CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

29 de janeiro de 2016

Carnaval: do Entrudo às Escolas de Samba.

Por Wagner Medeiros Junior

O carnaval chegou ao Brasil junto com a colonização portuguesa, com o nome de entrudo, justamente por marcar a entrada da Quaresma, que inicia o ano lunar do Cristianismo na Quarta-Feira de Cinzas. Desde o século V a Igreja Católica já comemorava essa data como um dia de festa – um “adeus à carne”, marcado por brincadeiras e muita diversão, que rapidamente se propagou por toda a Europa.
No Brasil, o entrudo passou a sofrer grandes modificações depois do século XVIII, sobretudo pelas influências de outras culturas, além da europeia. A brincadeira caseira, que consistia em jogar água de cheiro uns nos outros, chegou às ruas, ganhando um estilo rude e agressivo, com a utilização de água suja, tinturas, farinhas e até excremento, que não poupava àqueles que circulassem nas ruas.
Além da violência, há relatos de que as ruas do Rio de Janeiro, já naturalmente sujas pela carência de hábitos de higiene, ficavam enlameadas e com extremo mau cheiro, causando péssima impressão aos visitantes. Deste modo, o entrudo passou a ser reprimido pelas autoridades.
No final dos anos 30 do século XIX, a elite carioca começa a substituir o entrudo caseiro pela fantasia, inspirada nos bailes de máscaras de Paris e nas comemorações carnavalescas italianas. Passa, então, a desfilar em carruagens, percorrendo as ruas da cidade com destino aos clubes. Esta tradição evolui para o desfile organizado em grandes carros enfeitados, que deram origem às Grandes Sociedades.
Essas Grandes Sociedades ganham imensa popularidade utilizando do sarcasmo e humor. Por isto, passam a disputar o carnaval entre si, em desfiles que durariam por mais de um século.
Depois, no início dos anos 70 dos oitocentos, surgiu o Rancho Carnavalesco, com fantasias variadas e instrumentos musicais de corda e percussão. De origem mais popular, o Rancho utilizava elementos das tradições negras e das procissões religiosas, com seus pastores e pastoras, porta-bandeiras e mestre-salas, entre outros figurantes. A primeira marchinha do carnaval brasileiro, “Ô abre alas”, foi composta por Chiquinha Gonzaga especialmente para o rancho “Cordão Rosa Preta”, em 1899.
Já a Escola de Samba é uma manifestação autenticamente popular, nascida no Rio de Janeiro, que mescla a cultura predominantemente africana a elementos das Grandes Sociedades e dos Ranchos Carnavalescos. No entanto, o principal elemento é o próprio samba, que teve origem no Recôncavo Baiano - o “samba de roda”, introduzido na capital do império na segunda metade do século XIX.
A primeira Escola de Samba do Brasil foi a “Deixa Falar”, fundada no Rio de Janeiro em 18 de agosto de 1928 por um grupo de boêmios do bairro carioca do Estácio, sob a batuta de Ismael Silva, que teve a ideia de organizar um bloco inspirado no samba, com evoluções próprias.
Segundo estudiosos, o termo “Escola de Samba” surgiu porque a “Deixa Falar” fazia os seus ensaios ao lado de uma Escola Normal situada na rua do Estácio. Dai juntaram o nome “escola” ao “samba”.
Com o sucesso da “Deixa Falar” a Escola de Samba foi se proliferando por outros bairros. Então surgiram a “Estação Primeira”, que depois também passou a se chamar Mangueira, a “Cada Ano Sai Melhor”, a “Vizinha Faladeira”, a “Vai Como Pode” (atual Portela), entre inúmeras outras escolas, que foram crescendo e se modernizando.

Vite o blog: 

Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior

24 de janeiro de 2016

Análise de Elenir sobre "O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam

Não estive presente à reunião passada, mas gostaria de deixar meu comentário  sobre “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam”, livro que considero excelente, opinião não compartilhada por todos, que o classificaram de deprimente,  cansativo, entediante, chato etc    
Elenir
Sim, deprimente, fala de criaturas miseráveis, alcoólatras, viventes em condições sub humanas, sem casa, usando um  tatame como teto, ou seja, vivendo num sub mundo, fedentinosos, desvalidos, patéticos e constrangedores. Contudo, mesmo vivendo à margem, sofrem, amam, se irmanam, têm lembranças, momentos de alegria, embora raros... E, no meio de todos eles, há um homem erudito, sofrido, com muitas cicatrizes na alma, que vagueia pelas ruas acompanhado pelos Adágios, de Erasmo de Rotterdan,  os quais, segundo ele, são seus salmos, trazendo-os na memória, e pela infinita tristeza e solidão sofridas desde que sua amada o abandonou, há dez anos, deixando-lhe, apenas, um lacônico bilhete: ”Acabou-se. Adeus”. Mantendo a esperança de seu retorno ele repete sua “meta mântrica: Ela virá, eu sei.” Dizendo ainda: “Amada aquela que levantou âncora jamais deixarei cair da memória: está tatuada em mim. Deveria ser contrário às leis da natureza abandonar crianças e poetas: somos frágeis demais.” Tudo isso, levou-me a conhecer melhor esses pobres indivíduos marginalizados, o sub mundo por eles habitado, emocionando-me. No livro, encontrei amor; poesia; ternura; erotismo; fraternidade, vida ...
     Não posso deixar de citar algumas frases:
    “Esta cidade gigantesca é meu eremitério. Os adágios são meus salmos. Canto-os todos os dias... Livro de cabeceira—se assim posso dizer, desprovido de cama. Metade quase de um tatame.”
   “Acontece com todos nós. Criamos heteronímia entre aspas para pessoas queridas. Aquele cujo avô morreu aos cento e dois anos era meu amigo, meu filho, meu irmão. Impossível amar apenas uma pessoa numa só. Amada imortal é uma multidão.”
   “Vivi algumas cenas comoventes. Foi bonito ver aquele saxofonista, dois anos atrás tocando numa esquina  My funnyValentine  para senhora elegante, octogenária, cujas lágrimas escorriam numa tentativa inútil de desenhar no rosto o s de saudade—ou de solidão.”
   “Dizem que Erasmo de Rotterdam tinha a convicção de que seria possível pôr termo aos conflitos que dividem os homens, sem violência, por concessões. (grifei). Veja: um dos maltrapilhos alcoólatras caiu de bruços. A testa toda ensanguentada.  Miseráveis.Vão se afastando aos poucos do gênero humano.....Um tirou a própria camiseta para tentar estancar o sangue....Solidariedade patética Menino-borboleta puxa-o pelo braço, possivelmente, tentando levá-lo ao pronto-socorro, na rua de trás.Vendo esses gestos solidários lembro-me, ato contínuo, da equação aritmética segundo a qual menos e menos dá mais. Mulher-molusco, lançando mão da implacável praticidade feminina , tomou de um deles a garrafa virando, ato contínuo, o gargalo sobre a testa do pobre-diabo. Sim:antisséptico inebriante.” “A metrópole apressurada  não tem tempo para acudir aos desvalidos.”
     “Solidão é melancolia travestida de saudade.”
       Fico por aqui, embora muito mais tenha encontrado, digno de nota, nesse  livro extraordinário.
     Abraços.

     Elenir

21 de janeiro de 2016

Livro: O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, de Evandro Affonso Ferreira

Olá queridos!
Vou reproduzir o post que fiz no meu blog Mar de Variedade.

Esse livro de título comprido foi o livro do mês do Clube de leitura Icaraí. Infelizmente, não consegui ir à reunião, mas vou falar um pouquinho sobre minhas impressões.

Sinopse Editora Record: 


"VENCEDOR DO PRÊMIO JABUTI - Categoria ROMANCE

A obsessão com a originalidade da linguagem sempre foi uma marca registrada de Evandro Affonso Ferreira, cuja literatura, iniciada em 2000 com o elogiado Grogotó, chegou a ser comparada à de Guimarães Rosa. Mas agora, aos 66 anos e em seu sexto livro, o escritor está mais reflexivo. Deixou de lado o cuidado excessivo com a forma, mas sem abrir mão da musicalidade, do cuidado com as palavras, da concisão — o que já vinha fazendo desde seu romance anterior, Minha mãe se matou sem dizer adeus, vencedor do Prêmio APCA de melhor romance de 2010 e finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti de 2011.
Neste belo e devastador O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam, o autor volta a abordar temas “tenebrosos”, como solidão, loucura, decrepitude, morte. Por trás do longo título está a história de um homem culto, profundo conhecedor da obra do filósofo holandês, que, depois de ser abandonado por sua amada, perdeu a razão e transformou-se em um morador de rua. Um romance “niilista-lírico”, como define o próprio autor, em que ele abre mão do parágrafo, apresentando-o de um fôlego, valendo-se com habilidade do fluxo de consciência.
Há dez anos vagueando pelas ruas do centro de uma metrópole à procura de coincidências poéticas que lhe aplaquem tristeza, dor e solidão, um homem atormentado experimenta a proximidade dolorosa do mundo enquanto espera o retorno de sua amada — a que lhe deixou bilhete dizendo “ACABOU-SE; ADEUS”.
Seu mantra, ladainha ou refrão, repetido incansavelmente, “ELA VIRÁ— EU SEI”, impulsiona-o a seguir adiante mesmo que não haja um rumo certo. Sem poder nomeá-la ou mesmo ancorá-la em algum porto seguro nos seus pensamentos, escreve a lápis em todos os espaços vazios da cidade a letra N, inicial do nome da amada, e lança desafio aos deuses do esquecimento trazendo o tempo todo à memória os momentos de intimidade afetiva e intelectual vividos ao lado dela.
Levando consigo os Adágios de Erasmo de Rotterdam, esse mendigo erudito conhece tudo sobre vida e obra do humanista holandês — sim, o mesmo do Elogio da loucura. E narra o tempo todo sua história a um interlocutor-escritor imaginário, a quem chama de “senhor”. Ambos, narrador e interlocutor, estão debaixo de um viaduto entre tantos outros personagens-mendigos, que de miseráveis anônimos e insólitos se transformam em criaturas extraordinárias na imaginação do mendigo-poeta, como a “mulher-molusco” e o “menino borboleta”."


O protagonista, um mendigo, anda para todo lado com os Adágios do autor Erasmo de Rotterdam, aos quais ele chama de seus "salmos".
O livro não tem parágrafos, talvez para demonstrar um pouco da loucura desse mendigo que fala repetidamente da sua amada, que o deixou.
Ele fala de seus colegas mendigos, da vida nas ruas, do que os leva para isso. Fala também do mau cheiro que eles têm e ainda que são maltratados nos lugares por onde passam, pelo mau cheiro que exalam. 
O protagonista cita frases de Erasmo de Rotterdam, enquanto conversa com o interlocutor.
O livro, apesar de tratar da miséria humana, da loucura, tem uma certa poesia nas palavras do narrador, que continua apaixonado por sua amada, que o deixou há dez anos, mas que ele ainda tem esperança de encontrá-la e de reatar o relacionamento amoroso. 


Boa leitura!

19 de janeiro de 2016

Todos reunidos em torno da obra


Cineclubes e clubes de leitura são uma ótima opção para quem quer conhecer novas obras e discuti-las
Assistir um filme e ler um livro podem ser experiências agradáveis e enriquecedoras. Consumir cultura já faz parte do dia a dia de muitas pessoas, mas poucos se aventuram a expandir essa experiência, saindo da zona de conforto e descobrindo um novo mundo que pode acabar gerando amizades e discussões sobre o que é lido ou assistido. É o caso do Clube de Leitura Icaraí e o Cine Nikiti, clubes que reúnem as mais variadas pessoas em torno de publicações e títulos também variados. Os dois grupos promovem encontros mensais para debater o livro ou filme sugerido no mês anterior.

O Cine Nikiti começou a partir de um convite do Solar do Jambeiro para que o Núcleo de Produção Digital de Niterói (NPD), órgão ligado à Subsecretaria de Ciência e Tecnologia, produzisse um evento de cinema no espaço cultural. Este convite veio após a produção pelo NPD da 9ª Mostra Cinema e Direitos Humanos no Hemisfério Sul, que aconteceu em março de 2015 no Teatro Municipal de Niterói reunindo mais de 600 espectadores em apenas 5 sessões.

“Além da parceria com o Jambeiro, temos também a parceria com a Niterói Filmes, responsável pela parte operacional (telão, projetor, som) do cineclube. O Cine Nikiti teve início no dia 20 de maio, com a exibição de ‘Sem Pena’, documentário de Eugenio Puppo. Após a exibição do filme houve debate sobre população carcerária e sistema prisional. Neste primeiro dia tivemos 163 espectadores”, conta Miguel Vasconcellos, responsável da produção do Cine Nikiti.

O NPD produz também o Cine Debate, que traz discussões sobre diversos filmes, trazendo especialistas sobre os temas abordados, enriquecendo os debates dos cinéfilos. Desde o primeiro Cine Nikiti há frequentadores cativos que acompanham todas as edições do cineclube e alguns que aparecem para ver determinados filmes. O público vai de estudantes universitários a idosos, mas, em sua maioria, é um público jovem. Em algumas sessões, acontecem até sorteios de ingressos para peças de teatro. 

“A melhor parte é ver um público tomando contato e descobrindo filmes brasileiros autorais e de qualidade que não são exibidos em cinemas ou lançados em DVD e na TV aberta. O papel dos cineclubes, e do Cine Nikiti, é exatamente de levar essa produção nacional ao público. Estar envolvido em um projeto como esse me dá uma satisfação enorme”, expõe Miguel.
Já o Clube de Leitura Icaraí, em contrapartida com o recém-criado Cine Nikiti, funciona desde outubro de 1998, tendo mais de 150 livros em seu histórico de leitura, entre autores consagrados nacionais e internacionais, incluindo escritores de Niterói. Muitas vezes até incluíram os escritores do livro em debate, como Silviano Santiago, Rubens Figueiredo, Godofredo de Oliveira Neto, e muitos outros.
“O clube começou com um grupo de amigos que decidiu ler o mesmo livro e se reunir posteriormente para comentá-lo. O resultado foi gratificante, cada vez mais pessoas queriam participar. Então, levamos o clube para um espaço público onde a entrada fosse franqueada para que toda a comunidade niteroiense pudesse entrar”, explica Evandro Paiva, responsável pelo clube de leitura. 
O funcionamento do clube é bem simples. A cada mês é escolhido um título. Ao final das reuniões os participantes sugerem os livros que desejarem e, a partir disso, se faz uma votação com os presentes. Não há restrição quanto a gêneros e nacionalidade dos escritores, tudo é feito de forma bem democrática. A partir do livro escolhido, os leitores falam sobre suas impressões da leitura e fazem análises segundo sua própria experiência de vida, sem restrição quanto à maneira que cada um interpreta a obra. O encontro começa com uma breve exposição do leitor que indicou o livro sobre a razão de tê-lo indicado, sua avaliação, e os demais leitores podem intervir com suas ponderações. Evandro afirma que as discussões são o verdadeiro motivo do clube ter sido criado.

“O encontro proporciona a troca de experiências com outros leitores, favorece a formação de novas amizades a partir das afinidades encontradas no debate. Essa colaboração amplia consideravelmente a nossa percepção da obra lida. Nosso clube tem revelado ao longo dos anos que a literatura pode ser mais que um simples prazer lúdico, pode criar laços e promover o surgimento de novos poetas, escritores e, sobretudo, novas amizades” diz Evandro.
O Clube de Leitura de Icaraí se encontra às segundas sextas-feiras mensais, das 16h às 18h, na livraria da EdUFF, que fica na Rua Miguel de Frias, 9, em Icaraí. O Cine Nikiti retoma suas atividades apenas em março, no Solar do Jambeiro, que fica na Rua Presidente Domiciano, 195, no Ingá.

O Fluminense

14 de janeiro de 2016

O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam: Evandro Affonso Ferreira



Óssip  Mandelstam

Oh, como a hipocrisia
seduz, e como se esquece
que em criança se está mais perto
da morte que na velhice.

Ébria de sono, a criança
sorve ao menos a ofensa do pires,
mas eu – com quem me amuaria? –
sozinho estou, em todos os caminhos.

Não quero dormir como um peixe
no desmaio fundo das águas,
é-me querida a escolha livre
dos meus cuidados, dores e mágoas.

Fevereiro – 14 de Maio de 1932




 
Vivemos sob o signo da corrupção e da carência


Hieronymus Bosch, O jardim dos prazeres terrenos,1504

Deus em sua sagrada inexistência consegue jeito nenhum ajudar ninguém. 

Apenas o ser humano pode ser prestativo ao ser humano, 

apesar de sermos o lobo de nós mesmos. 







Este livro fala sobre um 

homem atormentado que 

experimenta a proximidade 

dolorosa do mundo. O 

romance fala de temas como 

loucura, amor, abandono e 

solidão, devido a uma carta

 que o protagonista recebeu 

de sua amada, dizendo 

'Acabou-se; adeus'.





Ela virá, eu sei!





Nossa trajetória de vida é inexorável. 




Selene e Endimião


10 de janeiro de 2016

A festa da insignificância: Milan Kundera


Uma ode à (in) significância


Durante a matemática da vida, seguimos somando e subtraindo amigos. Próximos ou distantes, amizades são laços, fios que vão crescendo e solidificando-se com o compartilhamento de momentos (alegres ou tristes), confidências, segredos e sonhos. Dizem, que se uma amizade ultrapassar sete anos é muito provável que perdure por toda a vida. Curioso, é que por vezes, já me questionei sobre como uma amizade pode durar por tanto tempo? Seria a admiração e o respeito pela outra pessoa? Preferências de todas as formas em comum entre ambos? Ou seria, na verdade pelo espelho que projetamos nessa pessoa, ao identificarmos algo que (intimamente) possuímos?
A festa da insignificância do escritor tcheco Milan Kundera, tem como pano de fundo da sua narrativa os anseios, desejos e medos de quatro amigos na Paris dos dias de hoje. O autor consegue verter de uma miscelânea sobre Stalin e seus compatriotas comunistas, um câncer, umbigos e toda a sorte de ironia criativa do autor, em uma prosa agradável e reflexiva em pouco mais de 130 páginas.
Pautado pelo banal e mundano, o primeiro romance inédito de Kundera, após um hiato de 14 anos, soa provocativo, despretensioso e por vezes, (in)significante. Publicado no Brasil, pela Companhia das Letras, em uma edição cuidadosa, o título possui tradução da veterana Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. O romance está dividido em sete partes com capítulos curtos, se estabelecendo como uma ode à (in)significância da vida, ao (f)útil do cotidiano e à ironia dos encontros e desencontros entre amigos.
Relatando cenas prosaicas do cotidiano desses personagens, Kundera vai tecendo um retrato fragmentado destes. Um retrato formado por Ramon, Alain, Charles e Calibã. Adicionando mais um elemento (mais um amigo – D’Ardelo – na narrativa), o autor propõe uma leitura aberta e livre de preconcepções que segue inserida entre a filosofia e a sólida literatura.
Um enredo que no Jardim de Luxemburgo e pelas ruas de Paris, vai contando sobre a divagação (e substituição) erótica que determinado personagem faz, ao trocar as coxas e os seios das mulheres, por um símbolo nada usual do corpo feminino, o umbigo. Outro segue relatando sobre as trivialidades da própria existência. Um terceiro assume outra nacionalidade buscando se tornar interessante e concretizar uma paixão platônica. Um quarto é acometido de um (falso) câncer, onde o pronunciamento dessa sentença se faz ocasião, para a reunião dos demais. Esta sendo a verdadeira festa da insignificância que encerra o livro.

“A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la. Aqui, nesta parte, diante de nós, olhe, meu amigo, ela está presente com toda a sua evidência, com toda a sua inocência, com toda a sua beleza. Sim, sua beleza.” 

Elegante, leve, lírico e complexo.

A (in) significância também é encontrada ao fim do livro e no sentimento que o mesmo proporciona ao leitor. Um fim abrupto, mas íntimo e contemplativo. Aberto a interpretações e associações. Cabe ao leitor encontrar a sua (in) significância.

Fonte






"A festa da insignificância, de Milan Kundera, é o tipo de leitura que nos faz acreditar que existe uma beleza imensa em envelhecer e que não se dar muita importância é o único caminho possível." 


(Mônica Montone)



"Na vida dita civilizada, ganha aquele que conseguir tornar o outro culpado. Perde aquele que reconhecer sua culpa."



Alain pensa sobre o umbigo

Era o mês de junho, o sol da manhã surgia das nuvens e Alain caminhava lentamente por  uma  rua  parisiense. Ele observava as moças que, todas, mostravam o umbigo entre a calça de cintura  muito baixa e a camiseta cortada muito  curta.  Estava encantado; encantado e até mesmo perplexo:  como se o poder de sedução delas não se concentrasse mais nas coxas, nem na bunda,  nem nos seios, mas naquele  pequeno  buraco  redondo situado  no meio do corpo.
Isso o incitou a refletir: se um homem (ou uma época) vê o centro da sedução feminina nas coxas, como descrever e definir a particularidade dessa orientação erótica? Improvisou uma resposta:  o comprimento das coxas é a imagem metafórica  do caminho, longo e fascinante (é por isso que as coxas devem ser longas), que leva à realização erótica; de fato, pensou Alain, mesmo no meio do coito, o comprimento das coxas empresta à mulher a magia romântica do inacessível.
Se um homem (ou uma época) vê o centro  da sedução feminina na bunda, como descrever e definir a particularidade dessa  orientação erótica?  Improvisou uma resposta:  brutalidade; alegria; o caminho  mais curto em direção  ao objetivo;  objetivo  ainda  mais excitante  porque duplo.
Se um homem (ou uma época) vê o centro  da sedução feminina nos seios, como descrever e definir a particularidade dessa  orientação erótica?  Improvisou uma resposta:  santificação da mulher;  a Virgem Maria  ama- mentando Jesus; o sexo masculino  ajoelhado diante  da nobre missão do sexo feminino.
Mas como definir o erotismo  de um homem (ou de uma época) que vê a sedução  feminina  concentrada no meio do corpo, no umbigo?


Ramon passeia no Jardim de Luxemburgo 


Mais ou menos no mesmo instante em que Alain refletia sobre as diferentes fontes de sedução feminina, Ramon se encontrava perto do museu situado bem próximo ao Jardim de Luxemburgo, onde estavam expostos, já fazia um mês, quadros de Chagall. Queria vê-los, mas sabia de antemão que não encontraria forças para se deixar transformar de bom grado numa parte daquela interminável fila que lentamente se arrastava em direção ao caixa; observou as pessoas, as fisionomias paralisadas pelo tédio, imaginou as salas, onde seus corpos e seus comentários cobririam os quadros, de modo que um minuto depois se virou e foi passear numa aleia do parque. 

Lá, a atmosfera estava mais agradável; o gênero humano parecia menos numeroso e mais livre: havia os que corriam, não porque estivessem apressados, mas porque gostavam de correr; havia os que passeavam e tomavam sorvete; havia no gramado discípulos de uma escola asiática que faziam movimentos bizarros e lentos; mais adiante, no imenso círculo, havia grandes estátuas brancas de rainhas e de outras nobres damas de França, e, ainda mais adiante, no gramado entre as árvores, em todas as direções do parque, esculturas de poetas, de pintores, de sábios; parou na frente de um adolescente mulato que, sedutor, nu sob um calção curto, lhe ofereceu máscaras que representavam o rosto de Balzac, de Berlioz, de Hugo, de Dumas. Ramon não pôde conter um sorriso e continuou seu passeio naquele jardim de gênios que, modestos, cercados pela gentil indiferença dos passantes, deviam se sentir agradavelmente livres; ninguém parava para observar o rosto deles ou ler as inscrições nos pedestais. Essa indiferença, Ramon a respirava como a uma calma que consola. Pouco a pouco, um largo sorriso quase feliz apareceu em seu rosto.





O câncer não acontecerá 


Mais ou menos no mesmo instante em que Ramon renunciava à exposição de Chagall e preferia passear no parque, D’Ardelo subia a escada que levava ao consultório de seu médico. Estávamos, naquele dia, a exatamente três semanas do aniversário dele. Já muitos anos antes, ele tinha começado a detestar os aniversários. Por causa dos números que se colavam neles. No entanto, não conseguia esnobá-los, pois a felicidade de ser festejado superava nele a vergonha de envelhecer. Ainda mais que, dessa vez, a visita ao médico acrescentava à festa uma nova cor. Pois era hoje que ele iria conhecer os resultados de todos os exames que lhe diriam se os sintomas suspeitos descobertos em seu corpo se deviam ou não ao câncer. Entrou na sala de espera e repetiu interiormente, com voz trêmula, que dali a três semanas festejaria ao mesmo tempo o nascimento tão distante e a morte tão próxima; que celebraria uma festa dupla. 

Assim que viu o rosto sorridente do médico, compreendeu que a morte tinha se desconvidado. O médico apertou-lhe fraternalmente a mão. Com lágrimas nos olhos, D’Ardelo não pôde pronunciar uma só palavra. O consultório do médico ficava na avenida do Observatório, a cerca de duzentos metros do Jardim de Luxemburgo. Como D’Ardelo morava numa pequena rua do outro lado do parque, ele o atravessou novamente. O passeio pelo verde tornou o seu bom humor quase incontrolável, sobretudo quando ele deu a volta no grande círculo formado pelas estátuas das antigas rainhas da França, todas esculpidas em mármore branco, de pé, em poses solenes que lhe pareceram engraçadas, quase alegres, como se aquelas damas também quisessem comemorar a boa notícia que acabara de receber. Não conseguindo se conter, ele as saudou duas ou três vezes com a mão erguida e desatou a rir. 




O charme secreto de uma doença grave 


Foi em algum lugar por ali, nas proximidades das grandes damas de mármore, que Ramon encontrou D’Ardelo, que, um ano antes, ainda era seu colega numa instituição cujo nome não nos interessa. Pararam um em frente ao outro e, depois das saudações habituais, D’Ardelo, com uma voz estranhamente excitada, começou a contar: 

— Amigo, você conhece La Franck? Há dois dias seu grande amor morreu. 

Ele fez uma pausa, e na memória de Ramon apareceu o rosto de uma bela mulher famosa que ele conhecia apenas de fotografias. 

— Uma agonia muito dolorosa — continuou D’Ardelo. — Ela viveu tudo com ele. Ah, como ela sofreu! 

Interessado, Ramon olhou para o rosto alegre que contava uma história fúnebre. 

— Imagine que na noite do mesmo dia em que, de manhã, ele morria em seus braços, ela jantou comigo e com alguns amigos, e, você não vai acreditar, estava quase contente! Eu a admirei! Aquela força! Aquele amor pela vida! Com os olhos ainda vermelhos de choro, ela ria! E, no entanto, nós todos sabíamos como ela o amara! Como deve ter sofrido! Aquela mulher tem uma força! 

Exatamente como quinze minutos antes no médico, as lágrimas brilharam nos olhos de D’Ardelo. Pois, ao falar da força moral de La Franck, ele pensava em si mesmo. Não tinha ele vivido também um mês inteiro na presença da morte? A força de seu caráter não teria também passado por uma rude prova? Mesmo transformado numa simples lembrança, o câncer continuava com ele como a luz de uma pequena lâmpada que, misteriosamente, o encantava. Mas conseguiu dominar seus sentimentos e assumiu um tom mais prosaico: 

— A propósito, se não me engano, você conhece alguém que sabe organizar coquetéis, cuidar das comidas e de tudo mais. 

— É verdade — disse Ramon. 

E D’Ardelo: 

— Vou fazer uma pequena festa no meu aniversário. 

Depois dos comentários excitados sobre a famosa Franck, o tom leve da última frase permitiu que Ramon sorrisse: 

— Estou vendo que sua vida está divertida. 

Curioso; essa frase não agradou a D’Ardelo. Como se o tom muito leve anulasse a estranha beleza de seu bom humor magicamente marcado pelo páthos da morte cuja lembrança não deixava de existir dentro dele: 

— É, estou bem — disse, e depois de uma pausa acrescentou: — … mesmo que… 

Fez mais uma pausa, depois: 

— Sabe, acabo de voltar do médico.

O constrangimento no rosto de seu interlocutor agradou-lhe; prolongou o silêncio, de modo que Ramon teve que perguntar: 

— E então? Algum problema? 

— Sim. 

Mais uma vez D’Ardelo se calou, e mais uma vez Ramon teve que perguntar: 

— Que foi que o médico disse? 

Foi nesse momento que D’Ardelo viu nos olhos de Ramon seu próprio rosto como num espelho: o rosto de um homem já velho, mas ainda bonito, marcado por uma tristeza que o tornava ainda mais atraente; pensou que aquele belo homem triste em breve iria celebrar seu aniversário e a ideia que ele tinha alimentado antes da visita ao médico lhe veio novamente à cabeça, a ideia encantadora de uma festa dupla celebrando ao mesmo tempo o nascimento e a morte. Continuou a se observar nos olhos de Ramon, depois, com uma voz muito calma e muito suave, disse: 

— Câncer… 

Ramon gaguejou alguma coisa e, desajeitadamente, fraternalmente, encostou uma das mãos no braço de D’Ardelo: 

— Mas isso tem tratamento… 

— Tarde demais, infelizmente. Mas esqueça o que acabei de dizer, e não conte a ninguém; prefiro que pense no meu coquetel. É preciso viver! — disse D’Ardelo, e, antes de seguir seu caminho, como despedida levantou a mão e, nesse gesto discreto, quase tímido, havia um charme inesperado que emocionou Ramon.

8 de janeiro de 2016

E Dom Pedro acabou ficando...

Por Wagner Medeiros Junior


Quando a família real desembarcou no Rio de Janeiro, em 1808, o futuro imperador do Brasil, D. Pedro I, contava com nove anos de idade. A estratégia de transmigração da corte, aprovada pelo príncipe regente D. João, era de não deixar que a rica colônia da América, o Brasil, viesse a ser dominada pelos britânicos. A viagem para o Brasil evitaria também a humilhação do trono português pela França, pois as tropas sob comando do general Junot já estavam na fronteira com a Espanha para ocupar Portugal.
D. Pedro de Alcântara nasceu em Lisboa, no Palácio de Queluz. Com a morte de seu irmão mais velho, D. Antônio, em 1801, tornara-se o legítimo herdeiro de D. João, que já ocupava o trono devido à insanidade da rainha, D. Maria I, sua mãe. Embora muito estimado pelo pai, D. Pedro era preterido por D. Carlota Joaquina, que tinha predileção por D. Miguel, seu filho mais novo. Dela D. Pedro herdaria o temperamento impulsivo e às vezes até mesquinho e grosseiro, mas também com capacidade de externar grande bondade, conforme D. João. 
Desde pequeno D. Pedro manifestava uma grande vocação para a carreira militar. Quando adulto mostrou-se romântico e sedutor. A maioria de seus biógrafos concorda que lhe faltava uma educação esmerada, conforme tradição das famílias reais europeias, o que não significa que não tivesse uma razoável cultura. Além da língua pátria, dominava o latim e o francês, e compreendia bem o alemão e o inglês. Gostava de compor músicas e poesias, bem como dos hábitos simples, sem protocolos.
O ingresso de D. Pedro na política sucedeu-se quando a família real é forçada pelas Cortes portuguesas a regressar a Portugal, com a Revolução Liberal do Porto, em agosto de 1820. No entanto, já adaptado ao Rio de Janeiro, D.João hesitava em voltar. Para atenuar a pressão das Cortes, o ministro da Guerra e dos Negócios Estrangeiros, conde de Palmela, aconselhou-o a mandar em seu lugar o príncipe herdeiro para  Lisboa.
Todavia, conforme relatam as historiadoras Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, em “Brasil: Uma Biografia”, D. João, por seu lado, ia resistindo: nem consentia em voltar, nem lhe agradava a idéia de mandar para Portugal o filho Pedro. Por sinal, sussurrada pelos cantos, essa sugestão mais parecia um segredo de polichinelo: todos conheciam o projeto, menos o príncipe. A essas alturas, já com mulher e filhos, ele era mantido na maior ignorância dos planos que envolviam sua pessoa. D. Pedro não participava efetivamente do governo, e, embora casado, continuava a manter uma vida de boemia na sede do império, no Rio de Janeiro.
Porém, após jurar obedecer à Constituição, por intimação das Cortes, em abril de 1821, D. João VI é obrigado a retornar para Portugal com toda família real. D. Pedro, entretanto, é impelido a permanecer como Príncipe Regente, de modo a garantir o domínio territorial e do Estado, e evitar que o Brasil viesse a ter o mesmo destino das colônias espanholas na América.  

Além do tesouro da corte D. João VI levou consigo todo o ouro e depósitos sob a guarda do Banco do Brasil, o que deixaria D. Pedro em grandes dificuldades. O Rio de Janeiro também se ressentiria com o regresso a Portugal de uma comitiva de 4000 pessoas entre servidores da casa imperial, ministros, burocratas, militares e membros do clero. D. Pedro, por sua vez, continuava a relutar em permanecer no Brasil. Seu desejo era iniciar a vida política na nova sede do reino, em Portugal.
Neste momento as ações das Cortes portuguesas se intensificavam e várias capitanias brasileiras eram transformadas em províncias, com juntas governativas próprias, subordinadas diretamente às Cortes em Portugal. Os poderes de D. Pedro, deste modo, iam aos poucos sendo reduzidos. Tornava-se cada vez mais claro aos brasileiros, portanto, sobretudo aos do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, que a intenção das Cortes era dividir o Brasil, submetendo-o, de novo, ao domínio de Portugal.
Assim, mesmo contra a vontade, D. Pedro é obrigado a permanecer no Brasil pela pressão dos brasileiros, que agora clamavam pela libertação de Portugal. Outro motivo importante foi a influência da princesa D. Leopoldina, por solidarizar-se à causa dos brasileiros. A tia de D. Leopoldina, Maria Antonieta, tinha sido guilhotinada por uma revolução liberal na França e ela temia pelas notícias que chegavam de Portugal.
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Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior

5 de janeiro de 2016

Revivendo leituras passadas: Trem Noturno para Lisboa - Pascal Mercier





"O romance "Trem Noturno para Lisboa" (Night Train To Lisbon) fez parte da Seleção Oficial do Festival de Berlim e conta a história de Raimund Gregorius (Jeremy Irons), ou ‘Mundus’, como é conhecido por seus alunos. Professor de latim e especialista em línguas antigas, ele sofre uma reviravolta em sua vida quando encontra uma jovem portuguesa numa ponte de Berna, na Suíça. Impedindo que a jovem cometa o suicídio, ele fica intrigado com o desaparecimento dela, que deixa apenas um casaco vermelho para trás, um livro no bolso e uma passagem de trem para Lisboa. A aventura segue na capital portuguesa e faz com que o professor viva uma busca pelo verdadeiro sentido da vida, enquanto se embrenha em quebra-cabeças e mistérios."





"Também destaque da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o filme que é baseado no best seller homônimo, tem estreia nacional prevista para dia 22 de novembro de 2013."


    Dezasseis pessoas a bordo. Alguns passageiros novos que trouxeram contribuições muito interessantes. Outros passageiros retornaram após um longo período de ausência do Clube. Antes do início das discussões, houve algumas ponderações sobre participação virtual na escolha do livro do mês; que o período de um mês é muito pouco para lermos um livro, tornando as leituras apressadas ou não dando tempo para se ler a obra, e outras considerações bastante polêmicas. Cantamos, então, parabéns para nossa leitora fundadora do Clube nos idos de 1998 e começamos as discussões.

    Embora não podendo participar da reunião por ser um dos participantes virtuais de nosso Clube, as contribuições do nosso leitor de Campinas foram muito citadas na noite. O piano de Jorge, as variações de Goldberg, Estefânia, Maria João, os estados novos português e brasileiro, a tortura em João Eça, o trem como uma alegoria da vida, a intensa identificação de Gregorius e Amadeu, mesma idade dos dois na momento da busca de Gregorius, embora em tempo diferente, mesmo mal físico o “que pode ter sido resultado da profunda identificação”, a intenção de ainda voltar em Salamanca, as línguas antigas e o português, um latim moderno falado nas ruas que ofereceu ao protagonista a ponte para o despertar de sua vida, o evento da ponte que colocou Gregorius diante da questão da finitude da vida, a magia da chuva, da ponte, do encontro com a portuguesa misteriosa que nunca mais reaparece, mas que muda sua vida, etc.

   Nada como outros pontos de vistas, de outros leitores, para nos ajudar a ler um livro e repensar nossa interpretação, nos estimulando a refletir sobre nós mesmos antes de concluir algo.  As primeiras impressões da leitura do “Trem Noturno para Lisboa” não foram nada animadoras. Achava que o escritor suíço, para se distanciar de sua problemática pessoal, teria projetado suas questões em um personagem estrangeiro, no que essa palavra teria de mais remoto para ele, um português atormentado contra o qual ele poderia se sentir bem blindado para expor seu alter ego. E o narrador, meloso e mórbido ao mesmo tempo, parecia-me ser daquelas pessoas que grudam na gente obsessivamente, que tentam viver a nossa vida. Meio obsessivo, não?

   Muita coisa me incomodou no livro: a síndrome do protagonista que enfrenta qualquer oponente no jogo do xadrez, mas acha ridículo enfrentar a vida quando se tem tanto a enfrentar em si mesmo. O questionamento sobre como seriam as coisas se não fossem como são, de como podemos ser aquilo que não fazemos, etc.

   Houve um momento da viagem em que, olhando pela janela, avistei “O Homem que Via o Trem Passar” (Georges Simenon) e invejei sua posição. Em outro momento da viagem descobri, enfim, por que não estava gostando do livro: eu me sentia perdendo a partida (o autor nos faz sentir que viver pode ser como se jogássemos uma partida de xadrez). Eu levava cheque-mate sobre cheque-mate, mas persisti na viagem, resistindo às tentações, sem descer nas estações intermediárias, que descobri também, depois, serem meras miragens, porque o trem nunca para nas estações. Lembro-me de ter alegado em uma das minhas postagens que o autor era muito cheio de arroubos, superlativos e adjetivos, mas... a viagem da vida não é assim? Por diversas vezes ameacei pular do trem, estrebuchei, não parecia literatura aquela mania do autor de deixar tudo explicadinho. Houve quem me incentivasse a pular, talvez sensíveis ao incômodo que o culto à personalidade de um personagem que não conseguia superar seus complexos de culpa me causava (será que tenho problema com isso?). Segui o conselho do próprio Amadeu que afirma que devemos buscar as desilusões, continuei me iludindo que o livro poderia melhorar na próxima estação. Ou, quem sabe, no fundo estivesse buscando a desilusão final da última página do romance. O livro mexeu também com o meu lado comodista de sempre aceitar a vontade que não é a minha, minha síndrome do “seja feita a sua vontade”. Ao chegar ao fim dessa viagem devo reconhecer que o livro tem passagens geniais ao lado de outras horríveis, como a vida em geral. 

   E afinal, a vida é o que vivemos ou o que imaginamos viver? E parece, ela, a um jogo de xadrez?







Amigos, para mim, este foi um dos melhores livros lidos no Clube. Espero que o filme lhe faça jus.
Aguardemos. Abs.
Elenir 

Trem Noturno para Lisboa



3 de janeiro de 2016

Tiro de misericórdia: Flávio Ricardo Vassoler

Os homens não buscam apenas alguém diante de quem se inclinar; é preciso haver alguém a quem culpar. (Parábola do bode expiatório - Sermão da Estepe - O Evangelho segundo Talião)


Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014)


Luiz Flávio Gomes
Nietzsche disse que a maturidade, no adulto, significa reaver a seriedade que se tinha quando criança ao brincar. Rubem Alves explica o significado dessa frase de Nietzsche (em Lauro Henriques Jr., Palavras de poder: 209): “Essa frase é magnífica! Maturidade é exatamente isso: é você não ser acriançado, é você se envolver de corpo e alma no que faz, é ter a seriedade da criança ao brincar. E o que acontece quando um adulto tem a mesma seriedade de uma criança ao brincar? Ele se torna criança. A atitude de uma criança – que também pode ser a atitude de um adulto – é uma atitude brincante, ela se encanta, se espanta com a vida. A criança vive em estado de encantamento. A nossa capacidade de brincar precisa ser reaprendida. Em vez de sair por aí como adultos “trabalhantes” – ou seja, pessoas ranzinzas, chatas, impacientes -, precisamos recuperar o estado brincante de ser, recuperar a nossa capacidade de rir, de nos maravilhar com a vida. É isso o que faz de você uma pessoa madura, sábia”. Avante!



Que fazer?


Aos amigos...: Ilnea Pais de Miranda

Menino Peregrino

E foi assim, não mais que de repente,...
Na Manjedoura estava O Menino,
Dormindo um sono doce, e inocente,
A encantar o povo peregrino. 

E no estábulo, doce e simplesmente,
José, Maria, seguindo o destino
Que Deus lhes dava, pura e docemente,
Soprando em verso o comando divino.

E, de repente, a estrela peregrina,
Retoma o céu pontuando o caminho
Para os Reis Magos em calmo servir.

E todo o povo encanta a pequenina
Que segue a luz que aponta o menininho
Na doce noite de um novo porvir.


(I, em 22/12/2013)


... e um lindo Natal para todos os meus amigos CLIcianos.