CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

27 de janeiro de 2015

Poema a partir das páginas iniciais de "Crônica da casa assassinada"

IDIOSSINCRASIAS 
(Rita Magnago)

Agora a emoção me domina
e que bom que podem as lágrimas
influir até no ritmo da minha leitura
que se compadece da pressa e vai
amiúde
desvendando os espaços
entre cada palavra
e com eles os espaços
que no meu coração
ainda há para o amor.

O sentimento da entrega
total e mais completa
do afeto mais inteiro e legítimo
um tamanho que é muito maior
que o maior de todos
e que se agiganta dentro de mim
sem que eu saiba como nem porquê.

Prescindo de explicações
agora que a razão me abandona
sou puramente aquele que sente
a dor profunda da perda eterna
a dor de ser um homem e uma mulher.


Clássicos-CLIc - Os miseráveis: Victor Hugo



O fio condutor da obra é o personagem de Jean Valjean, que, por roubar um pão para alimentar a família, é preso e passa dezenove anos encarcerado. Solto, mas repudiado socialmente, é acolhido por um bispo. O encontro transforma radicalmente sua vida e, após mudar de nome, Valjean prospera como negociante de vidrilhos, até que novos acontecimentos o reconduzem ao calabouço.



Data: 08/09/2015 - 16h00

Local: Café Le Victor Hugo 

4 Place Victor Hugo - Paris

Metro Victor Hugo







Programe-se!


Castelo na Água: Pintura de Victor Hugo


Qual é o fim...


Qual é o fim de tudo? a vida ou a tumba? 

A onda que nos sustém? ou a que nos afunda?

Qual a longínqua meta de tanto passo cruzado?

É o berço que embala o homem ou é o seu fado?

Seremos aqui na terra, nas alegrias, nos ais,
Reis predestinados ou simples presas fatais?



Ó Senhor, responde, responde-nos, ó Deus forte,

Se condenaste o homem apenas à sua sorte, 

Se já no presépio o calvário se anuncia

E se os ninhos sedosos, dourados pela manhã fria,

Onde as crias vêm ao mundo por entre flores,
São feitos para as aves ou para predadores.



Tradução Manuela Parreira da Silva. Assírio & Alvim.










Uma opção de vôo para 9 dias / 7 pernoites em Paris


E existem outras mais em conta fazendo escala em São Paulo



26 de janeiro de 2015

Fahrenheit 451

Você sabe qual a temperatura de queima do papel? Está no título do romance de Ray Bradbury e foi o livro que escolhi de presente de amigo oculto, uma indicação da amiga Sonia Salim, a quem agradeço. Levei-o para passear nas Cataratas, mas foi ele quem me deu um banho. Muito bom, excelente para reflexão, como me parece serem vários dos livros distópicos.


O livro foi escrito há 61 anos e a visão futurista que o autor já mostrava então se assemelha ao que estamos em vias de vivenciar. Questionador e crítico, um livro desses pra te fazer pensar e sair do marasmo. 

Na linha de 'Admirável Mundo Novo', Ray nos incita à reflexão sobre o significado da felicidade, do prazer. A futilidade ganha um espaço incrível, amores rápidos, envolvimento pessoal praticamente inexistente, tudo na superfície, a densidade está agonizando e sobrevivendo na cabeça de uns poucos. A dor merece ser extinta, a morte dispensa o luto, todos são igualmente banais, uma sociedade de vacas de presépio. 

O autor questiona ainda as muitas formas de se matar um livro, desde as óbvias censura e proibição até e principalmente à arte da manipulação, tão forte que prescinde do poder do estado. É a própria sociedade quem adere, fiscaliza e delata como se fosse ela o governo tirano. E livros são queimados a 233º C, ou, nos padrões americanos, 451ºF. Ateemos fogo ao pensamento crítico!

Com o Ano Novo se aproximando velozmente, escolhas e caminhos estão em alta. Fico aqui pensando... o tamanho da nossa gaiola, quem é que vai definir? Este livro amplia horizontes e refaz a questão: afinal, qual é mesmo a busca incessante do humano? 

Filme


20 de janeiro de 2015

Um olhar sobre a intemporalidade do drama humano: dília gouveia



Sua Excelência, Seu Vivinho - Wagner Medeiros Jr


No último domingo bem de noitinha, lá pelas oito, todos procuravam por ele, preocupados, até que a filha, Conceição, resolveu perguntar aos vizinhos se havia algum jogo do Cachoeiro. Ele havia saído desde à uma da tarde, sem dizer a ninguém em casa aonde ia. Entretanto, não deixara de passar na casa da vizinha, com o seu ioiô escondido debaixo do casaco, dizendo ir disputar um campeonato no Shopping Sul.
Aquela era a pista que faltava. Realmente foi lá no Shopping Sul, por volta das nove, que ele foi encontrado. Estava terminando o campeonato, que por apenas uma manobra fora eliminado, creio que em quarto lugar.  Segurava em uma das mãos um certificado de participação; na outra, o prêmio da classificação: um ioiô novo. No peito, orgulhoso, uma medalha. Assim, com muita alegria, ele retornou para casa.

Tudo até seria normal se o Senhor Silvino Santana não tivesse os seus bem vividos 88 anos de idade. Contudo o “Seu Vivinho”, como ele é chamado, há muito tempo resolveu parar de envelhecer; não dá mais bola para idade. Como seu vizinho, sou testemunha!

Em nossa rua, no Baiminas, Seu Vivinho é muitíssimo estimado. Todos o consideram parte da própria família. Ele mesmo diz, emocionado, que além das crianças, muitos adolescentes e adultos o chamam por “Vovô Vivinho”. É que ele participa ativamente da vida da rua. Ora brincando com as crianças, ora compartilhando sua juventude com os adultos.

Além da habilidade com o ioiô, Seu Vivinho tem ainda uma destreza fabulosa com o manejo do pião, quer no aparo com a mão, ou no arremesso com a linha. A única coisa de que reclama da vida, por suas próprias palavras, é que “sempre faltou força nos dedos para jogar direito a bola de gude”.

Porém, Deus lhe recompensou dando-lhe agilidade nos dedos e um fabuloso ouvido, para realizar sua maior paixão, que é a de tocar flauta. A perfeição é tanta, que não há quem não goste! Seu repertório é muito bem selecionado: Tico-tico no fubá, Urubu Malandro, Na Glória, Vale Tudo, Meu pequeno Cachoeiro... Por isto, também é conhecido por “Seu Vivinho da Flauta”.

Com muito orgulho ele recorda ter tocado para o ex-governador Paulo Hartung, no aniversário do nosso atual prefeito, Carlos Casteglione, em inúmeros eventos, solando flauta ou na percussão, quando integrava a famosa orquestra do maestro José Nogueira.

Mas, de profissão era foguista. Em 1942 ingressou na extinta Estrada de Ferro Itapemirim. Colocava lenha na caldeira da Maria Fumaça, que fazia a linha Cachoeiro de Itapemirim -Marataízes. Eram quatro horas de ida, mais quatro horas de volta na boca da fornalha. Assim foi até 1968, quando a estrada de ferro foi extinta. Então, foi transferido para o Colégio Newton Braga, onde se aposentou em 1984.

Ainda menino participava da colheita de café junto à sua família, lá pelas roças do atual bairro São Geraldo. Naquela época também gostava de pescar piau, cascudo, robalo e tainha, que havia em abundância no rio Itapemirim.

(Agora, em segredo, conto apenas aos leitores e leitoras desta coluna: com seus 88 anos, Seu Vivinho ainda desperta o ciúme de sua zelosa esposa, Dona Nicinha, com que está casado mais de 60 anos).

Creio que daqui alguns anos, quando Seu Vivinho resolver a envelhecer, que ele não perderá a jovialidade.  Nem a simpatia, a alegria e o riso tão peculiares, que carrega por toda parte. Este sim deve ser chamado por Sua Excelência. Sua Excelência, Seu Vivinho.


18 de janeiro de 2015

Hilda Hilst, por Cyana Leahy

Caros amigos, 

Cyana
Ler a reportagem de ontem no Prosa & Verso, sobre HILDA HILST,  pesquisando e revelando aos leitores novos olhares sobre a literatura brasileira, foi emocionante. O Brasil inteiro precisa conhecer HILDA HILST, não apenas como curiosidade literária, mas pela grande escritora e pesquisadora que foi: sua importância para a literatura brasileira é inenarrável. Tenho sua obra completa, a maioria autografada. 

Precisamos exatamente desconstruir os mitos e medos que dominam o meio acadêmico: enquanto mantivermos as imposições, não teremos acesso à leitura e análise da verdadeira literatura brasileira, como estudantes, como professores. 

No doutorado em Literatura brasileira analisei vida e obra de quatro grandes escritoras brasileiras que já conhecia e admirava: Ercília Nogueira COBRA, Júlia Lopes de ALMEIDA, Carolina Maria de JESUS e HILDA HILST, que entrevistei pessoalmente. Todas ficaram famosas no início do século passado, pela coragem de serem feministas de vanguarda. 



Ercília
Ercília publicou 'Virgindade Inútil' (1923)  e 'Virgindade Anti-higiênica' (1925): foi presa por atentado ao pudor, apesar de ser sucesso junto ao público. Julia fazia pesquisa 'in loco' para escrever seus livros sobre piscicultura: entrevistava pescadores na Praia do Flamengo, ainda no começo do século XX. Carolina é internacionalmente conhecida como 'curiosidade', mas escrevia também poesia. Seu vocabulário é extremamente elaborado e sofisticado, muitas vezes merecendo nossa consulta ao dicionário. E Hilda conseguiu juntar a competência literária com uma nova visão do mundo, da política, da sociedade brasileira. 

Júlia
Entrevistei Hilda pessoalmente. Agendei uma entrevista, combinei dia e hora para entrevistá-la; fui avisada antecipadamente que eu teria que ser pontual, ou não me receberia. Fiquei ainda mais curiosa. 

No dia marcado, fui de carro para São Paulo, para as aulas no doutorado. Dirigi para Campinas, de lá percorrendo o caminho certo para sua chácara. Meu objetivo era fazer algumas perguntas, aprofundando minha análise de sua obra.

Carolina
Consegui chegar na hora marcada. Abri a porta do carro e fui cercada por dezenas de cães, latindo e pulando em cima de mim. Como já tinha cachorros em casa, foi natural que os cães de Hilda me fizessem festa. Olhei para a casa, vi uma mulher maravilhosa sentada na varanda, muito séria, fumando um cigarro, olhando para mim de jeito pouco simpático, exatamente como a foto do jornal. 

Subi os degraus, me apresentei, e fui recebida com as seguintes palavras: 'Você ganhou dois pontos: foi aprovada pelos cachorros e foi pontual: se chegasse atrasada, mandaria você e suas perguntas para a puta que pariu.'

A conversa rendeu muito, ficamos amigas imediatamente. Já anoitecia quando tentei me despedir. Ela respondeu: 'liga para casa e avisa que você vai dormir aqui. Já pensou, morre dirigindo e amanhã sai a notícia no jornal: pesquisadora morre na estrada, por causa de Hilda Hilst! Sua cama já está feita desde a hora em que chegou'. 

Passamos a noite inteira rindo, conversando, trocando idéias sobre a literatura brasileira, a sociedade, a política, a cultura, ela sempre acrescentando algo interessante e relevante para nossa conversa, de forma clara e coerente. Além de aprender muito com ela, seu destemor das imposições políticas, sociais, econômicas, ganhei uma amizade muito importante na minha vida. 

Hilda
No dia seguinte, vim embora para casa já saudosa de minha amiga. Eu a revi algumas vezes, ela sempre séria e bem humorada, fazendo piadas com tudo, de forma extremamente consciente dos limites e imposições acadêmicas. Falamos muitas vezes por telefone. 

Anos depois, voltando de congresso no exterior, abri o jornal e li a notícia no obituário: 'morreu Hilda Hilst'. Chorei o resto do voo, arrependida de não ter ido mais vezes visitar e pernoitar em sua casa, com seus cachorros, seus cigarros, seu sorriso incomparável, aprendendo com ela a importância da sociedade na literatura brasileira. 

Até hoje me emociono quando releio a história de nossa amizade.  
Sua obra deveria ser lida por todos os brasileiros, não apenas como 'curiosidade canônica',  mas como obra de arte. 

Enquanto mantivermos um cânone falocêntrico, verticalmente imposto, em nosso ensino e aprendizado da literatura, pouco acrescentaremos à importância da literatura em nossa sociedade. Parte dessa pesquisa foi publicada no livro 'A Palavra Impressa' (Ed. Casa da Palavra). 

Esse trabalho foi interrompido em fase de conclusão, quando participei de congresso na Inglaterra, e ganhei o prêmio Overseas Research Award da Universidade de Londres, para cursar novo doutorado e criar uma área de pesquisa acadêmica. Foram 3 anos de muito aprendizado, principalmente, a valorizar a importância de nosso país, de nossa cultura, de nossa sociedade. Comparei o ensino e aprendizado de literatura no Brasil e na Inglaterra, observando aulas, entrevistando alunos, professores e bibliotecários. Percebi que ambos os paradigmas (o positivista brasileiro e o liberal-humanista inglês) são insuficientes para educar através da literatura como representação da sociedade. 

A 'Educação Literária como Metáfora Social'  foi registrada no MEC e publicada pela Editora da UFF, e 2ª edição, pela Martins Fontes. Tem sido incorporada a várias universidades brasileiras, que sempre me convidam para palestras.  

Vou retomar essa pesquisa em 2015: ainda tenho muito a aprender com minhas 'mulheres invisíveis'. E abrir o Prosa & Verso ontem e ler três páginas sobre Hilda HILST foi simplesmente emocionante. 

Precisava dizer isso imediatamente. Se precisarem  de alguma coisa sobre Hilda, estarei à disposição. 

E se quiserem ler meus livros, será um prazer ter vocês como leitores! 
Desculpem a mensagem tão longa: meu entusiasmo é imenso! 

Abraço carinhoso,
Cyana Leahy


Cyana M. Leahy-Dios
Professora da Universidade Federal Fluminense, escritora, tradutora
PhD em Educação Literária (London University)
Autora de 18 livros de poesia, prosa literária, pesquisa acadêmica publicados pelas editoras Autêntica, Casa da Palavra, CL Edições, Franco, Martins Fontes, Papirus, 7 Letras. 
Foram premiados 'Contos Tradicionais Irlandeses' (Ireland Literary Award), 'Todos os Sentidos: contos eróticos de mulheres' (co-autoria, 'melhor livro de contos de 2004, pela União Brasileira de Escritores). O mais recente é 'Perplexidades & Similitudes', livro de contos prefaciado por Moacyr Scliar. 
Tradutora de prosa literária e pesquisa acadêmica (editoras Bertrand, Casa da Palavra, Fraiha)
Coordena a CL Edições (www.cledicoes.com
R. Osvaldo Cruz, 55/ 1302 - Icaraí, Niterói 
Tel. 2610 9516  Cel. 99354 2494
--

13 de janeiro de 2015

A ficcionista: Godofredo de Oliveira Neto (com a presença do escritor)

FOI ASSIM...


                                                         Fotos: Eloisa, Vídeo: Adélia


O CLIc agradece a presença do escritor!!!


Encontro com o Clube de Leitura Icaraí, sempre um grande prazer encontrar esses amigos-leitores.


Escritor ganhou Prêmio Jabuti em 2006


"Uma das narrativas mais inovadoras da moderna literatura" 
Jiro Takahashi sobre o romance "A ficcionista" 


Aguardo você nesta sexta feira, 9/1/2015, 19h00 no Clube de Leitura Icaraí





"Um livro singular capaz de encantar leitores e escritores, uma obra que desvela os momentos que antecedem a criação (..) A Ficcionista é um olhar para trás da cortina do processo de criação literária, não fosse também, e principalmente, uma encantadora narrativa ficcional."


(Ronize Aline)

Obras do escritor


Um escritor em busca de histórias, ideias, acontecimentos, vida. Uma mulher cheia de histórias, ideias, acontecimentos, vida. Com hora marcada e valor combinado, os dois estabelecem um acordo entre escritor e personagem. E durante dez dias é travado e registrado o conflito entre fato e verossimilhança, desejo e delírio, relato e devaneio. Uma ficcionista construída pela própria vida. Drogas, messianismo, assalto, polícia, música, sexo, amizade, espiritualidade, loucura, morte. Godofredo de Oliveira Neto é autor de nove romances. Premiado no Jabuti 2006 com o livro Menino oculto, é autor de O Bruxo do Contestado e Amores Exilados.







9 de janeiro de 2015

Hitoshi Igarashi: por Roberto Pedretti

Com fúria assassina,
calaram canetas e homens.
Religião é isso?

Vive la Liberté 
Elenir



Pedretti
Igarashi nasceu em 1947. Tornou-se, com o passar dos anos, um apaixonado pela riqueza e beleza das literaturas árabe e persa. Concluiu seu doutorado no assunto na Universidade de Tóquio e foi prosseguir seus estudos no Irã, de onde teve que partir às pressas, como tantos outros, após a revolução de 1979, que levou o Ayatollah Khomeini ao poder. 

O evento, no entanto, não parece ter feito esmorecer a paixão de Igarashi, que traduziu pela primeira vez para a língua japonesa obras de Avicena e Averróis, os mesmos grandes pensadores árabes que ajudaram a trazer o pensamento de Aristóteles e de muitos pensadores fundamentais da Antiguidade à lume, para que não se perdessem na confusão medieval européia. Além disso, traziam a riquíssima filosofia e teologia islâmicas originais ao Ocidente. Provavelmente Igarashi foi responsável pela primeira ocasião na vida de muitos estudantes japoneses em que liam um autor islâmico em seu próprio idioma. 


Salman Rusdie


Em 1989, ele se encarregou da tradução do livro "Os Versos Satânicos", do escritor inglês Salman Rushdie, para o japonês. 

E vocês já tiveram a oportunidade de ler "Os Versos Satânicos"? É um lindo livro, poético de forma caudalosa, difícil na sua convicção em fazer-nos aceitar uma mitologia islâmica que nos parece impenetrável completamente misturada às familiaridades da nossa vida ocidentalizada moderna. É um romance sobre identidade, sobre encontrar seu lugar no mundo. E que o Corão tenha sido invocado, é apenas uma circunstância incontornável, dada a identidade de seus protagonistas, dado o berço de seu autor. 

Fato é que, em 1989, o mesmo mencionado Ayatollah Khomeini pediu a cabeça de Rushdie e de todos os envolvidos na publicação do livro que tivessem tido noção de seu conteúdo. O autor teve que viver escondido e sob proteção policial por quase uma década. Outros tanto, entre tradutores e editores, sofreram ataques, em diversos países, mas sobreviveram. 
Hitoshi Igarashi, no entanto, não sobreviveu. Foi esfaqueado até a morte no campus da universidade em que lecionava, em 1991. E eu não suponho que muitos japoneses tenham se arriscado a estudar o Islã desde então. 

Hitoshi Igarashi

Igarashi nasceu em 1947. Tornou-se, com o passar dos anos, um apaixonado pela riqueza e beleza das literaturas árabe e persa. Concluiu seu doutorado no assunto na Universidade de Tóquio e foi prosseguir seus estudos no Irã, de onde teve que partir às pressas, como tantos outros, após a revolução de 1979, que levou o Ayatollah Khomeini ao poder. 
O evento, no entanto, não parece ter feito esmorecer a paixão de Igarashi, que traduziu pela primeira vez para a língua japonesa obras de Avicena e Averróis, os mesmos grandes pensadores árabes que ajudaram a trazer o pensamento de Aristóteles e de muitos pensadores fundamentais da Antiguidade à lume, para que não se perdessem na confusão medieval européia. Além disso, traziam a riquíssima filosofia e teologia islâmicas originais ao Ocidente. Provavelmente Igarashi foi responsável pela primeira ocasião na vida de muitos estudantes japoneses em que liam um autor islâmico em seu próprio idioma. 
Em 1989, ele se encarregou da tradução do livro "Os Versos Satânicos", do escritor inglês Salman Rushdie, para o japonês. 
E vocês já tiveram a oportunidade de ler "Os Versos Satânicos"? É um lindo livro, poético de forma caudalosa, difícil na sua convicção em fazer-nos aceitar uma mitologia islâmica que nos parece impenetrável completamente misturada às familiaridades da nossa vida ocidentalizada moderna. É um romance sobre identidade, sobre encontrar seu lugar no mundo. E que o Corão tenha sido invocado, é apenas uma circunstância incontornável, dada a identidade de seus protagonistas, dado o berço de seu autor. 
Fato é que, em 1989, o mesmo mencionado Ayatollah Khomeini pediu a cabeça de Rushdie e de todos os envolvidos na publicação do livro que tivessem tido noção de seu conteúdo. O autor teve que viver escondido e sob proteção policial por quase uma década. Outros tanto, entre tradutores e editores, sofreram ataques, em diversos países, mas sobreviveram. 
Hitoshi Igarashi, no entanto, não sobreviveu. Foi esfaqueado até a morte no campus da universidade em que lecionava, em 1991. E eu não suponho que muitos japoneses tenham se arriscado a estudar o Islã desde então. 
Me lembro de Salman Rushdie em 2010, na FLIP. Me lembro principalmente de ter ido à festa da Companhia das Letras no evento e, de muito tarde, vê-lo dançando desconjuntadamente na pista ao som de "País Tropical", cantada por Wilson Simonal. Fiquei pensando que, para muitas cabeças no mundo, muitas tramando libertações pessoais e cósmicas, ele continua condenado. Sua cabeça ainda estava e está a prêmio. Mas tem sempre uma hora em que é preciso conviver com isso. Para mim, que já comecei a lê-lo depois que tudo isso aconteceu (eu tinha 10 anos quando "Os Versos Satânicos" foi publicado), vê-lo ali se remexendo era um lembrete de que a vida tinha que continuar de algum jeito. 
O discreto caso de Igarashi, no entanto, me toca particularmente. Sua morte fechou um discreto e constante canal entre duas culturas muito distantes. Sua morte e a de sua paixão com ele, empobreceu de forma quase imperceptível a vida de islâmicos e japoneses. E isso provavelmente por obra de um único homem ou mulher, uma faca e o descuido de, provavelmente, não abrir o livro a respeito do qual aquela morte versava.
Igarashi
Me lembro de Salman Rushdie em 2010, na FLIP. Me lembro principalmente de ter ido à festa da Companhia das Letras no evento e, de muito tarde, vê-lo dançando desconjuntadamente na pista ao som de "País Tropical", cantada por Wilson Simonal. Fiquei pensando que, para muitas cabeças no mundo, muitas tramando libertações pessoais e cósmicas, ele continua condenado. Sua cabeça ainda estava e está a prêmio. Mas tem sempre uma hora em que é preciso conviver com isso. Para mim, que já comecei a lê-lo depois que tudo isso aconteceu (eu tinha 10 anos quando "Os Versos Satânicos" foi publicado), vê-lo ali se remexendo era um lembrete de que a vida tinha que continuar de algum jeito. 

O discreto caso de Igarashi, no entanto, me toca particularmente. Sua morte fechou um discreto e constante canal entre duas culturas muito distantes. Sua morte e a de sua paixão com ele, empobreceu de forma quase imperceptível a vida de islâmicos e japoneses. E isso provavelmente por obra de um único homem ou mulher, uma faca e o descuido de, provavelmente, não abrir o livro a respeito do qual aquela morte versava.



8 de janeiro de 2015

A Sabinada – O Levante

Por Wagner Medeiros Junior

Cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Noite de quinta-feira do dia 6 de novembro de 1837. O exaltado Francisco Sabino Vieira, ao lado de João Carneiro da Silva Rego, Manoel Gomes Pereira e mais dois militares revoltosos, entra no Forte de São Pedro. Todo o corpo da artilharia o esperava, inquieto. Chegara a hora da Bahia declarar a sua autonomia política e o Federalismo, não conquistados em tentativas anteriores.

A mobilização já contava com o maciço apoio da camada média urbana, incluindo um grande contingente de militares radicados na capital. A insatisfação era enorme e expandia-se por diversas parte do interior. A escassez de produtos básicos, a carestia e o recrutamento forçado para combater os farroupilhas no sul do Brasil eram problemas comuns de toda a Bahia. Daí a desilusão com a independência e com a corte no Rio de Janeiro, que emanava a imagem de substituir Portugal - O Rio de janeiro agora era visto com um fardo, preocupada apenas em carrear cada vez mais recursos da província, tal como se ela fosse agora sua colônia.

Todo esse descontentamento favorecia a difusão do movimento, corroborando com que as notícias da trama circulassem pela cidade sem qualquer parcimônia. O periódico “Novo Diário da Bahia”, editado por Sabino, ajudava a inflamar ainda mais os ânimos. As autoridades, todavia, teimavam em subestimar os acontecimentos. O comandante das armas, Luiz de França Pinto, por benevolente, não se furtava em defender cada uma das cabeças que conspiravam, dizendo confiar nelas. O presidente da província, Francisco de Souza Paraíso, por sua vez, ficava sempre solidário a ele. 

Então, quando essas autoridades tomam conhecimento da revolta, conforme nos conta o historiador Antônio Risério, em "Uma História da Cidade da Bahia", são obrigadas a passar a noite e madrugada concentrando soldados e marinheiros, cerca de 300 homens armados, na Praça da Piedade. Na hora H são pegas de surpresa. Em vez de obedecer ao comando de carregar armas, soldados jogam balas no chão. Passavam para o outro lado.

Assim, na impossibilidade de resistência, os partidários do império são compelidos a refugiarem-se na região do Recôncavo, de onde passam a organizar a reação, com o apoio da aristocracia rural baiana.  

Com o território livre, os revoltosos realizam na manhã do dia 7 uma sessão extraordinária na Câmara de Vereadores, onde decretam o desligamento de toda província “do governo denominado central do Rio de Janeiro”. A Bahia se autodenominava livre e independente. Para presidente, Francisco Sabino indicou Inocêncio da Rocha Galvão, refugiado nos Estados Unidos, depois de ser acusado de assassinar o presidente das armas em 1824; para vice-presidente foi escolhido João Carneiro da Silva Rego, que assumiu o governo provisório, pela ausência do primeiro. Coube a Sabino a Secretaria Geral de Governo.

No entanto, Francisco Sabino seria o líder de fato do movimento. A aparente função secundária decorria de seu temperamento violento e radical, bem como da suposta prática do homossexualismo, não aceito na época. Sabino ainda carregava nas costas o peso da morte de sua mulher, Joaquina Gonçalves, quando ela contava com apenas 25 anos, bem como do assassinato de dois de seus desafetos.  

Segundo o inquérito policial sobre a morte de Joaquina, consta no depoimento de seis testemunhas que Sabino a teria agredido, após ser encontrado por ela na rede “servindo-se de um homem preto como se fora mulher”, nas palavras de uma delas. Por outro lado, não deixava de ser um destacado intelectual da Cidade da Bahia, onde exercia a cátedra de professor de medicina e o jornalismo.

O início da Sabinada guardaria outra contradição: Na ata da assembléia realizada no dia 11 de novembro, acrescentou-se que a independência da Bahia seria até o príncipe D. Pedro completar a maioridade, para satisfazer os monarquistas. Porém, outro grupo dos líderes, entre eles Sabino, pregava a revolução Federalista e a fundação da República Bahiense.

Visite o blog; 

Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior









5 de janeiro de 2015

A ficcionista segundo Elenir


Elenir

Acabo de ler "A Ficcionista". 

Excelente livro! Parabenizo quem o sugeriu. 

Através de entrevistas gravadas, Nikki, uma garota de uns 20 anos, personagem que amei, conta sua história, suas memórias, ora com   passagens saborosas, ora com cenas violentas e cruéis, com referência à música clássica e à dança perpassando o texto. Tudo, sob a grande técnica literária de Godofredo de Oliveira Neto.


Godofredo

Ex-aluno de Roland  Barthes e Jacques Derrida, em vários diálogos, sente-se a influência desses  pensadores. Para Rolan Barthes, quando um escritor termina o livro este já não lhe pertence, dá-se sua morte. Pronuncia-se, igualmente, o filósofo francês Jacques Derrida, autor da Teoria da Desconstrução, ao abordar instigantes questões sobre a literatura: 

“Quando o livro fica pronto, ele segue vida própria. É o parricida de seu autor, na medida em que permite sua desconstrução em infinitas interpretações, de acordo com o olhar de cada leitor."




Pág.62

--- Não sou personagem de ficção! Sou de carne e osso, pô! Mas, de fato, homens , na minha vida, apareceram muitos, se é que te interessa.

---Não particularmente, é só para ir construindo cenas e personagens.

---Mas não se esqueça que construir um personagem é também destruir um conceito, trabalha isso com os babacas dos teus leitores.

---De qualquer maneira, Nikki, escrever é um ato de resistência à linguagem comum, não vou repetir bobamente o que você narra.

Pág.68:

---As interpretações de sociólogos e políticos publicadas pelos jornais, não tinham nada a ver com o que a gente fazia. Aliás, como vai acontecer com o teu romance. Cada leitor lerá do seu jeito, e o mesmo leitor, se ler o romance de novo, descobrirá novos horizontes  novas realidades . Cada leitura corresponde a um novo mundo, não é assim? 

---Essa é a luta de qualquer escritor, Nikki. Deixa isso comigo.

---Estou deixando, só fiz essa observação por fazer. Sempre que releio um texto, sinto e vejo coisas que não tinham me chamado a atenção na leitura anterior.

Pág. 104:

---Você tem dúvidas sobre a existência de um mundo ficcional, Nikki?

---Claro que não, mas o dito e o relatado até agora são a pura verdade. E quem garante, que você, como leitor, não vai entrar na minha história e modificá-la? E quem garante a transcrição fiel da minha narração? 

Pág.114:

Literatura é técnica, Nikki. Não é imitação ou descrição do real. É herança cultural.


E, para terminar, transcrevo as palavras de Nikki, às fls. 32:

"...as nossas angústias e depressões não vêm de dentro. A história pessoal da gente é pequena comparada às balas traçantes e transfixantes recebidas de fuzis alheios. O mundo exterior é que nos fragiliza. Em grupo, reagimos com mais eficácia.  

Desculpem-me! Estendi-me muito. Culpa da Ficcionista e de seu criador. 

Abraços a todos desse grupo que me fortalecem com sua amizade.

Elenir







Revivendo leituras passadas - Noite do oráculo: Paul Auster

Quando o narrador/escritor compra o caderno na papelaria para voltar a escrever, azul e com encadernação de pano, somos remetidos ao momento em que compramos o livro na livraria para lê-lo, porque a capa de ambos se assemelham. Fiquei com a impressão de que lia no mesmo momento em que o protagonista escrevia sua (nossa?) história. Senti uma espécie de vertigem, despertou em mim um estado de dupla consciência ao perceber isso, como se me deslocasse do mundo real e entrasse na ficção, me tornasse parte da história, absorvido pelo livro e me integrado ao protagonista. A leitura de Paul Auster tem esta capacidade de alterar a percepção usual do leitor. Já tinha sentido algo parecido quando li "A invenção da solidão". Alguns livros, como esse de Paul Auster, me passam a impressão de que o autor quer nos estimular a escrever também nossos próprios textos, mostrando como seus personagens constroem seus livros.


Autorretrato com irmão imaginário: Willem de Kooning



Palavras podem matar. Nenhuma outra descoberta poderia ser tão terrível para um escritor em crise. O futuro assume uma face assustadora para Sidney Orr quando ele volta a escrever, estimulado pelas páginas de um caderno azul comprado na papelaria de um chinês em Nova York. Sob o efeito misterioso do caderno e ainda convalescente após uma grave doença, Orr tenta retomar a carreira, interrompida cerca de um ano antes. Sua escrita volta a fluir com espontaneidade nas convidativas páginas em branco. Aos poucos, porém, ocorre-lhe uma suspeita; as narrativas imaginadas por ele podem conter uma relação secreta e inexplicável com o futuro das pessoas que lhe são mais próximas, como sua esposa e seu melhor amigo. Episódios fortuitos, palavras ditas e ouvidas ao acaso, notícias de jornal - tudo, de uma hora para outra, parece se relacionar com o drama pessoal de Orr, a crise de inspiração por que passou e a fase difícil que atravessa no casamento.






"Noite do Oráculo" de Paul Auster foi debatido no Clube de Leitura Icaraí em 26/06/2004.

3 de janeiro de 2015

Personagem foge da vida real em "A ficcionista" de Godofredo de Oliveira Neto







Personagem foge da vida real em novo livro de Godofredo de Oliveira Neto Artur Moser/Agencia RBS
Godofredo: " O romance vem com nome de outro autor, para quem ela vende suas histórias"Foto: Artur Moser / Agencia RBS
Do encontro de um escritor com uma narradora peculiar, em uma região isolada do Oeste de Santa Catarina, nasce um relato construído a partir de uma série de entrevistas: ele paga R$ 100 por sessão para ela lhe contar histórias que se transformam em material literário.
Nesta relação, muito baseada em perguntas e respostas, uma questão se mantém: quem é - caso exista - o autor? O novo livro de Godofredo de Oliveira Neto, A Ficcionista, apresenta Nikki, espécie de fugitiva do mundo real que vive em um posto de gasolina abandonado. 

O escritor vai ao seu encontro na esperança de reunir material para um romance e, aos poucos, os papeis de ambos se tornam menos nítidos, até que a entrevistada assume o controle.


A personagem central do livro, Nikki, é real?

Nikki é uma personagem de ficção baseada em dados colhidos no dia a dia. Uma jovem que se sente derrotada pela sociedade competitiva e bestializada. Ela então parte para um tipo de exílio: um posto de gasolina abandonado numa estrada também desativada no Oeste de Santa Catarina, ou seja, o máximo fora do real que consegue. Lá no seu novo espaço, ela vai criar um mundo ficcional, messiânico (sentimento não raro na região por conta do Contestado), fragmentado, meio ilógico, como qualquer mundo em formação. E Nikki vai radicalizar essa última experiência de criar um outro mundo escrevendo anonimamente um romance, um outro real. O romance vem com nome de outro autor, para quem ela vende suas histórias. A arte se torna então um instrumento de resistência.

Você acha que Nikki iria aos protestos que estão acontecendo nas ruas do Brasil?

Acho que ela, num primeiro momento, quando se afastou para o seu posto de gasolina abandonado, não iria aos protestos. Achava que tinha perdido a batalha para sempre. Mas como no final do livro ela retoma as rédeas, na medida em que passa de entrevistada a entrevistadora, e se coincidisse então, com o momento em que se dessem as manifestações, ela iria sim. E daí... sai da frente!

Por que um posto de gasolina abandonado? Esse lugar de passagem onde ninguém passa e ela permanece...

O posto de gasolina abandonado numa estrada também desativada é o espaço mais fora do "real" que ela encontrou em vida. Lá ela pode construir um outro mundo ficcional/virtual na cabeça. Gostei também desse teu "onde ninguém passa e ela permanece". Vou usar, se me permite. (Risos)

A escolha da entrevista como "método" de construir a história também é inusitada.

Pois é. Não é autobiográfico, apesar de conter temas que me são caros como escritor, tais como o exílio. Ela se exilou no seu posto de gasolina como muitos jovens exilados na sua própria cidade devoradora, sou autor de Amores Exilados; o messianismo, sou autor de O Bruxo do Contestado, onde imperam os milagres de João Maria, na mesma região do posto, e tudo se passa em Santa Catarina, onde se passam também os outros romances e de onde venho. Quanto ao "método": a morte do autor. O autor cede total e integralmente a sua narração a outra pessoa. Vem ressaltada assim a morte dupla do autor. Primeiro porque é o personagem que fala numa entrevista, sem a intromissão do narrador normalmente presente em tudo (onisciente). E, segundo, nem mais é ele o autor (é ela, que não aparecerá).

Algumas falas de Nikki me fizeram pensar na escritora Hilda Hilst, tipo sensível e selvagem. Alguma relação?
Li, sim, como muitos, a Hilda Hist. Mas ela não me veio à cabeça (pelo menos conscientemente) quando redigi o livro. Talvez na construção da personagem "tipo sensível e selvagem", como você diz. Vou pensar. Conscientemente, pensei mais na Marguerite Duras.

Ficha:
A Ficcionista. De Godofredo de Oliveira Neto. 
Editora Imã, 115 págs.
DIÁRIO CATARINENSE