CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

31 de agosto de 2014

1001 semanas de amor: Luiz Gavri

Façam as contas e vejam
Que 1001 divididos por 52 
Não é mais do que
Dezenove vírgula 25 anos.

É muito? É pouco?

Para um amor de infância
Não é nem a metade.
Para um amor de verdade,
Já passou um pouquinho.

Bobagem falar que
Paixão vira amor
Amor já foi paixão.

Amor quando gruda na gente
Vira ferida permanente
Bicho de pé que nunca se esquece
Pois, volta e meia, coça.


(19/01/14)

29 de agosto de 2014

Já pensou em ler à luz dos vaga-lumes? Orlando o fez

Há tempos não professo meu amor pela literatura, mas continuo amando os livros; uns mais que outros, é verdade, mas todos têm seu lugar no coração desta leitora.

Agora estou lendo Orlando, de Virginia Woolf. O personagem era também um amante das letras. Naquela época, por volta de 1580 / 1600, ele lia à noite à luz de velas, até tarde. Tomaram-lhe as velas. Ele então criou vaga-lumes para prosseguir com a leitura. Tomaram-lhe também. Ele então quase incendiou a casa com um pau em brasa. Não é um fofo? O que você faria no lugar dele?


25 de agosto de 2014

Clube de Leitura Jovem - O menino no espelho: Fernando Sabino


Quinta edição do Clube de Leitura Jovem




"Mas como sempre acontece...papai achava graça, pedia que eu narrasse a façanha para seus amigos." (p.96)





20 de agosto de 2014

CLIc-teen - O menino no Espelho: Fernando Sabino

Nem eu mesmo sabia que estava experimentando pela primeira vez a sensação inebriante de uma paixão. 




Como se fosse pouco, Cintia tocava piano. Eu ficava a seu lado, embevecido, a ver as mãos longas e brancas deslizando pelas teclas do velho piano na sala de visitas. Em casa ninguém tocava, a não ser eu mesmo, batucando o Bife com dois dedos, escondido de meu pai: ele costumava dizer, certamente para silenciar a musiquinha insuportável, que ela atraía o demônio. Cintia sabia uma porção de melodias americanas, chamadas de fox-trot. Veio daí, creio, o meu gosto pelo jazz: 



— Toca de novo aquela primeira, Cintia. 

Ela tocava esta e aquela, a meu pedido. Depois atirava para o lado, naquele gesto seu, a cortina de cabelos que lhe caía no rosto. Um dia, ao dar comigo a contemplá-la, extasiado, inclinou-se rindo e me deu um beijo no rosto. Meu coração disparou, e eu com ele: saí correndo da sala, fui me refugiar no fundo do quintal, pela primeira vez naqueles dias. E naquela noite não consegui dormir. Era ela que eu via diante de mim, no escuro do quarto, tocando piano, os cabelos louros, os olhos claros, a cena do beijo. Toninho, ao perceber que eu continuava acordado, chegou a perguntar se eu estava sentindo alguma coisa. Não, eu não sentia nada — a não ser o desejo de que a noite passasse depressa e chegasse logo a manhã para que eu pudesse rever a minha amada. 





"Em pouco tempo, passei a levar mais que a sério o escotismo. Não tanto pela parte moral — embora não deixasse de ser interessante amar a Deus sobre todas as coisas, ter uma só palavra, fazer uma boa ação todos os dias, ser limpo de corpo e alma, amar os animais e as plantas, respeitar o bem alheio, ser cortês e leal, e outras obrigações dos mandamentos do escoteiro, que a gente jurava cumprir. O que me atraía mesmo era a parte prática e as distrações: transmitir mensagem à distância pelo código Morse, com o auxílio de um apito ou de uma lanterna (logo consegui decorar o alfabeto), ou por semáfora, com duas bandeiras, como fazem os marinheiros; aprender a dar várias espécies diferentes de nós; acender uma fogueira com apenas um pau de fósforo ou fazer fogo sem fósforo algum; armar uma barraca; orientar-me pelas estrelas; tocar tambor; seguir uma pista em pleno mato — e mil outras coisas próprias dos índios e dos exploradores 

do oeste." 



Que menino encapetado esse Fernando!


"Mas como sempre acontece...papai achava graça, pedia que eu narrasse a façanha para seus amigos." (p.96)

Uma viagem aos tempos de infância 

no 

Clube de Leitura Jovem!





O que você quer ser quando crescer?

O Menino no Espelho é um romance escrito pelo mineiro Fernando Tavares Sabino, que teve sua primeira edição em 1982, pela editora Record.


A obra é narrada em primeira pessoa, e o personagem principal é o próprio autor, que ao longo do livro relata suas aventuras. Fernando conta suas memórias de infância com muita criatividade, e que foram vividas na cidade de Belo Horizonte durante a primeira metade do século XX, convidando o leitor a viajar no tempo e experimentar uma BH tranquila e sossegada, o que proporcionava certa liberdade e espaço para a diversão das crianças daquela época.



As lembranças são descritas com espontaneidade, e os acontecimentos relatados com muita simplicidade, como se estivessem sendo contadas por um menino. As histórias são repletas de fantasia, explorando a imaginação de Sabino, como menino de apenas oito anos.



O espírito criativo do autor nos chama bastante atenção, juntamente com seu saudosismo dessa fase mágica de sua infância. O livro nos transporta para uma época na qual a criatividade imaginativa e a inocência perduram. E, através de olhos de uma criança, podemos então experimentar esse novo mundo através da leitura.






O livro será tema de debate do próximo encontro, que será realizado no dia 21 de agosto, às 18h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9, em Niterói). Não perca!


"O menino é o pai do homem" (William Wordsworth)


Leia o livro digital aqui

Alguém conhece a solução do mistério do que é ser mineiro? Se souber não diga ainda, para não ser spoiler. 


15 de agosto de 2014

O que é poesia para você?

Poesia é ...


Com certeza você já leu e ouviu muitas definições de famosos sobre o que é poesia, como as que seguem abaixo. Qual delas você mais gosta ou mais se aproxima do seu conceito? Você tem sua própria descrição poética a respeito? Compartilhe conosco utilizando o campo Comentários deste post.



Edgar Allan Poe: 
A poesia é a criação rítmica da beleza em palavras.

Maiakóvski:  
Toda poesia é uma viagem ao desconhecido.

Goethe: 
Poesia é a fala do infalável.

Fernando Pessoa: 
Poesia é a música que se faz com ideias.

Manoel de Barros:
A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.

14 de agosto de 2014

“Esta é a história mais triste que já ouvi”


"Nós todos temos tanto medo,
nós todos somos tão sozinhos,
nós todos precisamos tanto que venha de fora a garantia de nosso próprio valor para existir."


"Publicado em 1915, o romance é pioneiro na arte do "narrador não confiável". A história é contada primeiro de uma forma. Depois, conforme o narrador se recorda de detalhes que a modifiquem, os mesmos são recontados de um novo ponto de vista, que podem ser reavaliados adiante. E conforme a mente do narrador trabalha, outros elementos são trazidos, e um simples caso de adultério entre dois casais que se encontram casualmente numa casa de repouso (ou spa, como ficou conhecido depois) vira um caso cheio de arestas insuspeitas, que dizem respeito à situação atual do narrador, que não conhecíamos completamente, como imaginávamos (ele não nos tinha dito tudo). 

"O Bom Soldado" fez mais pela literatura ocidental do que todos os mais famosos modernistas juntos. Porque se "Ulisses" é um grande livro, e "Mrs. Dalloway" é estupendo, repeti-los dependia de referências e talentos, o que tornava o trabalho de quem os quisesse seguir pesado demais. O que "O Bom Soldado" sugere é uma forma prática para a narrativa moderna e, inclusive, pós-moderna: deixe que seu leitor se confunda; deixe que chafurde na indecisão, e que se encontre (ou não) apenas depois. 


Quem quer encontrar-se na Literatura? Até onde eu sei, a gente quer é se perder..."


(Roberto Pedretti)


9 de agosto de 2014

"Ópera dos mortos": romance e mistério no Clube de Leitura Icaraí


Incluído pela Unesco na Coleção de Obras Representativas da Literatura Universal, Ópera dos mortos, do brasileiro Autran Dourado, é o tema do debate de hoje no Clube de Leitura Icaraí. O evento acontece a partir das 19h, com entrada gratuita, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9, em Niterói).

Apontada como principal obra de Autran Dourado, ao lado de O Risco do Bordado, Ópera dos mortos utiliza uma narrativa na forma de ópera barroca, além de explorar características formais da arquitetura na descrição da residência da família Honório Cota, onde se passa a ação. O romance conta a história de Rosalina Honório Cota, última remanescente de sua família, que vive praticamente sozinha na companhia de Quiquina, empregada muda. As duas habitavam um sobrado velho e decadente, construído pelos antepassados da protagonista. Isolada do resto da cidade, ela tem sua rotina quebrada pela chegada do falante empregado Juca Passarinho. O resto da história... Só lendo o livro ou participando do Clube de Leitura de hoje.

4 de agosto de 2014

Ópera dos mortos: Autran Dourado





A gente acaba de ler e acha que foi boa a leitura, mas também acha que foi muito bom sair daquele ambiente claustrofóbico de Duas Pontes, deixar pra trás os relógios parados do sobrado de Rosalina e principalmente aquele mundão do diabo das voçorocas. Foi bom enquanto durou! Uma história quase que arquetípica dos habitantes do interior de Minas que os fazem parecer “quedos” com as “visonhas” que preenchem seu imaginário, o do mineiro, que é um trem difícil de definir pra quem não conhece. O que pra nós pode parecer personagens “estúrdios” é tipico naquelas paragens, a casa grande e seus silêncios, os disse me disses da gente da cidade em relação às pessoas cujo comportamento sai um pouco do padrão geralmente aceito, aquele sentimento comum de que arrastam a bunda no chão os que se rebaixam demais no seu proceder, etc. Em relação à obra, sem dúvida, é trem literário dos bons, com uma atmosfera sombria e asfixiante, de fazer brilhar os olhos.
Ópera dos mortos quer dizer trabalho dos mortos, aquilo mesmo que faz a monotonia de um entardecer no silêncio das cidadezinhas do interior de Minas. Pra saber como é, só vivendo! Parece tudo morto, e ainda tem sempre um cemitério na entrada (ou na saída) da cidade. E o autor ainda coloca relógios parados na sala de Rosalina, fixando a lembrança na hora da morte dos capistranos. E também confronta um cabra falador como Juca Passarinho com uma mulher de silêncios ensurdecedores como Rosalina. O amor entre eles gera um filho oculto, na gravidez, e natimorto.
“Ópera dos mortos” é um livro barroco que nem Minas!
PS: conheci um caso parecido lá em Minas de onde vim. A única diferença é o nome da empregada, que era Bibina ao invés de Quiquina. Certa feita Bibina tomou um copo de suco de maracujá e caiu dura de sono onde estava, não dando tempo sequer de chegar em uma cama.




Lera o livro várias vezes, sabia-o quase de cor. Os três livros que vinha lendo desde mocinha: As pupilas do senhor reitor, as Mulheres de bronze e aquele terrível, a Vingança do judeu. Lia-os repetidamente, passava de um a outro, sempre aqueles mesmos livros. A garrafa debaixo da mesa, o cálice cheio, começava a ler. Tudo esfumado, numa neblina. As personagens saíam do livro, passavam a viver cá fora, chegava a ouvir-lhes as vozes, fantasmas de sua solidão. De vez em quando Emanuel entrava no livro, pegava a dizer coisas tão lindas, de que ele nunca seria capaz. Vestia-o com uma casaca, punha-lhe uma gravata como aquela do desenho da capa. Pegava-a pela cintura, punha-a na garupa de seu corcel branco, raptava-a, levava-a para bem longe, pra um país onde a neve caía branca. Depois o cavalo galopava no ar, cruzavam um campo revestido de flores, ela pedia para ele parar, queria colher um ramo de flores. Ele dizia que não, tinham de fugir, os homens estavam em seu encalço.  

Pina Rosalina Bausch



"Política é assim mesmo, João - mão na bosta."




Considerado um dos renovadores do romance brasileiro, Autran Dourado é normalmente associado à linha do regionalismo introspectivo. Minas Gerais, seu Estado de origem — nasceu em Patos, em 1926 —, é objeto de investigação contínua. Ele imaginou, no sul de Minas, a fictícia cidade de Duas Pontes, onde se passam muitas de suas histórias. Ópera dos Mortos, sua obra mais famosa ao lado de Os Sinos da Agonia (1974), se dá justamente nesse lugar. 


O livro, incluído pela Unesco na Coleção de Obras Representativas da Literatura Universal, conta a história de Rosalina Honório Cota. Última remanescente de sua família, ela vivia praticamente sozinha na companhia de Quiquina, empregada muda. As duas habitavam um sobrado velho e decadente, construído pelos antepassados de Rosalina — o avô, Lucas Procópio, havia erguido a parte térrea, e o pai, João Capistrano, acrescentara o segundo andar. Cada parte da edificação guardava na arquitetura as marcas das personalidades de seus construtores. Rosalina passava os dias fazendo flores de pano entre os relógios parados da casa — cada um desligado no dia da morte dos antigos habitantes. Estava isolada do resto da cidade, cujos habitantes viam na residência um local misterioso e distante. Até que surge o falante empregado Juca Passarinho, que quebra a rotina da casa e se envolve sexualmente com a patroa. Nasce um filho, morto, que é levado da casa pelo pai desconsolado. Rosalina enlouquece e deixa a casa. 



A ópera é dos mortos porque eles determinam a vida do sobrado, principalmente a de Rosalina. São eles que regem o curso das coisas, o destino infeliz reservado a seus sucessores. Para o professor Massaud Moisés, "a tensão romanesca é sufocante, as personagens, loucas ou tangidas por forças indiscerníveis, exterminadoras, diabólicas, parecem arquétipos vivos; o tom, porém, é dum realismo simbólico, em que se defrontam o Mito e a História". Duas Pontes é um microcosmo mineiro e, na visão do crítico Celso Leopoldo Pagnan, caracteriza a decadência do Estado após o ciclo do ouro. A história da família Honório Cota — que se estende por outras obras do autor — abrange o período que vai da República Velha ao Estado Novo, justamente o de uma urbanização crescente. 



Do ponto de vista formal, Autran Dourado optou, assim como Graciliano em Vidas Secas, por utilizar o sistema de blocos narrativos. São nove, cada um contado pelo monólogo interior de um narrador diferente — pode ser Rosalina, Juca Passarinho ou até os moradores da cidade, que falam pelo coletivo. Tudo é permeado por um narrador onisciente. A linguagem, de recursos barrocos, contribui para criar uma narrativa elíptica e labiríntica. Há o anseio por captar os sentimentos — como a descrença e a tristeza — tanto no plano individual quanto no coletivo. A atmosfera negativa vem do embate entre o antigo e o novo, o obsoleto e o moderno, os mortos e os vivos, a permanência e a mudança dos valores — este último um tema comum nas obras do autor, como em Uma Vida em Segredo (1964).







2 de agosto de 2014

Clube de Leitura Jovem - A culpa é das estrelas: John Green




Estrela Gleiser na FLIP 2014

"O universo quer ser notado" - princípio antrópico abordado no livro "A culpa é das estrelas"

A opinião de Marcelo Gleiser exposta na FLIP: 'Outra passagem que teve resposta positiva da audiência foi o comentário sobre vida em outras galáxia. Gleiser disse que não queria viajar tão longe e ficou na Via Láctea mesmo. "Você tem que separar as coisas. De que tipo de vida a gente está falando: simples ou complexa?", começou. "A minha aposta é que, certamente, em outros planetas vai haver algum tipo de vida simples. Mas vida inteligente é uma conversa completamente diferente."


Além disso, em termos de distâncias astronômicas, é provável que estejamos sozinhos aqui. Gleiser chama a Terra de "planeta milagroso". "O que a ciência moderna está mostrando é que nós, seres humanos, somos extremamente raros e importantes. Porque somos máquinas moleculares capazes de reproduzir e capaz de refletir sobre quem somos. Somos a materialização de uma espécie de consciência cósmica. Temos um dever fundamental, que é a preservação da Terra, a preservação da vida a todo custo."'


"Quem é tão firme que não possa ser seduzido?"

Esperamos vocês nesta quinta, às 18h00, na Livraria Icaraí!




“Caro Sr. Waters,
Acabei de receber sua correspondência eletrônica com data de 14 de abril e estou devidamente impressionado com a complexidade shakespeariana de seu drama. Todos nessa história têm uma hamartia sólida como uma rocha: a dela, estar tão doente; a sua, estar tão bem. Se ela estivesse melhor ou o senhor, mais doente, então as estrelas não estariam tão terrivelmente cruzadas, mas é da natureza das estrelas se cruzar, e nunca Shakespeare esteve tão equivocado como quando vez Cássio declarar: “A culpa, meu caro Bruto, não é de nossas estrelas / Mas de nós mesmos.” Fácil falar quando se é um nobre romano (ou Shakespeare!), mas não há qualquer escassez de culpa em meio às nossas estrelas.” – Página 106


Videogame preferido do Gus
Livro favorito da Hazel



O que significa ser humano?

Há algum sentido nisso?

Dada a frivolidade derradeira de nossa luta pela vida,
terá algum valor a efêmera carga de significado que a Arte nos empresta?

Ou o único valor estará em passarmos o tempo o mais confortavelmente possível?








Hierarquia das necessidades de Maslow


O lar é onde fica o coração.


Ceci n'est pas moi, Hazel Grace.

O verdadeiro amor nasce em tempos difíceis.

O mundo não é uma fábrica de realização de desejos.








Não sou formada em matemática, mas sei de uma coisa: existe uma quantidade infinita de números entre 0 e 1. Tem o 0,1 e o 0,12 e o 0,112 e uma infinidade de outros. Obviamente, existe um conjunto ainda maior entre o 0 e o 2, ou entre o 0 e o 1 milhão. Alguns infinitos são maiores que outros… Há dias, muitos deles, em que fico zangada com o tamanho do meu conjunto ilimitado. Eu queria mais números do que provavelmente vou ter.






Encorajamento:

  • A existência do brócolis não afeta de forma alguma o gosto do chocolate;





"Nem o mármore, nem os áureos mausoléus

De reis hão de durar mais que meu verso ardente;

Mas nele brilhareis mais refulgentemente

Do que a pedra largada aos ultrajes do tempo."



Shakespeare




"Nem o mármore, nem os áureos mausoléus,
Direi que morrerás e não se lembrarão de teu passado."

 MacLeish 





O Uivo - Allen Ginsberg (fragmento)


Para Carl Solomon

 I

Eu vi os expoentes da minha geração, destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, 
arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa,
hipsters com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,
que pobres esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos  miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando o jazz,
que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram anjos maometanos cambaleando iluminados  nos telhados das casas de cômodos,
que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de Blake entre os estudiosos da guerra,
que foram expulsos das universidades por serem loucos & publicarem odes obscenas nas janelas do crânio,
que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestos de papel escutando o Terror através da parede,
que foram detidos em suas barbas púbicas voltando por Laredo com um cinturão de marihuana para Nova Iorque,
que comeram fogo em hotéis mal pintados ou beberam terebentina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus torsos noite após noite com som, sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e caralhos em intermináveis orgias,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula, e clarão na mente pulando nos postes dos pólos de Canadá & Paterson, iluminando completamente o mundo imóvel do Tempo intermediário,
solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal das verdes árvores do cemitério, porre de vinho nos telhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de neon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vibrações de sol e lua e árvore no tronco de crepúsculo de inverno de Brooklyn, declamações entre latas de lixo e a suave soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta, trêmulos, a boca arrebentada o despovoado deserto do cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zoológico,
que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford´s, voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no desolado Fuggazi´s escutando o matraquear da catástrofe na vitrola automática de hidrogênio,
que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao bar ao Hospital Bellevue ao Museu à Ponte do Brooklyn,
batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gradis das escadas de emergência dos parapeitos  das janelas do Empire State da Lua,
tagarelando, berrando, vomitando, sussurrando fatos e lembranças e anedotas e viagens visuais e choques  nos hospitais e prisões e guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os olhos brilhando por sete dias e noites,  carne para a sinagoga jogada à rua,
que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum deixando um rastro de postais ambíguos  do Centro Cívico de Atlantic City,
sofrendo suores orientais, pulverizações tangerianas de ossos e enxaquecas da China por causa da falta da droga no quarto pobremente mobiliado de Newark,
que deram voltas e voltas à meia noite no pátio da ferrovia perguntando-se aonde ir e foram, sem deixar corações partidos,
que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga, vagões de carga, que rumavam ruidosamente pela neve até solitárias fazendas dentro da noite do avô,
que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia  e bop-cabala pois o Cosmos instintivamente  vibrava a seus pés em Kansas,
que passaram solitários pelas ruas de Idaho procurando anjos índios e visionários que eram anjos índios e visionários
que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu em estase sobrenatural,
que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma  no impulso da chuva de inverno na luz das ruas da cidade pequena à meia-noite,
que vaguearam famintos e sós por Huston procurando jazz ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para conversar sobre a América e a Eternidade, inútil tarefa, e assim embarcaram  num navio para a África,
que desapareceram nos vulcões do México nada deixando além da sombra das suas calças  rancheiras e a lava e a cinza da poesia espalhadas  pela lareira Chicago,
que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais nas suas peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,
que apagaram cigarros acesos nos seus braços protestando contra o nevoeiro narcótico de tabaco do Capitalismo,
que distribuiram panfletos supercomunistas em Union  Square, chorando e despindo-se enquanto as Sirenes de Los Alamos os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam pela Wall Street e também gemia a balsa de Staten Island
que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,
que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos carros de presos por não terem cometido outro crime a não ser sua transação pederástica e tóxica,
que uivaram de joelhos no metrô e foram arrancados do telhado sacudindo genitais e manuscritos,
que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e berraram de prazer,
que enrabaram e foram enrabados por esses serafins humanos, os marinheiros, carícias de amor  atlântico e caribeano,
que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na grama de jardins públicos e cemitérios,  espalhando livremente seu sêmen para quem quisesse vir,
que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acabaram choramingando atrás de um tabique  de banho turco onde o anjo loiro e nu veio trespassá-los com sua espada,
que perderam seus garotos amados para as três megeras do destino, a megera caolha do dólar heterossexual, megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe sentar sobre sua bunda retalhando os dourados fios intelectuais do tear do artesão,
que copularam em êxtase insaciável com um garrafa de cerveja, uma namorada, um maço de cigarros, uma  vela, e caíram na cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a parede com uma visão da boceta final e acabaram sufocando o derradeiro lampejo da consciência,
que adoçaram as trepadas de um milhão de garotas trêmulas ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos  no dia seguinte mesmo assim prontos  para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,
que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados à noite, N.C., herói secreto destes  poemas, garanhão e Adônis de Denver – prazer ao lembrar suas incontáveis trepadas com garotas  em terrenos baldios & pátios dos fundos de  restaurantes de beira de estrada, raquíticas fileiras de poltronas de cinema, picos de montanha cavernas com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias solitário à beira da estrada & especialmente secretos solipsismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade  natal também,
que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados em sonho, acordaram num Manhattan súbito e conseguiram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de Tokay e horror dos sonhos de ferro da Terceira Avenida &  cambalearam até as agências de desemprego,
que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue pelo cais coberto por montões de neve, esperando que uma porta se abrisse no East River dando para um quarto cheio de vapor e ópio,
que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de apartamentos do Huston à luz azul de holofote antiaéreo da luta & suas cabeças receberão coroas de louro no esquecimento,
que comeram o ensopado de cordeiro da imaginação ou digeriram o caranguejo do fundo lodoso dos Rios de Bovery,
que choraram diante do romance das ruas com seus carrinhos de mão cheios de cebola e péssima música,
que ficaram sentados em caixotes respirando a escuridão sob a ponte e ergueram-se para construir clavicórdios em seus sótãos, 
que tossiram num sexto andar do Harlem coroando de chamas sob um céu tuberculoso rodeados pelos  caixotes de laranja da teologia,
que rabiscaram a noite toda deitando e rolando sobre invocações sublimes que ao amanhecer amarelado revelaram-se versos de tagarelice sem sentido,
que cozinharam animais apodrecidos, pulmão coração pé rabo borsht & tortilhas sonhando com o puro reino vegetal, 
que se atiraram sob caminhões de carne em busca de um ovo,
que jogaram seus relógios do telhado fazendo seu lance de aposta pela Eternidade fora do Tempo & despertadores caíram em suas cabeças por todos os dias da década seguinte,
que cortaram seus pulsos sem resultado três vezes seguidas, desistiram e foram obrigados a abrir  lojas de antiguidades onde acharam que estavam ficando velhos e choraram,
que foram queimados vivos em seus inocentes ternos de flanela em Madison Avenue no meio das rajadas de versos de chumbo & o estrondo contido dos batalhões de ferro da moda & os guinchos  de nitroglicerina das bichas da propaganda & o gás mostarda de sinistros editores inteligentes ou foram atropelados pelos taxis bêbados  da Realidade Absoluta,
que se jogaram da ponte de Brooklyn, isso realmente aconteceu, e partiram esquecidos e desconhecidos para dentro da espectral confusão das ruelas de sopa & carros de bombeiros de Chinatown,  nem uma cerveja de graça,
que cantaram desesperados nas janelas, jogaram-se da janela do metrô saltaram no imundo rio Paissac, pularam nos braços dos negros, choraram pela rua afora, dançaram sobre garrafas  quebradas de vinho descalços arrebentando nostálgicos discos de jazz europeu dos anos 30  na Alemanha, terminaram o whisky e vomitaram  gemendo no toalete sangrento, lamentações nos ouvidos e o sopro de colossais apitos a vapor,
que mandaram brasa pelas rodovias do passado viajando pela solidão da vigília da cadeia de Gólgota de carro envenenado de cada um ou então a encarnação do Jazz de Birmingham,
que guiaram atravessando o país durante setenta e duas  horas para saber se eu tinha tido uma visão ou se ele tinha  tido uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajaram para Denver, que morreram em Denver, que retornaram a Denver & esperaram em vão,  que espreitaram Denver & ficaram parados pensando  & solitários em Denver e finalmente partiram para descobrir o Tempo & agora Denver está saudosa de seus heróis,
que caíram de joelhos em catedrais sem esperança rezando por sua salvação e luz e peito até que a alma iluminasse seu cabelo por um segundo,
que se arrebentassem nas suas mentes na prisão aguardando impossíveis criminosos de cabeça dourada e o encanto da realidade em seus corações que entoavam suaves blues de Alcatraz,
que se recolheram ao México para cultivar um vício ou às Montanhas Rochosas para o suave  Buda ou Tânger para os garotos do Pacífico Sul  para a locomotiva negra ou Havard para Narciso  para o cemitério de Woodlaw para a coroa de flores para o túmulo,
que exigiram exames de sanidade mental acusando o rádio de hipnotismo & foram deixados com sua loucura & e mãos & um júri suspeito,
que jogaram salada de batata em conferencistas da Universidade de Nova Iorque sobre Dadaísmo  e em seguida se apresentaram nos degraus de granito do manicômio com cabeças raspadas e fala de arlequim sobre suicídio, exigindo lobotomia imediata,
e que em lugar disso receberam o vazio concreto da insulina metrazol choque elétrico hidroterapia  psicoterapia terapia ocupacional pingue-pongue  & amnésia,
que num protesto sem humor viraram apenas uma mesa simbólica de pingue-pongue mergulhando logo a seguir na catatonia, 
voltando anos depois, realmente calvos exceto por uma peruca de sangue e lágrimas e dedos para a visível condenação de louco nas celas das  cidades-manicômio do Leste,
Pilgrim State, Rockland, Greystone, seus corredores  fétidos, brigando com os ecos da alma, agitando-se e rolando e balançando no banco de solidão à meia-noite dos domínios de mausoléu  druídico do amor, o sonho da vida um pesadelo, corpos transformados em pedras  tão pesadas quanto a lua,
com a mãe finalmente ***** e o último livro  fantástico atirado pela janela do cortiço e a última  porta fechada às 4 da madrugada e o último telefone arremessado contra a parede em resposta e o último quarto mobiliado esvaziado até a última peça de mobília mental, uma rosa de papel  amarelo retorcida num cabide de arame do armário e até mesmo isso imaginário, nada mais que um bocadinho esperançoso de alucinação –
ah, Carl, enquanto você não estiver a salvo eu não estarei a salvo e agora você está inteiramente  mergulhado no caldo animal total do tempo – 
e que por isso correram pelas ruas geladas obcecadas por um súbito clarão da alquimia do uso da elipse do catálogo do metro inviável & do plano vibratório,
que sonharam e abriram brechas encarnadas no Tempo & Espaço através de imagens justapostas e capturaram o arcanjo da alma entre 2 imagens visuais e reuniram os verbos elementares e juntaram o substantivo e o choque da consciência saltando numa sensação de Pater Omnipotens Aeterne Deus,
para recriar a sintaxe e a medida da pobre prosa humana e ficaram parados à sua frente, mudos e  inteligentes e trêmulos de vergonha, rejeitados todavia expondo a alma para conformar-se ao ritmo do pensamento em sua cabeça nua e infinita,
o vagabundo louco e Beat angelical no Tempo, desconhecido mas mesmo assim deixando aqui o que houver para ser dito no tempo após a morte,
e se reergueram reencarnados na roupagem fantasmagórica do jazz no espectro de trompa dourada da banda musical e fizeram soar o sofrimento da mente nua da América pelo amor num grito de saxofone de eli eli lama lama sabactani que fez com que as cidades tremessem  até seu último rádio,
com o coração absoluto do poema da vida arrancado de seus corpos bom para comer por mais mil anos.

(continua)