CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

29 de agosto de 2009

Zeno

"The earth was made round so that one cannot see too far down the road."
(Kurt Luedtke)

A Consciência de Zeno: Italo Svevo - 28/08/2009










"E' plenilunio, prendete un binocolo e fatevi a considerare il disco della Luna nel cielo. ... Senza grande lavorio della fantasia coglierete il vasto profilo della testa capelluta dell'uomo rivolta a sinistra. All'opposto semicerchio rileverete la rotonda testina della donna ... Essa e' di faccia, un po' inclinata, perduta in un mare di capelli. Di lei si scorge l'occhio, la guancia ed un filo de' labbri avvicinati al labbro di lui. ... Cosa eterea; i volti, un ineffabile sorriso e la donna ancora più bellissima donna. Adunque lassu', nel ciel della Luna, vi sono gli archetipi dell'uomo e della donna ..."
(Il bacio nella Luna - Filippo Zamboni)




(estofando)

1 de agosto de 2009

Elogio da Madrasta

O livro, Elogio da Madrasta, de Mário Vargas Llosa, nos apresenta uma novela bem medida: um pouco de sofisticação, com incursões pelo universo mitológico e pelas artes, mais uma pitada de humor e ironia. Junte-se a isso o controverso erotismo contido na trama. Há quem afirme que “o livro foi escrito sob encomenda para um amigo cineasta que coordenava uma coleção de narrativas eróticas”. Mas não importa o motivo que tenha levado Mário Vargas Llosa a escrever o livro, a sorte foi toda nossa; afinal, o Elogio da Madrasta é uma jóia bem lapidada pelo peruano.

Dom Rigoberto, dona Lucrécia e Afonso, ou Fonchito, o filho de Dom Rigoberto, são os três personagens significantes da trama de Vargas Llosa. Antes do desenrolar fatídico do triângulo amoroso: pai, filho e madrasta, o autor faz uso de um recurso que lembra a obra machadiana. Em Dom Casmurro, no capítulo 10, o narrador — no contexto de uma ópera—, diz metaforicamente:

“Cantei um duo terníssimo, depois um trio, depois um quatuor”.

Era a previsão do romance de Capitu com Bentinho, depois, o suposto triângulo amoroso envolvendo o amigo Escobar, e adiante o nascimento do filho, que se tornaria uma angustiante dúvida para ele, que às voltas com a idéia da infidelidade de Capitu, chegaria a ver no menino os traços de Escobar. Para Dom Rigoberto as coisas não se tornarão tão dramáticas, mas prevê algo em relação a um triângulo amoroso:

“Porque a felicidade era temporária, individual, excepcionalmente dual, raríssima vez tripartida”.

É a previsão do triângulo amoroso entre Dom Rigoberto, Lucrecia e Afonso.


ALGUMAS IMPRESSÕES:

Dona Lucrecia, a adorável esposa de Dom Rigoberto, é lindamente bem representada nos recortes “histórico-mitológicos”, que a meu ver são recursos bem utilizados pelo autor para representar o essencial erótico da obra. Numa hora é a esposa e objeto de “Voyeur” de Candaules, rei da Lídia, e do seu guarda e ministro, Giges.

“Enquanto a acariciava, me aparecia na mente a cara barbada de Giges e a idéia de que ele estava nos vendo me efervescia ainda mais, polvilhando meu prazer com um tempero agridoce e picante até então ignorado por mim. E ela? Adivinhava alguma coisa? Sabia de algo? [...] quem sabe pressentia que, nessa noite, quem gozava naquela habitação avermelhada pelo fogo e pelo desejo não éramos dois, e sim três.”

Noutra, é Diana, a deusa romana, que logo após o banho, bem que poderia eternizar, com Justiniana, um poema de Safo, a ilustre poetisa de Lesbos.

“À minha direita, inclinada, olhando o meu pé, está Justiniana, minha favorita. Acabamos de tomar banho e vamos fazer amor.”

Naqueloutra, é também Vênus, a quem Dom Rigoberto gosta que o entreguem assim:

“...ardente e ávida, com todas as prevenções morais e religiosas suspensas, e sua mente e seu corpo sobrecarregados de apetites.”

Nesses episódios, o que poderia despertar os protestos feministas seria a representação bem humorada de dona Lucrecia como a mulher de Candaules, rei da Lídia. O seu gosto pela garupa da esposa, a posição submissa da mulher cavalgada como uma égua: Que maldade!

“Não traseiro, nem bunda, nem nádegas nem rabo, e sim garupa. Porque quando eu a cavalgo, a sensação que me arrebata é essa: a de estar sobre uma égua musculosa e aveludada, puro nervo e docilidade.”

É claro que tudo se desenrola como representação da felicidade erótica, que é, certamente, o que Dom Rigoberto e dona Lucrecia experimentam com maior intensidade na narrativa principal. Para Dom Rigoberto, Lucrecia era a sua fonte de felicidade, assim como as suas abluções intermináveis e obsessivas. Para Dom Rigoberto, a felicidade passa pelo corpo, o de Lucrecia e o dele, por isso a obsessão pelas abluções, a purificação do corpo como num ritual religioso.

“Ouvir a voz dela, confirmar a sua proximidade e a sua existência, encheu-o de satisfação.”A felicidade existe”, repetiu, como todas as noites. Sim, desde que fosse procurado onde era possível, no corpo próprio e no da amada, por exemplo; a sós e no banheiro; durante horas ou minutos numa cama compartilhada com o ser tão desejado.”

“Espaço mágico, território feminino, bosque dos sentidos”, procurou metáforas para o pequeno país que Lucrecia habitava. “Meu reino é uma cama”, decretou. “O banheiro era seu templo, a pia, o altar dos sacrifícios; ele era o sumo sacerdote e estava oficiando a missa que toda noite o purificava e o redimia da vida”.

Há também, é claro, a possibilidade de as abluções de Dom Rigoberto representarem um recurso satírico, destinado a alimentar, como não poderia deixar de ser, suas sempre polêmicas incursões pelo universo político.

“Quando jovem tinha sido militante entusiasta da Ação Católica e sonhado mudar o mundo. Logo entendeu que, como todos os ideais coletivos, aquele era um sonho impossível, condenado ao fracasso. Seu espírito prático o induziu a não perder tempo travando batalhas que mais cedo ou mais tarde ia perder. Conjecturou então que o ideal de perfeição talvez fosse possível para o indivíduo isolado, restrito a uma esfera limitada no espaço (o asseio ou a higienização corporal, por exemplo, ou a prática erótica) e no tempo (as abluções e borrifamentos noturnos de antes de dormir).”

Pelo contexto histórico da obra, talvez tenha sido um recado aos extratos progressistas da Igreja Católica, então organizados sob a bandeira da Teologia da Libertação, para muitos, filha da velha Ação Católica, originalmente conservadora, mas convertida aos ideais socialistas. Vejamos esta outra frase:

“Meu Corpo é aquele impossível, a sociedade igualitária”.

O autor, num tom irônico, sugere através do personagem de Dom Rigoberto, que a conquista da felicidade, sendo individual, passa pelo culto ao corpo (as abluções também têm sentido religioso, mas não interessam a Dom Rigoberto), a personalidade e a prática erótica, como já explicitado pelo próprio autor. Se a felicidade de Dom Rigoberto depende de tais elementos, a profanação do corpo de Lucrecia, sua hóstia consagrada e depois ofendida pela violação da pertença, quando lhe é revelado que Lucrécia teria tido um “orgasmo gostosíssimo” (sem que tenha sido com ele, é claro), significa uma ruptura num dos elementos, o corpo de Lucrecia. Com isso, desmorona todo o microcosmo da felicidade de Dom Rigoberto.

Já o “caso Fonchito” é enigmático. Creio que o menino dissimula bem seu verdadeiro objetivo: livrar-se da madrasta. Vargas Llosa genialmente constrói uma figura ingênua, frágil, dócil, mas que demonstra astúcia ao longo da trama. É provável que a história do suicídio tenha sido premeditada pelo menino, como forma de “chantagear” a madrasta. Toda a devoção de Fonchito, toda ingenuidade, me parece parte de um plano macabro. Que outro intento teria o menino ao mostrar uma redação reveladora ao pai, e que viria a causar a separação dos dois, de Dom Rigoberto e Lucrecia? Será que o menino tinha toda aquela inocência em relação ao sexo a ponto de nem saber o que era um orgasmo? O desfecho do livro parece revelador, pois Fonchito não demonstra nenhum remorso.

(Contribuição de Antonio Rodrigues)

A reunião ocorreu em 31/07/2009.