CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

17 de janeiro de 2014



Ilusões
                                                                          
         O trem partia docemente. Da janela, a outra olhava para a ausência na plataforma. Não queria partir. Não mais voltaria. Para aquela cidade, para as doces palavras, os abraços, o corpo, as promessas de “Um dia, sós”.

         Aquela pinta na face esquerda de Maria o fez lembrar da Marilyn. Teve vontade de beijá-la, lambê-la. Ali mesmo. Dentro da pinta, Mário via a boca, os olhos, os seios, a bunda, as pernas da atriz. Ela o enfeitiçara. Desejava Marilyn.

Maria não fugiu dos seus olhares. Ele era charmoso, vestia-se bem, viajara muito, tinha um bom papo. Por que a escolhera? Era jovem, mas não era bonita, nem de rosto, nem de corpo. Se despediram.

         Mayra o conhecia bem. Até demais. Quinze anos casados. Agora, ele distante, ausente e muitos filmes da Marilyn.

         Breves encontros. Cafés, almoços, jantares. Ia tudo bem. O querer não tem lugar, hora ou razão. Maria e Mário foram a um motel. Conversaram muito. Mário falou sobre sua adolescência. Explorou todo seu corpo, perguntando sobre outras pintas. Não transaram. Só carícias, palavras, buscas e buscas.

         Mayra e Mário eram bons de cama, mas não tinham filhos. Agora, com muita insistência de Mayra, transas esparsas, diferentes. Mário longe, ausente.

A pinta era única. Era linda. Na face esquerda, como a Marilyn. Encontravam-se no motel todas as quintas à tarde.  Não transavam muito, Mário só se excitava e gozava olhando a pinta e imaginando estar com ela. O tempo passava, eram felizes e Maria esperava, ansiosa.

Atraso da menstruação. Gravidez? Abortaria?
        
Hoje, deitados na cama, Mário me disse que precisaríamos dar um tempo. Mayra engravidara. Gravidez de alto risco devido à idade. Não poderia arriscar e complicar a situação. Nosso “enfim sós” teria de esperar.

O trem partia docemente. Da janela, eu olhava para a ausência na plataforma. Não queria partir. Não mais voltaria. Para aquela cidade, para as doces palavras, os abraços, o corpo, as promessas de sós,  um dia.
Luiz Gavri

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