CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

29 de abril de 2015

A febre da terra e as drogas do sertão


Por Wagner Medeiros Junior
Após a expulsão dos franceses do Maranhão, em 1615, o português Francisco Caldeira de Castelo Branco é nomeado para comandar uma expedição militar com o fim de explorar o território do Grão-Pará e conter as incursões estrangeiras, que partiam da França, Holanda e Inglaterra. A proteção da foz do Amazonas era estratégica para manter a posse do território do Grão-Pará e seu rico estuário sob controle ibérico, uma vez que a coroa portuguesa encontrava-se sob o domínio da Dinastia Filipina (1580-1640).
Logo que chega à baia do Guajará, em 12 de janeiro de 1616, o capitão-mor Castelo Branco ordena a construção de um forte, nominando-o Forte do Castelo do Senhor Santo Cristo do Presépio de Belém. Depois é levantada uma pequena capela e iniciada a construção de um povoado, que recebe o nome de “Feliz Lusitânia” e mais tarde passará a chamar-se Belém. Começava ali um pequeno núcleo da colonização e expansão da presença portuguesa na América, em um vasto território que pelo Tratado de Tordesilhas pertencia à Espanha.
A região da baia do Guajará encontrava-se habitada pelos índios Tupinambás. Com a chegada dos primeiros colonos a reação dos nativos é atroz. Os Tupinambás cultuavam as tradições de seus antepassados e não conheciam a cobiça e o sentimento de posse. Por sua cultura resistiam ao trabalho forçado e o julgo ao colonizador, o que tornou a ocupação do Grão-Pará deveras árdua e tensa, marcada por rastros e rastros de sangue, pois à medida que a exploração da terra avançava, muitas tribos iam sendo dizimadas e mais índios capturados, com objetivo exclusivo de escravizá-los.
O domínio da região amazônica implicou ainda no rechaço ao corso e na destruição de toda feitoria estrangeira que fosse encontrada. Cada carregamento de madeira e dos outros produtos extraídos da floresta, entre eles as chamadas “drogas do sertão”, alcançava excelentes valores na Europa. Daí o ímpeto bélico luso e seu projeto de conquista com o intuito de manter o monopólio desses produtos, o que tornava imperativo a exclusão das demais potências européias.   
Assim, aos poucos, novos cursos de rios e terras foram sendo conquistados e explorados. Da entrada do atual estado do Maranhão ao Amapá, do alto ao baixo Amazonas, do Tocantins ao Negro extraia-se o óleo de copaíba, cacau, canela, baunilha, pimenta, salsaparrilha, urucu, castanhas, anil, couros diversos, entre tantos outros produtos. Segundo a historiadora Magda Ricci, em seu ensaio “Cabanos, patriotismo e identidade: outras histórias de uma revolução”, mais que a quantidade de produtos, sua diversidade e necessidade na Europa tornavam o comércio com o antigo Grão-Pará peça fundamental no mundo ultramarino português.
Por esta razão, o Grão-Pará acabou por se tornar uma colônia de influência predominantemente portuguesa. A colônia foi oficialmente criada em 1626, durante o reinado de Felipe III de Portugal e IV da Espanha, com o nome de Colônia do Grão-Pará e Maranhão. Ela englobava, além do atual Pará, o Amazonas, parte do Ceará, Maranhão e Piauí. Neste período a colônia do Brasil já abarcava as demais possessões portuguesas na América, onde predominava a monocultura da cana de açúcar e o engenho. Em função da vocação extrativista, a colônia cresceria fortemente ligada a Portugal, sem grande laço com o Brasil.
A expansão da atividade extrativista no Grão-Pará induziu a agricultura de subsistência e a criação do gado, alimentando um modelo econômico que se sustentava na exploração da terra e na escravização do índio. Este modelo atraiu as missões católicas, visando inicialmente a proteção e a catequese dos nativos. Entretanto, o trabalho missionário também implicava na utilização do trabalho dos índios, como necessitava de grandes espaços de terra para produção e exploração dos recursos da floresta, o que colocou as missões em concorrência e conflito com o colono português.
Mais tarde, com a escassez de índios para aplicação da mão de obra na lavoura, e a introdução da monocultura do algodão, é que a escravidão do negro africano é instituída nas possessões do Grão-Pará e Maranhão.

Visite o blog:  Preto no Branco por Wagner Medeiros Junior

28 de abril de 2015

Rubens Figueiredo no CLIc: Passageiro do Fim do Dia


Rubens Figueiredo, no Centro, com blusa branca.

Uma reunião inesquecível com a presença do escritor Rubens Figueiredo para o debate sobre seu livro “Passageiro do fim do dia”. O livro recebeu o prêmio Portugal Telecom de Literatura e o prêmio São Paulo de Literatura, ambos em 2011. Rubens Figueiredo não requisitou nenhum suporte nosso para vir ao Debate, não veio de carro nem de táxi. Quando me mostrei surpreso de que ele tivesse chegado 15 minutos antes do início da Reunião, não tendo sido pego pelo engarrafamento das sextas feiras no sentido Rio-Niterói, ele respondeu dizendo que veio de Barcas, e caminhando das Barcas até a Reitoria. Fiquei boquiaberto, já que no dia anterior eu tinha feito um comentário no blog dizendo que chegar ao Tirol era moleza, queria ver chegar em Icaraí numa sexta feira vindo do Rio na hora do rush. Ele rebateu que observando o caminho feito, se soubesse, teria vindo de bicicleta. Uau! Não é o máximo? Se tiver vindo pelo Caminho Niemeyer, deve ser no mínimo uns 4 Km de caminhada.


Já de início, adorei o bastão da fala que a Joana trouxe: um cartão do Bilhete Único. Explicando o que seja o bastão da fala para quem ainda não frequenta nossa reunião, é uma espécie de totem, algo que usamos para organizar a discussão, que se relaciona com o tema do livro, e que serve para priorizar a ordem de quem fala, na roleta passa um de cada vez, evitando que a Reunião se transforme num charivari. Bem ao jeito dos passageiros do CLIc, debatendo um livro em que a história se passa integralmente dentro de um ônibus. Nesse caso, o bilhete único reforçava a unicidade de quem estava com a palavra, de preferência um por vez.


Rubens falou que nos romances o que importa é o que está no início e o que está no fim, que a gente deve prestar atenção no que está escrito no início e no fim dos livros. Geralmente eu subestimo o início dos livros, embora ele seja essencial para dar aquele gás inicial. Deve ser porque no início ainda não entramos bem na história, não sabemos quem é quem e a trama está muito vaga, além do que eu esqueço muito facilmente coisas etéreas (isso vai me causar problemas). Ele falou que no meio do livro geralmente são coisas acontecendo, assassinatos, roubos, traições, mortes, dramas, peripécias, introduzidas pelo escritor para dar conta daquela história que ele começou a contar e terminou da maneira planejada. Ora, como bem foi lembrado, então, no livro em pauta, “o passageiro do fim do dia”, acho que ele ficou devendo os 15 minutos finais da história, porque nos ficou parecendo muito abrupto o tal final. A propósito, na construção da narrativa, ele disse que bolou a história transcorrendo dentro de um ônibus porque queria mesmo escrever uma história sobre coisas transitórias, personagens passageiros, e que o percurso do ônibus favorecia essa transitoriedade, o que talvez não seja muito verdade não, porque o ônibus ficou a maior parte do tempo preso nos engarrafamentos.


Me pareceu um tema recorrente do autor sua preocupação com o automatismo de nossas ações, nosso comportamento, nossa fala, nossa linguagem, tudo, tudo, que nos faz agir, falar e escrever muitas vezes coisas que não queremos. Disse que levou 3 anos para escrever o livro mas que o escrevia em pequenos trechos, por umas 3 semanas, e depois deixava o texto de lado, ia viver seu cotidiano e observar se o que tinha escrito era realmente o que o tinha motivado inicialmente. E ele percebia que tinha escrito muita coisa por puro condicionamento da linguagem, como se o ato de escrever estivesse impregnado de uma lógica, ou uma engrenagem que nos leva a escrever automaticamente coisas que não é nossa intenção inicial. Então ele reescrevia tudo de novo e voltava para a vida no intuito de observar se o escrito estava mais próximo da realidade que o inspirara, ou seja, os processos que regem a sociedade e os atos individuais. Me pareceu que a questão aqui era o embate entre o automatismo maquinal e a criatividade do sujeito, a luta para escrever o que realmente deseja e não o que seus leitores idealizados, o público alvo, gostariam de ler, esperam do autor. Uma preocupação sua em salvaguardar a criatividade do escritor. Me pareceu bastante obsessiva esta preocupação do Rubens Figueiredo na busca de originalidade e autenticidade de sua escrita, sua tentativa de escapar da massificação de nossa sociedade de autômatos humanos.


Essa preocupação excessiva em descrever o que acontece e as ações dos personagens com o máximo de rigor tornou a obra bastante minuciosa nos detalhes e gerou comentários e questionamentos na Reunião. Alguns favoráveis, como o fez Benício de maneira ostensiva e depois em particular comigo, outros nem tanto. Benício chegou a se desculpar com o escritor por sua empolgação em relação à qualidade literária do livro e o elogiou por diversas passagens em que usou figuras de linguagem inusitadas, como por exemplo, “riso rasgado” e outros que não me lembro. Por outro lado, outros participantes não se entusiasmaram tanto, revelando posteriormente gostar de textos mais abertos, mais livres, embora tenham aprovado a temática, o engajamento social do autor.


A desigualdade social é uma questão da maior importância para Rubens Figueiredo. Foi com assombro que ele descobriu que ela é central na literatura russa, fato que ele só veio descobrir quando começou a traduzir autores russos diretamente da fonte. O tema é tabu para os tradutores e críticos ocidentais, sobretudo os de língua inglesa, e estava camuflado até então nos textos que passavam por traduções indiretas. Onde tais tradutores e críticos viam questões morais e religiosas nos textos russos, sobretudo os de Tolstói, eram geralmente a desigualdade social que estava em questão nos romances. Não foi fácil subverter esse cânone desfigurado que já estava de certa forma consolidada na nossa recepção de tais textos, já líamos esperando este tipo de interpretação.


No final, quando o chaver Getúlio tomou a palavra, já passando do horário de terminar a Reunião, temi pelo pior. Mas foram temores infundados porque sua preocupação era apenas com o fim do romance e do livro em papel, queria saber a opinião do Rubens Figueiredo sobre a questão. Para o escritor, as pessoas pensam que o livro ou o romance são como o Sol e a Lua, que sempre existiram e existirão para sempre… ops aqui eu vou fazer um aparte porque nem mesmo o Sol e a Lua existiram sempre. Eles também se formaram um dia e por certo terão um fim, … e fechando o aparte, ele concluiu que o romance é uma coisa moderna, a Literatura então nem se fala. Cervantes não sabia o quê era isso quando escreveu Dom Quixote, e discorreu um pouco mais sobre a questão, mencionando autores bem mais recentes que desconheciam sua produção literária da forma como a compreendemos hoje em dia. Acho mesmo que ele chegou a duvidar se realmente existe Literatura, mas não tenho certeza de ter ouvido isso porque estava num estado de alívio por tudo ter terminado bem.


Ao ser perguntado se estava escrevendo um novo livro, Figueiredo disse que não, que “o passageiro do fim do dia” é seu último livro, que só vale a pena escrever quando se tem algo a dizer, um problema a ser trabalhado, e que enquanto não encontra um forte motivo para voltar a publicar se sente feliz e completo. Ele trouxe um pouco dessa felicidade para nós do Clube de Leitura Icaraí, que pudemos apreciar sua grande eloquência e inteligência ao falar sobre a construção da narrativa e dos personagens do seu livro, sobre desigualdade social e econômica, sobre política e filosofia. Norma ofereceu um livro de presente para o escritor no final: Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros. Vários Cliceanos assinaram o volume.

Agradeço às pessoas que colaboraram com este texto. Troquei nomes e outros detalhes identificadores para proteger a privacidade de algumas delas.





21 de abril de 2015

Clube do Conto - Por um momento: Carlos Rosa Moreira


O autor e leitoras do CLIc

Ela levantou os olhos do livro e avistou o pontinho escuro no alto da parede. Toda vez era isso: parecia que o pontinho atraía o seu olhar para dividir com ela a chateação que eram seus dias. Como das outras vezes, o enfado com a leitura guiou seu olhar até o pontinho. Não que não gostasse de ler, mas naquele momento preferiria estar fazendo outra coisa. Se pelo menos ele quisesse curtir a manhã... Fazer amor de manhã, depois dar uma caminhada, como antes... Ele estava na sala. Ainda de pijama apesar de ser manhã de sábado ensolarado. Apoiava os pés sobre o velho pufe de couro. Parecia uma estátua sentada na poltrona. Como de hábito, havia lido três jornais e relia não sei o quê. Que vida... E à tarde lá vem televisão! 

Foi até à porta, ia chamá-lo quando viu o jornal emborcado sobre a barriga formando um túnel triangular. A cabeça jogada para trás fazia a boca se abrir e um ronco baixo denunciava o sono pesado. Ela voltou para o quarto e se olhou ao espelho. Já estava com cinquenta e três, família criada... Levantou a camisola: ainda dava para o gasto. Mas, que gasto? Vai ficar tudo aí, amolecendo, enrugando, criando varizes... Deve ser assim mesmo, viemos ao mundo para procriar, o resto é invenção. Depois é só ficar à espera da morte numa casinha como esta. E dar graças a Deus de ser própria!

Seus olhos se fixaram na imagem ao espelho, mostrando as feições carregadas pelo pensamento naquela vida de todos os dias. Nesse momento o telefone tocou.

‒ D. Lolita?

‒ Sim?

‒ D. Lolita, a senhora não se lembra de mim, mas, por favor, não desligue. Fui seu aluno de francês em mil novecentos e sessenta e nove.

Assustou-se com a ligação estranha e com a voz desconhecida repleta de apreensão, mas a lembrança repentina do passado trouxe uma suave surpresa àquele momento de mesmice enjoada. Por segundos, perdeu-se em seus pensamentos.

Mil novecentos e sessenta e nove... Um dos melhores anos de sua vida... Havia acabado de se formar na Aliança e conseguia o primeiro emprego naquele colégio de padres que só admitia alunos do sexo masculino. A imagem de um dia qualquer passou diante dos olhos. Viu-se apressada, deixando o elevador de manhã cedo, preocupada com o horário da primeira aula.

‒ D. Lolita? A senhora ainda está aí?

‒ Quem é? Quem está falando?

‒ Não quero me identificar. Só peço que me escute, levei mais de trinta anos para conseguir dar este telefonema!

O telefonema a apanhara absorta no beco sem saída da vida que levava, mas, sem querer, despertou um passado com imagens que já pareciam esquecidas.

‒ Quem é você?

‒ Me desculpe, tenho vergonha... Desejo só falar um pouco. Não é brincadeira. Já estou velho demais para guardar meus sentimentos.

‒ Mas que história é essa!?

‒ Fui seu aluno, D. Lolita. Tenho quarenta e quatro anos. Fiquei viúvo, vivo muito só, sou um pouco deprimido. Nesses últimos tempos tenho pensado nos meus dias felizes da juventude... A lembrança na senhora jamais me abandonou, tornou-se mais forte agora, pois outro dia a vi passar. Parecia ontem, nada mudou. Precisava ouvi-la, e também falar como homem.

A voz era máscula, mas suave, pausada, com um certo nervosismo. Parecia sincero. Surpresa, ela só respirava, os pensamentos viajavam ao passado e retornavam. Os olhos se fixaram num canto da parede do corredor, onde descobriu outro pontinho escuro, bem defronte da mesinha do telefone.

‒ D. Lolita, naqueles meus catorze anos me apaixonei pela senhora. E tenho até hoje essa paixão guardada no peito. O que me atraiu na minha falecida esposa foi a semelhança física com a senhora. Eu me lembro de tudo, D. Lolita... Seus cabelos Chanel, o tom da sua pele... Suas minissaias... Por favor, não desligue, é sincero! O seu andar de passinhos curtinhos, empinadinhos... A senhora foi minha musa! Ah, D. Lolita...

Ele ouvia a respiração da mulher. Achou que ela tomava fôlego para lhe dar uma terrível resposta. Falou rapidamente, pois seu coração batia forte e seus olhos estavam molhados.

‒ Estou profundamente emocionado, mas disse o que apertava meu peito. Não quero ser tão atrevido, me perdoe se a ofendi, eu queria dizer mais, queria estar olhando em seus olhos, penso na senhora comigo, nas suas pernas, na sua boca chamando a minha atenção na aula... Sua boca... A senhora está em meus desejos, em minha intimidade quando penso numa mulher... Queria tomá-la, tomá-la para mim! Minha Lolita, minha Lolitinha!

Ele virou o rosto, afastando o fone. Sentiu a face quente, vermelha. Foi tão difícil dizer tudo aquilo... Mas assim, pelo menos de alguma forma, se aproximava dela. A lembrança naquela mulher que sempre o excitou tornou-se irresistível, uma onda impossível de conter. D. Lolitinha... Com o rosto virado, excitado, receoso e envergonhado, olhos contraídos, o braço esticado segurando o fone longe dos ouvidos, ele a imaginava indignada. Não! Não suportaria a resposta dela àquele ultraje.

Do outro lado, ela respirava de boca aberta com o fone no ouvido. Percebia o respirar dele. Um relâmpago trouxe as faces adolescentes de mil novecentos e sessenta e nove. Os olhares ingênuos, os enviesados, os ousados que olhavam de baixo a cima, os olhares de machos novos... Lembrou-se da sensação da mocinha de vinte e três anos ao se sentir desejada pelos colegas, sua ousadia proposital nas minissaias... Pablo... O atraente, mas tão tímido professor de História. Naquela época, chegou a sonhar com ele. Aqueles pelos negros brotando do guarda-pó branco... Ele reparava nas suas pernas, até os padres reparavam... Fingia que não via os alunos se juntarem na varanda do primeiro andar para olhar suas coxas pelo para-brisa da Vemaguete quando estacionava no pátio. Sentada ao volante, a minissaia subia quase às virilhas. Esse homem, quem será? Quarenta e quatro anos... me viu passar...

Então, veio a imagem forte de Pablo. Chegou moreno, peludo, olhar doce de macho apaixonado fixo nos seus olhos, nu dentro do guarda-pó. Abraçou-a com suavidade tomando-a para si, e a beijou.

Seus olhos se fecharam, e se entreabriram. A respiração aumentou; ela piscava, piscava sem parar os olhos escuros e agora brilhantes como há trinta anos. Suas mãos tocaram seus próprios pelos e um calor tomou seu corpo. Com os olhos fechados via-se nas mãos não de Pablo, mas de um jovem desconhecido apaixonado que delicadamente a tocava, enfiando a mão dentro de sua minissaia. Os dedos descobriam as peles úmidas, despertas... Num instante o desconhecido ganhou um rosto, um corpo forte, nu, peludo, envolto pelo guarda-pó branco que esvoaçava. Agora era Pablo! Ela se deixou levar por aquele momento, aquele encanto que a fez ofegar, sorrir e gemer e a comprimiu contra a parede a balbuciar o nome dele: Pablo... Ah, Pablo... Ah!

Sem largar o fone ela pedia:

‒ Fale, fale mais! Fale o que quiser. Eu quero saber, fale comigo, tenha coragem, eu quero!

Ele não teve coragem. Colocou uma das mãos espalmadas sobre os olhos crispados e, ainda com o braço esticado mantendo o fone longe do ouvido, depositou-o suavemente no gancho. Tudo o que ela ouviu foi o sinal continuo e decepcionante do telefone. Ela ainda esperou. Pensou que tocaria novamente. Nada. Então, lembrou-se do seu desvario e dos ruídos que fizera. Assustada, correu para a porta e olhou de esguelha: o marido roncava refestelado na poltrona. Observou-o por segundos e respirou tranquila, mas um calor cobriu seu rosto: e ele, terá ouvido alguma coisa? Que loucura... Ajeitou-se, puxando a camisola para baixo. À sua volta, apenas os ruídos normais da casa. Chegou a sentir vergonha de si mesma quando, por segundos, lembrou-se do prazer que foi aquele momento. Será que isso é trair? Riu-se. Bobagem... Foi tão bom... E foi só meu, só meu! Sentiu-se livre, estranhamente superior ao marido. Riu-se com malícia. E sorrindo, pensando no quanto qualquer mulher pode ser livre, correu os olhos pelas paredes e sem querer o viu: lá estava ele, bem à sua frente, observando na penumbra do corredor à altura dos olhares de todos os dias. O outro pontinho na parede, testemunha de um momento.


20 de abril de 2015

CLUBE DO CONTO: Tinha que ser


Novaes/







Caminhava pelo tempo como uma diva consciente de sua finitude, percorria madrugadas chuvosas, lutos molhados, riscos esquecidos, paralelepípedos escorregadios, caminhos manufatureiros para chegar ao trabalho, antes da grande sirene. Cartão batido, cão latindo na rua, bramidos mecânicos ali dentro, urgência de ser.

Não gostava de chamar-se operária, era costureira, embora nem uma roupa soubesse fazer. Era especialista numa daquelas funções, umas cortavam panos, outras costuravam, outras prendiam botões, outras mais faziam mangas, algumas, bainhas. A roupa nascia de ninguém, não tinha pai, nem mãe. Eram filhas de todo mundo, frutos do grande bacanal produtivo, cada roupa passava de mão em mão, em cada peça a marca de cada um.

Assim era porque tinha que ser.

Suas horas de reflexão davam-se na condução que, apesar de lotada, prestava-se à sua necessidade de solidão. Tanto faz se o corpo estava em pé ou sentado, a mente voava, sobrevoava sua vida com visão analítica, procurando enxergar o que os olhos da cara, medíocres, jamais conseguem.

Tinha que ser esse o tempo de pensar.
Em casa, já noite, a filha criança, o marido, a mãe viúva recente, que pelo menos tomava conta da filha e ajudava a preparar a comida. Tinha que ser essa a estrutura familiar. O melhor príncipe encantado que fora possível, com os critérios práticos que estavam à mão, bons critérios resgatados com certa desilusão entre os vários sonhos afogados pelas ondas da vida. A mãe útil, mão-dupla solidária, a confirmar a unidade familiar para além, muito além, das costumeiras estatísticas do censo populacional.

Na hora da novela, tinha que ser agora, enquanto a família acompanhava a trama televisiva, nossa diva tinha paz, algum tempo, papel e caneta.

Escrevia num caderno surrado sua novela, onde o príncipe encantado não tinha muito estudo, não vivia em belo apartamento, mas pisava o chão com orgulho, amava os paralelepípedos escorregadios, por onde passava nas noites frias para proteger as moças que madrugavam por obrigação. Tinha que ser assim.

novaes/,
vencedor do Prêmio UFF de Literatura 2011 - categoria Conto,
é autor de "letras rebeldes, fluidos insensatos",
debatido no Clube de Leitura Icaraí em 05/07/2013.

16 de abril de 2015

Revivendo leituras passadas - Belém do Grão-Pará: Dalcídio Jurandir




Reunião do Clube de Leitura Icaraí em 01/07/2010

Trecho da Obra

No bonde, Alfredo recolheu-se, sem mais aquela sensação de que o elétrico, com sua velocidade e rumor, quebrava a vidraça das janelas, impressão esta que levara de Belém quando pixote e sempre recordada em Cachoeira.
Até que o bonde ia vagaroso.
E meio sujo, seus passageiros afundavam-se num silêncio e apatia indefiníveis. Pareciam fartos de Belém enquanto seguia com uma crescente gula da cidade. O bonde cuspindo gente, mergulhava nas saborosas entranhas de Belém, macias de mangueiras(…)
Passaram pelo Largo de Nazaré, a Basílica em tijolos ainda, a antiga igreja ao lado. Cobrindo o Largo, mais monumentais que a Basílica, as velhas sumaumeiras. À esquina da Gentil com a Generalíssimo, saltaram.  A cidade balançava ainda. Ou estava tonto com os cheiros de Belém?








A suarê de discussão do Belém do Grão-Pará ocorreu no dia 1/7/10, especialmente numa quinta-feira, por causa do jogo do Brasil, marcando também a transferência das reuniões da última sexta-feira mensal para a primeira, que por ter também outro jogo do Brasil, foi excepcionalmente antecipada para quinta-feira. Marcar qualquer coisa em dia de jogos do Brasil era impraticável. Contamos com a presença do filho do escritor, que tinha chegado naquele dia do Pará, de um congresso em homenagem a Dalcídio Jurandir, e trouxe diversas guloseimas regionais para experimentarmos, entre os quais deliciosos bombons de cupuaçu. Alguns felizardos foram sorteados com livros do autor do livro do mês e com revistas sobre este grande escritor tão pouco lembrado pelas casas de edição.
Belém do Grão-Pará é um livro que merece ser filmado. Algumas cenas são cinematográficas. Uma mistura de Montanha Mágica, Cem Anos de Solidão e Crime e Castigo, tudo isso ambientado num ambiente bem brasileiro, na Estrada de Nazaré, 34.
Mais uma vez, dominou a discussão as tragédias e desgraças que permeiam as obras literárias que lemos no Clube. Se houvesse outro nome para o livro do mês, este certamente seria “A desagregação das coisas”. O que fazemos com o sentimento que fica depois de terminada a leitura? Talvez este seja o papel da Arte, o de salvar-nos da realidade, além de não nos deixar nos aborrecer por não ter do que se aborrecer. Outra impressão que dá é que os personagens do romance, parecem todos ser um só: Dalcídio Jurandir. Pretensão a minha, relevem, que só porque conheço o filho do escritor, fico pensando que conheço o autor.
Uma dúvida permaneceu por um fato curioso na reunião: a predominância do vermelho da roupa das pessoas era um homenagem ao chão vermelho de Dalcídio ou foi presságio da derrota do Brasil para a Laranja?
Em tempo: o que nos liga a um livro: a leitura ou as lições?

Veja o vídeo

6 de abril de 2015

Relembrando belos Textos - No ouriço, um leitor


William Lial


No texto Nova elegância do ouriço¹, da nossa amiga Eloisa Helena, o ouriço ouriçado pela nova aventura que vai enfrentar, e que, quem leu o texto sabe, se ouriçará depois não mais pelo medo da decepção mas pelo prazer da nova descoberta e pelo gozo de felicidade, esse ouriço que, na sua confusão de adolescente “resgata os anos setenta”, é-nos boa metáfora da nossa paixão pela leitura — para sermos barristas e ficarmos apenas aqui pelo nosso terreno da Literatura, com letra maiúscula.

No enredo, uma senhora arruma-se para ir, provavelmente, ao encontro de um grupo de leitura. Nervosa, atrapalha-se, treme. Parece temer novas amizades e decepções, tendo vivido, aparentemente, há algum tempo, um pouco afastada de encontros (“Tanto tempo sem sair à noite!”). Mas enfrenta o medo e vai. No caminho pensa, analisa-se na sua forma de ser, no seu amor exagerado por tudo o que faz e, à medida que se aproxima do local indicado, aumenta a sua angústia, a sua expectativa. Muitas vezes pensa em desistir, mas segue em frente e se depara com um belo mundo. O que temia não encontrar, mas almejava, está lá.

Uma das inteligências do texto é a escolha de palavras que vão simbolizar os estágios pelos quais passa a protagonista. No começo, várias referências ao nervosismo, ao medo e à confusão instalada em sua mente como nas palavras a seguir: nublada, alvoroços, medo, vacilantes, confuso, emoções afloradas, desespera-se (e daqui em diante os termos já demonstram que se encontra no pico do pavor), dolorosamente preocupada e o coração dá pinotes. E nesse ponto chega ao medo do recalque na obstrução; há guardas protegendo a casa, suposto obstáculo que expõe sua fraqueza porque “a casa é envidraçada” como a sua falta de confiança e pavor de a novidade se quebrar e/ou a esperança naufragar numa decepção.

Tudo acontece como numa montanha russa, subindo e descendo, dos picos aos pontos menos altos — mas nunca tão baixo, nunca mínimo, ao chão.

Durante esse percurso, a paixão está sempre manifesta. Seus sinais vão pintando o texto sorrateiramente, pertencendo a um mesmo campo semântico com os semas: vermelho, dolorosos, paixão, lareira, vinho, desejo, atraente, sedutora, todos como distinções e referências feitas à paixão e suas características. E há também o temor, daí o alvoroço: “já tinha vontade de desistir” e “sempre o medo” são sentenças que dão sinais disso. Mas ela continua em frente, mesmo com “passos vacilantes”, quando o destino se encontra aparentemente vedado nos novos semas: cercada e grades (este repetido quatro vezes), uma causa para um medo duplo: o de ter sido um erro sair de casa e o de ficar impossibilitada de continuar e experimentar o novo. Além disso, “há muita luz” que provoca o medo da exposição.

No entanto, todo o medo era desnecessário, a protagonista enfrenta-o e entra na casa. Lá é envolvida por uma mescla de paixão e tranquilidade por estar finalmente em paz, no seu habitat, e nesse momento as palavras mudam de fortes, nervosas para suaves e felizes. Palavras qualificativas como Sorrisos, afetuosos, paixão (num significado diferente do alvoroço de antes), lareira (sinal de aconchego), roda humana, cheia de vida, abraça, fisgada (como seduzida, convencida) amor, feliz, abençoada e romances dos bons representam que a leitora do nosso texto foi abraçada e alcançou a felicidade que desejava, mas temia tê-la frustrada.

Contudo, há um fato curioso nesse encontro feliz: a presença do livro Crime e castigo de Dostoiévski na bolsa da protagonista. Na obra do russo, o personagem sofre pelo peso na consciência de um crime cometido; a pressão moral lhe invade e, ao mesmo tempo em que foge, deseja ser pego. No texto da Elô, a protagonista se angustia, sofre pelo medo de um “crime” ainda não cometido, pensa em fugir, “desistir”, mas também deseja ser pega, como Raskólnikov, porém, não por um crime, mas também, por um lado, pelo alívio de um peso, e por outro, pela satisfação de um bom encontro. E assim como Raskólnikov, ela é pega, é presa e encontra a paz — ele, porque mesmo preso, seu tormento moral acabou; ela porque está na felicidade de um novo horizonte na roda de novos amigos.

Podemos dizer que do mesmo modo que o romance de Dostoiévski trata de um existencialismo, o texto da Elô também; afinal como viver longe de sua paixão, sem o cerco do prazer e sem a coragem de ir além, de vencer os medos e descobrir algo novo. Para que estamos aqui, senão para viver e nos sentirmos vivos e aproveitarmos cada nova oportunidade de sermos felizes? Alem disso, à semelhança da ressurreição de Lázaro que vive Raskólnikov — lembrada pela personagem Sônia a este no seu desespero —, vive a leitora do texto da Elô; ela parece renascer com o gozo experimentado.

O mais interessante é que, muitas vezes, quem escreveu o texto nem percebe que fez uso dessas artimanhas, desses recursos estilísticos para a construção do sentido e do prazer estético do texto, em sua cenestesia e sinestesia. Talvez porque, como queriam os estruturalistas, não seja o autor que domine o texto, por estar “morto”, e o texto se escreva por si mesmo, digamos; ou talvez seja pela metafísica da “unidade universal” desenvolvida pelos alemães “filósofos da natureza”, onde tudo é parte de um todo, então escrevemos em comunhão com o universo; ou ainda porque somos invadidos por nossa bagagem cultural quando escrevemos e, mesmo inconscientemente, pegamos emprestadas teorias e alegorias de matérias que estão alojadas em nosso conhecimento, em alguma parte parcialmente esquecida de nosso cérebro, de onde vem também a inspiração. Ou ainda por tudo isso.

Enfim, todo o texto ocorre como uma metáfora do leitor apaixonado — acredito que possamos ver assim —, onde o leitor, apreensivo, pega o livro, objeto do seu desejo (“O que irei encontrar?”), ansioso por momentos de felicidade, e no momento da leitura (que simbolizamos como o caminho percorrido por nossa protagonista), sofre várias emoções, medo, obstáculos, “Grades, grades...”, algumas vezes o excesso de informação, muitas idéias, mas, no fim, o prazer de “uma lareira e vinho”, “calor” e “luz” — sim, “luz”, porque quando tudo dá certo, os objetos e os medos transformam-se, e a luz que pode ferir e assustar pela exposição de quem teme se expor, transforma-se em aliada daquele que agora se encontra na ribalta sem medo da platéia ou do foco sobre si. Ele agora faz parte do foco. E está feliz.



¹ Texto parte do livro dos 15 anos do CLIc. Para lê-lo basta clicar no título do livro no início deste texto.

5 de abril de 2015

Passageiro do fim do dia: Rubens Figueiredo (Reunião contou com a presença do escritor)






Rubens Figueiredo nasceu em 1956, no Rio de Janeiro. 

Dos mais importantes tradutores de escritores como  Turguêniv, Tchecov, entre outros, seus trabalhos com  Ana Karenina e Guerra e Paz, de Tolstói receberam grandes elogios da crítica e do público.

Livros:  A festa do milênio de 1986, Contos de Pedro de 2006, ganhou  duas vezes o prêmio Jabuti,  com os livros As palavras secretas (1998) e Barco a seco (2001). Com O passageiro dofim do dia, (2010) ganhou os prêmios São Paulo e Portugal Telecom.


Rubens Figueiredo Foto: Rogério B. Huss

O escritor é professor de português em escola publica no ensino médio e também no ensino supletivo. Conta a longa  experiência de viagens de ônibus de sua casa até os locais onde leciona. Mostra profundo respeito aos alunos e observa as diferenças e os conflitos gerados pelo sistema de desigualdades que distanciam e prolongam injustiças conflitivas da realidade social brasileira. Leciona atualmente em escola localizada  a cinco quilômetros e vai ao local de trabalho  de bicicleta.


O livro O passageiro do fim do dia se passa no interior de um ônibus lotado e aborda o regime de exclusão social, cujos mecanismos justificam modos de comportamento: as pessoas passam diariamente e  “enxergam ônibus lotados como se fossem árvores....”  Afirma que quando observamos atentamente, alguma coisa ultrapassa  nossa percepção.


Vista aérea da área do Tirol                (Foto: Redação Veja Rio)

Não ver, não entender e até não sentir. E tudo isso sem chegar a ser um idiota e muito menos um louco aos olhos das pes­soas. Um distraído, de certo modo — e até meio sem querer. O que também ajudava. Motivo de gozação para uns, de afeição para outros, ali estava uma qualidade que, quase aos trinta anos, ele já podia confundir com o que era — aos olhos das pessoas. Só que não bastava. Por mais distraído que fosse, ainda era preciso buscar distrações.






“como acontece em muitos casos a ideia deste livro partiu de uma experiência pessoal. Essa experiência é minha porque sempre andei de ‘ônibus’, especialmente nos 25 anos em que dei aulas num colégio e tinha de pegar dois ‘ônibus’ para ir e dois ‘ônibus’ para voltar. Embora seja pessoal na origem, ela não é pessoal na própria experiência, que é muito abrangente, muito presente no nosso quotidiano”.








Rubens Figueiredo fala dos trabalhos como escritor, tradutor e da atividade que lhe dá maior satisfação: a de professor
29. 12. 2011
Bel Pedrosa
Por Marcos Fidalgo
Na foto, Rubens Figueiredo
Crédito foto: Bel Pedrosa

“Não ver, não entender e até não sentir. E tudo isso sem chegar a ser um idiota e muito menos um louco aos olhos das pessoas.” É assim que Rubens Figueiredo inicia Passageiro do Fim do Dia, eleito o melhor livro do ano pelos júris dos prêmios Portugal Telecom e São Paulo de Literatura.

A obra narra a viagem de Pedro em um ônibus lotado, a caminho da casa de sua namorada, localizada em uma violenta periferia de cidade grande. Durante o percurso, o protagonista reflete sobre sua vida e sobre as outras vidas que, assim como a sua, dependem diariamente daquele transporte deficitário. No final da viagem, Pedro desembarca com um novo conhecimento das coisas ao seu redor.

Nascido no Rio de Janeiro, em 9 de fevereiro de 1956, Rubens estreou na literatura em 1986, com a publicação do romance O Mistério da Samambaia Bailarina.

Além de escritor, Rubens é professor de português do ensino médio e tradutor do inglês, do espanhol e do russo para o nosso idioma.

Na entrevista abaixo, concedida ao SaraivaConteúdo, Rubens fala sobre as dificuldades que encontrou para escrever Passageiro do Fim do Dia, além de comentar a importância social da literatura e de suas demais atividades como professor e tradutor.

Como surgiu a ideia de escrever a história de um cidadão comum, que relembra momentos de sua vida na volta para casa?

Rubens Figueiredo. A ideia original era escrever sobre os processos que produzem e reproduzem a desigualdade, que a legitimam em nosso pensamento e tentam impedir que a vejamos como uma injustiça e uma brutalidade banalizada pela mera repetição, como algo construído no dia a dia, em parte à nossa própria revelia. Era preciso investigar situações cotidianas e banais em que aqueles processos agem e se concentram. A viagem diária de ônibus do trabalho para casa me pareceu propícia para isso. Permitia também imprimir certa mobilidade à narrativa, no espaço e no tempo.

Além de concentrar um certo número de personagens num espaço reduzido e num tempo compacto.

Quanto tempo demorou o processo de criação de Passageiro do Fim do Dia?

Rubens Figueiredo. Acho que devo ter ficado uns quatro anos fazendo o livro. O engraçado é que talvez tenha ficado mais tempo pensando no que escrevia do que escrevendo propriamente. Eu pensava e depois refazia tudo, avançava um pouco, parava para pensar e refazia de novo.

Sentiu alguma dificuldade no desenvolvimento da obra?

Rubens Figueiredo. Muita. É mais difícil do que se imagina encontrar os meios adequados para tratar, num romance, de um assunto que a própria sociedade se empenha em esquecer. Uma questão cujo aspecto de fundo (a legitimidade de destruir a vida de muitos para preservar alguns excessos de poucos) constitui o verdadeiro tabu de nosso cotidiano. As incríveis dificuldades e as complicações que surgem em nosso pensamento toda vez que tentamos questionar essa situação me pareceu, por si só, constituir um tema rico para meu livro.

O livro descreve uma realidade comum a diversos brasileiros que vivem nas periferias urbanas. Além de enfrentarem as dificuldades de uma região violenta, os personagens encaram um transporte público deficitário para chegarem até ela. Você acredita que as mazelas sociais do país vêm sendo bem exploradas pela literatura?

Rubens Figueiredo. Creio que a literatura (não só do Brasil) ganharia bastante se fosse encarada como uma forma de ampliar nosso conhecimento dos processos que regem a sociedade. Se não tiver esse fundo crítico, a literatura corre sério risco de ser irrelevante, por mais sucesso que faça.

Você diz só escrever quando tem algo relevante a dizer. Como você julga o que é ou não relevante?

Rubens Figueiredo. Acho que da mesma maneira como qualquer um julga essa questão. Aquilo que parece ter mais peso, alcance e abrangência deve ser mais relevante. Supor que cada indivíduo é, por definição, um sujeito livre e que suas opções valem tanto quanto outras simplesmente por serem suas, além de me parecer uma ilusão, compreende, em última análise, um hino ao poder e à força.

Além de escrever ficção, você atua como tradutor do russo para o português. Como surgiu o interesse pela língua russa e a possibilidade das traduções?

Rubens Figueiredo. É uma longa história. Vou resumir. Estudei russo na Faculdade de Letras da UFRJ, entre 1974 e 1978 e depois em 1981 e 1982. Gostava dos escritores e houve, talvez, mais alguns motivos (eu temia não ser aprovado no vestibular para outras especialidades e estávamos na ditadura civil-militar: estudar russo por si só tinha algo de contestador). As traduções começaram quando a editora Cosac, por meio do editor Augusto Massi, me procurou para fazer traduções do inglês, pois eu já as fazia havia dez anos. Sugeri, em troca, fazer traduções do russo. Ele pensou um minuto, aceitou e fomos em frente.

Você também faz traduções do inglês e do espanhol para o português. Como leitor, você prefere a literatura de qual idioma e por quê?

Rubens Figueiredo. Como leitor, prefiro ler em português. Me identifico com o idioma, faz parte de minha vida.

Qual dessas literaturas te influencia mais e por quê?

Rubens Figueiredo. A literatura russa marca mais. Sua relação com a sociedade difere a fundo do tipo de relação que a literatura de nosso tempo adotou (ou foi levada a adotar). Isso lhe dá um conteúdo e um alcance muito mais interessantes, além de uma liberdade que às vezes até pode nos assustar.

O trabalho como tradutor te auxilia de alguma forma como criador?

Rubens Figueiredo. O trabalho do escritor também pode ser encarado como uma tradução. Imagens, impressões, emoções, expectativas, idéias, na maioria das vezes, não se apresentam em forma de linguagem verbal. O escritor tenta traduzi-las em seu idioma, em palavras, frases, parágrafos. A rigor, a tradução faz parte de toda prática da língua, mesmo em nosso cotidiano mais corriqueiro.

Como você divide seu tempo entre as traduções e as criações literárias?

Rubens Figueiredo. Puxa, eu divido como posso! Não consigo fazer muitos esquemas. Só sei que apenas consigo escrever alguma coisa quando as experiências, as impressões e os pensamentos se acumularam na minha cabeça, ganharam uma certa densidade e começaram a sugerir uma espécie de forma e direção. Nessa hora, há uma espécie de pressão interna e parece que está na hora de escrever.

Você também é professor de português no ensino médio. Dentre todas suas atividades, qual é aquela que te propicia mais prazer: traduzir,lecionar ou ficcionar?

Rubens Figueiredo. Dou aula no ensino médio e supletivo do nível fundamental, no turno da noite, há 27 anos. E essa é a atividade que me dá maior satisfação.