CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

28 de junho de 2015

De que nos alimentamos?: Helene Camille








25 de junho de 2015

Você já leu? O que achou?

A água estava clara: Carlos Rosa

Mário de Andrade, Câmara Cascudo, Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes e outros, são grandes nomes esquecidos. Homens que traduziram o Brasil e seu povo e os colocaram no papel. Estão cada vez mais esquecidos porque fazem parte  da cultura brasileira, paulatinamente destruída. Por isto escrevi, em "A água estava clara", uma humílima crônica, "Alguma coisa acontece". É a descrença no futuro, caso a coisa continue. (Carlos Rosa)




"Dá para a gente passear por Icaraí junto com Carlos, usufruindo da paisagem, da beleza da cidade. 

'O piano do Tom, no intervalo das estrofes, me faz imaginar um casal a passear de mãos dadas.' (Momento, p. 146)" (Cyana)

"Já iniciei a leitura de "A água estava clara" e estou saboreando cada crônica feito aquela comida que a gente mais gosta. Meu livro já está cheio de grifos. Vejam esse: "Recorro à memória para ver as pedras daquele trecho sem vento, e o dia em que ficamos parados, Luísa, na calmaria do mar e do tempo" (que lindo!). Outro: "São profissionais em vias de extinção, os vassoureiros, os afiadores de facas, os funileiros, os vendedores de pirulito a bater uma alça de metal na madeira para chamar a criançada...são coisas que vão ficando ontem" (construção de frase bem original; lembranças que são minhas também, pois vivi esse tempo). Só mais uma: "Eu tenho cá meus casos, histórias humildes dos meus mares; ele tem oceanos" (poesia pura). Bjs. para a turma do Clube de Leitura Icaraí." (Angela Ellias)



Vivências em Biblioterapia: Cristiana Seixas





Obras debatidas no CLIc cujas citações compõem o tear apresentado pela autora em seu livro:

  • A montanha, o mar, a cidade: Carlos Rosa Moreira;
  • O primeiro homem Albert Camus;
  • Equador: Miguel Sousa Tavares;
  • As nuvens: Juan José Saer;
  • A paixão segundo G. H.: Clarice Lispector;
  • Livro do desassossego: Fernando Pessoa;
  • Pequenas Epifanias: Caio Fernando Abreu;
  • A caixa-preta: Amós Oz;
  • Infâmia: Ana Maria Machado;
  • Eu menina, toda prosa... e alguma poesia: Ilnéa País de Miranda;
  • O homem comum: Philip Roth;
  • Vermelho amargo: Bartolomeu Campos de Queirós;
  • A máquina de fazer espanhóis: valter hugo mãe;
  • O rochedo de Tânios: Amin Maalouf;
  • As mulheres do meu pai: José Eduardo Agualusa;


QUE MOSAICO!







"Nas práticas do cuidado através da literatura, uma fonte inesgotável de informação, faz a gente querer trabalhar com biblioterapia também. 

'As artes em geral ( literatura, pintura, música, dança e outras expressões) são modos de visitar nossa loucura e dar um receptáculo para as imagens que nos governam.  Uma via possível para a sanidade.' ('Costurando com linhas psicológicas', p. 110)" (Cyana) 









Ainda não leu? 

Está esperando o quê?

Adquira o seu (conciergeclic@gmail.com):


Vivências em Biblioterapia: Cristiana Seixas - R$ 35,00

A água estava clara: Carlos Rosa - R$ 30,00


Bastou anunciar os livros, olha o que aconteceu com as visualizações do blog


24 de junho de 2015

VIVA SÃO JOÃO!!!







Volta, minha infância,
no dia de São João.
Vestido de chita,
quadrilha, fogueira,
batata-doce e melado.
                                         Sabor de saudade.

.

                                               Os Balões
“O balão vai subindo, vai caindo a garoa...”

                       

                        Meus olhinhos  de criança

                        presos ficavam no céu.

                        Vendo os balões que subiam,

                        eu contava os que passavam

                        e descontava os queimados.

                        Eles eram tantos... tantos...

                        que eu até me confundia:

                        via estrelas ou balões?  

                        Na hora do meu jantar,

                        eu tendo que interromper

                        aquela conta engraçada,

                        perdendo, talvez, a aposta,

                         “quem irá ver mais balões?”

                        a minha amiga eu pedia

                        para ela continuar,

                        pois, na volta, eu lhe daria,

                        de quebra, muitos balões

                        que tivessem lanterninhas,

                        esses valiam dobrado.

                        Cento e cinco... cento e seis...

                        iam serenas no céu

                        essas novas estrelinhas.

                        Balões de luz,  de inocência,

                        balões de sonho e alegria...

                        Bem mais tarde, compreendi

                        que não eram inocentes

                        os meus queridos balões,

                        deixando, na sua queda,

                        marcas de destruição.

Mesmo assim, me surpreendo,

                        muitas vezes, distraída,

                        contando os poucos balões

                        que enfeitam os céus de agora...

Nesse mágico momento,

                        sinto renascer em mim

                        a menininha de tranças

                        que apostava nos balões.



Para vocês, uma boa noite de S. João! SEM BALÕES!
Elenir


17 de junho de 2015

Bloomsday 2015 - debate sobre a obra Ulysses, de James Joyce


Debate ocorreu na Livraria da Travessa da Rua Sete de Setembro


Salve o Bloomsday 2015!!!






"Senhoras e senhores,

Aproxima-se o Bloomsday. 

Nem todos teremos lido, nem todos teremos sequer começado... mas, como eu tinha comentado recentemente, seria importante tirarmos Ulisses do nosso sistema. Tem sido um longo caminho e, se como diz Anthony Burgess, Ulisses é um livro com o qual conviver, menos do que ler de um fôlego, qual fosse um romance policial, nunca deixaremos de lê-lo, em ocasiões diferentes, refletido em outros livros, refletido no impacto que teve na literatura ocidental e na forma continuará influenciando a crítica e o público na apreciação geral da literatura. 


Isso tudo fica muito pomposo... na verdade, na minha tentativa de ler Ulisses sem todo o peso da fortuna crítica envolvida, tenho até me divertido bastante. Mas tenho procurado usar o estatuto da "convivência", alternando-o com outras leituras, buscando uma certa leveza onde o tempo todo sugerem-nos solenidade e estudo dileto. 

Sou, por princípio, contra a teorização antes que o fenômeno tenha se concretizado. Sou contra o boato antes do fato. Só leio introduções e prefácios de literatura depois que os livros tiverem sido lidos. E assim procurei fazer com o Ulisses. Acho que ainda sigo a melhor forma. 

Assim sendo, estamos todos marcados para terça-feira, dia 16, para o nosso pequeno passeio no parquinho dublinense."

(Pedretti)


"Este é o livro ao qual todos somos devedores, e do qual nenhum de nós pode escapar"- T.S. Eliot

Com o épico Ulisses, sua obra maior, o irlandês James Joyce revolucionou o romance moderno. Transcorrido em um único dia - 16 de junho de 1904 - e em uma só cidade - Dublin -, o enredo de Ulisses consegue abarcar toda a gama das emoções e experiências humanas, que o leitor vivencia pelo olhos, ouvidos e entranhas de personagens inesquecíveis, como Leopold Bloom, Stephen Dedalus e Molly Bloom. 

Esta tradução de Ulisses, primorosamente concebida pela professora Bernardina da Silveira Pinheiro ao longo de sete anos de trabalho, tem a intenção de restituir o grande feito literário do século XX a quem de direito: o leitor. Com o mesmo registro coloquial do inglês usado por Joyce, mas sem abrir mão da riqueza linguística que o consagrou, a linguagem empregada nesta edição privilegia uma dimensão mais humana da obra-prima do autor, tornando-a acessível ao maior número possível de leitores.

James Joyce demorou sete anos para escrever Ulisses (de 1914 a 1921). Nesse período, atravessou a Primeira Guerra Mundial, passou por complicações financeiras e teve problemas de visão. Após terminá-lo, enfrentou ainda sérias dificuldades para publicá-lo. Depois de ser recusado no Reino Unido e nos Estados Unidos - onde foi considerado obsceno -, o livro foi finalmente editado em 1922 por uma pequena livraria em Paris, a Shakespeare & Company (foto ao lado), da norte-americana Sylvia Beach. Ulisses seria ilegal nos Estados Unidos até 1934, e só seria liberado no Reino Unido três anos mais tarde. 

Nele, intercalam-se as trajetórias de dois personagens principais, Leopold Bloom e Stephen Dedalus, pelas ruas de Dublin ao longo de um único dia, 16 de junho de 1904. Sua estrutura e referências remetem à Odisséia, épico de Homero sobre as peripécias de Ulisses (Odisseu, para os gregos) em sua jornada de volta a Ítaca. "Bloom é Ulisses vivendo suas pequenas aventuras em Dublin; Stephen Dedalus é Telêmaco em busca de um pai; Molly Bloom é ao mesmo tempo a iludida Calipso e a fiel Penélope", escreveu Anthony Burgess, para quem "Ulisses é um livro para se ter, com que se conviver".





"Sombras vegetavam silentes na paz da manhã flutuantes da escada ao mar para onde olhava. Na praia e mais além embranquecia o espelho d´água, pisado por pés lépidos e leves. Seio branco do mar turvo. Parelhas de pulsos, dois a dois. Mão tangendo as cordas de harpa fundindo-lhe os acordes geminados. Palavras pálidas do pélago aos pares rebrilhando na turva maré" (pág. 105)


Bloomsday 2012 - Sim, nós do CLIc lemos!


"Sozinha, um instante de verdade:
não gosto de Joyce
não entendo a forma
a forma
que forma
estilo nascido para marcar diferença."

                (Reflexão II - Rita Magnago)


" - Empresta aí esse teu portameleca para limpar a minha navalha...Uma nova cor pra paleta dos nossos poetas irlandeses: verderranho. Quase dá para sentir o gosto, não? Subiu novamente até o parapeito e mirou por sobre a baía de Dublin, seus claros cabelos de carvalhopálido mexendo leves. Meu Deus... o mar verderranho, o mar encolhescroto." (págs 99/100)


NOSSO CLUBE DE LEITURA ICARAÍ JÁ LEU! SE VOCÊ PERDEU O EMBARQUE OU NAUFRAGOU NO PERCURSO, AGORA TEM UMA NOVA CHANCE NO CLUBE DA SETE. LEIA A CONVOCATÓRIA DO LIVREIRO ROBERTO PEDRETTI DA LIVRARIA DA TRAVESSA EMITIDA EM 18 DE AGOSTO DE 2014.





"Adotar Ulisses como nossa leitura de 4 de dezembro de 2014 consiste em dizer que, a partir de hoje, temos 108 dias para, se não o lermos integralmente, ao menos o bastante para tornar a reunião proveitosa.

Não é um feito inédito: nas reuniões dos clubes de todo o Brasil, conheci mediadores de 3 clubes que o tinham adotado - dois em São Paulo e um em Florianópolis. O ponto comum entre as impressões dos mediadores destes clubes foi de que as reuniões foram... inesperadas. O que quer dizer que levaram a caminhos muito distantes do que se poderia esperar da usual fortuna crítica solene que se agarrou ao romance feito craca e que não nos deixa fruir dele livemente, mas apenas pelo filtro de interpretações já consagradas. Ou seja: as reuniões foram boas porque as pessoas miraram "o livro" e não "a crítica". 


Há cerca de dois anos, Paulo Coelho disse numa entrevista que "Ulisses" tinha sido mais danoso que benéfico para a literatura universal. Acho um ponto de vista filistino um pouquinho exagerado, ainda mais partindo de alguém que se esbalda em ser o mais traduzido escritor brasileiro. Mas eu entendo o que ele quis dizer, e não está de todo errado: a unanimidade sacralizante que caiu sobre James Joyce (assim como sobre Shakespeare, Faulkner, Beckett, Proust e toda a literatura russa do século XIX) criou uma barreira quase intransponível para aqueles que quisessem fazer a coisa mais prosaica para as quais aqueles textos tinham sido pensados: lê-los. Não se imagina o ser humano civilizado e artistizado sentando confortavelmente em sua poltrona no fim do dia, tirando os sapatos, e entregando-se à leitura de um dos volumes de "Em Busca do Tempo Perdido" - ele precisa sentar-se, isso sim, à escrivaninha, cercado por notas e literatura de referência às pilhas, para começar o "estudo", e não a leitura. Assistir a uma peça de Shakespeare virou, no nosso tempo, um marco de solenidade esnobista tão consagrado que praticamente ninguém mais sabe o que está acontecendo no palco (às vezes nem os atores) - todos estão ali sentados na plateia "pelo significado cultural do evento", decorando frasezinhas aqui, citando outros autores ali, até o ponto de não nos permitirmos mais rir em suas comédias ou chorar em suas tragédias.



(Não sou fã do filme "Shakespeare Apaixonado", de 1998, que no geral é meio bobo e desperdiça um trabalho de produção sensacional, mas tenho que admitir que a tomada da estreia de Romeu e Julieta no Globe Theatre é matadora: ali, gente muito simples, alguns sujos do trabalho nas granjas, outros inclusive com animais domésticos no colo, assistia à peça pela "história que era contada", e se emocionavam. Sugiro a todos rever estas cenas e refletir sobre o que sobrava em um trabalhador rural analfabeto do seculo XVI que nos falta hoje). 



Acho que esse é o tipo de trabalho de desprendimento que podemos aplicar a Ulisses. Esqueçamos, ao menos num primeiro momento, sua fama de difícil. seus meandros criptografados, suas sutilezas intransponíveis. Acho que devemos, ao menos para esta reunião, seguindo o exemplo dos grupos que discutiram-no, abri-lo como abriríamos qualquer livro quando "lhe damos uma chance". "Vamos ver se vou gostar desse aqui..." é o que dizemos geralmente quando nos deparamos com um autor desconhecido ou com recepções mistas. E todo autor, até onde sei, gosta de pensar em seu leitor fazendo este movimento, rumo ao desconhecido, com o benefício de parar e chamá-lo de insuportável quando bem entender.



Na minha visão muito particular sobre Literatura, acho que uma obra de ficção deve bastar-se a si mesma para engajar o leitor. Ela pode ultrapassar este momento, ser muito mais significativa que ele, e isso faz os "bons" livros passarem a ser "grandes" livros. Mas entre o prazer do leitor e o labor do estudioso não deveria haver descontinuidade."







E DEPOIS... JUNTE-SE A NÓS!!!




NO

BLOOMSDAY

16 DE JUNHO DE 2015

18:00 h




R. Sete de Setembro, 54 - Centro, Rio de Janeiro - RJ, 20050-009
Telefone:(21) 3231-8015


Contato: Roberto Pedretti

8 de junho de 2015

Ah, Bartleby ! Ah, Humanidade! - novaes/




Pessoal,

Excelente a reunião de 8/5/2015.

De todos os interessantes aspectos levantados sobre o personagem Bartleby (inclusive o fato de que ele passou anos num trabalho "improdutivo", como o descarte de cartas que falecidos não puderam receber, e a ação disso sobre a sua psique), depois me dei conta de que um outro aspecto nos passou despercebido.

Reparem que a contestação inconsciente de Bartleby, o "não" que ele dizia ao sistema, não era um simples "não vou fazer". Era diferente, era "prefiro não fazer".

Ou seja, o que passou a pesar, definitivamente, em sua decisão foi sua vontade, o que ele preferia ou não fazer.

Isso, a meu ver, é mais um, entre tantos aspectos geniais do livro. Pois, vejam, o sistema não dava (como não dá) a mínima para a vontade do Bartleby. A vontade individual não é nada frente ao sistema e como ele "deve" funcionar.

Mas, remetendo ao aspecto do capitalismo levantado pelo Benito, não é este o sistema que se apresenta como "o império da vontade individual"? Da "liberdade individual"? Principalmente quando se opõe ao sistema socialista, acusado de "priorizar o coletivo e esmagar a vontade individual"?

"Bartleby", de modo genial, mostra que não é bem assim. Ah, humanidade!



Abraços,
Novaes Barra

4 de junho de 2015

A casa dos budas ditosos: João Ubaldo Ribeiro

Me perdoe João Ubaldo:
ditosos budas reli,
das "sopas" ... tomei o caldo...
ossos?... Larguei por aí. (I...)


'Museu do amor' fica em Seul, capital da Coreia do Sul


... a vida não é um campeonato de futebol, 
em que a gente fica procurando o melhor, 
cada instante é um, 
comparar é impossível. 




─ Mas, sim, mas então eu estava dizendo que os católicos são politeístas, botaram os santos no lugar dos deuses especializados. Os gregos e os romanos tinham um deus menor para cada coisa, regras atrasadas, artistas falidos, transações impossíveis, dívidas falimentares, casamentos, músicos, bêbedos, agricultores, criadores de cabra, tudo, tudo, tudo. Os católicos substituíram os deuses pelos santos. Os músicos? Santa Cecília. Os ruins da vista? Santa Luzia. As solteironas? Santo Antônio. E por aí vai, como você sabe. Até lugares. São José de Não Sei Onde? Diana de Éfeso, a mesmíssima coisa. Os deuses não foram derrotados ou eliminados, continuam imortais com sempre foram e somente mudaram de nome, se adaptaram às mudanças. Eu pronuncio verdadeiras conferências sobre isso, sou a rainha da conferência, às vezes devo ficar chatíssima. Mas pode permanecer tranqüilo, que eu não vou fazer conferência para você, afinal você está sendo pago, temos que trabalhar vamos trabalhar. Somente uma última referenciazinha a São Gonçalo, porque agora já comecei e sou compulsiva; comecei tem que acabar. São Gonçalo não existe. Ou melhor, existe mas nunca existiu. Para a Igreja, não há nenhum São Gonçalo, nunca houve. Mas se declarou, na minha opinião por falta de Príapo, uma grande lacuna, que clamava por ser preenchida. Não existe São Gonçalo, mas já vi procissão dele com padre e tudo, e as mulheres cantando obscenidades baixinho, é um santo deflorador e consolador para as solitárias. No arraial junto à fazenda da ilha, segundo até meu avô contava, havia uma imagem de São Gonçalo com um falo de madeira descomunal, maior que o próprio corpo dele. O corpo era de barro, mas o falo era de madeira de lei e fixado pela base num eixo, de maneira que, quando se puxava uma cordinha por trás, ele subia e ficava ali em riste. Eu nunca vi, mas as negras velhas da fazenda garantiam que antigamente, todo ano, faziam uma procissão com essa imagem de São Gonçalo e as mulheres disputavam quem ia repintar o falo, era sucesso garantido no mundo das artes, para não falar que a felizarda ficaria muito bem assistida nos seguintes 364 dias.


Doce de São Gonçalo


"A vida devia ser duas; uma para ensaiar, outra para viver a sério. 

Quando se aprende alguma coisa, está na hora de ir."

(Vittorio Gassman)




Romance de João Ubaldo retrata luxúria sob a ótica feminina (por Debora de Lucas) Fonte

“As mulheres, pensava eu, eram mais aptas a fundir sexo com emoção ou amor, assim como a se dedicar a um único homem em lugar de se tornarem promíscuas”.
Esta citação é de Anaïs Nin. A escritora, extremamente conhecida pelo affair com Henry Miller e pela publicação de seus diários, chegou a essa conclusão no começo dos anos 1940, quando escrevia literatura erótica por um dólar a página a um anônimo colecionador norte-americano.
A Casa dos Budas Ditosos revisita histórico sexual da quase septuagenária CLB/Arlen Roche/SXC
A Casa dos Budas Ditosos revisita histórico sexual da quase septuagenária CLB/Arlen Roche/SXC
Mas até que ponto a afirmação acima é verdadeira? Será que em nenhum momento da História a mulher desassociou o sexo da emoção? Nem mesmo durante a famosa Revolução Sexual? Atualmente, há livros que tratam exclusivamente da sexualidade feminina ao longo da evolução, no entanto, nenhum nos traz uma protagonista tão ávida pelos prazeres carnais, sem recalques e culpas como A Casa dos Budas Ditosos.
Capa da obra/Reprodução
Capa da obra/Reprodução
A obra é o quarto volume da coleção Plenos Pecados (Editora Objetiva, 164 páginas, R$ 36,90) e é creditada ao escritor baiano João Ubaldo Ribeiro que, logo no prefácio, atribui a autoria do livro a uma conterrânea de 68 anos, residente na cidade do Rio de Janeiro, tal como ele.
Segundo o membro da Academia Brasileira de Letras, a mulher, CLB, ao saber que ele fora incumbido de escrever um romance sobre a luxúria, lhe enviou suas memórias que, para a própria, são um depoimento “sócio-histórico-lítero-pornô” de uma pansexual.

A declaração de um dos mais importantes expoentes da Literatura Brasileira contemporânea é uma mentira? A quase septuagenária não seria o alter ego do autor de Sargento Getúlio e O Sorriso do Lagarto?  Mistério…
Em uma narrativa linear, direta e permeada por considerações morais e filosóficas, CLB relata suas experiências sexuais desde a sua iniciação até a sua vida adulta, podendo levar alguns leitores a se perguntarem qual é o limite entre a liberdade e a libertinagem para essa senhora.
O texto é rico em minuciosas descrições de experiências eróticas com seu irmão Rodolfo, seu tio Afonso, amigos, amigas, orgias, drogas, entre outras, vividas pela misteriosa protagonista, que desde o princípio da narrativa define a sua voluptuosidade como um dom divino.

Gostou? Então, leia para debater no Clube de Leitura Icaraí em Março de 2015

1 de junho de 2015

Demarcando as fronteiras do sul

Por Wagner Medeiros Junior



Com a morte de D. Sebastião ainda moço na batalha de Alcácer-Quibir (1578), seu tio-avô e parente mais próximo, o cardeal D. Henrique, é elevado ao trono português. O rei D. Henrique I, o Casto, veio a falecer pouco depois, em janeiro de 1580, sem deixar descendente e concluir a escolha do herdeiro na linha sucessória. A disputa ao trono resultou em uma crise, que acabou por ascender o rei Felipe II da Espanha ao trono português, por ser filho de uma princesa da casa real de Portugal. 

A historiografia moderna portuguesa nomina a unificação das coroas lusa e espanhola como União Ibérica, ou Terceira Dinastia, a Filipina, por compreender os reinados de Felipe I (II da Espanha), Felipe II e Felipe III. Durante o período dessa unificação dual o soberano indicava o vice-rei de Portugal, escolhido entre a nobreza lusa, de modo a manter a autonomia administrativa e a jurisdição sobre as colônias do além mar, inclusive dos brasis.

Até então, os territórios da atual região sul do Brasil e do Uruguai encontravam-se praticamente inexplorados. Toda a costa era inóspita, tremulada pelo vento e muito arenosa, com raros pontos naturais para ancoragem das embarcações. Nela não havia pau brasil, nem vestígios da existência de ouro, prata ou qualquer outra riqueza a ser explorar. Mas a descoberta das minas de prata de Potosí, no atual território da Bolívia, despertou a cobiça de Portugal por esta extensa área e pelo acesso ao rio da Prata. 

O Tratado de Tordesilhas delimitara aquela área do Atlântico Sul à Espanha. Porém, com a unificação das coroas as fronteiras foram naturalmente abertas aos portugueses. Em pouco tempo os comerciantes lusos passaram a dominar o comércio de escravos e de todo tipo de mercadorias necessárias às povoações que iam se abrindo na bacia do rio da Prata e na direção de Potosí, que se tornaria uma das mais populosas cidades do mundo.

O comércio em Potosí e em todo seu entorno tornara-se extremamente lucrativo, pois a cidade dependia de tudo para a sobrevivência de seus habitantes e a extração da prata. Isto suscitava constantes protestos dos comerciantes espanhóis contra os portugueses, principalmente os cristãos novos, chamados de peruleiros.

As incursões portuguesas, entretanto, não se limitaram às rotas do Prata e de Potosí. Pelos sertões os bandeirantes paulistas cruzaram as fronteiras do sul na caça aos índios, a fim de vendê-los como escravos. Inicialmente foram sendo devastadas as tribos selvagens, com o apoio dos bugres aliados, que não se intimidavam em lutar em batalhas deveras sangrentas. Logo depois os bandeirantes alcançaram as reduções dos jesuítas espanhóis no atual Rio Grande do Sul e na fronteiras com o atual Paraguai, nas regiões de Guairá e Itatins.

Lá os bandeirantes arrasavam tudo que encontravam pela frente, na ânsia de capturar os guaranis catequisados pelos jesuítas, já adaptados ao trabalho na construção civil, na agricultura e na criação de gado das missões. Segundo Ana Lopes e Carlos Guilherme Mota, em “História do Brasil – Uma interpretação”, entre os anos de 1627 e 1640, os paulistas trouxeram mais de 100 mil cativos.  Uma das operações escravistas mais predatória da história moderna, nas palavras do historiador Luiz Felipe de Alencastro.

Em dezembro de 1640 a monarquia portuguesa é restaurada, com a posse de D. João IV. Os bandeirantes paulistas já não desciam ao sul em busca de escravos, pois as reduções haviam sido abandonadas pelos jesuítas nos territórios rio-grandenses e do Guairá. O gado disperso – chamado de xucre ou chimarrão - começa a procriar livremente, tornando-se bravio. Estava ali a base econômica que em anos mais tarde determinaria a demarcação das fronteiras do sul.


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