CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

24 de abril de 2017

Mar de variedade: Livro: A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hug...

Mar de variedade: Livro: A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hug...: Olá queridos! Esse foi o livro de março com discussão em abril do Clube de leitura O livro de areia.  Nunca tinha lido nada desse autor...






23 de abril de 2017

Brás Cubas & Virgília: Mr. EPA

Brás Cubas: Então? 




Virgília: Espere um pouco mais. 




Brás Cubas: Está bem


Como prefira 




Virgília: Ah! 




Brás Cubas: Por mim não terminava nunca. 




Virgília: É um momento único.


Não te parece que está indo muito rápido? Devagar, vai

Quanto mais lento, melhor



Brás Cubas: Difícil resistir

Como é bom! A gente não quer que acabe mesmo

Deus, meu! Me segura

Que espetáculo!




Virgília: Vamos voltar mais vezes? 




Brás Cubas: Claro! 




Virgília: Olha a Lua! 






22 de abril de 2017

Livro: Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis e filme

Olá queridos!
Reproduzo o post do meu Blog Mar de Variedade. 
Esse foi o livro do mês do Clube de Leitura Icaraí. Gostei muito!

Sinopse: Brás Cubas, após a sua morte, faz uma retrospectiva de toda a sua vida com os leitores. 


Esse livro é um clássico da Literatura Brasileira. É o primeiro romance da fase realista de Machado de Assis. 
Ele costuma ser leitura obrigatória nas escolas e costuma cair no vestibular. Confesso que ler um livro dele na fase adulta, com mais maturidade, me trouxe grande prazer na leitura. 
Brás Cubas começa sua narrativa contando que faleceu com 64 anos, solteiro, com cerca de trezentos contos, o que era considerado rico. 
Ele foi um cara de família rica, portanto, não precisava trabalhar, mas buscava títulos. Teve algumas histórias de amor, mas seu grande amor foi Virgília. 
Embora a vida de Brás Cubas não tenha sido espetacular, Machado de Assis conseguiu fazer uma narrativa sobre a vida dele muito interessante. O narrador interage com o leitor o tempo todo. 
Na obra, percebemos as nuances de cada personagem. Conseguimos fazer uma análise de cada um.
O livro também é uma crítica à sociedade, pois mostra a classe burguesa em busca de títulos de nobreza, além de casamentos por interesse, traições, etc. 
É uma ótima leitura!
Recomendo!

Sobre o filme:
Ele pode ser encontrado no youtube. O protagonista é vivido na fase mais velha pelo Reginaldo Faria e, na fase mais jovem, por Petrônio Gontijo. Achei bem fiel ao livro, de forma mais resumida. Muito bom também! Recomendo!

21 de abril de 2017

a máquina de fazer espanhóis: valter hugo mãe

Discurso de um jovem militante contra o regime de Salazar, em "A máquina de fazer espanhóis", de Valter Hugo Mãe, p. 150. Mantida a grafia original do texto todo em minúsculas:
.
"sabe, senhor silva, é preciso que se suje o nome de salazar para todo o sempre. é preciso que o futuro lhe reserve sempre a merda para seu significado, para que os povos se recordem como foi que um dia um só homem quis ser dono das liberdades humanas, para que nunca mais volte a acontecer que alguém se suponha pai de tanta gente. este tem de ser um nome de vergonha. o nome de um porco. para que ninguém, para a esquerda ou para a direita, volte a inventar a censura e persiga os homens que têm por natureza o direito de serem livres."


Nosso protagonista do mês, sob a gravidade de seus 84 anos de idade, enxerga o mundo todo em letras minúsculas. Quando o texto sai da esfera do Sr. Silva como, por exemplo, no capítulo sobre o ídolo peruano Teófilo Cubillas, que jogou no Futebol Clube do Porto entre 1974 e 1976, o texto volta ao que seria de se esperar, com frases e nomes próprios iniciando com letras maiúsculas. Na minha opinião, deveria ter permanecido com letras minúsculas porque o Sr. Cubillas estava naquela vergonhosa derrota da seleção peruana para a Argentina de 6x0, que desclassificou a seleção canarinho. Um verdadeiro episódio de ficção!

Quando a mulher do Sr. Silva vira metafísica, nosso anti-herói lamenta, inicialmente, não viver em um admirável mundo novo, para que a dor da perda não o oprimisse de forma tão desumana, como estava sendo viver em um mundo sem Laura.  Por isso é que  esses relacionamentos emocionais intensos ou prolongados  são proibidos e considerados anormais no admirável mundo novo de Huxley: poupa esses tormentos das perdas. O Sr. Silva maldiz suas memórias, e a saudade que sente, comparando-as a uma opressão fascista. No entanto, ao encontrar no asilo da Feliz Idade um personagem de um poema de Pessoa,  o Esteves sem metafísica, ele flerta inicialmente com a metafísica, para em seguida aceitar que o que lhe resta é a companhia de novos amigos e de seus próprios pesadelos.


"Com a morte, tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o fardo não se torne desumano, esse é o limite, a desumanidade de perder quem não se pode perder..."






O Sr. Silva costumava ter pesadelos onde abutres devoravam seu corpo. Lembrei-me da premiada fotografia de Kevin Carter, que mostra que o pesadelo do nosso herói do mês não é tão metafísico assim. Escusa-se de falar a referência à obra prima de Hitchcock.


(photo: nelson d'aires) as gralhas grassam

         
          TABACARIA 
                   (Álvaro de Campos, 15-1-1928)
           
        Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
        ...
        Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. 
         ...
        (Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) 
        ...
          Essência musical dos meus versos inúteis, Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse, E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, Calcando aos pés a consciência de estar existindo, Como um tapete em que um bêbado tropeça Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada. 
          Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada E com o desconforto da alma mal-entendendo. Ele morrerá e eu morrerei. Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos. A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, E a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas, 
          ...
          Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?) E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. Semiergo-me enérgico, convencido, humano, E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário. 
           ...
           (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.) Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela. O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. (O Dono da Tabacaria chegou à porta.) Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. Acenou-me adeus, gritei-lhe , e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


        Periodista Digital
        "- sabes que os peixes tem uma memória de ... 3 segundos... é por isso que não ficam loucos dentro daqueles aquários sem espaço, porque a cada 3 segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. devíamos ser assim, a cada 3 segundos ficávamos impressionados com a mais pequena manifestação de vida, porque a mais ridícula coisa na primeira imagem seria uma explosão fulgurante da percepção de estar vivo. compreendes. a cada 3 segundos experimentávamos a poderosa sensação de vivermos, sem importância para mais nada, apenas o assombro dessa constatação.  
        Corvos - Lucio Bouvier
        - seria uma pena que não voltasse a se lembrar de mim, sr. silva, não gosto dessa teoria dos peixes, porque assim não se lembraria de mim.
        ...
        estava no ponto peixe. o glorioso ponto peixe a partir do qual o destino nos começa a ser irrelevante. encaramos as coisas com o mesmo drama com que em segundos o esquecemos e nos esperançamos de alegria por outro motivo qualquer, sem saber por quê."


        "... Muitos mentem sem pudor para não se deixarem humilhar, pouco importava tudo isso porque tão na extremidade da vida eram todos a mesma coisa, um conjunto de abandonados a descontar pó ao invés de areia na ampulheta do pouco tempo".


        Para ler carta enviada a Valter Hugo Mãe por uma leitora do CLIc acesse: http://ritamagnago.blogspot.com/2011/08/carta-enviada-ao-valter-hugo-mae.html

        A carta-resposta do autor está em http://ritamagnago.blogspot.com/2011/09/resposta-do-meu-dileto-escritor.html



        Alguém aí sabe como tirar o fascismo das pessoas?

        Leia este livro.


        Eles estão de volta no CLIc - Grande Sertão: Veredas - Guimarães Rosa

        13/07/2017
        19:00h

        Varanda do Teatro da UFF







        19 de abril de 2017

        Memórias Póstumas de Brás Cubas: Machado de Assis



        Memórias acabam em pizza

        Virgília era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação. Era isto Virgília, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns ímpetos misteriosos; muita preguiça e alguma devoção, — devoção, ou talvez medo; creio que medo.


        Nhã-Loló: 200 anos depois, a febre amarela está de volta

        Bem aventurados os que não descem 
        porque deles é o primeiro beijo das moças



        "O indivíduo se emociona para ficar 'fora de ação' 
        e não se encarregar da vida"


        Volúpia do aborrecimento

        Fiquei prostrado. E contudo era eu, nesse tempo, um fiel compêndio de trivialidade e presunção. Jamais o problema da vida e da morte me oprimira o cérebro; nunca até esse dia me debruçara sobre o abismo do Inexplicável; faltava-me o essencial, que é o estímulo, a vertigem...

        Para lhes dizer a verdade toda, eu refletia as opiniões de um cabeleireiro, que achei em Módena, e que se distinguia por não as ter absolutamente. Era a flor dos cabeleireiros; por mais demorada que fosse a operação do toucado, não enfadava nunca; ele intercalava as penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de um sabor... Não tinha outra filosofia. Nem eu. Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim; embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de todas as coisas a fraseologia, a casca, a ornamentação...


        De Brás Cubas para Marcela



        Leituras Suplementares

        O Alienista: Machado de Assis
        Tartufo: Molière
        Um mapa da desleitura: Harold Bloom
        Teogonia: Hesíodo
        Fenomenologia do espírito: Hegel
        Poética: Aristóteles
        Fausto: Goethe
        Amar, verbo intransitivo: Mário de Andrade
        Carmen: Prosper Merrimée
        O riso: Bergson
        Esboço para uma teoria das emoções: Jean Paul Sartre




        I will chide no breather in the world but myself, 
        against whom I know most faults.


        Na hora certa, o amor dá certo!



        O Mito: Carlos Drummond de Andrade


        "Que bom que é estar triste e não dizer coisa alguma!"
        (Shakespeare)


        18 de abril de 2017

        Chove! - Vera L. S. F.




        A chuva cai.
        Dentro de mim existe apenas solidão.  
        Sofro, sofro profundamente a perda de um amor.
        Recordo, e no meio de tantas lembranças existe a dor dos dias já vividos.
        Vejo, você e eu, de repente, um nada.
        Imagino, a solidão de uma alma.
        Sinto, a dor de uma saudade.
        Deixo, toda uma tristeza.
        Fico, com uma imensa desilusão. 
        Espero, a alegria há muito 
        esquecida.
        Parto, em busca de paz, de um sorriso, de vida.
        Em busca de um amor.



        Escrito em 31- 12 - 65.



        16 de abril de 2017

        Boa Páscoa, Cliceanos!

        Amigos, na Páscoa, celebremos com as cerejeiras o renascimento e recomeço de uma nova vida. (Elenir)

        Em flor, cerejeiras
        trazem beleza e alegria
        celebrando a vida.




        A Páscoa Cristã ocorre sempre no primeiro Domingo após a primeira Lua Cheia Eclesiástica do Outono, que difere da lua cheia real porque não leva em conta o complexo movimento lunar podendo, portanto, divergir, eventualmente. Mas na dimensão da fé, afinal, o que importa a realidade?  

        O antecedente da Páscoa Cristã é a Páscoa judaica que geralmente não coincidem por se referirem a eventos diferentes e se basearem em calendários distintos. O calendário cristão é baseado no movimento do Sol e o judaico no movimento da Lua. A Páscoa Judaica recorda a libertação do povo de Israel da escravidão no Egito, enquanto a Cristã marca a ressurreição de Cristo

        O dia de celebração da Páscoa Judaica é sempre aos 14 dias do mês Nisan e, diferente da Cristã, pode cair em qualquer dia da semana. A Páscoa Cristã nunca acontece antes de 22 de março nem depois de 25 de abril.


        Páscoa significa libertação. Para os judeus, uma libertação política. Para o cristão, uma libertação espiritual.




        ESSE CLUBE TEM HISTÓRIAS...E  SEMPRE RENOVAÇÕES!


        Páscoa ! Renascer.
        Brindar a vida, espalhando
        Alegria e Amor.



        Páscoa é vida!
        Tempo de renovação
        e, sempre, esperança.


        Carinho e Amizade
        Elenir 


        Feliz Páscoa a todos os participantes do nosso clube de leitura Icaraí!!!





        15 de abril de 2017

        Conto coletivo de Páscoa: escrito pelos participantes do Clube de Leitura Icaraí


        "Mãe, quero um ovão de chocolate na Páscoa, tá?" Aquele pedido de seu menino, seis anos de um sorriso que insistia em ignorar a vida dura que a pequena família levava, causou-lhe um sorriso aflito. Não dava para explicar ao pequeno sobre desemprego ou subemprego... Não dava para explicar que a Páscoa, como o Natal ou o dia de aniversário, eram dias difíceis para quem catava as moedas no fundo da bolsa para poder pegar a condução de ida em busca de uns trocados na rua.
        Lota, apelido de Carlota, mãe do pequeno, custou a dormir naquela noite. Procurava uma forma de satisfazer a vontade do filho. Quando conseguiu dormir, povoaram seu sonho muitos ovos, pequenos, grandes, ovões e os mais lindos coelhos.


        Decidiu então, com o coração apertado, mas buscando uma força interior que a sustentava em momentos tantos e difíceis, tentar responder a mais uma pergunta do mais velho de seus cinco filhos. 


        Jesus, chega aqui pertinho da mamãe, senta aqui meu querido. Mamãe vai te contar uma estória...
        O período de privações da Quaresma se estendia além dos 40 dias, fora criada com preceitos sérios sobre religião e quando era criança, além dos semi-jejuns que a levava quase ao nirvana, em sua casa não se ouvia músicas "profanas" no período que antecedia a Páscoa.



        Antes que a mãe iniciasse a estória, todos da casa ouviram um alarido que vinha da rua. Levantaram-se rapidamente e foram até a porta que estava aberta. Algumas mães, pais e muitas crianças faziam uma brincadeira. Curiosos, a mãe e seus cinco filhos correram para junto dos demais. A ideia foi lançada: quem encontrasse um ovo escondido naquela redondeza, ganharia um prêmio. Os adultos poderiam brincar também.

        Dividida entre o desafio que era a possibilidade de um ovo real para seu Jesus e ainda um prêmio - o que seria? - e o rigor da religião que sempre a fez temente demais aos homens, além de sua conhecida subserviência, Lota suspirou. Deixou seu medo de lado e lançou-se à rua, decidida.

        Encontrando os amigos, vizinhos e a criançada, Lola caminhou livremente, sentindo-se feliz, alegre mesmo. Lembrou-se por um instante da estória que contaria ao filho e percebeu até aliviada que alguns garotos levavam cartazes que tinham a ver com sua história . Ela leu: Páscoa! Festa da Renovação! Em outro cartaz: Estamos festejando o amor, o perdão, a união! e num outro: Páscoa! Quem achou o ovo?



        E então, algo horrível aconteceu: um som de sirene foi ficando cada vez mais forte até que um carro da polícia apareceu a toda velocidade. Quatro policiais fortemente armados desceram do carro de armas em punho e ordenaram que todos ficassem onde estavam, sem se mexerem. Tinham recebido uma denúncia anônima sobre tráfico de drogas e que os ovos de páscoa estavam recheados de cocaína.


        Diante da força, a ordem recebida não foi cumprida. Aquelas pessoas, já acostumados a serem acusadas sem provas, onde suas casas eram invadidas e seus filhos levavam coronhadas sem motivo aparente - essa turma que fazia festa na rua -,resolveu não recuar e continuaram...

        O alarido recrudesceu. Tornou-se um verdadeiro tumulto. Eram crianças, jovens, adultos e, até seu Zé,vizinho pacato, beirando os setenta anos, acompanhou os netos na brincadeira. Além de tudo, havia, suspenso em um dos postes da rua, enorme espantalho, simbolizando o Judas, que, de acordo com a tradição, deveria ser malhado no Sábado de Aleluia. 
        Padre Quinzão, responsável pela paróquia, muito ranzinza, passava pelo local nesse momento, e, abanando a cabeça e resmungando, dizia para si: "Eles só querem saborear o chocolate do ovo, mas não se preocupam em saber o que ele representa". Assim pensando, caminhou, com a inseparável bengala, em direção da Igreja, onde preparou sua pregação para a Missa das 18 horas. Incluiu o seguinte: "Depois da morte de Jesus Cristo e da Sua ressurreição, os cristãos consagraram o hábito de, no Domingo de Páscoa, presentearem-se com ovo, símbolo do nascimento e retorno da vida. No século XVIII, essa prática foi adotada, oficialmente, pela Igreja".
        Será que alguém foi à Missa nesse dia? 
        O século XVIII estava muito distante e ninguém sabia que a euforia das crianças já era efeito da droga. Seu Zé também provou do chocolate precioso. Lota então resolveu procurar o conselheiro, toda a comunidade tem um conselheiro que dá palpite em tudo e geralmente não são procurados por sua sabedoria e sim pela proximidade do chefe.
        Ao chegar na casa do conselheiro encontrou o homem já de saída, com algemas nos punhos diante dos policiais e a séria acusação do tráfico de drogas nos ovos de páscoa. Agora a brincadeira poderia ser comemorada com alegria, sem preocupações. Teria sido mesmo ele, um homem tão sábio, o autor de tal crime? Deixemos isso para os responsáveis do caso. Voltemos às brincadeiras na rua porque é tempo de alegria e comemoração da liberdade.
        Mas seria possível brincar diante de tanto alarido? Como rezar a missa com fatos tão intrigantes? Todos, na verdade, ficaram estarrecidos com a prisão do Conselheiro, logo ele, homem sábio e em quem confiavam!

        Aquela Páscoa tomou um rumo diferente no pensamento das pessoas: muitos se questionaram sobre seus credos,seus ideais. Agora, sem a confiança no Conselheiro,o que fazer, o que pensar...E a alegria dissipou-se trazendo a cortina da noite, da noite de um dia diferente. 




        D Lota, que na confusão já estava sendo tratada por Lola, reuniu seus filhos

        em volta da mesa e procurou acalmá-los. Teve a brilhante ideia de cada um desenhar um ovo, com as cores que preferissem, e que contassem uma estória. Cada um debruçou-se sobre seus sonhos e fantasias e transferiu para o papel todas as suas emoções...assim adormeceram com esperanças no novo dia que surgiria.



        Mais uma vez, dona Lola guardou a verdadeira história, a história real de suas vidas para escutar as estórias de seus filhos. 

        Seu filho mais velho, Jesus, foi poupado. Até quando? Nada mais importava naquele instante, só os sonhos de seus filhos. Afinal era Páscoa, ela não podia perder a esperança em dias melhores...


        Enquanto isso, numa bela casa, não muito longe, sua proprietária, conhecida como dona "Generosa", questionava seu neto, rapaz de uns dezessete anos, sobre a causa de seu nervosismo e inquietação. A princípio, recusou-se a falar, mas, tanto ela insistiu, que ele aquiesceu. Disse-lhe que nutria raiva e inveja daquelas crianças, pois, embora pobres, viviam alegres, brincando na rua e eram levadas à escola pelas mães. A sua morrera quando ele tinha, apenas, nove anos, vítima das drogas, conforme lhe contaram. Por isso, aquela brincadeira incomodava-o. Decidiu acabar com ela e, pelo menos uma vez, veria os meninos tristes. Assim pensando, fez a denúncia anônima e falsa à polícia de que os ovos objeto do prêmio continham cocaína. Por sua causa, um inocente, estimado e respeitado por todos, pobres e ricos, o Conselheiro, estava preso como suspeito. Sentia-se arrependido. Ao ouvi-lo, a avó exigiu que ele fosse à delegacia confessar seu crime. Mas, antes, disse-lhe, compre, com este dinheiro que te dou, muitos ovos, grandes, pequenos, enfeitados, recheados e coloque-os nas portas das casas dessas crianças. Ficarão alegres e felizes. "Ai de ti se não me obedeceres!", acrescentou ainda. O rapaz comprou os ovos. Depositou-os nas portas. Foi à delegacia, onde confessou seu crime. O Conselheiro foi libertado. 


        Quando Lota viu o Conselheiro pela manhã, caminhando pela rua, livre novamente, deixou-se dominar por uma alegria que não sentia há muito tempo. E sem pensar em nada, apenas deu uma pequena corrida e abraçou-o festivamente. O Conselheiro, que nunca presenciara uma manifestação assim de Lota, ficou sem saber o que fazer. Quando ela finalmente o soltou e os dois ficaram frente a frente, seus olhos se encontraram e eles se viram de uma forma diferente, como nunca se haviam visto antes.

        O Conselheiro percebia que algo havia mudado. O sabor da recente liberdade fazia-o experimentar cada detalhe como uma nova oportunidade. Sentia-se como um portador de vida nova, em sintonia com o ovo que se rompe pois seu interior quer se expandir. Quando encontrou com Lota, estava a caminho da casa de D. Generosa para agradecê-la e para revê-la, pois guardava há tempos um forte sentimento por ela.


        O Conselheiro, após despedir-se de Lota prometendo voltar para deliciar-se com sua famosa canjica, dirigiu-se à casa de D.Generosa. Ela fazia jus ao nome. Se não usasse energia com o neto e não se preocupasse com o outro, certamente, ele estaria, ainda, na cadeia. O Delegado e os policiais não se preocuparam em averiguar a verdade. Prenderam-no e pronto. Missão cumprida! Por outro lado, Lota, na cozinha de sua casa, preparava o café para as crianças, cortava o pão, estendia a toalha na mesa. E cantava. Através da música, extravasava toda sua alegria. Cantava tanto, e tão alto, que a garotada acordou. Jesus, o mais velho, muito sensível, aproximou-se, beijou-a e disse: Que bom mamãe, ouvir a senhora cantar! Um novo dia começava trazendo alegria e muita esperança. E eles não tinham visto, até àquele momento, os ovos deixados na porta!



        14 de abril de 2017

        Que tipo de chocolate é você?


        Elenir, entre a sacerdotisa do CLIc e a escritora GR

        Que injustiça dizer que o Taurino é "pão duro"! Sou taurina e me considero muito generosa, embora, sempre, com os pés no chão, sem esbanjar. Realmente, gosto muito de Serenata de Amor.

        Sou Taurina, pés na terra,
        com medo do vôo alçar.
        Mas tenho Vênus brilhando
        para a estrada embelezar.

        Por ter ascendente em Gêmeos,
        trago em mim dualidade.
        Ora alegre, ora triste,
        vou fazendo a caminhada


        As palavras são meus chocolates preferidos. Adoçam minha vida.

        Muitos beijos para todos. Sem economia.


        Páscoa ! Renascer.
        Brindar a vida, espalhando
        Alegria e Amor.


        Carinho e Amizade
        Elenir

        Feliz Páscoa a todos os participantes do nosso clube de leitura Icaraí!!!


        9 de abril de 2017

        Cem Culpas: maria tereza penna




        Lua - Planeta Sonho... Satélite de Cristal!
        Que pode ferir, marcar ou refletir num transporte de fumaça...
        E se tornar em rocha firme em direção ao alto!...

        (maria teresa penna)



        R$ 30,00 - peça o seu, CLIC  aqui


        Sobre o livro: "Seus poemas são músicas que se transformam em imagens e textos. Tudo é imagem e som. A cadência faz com que o ritmo se organize em música, o primitivo que nasce no coração, nas batidas da emoção. Poesia atual - inspirada, emocionada, amorosa - uma poesis feminina. Fruta madura, escrita pronta para o colhimento. Vai do eu ao eu. Plantada e tecida com mãos de fibras de bananeiras e bananais. Uma poesia de mulher que cria e participa com e sobre vários matizes saídos desse caleidoscópio do vivido em Geraes."

        "Seus poemas encantam ao mesmo tempo que traz a realidade para analisarmos e refletirmos de forma profunda, olhando para dentro de nós e vivenciando os fatos que estão perto, nos envolvem e que nos tocam o coração." (Sonia Salim)



        Sobre a autoraPoeta, artista plástica, publicitária, designer gráfica e multimídia, produtora cultural. blogueira interessada em Arte e Sustentabilidade. 

        "Maria Tereza sustenta a palavra com generosidade e beleza. CEM CULPAS traz o que de melhor ela tem resgatado nos últimos tempos, tanto na vida exterior, pela observação quanto olhando para dentro de si e buscando na alma as melhores palavras para compor o seu vasto mundo poético.

        Quando nos colocamos diante do livro podemos perceber a sua alma de artista, pois todo o trabalho foi elaborado por ela com a maior dedicação e talento para o deleite dos leitores. É uma mulher preocupada com a sustentabilidade e trabalha para que isso seja de fato realizado na comunidade em que vive."





                           Valsa Para Uma Lua Cheia


        Lá estava ela
        Branca
        Redonda
        Se esvaindo em Luz!... 

        E  nuvens vaporosas
        Macias
        Bailantes
        Delicadas
        Suavemente
        Em movimento andante
        Desenhavam arabescos
        Buscando seu quinhão de brilho.

        Ela parecia  valsar
        displicentemente
        Deslizante
        Escorregando
        Tangentemente Impalpável
        Em inigualável Estado de Graça

        Lá estava ela
        Redondamente farta aleitava
        Prenha de fogo abrilhantava
        Desprendendo lava...

        Eu aqui ardendo em febre
        De mil ampere
        Olhava ela
        Purgando em lastros
        Pela  trilhadela

        Quase me derreto
        Nesse dueto...

        Em seu fulgor me abraso
        Acalmando chamas

        Aplacando dramas
        Crepitando anseio
        De ilusão e devaneio
        Dançando sigo
        Sorvendo luz
        Morrendo n’alma






        6 de abril de 2017

        Livro: Frankenstein, de Mary Shelley

        Olá queridos!
        Li esse livro no ano passado e gostei muito, por isso indiquei para o CLIc. Será nossa leitura em maio. Espero que gostem tanto quanto eu. Segue o post que fiz na época no meu blog Mar de Variedade
        Esse foi o livro lido no mês de outubro no Clube de leitura Leia Mulheres de Niterói-RJ.
        Vocês poderão obter mais informações na página do grupo no facebook. 
        Temos escolhido livros temáticos. Então, outubro, que é mês de halloween, escolhemos um livro com esse tema de terror.
        O livro me surpreendeu positivamente. Achei fantástico.

        Sinopse: O livro conta a história de Victor Frankenstein, que vai estudar na Universidade de Ingolstadt, e fica fascinado com os conhecimentos que adquire. Acaba criando um ser monstruoso. 



        Na introdução ao livro, a autora nos conta que o livro começou meio como uma brincadeira, pois certo dia na Suíça, quando chovia muito, Lord Byron sugeriu que cada um dos presentes escrevesse uma história de fantasmas. Daí surgiu esse clássico do terror.
        O livro começa com cartas de um capitão, Robert Walton, à sua irmã Margaret contando suas aventuras no mar em direção ao Polo Norte. 
        Walton acaba salvando Frankenstein, que lhe conta sua história: que era de Genebra; que seus pais adotaram a órfã Elizabeth; que, aos 17 anos, seus pais resolveram mandá-lo para a Universidade de Ingolstadt; que sua mãe faleceu e, no leito de morte, falou que gostaria de ver a união de Frankenstein e Elizabeth; que na Universidade passou a se dedicar às ciências naturais; que o professor Waldman exprimia cordial entusiamo com o seu sucesso; que, após dias de trabalho, tornou-se capaz de conferir vida à matéria morta; que, após dois anos de trabalho, criou um monstro, tendo se arrependido da sua criação.

        "(...)como é perigoso adquirir saber, e quão mais feliz é o homem que acredita ser a sua cidade natal o mundo, do que aquele que aspira a tornar-se maior do que a sua natureza permite." (trecho do livro)

        A leitura do livro é fluida. A escrita da autora é poética. Apesar de ser um livro clássico de terror, conseguimos ver poesia em sua escrita. 
        A autora conseguiu criar uma história bem original para a época, sobre esse ser que é criado da montagem de partes de pessoas mortas. O Victor Frankenstein, ao se deslumbrar com o conhecimento que adquire, quer "brincar" de ser Deus, criando um ser monstruoso, mas se arrepende após a criação e passa a questionar sobre a aquisição de conhecimento pelo homem.
        O livro acaba trazendo muitas reflexões. Podemos analisar o relato do Victor e também do monstro que não se chama Frankenstein, como muitos acreditam. 
        O monstro narra para o seu criador que tentou fazer o bem, mas que as pessoas não o aceitavam, por causa da sua aparência, o que fez com que se tornasse mau. Uma outra discussão boa também: essa questão de darmos tanta importância à aparência. 
        Não posso contar mais do que isso para não dar spoiler, mas vou recomendar muito o livro, pois a leitura é incrível, assim como toda a história. 
        Recomendo!

        Sobre o filme:




        Há algumas adaptações para o cinema. Eu assisti ao filme Frankenstein de Mary Shelley. Eu não gostei muito da adaptação. Além de terem modificado um pouco a história, achei que o filme não teve todo o encanto que a leitura do livro proporciona. É um filme razoável!