco Roxo, da Chimamanda Ngozi Adichie:  "Hibisco Roxo foi o primeiro livro que li da autora, gostei pela forma calma e detalhista que ela construiu os personagens."



O livro do Cemitério, de Neil Gaiman: "Neil Gaiman é meu escritor preferido. Em O livro do cemitério, ele mistura terror com infantil de uma forma bem feita e cativante."



Laura Isabel- Moderadora do Clube de Leitura Leia Mulheres Niterói-RJ- Frankenstein, de Mary Shelley: "Dos que lemos juntos, Frankenstein foi o que mais me marcou, amei a escrita da Mary Shelley e como ela aborda a filosofia e a ciência de uma forma tão tocante."
Quem me dera ser onda, do Manuel Rui: "Se tiver que escolher o melhor livro do ano MESMO eu diria que foi 'Quem me dera ser onda', do Manuel Rui. É uma história muito delicada sobre infância num pano político bem pesado, cheio de metáforas bem construídas, mas que tu observa pelo olhar das crianças que querem ter um porco de estimação num apartamento. Fora o contexto cultural angolano, que é uma viagem muito legal de se fazer. É lindo, tocante, real, simplesmente amei. Li duas vezes, na verdade. Haha."


Fernanda Marsico - Participante do Clube de Leitura Leia Mulheres Niterói-RJ- Hibisco Roxo, da Chimamanda Ngozi Adichie: "Acho que o Hibisco Roxo foi o livro que mais mexeu comigo esse ano, me deu muito para refletir."



Agradeço aos queridos colegas por essa valiosa contribuição a esse post. Tenho certeza de que muitos leitores serão influenciados por essas ótimas indicações.
Desejo a todos um ano novo maravilhoso, com muita paz, saúde, amor e muitas leituras grandiosas!





10 de janeiro de 2017

Livro: A Tradutora, de Cristovão Tezza

Olá queridos!
Reproduzo a resenha que fiz no meu blog Mar de Variedade.
Esse é o livro do mês do Clube de Leitura Icaraí, cuja reunião será na quinta-feira.
É o primeiro livro que leio do autor, que escreveu o premiado "O Filho Eterno".

Sinopse da Saraiva: "O novo romance do autor de O filho eterno. Beatriz é uma tradutora de 30 e poucos anos às voltas com o desafio de traduzir o espanhol barroco do catalão Felip T. Xaveste. Em seu apartamento, depara-se com uma sucessão de acontecimentos que entrelaça a urgência do instante presente com a memória: um envelope em branco deixado misteriosamente sob a porta da sala; as pequenas e grandes dúvidas que envolvem a tradução e os desdobramentos que projeta para a sua carreira; a conversa ao telefone com o namorado escritor, que a assedia intelectualmente; e uma ligação inesperada propondo-lhe um trabalho como intérprete de um executivo da FIFA em visita a Curitiba para os preparativos da Copa do Mundo no Brasil. Sob a força do puro prazer narrativo, nossa curiosidade é sequestrada pelo cruzamento sutil de pontos de vista ao longo de três dias intensos. Lembranças, argumentos e percepções da personagem se desdobram em múltiplas combinações. Neste romance sofisticado, conduzido por um fio de leveza, humor fino e autoironia, encontramos Cristovão Tezza em pleno vigor de seu domínio narrativo – um livro que nos dá a sensação de vislumbrar a metade mais fascinante, complexa e misteriosa do universo humano: a feminina."


Essa é minha primeira leitura do ano. Confesso que não é o tipo de livro que está entre os meus favoritos.
A protagonista é a Beatriz, uma tradutora, que mora em Curitiba, e tem um namorado escritor, que mora em São Paulo, o Donetti, com quem tem uma relação conturbada. 
O livro vai mostrar a Beatriz traduzindo um livro do fictício escritor catalão Felip T. Xaveste, trabalho enviado pelo editor paulista Chaves, que pediu o término da tradução antes da Copa do mundo.
A narrativa é, na maior parte do tempo, em terceira pessoa. A Beatriz traduz, ao mesmo tempo que imagina situações com o namorado ou com a Bernadete, sua amiga. Algumas situações ela vivenciou, outras ela imagina. 
Sinceramente, eu achei um pouco confusa a narrativa. Tive que voltar algumas vezes para conseguir acompanhar a leitura. 
A Beatriz, nessas conversas com a amiga, ou quando está pensando, mostra um namorado ciumento e dominador:
"Eu não suporto mais o teu controle. Eu não aguento mais o teu ciúme psicopata mal reprimido que você deixa escapar até pela mínima entonação da voz, como alguém que quer dominar simultaneamente tudo e todos e principalmente a mim, oculto em si mesmo, no duplo da máscara..."
A protagonista recebe uma proposta para trabalhar como intérprete de um executivo da FIFA, o Erik, e acompanhá-lo durante três dias, em Curitiba, e prontamente aceita, já que ganhará um bom dinheiro. 
Ele pede para que ela vá aos pontos turísticos de Curitiba com ele e também em um terreiro de umbanda. 
No livro, os personagens acabam falando de política e, por conseguinte, tocando em nomes importantes. 
Ela acaba recebendo um envelope branco misterioso, com uma frase escrita  com letras recortadas de um papel (prestem atenção nessa parte, pois no final temos a explicação).
Em vários momentos, a Beatriz imagina o que o Donetti diria se estivesse com ela. 
"Para o aeroporto, por favor - e Beatriz fechou a porta do táxi vivendo a aflição antecipatória dos diálogos inexistentes que atormentavam a vida, esta maldita imaginação, os duplos mentais."
Conforme vai lendo Xaveste, vai pensando em sua vida e fazendo um paralelo.
"- a retórica do Xaveste começa a me influenciar, ainda que o amor não seja a matéria dele, embora a condição feminina seja. "
Aos poucos, a Beatriz vai conhecendo melhor o Erik e passa a analisar o seu jeito.
"Havia uma graça no método de Erik Höwes, ela percebeu imediatamente, quase um jeito de mestre-escola, vamos fazer tudo direitinho, deixar tudo resolvido, e em seguida vamos nos divertir!" 
A Beatriz também começou a fazer comparações do Donetti com o Erik e tenta, através deste, viver dias leves. O Erik, por sua vez, por ser estrangeiro, acaba mostrando uma outra Curitiba para ela, através de seu olhar. 
Achei interessante quando o autor utilizou, através da fala da Beatriz, a expressão "padrão FIFA", muito utilizada na época da Copa do Mundo. 
A narrativa não é linear, talvez por isso necessite de maior atenção do leitor, eis que a Beatriz intercala a tradução com falas e pensamentos. 
Assim, de uma forma geral, a Beatriz é essa pessoa com um turbilhão de pensamentos e devaneios, que, através do seu trabalho de tradutora, também tenta interpretar e "traduzir" as suas complexas relações de amizade e de amor.
Como falei, nem todos se identificam com esse tipo de narrativa, porém, reconheço o mérito do autor, por se tratar de uma personagem bem difícil de criar e de desenvolver. 


Boa leitura!

8 de janeiro de 2017

Sinopse de "A tradutora: Cristóvão Tezza" por Evandro





“A tradutora” de Cristóvão Tezza é uma história que se passa em três dias. Três dias tem uma simbologia interessante, pode significar um tempo insuportavelmente longo, agônico, e parece que é isso que acontece com Beatriz, balzaquiana à beira de um ataque de nervos, que mostra viver uma eternidade nesses três dias de experiências pessoais: um namorado a assedia moralmente, ela paquera um outro que lhe pediu um trabalho de tradução que sinaliza a nova onda conservadora mundial e fica com um alemão que a tinha contratado profissionalmente como intérprete durante sua estada em Curitiba para fiscalizar as obras da Arena da Baixada para a Copa do Mundo do Brasil. Ou seja, três amantes cada qual com seus tormentos específicos. E ainda, ela anda dura de grana e de onde vem a grana pode vir também o envolvimento pessoal, por que não?

“O sexo, finalmente, perdeu o mistério e o segredo, ela poderia dizer agora, eu estou madura, o sexo é apenas mais uma variável da vida e não está necessariamente atrelado a nada - apenas ao desejo, esta coisa volátil, venenosa e infiel.”

Sob pressão, é nessa hora que conhecemos as pessoas e, se for possível, brandimos a afiada arma da sedução nas entrelinhas das interações sociais, “o querer e o não querer abraçados” para ver o que acontece, que mal há nisso? Se no fim todos os relacionamentos estão fadados ao fracasso, por que não escapar de si mesmo, flanar baudelarianamente em seu próprio desejo e experimentar o sabor variado que vem dos prazeres desconhecidos e oportunos que se nos apresentam como por uma Abluftöffnung, porque ninguém é de ferro, não é mesmo?

Pero no hay coartada para la vida, Beatriz precisa pagar as contas e cada novo trabalho também lhe oferece a possibilidade de encontrar o anjo priápico da vez, tendo sempre o cuidado de nunca dar aquele pequeno passo que torna as coisas irreversíveis. Dies ist wichtig! Jantares aconchegantes, atenção a todas as pessoas do círculo social do alemão sem, contudo, deter-se em nenhuma em particular para cumprir profissionalmente seu trabalho, ao menos nesse quesito, guardando pra si mesmo a perversidade secreta de todo cerimonial do mundo dos negócios.

Não foi a primeira vez que li Cristóvão Tezza no Clube de Leitura Icaraí. Também lemos “O filho eterno” e lembro-me que fiquei chocado com o contundente relato do pai da criança com trissomia do cromossomo 21. Sete anos depois estou de volta com a leitura deste escritor que me revelou o significado da lumpem paternidade, dessa vez com a expectativa de que a leitura fosse mais light, uma umbanda literária, porque chega de querer brigar com as forças do mundo. Mas não foi isso que aconteceu. O mundo mergulhou num conservadorismo que não se via desde há muito. Parece mais uma premonição do escritor que traduziu na época o que viria a ser o Brasil e o mundo depois da Copa: impeachment, ministros desastrados, massacres, atropelamentos, Donald Trump, e vitória da direita partout. Mais tempos sombrios à vista. Ça y est!

7 de janeiro de 2017

Alvo Noturno: Ricardo Piglia (Prêmio Casa de las Américas 2012)



Sonhos noturnos (e diurnos) alvejados pela realidade 

Um ponto de vista (novaes/)

Achei este, de certa forma, um livro de paradoxos. Pelo menos, aparentes.

Apresenta-se como um "romance policial", pelo simples fato de girar em torno de um crime ocorrido logo ao início da história, mas na verdade mostra-se um livro revelador de uma estrutura social e econômica arcaica no campo argentino, o poder das famílias rurais inclusive historicamente explicado. Mas também não para por aí, e imiscui-se no psicológico, com maestria na construção do personagem Luca Belladona, mas também nas irmãs incestuosas e no comissário Croce, que esmagado pelo sistema poderoso e corrupto refugia-se entre os loucos para recompor sua sanidade, reconhecer-se são naquele ambiente hostil.

Ricardo Piglia, em seu "Alvo Noturno", usa um pensamento do personagem Renzi, na página 243, para resumir seu próprio livro:

A história continua, pode continuar. há várias conjecturas possíveis, fica aberta, só se interrompe. A investigação não tem fim, não pode terminar. Seria preciso inventar um novo gênero policial, a ficção paranoica. Todos são suspeitos, todos se sentem perseguidos. O criminoso não é mais um indivíduo isolado, mas uma quadrilha com poder absoluto. Ninguém entende o que está acontecendo; as pistas e os testemunhos são contraditórios e mantêm as suspeitas em aberto, como se mudassem a cada interpretação.

O autor argentino nos oferece um livro que usa o gênero policial como se fosse um mero disfarce, ou uma isca, como se pretendesse fisgar os ávidos e assíduos leitores desse gênero, para na verdade construir uma história bem diferente do que esperariam esses hipotéticos leitores, acostumados com a fórmula "crime-mistério-solução-castigo". Como a passagem destacada acima explica, em Alvo Noturno nada é tão simples. Termina o livro sem desvendar as motivações do crime e quem foram os criminosos. Um tanto frustrante, não?


Não. Não quando se percebe que a última coisa que interessa a Piglia é reduzir sua história a um conflito banal entre bandidos e mocinhos. Embora o livro gire o tempo todo em torno de um crime, por incrível que pareça o crime, em si, não é o centro da história. Ele não passa de um pretexto e por isso desvendá-lo não tem a menor importância para o autor. Pelo contrário, sua não-solução é exatamente a única solução que o autor vê como realista naquele vilarejo nos pampas argentinos. E, cá pra nós, não é mesmo assim também por aqui, em nossos grotões ou mesmo em nossas grandes cidades? Quantos crimes são desvendados? No Brasil este índice estava em 2%. No interior do país, quantas oligarquias não eliminam os que incomodam (sindicalistas rurais, sem-terra, indígenas, opositores políticos...) na base do assassinato, acobertados por um aparato local - policial, político e judicial - que efetivamente controlam com mãos de ferro?  Não há, afinal, diferença significativa entre nossos "coronéis" do interior e o Velho Belladona. Em Alvo Noturno, a solução realista, que é a não-solução do crime, é o recurso usado para denunciar essa triste realidade. Ricardo Piglia transforma, portanto, seu romance "policial" em algo mais, com pitadas políticas, sociais e econômicas que acabam servindo como um questionamento, talvez uma denúncia, de aspectos injustos da sociedade argentina (nos quais nos enxergamos integralmente, por sinal). 


Em meio a esse realismo cru, demonstrado naquilo que nos incomoda na leitura, ou seja, na sucessão de fatos e detalhes que aparentemente para nada servem, já que não desvendam o crime de fato - porque ocorreu e quem foram os envolvidos - em meio a essa realidade perdida, confusa, misteriosa, Piglia insere um Luca surreal que constrói sua "Nautilus", um "veículo imóvel que traz o mundo até nós". Parece-me uma alegoria ao livro, esse "veículo" que também traz o mundo até nós.


Está aí, a meu ver, o ingrediente mais interessante de Alvo Noturno, aquele que realmente acrescentou uma novidade à história, que me trouxe uma reflexão nova: o dado psicológico. Especialmente em Luca, o personagem que mergulhara em seus ilusórios projetos com uma determinação tão bela quanto doentia. A cena em que Luca está perante a Justiça e é obrigado a decidir-se, a chocar seus sonhos com a realidade nada agradável daquela região e seus podres poderes, parece-me o momento mais revelador e crucial do livro. 


Luca tinha força para defender sua utopia porque julgava-se certo em sua luta, julgava-se injustiçado, enfim, acreditava (literalmente, por sinal) em seus sonhos, acreditava que representava o Bem (digamos assim) em luta contra o Mal (do qual fazia parte o canalha Cueto). Quando, na audiência judicial, Luca é posto na encruzilhada e opta por manter sua ilusão a custa de uma injustiça, quando ele aceita compor com os interesses de Cueto, ceder a ele, submeter-se, e faz isso pelo dinheiro que garantiria a continuidade de seus sonhos e projetos, ali Luca, sem perceber, quebrou toda a força de sua alma. Não pôde viver em paz com aquilo, enfraqueceu sua determinação, corrompeu-se, perdeu as razões morais que sustentavam sua luta. E acabou como acabou - e aqui tanto faz se se matou mesmo ou foi vítima de "queima de arquivo". 


Ao fugir da realidade e não encará-la quando foi posto à prova, Luca foi engolido por ela. Talvez tenha sido esse o "recado" de Ricardo Piglia em Alvo Noturno. Depois de nos deixar naufragar naquela realidade inconclusa do crime, depois de nos mostrar como se deu a expulsão de índios, a ocupação e conquista de grandes glebas de terra no interior da Argentina, depois de nos mostrar as relações de poder (e sexo) entre os Belladona e polícia (Ada-Cueto) e imprensa (Sofía-Renzi), o autor parece nos dizer com Luca que não é possível iludir-se perante estes contextos bem reais. Todos ali estão muito conscientes do que fazem, inclusive as belas irmãs, e viver no mundo da Lua, inebriado por sua brancura noturna, não levará ninguém à redenção. Reparem que, caso Luca decidisse pelo oposto, ou seja, não incriminar um inocente e perder a fábrica aos credores, haveria sim o sofrimento, mas seria pela perda de uma ilusão. E perder ilusões, mesmo que isso doa muito, sempre traz benefícios, pois poderemos depois disso trilhar caminhos mais reais, verdadeiros e, agora sim, felizes.


novaes/