CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

28 de junho de 2015

De que nos alimentamos?: Helene Camille








25 de junho de 2015

Você já leu? O que achou?

A água estava clara: Carlos Rosa

Mário de Andrade, Câmara Cascudo, Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes e outros, são grandes nomes esquecidos. Homens que traduziram o Brasil e seu povo e os colocaram no papel. Estão cada vez mais esquecidos porque fazem parte  da cultura brasileira, paulatinamente destruída. Por isto escrevi, em "A água estava clara", uma humílima crônica, "Alguma coisa acontece". É a descrença no futuro, caso a coisa continue. (Carlos Rosa)




"Dá para a gente passear por Icaraí junto com Carlos, usufruindo da paisagem, da beleza da cidade. 

'O piano do Tom, no intervalo das estrofes, me faz imaginar um casal a passear de mãos dadas.' (Momento, p. 146)" (Cyana)

"Já iniciei a leitura de "A água estava clara" e estou saboreando cada crônica feito aquela comida que a gente mais gosta. Meu livro já está cheio de grifos. Vejam esse: "Recorro à memória para ver as pedras daquele trecho sem vento, e o dia em que ficamos parados, Luísa, na calmaria do mar e do tempo" (que lindo!). Outro: "São profissionais em vias de extinção, os vassoureiros, os afiadores de facas, os funileiros, os vendedores de pirulito a bater uma alça de metal na madeira para chamar a criançada...são coisas que vão ficando ontem" (construção de frase bem original; lembranças que são minhas também, pois vivi esse tempo). Só mais uma: "Eu tenho cá meus casos, histórias humildes dos meus mares; ele tem oceanos" (poesia pura). Bjs. para a turma do Clube de Leitura Icaraí." (Angela Ellias)



Vivências em Biblioterapia: Cristiana Seixas





Obras debatidas no CLIc cujas citações compõem o tear apresentado pela autora em seu livro:

  • A montanha, o mar, a cidade: Carlos Rosa Moreira;
  • O primeiro homem Albert Camus;
  • Equador: Miguel Sousa Tavares;
  • As nuvens: Juan José Saer;
  • A paixão segundo G. H.: Clarice Lispector;
  • Livro do desassossego: Fernando Pessoa;
  • Pequenas Epifanias: Caio Fernando Abreu;
  • A caixa-preta: Amós Oz;
  • Infâmia: Ana Maria Machado;
  • Eu menina, toda prosa... e alguma poesia: Ilnéa País de Miranda;
  • O homem comum: Philip Roth;
  • Vermelho amargo: Bartolomeu Campos de Queirós;
  • A máquina de fazer espanhóis: valter hugo mãe;
  • O rochedo de Tânios: Amin Maalouf;
  • As mulheres do meu pai: José Eduardo Agualusa;


QUE MOSAICO!







"Nas práticas do cuidado através da literatura, uma fonte inesgotável de informação, faz a gente querer trabalhar com biblioterapia também. 

'As artes em geral ( literatura, pintura, música, dança e outras expressões) são modos de visitar nossa loucura e dar um receptáculo para as imagens que nos governam.  Uma via possível para a sanidade.' ('Costurando com linhas psicológicas', p. 110)" (Cyana) 









Ainda não leu? 

Está esperando o quê?

Adquira o seu (conciergeclic@gmail.com):


Vivências em Biblioterapia: Cristiana Seixas - R$ 35,00

A água estava clara: Carlos Rosa - R$ 30,00


Bastou anunciar os livros, olha o que aconteceu com as visualizações do blog


24 de junho de 2015

VIVA SÃO JOÃO!!!







Volta, minha infância,
no dia de São João.
Vestido de chita,
quadrilha, fogueira,
batata-doce e melado.
                                         Sabor de saudade.

.

                                               Os Balões
“O balão vai subindo, vai caindo a garoa...”

                       

                        Meus olhinhos  de criança

                        presos ficavam no céu.

                        Vendo os balões que subiam,

                        eu contava os que passavam

                        e descontava os queimados.

                        Eles eram tantos... tantos...

                        que eu até me confundia:

                        via estrelas ou balões?  

                        Na hora do meu jantar,

                        eu tendo que interromper

                        aquela conta engraçada,

                        perdendo, talvez, a aposta,

                         “quem irá ver mais balões?”

                        a minha amiga eu pedia

                        para ela continuar,

                        pois, na volta, eu lhe daria,

                        de quebra, muitos balões

                        que tivessem lanterninhas,

                        esses valiam dobrado.

                        Cento e cinco... cento e seis...

                        iam serenas no céu

                        essas novas estrelinhas.

                        Balões de luz,  de inocência,

                        balões de sonho e alegria...

                        Bem mais tarde, compreendi

                        que não eram inocentes

                        os meus queridos balões,

                        deixando, na sua queda,

                        marcas de destruição.

Mesmo assim, me surpreendo,

                        muitas vezes, distraída,

                        contando os poucos balões

                        que enfeitam os céus de agora...

Nesse mágico momento,

                        sinto renascer em mim

                        a menininha de tranças

                        que apostava nos balões.



Para vocês, uma boa noite de S. João! SEM BALÕES!
Elenir


8 de junho de 2015

Ah, Bartleby ! Ah, Humanidade! - novaes/




Pessoal,

Excelente a reunião de 8/5/2015.

De todos os interessantes aspectos levantados sobre o personagem Bartleby (inclusive o fato de que ele passou anos num trabalho "improdutivo", como o descarte de cartas que falecidos não puderam receber, e a ação disso sobre a sua psique), depois me dei conta de que um outro aspecto nos passou despercebido.

Reparem que a contestação inconsciente de Bartleby, o "não" que ele dizia ao sistema, não era um simples "não vou fazer". Era diferente, era "prefiro não fazer".

Ou seja, o que passou a pesar, definitivamente, em sua decisão foi sua vontade, o que ele preferia ou não fazer.

Isso, a meu ver, é mais um, entre tantos aspectos geniais do livro. Pois, vejam, o sistema não dava (como não dá) a mínima para a vontade do Bartleby. A vontade individual não é nada frente ao sistema e como ele "deve" funcionar.

Mas, remetendo ao aspecto do capitalismo levantado pelo Benito, não é este o sistema que se apresenta como "o império da vontade individual"? Da "liberdade individual"? Principalmente quando se opõe ao sistema socialista, acusado de "priorizar o coletivo e esmagar a vontade individual"?

"Bartleby", de modo genial, mostra que não é bem assim. Ah, humanidade!



Abraços,
Novaes Barra

4 de junho de 2015

A casa dos budas ditosos: João Ubaldo Ribeiro

Me perdoe João Ubaldo:
ditosos budas reli,
das "sopas" ... tomei o caldo...
ossos?... Larguei por aí. (I...)


'Museu do amor' fica em Seul, capital da Coreia do Sul


... a vida não é um campeonato de futebol, 
em que a gente fica procurando o melhor, 
cada instante é um, 
comparar é impossível. 




─ Mas, sim, mas então eu estava dizendo que os católicos são politeístas, botaram os santos no lugar dos deuses especializados. Os gregos e os romanos tinham um deus menor para cada coisa, regras atrasadas, artistas falidos, transações impossíveis, dívidas falimentares, casamentos, músicos, bêbedos, agricultores, criadores de cabra, tudo, tudo, tudo. Os católicos substituíram os deuses pelos santos. Os músicos? Santa Cecília. Os ruins da vista? Santa Luzia. As solteironas? Santo Antônio. E por aí vai, como você sabe. Até lugares. São José de Não Sei Onde? Diana de Éfeso, a mesmíssima coisa. Os deuses não foram derrotados ou eliminados, continuam imortais com sempre foram e somente mudaram de nome, se adaptaram às mudanças. Eu pronuncio verdadeiras conferências sobre isso, sou a rainha da conferência, às vezes devo ficar chatíssima. Mas pode permanecer tranqüilo, que eu não vou fazer conferência para você, afinal você está sendo pago, temos que trabalhar vamos trabalhar. Somente uma última referenciazinha a São Gonçalo, porque agora já comecei e sou compulsiva; comecei tem que acabar. São Gonçalo não existe. Ou melhor, existe mas nunca existiu. Para a Igreja, não há nenhum São Gonçalo, nunca houve. Mas se declarou, na minha opinião por falta de Príapo, uma grande lacuna, que clamava por ser preenchida. Não existe São Gonçalo, mas já vi procissão dele com padre e tudo, e as mulheres cantando obscenidades baixinho, é um santo deflorador e consolador para as solitárias. No arraial junto à fazenda da ilha, segundo até meu avô contava, havia uma imagem de São Gonçalo com um falo de madeira descomunal, maior que o próprio corpo dele. O corpo era de barro, mas o falo era de madeira de lei e fixado pela base num eixo, de maneira que, quando se puxava uma cordinha por trás, ele subia e ficava ali em riste. Eu nunca vi, mas as negras velhas da fazenda garantiam que antigamente, todo ano, faziam uma procissão com essa imagem de São Gonçalo e as mulheres disputavam quem ia repintar o falo, era sucesso garantido no mundo das artes, para não falar que a felizarda ficaria muito bem assistida nos seguintes 364 dias.


Doce de São Gonçalo


"A vida devia ser duas; uma para ensaiar, outra para viver a sério. 

Quando se aprende alguma coisa, está na hora de ir."

(Vittorio Gassman)




Romance de João Ubaldo retrata luxúria sob a ótica feminina (por Debora de Lucas) Fonte

“As mulheres, pensava eu, eram mais aptas a fundir sexo com emoção ou amor, assim como a se dedicar a um único homem em lugar de se tornarem promíscuas”.
Esta citação é de Anaïs Nin. A escritora, extremamente conhecida pelo affair com Henry Miller e pela publicação de seus diários, chegou a essa conclusão no começo dos anos 1940, quando escrevia literatura erótica por um dólar a página a um anônimo colecionador norte-americano.
A Casa dos Budas Ditosos revisita histórico sexual da quase septuagenária CLB/Arlen Roche/SXC
A Casa dos Budas Ditosos revisita histórico sexual da quase septuagenária CLB/Arlen Roche/SXC
Mas até que ponto a afirmação acima é verdadeira? Será que em nenhum momento da História a mulher desassociou o sexo da emoção? Nem mesmo durante a famosa Revolução Sexual? Atualmente, há livros que tratam exclusivamente da sexualidade feminina ao longo da evolução, no entanto, nenhum nos traz uma protagonista tão ávida pelos prazeres carnais, sem recalques e culpas como A Casa dos Budas Ditosos.
Capa da obra/Reprodução
Capa da obra/Reprodução
A obra é o quarto volume da coleção Plenos Pecados (Editora Objetiva, 164 páginas, R$ 36,90) e é creditada ao escritor baiano João Ubaldo Ribeiro que, logo no prefácio, atribui a autoria do livro a uma conterrânea de 68 anos, residente na cidade do Rio de Janeiro, tal como ele.
Segundo o membro da Academia Brasileira de Letras, a mulher, CLB, ao saber que ele fora incumbido de escrever um romance sobre a luxúria, lhe enviou suas memórias que, para a própria, são um depoimento “sócio-histórico-lítero-pornô” de uma pansexual.

A declaração de um dos mais importantes expoentes da Literatura Brasileira contemporânea é uma mentira? A quase septuagenária não seria o alter ego do autor de Sargento Getúlio e O Sorriso do Lagarto?  Mistério…
Em uma narrativa linear, direta e permeada por considerações morais e filosóficas, CLB relata suas experiências sexuais desde a sua iniciação até a sua vida adulta, podendo levar alguns leitores a se perguntarem qual é o limite entre a liberdade e a libertinagem para essa senhora.
O texto é rico em minuciosas descrições de experiências eróticas com seu irmão Rodolfo, seu tio Afonso, amigos, amigas, orgias, drogas, entre outras, vividas pela misteriosa protagonista, que desde o princípio da narrativa define a sua voluptuosidade como um dom divino.

Gostou? Então, leia para debater no Clube de Leitura Icaraí em Março de 2015

1 de junho de 2015

Demarcando as fronteiras do sul

Por Wagner Medeiros Junior



Com a morte de D. Sebastião ainda moço na batalha de Alcácer-Quibir (1578), seu tio-avô e parente mais próximo, o cardeal D. Henrique, é elevado ao trono português. O rei D. Henrique I, o Casto, veio a falecer pouco depois, em janeiro de 1580, sem deixar descendente e concluir a escolha do herdeiro na linha sucessória. A disputa ao trono resultou em uma crise, que acabou por ascender o rei Felipe II da Espanha ao trono português, por ser filho de uma princesa da casa real de Portugal. 

A historiografia moderna portuguesa nomina a unificação das coroas lusa e espanhola como União Ibérica, ou Terceira Dinastia, a Filipina, por compreender os reinados de Felipe I (II da Espanha), Felipe II e Felipe III. Durante o período dessa unificação dual o soberano indicava o vice-rei de Portugal, escolhido entre a nobreza lusa, de modo a manter a autonomia administrativa e a jurisdição sobre as colônias do além mar, inclusive dos brasis.

Até então, os territórios da atual região sul do Brasil e do Uruguai encontravam-se praticamente inexplorados. Toda a costa era inóspita, tremulada pelo vento e muito arenosa, com raros pontos naturais para ancoragem das embarcações. Nela não havia pau brasil, nem vestígios da existência de ouro, prata ou qualquer outra riqueza a ser explorar. Mas a descoberta das minas de prata de Potosí, no atual território da Bolívia, despertou a cobiça de Portugal por esta extensa área e pelo acesso ao rio da Prata. 

O Tratado de Tordesilhas delimitara aquela área do Atlântico Sul à Espanha. Porém, com a unificação das coroas as fronteiras foram naturalmente abertas aos portugueses. Em pouco tempo os comerciantes lusos passaram a dominar o comércio de escravos e de todo tipo de mercadorias necessárias às povoações que iam se abrindo na bacia do rio da Prata e na direção de Potosí, que se tornaria uma das mais populosas cidades do mundo.

O comércio em Potosí e em todo seu entorno tornara-se extremamente lucrativo, pois a cidade dependia de tudo para a sobrevivência de seus habitantes e a extração da prata. Isto suscitava constantes protestos dos comerciantes espanhóis contra os portugueses, principalmente os cristãos novos, chamados de peruleiros.

As incursões portuguesas, entretanto, não se limitaram às rotas do Prata e de Potosí. Pelos sertões os bandeirantes paulistas cruzaram as fronteiras do sul na caça aos índios, a fim de vendê-los como escravos. Inicialmente foram sendo devastadas as tribos selvagens, com o apoio dos bugres aliados, que não se intimidavam em lutar em batalhas deveras sangrentas. Logo depois os bandeirantes alcançaram as reduções dos jesuítas espanhóis no atual Rio Grande do Sul e na fronteiras com o atual Paraguai, nas regiões de Guairá e Itatins.

Lá os bandeirantes arrasavam tudo que encontravam pela frente, na ânsia de capturar os guaranis catequisados pelos jesuítas, já adaptados ao trabalho na construção civil, na agricultura e na criação de gado das missões. Segundo Ana Lopes e Carlos Guilherme Mota, em “História do Brasil – Uma interpretação”, entre os anos de 1627 e 1640, os paulistas trouxeram mais de 100 mil cativos.  Uma das operações escravistas mais predatória da história moderna, nas palavras do historiador Luiz Felipe de Alencastro.

Em dezembro de 1640 a monarquia portuguesa é restaurada, com a posse de D. João IV. Os bandeirantes paulistas já não desciam ao sul em busca de escravos, pois as reduções haviam sido abandonadas pelos jesuítas nos territórios rio-grandenses e do Guairá. O gado disperso – chamado de xucre ou chimarrão - começa a procriar livremente, tornando-se bravio. Estava ali a base econômica que em anos mais tarde determinaria a demarcação das fronteiras do sul.


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