CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

27 de abril de 2012

Cariocando no CLIc


Antonio R

Meus queridos colegas do CLIc, compartilho com vocês umas pequenas bobagens que escrevi nesta manhã, numa boa hora que me folgou antes do trabalho. É já reflexo do livro de Lima Barreto, com suas imagens literárias das ruas e ambientes do Rio de Janeiro do início do século XX. Uma cena no Largo da Carioca motivou este despretensioso texto.



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Há um livro, de que gosto muito, do psicanalista e humanista alemão Erich Fromm, "Ter ou Ser?". Neste livro E.  Fromm examina os dois modos de existir que nos caracterizam como indivíduos e o reflexo dessa caracterização nas sociedades; e logo no início há uma interessante análise de três poemas tomados como exemplo por Fromm para clarificar e demarcar as fronteiras dos modos de existência que serão analisados tão brilhantemente por ele ao longo do livro. São eles, respectivamente, do poeta inglêsTennyson (1809-1892), um haiku (que conhecemos por aqui como haicai) de Basho (1644-1694) e o poema Descoberta, de Goethe (1749-1832).


Flor nascida nas fendas de um muro,
Arranco-te e a raiz da fenda em que estás
E te contemplo toda, em minha mão.
Pequena flor – se eu entendesse
Quem és, raiz e pétalas, flor inteira,
O mistério de Deus e do homem eu saberia.

(Tennyson)

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Olhando eu cuidadosamente,
Vejo a nazuna florindo
Em meio à sebe!

(Basho)


Para E. Fromm, a diferença é contundente: “Tennyson reage à flor querendo tê-la. Ele arranca-a com “raiz e tudo”. Já a reação deBasho é totalmente diferente, diz Fromm, pois ele não quer arrancá-la, nem mesmo tocá-la. Tudo o que quer é “olhar cuidadosamente” para “vê-la”. E conclui: “Tennyson, como se vê, precisa possuir a flor a fim de entender as pessoas e a natureza, e ao tê-la a flor é destruída. O que Basho quer é ver, e não apenas olhar para a flor, mas identificar-se, ser uno com ela, e deixá-la viver.”

Fromm ainda cita o poema Descoberta, de Goethe, que seria uma síntese das duas reações explicitadas nos dois poemas acima, mas deixo-o a quem o quiser ler, pois o meu objetivo neste texto é outro, e não analisar o livro de Fromm, e estes dois poemas são já suficientes para o que quero narrar.


Há dias, quando eu chegava ao centro do Rio, para mais um dia de trabalho, reparei que havia um grande alvoroço dentro da área gradeada do Largo da Carioca, que dá acesso ao Santuário e Convento Santo Antonio. E como é o meu trajeto normal de todos os dias, digo, dos dias em que trabalho, passar por dentro da área gradeada, logo descobri o motivo da grande agitação. Um mico, assustado, subia e descia das pequenas árvores existentes no Largo.  E mais uma vez, o que sempre me chama a atenção nesses casos, um sujeito tentava capturar o animal. E caso tenha conseguido, não duvido que o animal tenha ido parar numa gaiola apertada, pelo que o sujeito dizia a um amigo, que queria capturar o bicho e levá-lo para casa.  A ânsia de posse motivava o sujeito, que não se contentou em extasiar-se com a surpreendente presença de um mico num centro nervoso urbano,  e queria o animal somente para sí. Atitude parecida com a do "eu poético" no poema de Tennyson, analizado no livro de Fromm.


Ano passado, quatro micos desalojados pelo desmatamento de um sítio próximo a minha casa resolveram morar no pé de jambo que fica nos fundos do meu quintal. Por dias brinquei com os bichinhos, distribui bananas, vi-os brincarem, correrem desesperados do cachorro quando iam ao solo, até sumirem por uns dias. Descobri-os encarcerados numa gaiola apertada, na casa do vizinho dos fundos. Ouvi-os numa balbúrdia de sons desesperados, e fiz feio, olhei por sobre o muro suspeitando já que se tratava dos miquinhos sumidos há dias. E os vi, eram eles, apertadinhos numa gaiola de ferro "própria" para pássaros.  Não bastava ao meu vizinho contemplar a beleza e a alegria desses bichinhos nas árvores, ele os queria possuir, só para si, mas fazendo isto, encarcerando-os, encarcerou também a beleza e a alegria dos bichinhos. Este meu vizinho é certamente o típico tipo que vive encarcerado também, mas no modo ter de existir. 

Um abraço a todos,


Geórgia
Os sons de minha vida

     [...] Lembro também da ave negra
          trazida de Madalena.
          Manhãzinha eu acordava
          com a sua cantilena.

         Vindo dos bosques distantes,
         não suportava a prisão.
         Atrás de meu pai andava
         saltitando pelo chão.


22 de abril de 2012

Rua da Boavista

Carlos Rosa Moreira
   
   Não a suportava mais; a melancolia aumentava com a presença dela, então saí a caminhar pela Rua da Boavista. 
 
    Era muito tarde, não se via ninguém. Fazia frio. Frio de frio e frio de solidão. Naquele fim de inverno português caía uma garoa tão gelada quanto água de geladeira. Nunca passara por tanto frio nem por tanta solidão. Ela estava lá, no calor físico do quartinho, mas seria pior com ela, por isso eu caminhava pela calçada comprida, queria chegar à praça, devia haver alguma coisa na praça, um bar, gente... Cidades nessas altas horas são terríveis para quem sente solidão, há um opressor clima de abandono no deserto que são as ruas silenciosas. Eu me aproximava da praça, quando reparei numa luz por trás das cortinas rendadas da janela de uma casa. Parei diante das grades de ferro do muro e fixei a cálida luminosidade. Parecia luz de abajur. Talvez estivessem a ler sob aquela atraente luz. Meu coração bateu forte com a saudade do aconchego doméstico. E me senti um cão vadio, a espreitar, faminto, alguém que se alimenta. Meu nariz gelado percebeu aromas de quarto, de cozinha, de tecidos macios, de lar. Coisas que havia muito eu já não possuía. Fiquei parado, olhando a casa como se estivesse num transe. O que me despertou foi um pássaro escuro de bico avermelhado que pousou sobre o muro e cantou debaixo da chuva gelada em plena noite. Cantou como cantam os pássaros numa bela manhã de sol. Aquele fato extraordinário tirou-me da triste contemplação e, distraidamente, passei a imitar o canto do pássaro. Imaginei que fosse uma toutinegra. Em Portugal existem toutinegras e eu gostei desse nome desde que o li, quando criança, no Tesouro da Juventude. Absorto pelo ingênuo pensamento, esqueci a solidão e me senti quase feliz na Rua da Boavista. O pássaro deve ter se assustado comigo, bateu asas e voou. 
     
     Foi aí que virei as costas à praça e voltei para ela.

20 de abril de 2012

Aos queridos amigos do CLIc:


AGRADECIMENTO

Gracinda, Elenir, Ilnéa,
Norma, Fátima e Dília
aqui, como redondilhas,
vocês me vêm à ideia.

Cíntia, Eloísa, Luzia, Solange
vocês também, é claro, além de Cristiana
e Cícero – nunca sem sua Joana –,
e pra resumir as histórias, só Angela...

Vera, Elizabeth, Ceci,
Lilian, Beatriz, Mara...
São tantas moças, está na cara
de que algumas esqueci.

Mas tento me recuperar a tempo:
há duas Neides, a Graça e a Peixoto,
Niza, Fernanda, Marli e tantos outros
que, peço, sintam-se incluídos, pois este é meu intento.

Claro, claríssimo! Meu coração se agita.
Houve uma que me arrastou para o CLIc,
cheia de decisão, no maior pique,
e agora vejo a poesia chamar-se Rita.

Para falar dos homens, minh’alma submerge:
Antonio, Mike Sullivan, Eduardo,
Carlos Rosa, Frederico, Leonardo,
e nosso nobre Evandro, le concièrge.

Ah, sim, há os nomes do passado que não vivi.
Afinal, treze anos de clube já se vão...
E não esqueçamos dos tantos que ainda virão
no belo futuro que podemos, certamente, presumir.

Tudo isso, meus amigos, nem de longe é um poema sublime.
Mas essa homenagem – é disso que se trata –
é só para mostrar o quão grata
está essa alma que aqui se exprime.

Uma centena de livros e histórias,
personagens, vilões e heróis
– e mesmo com tudo isso somos nós
o que fica na memória.

Os leitores são personagens mais fascinantes
do que todos esses maravilhosos, inventados
pelos autores mais renomados!
As pessoas, sim, preenchem minha alma ofegante.

(Agora, esquecendo as redondilhas, sem tortura:
Nos livros, amargor ou doçura
fazem parte da aventura.
Mas essa ternura,
que sacia minha procura,
encontro mesmo – loucura? –
é nos amigos do Clube de Leitura.)

A todos, de coração, agradeço.
Dos livros, talvez...
mas de vocês
jamais esqueço.


Abs,
Newton

13 de abril de 2012

Curtindo Passados de Novo


Visita de Silviano Santiago ao nosso clube de leitura Icaraí para debater "Em Liberdade"

Reler histórias de ontem,
rever o que faz o povo,
escutar o que nos contem,
curtir passados de novo.

 (Ilnéa)



1 de abril de 2012

Haicais de Carlos Rosa Moreira


Perfume na brisa:
ondas selvagens se chocam.
Presente do mar.
 
Vem que vem de longe.
E sempre bate lá em casa.
Vento candongueiro.
 
Nas telhas do tempo
brinca a chuva cristalina.
Minha alma transborda.
 
Sussurro de brisa.
Lua gorda e curiosa
espia entre folhas.
 
Longínquo verão...
Aroma d'Artimatic:
amor do passado.