CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

28 de novembro de 2009

Lavoura Arcaica



“Resta-me apenas contar-vos a história do meu sexto irmão, chamado Chacabac, dos lábios fendidos. A princípio, valorizou bastante as cem dracmas recebidas na partilha, como seus outros irmãos,… mas um revés da sorte o reduziu à mendicância. Um dia, passando na frente de uma magnífica residência,… Meu irmão, a quem generosidade e liberalidade dos barmecidas não eram desconhecidas, dirigiu-se aos porteiros,… e pediu-lhes que lhe dessem uma esmola. Entra, disseram-lhe, e dirige-te pessoalmente ao dono da casa, que ficará contente… Avançando, entrou numa sala ricamente mobiliada e ornada com pinturas de folhas de ouro azuis e onde distinguiu um homem venerável, com longa barba branca, sentado num sofá o que o levou a crer que se tratava do dono da casa… Senhor, respondeu meu irmão, juro-vos que nada comi hojeAi! Pobre homem, morrendo de fome! Ó rapaz,… traze imediatamente uma bacia com água, para que lavemos as mãos. Embora ninguém aparecesse, e o meu irmão não visse bacia nem água, o barmecida esfregou as mãos, como se alguém tivesse derramado água por cima delas;… e como sabia compreender brincadeiras, e não ignorava a complacência que os pobres devem aos ricos, se querem lucrar alguma coisa, aproximou-se e imitou-o… Que achais deste pão?, perguntou o barmecida; não o achais delicioso? Ah, senhor, respondeu meu irmão, que não via nem pão nem carne, jamais outro tão branco e delicado

Sherazade quis continuar, mas o dia a obrigou a deter-se neste ponto. Na noite seguinte, assim prosseguiu:

… Efetivamente, o barmecida pediu vários outros pratos de diferentes tipos, dos quais meu irmão, sempre morrendo de fome, fingiu comer… Quero que vos farteis! ...vos peço que me dispenseis de beber vinho; contentar-me-ei com água. Não, não, disse o barmecida, bebereis vinho… Mas o vinho não era mais real que a carne e as frutas… Quero saber se achais bom este vinho… Meu irmão fingiu pegar a taça, observá-la de perto… Senhor, disse ele, acho este vinho excelente, mas não é muito forte, ao que me parece. Se desejais outro mais forte, respondeu o barmecida, basta-vos dizê-loVede se este vos agrada … Àquelas palavras, fingiu servir outro vinho a si mesmo, e depois ao meu irmão. Fez aquilo tantas vezes, que Chacabac, fingindo ter-lhe o vinho subido à cabeça, portou-se como um embriagado, levantou a mão e bateu-a na cabeça do barmecida… o barmedida, porém, erguendo a mão para evitar os golpes, gritou-lhe: Estas louco?Senhor, tiveste a bondade de receber em vossa casa um escravo e de oferecer-lhe um grande festim; devíeis ter-vos contentado em ter-me feito comer; não convinha oferecer-me vinho, pois que eu bem vos tinha dito que, possivelmente, vos faltaria ao devido respeito. …o barmecida … desatou a rir, e disse-lhe: Há muito tempo, que procuro um homem com o vosso caráter … Não somente vos perdôo pelo golpe que me deste, como também quero que, de hoje em diante, sejamos amigos, … Tivestes a complacência de vos submeter ao meu humor e a paciência de agüentar minha brincadeira até o fim; mas agora vamos comer realmente … Finalmente, Chacabac teve todas as razões para alegra-se com as gentilezas do barmecida …” (História do Sexto Irmão do Barbeiro: Chacabac dos Lábios Fendidos - As Mil e Uma Noites – Malba Tahan).

E assim como Sherazade falava ao sultão da Índia sobre a História de Chacabac, Iohánna não se cansava de contar a seus sete filhos (Pedro, Zuleika, Huda, Rosa, André, Ana e Lula) sobre a parábola do faminto. Os ensinamentos do pai à beira da mesa pregavam obediência ao tempo, precauções diante do mundo das paixões, comedimento, fé na ordem, elogio ao trabalho e, principalmente, louvor ao exercício da paciência.

Mas sendo a própria imagem da rebelião, da revolta contra travões reguladores na família, o filho André, quis fugir da opressão do pai e dos excessos de ternura materna que o teria incitado a paixões desmedidas. Adolescente como era, voltou-se para sua própria existência, sem fórmulas ou preconceitos, buscando tornar-se um individuo aberto às agruras do Tempo e seus desdobramentos. Seu horizonte tornou-se seu próprio corpo em relação ao mundo repressor. E assim, a ação desenvolveu-se não em representações de espaço e tempo exteriores, mas dentro do próprio André, o qual se tornou um espetáculo íntimo para si e para os que leram sua história.

Um homem, porém, não precisa percorrer quilômetros e espaços infindáveis, se caminha de si para si, pois “estamos sempre indo para casa”. E por não ser possível fugir eternamente, seguindo esta ordem, a trajetória de partida do adolescente foi também a de retorno ao seio de sua família. E nesse confronto, quis o destino, com todos os seus caprichos e vaidades, mostrar que pilares arcaicos estremecem. O pai, pilar do grupo familiar que sustenta o cumprimento do dever, trai seus próprios ensinamentos, não sabendo esperar, exercer a paciência, e “travando os ponteiros do tempo”, em ato cego e impulsivo, é causador e vítima da tragédia final.

E os que ouviram a história de Lavoura Arcaica, verdadeiramente contada por Raduan Nassar, não chegaram a um senso comum sobre a mesma, pois
“Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”.
(Anna Karenina - Liev Tolstoi)
A história, trabalho de minúcias contada em prosa e poesia, a uns mostrou só fascínios e encantamentos, como num jogo justificado de perseguição, sedução e dissimulação. Um espetáculo exibicionista de “pomba-gira”, chamando toda a atenção para si mesma, com vencedores e perdedores ao final. Mas, houveram também os que notaram e elogiaram os aspectos da linguagem. Os que viram uma família de imigrantes libaneses adaptando-se às condições religiosas, sociais e culturais do novo país em sua propriedade rural. “Houve quem achasse que tudo não passou de fantasias do protagonista, que nenhum incesto ocorreu e que a tragédia se passou sem qualquer causa real.” Quem percebeu a mudança do tempo verbal representando o final de um ciclo, de uma fase (no capítulo 5: “e era no bosque atrás da casa...”. No capítulo 29: “e foi no bosque atrás da casa...”). E quem viu um adolescente de dezessete anos representando o “... espírito de qualquer jovem rapaz antes que ele seja capaz de perceber que sua cabeça e seu coração humanos podem manter sob controle suas ‘patas sagitárias’.”

Patas sagitárias”... Atribuiu-se a Raduan Nassar semelhança com o fauno (sátiro), divindade mitológica campestre, que traz em si duas naturezas, a humana e a caprina. Os sátiros têm o seu mito ligado ao campo, à fertilidade e à música, sendo, Pã, o mais famoso deles. Há, porém, uma figura mitológica, que melhor identifica os sagitários: os centauros. Também possuidores de duas naturezas, a humana e a eqüestre, a figura do centauro representa a eterna luta das civilizações, do homem que traz em si o irracional e o racional. É possível dizer, então, que, inconscientemente, identificou-se traços mitológicos inseridos no livro: transbordante da alegria ruidosa dos sátiros, amantes de festas, da melodia da flauta, do vinho, dos bosques. Trágico como a eterna luta dos centauros, que trazem na cabeça de homem o pensamento, a inteligência, e no corpo animal o desejo, o impulso bestial.



“Conta a lenda que os Centauros não têm o hábito do vinho, por isto embebedam-se com facilidade... Esta fraqueza ante ao álcool é sintetizada na lenda do casamento de Pirítoo, o rei dos lápitas, que os convidara para as bodas. Embriagados, os Centauros provocaram confusão e briga entre os convidados. O incidente originou uma longa guerra entre os lápitas e os centauros.” (Pintura do italiano Sebastiano Ricci (1659 – 1734). Período barroco).


E foi assim que na sexta-feira dos centauros, dia 27 de novembro de 2009, data do aniversário de 74 de Raduan Nassar, reuniram-se ao redor da mesa para beber, ouvir e contar sobre suas histórias. Como quem vai às reuniões como se estivesse voltando para casa, “do jeito que Heidegger falava”... E, embriagados pela festa, como centauros e sátiros, que são fracos ao vinho, ovacionaram, urraram e celebraram todo o encantamento do final de mais um ano, com leituras em comum.



Divulgação da EdUFF para a reunião do clube em novembro.


Ao final, houve discursos comemorativos pelo encerramento das reuniões em 2009, este sendo coroado com um ato solene de emoção, sensibilidade e ES-PE-RAN-ÇA...

31 de outubro de 2009

La conciergerie

Você sabe o que é um “concierge”? “Concierge” é o profissional que trabalha em prédios residenciais (ou hoteis) e tem como função manter a ordem e supervisionar as regras gerais do prédio. Na prática, um “concierge” resolve tarefas diversas. Em apartamentos residenciais, ele é responsável pelas correspondências, provê informações a residentes e visitantes, controla o acesso ao prédio, reforça as regras, e na ausência de um administrador, exerce papel intermediário entre o deste e o de um residente. Entre o século IXX e início do século XX, em prédios residenciais, em particular de Paris, um pequeno apartamento no andar térreo era sempre reservado à moradia do “concierge”, a fim de facilitar a este o acompanhamento da entrada e saída de pessoas. Hoje, este profissional, em moldes tradicionais é cada vez mais raro, sendo encontrado somente em prédios mais tradicionais da Europa. Em hoteis de luxo, um “concierge” é o profissional a partir do qual se espera que quase o “impossível seja alcançado”. Para atender ao pedido de um hóspede, não importa o quão estranho este pedido seja, o “concierge” deve dispor uma lista sem fim de contatos ao redor do mundo que possam lhe ser úteis. Profissional altamente qualificado, deve ter dentre características marcantes, uma combinação de simpatia, desenvoltura, elegância, requinte, sofisticação, informação, inteligência, capacidade de comunicação, além de expressar confiança e ética. Versões variadas do “concierge” são encontradas pelo mundo. No Brasil, por exemplo, derivações mais simples desta profissão são exercidas pelo zelador, porteiro, ou caseiro. Nos Estados Unidos podemos citar o “caretaker” ou o chamado “handy man”.

Embora a imagem do “concierge” inspire um toque de elegância e sofisticação, a história revela um lado mais sombrio desta personagem. A origem do nome “concierge” é incerta. Uma das possibilidades, é que tenha derivado do termo francês, “comte des cierges”, que significa “contador de velas”, em referência aos serviçais que trabalhavam em castelos de nobres da era medieval. Outra possibilidade é que tenha derivado do francês “cumcerges”, (com + cera) ou do latin “conservius”, que por sua vez deriva de “conservus” (com + servo), em referência a serviçais ou guardas responsáveis por cuidar de prisioneiros em castelos medievais. Em Paris, “La Conciergerie” é uma construção em estilo gótico, que hoje faz parte do complexo do Palácio de Justiça, na Ilha de la Cité, próxima à Cathedral de Notre-Dame. No século X o monumento tornou-se o Palácio da Cidade, sede do poder real francês, até que no século XIV, o rei Carlos V, deixou o Palácio, o qual foi convertido em prisão do Estado. O “concierge” era um oficial de alto escalão, indicado pelo rei para manter a ordem e supervisionar as regras e registros dos prisioneiros. A “Conciergerie” designava a princípio o alojamento do “concierge” e depois, por extensão, a prisão onde este mantinha seus prisioneiros. Durante a Revolução Francesa, centenas de prisioneiros foram retirados de “La Conciergerie” para execução na guilhotina (dentre eles, Maria Antonieta e Madame du Barry).

Uma peculiaridade do Clube de Leitura Icaraí é ter um “concierge”.

O grupo institui um modelo de gestão suis generis onde ao invés de coordenador, chefe, presidente ou gerente tem um “concierge” …”
A brincadeira surgiu durante o mês de leitura de “A Elegância do Ouriço”, que tem uma “concierge” como protagonista da estória. O apelido foi carinhosamente dado ao moderador do grupo, após repetidas declarações do mesmo de que o clube não tinha um “dono”.

Um leitor de nosso Clube me disse que o que achava legal no Clube é que ele era sem dono. Pensei cá comigo “sem dono é a casa da mãe Joana”, o Clube tem dono sim e somos nós, leitores. “O leitor é um grande mistério ... como sempre, a palavra final é do leitor". (Milton Hatoum)
Embalada pela leitura do mês e sentindo-se sem referencial por pertencer a um grupo sem dono, uma das integrantes se referiu carinhosamente ao moderador como “concierge”:

Como o ... concierge que zela pelo grupo, já comentou …”
Embora momentaneamente reativo,
... eu li nas entrelinhas. Concierge do grupo ... só me faltava essa! O grupo tem bentinhos, capitus, o filho do escritor e agora um ... ouriço, que pela conotação usada está mais para um ouriço deselegante.”
numa declaração de reconhecimento pelo papel unificador exercido pelo moderador, o elegante ouriço foi quase que automaticamente acolhido pelos demais membros como “le concierge” do Clube de Leitura de Icaraí. Assim, apesar de não ter um dono declarado, o grupo certamente teria alguém que zelasse pelo mesmo.


Na reunião de abril, o moderador foi presenteado com uma campainha, a qual, desde então presente em todos os encontros, tornou-se símbolo de nosso diferencial.


Para quem não sabe, a campainha foi presente… para o nosso concierge colocar ordem na festa que acontece a cada reunião.”
Generosamente adotando o título, o democrático “concierge” ressalta a importância e deixa espaços abertos à “conciergerie”.
O Clube depende das pessoas terem alguma disponibilidade para fazerem as coisas acontecerem e naquele momento eu era uma delas. Puramente circunstancial. Calhou de alguém dizer que eu era o concierge do clube, … e como em um passe de mágica, todos começaram a me chamar de concierge. Adotei o apelido porque me identificava com a personagem e porque vi uma manifestação de carinho nessa designação... Acredito que surgirão outros concierges e personagens ao longo das leituras que vêm por aí para dar esse colorido tão divertido às discussões e manter o clima festivo que tem caracterizado os encontros.”
Nem a temeridade,  o tradicionalismo, ou a eficência, a “conciergerie” do Clube de Leitura tem como traço marcante, a livre iniciativa dos próprios participantes, que de modo voluntário, cada qual com seus próprios interesses e fazendo uso de dotes particulares, contribuem de alguma forma para a continuidade dos encontros.
Somos o concierge do Clube de Leitura Icarai!
Voilà, le concierge!!! Voilà, la conciergerie du Club de Lecture de Icaraí!

26 de setembro de 2009

29 de agosto de 2009

Zeno

"The earth was made round so that one cannot see too far down the road."
(Kurt Luedtke)

A Consciência de Zeno: Italo Svevo - 28/08/2009










"E' plenilunio, prendete un binocolo e fatevi a considerare il disco della Luna nel cielo. ... Senza grande lavorio della fantasia coglierete il vasto profilo della testa capelluta dell'uomo rivolta a sinistra. All'opposto semicerchio rileverete la rotonda testina della donna ... Essa e' di faccia, un po' inclinata, perduta in un mare di capelli. Di lei si scorge l'occhio, la guancia ed un filo de' labbri avvicinati al labbro di lui. ... Cosa eterea; i volti, un ineffabile sorriso e la donna ancora più bellissima donna. Adunque lassu', nel ciel della Luna, vi sono gli archetipi dell'uomo e della donna ..."
(Il bacio nella Luna - Filippo Zamboni)




(estofando)

1 de agosto de 2009

Elogio da Madrasta

O livro, Elogio da Madrasta, de Mário Vargas Llosa, nos apresenta uma novela bem medida: um pouco de sofisticação, com incursões pelo universo mitológico e pelas artes, mais uma pitada de humor e ironia. Junte-se a isso o controverso erotismo contido na trama. Há quem afirme que “o livro foi escrito sob encomenda para um amigo cineasta que coordenava uma coleção de narrativas eróticas”. Mas não importa o motivo que tenha levado Mário Vargas Llosa a escrever o livro, a sorte foi toda nossa; afinal, o Elogio da Madrasta é uma jóia bem lapidada pelo peruano.

Dom Rigoberto, dona Lucrécia e Afonso, ou Fonchito, o filho de Dom Rigoberto, são os três personagens significantes da trama de Vargas Llosa. Antes do desenrolar fatídico do triângulo amoroso: pai, filho e madrasta, o autor faz uso de um recurso que lembra a obra machadiana. Em Dom Casmurro, no capítulo 10, o narrador — no contexto de uma ópera—, diz metaforicamente:

“Cantei um duo terníssimo, depois um trio, depois um quatuor”.

Era a previsão do romance de Capitu com Bentinho, depois, o suposto triângulo amoroso envolvendo o amigo Escobar, e adiante o nascimento do filho, que se tornaria uma angustiante dúvida para ele, que às voltas com a idéia da infidelidade de Capitu, chegaria a ver no menino os traços de Escobar. Para Dom Rigoberto as coisas não se tornarão tão dramáticas, mas prevê algo em relação a um triângulo amoroso:

“Porque a felicidade era temporária, individual, excepcionalmente dual, raríssima vez tripartida”.

É a previsão do triângulo amoroso entre Dom Rigoberto, Lucrecia e Afonso.


ALGUMAS IMPRESSÕES:

Dona Lucrecia, a adorável esposa de Dom Rigoberto, é lindamente bem representada nos recortes “histórico-mitológicos”, que a meu ver são recursos bem utilizados pelo autor para representar o essencial erótico da obra. Numa hora é a esposa e objeto de “Voyeur” de Candaules, rei da Lídia, e do seu guarda e ministro, Giges.

“Enquanto a acariciava, me aparecia na mente a cara barbada de Giges e a idéia de que ele estava nos vendo me efervescia ainda mais, polvilhando meu prazer com um tempero agridoce e picante até então ignorado por mim. E ela? Adivinhava alguma coisa? Sabia de algo? [...] quem sabe pressentia que, nessa noite, quem gozava naquela habitação avermelhada pelo fogo e pelo desejo não éramos dois, e sim três.”

Noutra, é Diana, a deusa romana, que logo após o banho, bem que poderia eternizar, com Justiniana, um poema de Safo, a ilustre poetisa de Lesbos.

“À minha direita, inclinada, olhando o meu pé, está Justiniana, minha favorita. Acabamos de tomar banho e vamos fazer amor.”

Naqueloutra, é também Vênus, a quem Dom Rigoberto gosta que o entreguem assim:

“...ardente e ávida, com todas as prevenções morais e religiosas suspensas, e sua mente e seu corpo sobrecarregados de apetites.”

Nesses episódios, o que poderia despertar os protestos feministas seria a representação bem humorada de dona Lucrecia como a mulher de Candaules, rei da Lídia. O seu gosto pela garupa da esposa, a posição submissa da mulher cavalgada como uma égua: Que maldade!

“Não traseiro, nem bunda, nem nádegas nem rabo, e sim garupa. Porque quando eu a cavalgo, a sensação que me arrebata é essa: a de estar sobre uma égua musculosa e aveludada, puro nervo e docilidade.”

É claro que tudo se desenrola como representação da felicidade erótica, que é, certamente, o que Dom Rigoberto e dona Lucrecia experimentam com maior intensidade na narrativa principal. Para Dom Rigoberto, Lucrecia era a sua fonte de felicidade, assim como as suas abluções intermináveis e obsessivas. Para Dom Rigoberto, a felicidade passa pelo corpo, o de Lucrecia e o dele, por isso a obsessão pelas abluções, a purificação do corpo como num ritual religioso.

“Ouvir a voz dela, confirmar a sua proximidade e a sua existência, encheu-o de satisfação.”A felicidade existe”, repetiu, como todas as noites. Sim, desde que fosse procurado onde era possível, no corpo próprio e no da amada, por exemplo; a sós e no banheiro; durante horas ou minutos numa cama compartilhada com o ser tão desejado.”

“Espaço mágico, território feminino, bosque dos sentidos”, procurou metáforas para o pequeno país que Lucrecia habitava. “Meu reino é uma cama”, decretou. “O banheiro era seu templo, a pia, o altar dos sacrifícios; ele era o sumo sacerdote e estava oficiando a missa que toda noite o purificava e o redimia da vida”.

Há também, é claro, a possibilidade de as abluções de Dom Rigoberto representarem um recurso satírico, destinado a alimentar, como não poderia deixar de ser, suas sempre polêmicas incursões pelo universo político.

“Quando jovem tinha sido militante entusiasta da Ação Católica e sonhado mudar o mundo. Logo entendeu que, como todos os ideais coletivos, aquele era um sonho impossível, condenado ao fracasso. Seu espírito prático o induziu a não perder tempo travando batalhas que mais cedo ou mais tarde ia perder. Conjecturou então que o ideal de perfeição talvez fosse possível para o indivíduo isolado, restrito a uma esfera limitada no espaço (o asseio ou a higienização corporal, por exemplo, ou a prática erótica) e no tempo (as abluções e borrifamentos noturnos de antes de dormir).”

Pelo contexto histórico da obra, talvez tenha sido um recado aos extratos progressistas da Igreja Católica, então organizados sob a bandeira da Teologia da Libertação, para muitos, filha da velha Ação Católica, originalmente conservadora, mas convertida aos ideais socialistas. Vejamos esta outra frase:

“Meu Corpo é aquele impossível, a sociedade igualitária”.

O autor, num tom irônico, sugere através do personagem de Dom Rigoberto, que a conquista da felicidade, sendo individual, passa pelo culto ao corpo (as abluções também têm sentido religioso, mas não interessam a Dom Rigoberto), a personalidade e a prática erótica, como já explicitado pelo próprio autor. Se a felicidade de Dom Rigoberto depende de tais elementos, a profanação do corpo de Lucrecia, sua hóstia consagrada e depois ofendida pela violação da pertença, quando lhe é revelado que Lucrécia teria tido um “orgasmo gostosíssimo” (sem que tenha sido com ele, é claro), significa uma ruptura num dos elementos, o corpo de Lucrecia. Com isso, desmorona todo o microcosmo da felicidade de Dom Rigoberto.

Já o “caso Fonchito” é enigmático. Creio que o menino dissimula bem seu verdadeiro objetivo: livrar-se da madrasta. Vargas Llosa genialmente constrói uma figura ingênua, frágil, dócil, mas que demonstra astúcia ao longo da trama. É provável que a história do suicídio tenha sido premeditada pelo menino, como forma de “chantagear” a madrasta. Toda a devoção de Fonchito, toda ingenuidade, me parece parte de um plano macabro. Que outro intento teria o menino ao mostrar uma redação reveladora ao pai, e que viria a causar a separação dos dois, de Dom Rigoberto e Lucrecia? Será que o menino tinha toda aquela inocência em relação ao sexo a ponto de nem saber o que era um orgasmo? O desfecho do livro parece revelador, pois Fonchito não demonstra nenhum remorso.

(Contribuição de Antonio Rodrigues)

A reunião ocorreu em 31/07/2009.

26 de junho de 2009

Crime e castigo (Преступление и наказание)

Crime e Castigo: Fiódor Dostoiévsky - 25/06/2009(excepcionalmente em uma quinta-feira) para participação especial do prof. Paulo Bezerra, tradutor da obra.

"É de grande importância, na tradução de um escritor genial ..., estar bastante familiarizado com o autor e sua obra como um todo e tentar ser, ao máximo, fiel à sua linguagem e à sua maneira de escrever, para que o leitor possa, através delas, percebê-lo e entender os seus objetivos. Conseqüentemente, se sua linguagem é coloquial, ..., é indispensável usar a mesma linguagem coloquial na tradução. Cabe, no entanto, ter bem claro em mente que uma tradução nunca pode ser perfeita, pois são distintas as índoles das línguas em questão e há, às vezes, coisas intraduzíveis, armadilhas a serem vencidas,  como  é o caso dos puns - jogos de palavras - tão usuais entre os escritores de língua inglesa, como Shakespeare e Joyce. Puns ou jogos de palavras cada língua tem os seus, e eles são intransferíveis, precisando ser, portanto, de uma certa forma contornados, sempre que possível, sem alterar o sentido dado pelo autor ao contexto. 
...
São essas dificuldades, entre outras, que tornam maior o desafio de traduzir uma obra..., e somente o leitor poderá testemunhar se o meu objetivo de divulgar ... foi alcançado, ao se aventurar comigo nesta jornada..."
(Bernardina da Silveira Pinheiro, em tradução de Ulisses, de James Joyce)

(estofando)

30 de maio de 2009

Leite Derramado

O Livro do mês já havia sido posto em votação, mas até aquele momento ainda não estava decidido se o grupo leria 'Crime e Castigo' ou 'Leite Derramado'. Foi então que um boato de amizade entre o moderador e Chico Buarque de Hollanda desencadeou grande número de votos, favorecendo o último livro.
... ele me disse que vai fazer uma força para trazer o Chico Buarque (são amigos) para o encontro do Leite Derramado. Assim, será um encontro e tanto. Então, meu voto para o livro de maio é para o LEITE DERRAMADO.
meu voto também é para Leite Derramado e será um encontro muito esperado com a possível presença do autor.
Apesar de tentativas de esclarecer a não veracidade do relato, a 'bola de neve' já havia sido posta em movimento e rapidamente, o livro havia alcançado os votos necessários para liderar a competição. Os critérios de escolha foram questionados e algumas manifestações surgiram, pondo em dúvida a idoneidade da votação. Porém, como de costume, o livro mais votado foi acatado por todos. 'Leite Derramado', o quarto romance de Chico Buarque (após 'Estorvo' (1991), 'Benjamim' (1995) e 'Budapeste' (2003)), era o livro de maio.
Thurma, sugiro 'melar' essa votação de Maio. Aqueles que por ventura votaram no 'Leite Derramado' em função da possível presença do Chico Buarque talvez precisem rever seu voto...
..., você está insinuando que... votamos em Leite Derramado por causa dos olhos... verdes ou azuis? nem sei, do Chico Buarque???????????
'Leite Derramado' relata as memórias de Eulálio, um velho homem, em seus últimos dias de vida, num leito de hospital. Membro de uma tradicional família brasileira, Eulálio relembra sua história, a de seus descendentes e a de seus ancestrais. A narrativa, apresentada em ordem lógica e cronologicamente embaralhada, torna mais fiel a identificação do narrador com um idoso. Este estilo de narração foi comparado aos trabalhos do cineastra francês, Alan Resnais, 'Hiroshima Meu Amor' (1959) e 'O Ano Passado em Marienbad' (1961), nos quais o tempo e a memória se misturam a todo instante.  Já o conteúdo histórico e cultural despertou semelhança entre o romance de Chico Buarque e 'Casa-Grande & Senzala' (1933), de Gilberto Freyre (1900 - 1987). O paralelo foi feito através da identificação de pontos de convergência entre as obras, tais como o mandonismo, o patrimonialismo, e a exaltação da riqueza e diversidade de raças e de culturas que formam o povo brasileiro.

O livro foi elogiado por sua poesia, lirismo, pelo estilo do autor em não ter medo de surpreender com palavras, e por sua musicalidade. A leitura foi dita passar a sensação de ouvir Chico Buarque ler, mais do que o primeiro capítulo somente, mas o livro inteiro. Como se “o livro fosse o que não coubesse na canção”.
“Não há um parentesco próximo entre romance e música. Mas existe uma música na estrutura dos meus livros. E também há sempre uma música no fundo da minha cabeça quando escrevo, quase uma trilha sonora, um assovio, um cantarolar que dita o ritmo.” (Chico Buarque em conversa com o cineastra Roberto de Oliveira)
Aparte a inegável genialidade do autor e o mérito da obra, o tema, não atraiu a todos. Alguns o descreveram como monótono, no sentido de começar e terminar da mesma cadência, sem despertar maior ou menor interesse. Sensação, que possivelmente foi acentuada, pelo fato da leitura seguir a de 'Dois Irmãos' (livro do mês de abril). Duas sagas familiares com triste desfecho e visões bem pessimista de histórias de vida, que mostram degradação de uma família, de uma sociedade, e de um espaço físico.
Outra crítica, da qual o livro foi alvo, foi seu término abrupto, causando a sensação, ao final da leitura, de “faltar algo”:
Eu terminei Leite Derramado e estou com uma sensação de que está faltando algumas páginas no final do meu livro. O final é na página 195 MESMO? Que coisa estranha....
Vai ver literatura é isso mesmo, deixa o final em aberto para que o leitor continue a estória do jeito que achar melhor.”
A estória do Eulálio não termina mesmo porque nenhuma estória termina de fato, sobretudo a do Eulálio e seus eulálios gerações afora.”
Estes últimos livros parecem sempre conter alguns quebra-cabeças envoltos em mistérios dentro de enigmas. Os autores não facilitam a vida dos leitores.”
A literatura continua sendo um esforço do homem para se indenizar pelas imperfeições da sua condição. " A literatura, como toda a arte, é a nossa confissão ao mundo de que a vida não basta".”
Sabiamente, foi comentado que “ler um livro do Chico não pode ser igual a ler um livro de um desconhecido”, pois “... quando vamos ler um livro de um escritor consagrado: já vamos munidos de expectativas... isso tanto pode nos fazer gostar ‘a priori’ como nos tornar mais exigentes”. E, de fato, a admiração por Chico Buarque não passou em anonimato.
Admiradora desde todo o sempre do "Chico olhos de ardósia", não havia lido nenhum de seus romances até então. Gostei muito do "Leite Derramado", leitura de pura fruição, Quanto lirismo em sua narrativa! A meu ver, a saga e a decadência dos Assumpção pareceram "menores" diante da beleza do texto e, muitas vezes, me senti "como se" estivesse lendo uma letra de música..., do "velho e conhecido Chico, é claro"...
Não sei se gostei muito do livro, mas concordo plenamente quanto ao lirismo. A narrativa, o uso das palavras, algumas frases super-sensíveis e belíssimas. Comparo o livro àquela frase "Life is a voyage, not a destination". A saga do Eulálio pode não ter me encantado mas a forma de descrevê-la sim. Por outro lado, volto a me perguntar: - estarei eu influenciada por toda a obra musical do Chico e pelos olhos cor de ardósia? Pode ser...
Os temas de discussões online, decorrentes do livro, criaram um maravilhoso Sanatório Geral. Eclético, o grupo, ao longo do mês de leitura, não se intimidou em termos da diversidade de assuntos abordados.

A semelhança entre nomes de participantes, por exemplo, deu origem a frutíferas brincadeiras em relação a duplos, heterônimos e ghost writers. 'O Homem Duplicado' (Saramago), 'Budapeste' (Chico Buarque); e até mesmo trabalho de Sigmund Freud (1856 - 1939) e conto do escritor austríaco Arthur Schnitzler (1862 - 1931) sobre um personagem e seu duplo, foram recomendados. E, como se não bastasse, foi revelada a existência de um duplo de Caetano Veloso no grupo!
“...Chico procura sempre manter separado o escritor do compositor, num esquema que ele mesmo chamou de "esquizofrênico". Quando se dedica à literatura, deixa o violão no estojo e evita ouvir música. Quando termina o livro e passa a temporada de lançamento e de traduções, volta a procurar os acordes e as linhas melódicas de suas canções, com um frescor de quem estivesse começando do zero.”
Outro ponto que desencadeou polêmica, surgiu da comparação entre o ciúme doentio dos personagens Eulálio (Leite Derramado) e Bentinho (Dom Casmurro):
...Se o Eulálio é o Bentinho do livro do Chico, o Chico parece ter os próprios olhos de Capitu.”
Essa de comparar os olhos do Chico com o da Capitu tem um fundo heterônomo: a ressaca de Capitu é a ressaca do mar, a do Chico é a ressaca da birita.”
A brincadeira, provocando alhures, levou essas mulheres de Chico a mirarem, não no exemplo daquelas mulheres de Atenas, mas nos 'olhos de gatão selvagem', como certa vez escreveu Tom Jobim.
Quanto aos olhos de ressaca, são de ressaca sim porque, como os da Capitu, têm a capacidade de tragar os que os fitam.”
Onde já se viu querer falar do Chico e logo dos olhos dele!
Qualquer homem que fale mal dos lindos olhos cor de ardósia do Chico é pura inveja.
Liga não. Isso é coisa de fã. ´Vai levando´ que ´ vai passar´”.
E um tema, dito vital para a humanidade (?!!), foi debatido: a cor dos olhos verdes de Chico Buarque.
Trata-se de uma questão vital para a humanidade (humanidade, feminina, é claro): afinal de contas, os olhos do Chico são azuis ou verdes?
Pra mim, a cor dos olhos do Chico varia de acordo com as condições climáticas, iluminação, local e cor da camisa e até estado de espírito. Nesse vídeo que você mandou, devo concordar, eles estão azuis. Tenho alguns outros DVDs em que eles parecem verdes... lindamente verdes.”
“...eu achava que eram verdes, mas olhando o vídeo postado,... no início tive a impressão de que eram cinzas, e depois verdes e também azuis,...
O fato é que, verdes, azuis ou ardósia, são irresistíveis.”
Foi tal a empolgação, que mesmo os participantes masculinos deram sua opinião e um deles até saiu divulgando espontaneamente a cor de seus próprios 'olhos negros'. Foi um 'Forrobodó'!!!

Divulgação preparada pela EdUFF para a reunião do clube em maio.

A reunião ocorreu no dia 29 de maio na Livraria da EdUFF. Às vésperas, o clima de descontração foi brindado com a volta do malandro, trazendo consigo mais um boato: a possibilidade de ver o Chico olhos nos olhos.
Atenção fãs do Chico, no início do mês enviei um email para a Companhia das Letras convidando o autor para vir à reunião do Clube de Leitura e só hoje me telefonaram informando que há chances de que o Chico compareça porque ele precisou cancelar um evento fora do Rio. Vocês poderão finalmente resolver a questão da cor dos olhos dele pessoalmente. Desconfio que tenha sido um trote.”
Automaticamente, um clima de imagina só surgiu entre os participantes. Alguns pensaram que haveria novo forrobodó no Clube de Leitura e em Icaraí, de onde se contempla Mar e Lua. Outros pensaram ser fantasia, um sonho impossível.
E então como é que é mesmo...? Chico, o dos olhos de ardósia, com Leite Derramado e tudo mais, em nossa reunião? Só falta dizer que vai trazer o violão e entrar pela porta da frente cantando "Tem Mais Samba" para enfeitar o encontro e aliviar a espera! Eita! que só de trote já "tá quas 'bão!' Um pouquinho mais e vira maravilha. Faz isso não, ...
O malandro, se verdadeiramente troteiro, com sua lábia, pode ter pensado: ai, se eles me pegam agora! Porém, os que não vivem sem fantasia (e um bom toque desta deve ser positivo!), deixaram-se levar por um "até pensei que pudesse ser mesmo verdade", afinal o grupo já havia sido contemplado com a ilustre presença de Gustavo Bernardo, autor de 'O Filho Eterno'. E se? O que será que teria acontecido? Seria um Quem te viu, quem te vê? Chico poderia até mesmo chegar fora de hora, pois a expectativa por sua chegada duraria até o fim.
O que acham de mudar o local da reunião para o teatro? O espaço na livraria vai ser pequeno.”
Gente minha... ... se essa história for (ou fosse?) verdade mesmo ... se o moço dos olhos de ardósia vier (viesse?) camuflado no seu "piolho estético" (e isso se o Ouriço não lhe emprestasse elegância!). Carolinas, Janaínas, Januárias e todo o resto da banda? O que/quem mais falta vir ou viria (virá?). Sei lá! Subiríamos todos ao palco para fazer o coro da Ópera do Malandro? Ou ficaríamos de olhar perdido na janela como Carolina sem ver o tempo passar? Niterói vai ser notícia! E boa!
Quanto ao fato de o Chico ir... na vida devemos sempre ter sonhos!!!Porque não?????
Ao final da reunião, pois é, o de Hollanda não apareceu e a autenticidade do convite nunca foi revelada. Sonhos são sonhos e quem sabe outra noite! Mas, agora falando sério, apesar de você, não ter ido à reunião, no Clube de Leitura não houve desalento, nem desencanto. Ninguém ficou injuriado e, como sempre, teve Olê, Olá. Pois, alguns são como ‘o homem sério que contava dinheiro’, ‘o faroleiro que contava vantagem’, ‘a namorada que contava as estrelas’, ‘o velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou que ainda era moço pra sair no terraço’, e a meninada assanhada. Assim como a banda, que com uma marcha alegre se espalha na avenida, em dia de reunião do Clube, parece que a cidade toda se enfeita. Faça Sol e Chuva, estão sempre todos juntos trocando em miúdos tantas palavras que levam consigo um pouco da música e poesia que este autor de ‘Leite Derramado’, homem do povo, domina com maestria.
Estou toda empolgada... não precisa do tapete... seu entusiasmo e o do grupo são constantemente um reforço muito carinhoso aos nossos (pelo menos meus) sentimentos. Até lá!!!!!!
Acabou que quem perdeu uma ótima oportunidade pra participar de um excelente debate, regado a queijos, vinhos e muita energia positiva, foi o Chico Buarque. Mas a gente perdoa ele... não há de ser nada...
E "Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou".
(A banda – Chico Buarque – 1966)

31 de janeiro de 2009

A Filha do Escritor



"Nós os malucos, vamos lutar
Pra nesse estado continuar
...
Malucos, somos a mola desse mundo, mas nunca iremos muito a fundo nesse dilema tão profundo"
("Hino dos Malucos", por Rita Lee, Roberto de Carvalho, Fernanda Young e Alexandre Machado.)

E não é que começamos cantando novamente!!! Tudo bem, pois voltamos a falar de Machado de Assis, ou melhor, d'A Filha do Escritor. O autor em questão é Gustavo Bernardo Galvão Krause, que, em seu romance, “dá voz” à Joaquim, médico psiquiatra de uma clínica em Itaguaí, cuja paciente, a bela jovem Lívia, imagina ser filha de Machado de Assis.

A obra intriga o leitor, que à medida que acompanha Joaquim em seus capítulos, se pergunta cada vez mais sobre o que lê. O autor nos confunde a todo tempo. E, apesar de pistas, como a admiração de Joaquim pela obra Dom Quixote (Cervantes), ou o poder da impertinente enfermeira, que inverte os papéis de autoridade, ainda somos surpreendidos ao final da trama.

“Nunca desconfiou que nos poucos segundos em que vira a página, você perde um mundo de acontecimentos?”

“O Dr. Joaquim está mais para uma "reencarnação" do Bentinho. O mais provável é que o novo Bentinho esteja inventando a Lívia assim como o velho Bentinho via tudo pelo prisma de seu ciúme. Esse livro do Gustavo Bernardo parece um puzzle. Não me sinto lendo um romance, mas entrando num labirinto, em direção a um enigma.”

O diálogo é permeado com textos de “O Alienista” e referências a obras de Machado, como “Ressurreição”. Gustavo reúne conhecimentos de psiquiatria, filosofia, biografia e obra de Machado de Assis, e aspectos gerais da cidade do Rio de Janeiro nos séculos passados (ao modo do velho Bruxo do Cosme).

“ ‘A filha do escritor’ proporciona, dentre outras coisas, uma overdose de Machado de Assis (no bom sentido) e todo este estilo de detalhamento fiel, a ponto de nos perguntarmos se realmente todos os locais retratados na estória são verídicos!!”

Nos questionamos sobre os limites da doença psiquiátrica, da memória, sobre a construção e transformação da realidade.

“Estamos acostumados a associar a loucura à falta de coerência, a um pensamento caótico. Acho que o que nos surpreende no livro é uma loucura com tanta lógica. O personagem encara a Lívia com lógica, apontando as contradições da alucinação, "diagnosticando" e analisando a loucura dela. Será uma ponta de razão tentando lutar contra a própria loucura? ... Enquanto a Lívia se torna real, ele pode tocar, beijar, o filho é a alucinação dentro da alucinação.”

E, como de doido todo mundo tem um pouco, o diálogo do mês ficou um tanto, digamos... confuso.

“ACABEI.
Mas tenho uma dúvida: fui eu que li o livro ou foi o livro que me leu?”

“Alguém gostaria de fazer uma excursão à Itaguaí para conhecer a Casa Verde? Se a "ficção invade o real", por que o real que experimentamos não faz uma excursãozinha na ficção? Será que vocês vão achar que esse é um programa de maluco?”

“Sempre acontece isso comigo nas leituras do Clube de Leitura. Algum elemento da ficção invade o real. Neste livro são as mariposas. Será que esses mundos sempre se interconectam, a ficção e o real? Sempre soube que havia muita ficção no real, mas quanto de real existe nas ficções?”

“Muita coragem do autor de escrever um romance que atravessa 3 obras do bruxo Machado... Salve a literatura que nos abre o mundo da ficção para compensar a ditadura do "real", fazendo com hoje sejamos Joaquins, ontem Capitus, e amanhã algo menos definitivo do que nosso eterno eu. Essa pluralidade é no mínimo divertida!
Meu Deus! Acho que também sou um esquizofrênico! “

A reunião ocorreu em 30 de janeiro de 2009 e teve um toque mais do que especial: fomos brindados com a simpática presença de Gustavo Bernardo, que numa conversa descontraída, respondeu a várias questões apresentadas pelos leitores sobre sua obra e o trabalho de um escritor. Tivemos a oportunidade de dialogar, trocar idéias e aprender muito com a discussão.

“Maravilhosa a participação do Gustavo Bernardo na reunião de ontem! Um workshop do ofício de escritor.”

Gustavo Bernardo lançou “A Filha do Escritor” em 2008, ano em que se comemorou o centenário da morte de Machado de Assis. Uma das inspirações para o livro foi o boato que correu o século de que Machado teria tido um filho com a mulher do escritor José de Alencar. Boato puro! Não há indícios de que tal fato ocorreu. Mas até que inspirou uma ótima estória. 

“É um romance dentro de outro. O personagem do Gustavo Bernardo se envolve com a personagem de Machado de Assis. É um meta-romance!”

Agradecemos a presença, Prof. Gustavo!