CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

19 de fevereiro de 2013

Brincadeira de Páscoa


Coelhinho da Páscoa, que trazes para mim?



A Páscoa vem aí, e no CLIc, o coelhinho está recheado de histórias. Vamos construir outro conto a muitas mãos, como fizemos em nossa Brincadeira de Carnaval? Então, mãos à obra. É só publicar seu texto no campo comentários. Se tiver dúvidas de como fazê-lo, pode enviar um e-mail para a conta conciergeclic@gmail.com que postamos para você.

Você tem até o dia 1º de março às 12h para participar, ok? mas, quanto antes, melhor, para que a história se desenvolva e permita acréscimos e outras considerações. Dessa vez não há título pré-definido. É só liberar a imaginação e digitar.

Os participantes concorrem ao sorteio de um livro, que será efetuado na reunião do CLIc, na sexta, dia 1º de março, na livraria da EdUFF.

Participe e boa sorte!

16 de fevereiro de 2013

Num jornaleiro, um livreto do Fitzgerald


(por: W. B.)

Eu estava andando pelo centro da cidade do Rio de Janeiro, quando, numa banca de jornal, dei de cara com um livrinho do escritor estadunidense Francis Scott Fitzgerald (1896-1940). Desse autor de ascendência irlandesa, nascido na cidade St. Paul (estado Minnesota), eu já tinha lido os romances Suave é a Noite – uma obra-prima pouco reconhecida na época – e O Grande Gatsby, o qual foi adaptado para o cinema (um bom filme, a que já assisti várias vezes, pois reprisava toda hora na extinta tevê Manchete, quando eu tinha hábito de ver televisão).


Aliás, desde que vi O Curioso Caso de Benjamim Button, longametragem baseado num conto de Fitzgerald, tenho curiosidade de conhecer as histórias curtas do cara. Mesmo assim hesitei em comprar o livro exposto numa banquinha num jornaleiro ali na Av. Presidente Antônio Carlos na altura do Edifício Garagem Menezes Cortes. É que, às vezes, a gente se deixa levar por vontades cotidianas e acaba comprando muito mais do que é capaz de usufruir; mesmo em relação a livros, isso também é consumismo: um vício terrível a nos subtrair grana, dando-nos em troca produtos que acabamos não usando. Se bobear, começo a comprar mais do que posso ler – e já tenho uma pá de obras que ainda não consegui desentocar da estante.

Afinal resolvi adquirir o volumezinho lançado pela editora L&PM – o número 528 da coleção Pocket – e comecei a leitura imediatamente (pra justificar a compra perante minha consciência). Trata-se dum exemplar de bolso com 134 páginas reunindo três historietas, a saber: O Diamante do Tamanho do Ritz, Bernice corta o Cabelo e O Palácio de Gelo.

O Diamante do Tamanho do Ritz conta uma aventura incrível vivida pelo personagem John T. Unger, quando este vai passar férias na fazenda dum colega endinheirado, o "quieto e bonito" Percy Washington. Lá John fica sabendo que o amigo de turma usufrui duma riqueza muitas vezes superior a dos homens  tidos como mais ricos do planeta. A fortuna secreta dos Washington (que, se descoberta, desestabilizaria a economia mundial) incluía um diamante maior que o Hotel Ritz-Carlton.

Em Bernice corta o Cabelo, uma moça do interior passa uma temporada na cidade, hospedada na casa duma prima fútil e inescrupulosa, mas extremamente popular e cheia de truques para obter admiração dos garotos. A interiorana Bernice faz de tudo para se aproximar da prima, e aprender com ela suas artimanhas e seduções. Intrigas, vaidades e conflitos surgem, mostrando para nós, leitores, o quanto a juventude pode ter aspectos perversos.

A terceira narrativa encerra o livreto belamente. É um texto escrito em 1920, chamado O Palácio de Gelo. Nele acompanhamos a personagem Sally Carrol Harper, uma jovem de 19 anos, em sua vontade de ampliar horizontes, abandonando sua cidadezinha, indo para o Norte. Mas ideias, hábitos e valores a prendem ao Sul. Assim Sally debate-se entre o noivado com um nortista e a fidelidade a sua alma sulista. Se a vida provinciana lhe parece uma prisão, a jovem põe-se a pensar até que ponto os valores "ianques" da família do noivo também não poderiam vir a ser um cárcere gélido e impessoal.

É, valeu a pena ter comprado o livro O Diamante do Tamanho do Ritz e Outros Contos. E parece que, além desse, há muitos lançamentos interessantes nessa coleção de livros de bolso da editora L&PM. Se eu fosse você, daria uma olhada.

(FRANCIS SCOTT FITZGERALD AINDA NÃO FOI DEBATIDO NO CLUBE DE LEITURA ICARAÍ)

14 de fevereiro de 2013

[Opinião de uma leitora]


As muitas formas de ler


Quando comecei minha paixão pela leitura, lá na época do Ensino Fundamental II (falar ginásio agora é dar bandeira), fui muitas vezes ler as últimas páginas dos livros. Alguém aí notou que eu era ansiosa? Pois é, mas isso não me tirava o encanto da obra não. Depois tive minha fase Agatha Christie e aí, como eu tentava inutilmente adivinhar quem era o assassino, parei de ler os finais.

Fiquei sócia do falecido “Clube do Livro” e lia os livros direitinho, digo, comportada, como manda o figurino, boa menina. Não marcava nada nem escrevia nas páginas. Preservava a boa aparência das edições. Às vezes nem lia, como aconteceu com Lolita, de Nabokov, que eu li apenas no ano passado.

Depois que entrei para o CLIc, a coisa mudou radicalmente. Era a primeira vez que discutia uma obra lida, então passei a sublinhar trechos, fazer chaves, duas retas, uma reta, estrela, algum tipo de marcação. Fica mais fácil pra mim na hora de comentar o que mais me chamou a atenção e também para fazer o meu resuminho e dar minha nota ao dito cujo, coisa que passei a curtir – mais tarde, quando eu quiser reler, vou começar pelos nota dez. 

Na sequência, passei ainda a desenhar carinhas e até a escrever coisas tipo Absurdo! Não concordo. Esse cara é louco! Genial! E fiquei também necessitada de trocar impressões com outros leitores. Isso me enriquece muito. Quando li A elegância do ouriço, de Muriel Barbery, o grupo já tinha lido, então contei com a boa vontade de alguns amigos para discutir uns trechos e me sentir contemplada. 

Pode parecer besteira, mas eu entendo isso tudo como uma liberdade e uma permissividade maior que conquistei a partir das leituras e nem um traço de obrigatoriedade passa por aí. Tanto que acontece às vezes. Se eu ler um livro do Mia Couto, por exemplo, acho que será impossível não marcar mil coisas, porque esse autor fala direto com meu coração, então minhas anotações são o carinho de quem soube receber o afeto que perpassa palavras gravadas sobre papel.

Mas isso não acontece sempre. Recentemente li o adorável A ilha sob o mar, de Isabel Allende, e meu exemplar está lá, limpinho da silva. Adorei, mas não senti necessidade de anotações. A mesma coisa aconteceu com Infâmia, de Ana Maria Machado, não marquei neca de pitibiriba, apesar de haver muitas questões dignas de longas dissertações.

São tantas as formas de ler. Quando terminei As brasas, de Sandor Marai, eu não soltava o livro, comecei a folhear, procurar o que eu tinha marcado, reler. Ficava segurando como quem diz: Acabou? Não, não, por favor, não!


Já a leitura de A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe, eu fiz economizando, queria que rendesse muito. Demorei o máximo que pude. Saboreei e salguei meu livro (sim, as lágrimas corriam em muitos capítulos).

Olhando para trás, da Gracinda Rosa, eu li em um dia e meio, acho. Fiquei curiosa, a leitura fluiu tão bem, gostosa, li muito rápido.

Ulisses, de Joyce, eu comecei, relutei, suspirei e tentei pular uma parte, pra ver se a coisa pegava, pulei outra e mais outra e nada, então entreguei os pontos. Não estou pronta para ele, ainda.

Outros livros, como Flor da neve e o leque secreto, da Lisa See, eu leio revoltada. Quase tenho vontade de agredir as páginas, balanço a cabeça, fecho o livro, falo com meus botões, mas prossigo porque de toda forma é instigante e acredito que tem que haver um pouco de dignidade no final (ah, tolinha).

Crime e Castigo, do Dostoievsky, eu li emprestado, então não me sentia no direito de marcar o livro, mas queria. Aí li com uma folha A4 do lado e saía anotando o que eu queria. Deu bem mais trabalho, mas foi uma experiência interessante.

Alguns livros eu paro de ler de repente, para escrever um texto ou um poema, alguma coisa que a leitura me inspirou. Foi assim, por exemplo, com Vermelho Amargo, do Bartolomeu Campos de Queirós. Outros, eu só escrevo quando termino e outros não vêm nada na cabeça que valha à pena, como Os enamoramentos, de Javier Marías. Ô livrinho chato.


 As mulheres do meu pai, do Agualusa, terminei e precisei reler várias partes, fiz cronograma, dados dos personagens, tracei mapa e o diabo para melhor entender. Parecia que eu estava brincando de quebra-cabeça, muito legal.

Desde agosto de 2012 eu leio O Caminho de Swan, de Marcel Proust, e não posso dizer quando terminarei. Estou na página quatrocentos e varada, relativamente falta pouco, menos de 100 páginas, mas não consigo ler mais de 2, 3 páginas por vez. Me arrasto, o livro me cansa, apesar de ser bom.

Vejo no grupo do CLIc pessoas que colam aparas coloridas nas páginas ou compram na papelaria uns marcadores transparentes bacanas, fica show de bola.

Para mim, cada livro pede a sua própria leitura. Antes eu achava que isso era característica do leitor, hoje penso que levamos nossa marca, mas nos marcamos muito mais pelo livro em si. Estou toda tatuada. Adoro. Viciei. Quero sempre uma marca nova.


By Rita Magnago

P.S: As opiniões emitidas são pessoais e não refletem a opinião do clube de leitura.


13 de fevereiro de 2013

As Fúrias: Niza


Adolphe-William Bouguereau

De repente ela sente frio. Que horas seriam? Trabalhou durante todo o dia tentando finalizar a obra. Há meses a encomenda fora feita, mas a decisão de como fazê-la aconteceu somente no mês anterior, pela manhã, ao acordar. Estava espreguiçando na cama, meio adormecida, quando lhe veio a idéia de esculpir Orestes, um personagem da mitologia grega. Gostava particularmente do momento em que ele foge das Fúrias, figuras emblemáticas e fascinantes que muito a inspiravam. Podia até visualizá-las: a tocha numa das mãos, na outra o punhal e ainda o chicote. Com certeza elas iriam agregar beleza ao trabalho.


Ela seguia tentando domar as Fúrias dentro de si. Quem sabe seu desejo não era transformá-las também em Eumênides: benevolentes, justas, graciosas, veneráveis? Enquanto reflete vai esculpindo o mármore. Precisa se concentrar, afinal aceitara o convite para participar de uma exposição que iria acontecer na cidade e estava vencendo o tempo.

O turbilhão dos últimos meses atrasara a entrega, então se pôs a trabalhar muito para desbastar o mármore. Para vê-lo se transformar sob seus dedos. Para fazer surgir a forma que tanto desejava. Esculpir em pedra requer esforço, pois o material é duro e, com freqüência, pesado. Os erros são também irreparáveis. Normalmente se faz um esboço em argila para depois passar para o material definitivo. Ela dispensou essa fase! Ficou dias e dias olhando o mármore até vislumbrar a sua criação. Depois começou a desgastá-lo até extrair o material supérfluo. Após despir Orestes dos excessos da pedra, seu corpo foi surgindo inesperado. Sorri quando o vislumbra cheio de medo das Fúrias. Um homem que se encontra num momento crucial de seu destino. Como ela.

Era um trabalho intimista. Quase uma vertente clássica de início de carreira. Mas cansou de buscar uma explicação para a sua arte, se está ou não seguindo os passos do mercado. Hoje apenas deseja não mentir para si mesma. Tais pensamentos lhe provocam arrepios.

Trabalha noite e dia, em abundância, sem economia e parcimônia. Para além do drama e o sopro épico, o que mais a atraia era a possibilidade de encontrar a cada desbastar da pedra, o balanceamento na composição de suas idéias. Por isso esforça-se para libertar Orestes de uma postura ortodoxa, rígida, estática, buscando naturalidade e equilíbrio aos seus movimentos. Ele vai surgindo dinâmico e pleno. Aos poucos a sintaxe da escultura vai se engastando em uma gramática própria até ganhar ares estéticos.

Não tinha dúvidas de que a crítica seria enfática, por achá-la audaciosa e desafiadora mais uma vez. Mas não se sentia assim. Queria recuperar algo que se perdera pelo caminho. Algo de sua ousadia e vitalidade que o mercado foi achatando. Você não é nada a menos que venda e seja conhecida, disseram os amigos, inúmeras vezes. E tanto disseram, e tanto as dívidas se acumularam, que acabou de desafiadora à patética, sendo consumida aos poucos. Sua arte foi sendo engolida peça por peça, tornando-se um produto, a seu ver, pequeno. E quanto mais buscava falsos álibis para se justificar, mais experimentava a sensação de que sua carreira se desenrolava numa cronologia linear, tão trágica quanto à de Orestes.

Desafiadora? Audaciosa? Hoje não mais. Embora sua obra tenha grande destaque e polemizassem muito as suas criações, ela torcia o nariz. Pálida demais em suas roupas escuras, ela se esforçava para se misturar à multidão, mas só conseguia olhá-la de longe. Aprendera a apreciar as sonatas a sós enquanto modela.

Tenta sair de seus devaneios. Estava numa fase muito perigosa do trabalho, usando ferramentas cortantes onde qualquer deslize poderia estragá-lo. Precisa entregar a escultura. São horas de dedicação nas profundezas daquele esboço. Suas mãos esmagam as coisas. Suas mãos estalam de violência reprimida.

Como vencer o tempo? Como manter o corpo inteiro, sem cansaço? Está tensa aos 60 anos. Os olhos dilatados até a loucura. Tem a impressão de que uma força multiplicada a desafia ao impossível e a mantém de olhos bem abertos. Está esculpindo Orestes para se desafiar, sabe disso. Deseja experimentar novas possibilidades para compreender a associação misteriosa entre arte e vida. Será que consegue? Aos 60 anos?

O ateliê já está escuro. Na penumbra não se vê seu rosto. Ela se apóia na lareira. Acende o fogo e as luzes. Ela se recusa a parar, apesar de sentir fome. Ainda há um pouco de claridade lá fora, mas a vida lá fora não estava muito interessante. Preferia dar vida a Orestes. Vai esculpindo o nariz, os lábios, tenta reproduzir sensualidade ao rosto. Seu coração bate forte. É a guerra. Segura as ferramentas como uma cirurgiã segura um bisturi. Não pode parar. Não ainda. Seus braços se enrijecem, mas não larga os instrumentos. A noite avança. As veias em seus braços pulsam com força. Agoniza sobre aquela pedra.

É inverno. O frio deixa-lhe tão pouco espaço. Anseia pelo verão para trabalhar de janelas abertas. Mas se mantém com mais obstinação do que nunca. O ritmo lento, tão necessário ao artesão, era impossível na escala produtiva exigida pelo aparato cultural. Por isso desligava o telefone para criar. Não atendia a porta. Evitava sair às ruas. Tentava isolar-se. Quantas vezes não suspirou desejando o exílio, tal qual o de Rimbaud? Mas o exílio não é possível na era da internet. Tudo é exposto. Tudo é sabido. O anonimato acabou.

 Vai construindo a história e o destino de Orestes. Estava atenta à beleza e intensidade das Fúrias, mas era dele que se ocupava. Não o perdia de vista. Ele tornava-se um diário de palavras duras. Um diário de pedra.

Embora recebesse menção honrosa pelas exposições, lembra-se do pacto de Fausto com o diabo. Naquele momento ela deseja a juventude. Deseja sua arte. Tenta consolar a artista que lhe agita o peito. Se uns a atacam aqui, outros a defendem ali, então é preciso manter os lobos uivando dentro dela para ir até o fim.

Trabalha incessantemente aquele perfil. Quem será esse homem que surge amalgamado pelos seus dedos? Ela se inclina mais e vê sua boca jovem, seus olhos ardentes. Fica pensativa: se lhe soprar as narinas, a vida surgirá? Ri à idéia da criação, pois tal como Deus, ela modela o homem. O delírio a domina. Suas mãos continuam a obra.

Que noite fria! O fogo ainda está vivo na lareira, mas ela está tremendo. Põe a mão na testa. Está queimando. Não, não pode adormecer sem terminar o movimento que já contorna aquele corpo. E então os golpes no mármore ressoam mais e mais vezes.

Sente-se em descompasso com o seu próprio tempo. Mas o trabalho a salva! O trabalho a faz andar pelas ruas, ruas que lhe oferecem inspirações e por onde vagam suas futuras criações. As pessoas encerradas em seu cotidiano ofereciam cenas preciosas ao seu olhar. Ela, fascinada pelas imagens instantâneas que vinham ao seu encontro, captava o extraordinário fascínio dos gestos humanos. Orestes era uma mistura daqueles homens todos que via pelas ruas.

Lá estava ele, refletido nos espelhos, um ser que vai nascendo cheio de seiva nova. O corpo dele é o seu palco. Ela se inclina e beija-lhe a boca. Era um bicho assustado, tão belo que até parece que vai morrer. Sussurra nomes para ele: Kafka, Rodin, Wagner, Monet, na esperança de invocar-lhe uma inspiração diária. Infinita. A despeito do tempo e da morte. Mas ele não pode ouvir. Queria dar-lhe uma existência longe do abismo. Tirá-lo das trevas. Mas todos os esforços são tardios, todas as tentativas são embustes. As fúrias o atormentam. Está finalizando a obra.

O trabalho de acabamento exige movimentos precisos e exaustivos. Depois de lixar a escultura, acrescenta uma pátina transparente para obter maior grau de suavidade. O efeito não poderia ser melhor. Orestes, por todos os ângulos, está pronto em sua existência dolorosa. Ousa mais uma vez! Vai aos ouvidos dele e sussurra: Medéia, Emma Bovary, Diadorim, Macabéa. Ele permanece quieto como um cervo, mas as cortinas esvoaçantes quase se queimam nas chamas que o vento atiça em labaredas. De onde esse vento se as janelas e portas estão fechadas? Ela permanece de pé ao lado de Orestes. Extenuada.

Vai nascendo o dia. Pouco a pouco. Sem pressa. Ela sente uma inefável e incompreensível sensação de prazer diante da obra pronta. Viva. Mais uma vez ela transpôs seus limites. Sua alma está leve. Fica ali, tremendo, o olhar fixo nos olhos dele, imaginando: que diabos ela irá criar agora? E até quando?

Antes de apagar as luzes, vê, num rápido vislumbre, as fúrias brilhando nos olhos de Orestes.

Carnaval - Ano da Serpente




Nosso Clube, nosso grupo,

igual? Ainda nunca vi

muito aplauso... algum apupo...

e vamos nós por aí!

(I)


* * *


Carnaval! O povo, 

da alegria veste a máscara,

e esquece a miséria.


(Elenir)



* * *


Eita dupla boa, Ilnea e Elenir

criam versos, nos fazem sorrir

vão rimando a alegria aqui e aí

embelezando o Carnaval de Icaraí


(Rita)



Clube do Conto - O Gato de Minha Mãe: Ilnéa País de Miranda



O gato da minha mãe não foi só um, foram muitos. Mas contando nem parece que foram tantos. O gato era Chaminho. E era sempre Chaminho não importava cor ou procedência. Sempre de raça “puríssima”  Chaminho  era contado, e cantado, e decantado. 

A criatura nem sequer tinha um número atrelado ao nome como os Reis das histórias que eu lia e ouvia dos meus contadores. - aquele número que para criança é letra e para adulto é “romano”: Dom Felipe II, Dom Carlos I... Acho que faltava linhagem ao gato da minha mãe. Chaminho, assim, ao invés de nome, era sinônimo.  

Sumido, por conta de qualquer acidente, ou por conta da vontade de ter um nome próprio, era substituído incontinente por outro... Chaminho.

Em razão da variedade, o gato da minha mãe, se contadas todas as suas peripécias, havia que ser considerado talvez o mais inteligente e interessante representante de sua espécie. Foi, por sim, o primeiro gato de que tive notícia, que fazia xixi no ralo do banheiro. E só xixi, porque, gato educado, jamais deixaria fétidas lembranças no banheiro de minha mãe. Estas ele deixava - sei lá onde! - por certo em terras de quintais outros, bem cobertas, pois que, "gato de D. Belinha", não seria capaz de emporcalhar caminhos de ninguém.

Houve pelo menos um Chaminho em cada casa em que moramos. Mas acho que tivemos mais chaminhos do que casas. Não me lembro de nenhum na casa onde eu nasci, a # 4 do quintal de meu Vô Chico. Também lá eu só nasci, enquanto minha xará estava sendo construída. Enquanto eu crescia um pouquinho, Vô Chico construiu uma casinha verde e batizou com o meu nome. E para lá me fui no colo da mãe, escudada pelo pai, e - quem sabe? - pelo resto da família. Só não sei se pelo gato, pois que nem sei se já havia algum. 

Mas penso que não demorou muito. Logo, logo, havia lá estava ele, malhado, mais preto do que branco, ligeiramente "afanador" se bem me lembro, e que um dia, nefasto e nefando, "assassinou" meu verde periquito. Ah, Chaminho!... instrumento da primeira grande dor de minha memória...

Não me lembro de gatos em Itatiquara... nem em nossa casa, nem em casa de ninguém. Chaminho, certamente, nenhum. Talvez Chaminho fosse gato citadino... e Itatiquara era só um ponto perdido no mato. Itatiquara... "Buraco de Tatu", segundo um amigo arquiteto, versado em língua de índio. Ou talvez fosse só porque naquela época nossa casa eram duas: a interiorana e aquela minha xará lá de Neves. E na xará morava o Chaminho do periquito.

Cresci, mudei de casa. Não fui para muito longe, só alguns quarteirões distante. Aquele Chaminho não foi, que gatos naquele tempo gostavam mais de lugares que de gente. Ficou-se lá, miando para o próximo morador. Casa outra, outro Chaminho. Esse, era aquele do xixi.

Bem que eu tentei ter um gato com personalidade própria. E entre um Chaminho e outro, arrumei um todo cinza-claro em cima, e barriguinha branca. E como era charmoso, macio, lustroso -  e eu estava muito entusiasmada com minhas aulas de inglês - chamei-o Sliky. Um desastre! Só eu conseguia (ou pensava que conseguia) pronunciar o nome do bicho direito. À minha volta o máximo que o povo conseguia era dizer "islique" ou "silique" o que me deixava entre furiosa e penalizada com a "anglo-ignorância" dos circunstantes.

Pobre Sliky!... durou muito pouco o pobrezinho. Aquela não era mesmo uma casa para gatos cinzentos, sedosos, de nome impronunciável. Era uma casa para chaminhos malhados de preto e branco. E o pobre escorregou de barriga no piso da cozinha onde sei lá por-que-obra-do-capeta, alguém tinha espalhado ácido muriático! Queimou todo seu branco!...E lá se foi juntar-se a anjinhos do céu dos gatos.

Nem tentei outra vez. Noutra casa, noutra cidade, lá estava outro...Chaminho! Tão malhado, mais preto que branco como todos os seus antecessores. Ou...alguém "miou-me" uma possibilidade aqui bem ao pé do ouvido: quem sabe não seria uma outra encarnação do mesmo gato? Afinal não conta a lenda que eles têm sete vidas?

Seja como for, este também fazia xixi no ralo do box do banheiro. E fazia mais! Tomava água na torneira, e - esta minha mãe jurava de pés juntos ser verdade: uma vez machucou a patinha e foi correndo mergulhá-la em água fria!

Minha mãe já se foi faz tempo. E imagino que esteja em algum lugar onde gatos sejam permitidos, com seu Chaminho em sete versões... ou talvez só cinco, pois hoje tenho duas gatas: Íris, a siamesa de olhos azuis, faz xixi no ralo do box e Cleo (apelido de Cleópatra, mesmo) a negra de olhos verde-amarelos... só bebe água corrente na torneira. 

(Ilnéa é escritora e participante do nosso clube de leitura Icaraí desde Outubro de 2008. Seu livro "Eu Menina Toda Prosa... e alguma Poesia" será tema do debate no clube em Setembro de 2012.)


5 de fevereiro de 2013

O libertário Lima Barreto

(por: W.B.)
Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 1881. Seu pai, o tipógrafo João Henriques, era mestiço, filho de escrava e de um português que nunca lhe reconhecera a paternidade. Amália Augusta Barreto, professora, mãe de Lima, era filha de uma negra da segunda geração de escravos da família Pereira de Carvalho.

João Henriques tinha o sonho de ver o filho com prosperidade e reconhecimento social. Afonso teria nascido, porém, sob um signo ruim. Veio ao mundo numa sexta-feira 13 de maio, dia de Nossa Senhora dos Mártires. Mas o martírio de Lima parece advir mais da época e local de seu nascimento (a retrógrada sociedade brasileira de fins do século 19) que da data supostamente agourenta em que por acaso se deu.

No dia em que completara sete anos de idade, Lima foi levado pelo pai para um passeio pelo Rio de Janeiro. A cidade estava em festa: era a abolição da escravatura. O menino Afonso não tinha muita noção, até aquele momento, do que vinha a ser escravidão. De fato nunca havia visto escravos, já que eles não eram frequentes na cidade do Rio por aquela época, sendo considerados símbolos de provincianismo e atraso, inadequados a um grande centro.

Em meio aos festejos, ecoava pelas ruas uma palavra que viria a se tornar quase sagrada para Lima Barreto: liberdade. Para o menino, parecia que, a partir daquele momento, tudo era permitido, não havia mais barreiras, empecilhos à felicidade. Mas Afonso, órfão de mãe desde o ano anterior, ainda passaria muitos dissabores na vida.

No ano seguinte, 1889, dava-se a proclamação da República. Aos olhos de Lima, este acontecimento não trazia nenhuma alegria como a presente nas ruas do Rio no ano anterior. Pelo contrário: o que se via era a população assustada sem entender direito o que estava acontecendo. Militares tomavam o governo e alardeavam grandes melhorias sociais. Mas estas não surgiram. O poder apenas mudara de mãos.

Os que de alguma forma estavam envolvidos com o regime anterior eram perseguidos, enquanto os bajuladores dos novos donos do poder galgavam altas posições sem esforço ou mérito. João Henriques ficara em uma situação delicada. Era funcionário da Imprensa Nacional e compadre do Visconde de Ouro Preto. Logo os antigos laços com a monarquia, e o estigma decorrente deles, tornariam insuportável para João sua permanência no cargo. Pediu demissão antes que ela lhe fosse imposta.

Em março de 1890, João Henriques conseguiu emprego como escriturário das Colônias de Alienados da Ilha do Governador. Seu coração guardava grandes esperanças de o filho se tornar doutor e não passar pelas humilhações e decepções de que ele próprio fora vítima. Com muito esforço, e auxílio de alguns conhecidos ilustres, garantiu ao menino um bom estudo no afamado Liceu Popular Niteroiense e no Colégio Paula Freitas.

Em 1897, Afonso Henriques de Lima Barreto ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Logo de início, deparou-se com o racismo; um veterano diria sobre o recém-admitido: “Que audácia um mulato usar o nome do rei de Portugal!” No curso ainda enfrentaria perseguição de professores e antipatia de boa parte do alunado em virtude de sua cor e também de sua independência de pensamento.

Cedo demonstrou preocupações políticas, tendo inclusive ingressado na chamada Federação de Estudantes. Acabara, no entanto, por abandoná-la em virtude de esta ter se posicionado em favor do regime militar obrigatório.

Por indicação do colega Bastos Tigres, Lima Barreto começou a escrever no jornal estudantil A Lanterna, o qual se definia como “órgão oficioso da mocidade de nossas escolas superiores”. Futuramente viria a escrever para outro A Lanterna (autodefinido como “jornal anticlerical”), deixando clara sua filiação ao Anarquismo. Mas mesmo neste primeiro momento na imprensa estudantil, a pena de Lima dá mostras de sua vocação libertária, manifestada em críticas ferrenhas e ironias demolidoras. Era impressionante ver como aquele rapaz tímido se expressava desenvolta e corajosamente por escrito.

Em 1902 João Henriques enlouqueceu: dormiu são e acordou doente. Trágico. Inexplicável. Afonso se viu forçado a abandonar a Escola Politécnica. Prestou concurso para funcionário civil do Ministério da Guerra, foi aprovado. O ambiente do trabalho desgostava-o. Suas convicções antimilitaristas faziam-no detestar o Ministério. Foi lá, porém, que conheceu o anarquista Domingos Ribeiro Filho que viria a influenciá-lo teoricamente.

Iniciou, no Correio da Manhã, uma série de reportagens sob o título “Os Subterrâneos do Morro do Castelo”. O Morro do Castelo era para Lima um interesse frequente. A modificação da paisagem original do Rio de Janeiro sempre lhe parecera um crime. Vê-se que o escritor foi pioneiro nas preocupações em relação à Ecologia e ao patrimônio histórico. Nestas crônicas para O Correio da Manhã, Lima foi introduzindo elementos ficcionais, já que sua veia literária começava a falar mais alto que a vocação jornalística. Ainda assim sentia falta de uma maior liberdade de criação. Foi aí que, junto com outros intelectuais libertários – como Curvelo de Mendonça, Domingos Ribeiro Filho e Elísio de Carvalho –, Lima fundou a revista Floreal em 1907. Tratava-se de uma publicação com preocupações literárias, filosóficas e políticas que buscava dar voz aos escritores e pensadores autênticos que não se rebaixavam a tornar o texto um adorno social, uma bajulação aos poderosos ou um passatempo inofensivo e alienante. Na revista, Lima Barreto começou a publicar capítulos do romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha, porém ela acabou não passando do quarto número.

Como publicaria o romance? As editoras brasileiras não o aceitavam... Enviou os originais para Portugal e acabou conseguindo que o editor A. M. Teixeira o publicasse. O livro é agressivo, contundente. Era fácil, na época, identificar as pessoas nas quais Lima havia se baseado para criar seus personagens. As críticas eram direcionadas sobretudo ao Correio da Manhã. Em Recordações do Escrivão Isaías Caminha estava presente toda a redação daquele jornal e também muitas outras figuras conhecidas da sociedade de então. O livro, porém, não ficaria datado nem traria críticas demasiadamente particulares. A narração da trajetória de Isaías Caminha constitui um ataque à imprensa burguesa em geral, ao falso moralismo, ao Capitalismo e à sociedade hierárquica, permanecendo atual mesmo com o passar dos anos.

Lima estava feliz: conseguira publicar. A edição foi posta à venda em dezembro de 1909. Aguardou as críticas que certamente viriam. Se falassem bem, seria ótimo. Caso atacassem o livro, também não haveria problema, pois a polêmica em torno do romance faria com que as idéias presentes nele fossem debatidas. Lima não era homem de temer críticas: negro, anarquista e pobre, recebia-as o tempo todo. Mas ocorreu a única coisa da qual não tinha como se defender: o silêncio.

O boicote ao nome de Afonso Henriques de Lima Barreto se deu principalmente no Correio da Manhã, de Edmundo Bittencourt. Mas não se restringiu a este jornal. Toda a imprensa burguesa, subserviente a Bittencourt e antipática às idéias de Lima, se negou a comentar o romance.

Mesmo assim o escritor conseguiu que, a 11 de agosto de 1911, o Jornal do Comércio iniciasse a publicação, em folhetins, de Triste Fim de Policarpo Quaresma. Trata-se de um romance em que Lima troça do Nacionalismo, personificado na figura ridícula do patriota Policarpo Quaresma. A narrativa retrata militares e políticos como pessoas covardes e sem caráter, caricaturando até mesmo o Presidente Floriano Peixoto. Mas o ousado romance alcançou pequena repercussão naquele momento.

Em setembro de 1912, o escritor publicava Aventuras do Doutor Bogóloff, obra mais explicitamente humorística, mas também dotada de caráter crítico. Bogóloff é um anarquista russo que se envolve em várias aventuras pelo Brasil, sempre se admirando dos curiosos hábitos locais e de nossa sociedade de valores tão deturpados e esdrúxulos. Mais tarde, em 1918, Lima escreveria crônicas para o jornal libertário A Lanterna com o pseudônimo de Dr. Bogóloff.

Em 15 de março de 1915, o jornal A Noite inicia a publicação, em folhetins, de Numa e a Ninfa. Esta narrativa ataca mais diretamente os políticos, a corrupção e a moral sexual burguesa com suas falsidades. Chega a conter personagens que fazem vista grossa em relação a casos extraconjugais das esposas, visando a melhores posições no governo. O texto explicitamente retrata as classes dominantes como hipócritas e anti-éticas.

1916 seria um bom ano para Lima Barreto. Triste Fim de Policarpo Quaresma foi publicado em livro: uma bela edição de capa dura. Desta vez o romance chamou a atenção de críticos e chegou a ser elogiado. Neste formato suas qualidades literárias ficaram mais visíveis. Com o texto reunido num só volume, ficam mais explícitas a coerência interna e a coesão da narrativa. O livro divide-se em três partes com aproximadamente a mesma extensão, e que correspondem às tentativas de reforma empreendidas pelo personagem principal. Na primeira, Policarpo Quaresma tenta empreender uma reforma através da cultura, buscando as raízes da brasilidade no folclore e nos costumes das populações autóctones. Descobre que quase todas as danças, músicas e festas populares locais tinham origem estrangeira. Conclui que até mesmo o idioma falado no Brasil veio de fora e portanto deveria ser substituído. O trecho termina com Policarpo indo parar no hospício, em virtude de suas manias nacionalistas. Fica demonstrado que as culturas se interpenetram e que a própria idéia de uma cultura nacional é, em última análise, inconcebível.

Na segunda parte do romance, Policarpo tenta empreender uma regeneração da pátria através da agricultura, mas se depara com a politicagem e as injustiças características da organização social vigente. Vê que o Brasil não é a terra abençoada por Deus em que “em se plantando tudo dá”. Fica demonstrado que iniciativas baseadas no ufanismo e na crença da superioridade natural de qualquer região são incapazes de corrigir problemas locais, por estes terem raízes na estrutura social.

Ao fim do livro, o personagem principal – movido por seu estúpido Nacionalismo – alia-se ao Presidente Floriano Peixoto para combater a Revolta da Armada (1893). Aí é que se dará seu triste fim anunciado no título do livro, e que explicita toda a hediondez do patriotismo.

Aliás, Lima Barreto sempre demonstra em seus escritos uma aversão ao Nacionalismo. Em Recordações do Escrivão Isaías Caminha, quando o personagem é preso injustamente murmura cheio de ódio: “A pátria...”. E o próprio Policarpo Quaresma acabaria concluindo que a pátria é “um mito, (...) um fantasma, (...) uma ilusão, uma idéia (...) que nascera da amplificação da crendice dos povos grego-romanos de que os ancestrais mortos continuariam a viver como sombras e era preciso alimentá-las para que eles não perseguissem os descendentes”. Tal posicionamento é coerente com o Internacionalismo assumido pelos anarquistas, entre os quais Lima Barreto se inclui. Apesar dos riscos, o escritor chegava, em alguns momentos, a explicitar sua filiação ideológica. No livro de observações clínicas do Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil consta que, em sua primeira estada no hospício em agosto de 1914, declarara que “adota as doutrinas anarquistas e quando escreve deixa transparecer, debaixo de linguagem enérgica e virulenta, os seus ideais”.

Voltaria a ser internado em 1917. Neste mesmo ano, em carta a Rui Barbosa datada de 21 de agosto, veio a se declarar candidato à Academia Brasileira de Letras na vaga de Souza Bandeira. A candidatura, porém, não foi sequer considerada. No mês seguinte surgiu, em livro, Numa e A Ninfa, bem como a segunda edição de Recordações do Escrivão Isaías Caminha.

Barreto continuou ousado e desafiador. Apesar de sua delicada posição de funcionário público e arrimo de família, lançou, na revista ABC, o texto que viria a ser conhecido como Manifesto Maximalista. Trata-se uma defesa da insurreição popular, e de um elogio da então recente Revolução Russa, de que os anarquistas também tiveram participação, e a qual se acreditava pudesse conduzir à autogestão generalizada. Sempre coerente, Lima Barreto suspenderia a colaboração a ABC em 1919 pelo fato de ter sido publicado um artigo contra a raça negra, nessa revista.

Insistente, Lima voltou a se candidatar à Academia Brasileira de Letras em 1919, desta vez na cadeira de Emílio de Menezes. Como era de se esperar tendo em vista o caráter conservador que a ABL manifestava desde o início, ele perde. No ano seguinte, apresentou Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá como candidato ao prêmio da Academia Brasileira de Letras para melhor livro publicado no ano anterior. Alcançou apenas uma menção honrosa.

Candidatou-se ainda uma 3ª vez à ABL, talvez como pura provocação. Tanto sabia da impossibilidade de a conservadora academia conceder-lhe a vaga de João do Rio que, pouco tempo depois, retirou a candidatura.

Na tarde de 1º de novembro de 1922, dia de Todos os Santos, o escritor Afonso Henriques de Lima Barreto morria de gripe toráxica e colapso cardíaco. Para o velório, à noite, começaram a chegar, tristes, os conhecidos do escritor: gente simples do subúrbio, amigos humildes de botequins, compadres e afilhados. Surgiu no meio deles um homem desconhecido de todos com um pequeno ramalhete de perpétuas. Depois de espalhá-las respeitosamente no caixão, descobriu-lhe o rosto e – de lágrimas nos olhos – beijou-lhe a testa. Quando perguntaram ao homem sua identidade, respondeu ser apenas mais um que leu e amou Lima Barreto, este grande amigo dos desvalidos.

Que Lima Barreto seja sempre valorizado pelo povo que tanto amou. Que sua escrita seja vista como o que de fato é: uma obra de arte corajosa e empenhada em gerar entendimento entre os seres humanos, contribuindo para dar voz àqueles excluídos que a sociedade autoritária acha indigno retratar.

("RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA" É UMA DAS SUGESTÕES DE OBRA A SER DEBATIDA NO CLUBE DE LEITURA DE ICARAÍ)

1 de fevereiro de 2013

As Mulheres do meu Pai: José Eduardo Agualusa



Bêbada de abismo azul,

Luanda, uma imensa arara,
sob o Cruzeiro do Sul
bailava na noite clara.


(I)

* * * 

Caros amigos, coautores, ou não, do nosso Conto de Carnaval, 
Vocês concordam que, se Luanda fosse mulher, conforme descrita por Agualusa, na página 45, não poderia ser a nossa "mulata", apenas, não cansada e um pouco menos nua, mas quase?
Aliás, a descrição de sua Terra, Luanda, e de sua gente, é extraordinária!!! Viajei, sem precisar sair de casa. Senti-me em Luanda. Este é o poder da boa leitura.

(Elenir)


Luanda


AGUALUSA


Descubro que a África vive em mim
afogada, apertada, quase sucumbida
e no entanto forte e reveladora
sua presença é.

África de tantos amores
África de muitos horrores
de passado presente
que não se verga à aculturação.

África, faz passear meus navios
negreiros
viaja pelo meu coração amulatado
brasileiro
semeia a magia da noite estrelada
faz nascer a beleza na madrugada
crescendo entre vales encantados de além-mar

Meu sentimento é contigo
selvagem e indômito
pueril e devasso
atônito e tonto de tamanha revelação
só assim tu te mostras verdadeira
e sorrio, és a própria constelação.


Rita Magnago
Última atualização do blog: 09/01/2013

Confira em






Pequenas Dores... pequenas Rezas... e pequeninas Ervas


Penso que posso sonhar meus encantos

Enquanto o canto for só encantado
Enquanto sejam doces acalantos
Enquanto o verso não for verso errado.

Separo o verso, escrevo... e engraçado...
Não me recuso ao tempo dos quebrantos,
das rezarias negras, de um passado
Da rezadeira e seus rezares tantos.

Eu pequenina e ainda sem cuidado,
Rezava junto para almas e santos,
Que me cuidavam a minha revelia.

A rezadeira, há muitos anos tantos,
Foi-se daqui, do reino do "danado"
Para o lugar p'ra onde irei um dia.

                            (Ilnéa, em 05/01/2013)




"Eu sou mulher, exijo um comandante com voz de comandante"







Onde o barulho transforma-se em silenciosas faixas coloridas...
... e adormece, assim...bonito...
Luanda, no fim da tarde,
mergulhando, no infinito,
o Sol...sem fazer alarde.


(I, 11/01/2013)


* * *

Devia olhar o rei 

(Ana Paula Tavares)


Devia olhar o rei
Mas foi o escravo que chegou
Para me semear o corpo de erva rasteira

Devia sentar-me na cadeira ao lado do rei
Mas foi no chão que deixei a marca do meu corpo

Penteei-me para o rei
Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo

O escravo era novo
Tinha um corpo perfeito
As mãos feitas para a taça dos meus seios

Devia olhar o rei
Mas baixei a cabeça
Doce terna
Diante do escravo.


* * *

O Primeiro beijo de Dona Anacleta e Faustino Manso


Nono Mandamento - Caubi Peixoto (1956)

Senhor, aqui estou eu de joelhos
trazendo os olhos vermelhos
de chorar porque pequei.

Senhor, por um erro de momento,
não cumpri um mandamento,
o nono da Vossa Lei.

Senhor, eu gostava tanto dela,
mas não sabia que ela,
a um outro pertencia.

Perdão, por esse amor que foi cego;
por esta cruz que carrego,
dia e noite, noite e dia.

Senhor, dai-me a vossa penitência;
quase sempre a inconsciência
traz o remorso depois.

Mandai para este caso comum,
conformação para um,
felicidade pra dois.


Fotografar é devassar (p.64)

“-Tu acreditas na fidelidade, mano?

-Eu? Eu não! Não acredito que um homem possa gostar de uma única mulher a vida inteira.

-Ouviste, tia? Esta é a perspectiva de um verdadeiro africano. Quanto a mim, acho que um homem que gosta de uma única mulher é porque não gosta de nenhuma. Não há homens fiéis, o que há é homens que não conseguem ser infiéis." (p.88)