CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

30 de novembro de 2012

SE MORRER, NÃO MORRE MAIS

Curiosa essa morte em pedaços
Essas punhaladas à prestação
Essa negação que nunca chega
Mas sempre vem.

Inusitado esse espancamento reincidente
Em petelecos insistentes
– aqui morro mais em verbos pretéritos
Do que em substantivos presentes.

Reveladora essa morte que não pode jamais morrer
Porque o fim precisa estar bem vivo e rendendo,
Cultivado a cada dia como profissão de fé, tortura
Que se certifica de um eterno morrendo.

novaes/

28 de novembro de 2012

As Nuvens: Juan José Saer


Dizem que o mundo é dos loucos,
aceito, sem contestar.
Nas nuvens, não sentirão
a realidade pesar.

O gélido céu,
com estrelas coaguladas
envolvia todos.

(Elenir)

O céu do Rio às 2:40 da tarde... (Beatriz)

*AS NUVENS* 
* * 
* * 
Oh nuvens de desesperança 
que me mentem o alívio da chuva 
só queria aplacar-me 
e à minha quente e ressequida loucura 
minha lógica igual à tua 
que desconhece a razão dos códigos. 

Não me compreendes? 

Não te compreendo e portanto 
sigo sendo, mentindo, fingindo, fugindo 
ou o gerúndio que designes 
para dizer que estou fora e 
não pertenço ao mundo da tua segurança 
‘inexplico-me’, confundo-te, confronto-me 
com o que mais temes, 
aquilo que não conheces 
e no entanto iludo-te. 

Rita Magnago 

*Última atualização do blog: 17/11/2012 
Confira aqui

* * * 

Penso assim "não sou tão louca"
nem tão louca sou assim
por que, então, poesia pouca
e tanta loucura em mim? 

(I, 19/11/2012)





 Josesito y Inacito








“O que percebemos como verdadeiro do passado não é a história, mas nosso próprio presente, que se projeta e olha para si mesmo no exterior”.

Tormenta de Santa Rosa - 30 de Agosto

“Si bien popularmente se  espera que la tormenta de Santa Rosa sea más fuerte que cualquier  otra, esto no tiene por qué ser así.  Durante los 105 años de  registros (1905-2010), en 56 oportunidades (poco más del 50%) se  produjeron tormentas en los días próximos al santoral de Santa Rosa  de Lima. Además existe un aumento de la frecuencia de tormentas para  estas fechas a partir de la década del 90: sólo en 1995, 2005, 2006  y 2007 no se observó este fenómeno durante esos días”.






A americanidade é uma loucura?







 
"Vale a pena sublinhar que os doentes mentais, quando munidos de algum estudo, têm quase sempre a tendência irresistível de expressar-se por escrito, tentando disciplinar suas divagações no molde de um tratado filosófico ou de uma composição literária." (p. 95)

Flor do Pessegueiro

 Juan José Saer nació en Serodino (Provincia de Santa Fe) el 28 de junio de 1937. Fue profesor de la Universidad Nacional del Litoral, donde enseñó Historia del Cine y Crítica y Estética Cinematográfica. En 1968 se radicó en París. Su vasta obra narrativa, considerada una de las máximas expresiones de la literatura argentina contemporánea, abarca cuatro libros de cuentos –En la zona (1960), Palo y hueso (1965), Unidad de lugar (1967), La mayor (1976)– y diez novelas: Responso (1964), La vuelta completa (1966), Cicatrices (1969), El limonero real (1974), Nadie nada nunca (1980), El entenado (1983), Glosa (1985), La ocasión (1986, Premio Nadal), Lo imborrable (1992) y La pesquisa (1994). En 1983 publicó Narraciones, antología en dos volúmenes de sus relatos. En 1986 apareció Juan José Saer por Juan José Saer, selección de textos seguida de un estudio de María Teresa Gramuglio, y en 1988, Para una literatura sin atributos, conjunto de artículos y conferencias publicada en Francia. En 1991 publicó el ensayo El río sin orillas, con gran repercusión en la crítica, y en 1997, El concepto de ficción. Su producción poética está recogida en El arte de narrar (1977), paradójico título que expresa, quizás, el intento constante de Saer por –según sus propias palabras– "combinar poesía y narración". Ha sido traducido al francés, inglés, alemán, italiano y portugués.

Entre sus obras: 
    
En la zona (1960) 
Responso (1964) 
Palo y hueso (1965) 
La vuelta completa (1966) 
Unidad de lugar (1967) 
Verde y negro 
Cicatrices (1968) 
El limonero real (1974) 
La mayor (1976) 
Al abrigo 
En el extranjero 
Nadie nada nunca (1980) 
Narraciones (1983) 
El entenado (1983) 
Glosa (1986) 
El arte de narrar (1988) 
La ocasión (1988) 
El río sin orillas (1991) 
fragmentos 
Lo imborrable (1993) 
La pesquisa (1994). 
El concepto de ficción (1997) 
El concepto de ficción 
Zama 
Di Benedetto 
crítica en La Nación 
Las nubes (1997) 


    
"Si yo pudiera, escribiría un tratado de filosofía en una lengua popular del Río de la Plata. Eso sí que me gustaría."




 "...decir que Juan José Saer es el mejor escritor argentino actual es una manera de desmerecer su obra. Sería preciso decir, para ser más exactos, que Saer es uno de los mejores escritores actuales en cualquier lengua y que su obra – como la de T. Bernhard o la de Samuel Beckett – está situada del otro lado de las fronteras, en esa tierra de nadie que es el lugar mismo de la literatura..." –Ricardo Piglia

“Não havia problemas porque a simples vista se advertia que de todo modo não haveria solução”.


Livros à Venda em Novembro na Estante do Concierge

Veja - Peça  (conciergeclic@gmail.com) Livros da Estante



27 de novembro de 2012

Somos o CLIC

Você faz parte do time que nunca ou raramente fala nas reuniões do Clic ou que pouco escreve nos e-mails do grupo? Se sim, esse post foi feito pensando em você, a princípio. Depois das respostas, sei não, talvez quem sempre fala ou escreve lucre ainda mais com sua leitura. 

Segue uma entrevista que, para mim, foi tão surpreende quanto reveladora e, sobretudo, muito interessante. Quando a gente acha que conhece um pouco alguém, descobre que na verdade - falo do meu caso, naturalmente -, projeta muito de nossas tolas crenças em tantos ‘alguéns’..., mas como tudo vale a pena se a alma não é pequena, segue junto com a entrevista o meu pedido de desculpas pela presunção de não ter antes admitido: eu só sei que nada sei. 

Com vocês, a fala sensível e inteligente de Cintia.

By: Rita Magnago



Como é ser um leitor assíduo nas reuniões do Clic e raramente falar sobre o livro do mês?

Cintia: Eu acho que deveria ficar sem jeito de não participar com comentários (embora não fique), mas entendo que aquele espaço da EdUFF é para falar e ouvir. Se não falo é por que estou lendo as pessoas, aprendendo com elas, curtindo o que acontece. Seja através da recepção de ideias novas, seja por meio do exercício de discordar (mesmo silenciosamente) de uma exposição, ou ouvir um pensamento meu ser exposto de modo diferente do que você o faria.  


Na hora que alguém está lá dando uma opinião bem diferente da sua ou falando exatamente o que você pensa, não dá uma coceirinha, uma vontade de pegar o bastão da fala e botar a boca no trombone?

Cintia: Às vezes sim, às vezes não. Penso ser produtivo quando você consegue apresentar uma visão diferente como contraponto, não como uma correção do que outra pessoa diz (por mais que você discorde da opinião que ouve). A menos é claro que seja algo que fuja a opinião e seja uma informação não verídica. Se acho que consigo fazer o contraponto e se o ambiente é propício (há tempo suficiente para aprofundar o assunto, tem gente querendo escutar, etc) então vale a pena. Por outro lado, também é bem legal quando a gente exercita o controle dessa "coceirinha". Às vezes temos mania de rebater o que ouvimos sem pensar direito. Ou temos tanta necessidade de falar, que não percebemos repetir o que já foi dito.


Que tipo de comentário do livro você mais gosta de ouvir? Análise literária? Textos destacados do livro? Curiosidades sobre o autor ou a obra? Experiências pessoais que os frequentadores relatam ter se lembrado a partir da leitura? Outros?

Cintia: Gosto de ouvir o que não tinha passado pela minha cabeça e que me parece viável. Aí sinto que estou aprendendo. Acho que o que gosto de ouvir não necessariamente se encaixa em um determinado tipo de comentário. É bom ouvir uma pessoa dizendo sobre o quanto a leitura a emocionou, mas se passarmos as 2h de reunião ouvindo todos dizerem isso, sairemos decepcionados de lá. Assim, o lado eclético do grupo é bem interessante, pois cada um aborda o que foi de seu interesse. Se quero ouvir certa abordagem (a análise psicológica, ou política, por exemplo) e os comentários estão voltados para assuntos diferentes (estrutura do texto, vida do autor, por exemplo) nada melhor que eu mesma tente fazer minha abordagem e, com isso, estimule outros que tenham interesses semelhantes a se manifestarem.



Já aconteceu de você não ter gostado muito de uma leitura e ter mudado de opinião após ouvir os comentários dos demais colegas?  Se sim, qual foi o livro e como foi a experiência?

Cintia: Hmm... acho que não. Mas lembro que quando discutimos "Alvo Noturno" em outro Grupo, achei que o pessoal não conseguiu aproveitar tanto o livro. No Clube de Leitura a discussão foi bem mais rica, o que, é claro, tornou o livro mais interessante.

Com relação aos comentários por escrito no e-mail do grupo, o que você mais curte e o que não gosta?

Cintia: Não vejo o Clube no Google Gmail como uma rede de relacionamentos, mas como um espaço para se trocar informações sobre livros e leituras. Assim, não gosto muito de excesso de propagandas, de fofocas, indiretas que visam atacar terceiros, militâncias de ideias, grosserias, excesso de vaidades e outras coisas que não me vem à cabeça agora. É claro que tudo isso é demasiadamente humano e faz parte do aprendizado de pertencer a um grupo.


Se fosse possível sintetizar em uma frase a experiência de ler e participar do debate de um bom livro, o que você diria?

Cintia: Participar do Clube de Leitura é um aprendizado.


24 de novembro de 2012

Votações perdidas?

Foto gentilmente cedida por Elô. Retrata a votação de Lolita,
que perdeu para "As nuvens", livro de dezembro

Fazemos parte de um clube democrático, que escolhe os livros em debate durante as reuniões mensais, a partir dos mais votados no Blog do Clic e no clube no facebook. Isso é ótimo, com certeza, mas, algumas vezes, os livros que perdem são tão bons...

Embora todos temos a possibilidade de ler o que bem quisermos, o hábito de debater um livro já está tão enraizado que muitos sentimos falta. Então esse post propõe que falemos dos livros que perderam as votações.

Abaixo segue uma pequena relação. Se você já leu algum desses livros, comente, dê sua opinião, exercite o direito de bem influenciar o próximo.

ü       Coração das Trevas - Joseph Conrad
ü       A Tentação do Impossível, Vitor Hugo e Os Miseráveis - Mário Vargas Llosa
ü       Madame Bovary - Gustave Flaubert
ü       Precisamos falar sobre Kevin - Lionel Shriver
ü       O Livro dos Seres Imaginários - Jorge Luis Borges
ü       No Vale de Ossos Secos - Mike Sullivan
ü       Jerusalém - Gonçalo M. Tavares
ü       De verdade - Sándor Márai
ü       O Caderno de Maya - Isabel Allende
ü       Rumo ao Abismo? Um Ensaio sobre o Destino da Humanidade - Edgar Morin


P.S 1: Nosso concièrge tem mantido os ‘perdedores’ na lista de indicações futuras e eles estão sempre na concorrência, junto com novas indicações.

P.S 2: Esse ano já foi lido Homem Comum, de Philip Roth, e em janeiro será debatido Vermelho Amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós, ambos os livros perderam numa primeira votação.

22 de novembro de 2012

Homenagem aos amantes da literatura



"Tudo ressoa, mal se rompe o equilíbrio das coisas. As

árvores e as ervas são silenciosas: se o vento as agita,

elas ressoam. A água está silenciosa: o ar a move, e ela

ressoa. As ondas mugem: é que algo as oprime. A cascata

se precipita: é porque falta-lhe solo. O lago ferve: algo o

aquece. Os metais e as pedras são mudos, mas ressoam

se algo os golpeia. Assim também o homem. Se fala, é

porque não pode conter-se. Se se emociona, canta. Se

sofre, lamenta-se. Tudo o que sai de sua boca em forma

de som se deve a um rompimento do seu equilíbrio... A

palavra é o mais perfeito dos sons humanos; a literatura,

por sua vez, é a mais perfeita forma de palavra. E assim,

quando o equilíbrio se rompe, o céu escolhe entre os

homens os que são mais sensíveis e os faz ressoarem"


Texto do poeta chinês do século VIII, Han Yu, reproduzido em artigo de João Silvério Trevisan publicado na revista Vozes, de 1997, contribuição de nossa querida Elenir.

21 de novembro de 2012

Dia de Letícia!


"Olha que coisa mais linda",
Chegou bonita que só!
Alegria da Gracinda,

Leticia, que a fez Vovó!

(Ilnéa)

Amigos do CLIC,
  
Letícia chegou!
Trazendo muita alegria
para Vó Gracinda.


E o que mais trouxe Letícia para Vovó Gracinda?
  
  L UZ
              E SPERANÇA
          T ERNURA
               I NSPIRAÇÃO
          C ORAGEM
             I NOCÊNCIA
        A LEGRIA

E os titios do CLIC o que dizem para Letícia, para o Papai, para a Mamãe e para a Vovó?
      
Que sejam muito FELIZES!

Elenir

20 de novembro de 2012

Clube do Conto - Caça: Carlos Rosa Moreira



Vi quando o moleque arrancou a bolsa dos ombros da senhora e quase a derrubou no chão. Foi muito rápido. Veio na corrida, abocanhou a bolsa e continuou correndo. Esgueirou-se entre pernas e automóveis. Quando a mulher gritou, ele ia longe, fora das vistas indiferentes dos que passavam, mas não da minha. Eu esperava por uma oportunidade dessas. Andava pelas ruas observando, atento à movimentação dos moleques. Apalpei a meia trinta e cinco oculta no cós: teria de chegar perto, bem pertinho... E teria de ser num lugar de pouco movimento.

Não perdi de vista o pixaim descolorido pela água oxigenada. Ele entrou por uma rua, saiu em outra; deu a volta no quarteirão movimentado, se misturou às pessoas, parou na porta de uma galeria. Da loja de discos ao lado, vinha o som de um pagode cantado por um sujeito de voz pastosa; na calçada, camelôs anunciavam seus produtos criando uma insuportável algaravia. O moleque observou tudo durante um tempo, depois foi andando. Ia devagar, esperto, tinha o punho esquerdo fechado à altura do peito, com a mão direita espalmada dava umas pancadinhas no punho fechado como se marcasse um ritmo. A todo momento se voltava, sua visão era de trezentos e sessenta graus. Dobrou a esquina deixando a rua principal e seguiu em direção à praia.

Duas meninas com uniforme escolar vinham pela calçada. De longe, vi quando ele as interpelou. Ameaçava-as com um caco de vidro. Pegou uma mochila colorida, apoderou-se de uma bolsinha, arrancou um reloginho, mas a mão de um senhor acertou em cheio no seu pescoço. Do jeito que caiu se levantou, e antes que um pontapé o pegasse, já estava longe. Parei para ajudar a procurar o reloginho caído no chão. Isso me fez perder o moleque de vista. Dei voltas pelos quarteirões e, após cortar várias ruas, vi uma mulher que tentava estacionar numa vaga apertada. O flanelinha sinalizava com a mão para ajudá-la. Era ele. Parei na esquina, apalpei a calça; a rua era muito calma, um lugar interessante...

Quando a mulher terminou a manobra e abriu a janela para lhe dar uma gorjeta, ele a assaltou com o caco de vidro. Pegou a bolsa que a mulher entregou, remexeu dentro, tirou o que queria e jogou a bolsa no chão. Corri para alcançá-lo, mas um porteiro também correu. Dois rapazes apareceram e foi uma gritaria danada que reverberou naquela rua cercada de prédios. O moleque parecia uma gazela. A perseguição atravessou duas esquinas, mas, de repente, ele sumiu. Os rapazes e o porteiro retornaram enraivecidos e excitados.

Eu continuei. Passei um quarteirão, passei outro. Quando ia cruzar a terceira esquina, levei uma trombada que, por pouco, não me derrubou. Aos meus pés, apavorado, o moleque se arrastava para um vão de parede. O nariz sangrava, tinha os olhos arregalados e tremia. Levou o indicador à boca, ia implorar alguma coisa. Enfiei a mão dentro da calça e senti o contato com o metal morno. Segurei a pistola já com o dedo no gatilho, mas uma barulheira de vozes intimidou meu gesto. Um grupo de rapazes mal-encarados vinha em nossa direção. O da frente quase era arrastado por um cão pitbull.

O moleque fez cara de choro, implorou socorro com os olhos esbugalhados. Olhei o medonho grupo que se aproximava, olhei o moleque; antes que eu pudesse pensar qualquer coisa, ele se levantou e correu. Ao atravessar a rua, levou um trompaço de uma bicicleta que vinha na contramão, jogando-o a mais de dois metros. Os rapazes e o pitbull o alcançaram ainda no chão. Não o vi mais. Também não vi o pitbull que se enfiou na confusão de pernas que chutavam e pisavam. Ouvi uns gritos de terror, mas foi coisa ligeira.

Ajeitei a meia trinta e cinco no cós, virei as costas e fui andando. Lembrei-me de um filme. Havia uma cena em que um atobá mergulhava e pescava um peixe que não parava de se debater em seu bico. E o peixe tanto se debateu que se soltou em pleno ar, mas antes que chegasse à água, foi capturado por uma gaivota que vinha num rasante.

Retornei à rua principal e fiquei no meio daquele movimento de gente para lá e para cá. Divaguei um pouco, observando as pessoas. Até que vi, sentadinho no mármore da entrada de uma padaria, o moleque de pixaim descolorido. Os olhinhos espertos observavam em trezentos e sessenta graus, as mãozinhas magrelas marcavam um ritmo nervoso batendo palmas sem som.


Clube da Crônica - Uma Velha Amiga: Carlos Rosa Moreira



            Lá vem ela. Vamos passar um pelo outro novamente. Vamos nos reconhecer, mas vamos fingir que não. De longe já sabemos que o outro vem vindo, e sentimos, talvez, a mesma expectativa desagradável de fingimento.

            Por que não nos falamos? Passou tanto tempo sem que nos encontrássemos... Disseram-me que ela havia se mudado para o norte com os pais. Qual não foi minha surpresa quando a vi nessas ruas, já mulher feita, mas com o mesmo brilho sapeca no olhar. Aí não nos falamos da primeira vez; e assim ficamos. Será o tempo que apaga tudo? Apaga até uma amizade?

          Lá vem ela. Vai haver aquele olhar de quem não olha, meio enviesado entre duas piscadelas. Depois continuaremos em nossas direções com a impressão enjoada de que um deveria ter falado com o outro.

            Lá vem. Está atravessando a Presidente Backer. Nos encontraremos em frente ao Banco do Brasil. Continua magra, espigada, bonita. É mais velha do que eu, mas parece tão jovem. O andar é igual ao de quase quarenta anos atrás. Andar de pernas compridas, mas de passos curtos e rapidinhos. Lembro-me dessas pernas dentro de uma minissaia quadriculada, lá naquela rua, nossa rua. Haja tempo...

            Lá vem ela. O mesmo olhar oblíquo para baixo, os mesmos braços cruzados sobre o peito. Vem ligeirinha e decidida, passará por mim agora...

            ‒ Oi, Emília!

            Assustei-a. Tirei-a de sua contemplação oblíqua, impedi-a de sentir a costumeira impressão enjoada ao passar por mim. O brilho sapeca me fitou. Fui recebido por um sorriso resplandecente, ainda levemente dentucinho. O mesmo de antes; sorriso rasgado e luminoso de olhos e boca.

            ‒ Oi, Carlos!

            ‒ Como eu desejava falar com você! Afinal, não é direito amigos de infância se cruzarem e não se cumprimentarem.

            ‒ Eu também sempre tive vontade de falar com você!

            ‒ Você continua bonita, Emília.

            ‒ E você não mudou nada. Tá bastante charmoso com esses cabelos grisalhos.

            ‒ Precisamos conversar, contar nossas histórias qualquer hora dessas.

            ‒ Ah, passe em minha loja, é aquela ali, tá vendo? Vamos conversar, não deixe de passar.

            ‒ Passarei, prometo.

            E com beijinhos e sorrisos nos despedimos, continuando, cada um, em sua direção. Ainda nos demos um “té logo” à distância, que foi como se firmássemos o prazer pelo encontro.

            Foi muito bom ter falado com a minha velha amiga. É uma amiga, guarda muitos olhares, sorrisos, conversas, imagens de um tempo singelo e feliz. É como uma foto rara. Não poderia deixá-la por aí.

Indicações de Livros Autor Nacional para Março de 2013

Benito indica:

"Diário da Queda" foi indicado para o prêmio Portugal Telecom e  Michel Laub  é um autor jovem. 

Falando agora pelo Benito, acho que ele gosta de indicar autores jovens porque nos proporciona o aprendizado de como acontece a gênese do estilo do escritor, sobretudo para quem segue o mesmo caminho.







Carlos Rosa indica:

Chico Lopes foi um dos vencedores do Jabuti deste ano com o livro "O estranho no corredor", ed. 34. É uma novela ou mesmo pode ser considerado um romance curto. Chico concorreu também e foi um dos dez finalistas do São Paulo Literatura, um prêmio de grande importância que lançou, entre vários outros, Tatiana Salem Levy. Chico é um excelente artista plástico (pintor), tradutor de grandes editoras e um papo excepcional. Se vencer, posso tentar trazê-lo a Niterói. Tem  livros de contos publicados e elogiados por, por exemplo, Affonso Romano e Loyola Brandão. Affonso Romano o classifica de "excelente contista". Tem um livro de memórias. Seria ótimo se vencesse no CLIC.

Um grande abraço."






Cintia indica

Para a próxima votação gostaria de sugerir "Infâmia", de Ana Maria Machado. É um livro bastante interessante. Como o próprio título sugere, a autora aborda uma característica  comum ao homem: a calúnia, a difamação, o ato de distorcer palavras ou ações de terceiros pelas razões mais diversas possíveis (obter atenção, sentir-se dono da razão, ou em casos mais graves, obter algum favorecimento em forma de poder, projeção social, bens materiais, etc. Existem inúmeros casos, que vão dos mais inocentes à pura maldade).

Acredito que o tema dê margem a boas discussões, visto que sua abordagem é ampla. A história da humanidade é rica em casos infames que antecedem os tempos bíblicos. A política é abundante em escândalos deste gênero. E não só homens públicos, mas cidadãos comuns, independente da classe econômica e nível cultural, ou seja, nós, podemos ser testemunhas, vítimas ou autores de ações levianas e julgamentos apressados de terceiros.

Ana Maria Machado é inteligente, crítica, atuante, ponderada e apresenta ao leitor muito mais que a argumentação moral. Ela estimula a reflexão, a deixar o mundo da ficção, a cegueira, e enxergar a realidade (“ser capaz de não me excluir do real ao ser intruso no fictício”).

"Gosto muito de ser intruso assim. Junto a cada um. Com suas razões próprias. Uma oportunidade de tentar entender melhor a natureza humana. Sempre gostei.

Como posso ter me perdido tanto, ao ponto de não ter conseguido fazer isso com minha filha? Só porque não era um personagem feito de palavras?"

O livro apresenta ainda mais. Ao longo da narrativa a autora brinda o leitor com arte na forma de música, pintura, escultura e principalmente literatura. Muita literatura, com belíssimas citações, que estimulam nossa curiosidade e nos fazem aprender mais sobre o mundo, o Brasil e, em particular, a cidade do Rio de Janeiro e sua cultura.

Infâmia é um livro atual, popular, intelectual, brasileiríssimo. Uma leitura que faz diferença. Além disso, o tema e estilo fogem do que temos lido e dos livros que estão na lista de leitura. Acho que seria bem legal lê-lo com o Grupo. Como eu havia comentado no último mês, há tempos estou curiosa para ler este livro, mas com a regra do revezamento valendo, só agora pude sugerir sua leitura. Deixo aqui a sugestão, torcendo para que mais gente se interesse e assim, quem sabe, possamos ler juntos em Novembro.

Sobre a autora:

A carioca Ana Maria começou como pintora e estudou no Museu de Arte Moderna. Participou de várias exposições, enquanto estudava Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se formou. Ela desistiu da carreira de pintora e passou a dar aulas, além de escrever e traduzir artigos para jornais e revistas.

Ativista política, foi presa e perseguida durante a ditadura militar. Em 1969, partiu para o exílio na Europa. Lá, trabalhou na revista Elle, na BBC de Londres, lecionou na Sorbonne de Paris, onde conclui sua tese de mestrado sob a orientação do mestre Roland Barthes. Voltou ao Brasil em 1972 e trabalhou no Jornal do Brasil e, durante sete anos, foi chefe de reportagem da Rádio JB.

Em 1980, Ana Maria deixou o jornalismo para se dedicar exclusivamente aos livros.”

“A escritora recebeu alguns dos mais importantes prêmios da literatura, como o "Jabuti", em 1978; o "Casa de las Americas", em 1981; e, no ano 2000, o prêmio "Hans Christian Andersen", considerado o Nobel da literatura infantil.” Em 2001, recebeu o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra.

“Desde 2003, ela pertence à Academia Brasileira de Letras, tornando-se primeira imortal eleita com uma significativa obra dedicada ao público infanto-juvenil.” Em 2012 tornou-se presidenta da Academia.




Winter indica:

Amigas e amigos,

Para nosso encontro de março de 2013, sugiro o romance "Recordações do Escrivão Isaías Caminha". Na minha opinião, é o melhor livro do escritor Lima Barreto. 2011 fez de 130 anos do nascimento do Lima e neste 2012 completaram-se 90 anos de sua morte, sendo que pouco se falou nele.

Jorge, que recentemente se reuniu a nosso clube, tem um trabalho acadêmico específico sobre "Recordações do Escrivão Isaías Caminha" e a reunião de março seria uma ótima oportunidade para ele partilhar com a gente seus conhecimentos sobre o assunto.

Pensem com carinho na sugestão, valeu?

Um abraço e boas leituras,



(Envie-nos sua indicação com a resenha do livro. Manifeste seu apoio nos comentários desta postagem)


19 de novembro de 2012

A Paixão segundo F. G.: Homenagens


Partistes, Fred querido,
nos deixastes cedo ainda,
mas não hás de ser seguido
por tua presença infinda.

Sei que através da saudade,
a ausência não sentiremos,
pois tua doçura e amizade
no coração nós traremos.

(Segundo Elenir)

* * * 

Segundo Lilian

* * *

Não sei falar da morte sem dor
não há morte sem dor
mas se a vida em si for alento
digo ao Fred cujo sorriso
é marca do meigo
que a graça de seu encanto
segue conosco agora
e mesmo no pranto
canta mais alto a emoção
de tantos encontros
entre livros, entre amigos
palavras tocadas
olhares trocados
simbiose, transformação
segue a alma o percurso
trilhado antes por seu coração.
Descanse em paz.

(Segundo Rita)

* * *

Segundo Elô, com o "bastão da fala" a pedido de F.G.  


* * *


Como se fosse um recado seu, Fred...

Tudo fica tal qual antes,
antes mesmo de nascermos,
lembrarmos, como elefantes,
do lugar onde morrermos. 

como se fosse...
I


17 de novembro de 2012

Estamos nas nuvens: Rita Magnago


Bom sábado, pessoal

Estamos lendo "As nuvens" e eis que me deparo hoje, no Caderno Prosa (infelizmente agora só, onde foram parar meus versos?) , com matéria sobre a escritora moçambicana (salve Mia Couto) Paulina Chiziane, que ficou internada uma semana em uma clínica psiquiátrica.
Conta a autora que tinha crises de calor e frio intercaladas com vertigens e que ouvia vozes, o que fazia com que falasse sozinha horas e horas e, durante a noite, não conseguisse dormir. Na clínica, ela entrevista outras mulheres com as chamadas alucinações, incluindo uma entendida em espiritismo, que vem a ser sua parceira no livro, e escreve o que os críticos dizem estar no limite entre literatura e paraliteratura, por tangenciar, em sua escrita influenciada pela oralidade e costumes africanos, esse universo dos espíritos. Ao fim e ao cabo a autora declara: "Foi um exercício psicológico interior muito grande e, mesmo assim confesso: acho que vão dizer que enlouqueci de vez."

Fascinante essa fronteira da loucura, até que ponto vai o que convencionamos chamar de normalidade e que tantas vezes é muito mais louco que a loucura em si. Há um preconceito gigantesco com as doenças mentais que nos faz inclusive optar pelo distanciamento destes enfermos, mas a loucura usa e abusa da razão. Como nos lembra Saer na página 135, "Todos os atos de um louco, por nímios ou absurdos que pareçam, são significativos" ou ainda na página 146, quando diz que é a razão que engendra a loucura.

Saer dialoga ainda com Clarice, e tantos outros, quando fala do medo que temos pelo que não conhecemos ou entendemos, como bem destacado no trecho abaixo, da página 146.

"E quanto à impossibilidade que o senhor assinala de conhecer os pensamentos de um colibri ou, se prefere, de um cavalo, quero sublinhar que frequentemente acontece a mesma coisa com nossos pacientes: ou eles prescindem da linguagem ou tergiversam com ela, ou utilizam uma linguagem de que só eles conhecem o significado. De modo que, quando queremos conhecer suas representações, descobrimos que são tão inacessíveis para nós quanto as de um animal desprovido de linguagem".

Esse livro, em minha opinião, joga luz sobre o sombrio em nós que renega o que foge a parâmetros socialmente aceitos justamente porque seus atores não foram socialmente aceitos. Valeu a dica, Ceci.

Abraços a todos,

Rita

P.S1 : Aproveito para convidá-los a rir um pouco com meu novo post. Tem uns quadrinhos muito bons. É só acessar abaixo.


P.S2: Para quem quiser ler a matéria com a moçambicana, segue o link.


Última atualização do blog: 17/11/2012
Confira em http://ritamagnago.blogspot.com.br