CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

31 de janeiro de 2013

O Retorno segundo a Paixão



video
Gentilmente cedido pela Sacerdotisa do CLIc

30 de janeiro de 2013

Que tal participar de nossa brincadeira de Carnaval?



Vamos construir uma crônica a várias mãos, que nem aquela brincadeira onde um fala uma frase e o outro continua a história, lembra?

Para você se inspirar, e já que este ano comemoramos o centenário do escritor Rubem Braga, mestre da crônica brasileira, selecionamos, com a ajuda do escritor Carlos Rosa, duas crônicas de Carnaval do Rubem. Clicando nos links abaixo você pode lê-las.






Para participar da construção coletiva, basta você publicar no campo “Comentários” uma frase ou parágrafo sobre o tema Meu carnaval preferido. Ao final teremos nossa estória montada.

Você tem até o dia 1º de fevereiro às 12h para participar, ok? mas quanto antes, melhor, para que a estória se desenvolva e permita acréscimos e outras considerações.

Os participantes concorrem ao sorteio de um livro, que será efetuado na reunião do CLIc, na sexta, dia 1º de fevereiro, na livraria da EdUFF.

Participe e boa sorte!

27 de janeiro de 2013

BOLINHA



Hélio José lima Penna


            Era cedo, quando o pedreiro Jesuíno saiu de casa, rumo ao batente. Do portão, olhou com ternura para a sua cachorra. O bicho estava no seu canto, quieto, o focinho sobre as patas, os olhinhos no pedreiro, a se despedir.
            
          - Tu fica aí, Bolinha. Não vem atrás, não – ordenou. A cachorra abriu a boca, cerrou os olhos, fingiu sono.
            
Jesuíno atravessou a viela e alcançou o pontilhão sobre o rio. Dali, olhou disfarçadamente para trás: Bolinha o seguia, sorrateira.

            
             - Eu não te mandei ficar, cachorra? Anda, vai!

            Pegou um galho e lançou no animal. O galho caiu no rio; não assustou o bicho, que se deitou tranquilamente.

            Jesuíno apanhou uma pedra e ameaçou:              
                    
            - Num tô brincando, Bolinha! Tu me respeita, cachorra!

            O pedreiro, então, atirou a pedra, que a fez correr um pouco e se esconder num dos degraus da ponte improvisada. Lá embaixo o rio, que invadia as casas do bairro, inclusive a do pedreiro.

            “Ô cachorra da peste!”, resmungou, preocupado com a hora. Uma vez se atrasou no serviço por causa dela que insistiu em segui-lo. Foi obrigado a carregá-la nos braços e prendê-la. Culpou-a pelo atraso. O encarregado da obra ouviu a explicação, fingindo interesse. Outros empregados se aproximaram. Era uma cachorra nova e dócil, contava, entusiasmado. Precisavam ver o chamego. Temia o seu atropelamento.  Depois do relato, Jesuíno ouviu as gargalhadas do encarregado e dos seus colegas. E dali o deboche não parou mais. Chamavam-no de Bolinha. Imitavam latidos, quando ele passava. O pedreiro esteve a ponto de fazer uma besteira com um cabra que pusera ossos na sua bolsa. Pediu demissão.

            A lembrança desse episódio o fez sentir uma raiva incomum. Olhou na direção da cachorra: ela estava de pé, as orelhas espertas, pretendia segui-lo. O pedreiro achou outra pedra e arremessou-a com violência.

 Atingida na cabeça, ela saiu correndo, ganindo. Cheia de surpresa e dor. Jesuino afastou-se. Tinha pressa de chegar ao trabalho.

            Na obra, as horas se arrastavam. Ele não produzia o necessário. No almoço, não teve fome. Estava amargurado. Pensava no animal, tornava a ouvir os seus ganidos de dor.

            À noitinha, ele foi recebido no portão pela mulher, os filhos, as vizinhas e outras crianças. Contaram-lhe que um malvado apedrejara Bolinha. Ferida, ela escondeu-se debaixo da casa. Quando os meninos tentavam retirá-la, ela rosnava, mostrava os dentes.

            Jesuíno agachou-se, e rastejou por baixo do casebre. Estava escuro e úmido. Tateou com dificuldade e sentiu o pelo da bichinha em suas mãos grossas. Puxou-a com cuidado. Fizeram uma roda. No centro o pedreiro e sua cachorra. Trouxeram água. Ele lavou a cabeça do animal, retirando a terra e o sangue com muito jeito. Ela tremia e gemia baixinho. O ferimento era próximo do olho esquerdo. Quase cegam a pobrezinha, disseram. Quanta ruindade!

             Foi tratada com arnica, aroeira e saião. Diariamente, o pedreiro olhava-a com afeto e arrependimento. O corte cicatrizava, o inchaço diminuía, graças a Deus.

  Tempos depois, o animal recuperou-se. Até que, numa manhã, ele viu a cachorra seguindo-o como antes:

            - Bolinha, volta! Anda, vai pra casa!

22 de janeiro de 2013

Olha quem está no CLIc!!!


Cristiana e Agualusa







Agualusa está no CLIc este mês com seu "As Mulheres do meu Pai" e em breve será a vez de "Teoria Geral do Esquecimento" em um círculo de biblioterapia com Cristiana Seixas. Clic na foto acima e saiba mais.






Leia quem leu


20 de janeiro de 2013

Sobre “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”


(por W. B.)

Recentemente reli o romance "Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá" do mestre Afonso Henriques de Lima Barreto. O exemplar que tenho é uma bonita publicação da Editora Garnier, o volume 4 da Coleção dos Autores Modernos da Literatura Brasileira, com expressivos desenhos de Poty (artista competente que costuma ilustrar trabalhos do contista Dalton Trevisan na Ed. Record). Meu livro data de 1990, mas ainda está novinho.

O Diário de Notícias foi o primeiro veículo a divulgar um capítulo do romance, em 1910. A primeira edição como livro só veio em 1919, malgrado a obra já estivesse completa desde 1909.
.
Trata-se de literatura que simula a estrutura da biografia, um livro de ficção flertando com o documental. Satiriza pomposas vidas de burgueses contadas no período. Logo de início, o personagem narrador Augusto Machado escreve que a idéia da obra nasceu nele da "leitura diurna e noturna" das biografias feitas por Pelino Guedes. Este era o autor mais adotado nas escolas brasileiras por volta de 1910; Lima frequentemente lhe dava alfinetadas através de contos, crônicas e artigos. Nesse romance o alvo são biografias de ministros que Pelino escrevia aos montes para agradar a poderosos – ironicamente, o narrador declara que (a exemplo do biógrafo de ministros), depois dessa primeira biografia, iria fazer mais "duas dúzias".

"Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá" é contraponto às trajetórias fúteis de figurões. É a narrativa da vida de um simples funcionário público sem posses ou riquezas, mas cheio de sensibilidade, amor à cultura, autonomia de pensamento.

Provavelmente o cacófato M.J. ("mijota") foi forjado de propósito para ressaltar jocosamente o pouco destaque que Gonzaga de Sá tinha na sociedade. Afinal, "mijota" não lembra "mijadinha", "merreca", "bagatela", "coisa à-toa"?

Logo no capítulo 1, começa a ser caricaturada a burocracia governamental, num episódio envolvendo salva de tiros devida a um clérigo. O bispo de Tocantins, ao entrar no porto de Belém, teve como honraria uma série de 17 disparos, porém acendeu-se logo grande polêmica: seriam 17 ou 18 os tiros regulamentares? Toda uma gama de seções e departamentos estatais se movimenta para esclarecer a questão. Pouco depois surge outra controvérsia: quantas setas deve haver na imagem de São Sebastião? Hilário!

No livro, pedantismo, arrogância e futilidade vão se personificar no caricatural Xisto Beldroegas, colega de Gonzaga de Sá na repartição pública. O personagem Xisto manifesta tão grande culto às formalidades burocráticas que considera absurdo não ser documentado quantos dias choveu no ano. Acha que o mundo todo se rege por decretos, circulares, avisos, provimentos, portarias, resoluções administrativas... Para ele, nada existe fora disso. Uma vez Augusto Machado falou a Xisto sobre a lei da hereditariedade. Beldroegas se escandalizou:

"– Lei! exclamou. Isso lá é lei!
"– Como?
"– Não é. Não passa de uma sentença de algum doutor por aí... Qual o parlamento que a aprovou?" (p. 110)

Até hoje não há quem diga que só é certo aquilo que virou lei votada pelos políticos? Muita gente por aí ainda é escravo da legalidade burguesa, aceitando absurdos legais e maldizendo ações diretas populares não amparadas por normas jurídicas – feito o ridículo Xisto Beldroegas. O romance é formado por capítulos numerados e com títulos. Tais segmentos têm certa independência, podendo – nuns casos – ser lidos isoladamente: igual a contos ou crônicas. Em verdade, o texto pode ser encarado como uma grande crônica do universo fluminense no início do século 20. Há passagens em Petrópolis; na Praia das Flexas (de Niterói); na Central do Brasil, Rua do Ouvidor (na cidade do Rio)... Augusto Machado e Gonzaga de Sá vagueiam sem pressa, contemplando o ambiente, valorizando patrimônio histórico e natureza numa época em que pouquíssimos falavam de ecologia e preservação arquitetônica.

O ficcional se aproxima do real quando, no Café Papagaio, Augusto Machado se encontra com a turma do "Esplendor dos Amanuenses", grupo que existia de fato, integrado pelo próprio Lima Barreto e amigos como Domingos Ribeiro Filho, os quais eram mesmo assíduos no Café Papagaio, mais barateiro e menos formal que a Colombo (existente até hoje) e outros estabelecimentos frequentados por escritores bem posicionados na sociedade.

Essa "boa posição" não alcançada por Lima na época, de forma nenhuma pode desmerecê-lo a nossos olhos. Augusto Machado, Gonzaga de Sá e a turma "Esplendor dos Amanuenses" têm muito mais a oferecer à humanidade que Xisto Beldroegas, Barão do Rio Branco, Pelino Guedes e outros que alcançam fácil "êxito" mundano. Nesse sentido, vemos na página 62 uma interessante frase do libertário Domingos Ribeiro Filho: "Todo vitorioso é banal".

Nota: Vida e morte de M. J. Gonzaga também pode ser encontrado na íntegra em: http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/00123200#page/1/mode/1up

("VIDA E MORTE DE M.J. GONZAGA DE SÁ" FOI DEBATIDO NO CLUBE DE LEITURA DE ICARAÍ EM 04/05/12)

As mulheres do meu pai: Agualusa


Bom dia, grupo

Há um silêncio sobre a leitura de "As mulheres de meu pai" que me impele a comentar uma qualquer coisa. Já disse que adorei o livro, para mim, nota 10. Achei a chave na primeira página e foi o primeiro livro que me lembro de ter que voltar ao início, após finda a última página. Não reli todo, mas diversos trechos, para uma melhor compreensão. Cheguei a fazer um esquema de ordem cronológica para as páginas e relacionei diversos dos personagens para não me perder. Acho que um escritor que escreve assim tem um q de genial e é muito bom ter um gênio em casa, ao alcance da mão e dos olhos.

O livro é complexo, narra a história de vários personagens em paralelo, alternando os narradores, que não se identificam. O leitor precisa entrar na estória e pensar como pensam os personagens, que se misturam no filme e na ‘vida real’. Tem suspense, revelação da conclusão sem que isso tire a curiosidade do leitor, vai e vem no tempo, relatando alternadamente fatos que aconteceram fora de ordem, traz dados culturais muito interessantes sobre a África e há várias citações do Brasil e brasileiros, tiradas engraçadas, é um livro completo que nos leva a pensar e repensar . A fidelidade, a diversidade do comportamento cultural, as aparências e seus traiçoeiros julgamentos, a mentira, a verdade, o sonho e a fantasia, por exemplo. É poético, é mágico, é real.

Dentre tantos personagens ricos e interessantes, gostei especialmente de Pouca Sorte, o que dirigia a Malembelembe,. Esse personagem tem muitos segredos que vão sendo desvendados aos poucos, e revelam-se a nós, assim como às vezes nos damos conta, nós mesmos, de quem somos, de quem assumimos que somos, de quem queremos ser. É uma descoberta, um encantamento.

E você, qual seu personagem favorito? Por que?

Deixo com vocês o esquema de páginas que fiz para me facilitar.


Ordem de leitura

Ordem
Data
Página
Local
0
24/6/2005
37
RJ, Brasil
1
30/10/2005
85
Luanda, Angola
2
31/10/2005
89
Canjala
3
31/10/2005
97
Porto Amboim
4
2/11/2005
117
Lobito
5
3/11/2005
150
Lubango, Angola
6
4/11/2005
161
Namibe
7
5/11/2005
165
Oncócua, Angola
8 - início
6/11/2005
19
Oncócua, Angola
9
7/11/2005
179
Swakopmund, Namíbia
10
15/11/2005
219
Capetown, África do Sul
11
17/11/2005
251
Trans-Karoo (entre Capetown e Joanesburgo)
12
18/11/2005
263
Maputo (pulou Quelimane), avião para Nampula
13
19/11/2005
350
Ilha de Moçambique
14
11/03/2006
387
Luanda, Angola
15
23/03/2006
57
Durban, África do Sul
16
23/03/2006
455
Durban, África do Sul
17
27/07/2006
195
Lisboa, Portugal
18
31/07/2006
199
Salvador, Brasil
19
12/09/2006
325
Quelimane, Moçambique
20
14/09/2006
287
Maputo
21
01/10/2006
65
Luanda
22
16/02/2007
463
Luanda
23
04/03/2007
517
Luanda
24
16/03/2007
549
Lobito, Angola


Beijos,

Rita Magnago
Última atualização do blog: 13/01/2013
Confira em

16 de janeiro de 2013

Por que eu gosto das estrelas?: Aquiles Andrade




Eu gosto das estrelas! Já inventei mil explicações para a existência delas, já dirigi a elas mil preces, já confessei a elas mil pecados. Mas o fato é que todas essas argumentações filosóficas aumentam minha admiração pelas estrelas. Tantas reflexões que às vezes me oprimem, mas outras vezes me libertam, entretanto é nesse leque de sensações que elas me fazem  trafegar.

Gosto quando os doutores da ciência anunciam suas novas descobertas sobre elas e penso com os meus botões: acho que eu já intuía isso há muito tempo! Gosto das estrelas de forma diferente de quando se diz gostar de outras coisas. Explico. É que com elas o meu gostar não é possessivo, não é exclusivista, pois gosto das estrelas mesmo sabendo que milhões de pessoas gostam e quanto mais penso que mais gente está olhando pra elas, mais eu gosto delas.
 Como se sabe, as estrelas nos parecem pequeninas, porque estão situadas a milhões de anos luz, mas mesmo assim, apesar de tão distantes e aparentemente tão fraquinhas, minha admiração por elas não faz diferença.
Falei das estrelas pra muita gente. Pra algumas eu sentia que as palavras proferidas batiam naquela mesma região que batia em mim, fazendo tremer o coração e brilhar os olhos, enquanto outras me olhavam e como se estivessem querendo dizer : “ora, direis ouvir estrelas”!
Mas todas pessoas sem exceção me ouviam. Sim, porque quem há de não ouvir quem fala das estrelas? Ou é um poeta, ou é um louco, ou as duas coisas.
Herodes, não podia ouvir falar das estrelas. Ainda mais que elas, na sua impassível distância, vaticinavam o nascimento de um rei. E não faltaram em todo o oriente quem não queria ouvir falar de estrelas, acreditaram tanto que prestavam honras pra este anunciado rei.
           Herodes não gostava de estrelas. Elas o oprimiam.
Dizem que Abrahão, o patriarca da fé judaica, se iniciou na sua jornada de conduzir os povos semitas para comunicarem com Deus, quando olhava para as estrela. Puxa vida, como eu imagino que sei o que se passava na cabecinha de Abrahão! Posso até imaginar seu diálogo com elas: Como você é bonita! A qual tribo você pertence?  Será que me vê! Como eu queria saber de você? A resposta silenciosa da estrela instilou Deus dentro de Abrahão. 
Eu falei muito de estrelas, falei tanto que um dos filhos virou “astrônomo”. E os outros todos vivem no mundo das estrelas, como diria a Ofélia, aquela do antigo programa de televisão “Balança mas não cai”, que só abria a boca quando tinha certeza, referindo-se ao dito popular dos que vivem no mundo da lua.
Também desenhei muitas estrelas, entre as quais a Estrela de Davi e de Salomão, de cinco e de seis pontas, estrelas de 42 pontas referentes aos antepassados ancestrais de Jesus, estrelas sem ponta, que não aponta nem desaponta.
 Enfim, estrelas me acompanharam. até aquela estrela que me acompanhou mais de perto, que me deixou (temporariamente), que secretamente viveu aqui na Terra, sem que o mundo soubesse que era uma estrela, que viveu brilhando, ainda que escondida, e que aqui assumiu o nome de Isabel e que foi a razão secreta pra eu gostar tanto de estrela.

Nocaute à vista!






15 de janeiro de 2013

Obra artística onde convivem óticas variadas


(por: W. B.)

“A Caixa-preta” (Kufsa Chhora) – livro de Amós Oz, romancista israelense atual (nascido 04/05/39) mais traduzido pro Português – foi lançado em 1987, mas, ambientado no ano de 1976. É composto por correspondências: 51 cartas e 56 telegramas trocados entre os personagens. Essa estrutura, mesmo incomum, não constitui novidade na historia da literatura: é o chamado romance epistolar, do qual são exemplos “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (Die Leiden des Jungues Werthers), escrito pelo alemão Johan Wolfgang Goethe (1749-1832), bem como “Relações Perigosas” (Les Liaisons Dangereuses), obra pertencente ao francês Pierre Ambroise François Choderlos de Laclos (1741-1803). Esses livros vieram a público em 1774 e 1782, respectivamente, enquadrando-se numa forma literária bastante popular naquele século 18.

Porém Amós Oz (cujo nome registrado é Amos Klausner) trouxe, em seu livro, algumas peculiaridades em relação aos escritos de Goethe e Laclos.

Lendo Werther, percebe-se que a voz desse personagem título domina quase absolutamente. O narrador surge ao início afirmando ter juntado tudo quanto lhe foi possível recolher a respeito do “pobre Werther”, a cujas cartas temos acesso a partir daí. São correspondências dum mesmo remetente e todas endereçadas a Wilhem: as respostas não aparecem para nós. O narrador volta ao final do romance pra relatar o destino do protagonista. A estrutura, como se vê, é mais semelhante a um diário que propriamente a um romance epistolar.

O livro de Laclos, em contrapartida, é multifacetado, composto por missivas trocadas entre vários personagens, as quais vão compondo a trama que está a se desenrolar no presente: repleta de artimanhas, adultério e seduções.

Já em “A Caixa-preta”, as cartas estão mais voltadas à exposição do passado dos personagens e seus sentimentos, do que a ações que ocorram na época em que são relatadas. Como a caixa-preta dum avião, o livro desvela o já acontecido na trajetória – e derrocada – do casal Alexander (Alex ou Alec) A. Guideon e Halina (Ilana) Brandstetter.


Muito interessante é a variedade de perspectivas presentes na obra. Cada remetente vai se despindo em seus escritos, desnudando sua visão de mundo, sentimentos e opiniões, diretamente, sem intromissão dum narrador onisciente pairando acima de todos eles.

Compreende-se a verdade de cada um, seus motivos e posicionamentos. Se num momento o intelectual Alex nos parece simplesmente frio, cruel; noutro o vemos também em suas dores, fragilidades e boas intenções em relação ao mundo, o qual quer ver sem guerras ou opressões religiosas. Ilana, a ex-mulher adúltera, também se move em favor do bem, sendo capaz de grandes sacrifícios, mesmo por quem já a ofendeu e agrediu. Seu novo marido Michel-Henri Sommo, embora fanático e, em geral, intolerante, opoia Ilana e, com generosidade, aconselha o filho dela (Boaz), ajudando-o a abandonar condutas violentas. Boaz, por sua vez, de agressivo, desregrado e inconsequente, vai aos poucos revelando seu lado doce, equilibrado, respeitoso com o próximo.

A escrita de cada personagem é bastante própria, e nós, leitores, ao início da correspondência, já percebemos de quem ela é, pelo estilo em que foi feita. Diferente do “Relações Perigosas”, que apresenta logo no início de cada carta o destinatário junto com o remetente; no livro de Oz, só na assinatura aparece explicitamente de quem ela veio.

Vários estilos textuais, múltiplos entendimentos sobre religião, família, política, sexo, amor, convivência, essa é a caixa-preta que nos é dada a interpretar para chegarmos a nossas próprias conclusões acerca do desastre que vive o ser humano hoje num mundo de guerras, fanatismos e incompreensão.

Fontes:
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0101-31062010000100007&script=sci_arttext;

http://pt.wikipedia.org/wiki/Amos_Oz.

(A CAIXA-PRETA FOI DEBATIDO NO CLUBE DE LEITURA DE ICARAÍ EM 03/02/12)

Que tal ler e comentar os melhores livros do ano?


A votação do CLIc para a escolha do melhor livro lido pelo Clube em 2012 ainda está aberta aqui no Blog (vai até o final de janeiro), mas uma outra turma de ‘responsa’ - José Castello, Guilherme Freitas e Suzana Velasco -, também fez suas escolhas para o melhor livro do ano, em geral (veja abaixo).


ROMANCES
A visita cruel do tempo - americana Jennifer Egan – Ed. Intrínseca
O céu dos suicidas - paulista Ricardo Lísias - Alfaguara
Solidão continental - gaúcho Gilberto Noll - Record
O sonâmbulo amador - pernambucano José Luiz Passos - Alfaguara
Barba ensopada de sangue - gaúcho Daniel Galera - Companhia das Letras
O retorno - portuguesa Dulce Maria Cardoso - Tinta da China

NOVELA
O sentido de um fim - inglês Julian Barnes - Rocco

HISTÓRIA
História da caricatura brasileira - carioca Luciano Magno - Gala edições

ENSAIO
O que resta - crítico Lorenzo Mammi - Companhia das Letras
Com Roland Barthes - crítica literária Leyla Perrone-Moisés - Martins Fontes
A cidade no Brasil - antropólogo baiano Antonio Risério - Editora 34

BIOGRAFIA
Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo - jornalista Mário Magalhães - Companhia das Letras

POESIA
Poemas - sírio Adonis - Companhia das Letras
Um útero é do tamanho de um punho - gaúcha Angélica Freitas - Cosac Naify
Formas do nada - carioca Paulo Henrique Britto - Companhia das Letras

Vai uma reunião ou um papo extra?


Com isso, surgiu uma proposta costurada a várias mãos: quem se interessar, compra e lê um dos livros da relação abaixo e, após uns dois meses, essa turma se reúne em uma data extra, em local a combinar, para cada um falar do livro que leu. Ao final da reunião, pode rolar troca/rodízio de livros e até uma nova indicação de leitura para o Clube. Que tal? Você gostaria de participar? Basta indicar no campo Comentário que livro você vai ler, para não haver escolha repetida.

13 de janeiro de 2013

Chico Lopes: "Clubes de leitura são fundamentais"


Nossa última entrevista de 2012 é um presente de Natal para todos os participantes do Clube. Com muito orgulho, o CLIc traz para você uma entrevista exclusiva com o grande escritor Chico Lopes, nosso participante virtual via facebook.


Chico foi agraciado este ano com o Prêmio Jabuti para seu livro mais recente, O estranho no corredor, sua primeira novela.


São dele também os livros de contos Nó de sombras (2000), Dobras da noite (2004) e Hóspedes do vento (2010).


Além de escritor, Chico Lopes, nascido em Novo Horizonte (SP), é pintor, crítico de cinema e literatura. Vive em Poços de Caldas (MG) desde 1992, e desde 1994 trabalha no Instituto Moreira Salles como programador e apresentador de filmes.

Confira a entrevista

By: Rita Magnago



Para nós do CLIc é um prazer muito grande ter um escritor de renome e premiado como participante virtual. Como surgiu essa interface com o Clube? O também escritor e amigo comum Carlos Rosa tem um dedinho aí?
Foi sim o Carlos Moreira Rosa quem me falou primeiro do clube e disse do prazer de estar aí com vocês, batendo papo sobre livros. Daí, fiz contato com Helena (Eloisa Helena) e esse papo começou a se tornar mais contínuo e a troca de ideias cada vez mais interessada. Tenho prazer e honra em ser entrevistado por vocês. Acho essas iniciativas - clubes de leitores, círculos de adeptos de autores, cultores da Literatura por prazer estético - fundamentais.



Que tipo de discussões literárias, temas contemporâneos ou imortais você recomendaria para alavancar ainda mais nosso clube na rede?
Não tenho outras sugestões a fazer. Vocês estão no caminho certo, e a simples existência do clube já é uma coisa bastante democrática, aberta às discussões, né? porque a literatura propicia isso, um diálogo civilizado entre pessoas baseado em gostos e concepções de vida. Vi que as escolhas do clube são ecléticas. Quanto a meus gostos pessoais, tenho uma grande propensão a ler clássicos (e a relê-los), de modo que a única coisa que me parecia interessante seria incluir títulos para Releitura, resultado de uma votação entre vocês que elegesse quais livros seriam dignos de uma repassagem. Porque aprendi, com o tempo, que livro relido é que é livro conhecido de fato. A primeira leitura pode ser apaixonante e agradável, mas a segunda e a terceira são iluminadoras do autor e da obra.


Qual a sua relação com os leitores? Eles costumam interagir e opinar sobre suas obras, enviam sugestões para novos livros?
Minha relação com os leitores, em geral, é de surpresa. Eles sempre enxergam em meus textos coisas que me espantam um pouco, porque eu não as tinha visto, e aí surge essa coisa que acho fundamental: a compreensão de que houve um ganho, um entendimento que só a literatura pode propiciar, e que esse ganho foi de parte a parte, porque um escritor também só cresce e se humaniza amplamente quando é lido. Lígia Fagundes Telles dizia que escrevia para ser amada. Creio que é a melhor definição possível. Ao escrever, damos algo do fundo de nós que tem esta expectativa: a de amor, de compreensão, de solidariedade transcendente. Sentimo-nos amados, quando bem lidos. Sentimo-nos compreendidos num plano superior ao da vida comum. Sempre respondo a todos os leitores que me escrevem, e tenho tido a sorte de não pegar nenhum daqueles que são particularmente azedos e ressentidos e querem nos punir por alguma coisa. Se eles me dão sugestões, levo-as em conta. Um livro é sempre feito para o leitor, ainda que possa ser o mais complexo e subjetivo possível.


Como é a rotina do escritor Chico Lopes? Escreve todo dia? Tem hora certa para escrever? Escreve direto no computador?
Não tenho hora pra escrever não, mas tenho uma rotina de entrar cedinho no computador pra fazer os trabalhos que exerço, de tradutor e autor de orelhas, quartas capas e releases para editoras (como a Geração Editorial, de SP) e a Rocco, do Rio. Assim, vou mesclando o trabalho de tradutor com a troca de e-mails e mensagens no Face e, pelo meio, cuidando de meus romances e contos, quando o "santo baixa", por assim dizer. Acredito que há momentos especiais, em que a sensibilidade, a imaginação e a memória se aguçam, e estes são os melhores para a criação pessoal. Quem disser que inspiração não existe estará dizendo meia-verdade. O trabalho regular é essencial, mas a inspiração tem uma qualidade única, fecundante, quando desce, e ajuda muito na criação. Há coisas que nos chegam de vias misteriosas do inconsciente e podem ter um efeito decisivo sobre a criação. Os sonhos, os devaneios, as impressões súbitas, os palpites e intuições irresistíveis...


Seu livro mais recente, “O estranho no corredor”, está na lista do CLIc para futuras votações. É sua primeira novela, recheada de mistérios, não é isso? Que aspectos você gostaria de destacar no livro?
Quanto ao meu livro, ele propõe um pacto com o leitor, de certo modo - trata-se, na verdade, de um jogo psicológico. Ele se desdobra entre realidade e fantasia, passado e presente, acompanhando um homem que se acha perseguido por outro, o "estranho no corredor" do título. Creio que o fundamental foi estabelecer uma tensão de novela de suspense, no início, mas está longe de ser um livro policial ou algo do gênero. É mais um mergulho na psicologia de um homem à procura desesperada de sua identidade.



O que você acha que um país como o nosso, com um índice tão baixo de livros lidos anualmente, poderia fazer para estimular o hábito da leitura? E qual o papel dos clubes de leitura nesse contexto? 
Olhe, esse é um enorme problema... Já dei muitas palestras e falei com públicos de diversas faixas etárias e graus de instrução. O que me parece é que o desestímulo à leitura parte das próprias famílias que, mesmo abastadas, já não parecem dar a mínima para a cultura letrada. Uma vez li numa revista (creio que na Carta Capital) uma pesquisa interessante sobre a quase inexistência de estantes nos lares brasileiros... Mas, se você prestar atenção, televisão, todas as casas, mesmo as mais humildes, têm. Quase sempre também o mercado incentiva a facilidade, os livros com imagens, mastigadinhos, lisonjeando o público para tentar vender de qualquer modo, e é quase como se os autores se desculpassem diante do público quando produzem obras difíceis, dizendo, para vender, que tem uma pitada disto e daquilo, enfim, a preocupação mercadológica, comercial, dispara absolutamente na frente e, como o público, mesmo o instruído, tem uma propensão à displicência, e por vezes é apenas semiletrado, está pronto o caos. Os escritores que propõem alguma coisa mais séria, mais esteticamente engajada, se sentem perdidos, não são ouvidos. A sociedade do espetáculo e da frivolidade não quer saber deles. Por isso os clubes de leitura, mesmo existindo em pequeno número, me parecem um pouco com aqueles abnegados que, no fim do filme Fahrenheit 451, quando todos os livros foram queimados, ainda se reúnem para conversar uns com os outros, encarnando personagens e recontando histórias clássicas...


2 de janeiro de 2013

Escritora debaterá "Vermelho Amargo" no Clube de Leitura Icaraí

Na primeira sexta feira de 2013, às 19:00 h, o Clube de Leitura Icaraí contará com a presença de Nilma Lacerda, poeta, ficcionista, cronista, roteirista de cinema e professora da UFF. O debate, que acontece mensalmente na Livraria Icaraí,  rua Miguel de Frias, 9, Reitoria da UFF, será sobre a obra "Vermelho Amargo" de Bartolomeu Campos de Queirós. Nilma Lacerda foi amiga pessoal do autor do mês e trará valiosa contribuição da obra e do autor aos apaixonados participantes do nosso clube de leitura. Não percam!




Em Nilma Lacerda, a letra é um fruto do bisturi. E, no entanto, menos que para cortar, ela a usa para coser. Escreve, dá aulas de literatura, pensa sobre leitura e escrita, copia o que as pessoas escrevem, por muros e ruas das cidades. Seu maior projeto é a aliança entre ventura intelectual e aventura feminina.



Nilma Lacerda nasceu e vive no Rio de Janeiro. É poeta, ficcionista, cronista, roteirista de cinema e professora. É doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pós-doutorada pela École des Hautes Études en Sciences Sociales da França. Publicou diversas obras, dentre as quais Estrela-de-rabo e Cartas do São Francisco. Recebeu o Prêmio Esso de Literatura pelo conto "Morro em Policromia" (1969) e o Prêmio Romance, da Fundação Rio Arte, por Manual de tapeçaria (1985). Foi duas vezes finalista da Bienal Nestlé de Literatura.