CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

26 de setembro de 2015

Ensaio sobre a Cegueira: José Saramago





"Não há no mundo nada que em sentido absoluto nos pertença."

"Lutar foi sempre, mais ou menos, uma forma de cegueira."

A carroça de feno - John Constable

Deitados nos catres, os cegos esperavam que o sono tivesse dó da sua tristeza... Vamos todos cheirar mal. 




A culpa foi minha, chorava ela, e era verdade, não se podia negar, mas também é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que cá já não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala, Será, mas este homem está morto e é preciso enterrá-lo.


"A alegria e a tristeza podem andar juntas, não são como a água e o azeite."





Os Filhos da Morte Burra
Blake Rimbaud

Jovens sem nenhuma utopia
Caminham tensos pelas ruas de suas casas velhas
Sem nenhuma luz, sem nenhuma luz de Fernando Pessoa
Fechados nas sexuais telas da impotência
Se masturbam contemplando corpos em decomposição!
Morte da minha fé,
Onde estavam o beija-flor e o arco-íris
Na hora do nascimento dessas criaturas
Quantas gotas de flor restam nos corredores dos céus
De vossas bocas.
Quais fontes clamam por vossos nomes?
Eu entrando na virtuosa idade
E eles entrando em idade nenhuma.
Os filhos da morte burra
Cheiram o branco pó da anemia
Esqueceram que um dia tocaram na poesia da
Transgressão em pleno ventre de suas esquecidas mães
Esqueceram de colar o ouvido ao chão
Para ouvir as ternas batidas do coração das borboletas.
Os filhos da morte burra
Jamais levantam uma folha para conhecer o amor dos incertos
Jamais erguem taças ao luar para brindar a
Vigorosa lua
Os filhos da morte burra,
Desconhecem ou jamais ouviram falar em iluminação
Apenas abrem a boca para vomitar




Quem disse que um raio não cai três vezes no mesmo lugar?

Terceiro debate do ensaio sobre a cegueira,  agora no clube jovem!




Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas,
ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais. 

Descuidados do dia de amanhã,
esquecidos de que quem paga adiantado,
sempre acaba mal servido.

No fim das contas o que está claro é que todas as vidas acabam antes do tempo.

É como tudo na vida, deem tempo ao tempo que ele se encarrega de resolver.

As lágrimas que sentido têm quando o mundo perdeu o sentido?

Como a vida é frágil se a abandonam!

Tinham passado já o corredor, o fedor tornara-se insuportável. Na cozinha, mal iluminada pela escassa luz de fora, havia peles de coelho pelo chão, penas de galinha, ossos, e, sobre a mesa, num prato sujo de sangue ressequido, pedaços de carne irreconhecíveis, como se tivessem sido mastigados muitas vezes.



Após período de quase um ano e meio do fechamento da livraria Ver & Dicto, o Clube de Leitura voltou a se reunir, desta vez acolhido pela Livraria Icaraí da Editora da Universidade Federal Fluminense - EdUFF. Na primeira reunião, em setembro de 2008, os participantes votaram o livro de estréia da terceira fase dos encontros. O eleito para a retomada das discussões, foi o romance “Ensaio Sobre a Cegueira”, do escritor português José Saramago. Para os participantes veteranos esta foi uma releitura, uma vez que estes já o haviam lido em janeiro de 1999.

A reunião de “Ensaio Sobre a Cegueira” ocorreu em 31 de outubro de 2008. A trama transporta o leitor para um mundo repentinamente dominado pelos instintos mais primários de seus habitantes. De modo violento, coloca questões sobre a evolução humana, gerando reflexões sobre degradação social e dilemas éticos. A narrativa, representada de forma crítica, não aponta uma direção específica a ser seguida, sendo uma história que gera perguntas, não respostas.

Tudo começa quando uma misteriosa doença que deixa as pessoas cegas se alastra por um país, atingindo toda a população, com exceção da personagem, que representa a esposa do médico que trata do primeiro homem a manifestar a desordem. Tal situação põe em interdição a moral e as normas de comportamento e tem como consequência a degradação que dominaria a sociedade. “Ensaio sobre a cegueira” nos faz lembrar “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”.

O livro é essencialmente uma crítica social, e revela a cegueira do mundo contemporâneo.

Uma das questões apresentadas durante a leitura do livro foi “por que a mulher do médico não ficou cega?”. Saramago, em entrevista, comenta que “ ‘mulheres do médico’ são… aquelas pessoas que estão conscientes do verdadeiro caráter do mundo em que vivem e que sofrem por não ver sinais positivos de mudança, mas também pela sua própria impotência perante o desastre que se tornou a vida humana”. "O livro não passa de uma pálida imagem da realidade.

Em relação aos “possíveis significados da cegueira branca”, começando por uma analogia ao conceito físico, que diz que o branco é a mistura de todas as cores e o preto e a ausência delas, foi comentado que “Talvez a cegueira branca tenha muito mais a ver com o brilho excessivo dos egos e do poder, que impedem de ver o que não é ‘eu’, do que com a ausência dos dispositivos e aparatos pra ver...
"A cegueira da ideologia, de que falava Marx, também parece uma espécie de ‘cegueira branca’, a alienação talvez. É significativo também, por essa linha de especulação, que a mulher do médico, que topa dar a vida pelo outro, experimente, talvez por isso mesmo, uma espécie de antídoto… Significativo também o mecanismo de contágio da ‘cegueira branca’. Propaga-se através de uma rede de relações. O contágio não é pelo contato (físico), mas pelas relações. E por isso mesmo, o remédio é a quarentena, o isolamento, o rompimento da rede de relações. Remédio que pressupõe o germe da doença nos que tentam tratá-la. Eu quase diria que o círculo é absolutamente vicioso e a quebra da epidemia passa por alguém ‘negar’ essa lógica, a exemplo do que Gandhi fez com a ‘não-vîolência-ativa’ no processo de libertação da India.
O convívio forçado dos cegos no livro levou uma das integrantes a fazer interessante analogia com a obra “Huis-clos” (“Entre Quatro Paredes”), escrita pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905 – 1980) para o teatro em 1945:
Li a peça ‘Entre quatro paredes’ há muitos anos, … Nesta peça três personagens se encontram depois da morte, no inferno. Cada um acha que está ali por engano e esperam o carrasco quando um deles percebe que não chegará ninguem, cada um será o carrasco do outro, o inferno é estarem confinados, serem obrigados a conviver (‘L'enfer c'est les autres’, ‘O inferno são os outros’). Através do outro cada um começa a ‘confessar seus pecados’, a entender porque estão ali, é pela presença do outro que cada um se conhece. Nas cameratas, a convivencia forçada também faz com que cada um mostre como realmente é.
Na mesma linha, foi sugerido influência da corrente filosófica existencialista na criação literária de Saramago. A temática existencialista, foi justificada através da consideração das “personagens em situação, cegueira, para daí buscar construir o sentido da existência delas, debatendo questões atinentes à ética e que pertinem a toda humanidade.

A temática existencialista, contudo, foi questionada. Apesar de apresentar traços existencialistas, foi argumentado que a temática da obra de Saramago seria “fundamentalmente humanista”.
É verdade que Sartre tentou ligar existencialismo e humanismo, (O existencialismo é um humanismo, Sartre, 1946). Lukács não aceitou isso (Existencialismo ou Marxismo, Lukács, 1967) e denunciou como ‘forçação de Barra’ a tentativa de conciliar a noção existencialista de liberdade, entendida como decisão exclusivamente individual, e as circunstâncias históricas e sociais em que essas decisões individuais são tomadas.
Tento compreender quanto de existencialismo tem por trás da cena em que o primeiro cego encontra o escritor que havia se alojado no seu apartamento e, quando sua mulher pergunta o nome do escritor este responde ‘... os cegos não precisam de nome, eu sou esta voz que tenho, o resto não é importante’...(p. 275)… Finalmente, entre o ‘estou cego’ das primeiras páginas e o ‘vejo’ das últimas, assistimos a um drama apocalíptico em que os inidíviduos em sua liberdade sobreviveram ou sucumbiram mas não compreenderam nem foram capazes de mudar efetivamente as condições de contorno de sua existência (a menos do momento em que inexplicavelmente, talvez como eco de sua essência, a mulher do médico grita ‘Ressurgirá’), qual seja a de verem, estarem cegos e verem novamente.
E por favar em releituras, a versão cinematográfica “Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness)”, adaptada pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, valeu, para os que a assistiram, também como uma. Saramago descreve a adaptação de Fernando Meirelles como sendo mais do que satisfatória:
Considero-o até brilhante. O essencial da história está ali, como seria de esperar, mas, sobretudo, encontrei na narrativa fílmica o mesmo espírito e o mesmo impulso humanístico que me levaram a escrever o livro.
Fernando Meirelles, por sua vez, em comentário sobre a epígrafe “Se pode olhar, veja. Se pode ver, repara, do livro de Saramago, nos deixa a seguinte mensagem
“Olhar com a percepção mecânica da visão, ver como uma observação mais atenta do que nos aparece à vista, uma visão analítica, e finalmente reparar no sentido de se libertar da superficialidade da visão e se aprofundar no interior do que é o homem e assim conhecê-lo.



Aviso - Mudanças no Clube de Leitura Icaraí

IMPORTANTE! 

A Livraria Icaraí é, há anos, local de encontros para discussões de leituras. 

Clube de Leitura Icaraí e o Clube de Leitura Jovem ocorrem mensalmente.

Aqueles que os frequentam já sabem de cabeça as datas, contudo, a partir de outubro, HAVERÁ MUDANÇA PERMANENTE NOS HORÁRIOS DOS DOIS CLUBES.

O Clube de Leitura Jovem passa a ser toda penúltima quinta-feira do mês às 16h, e o Clube de Leitura Icaraí a toda segunda sexta-feira do mês às 16h. 

Não se esqueça de alterar sua agenda e continuar frequentando! wink emoticon




Atenção Cliceanos, mudanças à vista no

 
Clube de Leitura Icaraí. Entre em contato

 
com o Concierge caso queira participar do


 processo.





 
Reunião do Clube de Leitura deste


 11/9/2015 foi no segundo andar da Editora


 da UFF. Acesso pela escadinha em

 
caracol ao  lado da guarita da segurança.


21 de setembro de 2015

21 de setembro - dia da árvore: Elenir Teixeira




Caros amigos ela merece que comemoremos o seu dia. Para vocês, meu haicai:

Sua sombra me acolhe.
Os seus frutos me alimentam.
Salve seu dia, Árvore!

Beijos primaveris.

19 de setembro de 2015

A Primavera: Bertold Brecht





1.

A primavera chega.
O jogo dos sexos se renova
se procuram.
Um toque gentil da mão do seu amado
Faz o peito da moça estremecer
Dela, um simples olhar o seduz.

2.

Sob nova luz
Aparece a paisagem aos amantes na primavera.
Numa grande altura são vistos
Os primeiros bandos de pássaros.
O ar se torna cálido.
Os dias se tornam longos
E os campos ficam claros por longos tempos.

3.

Desmedido é o crescimento
Das árvores e pastagens da primavera.
Incessantemente fecunda
É a floresta, e os prados e os jardins.
A terra faz nascer o novo
Sem medo.


17 de setembro de 2015

estações: Everardo




colher primaveras, que ofício estranho!

(como colher se já ninguém plantou?)


nesse outono, ando mais semeador

de uns versos que não medram por igual


pretendo ainda extrair bauxita, quem

sabe aparar a chuva e viver menos como


quem colhe do que planta – uma rima

ou um sonho – no tempo desigual


28/10/2013


16 de setembro de 2015

Fria Primavera...: Ilnéa País de Miranda




Na tarde fria dessa primavera
Eu vejo a chuva que parece pranto
Feita das gotas do meu desencanto
E do desejo que se fez quimera. 

Dentro de mim rescaldos de um encanto,
molhados d'água em mim… ah, quem me dera
escuto em sonho e alma sempre à espera
dos teus sussurros de que me acalanto.

Então lembrei porque te amava tanto
Refiz pedaços de uma fantasia
e recusei amar tão longo sonho.

Sem acordar, então, por meu espanto,
Notei no verso um tanto de alegria
Pintando risos num versar tristonho. 


P.S. Mesmo sem procurar… eu encontro "coisas de mim… por aí… nem sei onde"!


5 de setembro de 2015

O Valor da Empatia: Elenir Teixeira




Amigos, gostei muito do texto do Professor Eugenio Mussak,  intitulado "O Valor da Empatia".  Não o enquadrando no conceito de auto- ajuda, sentí vontade de compartilhar com vocês alguns trechos:

"Colocar-se no lugar do outro e perceber suas necessidades é essencial para um relacionamento, em qualquer área  da vida".

"Empatia não é o mesmo que simpatia. Ambas as palavras vêm do grego e usam  a raíz  pathos, que, em sua origem mais remota, significa doença  (daí patologia). [...] Mas, simpatia usa o prefixo sin, que quer dizer junto, ao lado de. Já o prefixo de empatia é em, que remete ao interior, estar dentro, junto de verdade  O simpático está ao seu lado. O empático está com você. O simpático lhe olha, o empático lhe toca, mesmo que não use as mãos. O simpático é agradável. O empático é necessário".

"Ser empático é sentir a dor do outro. É compreendê-la. E assim criar as condições para mitigar tal dor. Se você não busca entender o sentimento do outro, não conseguirá lidar com ele  da forma mais adequada."


4 de setembro de 2015

Clube da 7 - Judas: Amós Oz




"Judas', nesta reta final, me parece um daqueles livros com cujo argumento o autor vinha se revirando há muito tempo, parece ter pensado e repensado várias vezes o passo que daria para contar essa história. Como nunca lhe ocorria o jeito certo, ele foi ao longo dos anos produzindo todos os outros romances do seu catálogo. O dia chegou em que ele teve que dizer "não adianta! vou ter que arquitetar tudo da melhor forma e contar isso aqui!", e assim fez, sem aquele lampejo do que se poderia esperar "inspiração"; mas fez com a disciplina que um grande autor aprende a ter para contar sua história: capítulos curtos, a narrativa bem equilibrada com a elucubração, personagens descritos com precisão e sem exageros.

Concordo com Rita De Cassia Magnago nos seus comentários ao livro há algumas semanas: "Judas" é sobre entendimento, sobre conciliar o inconciliável, seja o catolicismo com o cristianismo, seja o creacionismo com o darwinismo, seja Israel sendo vista de dentro com Israel sendo vista de fora; ou a conciliação entre um velho um pouco cínico e desiludido e um jovem idealista e curioso a respeito do evangelho. Às vezes dá a impressão de que estamos assistindo a um acerto de contas entre o jovem e velho Amos Oz. Talvez "Judas" seja o tipo de livro que só pode surgir na velhice de um escritor.

Eu tenho uma grande amiga israelense, que veio para o Brasil aos 12 anos, e que posteriormente passou a adolescência convivendo, basicamente, nos meios judaicos de São Paulo. Quando fomos assistir juntos ao filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson, no cinema, achei maximamente interessante que ela estivesse assistindo ao filme com real e vívido interesse narrativo, porque apesar de extremamente culta e cosmopolita, ela realmente não sabia o que ia acontecer. Ela tinha alguma noção de pedaços de história cristã aqui e ali, mas ela realmente não sabia bem como se dava toda essa coisa de martírio e ressurreição da qual tanto se mencionava.
Roberto Pedretti

Sendo cristãos de nascimento, e tendo como espelhos culturais bem firmes os Estados Unidos e a Europa Ocidental, é muito comum que nos pareça estranho pensar sobre uma cultura eticamente tão parecida com a nossa, mas na qual Jesus não é mais que uma nota de rodapé aqui e ali (conforme Amós Oz começa ressaltando no capítulo 9). O que os personagens de "Judas" estão fazendo, ao referirem-se a Cristo com tanta frequência é, por si só, um ato de tolerância. Será um apelo do autor?