CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

27 de julho de 2014

Clube do Conto: "A casa de Margarida"

Prezados colegas, compartilho com vocês o conto "A casa de Margarida", classificado entre os finalistas do Prêmio Off Flip de Literatura, edição 2014, selecionado assim para integrar a coletânea de contos do prêmio.


A CASA DE MARGARIDA

Novaes/

Uivos lamentosos nas frestas das janelas. Na madeira empenada das esquadrias antigas, descascadas, onde se podia arrancar lâminas de tinta seca. Pedaços de passado. Mortos, mas ali. Ninguém os carregou para fora. Ali residia a faina de aguentar. Era aquela casa que habitava, soberana, seus corpos. Naquela sala, nos quartos, no corredor, nos tetos altos moldurados, havia mil anos, mil olhares, mentes, ressentimentos, inábeis sensações, eternos planos passados.

Ninguém da família dizia, mas o que o vento assoviava nas frestas soava sempre como aviso fúnebre. Certa tia morrera após uma noite de assovios, lembravam-se, mudos, pelos olhos. Uma noite inteira de assovios. Não os assovios de seu peito tísico. As janelas. E houve aquela tarde de forte ventania em que um dos cães fora atingido no quintal pela árvore que tombou. Dormia. Morreu. Um breve ganido, curto uivo da morte, uniu-se aos uivos das velhas ventanas. Mil anos. Mil noites de ventania. Mil assovios a cada noite. Vendaval de pensamentos.

Dez séculos essa agonia. Assim parecia. Não importava ao certo se almas existiam. Ou se resistia mesmo vivo o passado. Ou, ainda, se era o presente o verdadeiro problema. Importava que os antepassados lhes sobreviviam, sobretudo ali, naquela casa, onde continuavam insistentes, feitos de um vazio presente, verdadeiros trans-parentes.

É o que sinto. É o que sinto, depois do que vi.

O que vi naquela sala. Um pai preso à cadeira, não por doença do corpo. Inação histórica. Paisagem humana entre paredes. Natureza morta na cadeira. Vestia uma camiseta branca sem mangas e bermudas, tais eram as janelas fechadas e o clima quente no subúrbio daquela casa. À sua frente, o silêncio abafado de uma parede medíocre. Em seu colo, um rádio, modelo anos 1970, que vi ligar uma vez como se abrisse um balão de oxigênio.

Olhei ao redor e vi a mulher, agachada, a limpar o rodapé daquela sala. Pareceu-me inútil, tal o estado das paredes manchadas, envelhecidas, o aspecto geral de sujeira. Olhei bem. Limpava o rodapé com um pano sujo. Mudava as sujeiras úmidas de lugar. Deixava no ar um cheiro molhado, de pano sujo de chão. E da sala foi seguindo de joelhos pelo corredor e pelos quartos. Durante toda a minha estada, a mulher não parou. Ela e os rodapés. Uma relação infinita.

Busquei os olhos de minha namorada. Ela sorriu de um jeito que me foi impossível captar o significado. Até hoje penso. Não foi um sorriso amarelo, mas também não foi um sorriso natural. Talvez um sorriso alheio, retirado de dentro dela, só dela, ou, quem sabe, de mim, da minha presença naquela casa. Vem, vem conhecer meu irmão, ela disse. Deixei-me levar pelas mãos. No seu quarto, o rapaz assoprava contra a janela fechada. Oi Ernesto. Shhhh!! O rapaz assoprava forte os cantos da esquadria de madeira. Em cima, embaixo, nas laterais. Por todos os limites, no encontro da madeira com a parede e das folhas de madeira e vidro com a moldura de madeira. Parecia buscar alguma coisa com o sopro. Ele está ocupado, vamos para o meu quarto, disse ela, tentando interromper minha atenção.

Segui seus passos como se estivesse no corredor da morte. Havia conhecido Margarida na faculdade e fui atrás de seu nome de flor, de seu sorriso triste, seu olhar dúbio. Havia um tanto de alegria misteriosa naquele belo corpo. Mas era patente a falta de franqueza corporal. Quando se dava a gestos expansivos, faltava-lhe naturalidade. Margarida era linda, mas parecia desconjuntada de alma. Confesso que aquilo mexia com as minhas fantasias de homem. O sonho de libertar uma mulher de suas amarras profundas. De fazê-la desabrochar para a vida e o amor. De ser o homem que fez isso.

Os primeiros encontros, ela marcou no cinema, no barzinho, ou saímos após a faculdade. Um mês assim. Namoro morno, começando. Mas pediu-me para pegá-la em casa naquela tarde. Previa-se tempestade. Chuva de verão. Agora eu estava ali. Havia conhecido, por assim dizer, seus pais e seu irmão, sem que nenhum deles me tivesse dirigido a palavra, entretidos em tarefas insondáveis. E nesse instante caminhava para conhecer o quarto de Margarida, sem fazer ideia do que se passava à minha volta.

O quarto de Margarida. Abriu a porta de madeira, com a mesma tinta envelhecida, corroída pelo tempo, a parte de baixo descascada. Por dentro, a porta lixada, sem tinta, na madeira crua. Foi o Luiz quem lixou pra mim, não ficou melhor?, ela disse. Ficou. Talvez tenha ficado mais anteontem do que a casa, toda feita de ontem. Por dentro do quarto, Margarida via a porta da construção, nem nova nem velha, apenas de antes da história, de antes dos antepassados, de antes dos acontecimentos. Uma porta tosca, mas pelo menos sem vida pregressa, sem manchas. Foi inevitável pensar: e Margarida, como seria por dentro? Estaria com a alma raspada, como aquela porta, sem tinta e sem manchas, sem marcas do passado? Seria este o seu esforço para sustentar aquele sorriso enigmático, triste e belo?

Olhei para as paredes. Não as vi. Não havia paredes. Quer dizer, estavam lá, claro, mas não se via um só centímetro de parede. Das quatro que formavam o quarto, uma delas estava tomada por livros. Creio que era uma estante, do chão ao teto, repleta de livros. Olhei para os títulos. Ficção. Biografias. Mais biografias. Mais ficção. Vidas, um desfile de vidas, reais e inventadas, reais e transfiguradas, de uma forma ou de outra, reais. Vidas vividas, vidas sonhadas, vidas, superação, enfrentamentos, as durezas da vida, as durezas do ser humano, as belezas, o sentido, o prazer de lutar e de perder, o viver na sua dolorosa e saborosa plenitude. Ah, Margarida... Será que te entendo? Desvio meus olhos para os olhos de Margarida. Tento enxergar neles sua história. Ou sua tentativa de história. Ou, quem sabe, investigo, conteria aquele olhar todas aquelas histórias dos livros? Afinal, quem é Margarida?

Continuo meu passeio pelas paredes. A parede que circunda a porta está coberta por cartazes, pôsteres. Artistas. Filmes. Peças de teatro. Mais personagens, penso. Bonito. Inspirador. A arte é uma coisa linda do ser humano. Sorrio para aquela parede, naquele quarto, naquela casa. Vejo que Margarida também sorri. Sinto que nunca estivemos tão próximos.

Olho para a parede oposta à estante de livros. E vejo que Margarida foi engenhosa. Para cobrir integralmente a parede, Margarida logrou prender CDs de frente, ou seja, com as capas voltadas para nós. Um ao lado do outro, juntos, num grande mosaico de capas de CDs. Ela repara meu espanto. Toco em alguns com o maior cuidado. Ela se adianta, abre um dos CDs sem tirá-lo da parede, apanha o disco e o coloca para tocar num pequeno aparelho ao lado da cama. Boa música. Forte, sentida, viva. Aquele quarto, de alguma forma, tenta.

Olhei para a janela. A parede que a circunda está coberta por espelhos. Diversos tamanhos. Vejo-me em fragmentos. Mil olhos. Mil tons. E vejo o quarto em continuação, livros, pôsteres, CDs. Quarto que se duplica e engana a janela. Parece que é apenas uma passagem para a continuação do quarto. De porta a porta. Pelos espelhos, vejo Margarida de costas. Bela visão. Cabelos castanhos.

Súbito, um vento me beija. Aumenta a força, estapeia. A janela está aberta. Aponto e ela responde: sempre aberta, sempre. O que aconteceu a seguir, até hoje não consigo explicar. Instala-se uma daquelas ventanias de fim de tarde. As árvores se agitam lá fora, folhas e galhos farfalham com raiva. No quarto de Margarida, um pequeno furacão. Mas, na casa, no restante da casa, gemidos. Uivos. Assovios. Muitos, uma infinidade. Sinfonia macabra. Pensei ter ouvido choro e gritos de pavor. Por toda a casa, as janelas sempre fechadas, velhas e empenadas, fazem frestas, produzem um espetáculo de terror, sonoro e assustador. Seriam os antepassados? almas sofridas? um encontro da natureza com seus elos perdidos? Fosse o que fosse, todos os meus medos me surgiram. Explicáveis naquelas circunstâncias! Mais uma vez, busquei os olhos de Margarida. Não os havia. Margarida, de olhos fechados, abria os braços para o vento. A boca sorria, se entreabria, inspirava. Os cabelos esvoaçavam. Eu, mudo. Terrificado.

Ouça o vento! Ouça o vento!, ela gritou, sempre sorrindo. E percebi que havia de esquecer os uivos. Que os assovios nos outros cômodos estavam em outro mundo. E que o outro mundo estava no passado. Olhei para Margarida. Linda. De olhos fechados, relacionando-se com a ventania. A janela aberta era mágica: ali não havia silvos, só rajadas. Vento solto remexe, revira, bagunça, quebra, mas com ele podemos comungar. Vento fino, sorrateiro, agudo, inesperado, este tem tom de ameaça, parece mandar recado. Quanto Margarida deve ter levado para perceber isso? Quanto de si para abrir a janela e abrir-se para o vento? Mil noites?

Entrei no jogo da ventania. No jogo de Margarida. Respirei fundo. Abri meus braços, meu peito, e meus arrepios deixaram de ser de medo. Vento forte resfriava o calor abafado daquela casa. De olhos fechados, deixei que a força dos ventos me dissesse para onde ir. Não só meu corpo, mas meus pensamentos. Ventania é pensamento. E pensamento agora é Margarida. Só Margarida. E Margarida é ventania, é rajada no peito, nos braços, no rosto. Margarida é furacão. Turbilhão que me arrasta. E nossos braços abertos se fecham, um no outro. E sinto Margarida e todo o seu vendaval. E poderíamos girar como um ciclone, juntos, integrados, apertados, com tal comunhão corporal que nem mesmo os espíritos nos poderiam distinguir e separar.


A chuva de verão chegava e estávamos encostados na janela aberta. Sempre aberta. As águas seriam bem-vindas e lavariam nossos corpos cansados do calor da casa do passado. E de nossas roupas que, naquela hora, se faziam incrivelmente desnecessárias.


Boa Viagem, Ronaldo: Ilnéa Miranda


Ronaldo Mourão, a caminho das  Estrelas

Vejo Ronaldo Mourão sendo entrevistado na TV. Ronaldo Mourão e seus olhos peculiarmente brilhantes. Ronaldo Mourão tem certeza do sonho - ele e seus olhos de espreitar estrelas. Olhos de ver sempre azul-negro pontilhado de luz. O que será que os olhos de Ronaldo Mourão vêem de dia? Por certo não somente aquele estrelão afogueado que habita o céu do dia, fazendo-o pálido como um lençol e que, por não poder ser mais, contenta-se em alumiar este sistema falido, onde o único planeta vivo é esta desregrada Terra.

Penso que de dia os seus olhos dormem. Os meus sonham com a noite. Me sonho patinando nos anéis de Saturno ou jogando gude com Júpiter e sua cara de bola de vidro leitoso de primeira. Será que Ronaldo os vê assim no céu da noite? Será que se detém em poeira tão insignificante quando tem o infinito para espionar?

Feliz Ronaldo. Felizes astrônomos. Felizes astronautas. Viajam suas infindáveis estradas escuras pontilhadas de luz. Passeiam pelo infinito azul-negro-profundo como o veludo do meu vestido de gola de renda de Racine bege que tinha flores bordadas no lugar de estrelas.

Eu era pequena e já espreitava o céu. Tentava adivinhar o céu. Dos pontos luminosos me diziam: "São estrelas". Dos iluminados... planetas, satélites...

Difícil entender.

Estrelas me namoravam, piscando para mim. Os poucos iluminados, ficavam lá, estáticos. E não me namoravam nem que eu piscasse para eles. Ronaldo não namora estrelas: chega-lhes mais perto; perscruta-lhes as entranhas...pelo menos até onde o leva seu enorme telescópio.

Como serão as estrelas depois das estrelas? Será que também piscam? ou devora-lhes a luz o insaciável buraco negro?

Para Ronaldo a Via Láctea é logo ali. E aquela estrada luminosa do céu é não mais que uma galáxia com 200 bilhões de estrelas de grandezas várias e respectivos sistemas. 200 bilhões! 

Em Cruzeiros*, mesmo que Reais*, nem parece tanto...em dólares, uma bela fortuna...

Mas, quando se fala de estrelas, 200 bilhões não são mais que o começo.

Começo? Mortal e insensato  engano: para o infinito qualquer lugar é o meio.

Salve Ronaldo!...

...cujos olhos imensamente míopes escolheram enxergar além e, ávidos, mergulham longe e fundo na imensidão.


*----* - o texto é de 1991, que tinha esdrúxulos Cruzeiros Reais como moeda.


24 de julho de 2014

Memórias de Pão e Manteiga: Ilnéa País de Miranda




Quando se fala das agruras da Segunda Guerra - ou mesmo e quase sempre, de guerras outras, conflitos ou catástrofes - é comum dizer-se, até com certo orgulho, que o Brasil jamais passou por nenhum aperto resultante de semelhante maldição. O povo brasileiro, eleito de Deus, Dele só recebe benesses. E Deus, em Sua “infinita e direcionada misericórdia” fica responsável por nos curar todas as mazelas e por nos manter longe de toda e qualquer possibilidade de desgraça.

            Talvez não dê mesmo para comparar dores. Quem sente, sente; quem não sente só pode ser solidário. Mas isso é raciocínio de gente grande, de adulto que já aprendeu a pensar com a cabeça. Mas criança... criança “pensa” mesmo é com o coração, e com o estômago! Assim, as loucuras de Hitler, os arroubos assassinos de Mussolini, a perversa índole dos japoneses, eram coisas de ouvir falar nos rádios de capelinha  encarrapitados em etageres e cômodas, à volta dos quais sentavam família e amigos para escutar novidades do “conflito europeu”. 

           Crianças brincavam de roda e pique na rua, que era mais delas que dos carros poucos, ainda mais àquela hora já passada do jantar. Entravam afogueadas, para lavar pés, mãos e rosto, e tomar uma última refeição antes da cama:- um pouco de leite e... pão com manteiga. E aí as conseqüências da guerra faziam sentido para elas.: no pão, nos biscoitos, e em tudo mais que dependesse de trigo importado. E de manteiga. A palavra era racionamento. É, isso também tinha na Europa, lá onde as coisas estavam “pegando fogo”, e onde tinha um maluco baixinho, com um bigodinho esquisito, que cumprimentava levantando o braço direito, rijo, gritando “rairritler”.

          Aqui não tinha guerra. Mas tinha o tal racionamento, que fazia o avô ir até a padaria trocar uns pedaços de papel cheios de rabiscos cada um por um pão pequeno. Pequenos e horríveis! E era só um por pessoa por dia. Como criança não contava muito naquele tempo, talvez nem mesmo tivessem um papelzinho para elas. Mas dava-se um jeito. Partia-se e repartia-se e cada um comia um pedaço. Para completar a dieta, que tal fubá e farinha de milho? 

          Era isso que propugnava o baixinho  daqui. É. Também tínhamos um baixinho que não tinha bigode . Curiosamente também cumprimentava levantando o braço direito, acenando para o povo e falava com voz mansa aos trabalhadores. Só que, como o outro, também era ditador, e também subira por golpe. E, mansamente  nos aconselhava a comer mais milho. Bolo de milho era bom; broa de milho era bom - só não gostava da tal erva-doce que a gente acabava sempre mastigando um grãozinho “erk!!!!”. Mas era bom com manteiga. Manteiga?! Cadê a manteiga?!

      A guerra continuou escorrendo lá longe. Um dia... acabou. Aquela guerra. Muita festa, muita gritaria, muita felicidade jogando io-iô em meio às muitas toalhas de plástico com que - dizem - foi paga nossa “dívida de guerra”. Arrumando cristaleiras e guarda-comidas, quantos pães mofados foram encontrados?... Posso falar de pelo menos dois dentro da biscoiteira de cristal verde lá de casa. E derramei pranto sentido, enquanto tentava imaginar que dia teria sido aquele em que podia ter comido só mais um pedacinho... 


Ilnéa... 

lembrando ainda.

(com Norma Lannes ao fundo)


23 de julho de 2014

"A culpa é das estrelas" no Clube de Leitura Jovem




“Você sabe em que eu acredito? Eu me lembro de quando estava na faculdade, durante uma aula de matemática, uma aula de matemática realmente fantástica dada por uma professora idosa e baixinha. Ela falava das transformações rápidas de Fourier, mas parou no meio de uma frase e disse: ‘Às vezes parece que o Universo quer ser notado. Acho que o Universo é, questionavelmente, tendencioso para a consciência, que premia a inteligência em parte porque gosta que sua elegância seja observada. E quem sou eu, vivendo no meio da história para dizer ao Universo que ele, ou minha observação dele, é temporária?”




Preparando os amantes da leitura para a volta às aulas, a próxima edição do Clube de Leitura Jovem traz para o debate um sucesso da literatura adolescente: A culpa é das estrelas. Lançado em janeiro de 2012, o romance de John Green se tornou um best-seller já em julho daquele ano, e há poucos meses bateu recordes de bilheteria em sua estreia no cinema. O encontro, voltado preferencialmente para o público entre 13 e 18 anos, acontece no dia 24 de julho, às 18h, na Livraria Icaraí (Rua Miguel de Frias, 9, em Niterói). A entrada é gratuita.
Diagnosticada com câncer, a adolescente Hazel Grace Lancaster se mantém viva graças a uma droga experimental. Após passar anos lutando contra a doença, ela é forçada pelos pais a participar de um grupo de apoio. Lá, conhece Augustus Waters, um rapaz que também sofre com câncer. Os dois possuem visões muito distintas de suas dificuldades: Hazel preocupa-se apenas com a dor que poderá causar aos outros, já Augustus sonha em deixar a sua própria marca no mundo. Apesar das diferenças, eles se apaixonam. Juntos, atravessam os principais conflitos da adolescência e do primeiro amor, enquanto lutam para se manter otimistas e fortes um para o outro. Este ano, a obra ganhou uma adaptação cinematográfica, com os atores Shailene Woodley e Ansel Elgort nos papéis principais e direção de Josh Boone.
Sobre o autor – John Green nasceu em Indianapolis, mas com apenas três semanas de vida, mudou-se com família para Orlando, na Florida. Ele frequentou a Lake Highland Preparatory School e depois a Indian Springs School, formando-se pelo Kenyon College, em 2000, com diploma duplo: em Inglês e Estudos Religiosos. Depois de se formar na faculdade, Green passou cinco meses trabalhando como estagiário em um hospital pediátrico. Tinha planos de se tornar um padre episcopal, mas a experiência em lidar com crianças sofrendo de doenças graves o inspiraram a ser um autor e a escrever, alguns anos depois, A culpa é das estrelas, seu quarto romance.



A canção de amor de J. Alfred Prufrock
S'io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s'i'odo il vero,
Senza tema d'infamia ti rispondo.
Dante Alighieri. Ladivina Commédia
Inferno, XXVII, 61-66 (N. do T.)
Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão . . .
Oh, não perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita.
No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.
E na verdade tempo haver á
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.
No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. "Ousarei" E . . "Ousarei?"
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: "Como andam ralos seus cabelos!")
- Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o
queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete
apruma
(Dirão eles: "Mas como estão finos seus braços e pernas! ")
- Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.
Pois já conheci a todos, a todos conheci
- Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?
E já conheci os olhos, a todos conheci
- Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?
E já conheci também os braços, a todos conheci
- Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?
.......
Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, à janela
debruçados?
Eu teria sido um par de espedaçadas garras
A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.
.......
E a tarde e o crepúsculo tão .docemente adormecem!
Por longos dedos acariciados,
Entorpecidos . . . exangues . . . ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)
servida numa travessa,
Não sou profeta - mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu
sobretudo.
Enfim, tive medo.
E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geléia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: "Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei."
- Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
Dissesse: "Não é absolutamente isso o que quis dizer
Não é nada disso, em absoluto."
E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda? -
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos . . .
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale às
pressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
"Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto."
Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil
manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
As vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.
Envelheci . . . envelheci . . .
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.
Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um
pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.
Não creio que um dia elas cantem para mim.
Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.
Tardamos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.

(tradução: Ivan Junqueira)

T.S.Eliot

Convescote da Dona Maricotinha no Solar do Jambeiro


video


Maricota está que não se pode!

Lançamento do livro "Dona Maricotinha", em 19-07, às 17h, no Solar do Jambeiro, em Niterói.



Estarão liberadas todas as maricotices!





Anabelle Loivos Considera Conde Sangenis


Foto


Anabelle Loivos Considera Conde Sangenis é fluminense, nascida no Município de Cantagalo, em 25 de setembro de 1973. Licenciou-se em Letras - Português/Literatura pela Faculdade de Filosofia Santa Doroteia, em 1994. Concluiu o Mestrado em Letras - Literatura Portuguesa, na UFF - Universidade Federal Fluminense, em 1999 e o Doutorado em Letras - Literatura Comparada, também na UFF, em 2005. Atuou durante 11 anos na escola básica, lecionando Língua Portuguesa e suas Literaturas e Língua Inglesa, em escolas públicas e privadas. Foi revisora gramatical da Prefeitura Municipal de Nova Friburgo - RJ, ingressando nos quadros municipais por concurso público. Exerce a docência no ensino superior, desde 2000, na graduação e na pós-graduação "lato sensu";. Foi professora da Faculdade de Filosofia Santa Doroteia, da Universidade Estácio de Sá e da Universidade Salgado de Oliveira - tendo, nesta instituição, ocupado o cargo de Coordenação do Curso de Letras. Em 2006, foi selecionada para lecionar na Faculdade de Formação de Professores da UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Desde janeiro de 2007, é Professora Adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Faculdade de Educação, pertencendo ao Departamento de Didática. Atualmente, dedica-se a pesquisas nas áreas de Educação (com ênfase em História da Educação e Memória) e Letras (com ênfase em Literatura Comparada, em Didática Especial da Língua Portuguesa e suas Literaturas e em Práticas Pedagógicas e Estágios Supervisionados). Pertence a grupo de pesquisa interinstitucional (UFRJ/UERJ), dedicado aos temas "Disciplina e Castigos Corporais nas Escolas do Rio de Janeiro - 1854-1932", "História e Memória do Franciscanismo no Brasil - Reedição do Novo Orbe Seráfico Brasílico, do Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão"; e "História, Memória e Identidade Fluminense". É membro do corpo de pesquisadores e sócia do ILTC - Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência. Presentemente, desenvolve na FE-UFRJ o projeto de extensão interinstitucional "100 Anos Sem Euclides" (em parceria com a Faculdade de Letras-UFRJ e com a UERJ-FFP/São Gonçalo-RJ) e o Programa de Extensão "Caminhos da Serra Fluminense" (Faculdades de Letras e Educação-UFRJ), cujas ações culturais, acadêmicas e educativas visam a destacar a memória e o espólio literário de Euclides da Cunha, especialmente no âmbito do município de Cantagalo-RJ, cidade natal do escritor, e atividades de educação patrimonial, alfabetização e letramento e de preservação de acervos culturais nos municípios serranos de Nova Friburgo-RJ, Bom Jardim-RJ e Cantagalo-RJ. Além da coordenação dos referidos Projeto e Programa - que contam com o apoio das Pró-Reitorias de Extensão e de Graduação da UFRJ -, supervisiona as atividades do Cineclube da Cunha (contemplado através de Edital público PROEXT-MEC 2010), do "Arquivo de Memória Amélia Tomás" (contemplado com o PROEXT-MEC 2014); e do Ponto de Cultura "Os Serões do Seu Euclides", em parceria com o MinC e a Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro. É autora e coorganizadora do livro "Didática e Prática de Ensino de Lingua Portuguesa e Literatura: desafios para o século XXI." Rio de Janeiro: Lamparina, 2010 (com Lucelena Ferreira - Universidade Católica de Petrópolis) e coautora da biografia "Euclides da Cunha: da face de um tapuia" Niterói: Nitpress, 2013 (com Luiz Fernando Conde Sangenis - UERJ/ Faculdade de Formação de Professores). 



1- Por que esta homenagem a sua tia? 

Dedé era uma pessoinha prosaica, cheia de histórias, alegre, vívida e peculiar. A própria história de vida dela (uma moça pobre do interior que fazia vestidos de noiva para outras moças ricas do interior, mas que nunca se casou...) já daria um romance... Como eu não sei escrever em prosa, optei pela poesia: mais cheia de maricotices para o que eu precisava dizer/reinventar.

2- Quanto tempo você levou para escrever os poemetos? 

Os poemetos foram escritos num período de um ano, mas a maior parte deles teve o seu "parto" entre abril e maio do ano passado, 2013. Como escolhi como plataforma de experiência poética compartiva o facebook, acabava postando na página da Maricotinha (que tem mais de 200 fãs!) esses cacos de lembranças, muitas minhas, mas outras tantas de gente que conviveu com minha tia-avó. As colaborações foram preciosas, e todas elas acabaram virando um poemeto. Para além da Dedé, eu construí a Maricota, mulher do interior como eu, para falar de coisas que eu não vivi, mas que estão impregnadas na minha formação, nas esquinas da minha cidade e nas ciladas da minha memória.

3- Como o seus trabalho como professora auxilia na escrita. Interfere? 

Escrita é saúde e desvio. Magistério também. Claro que um me reencanta o outro, e não há limites nessas interposições. Pelo título do livro e também pelo fato de eu ser formadora de professores de Literatura, muitas pessoas me perguntam se Maricotinha não seria um livro infanto-juvenil, quiçá, uma proposta "didática". Eu digo que é, sim. Porque eu o escrevi como a sobrinha-neta. Minha foto de identificação na contracapa do livro é a da Anabelle-menina. A menina que sempre quis ser professora, escrevendo sobre a tia costureira que se tornou o orgulho da família por terminar o curso normal com mais de 50 anos de idade... Mas quando as pessoas conhecem os poemas, elas me acham maluca! E, aí, eu digo que poesia é pra brincar: giroflê, giroflá. A minha Maricotinha me deu um prazer incrível de inventar. Faço roda com ela todos os dias e brinco de pega-pega, e ainda tem espaço pra mais umas dúzias de brincantes-leitores!

4- o que você acha que a Maricotinha acharia desta homenagem? 

Ela me diria: "Você é danadinha!"

5- tem algum fato engraçado sobre este livro? 

Se ternura é coisa engraçada, me faz rir o fato de eu ser apaixonadinha pelas miçangas, dobraduras, linhas e agulhas que bordei junto com a Maricota, nas páginas desse livro. Engraçado é a gente pensar que vidas comuns não se dizem. Ou talvez a gente abrir o livro numa página qualquer e se encontrar e se identificar com uma tia, uma ancestral, uma mulher que não fez revolução, não queimou sutiã, que não quis nem casar pra não dar trabalho. Eu sou um pouco Maricota, e tenho visto, com alegria, outras mulheres rindo comigo das travessuras convencionais da minha Maricotinha. Por fim, engraçado é a gente comer poesia como se comem os quitutes da Maricota: com prazer, renúncia, decisão e atemporalidade. 



11 de julho de 2014

“Acusações de Kruschev contra Stálin são falsas”, afirma historiador


A Verdade entrevistou Grover Furr, professor da Universidade de Montclair, no Estado de Nova Jersey, EUA, e autor do livro Antistalinskaia Podlost (“A infâmia antistalinista”), lançado recentemente em Moscou, na Rússia. Grover Furr é ph.D. em literatura comparada (medieval) pela Universidade de Princeton, e, desde 1970, ensina na Universidade de Montclair, sendo responsável pelos cursos de Guerra do Vietnã e Literatura de Protesto Social, entre outros. Suas principais áreas de pesquisa são o marxismo, a história da URSS e do movimento comunista internacional e os movimentos políticos e sociais. Nesta entrevista, o professor Grover fala de sua pesquisa e afirma que “60 de 61 acusações que  o primeiro-ministro Nikita Kruschev fez contra Stálin são comprovadamente falsas”.

A Verdade – Recentemente, um grande número de livros tem sido publicado atacando a pessoa e a obra de Josef Stálin. Como o senhor explica a intensificação desse antistalinismo nos EUA e no mundo?

Grover Furr – Desde o fim da década de 1920, Stálin tem sido o maior alvo do anticomunismo ideológico e acadêmico. Leon Trótsky atacava Stálin para justificar sua própria incapacidade de ganhar as massas trabalhadoras da União Soviética [URSS]. A verdadeira causa da derrota de Trótsky é que sua interpretação do marxismo – um tipo de determinismo econômico extremado – predizia que a revolução estava fadada ao fracasso a não ser que fosse seguida por outras revoluções nos países industrialmente avançados. Mas a liderança do Partido preferiu o plano de Stálin para primeiro construir o socialismo em um só país. As ideias de Trótsky tiveram (e ainda têm) uma grande influência sobre todos aqueles declaradamente capitalistas e anticomunistas. Os historiadores trotskistas são muito bem acolhidos pelos historiadores capitalistas. Pierre Broué e Vadim Rogovin, os mais proeminentes historiadores trotskistas das últimas décadas, já foram louvados e ainda são frequentemente citados por historiadores abertamente reacionários. Muitos na liderança do Partido em 1930 combateram Stálin quando este lutava por democracia interna no Partido e, especialmente, por eleições democráticas para os sovietes. As grandes conspirações da década de 1930 revelaram a existência de uma ampla corrente de oposição às políticas associadas a Stálin. Essas conspirações de fato existiam: os oposicionistas realmente estavam tentando derrubar o partido soviético e assassinar a liderança do governo, ou tomar o poder liderando uma revolta na retaguarda, em colaboração com os alemães e os japoneses. Nikolai Ezhov, líder da NKVD (o Comissariado do Povo para Assuntos Internos), tinha sua própria conspiração direitista, incluindo colaboração com o Eixo. Visando aos seus próprios fins; ele executou centenas de milhares de cidadãos soviéticos completamente inocentes para minar a confiança e a lealdade ao governo soviético. Quando Stálin morreu, Kruschev e muitos líderes do Partido viram que poderiam jogar a culpa por essas grandes repressões em cima de Stálin. Eles também inventaram muitas outras mentiras escancaradas sobre Stálin, Lavrentii Béria e pessoas próximas aos dois. Quando, bem mais tarde (1985), [Mikhail] Gorbachev assumiu o poder, ele também percebeu que as suas “reformas” capitalistas – o distanciamento do socialismo em direção a relações capitalistas de mercado– poderiam ser justificadas se sua campanha anticomunista fosse descrita como uma tentativa de “corrigir os crimes de Stálin”. Essas mentiras e histórias de horror permanecem como a principal forma de propaganda anticomunista, hoje, no mundo. A tendência é que elas se intensifiquem, pois os capitalistas estão diminuindo os salários e retirando benefícios sociais dos trabalhadores, caminhando em direção a um exacerbado nacionalismo, ao racismo e à guerra.

A Verdade – O que o levou a se interessar pela história da URSS?

Grover Furr – Quando estava na faculdade, de 1965 a 1969, eu fazia protestos contra a guerra dos EUA no Vietnã. Um dia, alguém me disse que os comunistas vietnamitas não poderiam ser “caras legais” porque eram todos “stalinistas”, e “Stálin tinha matado milhões de pessoas inocentes”. Isso ficou na minha cabeça. Foi provavelmente por isso que, no início da década de 1970, li a primeira edição do livro O grande terror, de Robert Conquest. Fiquei impressionado quando o li! Mas eu já tinha um certo domínio do russo e podia ler neste idioma, pois já vinha estudando literatura russa desde o ensino médio. Então examinei o livro de Robert Conquest com muito cuidado. Aparentemente ninguém ainda havia feito isso! Descobri, então. que Conquest fora desonesto no uso de suas fontes. Suas notas de rodapé não davam suporte a nenhuma de suas conclusões “anti-Stálin”. Ele basicamente fez uso de qualquer fonte que fosse hostil a Stálin, independentemente de se era confiável ou não. Decidi, então, escrever alguma coisa sobre o “grande terror”. Demorou um longo tempo, mas finalmente foi publicado em 1988. Durante este tempo estudei as pesquisas que estavam sendo feitas por novos historiadores da URSS, entre os quais Arch Getty, Robert Thurston e vários outros.

A Verdade – Seu livro Antistalinskaia Podlost (“A infâmia anti-stalinista”) foi recentemente publicado em Moscou. Conte um pouco sobre ele.

Grover Furr – Há aproximadamente uma década fiquei sabendo da grande quantidade de documentos que estavam sendo revelados dos antigos arquivos secretos soviéticos, e comecei a estudá-los. Li em algum lugar que uma ou duas das declarações de Kruschev em sua famosa “fala secreta”, de 1956, foram identificadas como falsas do início ao fim. Daí, pensei que poderia fazer algumas pesquisas e escrever um artigo apontando alguns outros erros de seu pronunciamento da “sessão secreta”. Nunca esperei descobrir que tudo o que Kruschev disse – 60 de 61 acusações que ele fez contra Stálin e Béria – eram comprovadamente falsas (não pude encontrar nada que comprovasse a 61ª)! Percebi que este fato mudava tudo, uma vez que praticamente toda a “história” anticomunista desde 1956 se baseia ou em Kruschev ou em escritores de sua época. Verifiquei que a história soviética do período de Stálin que todos aprendemos era completamente falsa. Não apenas “um erro aqui e outro ali”, mas fundamentalmente uma fraude gigantesca, a maior fraude histórica do século! E meus agradecimentos ao colega de Moscou Vladimir L. Bobrov, que foi o primeiro a me mostrar esses documentos, me deu inestimáveis conselhos, várias vezes, e fez um excelente trabalho de tradução de todo o livro. Sem o dedicado trabalho de Vladimir, nada disso teria acontecido.

A Verdade – Em suas pesquisas o senhor teve acesso direto a arquivos soviéticos abertos recentemente.  O que esses documentos revelam sobre os “milhões de mortos” sob o socialismo, especificamente no período de Stálin?

Grover Furr – Considerando que pessoas morrem a todo instante, eu suponho que você esteja falando de mortes “excedentes”. A Rússia e a Ucrânia sempre experimentaram fomes a cada três, quatro anos. A fome de 1932-33 ocorreu durante a coletivização. Sem dúvida, que um número maior de pessoas morreu do que teria morrido naturalmente. No entanto, muito mais pessoas iriam morrer em sucessivas fomes – a cada três, quatro anos, indefinidamente, no futuro – se não fosse feita a coletivização. A coletivização significou que a fome de 1932-33 foi a última, com exceção da grave fome de 1946-1947, que foi muito pior, mas isso devido à guerra. E, como mencionei anteriormente, Nikolai Ezhov deliberadamente matou milhares de pessoas inocentes. É interessante considerar o que poderia ter sucedido se a URSS não houvesse coletivizado a agricultura e não tivesse acelerado seu programa de industrialização, e se as conspirações da oposição nos anos 1930 não tivessem sido esmagadas. Se a URSS não tivesse feito a coletivização, os nazistas e os japoneses a teriam conquistado. Se o governo de Stálin não houvesse contido as conspirações direitistas, trotskistas, nacionalistas e militares, os japoneses e os alemães teriam conquistado o país. Em qualquer um desses casos, as vítimas entre os cidadãos soviéticos teriam sido muito, muito mais numerosas do que os 28 milhões mortos na guerra. Os nazistas teriam matado muito mais  eslavos ou  judeus do que mataram. Com os recursos, e talvez até mesmo com os exércitos da URSS do seu lado, os nazistas teriam sido muito, muito mais fortes contra a Inglaterra, a França e os EUA. Com os recursos soviéticos e o petróleo de Sakhalin, os japoneses teriam matado muito, muito mais americanos do que fizeram. O fato é que a URSS sob Stálin salvou o mundo do fascismo não apenas uma vez, durante a guerra, mas três vezes: pela coletivização; pelo desbaratamento das oposições direitista-trotskista-militares e também na guerra. Quantos milhões isso dá?

A Verdade – Alguns autores vêm tentando encontrar semelhanças entre Stálin e Hitler, e alguns até chegam a afirmar que o suposto “stalinismo” foi “pior” que o nazismo. Existia realmente alguma ligação entre Stálin e Hitler? 

Grover Furr – Os anticomunistas e os pró-capitalistas não discutem a luta de classes e a exploração. De fato, eles ou fingem que essas coisas não existem ou que não são importantes. Mas a luta de classes causada pela exploração é o motor da história. Então omitir isso significa falsificar a história. Hitler era um capitalista, um anticomunista autoritário de um tipo que é comum em vários países capitalistas. Stálin liderou o Partido Bolchevique e a URSS quando os comunistas em todo o mundo estavam lutando contra todo tipo de exploração capitalista. Sempre que dizemos “pior”, devemos sempre nos perguntar: “Pior para quem?” A URSS e o movimento comunista durante o período de Stálin foram definitivamente “piores que o nazismo”, para os capitalistas. Essa é a razão de os capitalistas odiarem tanto Stálin e o comunismo. O movimento comunista durante o período de Lênin e Stálin, e ainda por um bom tempo depois, foi a maior força de libertação humana da história. E novamente devemos nos perguntar: “Libertação de quem? Libertação do quê?” A resposta é: libertação da classe trabalhadora de todo o mundo, da exploração capitalista, da miséria e das guerras.

A Verdade – Um dos ataques mais frequentes a Stálin é que ele seria responsável pela fome na Ucrânia, em 1932-1933, também chamada de Holodomor. Esta versão da história corresponde ao que realmente ocorreu?

Grover Furr – O “Holodomor” é um mito. Nunca aconteceu. Esse mito foi inventado por ucranianos nacionalistas pró-fascistas, junto com os nazistas. Douglas Tottle comprovou isso em seu livro Fraud, Famine and Fascism(1988). Arch Getty, um dos melhores historiadores burgueses (isso é, não marxistas, não comunistas), também tem um bom artigo sobre isso. Até o próprio Robert Conquest deixou de defender sua antiga versão de que os soviéticos deliberadamente causaram a fome na Ucrânia. Nenhuma sombra de prova que poderia confirmar essa visão jamais veio à luz. O mito do “Holodomor” persiste porque ele é o “mito fundacional” do nacionalismo direitista ucraniano. Os nacionalistas ucranianos que invadiram a URSS juntamente com os nazistas mataram milhões de pessoas, incluindo muitos ucranianos. Sua única “desculpa” é propagandear a mentira de que eles “lutaram pela liberdade” contra os comunistas soviéticos, que eram “piores”.

A Verdade – Deixe uma mensagem para os trabalhadores brasileiros.

Grover Furr – Lutem pelo comunismo! Todo o poder à classe trabalhadora de todo o mundo!

Glauber Ataide, Belo Horizonte


Medo da libertação




"Se eu me demorar demais olhando Paysage aux oiseaux jaunes, de Klee, nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito de olhar através das grades da prisão, o conforto de segurar com as duas mãos as barras, enquanto olho. A prisão é a segurança, as barras o apoio para as mãos. Então reconheço que a liberdade é só para muito poucos. De novo coragem e covardia se jogaram: minha coragem é possível. Começo então a pensar que entre os loucos há os que não são loucos. É que a possibilidade, que é a verdadeiramente realizada, não é para ser entendida. E à medida que a pessoa quiser explicar, ela estará perdendo a coragem, ela já estará pedindo; Paysage aux oiseaux jaunes não pede. Pelo menos calculo o que seria a liberdade. E é isso que torna intolerável a segurança das grades; o conforto desta prisão me bate na cara. Tudo o que eu tenho agüentado – só para não ser livre..."

Texto Paul Klee de Clarice Lispector extraído do livro Para não esquecer. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1999.


8 de julho de 2014

Levantado do chão: Edmar Monteiro Filho




            O escritor tcheco Milan Kundera, em "A arte do romance", cita a obra "Os sonâmbulos", de Hermann Broch, como uma das reflexões mais importantes acerca dos eventos que marcaram os primórdios do século XX na Europa. Broch apresenta a Primeira Guerra Mundial como o ápice de um processo de degradação dos pilares que sustentavam a civilização ocidental desde o início da Idade Moderna. O espetáculo da mortandade em escala inimaginável colocou em cheque valores morais, éticos, religiosos. Kundera mostra que, a partir do tema do homem confrontado com a derrocada de uma era, Broch aponta três alternativas. Na primeira delas, diante da ruína inevitável dos valores fundamentais, restaria ao homem apegar-se fanaticamente aos fragmentos desse mundo em decadência. Uma segunda possibilidade seria a busca irracional por novos valores. Assim, o homem se entregaria a filosofias com as mais disparatadas propostas, comportamentos extremos, cultos a personalidades aberrantes, refugiando-se sob o manto da ilusão para fugir ao desamparo. Por fim, numa terceira hipótese, tudo seria permitido diante do vazio; cada um criaria suas próprias leis, mergulhando o mundo num caos de egoísmo e violência.

            Pensadores das mais diversas áreas refletiram acerca desse momento da história humana, quando uma espécie de decepção generalizada se abateu sobre o mundo, fruto das promessas não cumpridas pelo sistema capitalista e pela tecnologia, incapazes de promover o advento de um mundo melhor e mais justo. Dentre esses pensadores, Marx teve papel fundamental, na medida em que suas ideias inspiraram as alternativas mais importantes ao sistema econômico e social em que vivemos, nitidamente baseado na desigualdade e na exploração. Na literatura, não foram poucos os autores cuja escrita sofreram forte influência do pensamento marxista, dentre eles o português José Saramago.

            "Levantado do chão", de 1980, é o terceiro dentre os numerosos romance publicados pelo escritor, e aquele em que mais se evidencia sua opção pelos oprimidos dentro das relações de poder. A ação transcorre na região do Alentejo, num período que vai do início do século XX até meados da década de 1970. Nesse cenário, um narrador onisciente – com o qual é fácil identificar o próprio autor – faz o papel de mestre de cerimônias, convidando o leitor a acompanhar a história de gerações de camponeses pobres da família Mau-Tempo. Sobre o pano de fundo das transformações políticas que levam Portugal da monarquia à república e depois à ditadura, transcorre a existência dos trabalhadores, marcada pela opressão e pela miséria. Se os regimes políticos alteram as formas de acesso ao poder, deixam intocadas as relações sociais no campo. Patrões, autoridades e Igreja mantêm seus privilégios, enquanto os camponeses lutam pela sobrevivência num cenário imutável de verdadeira escravidão.

            Mas esse narrador que opina, toma partido, compondo sua narrativa com a marca da oralidade, vai dando voz aos personagens, num movimento que tende a apresentar uma tomada de consciência. Na primeira geração, os Mau-Tempo pouco dizem por si mesmos. Mas essa mediação vai sendo progressivamente substituída, a atitude submissa e conformada dando lugar ao anseio por mudanças. E se o narrador segue tutelando esses personagens, vai também se "ficcionalizando", declarando suas opções narrativas, misturando-se, de certa forma, a essa massa de descontentes que começa a se erguer e desafiar sua condição. Vão rareando as repetidas comparações dos trabalhadores com animais; multiplicam-se os trechos em que a dura realidade vai sendo retratada com emocionantes toques de poesia, à medida em que aflora a consciência crítica dos camponeses, conduzindo-os da passividade à ação.

            O anticlericalismo de Saramago faz-se presente em diversos momentos. Não por acaso, será Padre Agamedes, guia espiritual da comunidade explorada e aliado dos poderosos, a apontar o declínio da "Santíssima Trindade" do poder instituído: o latifúndio abandonado em prol da urbanização que se anuncia, o Estado conservador ameaçado pelo socialismo e a Igreja perdendo fiéis. Assim, o narrador/Saramago mantém a esperança na redenção de sua gente. Se Hermann Broch enxerga o fanatismo, a ilusão ou o desencanto como opções para o mundo, Saramago acredita numa salvação por obra da conscientização e organização das massas oprimidas. É assim que o escritor acaba fazendo de "Levantados do chão" uma grande profissão de fé.

SARAMAGO, José. Levantado do Chão. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2ª ed., 1989, 366p.



3 de julho de 2014

Os ratos: Hélio Penna




Leia conto do Hélio Penna publicado na Revista Virtual do site da Academia Niteroiense de Letras clicando na imagem acima.




Hélio José Lima Penna participa do CLIc desde janeiro de 2013 e é um dos escritores participante do livro Clube de Leitura Icaraí - 15 anos entre livros.


2 de julho de 2014

Questões para troca de ideias sobre a obra de Padura "O homem que amava os cachorros"




Mande suas perguntas e/ou coloque suas respostas no campo de comentários dessa postagem para debatermos a obra do escritor cubano:


  1. uma crença total será sempre maléfica?
  2. não importam os meios para se atingir determinado fim?
  3. quando a desesperança alcança patamares inimagináveis, quem é capaz de qualquer coisa para ter de volta a esperança? E quem não?
  4. um ideal pode estar acima de tudo?
  5. o marxismo é uma utopia?
  6. você concorda com Daniel Cohn-Bendit, lider do movimento estudantil de 1968 em Paris, que ficou indignado com os xingamentos à presidenta Dilma na abertura da Copa do Mundo no Taquerão e disse que ela deveria ter comprado os ingressos para encher o estádio com torcedores que são favoráveis ao governo? 


Resgate: Roberto Pedretti


Há cerca de duas semanas eu estava sentado perto de casa, bebendo uma cerveja antes de chegar em casa depois de um habitual dia de trabalho, e estava observando o também habitual monte de lixo que também aguarda para ser recolhido a alguns metros do bar por um caminhão por volta das 20h30. É difícil, por mais cotidiano que seja, não dar uma olhada no lixo acumulado próximo à esquina da minha rua, nem que de relance, primeira pelo volume - parece ser o lixo de todo o Bairro de Fátima, centenas de residências, um dia na vida de cada uma daquelas pessoas, reunido em meros 2 metros quadrados de desagradáveis sacos pretos e azuis, sempre meio remexidos pelos mendigos e cachorros; e segundo, pela sua variedade: num dia há um sofá, noutro um antigo console de videogame, noutro ainda perucas - é imprevisível o que as pessoas escolherão justamente aquele dia para defenestrar de suas vidas!, e nos faz elucubrar sobre o que mudou, para que tenham finalmente decidido dispensá-las. 

Neste dia, havia algo diferente: montes de livros sobre e entre os sacos. Alguns de filosofia, outros de história, indistintamente misturados a carne estragada e garrafas de refrigerante. Eu soube disso porque, tendo visto as lombadas de longe, levantei da minha mesa e fui tentar ver, pelo que ficava exposto das capas, do que se tratava - eram livros bons, na qualidade do que continham e no estado em que se encontravam. Livros praticamente novos. Até onde eu podia ver, nada era impossível, raríssimo ou atrativamente obscuro. Eram coisas que se pode comprar apenas com algum dinheiro voltado para isso - e, certamente, nada que valesse colocar a mão em meio aos detritos variados para extrair. Eu então retornei à mesa e ao meu copo, apenas um pouco melancólico por pensar que, quem quer que tenha disposto daquilo, não tenha se preocupado sequer em colocar num cantinho um pouco destacado, sobre um saco plástico qualquer, um lugar no qual eles pudessem se destacar do lixo geral como algo que tivesse o mínimo de valor. Essas coisas acontecem, eu pensei. E terminei meu copo. E pedi mais uma cerveja. E um pouco depois o caminhão chegou. 

Os rapazes da Comlurb chegaram fazendo seu trabalho reto e certo, recolhendo os sacos, limpando os arredores, catando o que os sacos não contiveram - mas não faziam maiores distinções: talvez depois de um dia inteiro fazendo exatamente aquilo, às 20h30 ninguém estivesse mais com cabeça para distinguir a qualidade de nada, e os livros eram lançados à caçamba com o mesmo indistinto profissionalismo com o qual o eram caixas de ovo e papelão mofado. Eles nem devem ter tido como fazer aquela minha reflexão de bar: se está no lixo, é lixo, e, se como dizia Vespasiano, o dinheiro não tem cheiro, o lixo certamente tem, e esse cheiro o nivela a uma homogênea condição de algo que não é mais desejado. 

Mas depois de alguns sacos recolhidos, eu vi, por debaixo, uma outra lombada, isolada das demais, de um livro grosso, e capa brilhava com o caldo que lhe tinha sido esparramado pelo lixo de cima. Eu me aproximei rápido, enquanto eles terminavam de acondicionar no caminhão os sacos que já tinham recolhido. E ali era uma edição portuguesa de "A Sociedade Feudal", de Marc Bloch, inteira, coesa, apenas suja porque tinha sido posta onde a sujeira toda do mundo podia danificá-la. Dessa vez não me contive. Antes que os lixeiros voltassem, eu a tirei dali com um saco plástico que tinha na mochila, e a levei para a mesa. Ali estava algo diante do que eu não pude me conter: um livro que custa mais de R$100, que é a base de milhares de monografias no mundo todo, que se eu mesmo, Roberto, quisesse adquirir naquele momento teria que importar e ter paciência para começar a lê-lo. Alguém o tinha lançado junto com todo o lixo comum e, provavelmente, providenciado que fosse encimado por alguns dos sacos que ajudaram a sujá-lo daquele jeito. 

Eu o levei para casa lacrado por outros três sacos plásticos. Abri apenas na área de serviço do apartamento e lavei a capa e contracapa, bem como os cortes lateral, superior e inferior com água morna. Levei para o trabalho no dia seguinte, e apliquei benzina sobre as capas para retirar as manchas extras o levei para a sala do ar condicionado, onde durante dois dias deixei suas páginas abertas em pontos diferente à frente de um fluxo de ar contínuo, que foi retirando o cheiro e deixando que o material orgânico do bom papel do qual ele é constituído se recuperasse, Tiras de contact bem finas ajudaram a repor no lugar as lascas da capa que se desprenderam, e uma fisioterapia radical, que consistiu em deixá-lo sob uma massa de livros muito mais pesada que ele durante a última semana, contribuiu para que recuperasse suas formas retilíneas, que tinham sido esgarçadas pela posição troncha na qual ele passou provavelmente todo aquele dia em que o encontrei sobre uns bons quilos de matéria em decomposição. 

Hoje, recuperado, "Sociedade Feudal" mora na minha estante. Eu não sou um medievalista, mas há muitos recantos da minha curiosidade geral sobre as coisas que podem ser satisfeitos por uma consulta às suas páginas. Meu filho pode ter ainda muito mais curiosidade sobre o assunto que eu, e o que ele procura continuará ali. Com apenas um grama de respeito, este livro continuará nos servindo por muitos anos. Provavelmente sobreviverá a todos nós que hoje respiramos e andamos por ai. Eu não o resgatei por que precisava dele; eu o resgatei pelo absurdo de que ele estivesse na posição em que estava. 

Não sou um bibliófilo inveterado, nem um desses defensores ferrenhos do físico contra o digital. Simplesmente acho que o velho cliché "livro não se joga fora" tem que deixar de ser um cliché para tornar-se uma verdade simples. Jogar o trabalho humano que já está concretizado e perfeito no lixo antes que ele seja capaz de beneficiar todos os seres humanos aos quais está destinado é é de uma torpeza que me assusta um pouco. Mas ao longo da história, em tempos mais bicudos, isso foi feito incontáveis vezes - e não por descuido e ignorância, mas ativamente!, queimando-os geralmente. Não era apenas "o conhecimento que não se precisa ter" mas o conhecimento "que não se deve ter". Aqui e agora, no momento e lugar em que eu e aqueles que me leem vivemos, no qual se pode pensar e falar basicamente qualquer coisa, não faz sentido descuidar-se assim. 

Que as pessoas que cansaram dos seus livros os ponham confortavelmente num banco de praça, ou nos degraus de uma escada, ou sobre uma surrada toalha de praia longe das marés. Apenas que não seja lixo ordinário. Haverá quem queira. E haverá quem precise.