CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

25 de novembro de 2013

Es este el camino para Honrubia?

 Para Deca



Não, não queríamos ir a Honrubia, apenas nos “perdemos” em Castilla La Mancha e fizemos de Honrubia o nosso azimute. Evitávamos as grandes “carreteras” e seguíamos numa navegação estimada pelas estradinhas da Mancha e da Manchuela. 

Vimos olivais se fazendo de mortos, distantes colinas de pedras tão brancas que pareciam neve, moinhos, planuras, pétreas aldeias envoltas em quietudes seculares. 

Uma velha torre nos ermos daqueles horizontes lembrava que estávamos nos domínios de dois cavaleiros. “O Senhor”, “El Cid”, “El mio Cid” cortou cabeças, desventrou e com sua “Tizona” transformou em vermelho o ocre daquela terra. Imagino como seria a figura real de Rodrigo de Bivar, o “El Cid”. Fiquei um pouco decepcionado ao ver as armaduras nos museus e castelos de Madri, Toledo e Segóvia. Com meus setenta e cinco quilos distribuídos em modestos um metro e setenta e quatro, pareço um homem grande numa foto entre duas armaduras de guerreiros daqueles tempos. “Pequeños”, disse um turista ao meu lado. Mas a imagem que tenho de “El Cid” não é produto da minha imaginação nem das estátuas das praças espanholas, o “El Cid” que está na minha cabeça é o Charlton Heston. Há quem diga que o verdadeiro Rodrigo de Bivar não era lá essas coisas, tanto matava mouros quanto conterrâneos, dependendo de quem melhor lhe pagasse, um mercenário da pior qualidade. Mas prefiro imaginá-lo heróico, grandão feito o ator americano, a distribuir golpes com a “Collada” ou com a “Tizona” sobre os invasores árabes, para depois, exausto, cair nos braços da maravilhosa Sophia Há um fascínio em andar por terras onde homens combateram, e por aqui, em diferentes épocas, muito se combateu. Mantenho-me na Idade Média, evito Franco e as Brigadas, prefiro ouvir sibilo de flechas e retinir de espadas e cimitarras. A torre ficou para trás, e num lado da estrada há oliveiras retorcidas e aparentemente secas; no outro lado pequenas montanhas com bosques de “pinus” e o solo pedregoso cor de ferrugem. 

Seguimos Espanha arriba por aquela vicinal e boa estradinha.

‒ Vamos chegar numa aldeia – diz ela

‒ Viu que barato a torre solitária?

‒ Vi. Só faltou o D. Quixote.

‒ Ele está por aí, é só olhar.

 Ela tem o mapa nas mãos, anota nomes, liga pontos, faz marcações, é ótima navegadora. Entramos na aldeia que parece deserta. Rodamos lentamente sobre uma “callejuela” estreita entre portas e janelas fechadas. Nem um espanholito sequer para dar informação. A ruazinha desemboca numa praça redonda, com um poço no centro e um cipreste junto ao muro baixo de pedras encaixadas. O verde da árvore faz bonito contraste com o tom amarelado seco de tudo a volta. Próximos ao cipreste, quatro homens idosos jogam cartas. Três usam boinas, e o outro, calvo até metade da cabeça, deixou crescer os remanescentes de sua cabeleira. Os longos fios brancos cobrem-lhe as orelhas e a nuca. Paro o carro ao lado deles e peço informação. Todos nos olham, mas é o senhor calvo quem se levanta e vem em nossa direção. Apóia-se num cajado e caminha com dificuldade. É alto e magro. Usa cavanhaque e bigodes com as pontas reviradas para cima. Há curiosidade e certa severidade em seus grandes olhos castanhos. Olho sua fidalga figura e a mente viaja até às histórias do Tesouro da Juventude, lidas por minha mãe quando eu era criança. Não dava para Charlton Heston, ali estava o outro cavaleiro diante dos meus olhos em pouca carne e muito osso, o próprio D. Quixote, senhor pleno e eterno daqueles domínios. E se não era ele encarnado, poderia ter sido, pois se pelo século XVII andasse nenhum olhar de estranheza atrairia.

‒ Honrubia? – pergunta-se ao ser indagado.

Pergunto se devo continuar pela rua à minha frente. Não, é melhor dar a volta á praça e pegar o caminho entre aquelas duas casas altas, andará uns dois quilômetros e chegará à “carretera”, lá haverá indicações. “Posso levá-los até lá”, oferece-se, quixotescamente, o velho senhor. Surpreendo-me com o oferecimento, como retornaria sozinho e claudicante por dois quilômetros? Sorrio, agradeço, faço questão de apertar sua mão, e seguimos pelo caminho indicado. Logo a aldeia fica para trás e nos envolve um trecho típico da beleza triste manchega. Bem lá na frente está a estrada principal que nos levará a outra região. Observo o horizonte e sinto uma sensação estranha por deixar aquelas paragens. Há algo que se comunica comigo. Paro o carro, desço, vou até uma oliveira sem folhas e apalpo seus frutos duros e feios.

‒ O que foi? – ela pergunta da janela do carro.

‒ Nada...

Então percebo a comunicação com tudo que vejo. Eu conheço esses horizontes, já estive aqui, o “dejà vu” não é à toa. Essa viagem foi feita há muitos anos, ainda mais colorida e movimentada, plena de emoções e medos. O mundo do triste fidalgo que vivia recôndito em minha imaginação espraia-se agora diante do meu olhar como um magnífico presente. Eu via os campos espanhóis deitado ao lado da minha mãe, que retirava das páginas do Tesouro da Juventude o sol e a limpidez dessas terras a contrastarem com a escuridão e o frio da noite além das vidraças do meu quarto. É incrível a força das histórias contadas na infância. As imagens criadas na tenra imaginação ficam guardadas, até esquecidas, mas, ao comando de um mecanismo, como se acionassem o interruptor, elas se apresentam com todas as luzes e cores que foram sonhadas. O Quixote ficou lá atrás a jogar cartas e nós entramos na estrada principal e arribamos para o sul. Logo encontraremos o Mediterrâneo que nunca vi, mas é tão azul quanto esse céu manchego, eu sei. Até parece que estou de retorno, e, de certa forma, estou.




Carlos Rosa Moreira é autor de "A montanha, o mar, a cidade", 
livro debatido no clube de leitura Icaraí em 4/11/2011






Obras do autor à venda na Estante do Concierge:


(peça o seu volume ou a coletânea no campo de comentários ou pelo conciergeclic@gmail.com)

24 de novembro de 2013

De súbito


Mundo frio, vazio, sem cor quando ele não está. 


A Beleza e o Amor tornaram-se amigos, quase irmãos, porque a Paixão levou embora seus filhos. Levou-os para longe, para os Desejos mais insinuantes, e os filhos, órfãos, caminham por aí, procurando por ela, mesmo sem nunca a terem visto. Isto aconteceu porque um dia disseram que a Paixão era ruim, perversa, que ela enlouquecia cada um que a sentia e, então, ela se foi e deixou o Amor e a Beleza sozinhos. Lá onde o Instinto fazia sua confissão, eis que surgiu de súbito o Gosto e disse: _sim, eu quero que a Beleza, o Amor e a Paixão venham a mim. E o Instinto intrigado perguntou: _ por que, assim, de repente, meu caro Gosto? E o Gosto amargurado respondeu intrigado: _logo tu, Instinto?! De súbito perdeu a vez: agora pensas?! Não sabes que agora sou eu, o Gosto, que determino os Sabores a serem apreciados? O Instinto acanhado, meio deslocado, então respondeu: _ah Gosto, se soubesses que há muito ando esquecido, e se é você quem faz o juízo, me deixe só. O Gosto, ainda intrigado, emudeceu e deixou o Instinto falar por horas e horas e horas, até cansar. E quando o Gosto percebeu que ele havia adormecido, ficou insosso, deixou para lá a Paixão, o Amor e a Beleza, e descobriu-se num tremendo Vazio, pois sem Instinto não dá para se Criar: nem Sabores, que dirá ter Amores, nem Paixão que dirá o Tesão, percebeu que sem Beleza a Vida não há. O Gosto fechou os olhos e sentiu um Sabor de Sangue em sua língua estranha e, de repente, o Instinto acordou e perguntou: _ o que foi, Gosto? Parece Desgosto o que vejo, seu oposto? E o Gosto respondeu: _um Sabor de Sangue me perturba. O Instinto então sorriu e aliviado respondeu: _não é nada senhor dos Sabores, foi só o Rio que transbordou dentro de mim[1].


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[1] Drica – De Súbito (18/03/2013)






Um Natal de muitas leituras pra você!


Caros leitores,

O Natal se aproxima e mais ainda nossa reunião de dezembro, que ainda será na primeira sexta-feira do mês, dia 6, às 19h. Nossa proposta é repetir o amigo oculto realizado em 2012, quando os participantes presenciais levaram um livro de sua estima para ser ofertado a outro leitor presente.



Quem topar, gentileza levar o livro de que tenha gostado - que pode ser usado -, para sortearmos o amigo oculto, na hora, entre os que levarem livros para troca. Se possível, pedimos embalar o livro em papel celofane verde ou vermelho, para ficar no espírito Natalino.

Além disso, queremos também fazer uma confraternização de fim de ano e todos estão convidados. A sugestão seria irmos para um local com música ao vivo, só para escutar ou para dançar também. Achei que se fizéssemos o programa após a reunião, dia 6/12, seria mais fácil de juntar mais gente, mas a consulta está em aberto. 


Por favor, respondam no campo de comentários desta postagem:


Gracioso - Gragoatá
1 - quem pretende participar da confraternização musical

a - no dia da reunião, 6/12?

b - em outra data? (informar qual)


2 - quem prefere música ao vivo sem dança (sugestão seria o Gracioso, no Gragoatá) e que sugestão de local teria?


3 - quem prefere música para dançar e quais são as sugestões de local?


Por favor, respondam até o dia 27, próxima quarta, para podermos reservar, se for o caso.

Abraços,
Rita

Em tempo: Katia informa que o couvert no Gracioso custa R$ 10. Lá tem vários pratos à la carte por R$ 29, tábua de frios por R$ 25, petiscos diversos, como bolinho de bacalhau, brusquetas etc. No dia 6 quem estará fazendo o show é o cantor Evandro Halabey (vejam no youtube). O local funciona até às 23:30h.


23 de novembro de 2013

A literatura líquida de João Gilberto Noll: por Tania T. S. Nunes*

 

João Gilberto Noll (arquivo da autora)
Tania Nunes e João Gilberto Noll
João Gilberto Noll (1946) vale-se em sua escrita da palavra úmida.[1] O que podemos chamar de a literatura líquida do autor tem, como marca singular, a palavra a esvaziar o corpo, a secá-lo em sua linguagem, como símbolo de uma ausência, uma anomia, em que a vida se faz na transitoriedade do instante, ou seja, seus personagens ingerem e  expelem pelos orifícios corporais os desencontros da vida.

Esse autor, em 1970, escreveu seu nome na historiografia da literatura brasileira como detentor de uma prosa poética aguçada, mas sua escrita proveniente de um “eu inflamado”[i], como ele mesmo a denomina, apresenta uma característica peculiar: produz um choque no leitor. Seu discurso dialoga entre cinema e literatura, entre ficção e mundo, desvela uma prosa viva e atualíssima, busca mostrar o homem no seu aqui-e-agora, no seu estar-no-mundo, que pela fôrma, revela de qualquer forma a si mesmo ou pela não-afirmação ou pela auto-deformação. No entanto, há uma história a contar, há uma experiência a narrar: a do esvaziamento do ser, do corpo[ii].

Noll foi um dos primeiros em nossas letras a levar a crítica a reconhecer uma mudança na forma e essência do romance contemporâneo como gênero híbrido e heterogêneo, mas nele não cabe somente a leitura pela imagem da dialética, pelo contrário, sua prosa requer sempre um desdobrar-se e desvendar-se do pensamento em idéias em cada texto para capturar o sentido e a interpretação.

Suas obras exemplificam plenamente o momento descorporificado em que o homem vive, quando tudo é fluido, sem sentido, indefinido e afeta a todos em qualquer condição social[iii]. Suas narrativas desfolham imagens que se esfacelam em segundos no estilo direto e sábio do escritor de dizer muito com poucas palavras. Uma narrativa sufocante que, ao mesmo tempo, que é leve, asfixia e comove. Nela encontram-se vivência, experimento e tentativa contínua de afetar leitores capazes de desafiar o mundo real pela representação, pela busca da compreensão do outro, pela interpretação da condição humana. Interpretar, neste caso, é a busca de encontrar no “quase-nada” da “contravida”[iv], quando pelo corpo e com o corpo expele o mundo, o indizível. Desvendar territórios, somar novas terras em cada página das obras desse autor, é reconhecer-se nas suas entrelinhas, revelar-se entre a capa e a palavra final na busca pelo desnudamento de tantas imagens literárias na travessia de tantos espaços para chegar ao homem sempre à deriva, à procura de algo que não sabe o que quer, mas o que não quer, no entanto, sabe muito bem, sabe que tudo é incerto, por isso mesmo repele o que não aceita.

Mostra o mundo de hoje, fagocitado, engolido autofagicamente pela velocidade do tempo e pela busca incessante da construção do “eu”. Apresenta a ressignificação do espaço e do tempo como território da inquietude e da peregrinação na infrutífera busca do relacionamento humano dissolvido no mundo. Desvela o homem em seu limite de suportabilidade entre o público e o privado, o local e o global, desejos e vontades, buscando um sentido para a vida, numa concreta e angustiante realidade produzida pelo momento, sobrevivendo entre a sina e o destino, mas em pleno desatino. Há, também, um traço político na escrita do autor. Um narrador nos diz: “eu seria escravo e agora por inteira vocação.” (NOLL, 2006, p. 45)

Neste artigo nos propomos a ler a relação entre corpo, escrita e excreção nas narrativas que compõem A máquina de ser (2006), última obra publicada pelo autor. Vamos ler quais são as representações que apontam para esse mundo caótico do presente nestes contos.

O escritor inglês Herbert Georges Wells publicou seu primeiro sucesso de ficção científica adaptado para o cinema A Máquina do Tempoem 1895. Nesta produção seres andróides (meio-humanos e meio-robôs) estão em cena. João Gilberto Noll teve várias obras suas adaptadas para o cinema, em A máquina de ser não tem como propósito abordar personagens que viajam no tempo através de uma máquina (embora a narrativa não deixe de ser uma viagem!), mas chamar a atenção para a condição de deslocamento do homem, apontar como este age diante do caos da vida em seu cotidiano quando tudo se faz leve e fluido, passageiro e incerto sem perspectivas futuras. Na literatura líquida de João Gilberto Noll, o leitor “fabrica sua ilusão utilitária” (NOLL, 2006, p. 125).

O que Noll faz nesta narrativa aquosa pela solidão do homem do seu tempo e “engessado” na experiência da perda, é pensar o mundo pela palavra que fabrica. O escritor nos apresenta uma máquina-de-ser não a que tomou o lugar do homem na produção, mas o homem-ser-máquina, traduzindo existencialmente em seu comportamento: hábito e ação, na sua identidade de máquina, a transitoriedade absurda da vida, na sociedade consumista do imediatismo, em que os relacionamentos estão engendrados nessa rede de exigüidade e ausências de humanos em que tudo se transforma e transmuta em nada, em vazio e em segundos, tudo é descartável.

No entanto, tudo tem também o seu preço em meio a tantos avanços tecnocientíficos e biotecnológicos, o homem vê-se saturado de modernidade e paga com a corporeidade e o sacrifício do ser as conseqüências de sua utopia desenvolvimentista. Hoje o homem sem liberdade está destituído de pensar o futuro. No mundo consumista os seres humanos despem-se de si mesmos e vêem-se em contínuo abismo identitário, temporal e espacial, onde muitos não sabem aonde ir. A solução para sobrevivência futura ainda é um enigma e esbarra em algumas indagações a serem respondidas: como dividir o pouco que se tem com tantos que nada têm? Como fixar laços de relacionamentos? Voltaremos à época das tribos em que cada um convive com seu grupo ou já estamos nela?

Mas, em A Máquina de Ser, que homem integra essa fábrica que é a narrativa de João Gilberto Noll? O que se pode afirmar é que o autor fabrica sua escrita talvez ainda querendo acreditar em uma saída, em um consolo na potência afetiva do encontro com o “outro”, na busca contínua da tradução identitária pelo corpo, pela troca e pelo encontro de vários outros “eus”.

O primeiro conto obra-prima deste livro: No dorso das horas, aparece o narrador transformado em imagem e guiado rapidamente no tempo da luz pelo olhar de um homem através de uma câmara, corre ao encontro do que não sabe, até no escuro do espaço deparar-se com um corpo ao qual se une sexualmente, o corpo da filha.

Entre esse e o último conto da obra, que apresenta um alter-ego do autor, JoãoNoll mostra o quanto a travessia da escrita está pautada na idéia da solidão, da renúncia, demonstrando que no mundo em conflito e sem qualquer fronteira, segurança ou certezas, o corpo também é atingido pelo medo-cósmico (medo de tudo o que nem se sabe). Zygmunt Bauman alerta que “a demarcação entre o corpo e o mundo exterior está entre as fronteiras contemporâneas mais vigilantemente policiadas. Os orifícios do corpo (os pontos de entrada) e as superfícies do corpo (os lugares de contato) são agora os principais focos do terror e da ansiedade gerados pela consciência da mortalidade.”  (BAUMAN, 2001, p. 210)

Em Noturnas doutrinas, o escritor diz que “uma umidade lacrimosa corria pelos prédios” (NOLL, 2006, p. 80) No entanto, é no conto que intitula a obra, A Máquina de Serque João Gilberto Noll presenteia seu leitor com mais um narrador anônimo, andarilho em uma cidade estrangeira. Neste, entretanto, como em Lorde (2004)[v], demonstra talvez uma saída para a condição de vida do protagonista que quer escoar e extravasar a energia pulsional que traz dentro de si: “Lembrei que eu agora só sabia beber um cálice de vinho às portas da madrugada”. “Isso já me bastava para aventurar um pouco minhas idéias que logo retornavam porém a seu leito natural -, por onde as águas desciam em sua mansa sina, dando a funcionar mais uma vez minha máquina de ser.” (NOLL, 2006, p. 120)

Há nestas narrativas a presença de um moto contínuo a alimentar a máquina da criação. Na cidade imaginária de João Gilberto Noll, o estrangeiro em sua máquina de ser sofre uma metamorfose de andarilho a Messias, já que passa a buscar a mercadoria mais preciosa do planeta: trabalho; deseja sua própria morte, diz ter uma missão: pôr a “cabeça a trabalhar por uma causa útil, que naqueles tempos tinha a forma de sondagens em prol de um firme intercâmbio tecnológico entre os nossos dois povos.” (NOLL, 2006, p. 122) Imagina este protagonista a sua terra natal com “máquinas agrícolas novinhas.” Agora tinha uma razão para continuar, assinar papéis na Embaixada para que alguns funcionários tivessem motivo de voltar no dia seguinte. Uma prática redentora que mostra o senso de continuidade de uma função para manter o emprego do “outro”, quando o mercado local das grandes cidades se vê encolhido pelo desemprego, fruto das negociações comerciais globalizadas em que até o dinheiro é movente e está a serviço das “forças do mercado”.

Nas linhas finais da narrativa a solução: “Era só acionar a máquina de ser, que tinha no meu corpo um intérprete. E mandar ver... pronto para seguir vivendo... Era preciso, era preciso, a vida se fazia de minuto a minuto”. (...) Peguei um lenço do bolso. E limpei meu suor ...” O suor do fazer nascer a escrita, o suor do corpo a expelir. (NOLL, 2006, p. 122)

Em outros contos, como Na correnteza, encontra-se a presença dessa escrita que busca a identidade dos protagonistas, umedecida pela palavra: “eu tinha ficado ilhado e pronto”, ou ainda, “entrei no cinema, na tela tudo me estranhava. Não entendia bem a história, a razão de tantas escapadas, tantas pessoas se ferindo ao léu do enredo em correnteza.” O enredo em correnteza é também o narrar compulsivo de Noll, em que as cenas são rápidas, mas não se desgastam, pelo contrário, se encadeiam, mostram imagem após imagem, perfazendo uma narrativa frenética em que o olhar, o interpretar, a leitura e o leitor têm de correr atrás da narrativa para não perder o tempo da linguagem, do seu acontecer, quando o autor põe na voz do narrador o prazer de relatar, e de expor as experiências corporais. (NOLL, 2006, p. 144;147)

Mas neste caso, não só o corpo é intérprete, como o autor alude, mas também salvador do mundo através de sua excreção: “Essa parte da lida [mijou] se alongava mais e mais e sempre, como se ele, depois do beneplácito do banho involuntário, tivesse toda a água do mundo para devolver à terra”.  (NOLL, 2006, p.129)

Em suma: o corpo é também linguagem e como tal vem sendo receptáculo de todas as interdições e espaço da escrita vivencial do homem. Uma escrita permeada pelo não-sentido da vida, pelo vazio do ser, pela fluidez da identidade e, sobretudo, pela insatisfação em existir, quando o homem desconhece o outro e até a si mesmo na estranha sensação de ser coisa-nenhuma.


Referências:
BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
_________________. Vidas desperdiçadas. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
_________________. Modernidade líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
NOLL, João Gilberto. A máquina de ser. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
_________________. Mínimos, múltiplos, comuns. São Paulo: Francis, 2003.

__________
* Professora de Letras e Literatura, aluna do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu, Mestrado em Letras pela Universidade Federal Fluminense – UFF. Participante do Clube de Leitura Icaraí.
[1] O título deste artigo provém do arcabouço-teórico do filósofo Zygmunt Bauman detentor do conceito de “modernidade líquida”. A relação deste conceito com a obra de João Gilberto Noll diz respeito à presença do líquido na linguagem do autor com a idéia de desfazimento, em plena interação com os corpos dos personagens desde seu primeiro romance. Um dos narradores anuncia: “Viu a virilha molhada. Notou que toda sua massa se diluía pelos poros. O corpo, ah, se desdobrava em córrego.” (2003, p. 106)
[i] Entrevista. In: Coleção autores gaúchos. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, 1998, v. 23.
[ii] O “esvaziamento do ser” na contemporaneidade é marcado pelo “desvanecimento do sujeito”. Foucault em “As palavras e as coisas” aponta o ocaso de uma forma histórica do sujeito, ou seja, a dissolução do “eu” preconizada pela modernidade. “Na representação, os seres não manifestam mais sua identidade, mas a relação exterior que estabelecem com o ser humano.” (2002, p. 431)
[iii] Consoante Zygmunt Bauman, em “Vidas desperdiçadas”, “a geração X (rapazes e moças nascidos na década de 1970) está polarizada de modo mais agudo que a precedente. É verdade que a desconcertante volatilidade da posição social, a redução de perspectivas, o viver ao deus-dará, [...] a imprecisão das regras – tudo isso assombra a todos eles sem discriminação, gerando ansiedade, destituindo todos os membros dessa geração, ou quase todos, da autoconfiança e da auto-estima. (2005, p. 23)
[iv] Palavras usadas em Mínimos, múltiplos, comuns (2003), p. 29
[v] Lorde é o último romance de João Gilberto Noll publicado pela Editora Francis. Nele, o autor aponta o processo de mutação de um escritor brasileiro que vai para Londres e vive a difícil experiência de conviver no estrangeiro sem negar sua identidade, nacionalidade, cor e religião.


Artigo publicado originalmente na Revista Espaço Acadêmico - Nº 83 - Mensal - Abril 2008
Ano VII - ISSN 1519.6186

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19 de novembro de 2013

Histórias da academia - Por Wagner Medeiros Jr

Gueto fazendo alongamento
Chama-se Gleydson o aspirante a personal trainer da academia. Se eu não tivesse a curiosidade de perguntar-lhe o nome não o saberia, pois todos o conhecem por Gueto. Segundo ele, foi a irmãzinha quem começou a chamá-lo assim, quando crianças. Foi pegando... Acabou ficando.
Douglas, um dos sócios da academia, brincando com Gueto, disse-lhe que eu teria sido um excelente trapezista, nos idos da minha juventude. Então, no mesmo tom de brincadeira, respondi-lhe que sim, acrescentando que havia sido o primeiro trapezista no mundo a saltar de óculos, em resposta à pergunta de Gueto, que se mostrara curioso e interessado, esperando a confirmação.
Lógico que “o primeiro trapezista de óculos” era para mostrá-lo que tudo não passava de brincadeira. Porém, de vez em quando, Gueto chegava perto de mim, falando: - É seu Wagner, o senhor o primeiro trapezista de óculos... Até que um dia, vendo que ele estava levando a coisa muito a sério, para fazê-lo entender a brincadeira, emendei: - Também fui o primeiro motoqueiro no mundo a andar no globo da morte de óculos.
Só que mais uma vez, porque me mostrei sério, ele não entendeu a brincadeira. Então, passou a comentar com os amigos da faculdade do aluno de óculos que corria sete quilômetros em quarenta minutos; que tinha sido trapezista; que andava no globo da morte...
Por coincidência, a namorada de Gueto, Roberta, estudava com minha filha Fernanda em um cursinho preparatório. Ambos foram apresentados em uma festa pela Roberta. Gueto não perdeu tempo: - Fernanda, eu tenho uma admiração enorme por seu pai! O primeiro trapezista... O primeiro... Gueto fez que todos caíssem na risada.
Recentemente, com a ida de Dr. Luiz Daniel - nosso brilhante cirurgião cardíaco, que me deu um colorido novo com uma cirurgia há alguns anos – para a academia, Gueto perguntou-me se realmente ele operava recém-natos. Veio-me, então, a ideia de testá-lo, para ver se realmente estava esperto, haja vista que durante os alongamentos, Gueto sempre dizia que não cairia mais em uma nova história.
Expliquei que Dr. Daniel operava crianças com até um quilo, descrevendo-lhe os microvasos e artérias, o uso do microscópio e as dificuldades cirúrgicas. Disse-lhe, também, que Dr. Daniel era um craque em transplante, o que até aqui é pura verdade. Completei o relato explicando-lhe que o treinamento era feito em pequenos ratinhos, no laboratório; que transplantava o coração de um no outro, e vice e versa; que necessitava de bomba extracorpórea, etc.
Ele ficou simplesmente fascinado. Não teve jeito! Um dos ratinhos, para não decepcioná-lo, ganhou vida: o remédio para evitar a rejeição, ministrado em doses de décimos de miligramas; os cuidados meticulosos de enfermagem; as plataformas de exercícios; a alimentação balanceada... O outro havia morrido no décimo quarto dia.
A cada dia eu era obrigado a dar notícias do sobrevivente: melhorou... piorou... Falava-lhe dos cuidados da equipe, dos detalhes do laboratório e da assepsia. Até que o ratinho acabou morrendo no septuagésimo sétimo dia, por falta de não ter mais nada que acrescentar. O lado bom foi que o ratinho bateu o recorde de sobrevivência.
Gueto, então, tristonho, perguntou ao Dr. Daniel sobre a morte do ratinho, que lhe informou sobre a suspeição de ter faltado água para sua sobrevivência durante o feriado prolongado de sete de setembro, atribuindo a culpa ao descuido de seus tratadores.
Creio que Gueto deve ter ficado decepcionado, quando Dr. Odilon, cirurgião da equipe, contou-lhe que o causo era apenas uma brincadeira. Assim, acabamos perdendo a oportunidade de dizer-lhe que o ratinho tinha ressuscitado.

e-mail: wagnermedeirosjr@gmail.com
Visite o blog: Preto no Branco

15 de novembro de 2013

Embriaguez: Geórgia


Caros amigos octogenários, ou quase, ou, simplesmente, jovens companheiros de estrada ainda não maltratados pelo Tempo,
 
Vamos embriagar-nos neste feriado? 
 
 

"E preciso estar sempre embriagado. Eis tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua. 
 
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, á vossa maneira. Mas embriagai-vos. E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre a grama verde de um precipício, na  solidão  morna do vosso quarto, vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são: e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão: "É hora de embriagar-vos! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos, embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira."
 












 Charles Baudelaire

 
Meio tonta de vinho e poesia, sem nenhuma virtude, admito, proponho um brinde à nossa AMIZADE!
 
Beijos republicanos.
 
 

12 de novembro de 2013

Entre colisões e clareiras - por Wagner Medeiros Jr


Durante o reinado de D. Manuel I (1498-1521) o Brasil permaneceu quase intocável. Não fora encontrado nenhum vestígio da existência de metais preciosos ou outro produto atrativo de fácil extração. Somente o pau-brasil, utilizado como corante nas indústrias de tecido europeias, valia a pena ser explorado, embora o lucro fosse menor que o do comércio dos produtos do oriente.

Em 1498 Vasco da Gama havia encontrado a rota pelo Atlântico para o Índico, o que barateara o preço das especiarias (espécies de temperos) e da seda na Europa. Isto impeliu o comércio português, que se voltou para o oriente. A Coroa portuguesa, então, resolve arrendar o Brasil a um consórcio de comerciantes capitaneados por Fernão de Noronha, em 1502.

O arrendamento inicial foi de três anos, provavelmente renovado depois por outros períodos. Cabia ao arrendatário estabelecer uma feitoria e prover a defesa da costa brasileira dos contrabandistas e invasores, além de pagar a Coroa um quinto do que fosse apurado da venda do pau-brasil e de tudo mais que fosse explorado.

A madeira era dura e difícil de ser cortada e transportada, tanto pelo peso, como também pela densidade da floresta, que parecia indômita. Mas, com a utilização da mão de obra nativa, o negócio tornava-se lucrativo. Não tardou, portanto, a começar os primeiros conflitos entre os nativos e os exploradores.

Os primeiros contatos foram para os nativos um verdadeiro vislumbre e encantamento. Os presentes, as roupas e armaduras - vistas como adornos -, as armas e ferramentas de metal, o modo de viver e a aparência do branco foram-lhes também divertidos e fascinantes. Porém, os maus tratos e a exploração do trabalho mostrar-se-lhes-iam intolerantes.

Por outro lado, o primeiro assombro do invasor foi a antropofagia. Os inimigos eram literalmente comidos por toda tribo em um ritual festivo, na crença de assim herdar-lhes a força e as virtudes. Antes, porém, levavam uma bordoada de tacape na nuca, que lhes expunham os miolos e o sangue. Este era espalhado no peito das mulheres que amamentavam e depois servido aos futuros guerreiros, no intuito de fortalecê-los.

Entretanto, os nativos não se furtavam em ceder suas mulheres e filhas em demonstração de amizade ou em troca de algum presente interessante, quando estabeleciam alianças. Daí a estratégia do invasor em selar laços de amizade com algumas tribos, com a finalidade de derrotar e escravizar as tribos inimigas, forçando-as com a derrota ao trabalho escravo.  

Nos primeiros anos após a frota de Cabral com destino às Índias aportar na costa brasileira, cerca de três expedições deixavam Portugal anualmente com destino ao Brasil. Na escassez de aventureiros que se sujeitassem aos riscos da viagem, nessas expedições vinham muitos degredados. Na volta, alguns eram deixados à sorte; outros desertavam para viver junto aos nativos, da mesma forma como procederam muitos tripulantes.

Entre dezembro de 1503 e abril de 1504, foi erguida por Américo Vespúcio a primeira feitoria no Brasil, a de Cabo Frio, para apoiar a extração e o armazenamento do pau-brasil. Seus construtores faziam parte da segunda expedição, comandada por Gonçalo Coelho. Vinte e quatro homens foram deixados à sorte em terra, com mantimentos para seis meses. 

Se nessas expedições alguns conseguiam sobreviver e formar família(s), dando origem aos primeiros mestiços mamelucos, outros não tiveram o mesmo destino: foram mortos ou mesmo devorados. Na própria região de Cabo Frio a resistência dos tamoios foi atroz.

No reinado de D. João III (1521-1557) o Brasil foi dividido em Capitanias Hereditárias, para garantir a posse da terra ameaçada pelos franceses, que exploravam a costa brasileira, contrabandeando o pau-brasil, monopólio da Coroa portuguesa.

Com a chegada dos primeiros colonos, a resistência do nativo torna-se ainda mais atroz e sangrenta. E muito sangue ainda seria derramado em todo curso da colonização do Brasil.

e-mail: wagnermedeirosjr@gmail.com
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9 de novembro de 2013

CLIc 15 anos: viagem a Conservatória dá o que contar (Last, but not least)

Momentos Sublimes (III)



DE ONDE SURGEM OS POETAS


Poema que obteve o 1º lugar no II Festival de Poesia 
(Prêmio Mário Caldas) Conservatória,  27-10-2013  


                                                                                                                  Maria Luiza Moraes Wilson

Os poetas surgem do Monte Olimpo

- terra dos deuses imortais -

que qual vestais, ao longe

são os primeiros a avistar as cruéis batalhas marciais

que narram em primorosos versos.

Cada visão em forma de uma idéia

e nasce então, uma interminável odisséia

que atravessa todo o continente

e entra finalmente para a História

e dela, para a nossa eterna memória ...


Os poetas também surgem, quem sabe?

das mesas de um bar

onde sob a luz do luar,

simples e anônimos,

romanticamente choram seus lamentos

ao reviverem os trágicos momentos

de uma cruel traição,

entoada agora,

nos versos de uma nostálgica canção ...


Ou podem também irromper, de repente,

cantando a desgarrada

em estrofes populares, improvisadas,

brejeiras e certeiras ...


Ou brotam das sonhadoras donzelas

que inspiraram os gentís trovadores

com a solidão de suas dores,

e a vivência de impossíveis amores ...                                                                                      


Poetas do Olimpo,

poetas que vivem no monte alto

ou anonimamente no asfalto,

essa distancia geográfica fria e estática,

não passa porém,

de uma simples ilusão

dos nossos sentidos enganadores,

- implacáveis traidores -

pois a Poesia traz em sua essência

o dom sublime da profecia,

que primeiro anuncia

muito antes da Ciência o saber,

o que o mundo irá ainda um dia viver ...


Só os Poetas-Profetas

são convidados para o divino banquete

e sentam-se à mesa com o Criador, 

que lhes confidencia

alguns de seus sonhos

e de seus planos mais secretos,

que os mortais pouco cautelosos

chamam de mistérios,

mas que nada têm de misteriosos,

pois toda a grandiosa criação do universo

nasceu a partir da emoção

e da construção de um simples verso ...


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Protocolo do Escritório de Direitos Autorais No. 023480

                                  



8 de novembro de 2013

Cajueiro em flor: Antonio R




H
á duas semanas vi um cajueiro em flor. Cajueiro, eu sei, é palavra pela qual carioca não nutre especiais afetos. Em 1985, recém chegado ao Rio de Janeiro, aprendi com meus amiguinhos que ao me referir a um cajueiro devia dizer pé de caju. Bem, os cariocas é que sabiam das coisas, eu que aprendesse com eles. Que fosse então pé de caju e pé de caju ficou sendo. Alguém pode estranhar essa minha observação e argumentar que dizer pé de caju ou cajueiro dá no mesmo. Não, não dá no mesmo. Ao menos para mim. Pé de caju não tem poesia. Cajueiro sim. Cajueiro é palavra que me soa poético e tem cheiro de infância. Eu, ao tempo de menino, costumava ir ao cajueiro. Cajueiro é palavra que no Ceará daquela época servia tanto para se referir a um pé de caju quanto à sua coletividade. Se havia um lugar cheio de cajueiros dizia-se apenas que se ia ao cajueiro. E esse cajueiro da minha infância era repleto de cajueiros seculares, quase todos deitados à margem de um rio de águas fartas que cortava a região. Eram mesmo cajueiros muito antigos e enormes (da espécie dos cajueiros gigantes), troncos para dois homens abraçarem, senão três. Nunca vi por aqui cajueiros como aqueles. Nenhunzinho.

Durante a floração o perfume se espalhava, impregnando distâncias mata adentro. Até o rio, ali, parecia perfumado com o cheiro dos cajueiros em flor. Na estação dos frutos milhares de cajus se ofereciam gratuitamente. Os cajueiros eram de todos e não eram de ninguém. No chão, tapetes e tapetes de cajus se formavam. Catávamos todos eles para colher as castanhas e depois torrá-las na brasa.  A torra da castanha era um ritual. Estivéssemos na mesopotâmia babilônica algum deus haveria de se agradar do perfume único que exala durante a torra da castanha, verdadeiro per fumum de holocausto divinal.

Voltando ao Rio de janeiro, eu dizia que há duas semanas havia visto um cajueiro em flor. O perfume inconfundível o denunciou. Subi mais um pouco um pequeno trecho elevado da rua, em seguida corri os olhos por sobre os muros altos da casa suspeita e o encontrei ao centro do quintal, solitário. Lá estava o pé de caju, ou melhor, o cajueiro. Senti, então, uma alegria e uma tristeza se apossarem de mim. Alegria por ter encontrado uma casa de quintal grande repleto de árvores e com aquele cajueiro lindamente florido ao centro. Isso porque tem sido cada vez mais raro encontrar casas com quintais grandes e arborizados. Aliás, anda difícil encontrar casas com quintais. Onde moro ainda é possível encontrá-las, até com certa facilidade. Eu mesmo moro numa casa cujo quintal é razoavelmente grande e possui algumas árvores frutíferas: pés de jambo, abiu, cajá, caqui e até coqueiros. Mas a verdade é que os quintais estão sumindo. Os novos loteamentos têm por padrão terrenos com dimensões não maiores que 150m². Dá para construir uma oca e deixar um espaçozinho na frente para acender uma fogueira e assar o aipim e a batata-doce. Como serão os quintais do futuro? Serão como estes que temos visto proliferar por toda a parte? Quintais minúsculos, pelados, com plantinhas (quando as há) sufocadas em vasos e jardineiras? E as árvores? As mangueiras, as jaqueiras, os jambeiros, os cajueiros...? Desconfio que no futuro as crianças haverão de achar que as frutas vêm das gôndolas e bancas de frutas dos supermercados. Assim como já acham que o dinheiro vem de dentro das máquinas onde o papai ou a mamãe enfiam um cartão, digitam alguma coisa para em seguida pegarem um punhado de dinheiro que sai de um compartimento, desconhecendo assim o longo processo que existe para que o papai e a mamãe possam retirar esse dinheiro nas máquinas eletrônicas.

A um habitante do asfalto não é possível explicar o significado de colher um caju no cajueiro e não nas gôndolas do supermercados; torrar a castanha na brasa ao invés de pegar nas prateleiras dos supermercados aqueles saquinhos ou vidrinhos de castanhas torradas nos fornos da indústria para em seguida jogá-los no carrinho junto a outras dezenas de produtos criados pela maravilhosa indústria moderna de bens de consumo. Só os iniciados no mistério que é viver ou ter vivido num outro modo de vida, que está em vias de extinção, podem compreender a relação que pode haver entre o homem e os frutos do cio da terra.

A tristeza ficou por conta de justamente ter encontrado esse cajueiro dentro de um quintal cercado por muros altos. Esse cajueiro em flor que eu vi no centro do quintal grande não é de todos. É de alguém. Os muros o atestam...

E como ainda é tempo de homenagens ao Rei do baião, deixo logo abaixo uma musiquinha singela sobre um cajueiro velho. Espero que apreciem...


   Cajueiro Velho
Luiz Gonzaga





Naquele cajueiro velho
Com um canivete
Desenhei meu coração
Escreví nossas iniciais
Isto a gente faz cheio de paixão
Com uma flecha atravessada
Ficou bem gravata
Lá no cajueiro
História que a gente conta
Quando se dá conta
Do amor primeiro

Ai, ai, cajueiro
Quanto tempo que já faz
Ai, ai, cajueiro
Meu desenho de amor
Não vejo mais

A gente quando nasce, nasce
Nasce outra que a gente entrega o coração
A gente fica tão feliz
Todo mundo diz com satisfação
A planta que não é regada
Fica adoentada, morre no canteiro
Assim é minha vida agora
Morro toda hora
Lá no cajueiro


SG, 05/11/2013


6 de novembro de 2013

Saiba como participar do Clube de Leitura Icaraí - CLIc


Escolha a seguir a forma de participação que te interessa.

Qualquer maneira de participar vale a pena! 


  1. Reuniões nas primeiras sextas feiras mensais, de 19:00 h às 21:00 h, na Rua Miguel de Frias, 9 - Icaraí - Niterói - RJ - Livraria Icaraí da Editora da Universidade Federal Fluminense;
  2. Interaja conosco aqui mesmo pelo blog do CLIc. Comente as postagens e/ou envie-nos sua produção textual (contos, crônicas, poemas, haicais, ensaios, críticas literárias, trovas, etc.) por intermédio do e-mail conciergeclic@gmail.com. Torne-se um colaborador do blog;
  3. Participe pelo Facebook dialogando com centenas de outros CLIc-Leitores e ajudando-nos a escolher o livro do mês, que será debatido no Clube;
  4. Siga-nos no  twitter e fique sabendo de tudo que se passa no clube de leitura;
  5. Troque mensagens de email com outros participantes do clube de leitura aderindo ao nosso grupo master de mensagens;
  6. No Orkut, você também nos encontra. Vale a pena conferir!
  7. Leia os livros dos escritores do clube apresentados na barra lateral direita do blog e interaja com os autores através dos diversos canais de comunicação apresentados acima. 



5 de novembro de 2013

Revivendo passado de novo: O Convidado Surpresa


O Convidado Surpresa: Grégoire Bouillier - 26/02/2010











Em ‘O Convidado Surpresa’, Bouillier descreve seu mito pessoal como sendo Ulisses (Odisseu), personagem narrado pelo poeta grego Homero, em 'Ilíada' e 'Odisséia'. Após partir para a Guerra de Tróia, Ulisses enfrenta perigosas aventuras e longos 20 anos até o retorno ao seu reino Ítaca e a sua esposa Penélope.

Esquerda: no reino de Hades, o profeta Tirésias revela a Ulisses sua cegueira. Mantendo os olhos somente em seu lar, Ulisses não percebia que estaria na jornada em si a construção sua vida. Acima à direita: a sonda Ulysses (NASA/ESA), lançada em outubro de 1990, inicialmente tinha previsão de operacionalidade de 5 anos. Ultrapassando as expectativas, a sonda completou aproximadamente três órbitas ao redor do Sol, com fim oficial das operações em junho de 2009. Ao longo de mais de 18 anos, a Ulysses retornou grande quantidade de dados que permitem maior compreensão da heliosfera (cavidade no espaço gerada pelo vento solar. A heliosfera contem campo magnético e plasma de origem solar. Esta região permeia as órbitas de todos os planetas do Sistema Solar, sendo sua interseção com o meio interestelar chamada de heliopausa). Abaixo à direita: ‘Ulysses and the Sirens’ (1909). Pintura a óleo de Herbert James Draper (1863 - 1920). Retrata uma das aventuras de Ulysses, na qual ele pede a seus marinheiros que tapem seus próprios ouvidos e o amarrem ao mastro, a fim de se livrarem das terríveis e sedutoras sereias - criaturas que atraíam os marinheiros para a morte nos rochedos, enfeitiçando-os com seu canto.


Divulgação EdUFF para a reunião de fevereiro



Durante o debate de “O Convidado Surpresa”, situações ou frases são como “pistas” deixadas pelo autor, seguidas com entusiasmo na busca por revelar os anseios, personalidades e motivações de seus personagens. No entanto, todas as interpretações são bem-vindas nas democráticas reuniões mensais dos cerca de trinta leitores apaixonados por literatura, no saguão da reitoria da UFF.



Sentados em roda, os participantes do Clube de Leitura tecem suas considerações sobre a obra de Grégoire Bouillier.

Carta rompimento de Grégoire Bouiller para Sophie Caille: