CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

7 de janeiro de 2014

2014 beleza pura no CLIc. Participe!


Que tal iniciar 2014 lendo belos trechos de livros? Este é o convite que fazemos a você, participante do CLIc ou internauta que gosta de visitar nosso blog. Basta postar, no campo Comentários, um parágrafo que tenha achado bonito em algum dos livros que leu, citando a fonte. Abaixo segue um exemplo. Contamos com você!


Marcel Proust: 'Em busca do tempo perdido', Vol I, No caminho de Swann, página 167

Venha com a gloriosa veste de seda de lírio, digna de Salomão e o esmalte policromo dos amores-perfeitos, mas venha, sobretudo, com a brisa ainda fresca das últimas geadas e que vai entreabrir, para as duas borboletas que desde esta manhã esperam à porta, a primeira rosa de Jerusalém.

53 comentários:

  1. Madame Bovary: Gustave Flaubert

    «Foi debaixo do telheiro onde se guardavam as carroças que puseram a mesa. Nela havia quatro lombos de vaca, seis frangos de fricassé, vitela estufada, três pernas de carneiro e, ao centro, um bonito leitão assado, rodeado por quatro grandes chouriços com azedas. Aos cantos erguiam-se as garrafas de aguardente. A sidra doce engarrafada fazia sair a sua espuma espessa em torno das rolhas e todos os copos tinham sido previamente cheios de vinho até às bordas. Grandes taças de leite-creme, que estremeciam ao mínimo toque na mesa, apresentavam, na sua superfície lisa, o monograma dos noivos, desenhado em arabescos de missanga de açúcar. Tinha-se mandado vir um pasteleiro de Yvetot para fazer as tortas e os nogados. Por ser a sua estreia na região, apurara-se no trabalho; e ele próprio trouxe para a mesa um bolo armado que provocou estrondosos aplausos. A base, em primeiro lugar, era composta por um quadrado de cartão azul, representando um templo com pórticos, colunas e estatuetas em gesso em toda a volta, dentro de nichos constelados de estrelas de papel dourado; a seguir vinha no segundo andar, uma torre de pão-de-ló, rodeada de pequenas fortificações de angélica, amêndoas, passas de uva, gomos de laranja; e, por fim, sobre a plataforma superior, que representava um prado verde onde se viam rochas com lagos de geleia e barcos feitos com cascas de avelãs, havia um pequeno Cupido sentado num baloiço de chocolate, cujos postes terminavam, no cimo, à maneira de esferas, em dois botões de rosa naturais.

    Comeu-se até à noite. Quando se cansavam demasiado de estar sentados, iam passear pelos pátios ou jogar uma partida de malha no celeiro; depois voltavam à mesa. Para o fim, alguns adormeceram ali mesmo e ressonavam. Mas, quando chegou o café, todos se reanimaram; (…)»

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    1. Descrever um casamento através do farto buffet é bem bacana, podemos visualizar a época, os costumes, o ambiente. Flaubert o faz magistralmente. Bela escolha, concièrge.

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    2. este trecho me animou a ler Flaubert....ceci

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  2. Que fim levou aquele velho baixinho, barrigudo, de olhos azuis e cabelos brancos que explicava as fontes históricas? Ele era tão bom que dava vontade de cursar História e não Psicologia, dizia Aída, e Jacobo sim, pena que era hispanista e não indianista. As salas abarrotadas dos primeiros dias foram se esvaziando, em setembro só apareceria a metade dos alunos e já não era difícil conseguir lugar nas aulas. Não se desapontavam, o problema não era que os professores não soubessem ou não quisessem ensinar, pensa, eles também não estavam interessados em aprender. Porque eram pobres e tinham que trabalhar, dizia Aída, porque estavam contaminados pelo formalismo burguês e só queriam o diploma, dizia Jacobo, porque para se formar não precisavam estar presente nem se interessar nem estudar: bastava esperar. Estava contente em San Marcos magrelo,era verdade que os maiores crânios do Peru ensinavam lá magrelo, por que tinha ficado tão reservado magrelo? Sim estava papai, era verdade, papai, não tinha ficado papai. Você entrava e saía de casa que nem um fantasma, Zavalita, ía se trancar no quarto e não dava a mínima para a família, parece um urso, dizia dona Zoila, e o Chispas você vai ficar vesgo de tanto ler, e a Teté por que não sai mais com o Popeye, sabichão. Porque Jacobo e Aída bastavam, pensa, porque eles eram a amizade que excluía, enriquecia e compensava tudo. Foi aí, pensa, foi aí que me fodi?

    Conversa no Catedral, Mario Vargas Llosa, página 98

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    1. Rose, que texto interessante. Lembrei-me que a primeira faculdade que fui fazer (e rapidamente desisti) foi Matemática, em função de uma excelente professora. Eu gostava mais dela do que da matéria, mas só percebi isso depois. A coisa da amizade mencionada no texto é muito bonita e o final, primoroso. Adoro a irreverência do Llosa. Ótima sua escolha.

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    2. Rose, vou tentar escrever novamente o que escrevi ontem, mas não saiu.
      Essa sua passagem é interessantíssima. Lembra exatamente o que mencionei na minha entrevista conjunta com o Benito, quando eu comentei sobre minha identificação com alguns personagens literários, no caso o Zavalita e sobre paixão sobre algumas personagens femininas, no caso a Aída. Me identifiquei também porque minha primeira leitura do livro se deu no mesmo período de vida que o Santiago Zavala enfrentava nessa passagem, ou seja, na vida universitária, envolvido ao movimento estudantil. Ele vivia um período de incertezas, buscando entender tudo que envolvia a vida política do país e ao mesmo tempo dos estudantes. Comentei também sobre a última frase que aparece nessa passagem, e que também sempre me marca nas leituras do livro, pois ela se repete durante várias passagens da obra. Logo nas primeiras linhas do livro, Santiago se pergunta em que momento o Peru se fodeu, e que ele era como o Peru, e daí queria saber também em que momento sua vida se fodeu. Essa frase é muito marcante pra mim quando eu leio o Conversa na Catedral. Se me perguntassem uma passagem, eu diria "Em que momento o Peru tinha se fodido? (...) Zavalita era como o Peru: tinha se fodido num certo momento. Pensa: em qual? (...) O Peru fodido, pensa, Carlitos fodido, todos fodidos. Pensa: não há solução."

      E ainda sobre sua passagem, sua edição é diferente da minha, talvez até de outra editora, primeiro porque não encontrei sua passagem na página 98 do meu livro, segundo que acho que aqui a tradutora usa o termo "magro" e não "magrelo". E veja se você não deixou de copiar vírgulas no seu texto antes dos vocativos "magrelo".

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    3. nunca pensei ser possível tal sem vergonhice do peru se foder

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    4. Olá Benites, o meu livro tem a tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht e não esqueci as vírgulas, estão tais quais no livro, mas que bom que vocé tocou neste assunto pois alguns parágrafos precisei ler mais de uma vez justamente por conta de vírgulas mal colocadas. Até me arrependi de não ter comprado o livro na lingua do autor. No princípio me enrolei bastante para entender a dinâmica das vozes, mas agora que encontrei estou amando. Fiquei muito impressionada com este parágrafo que fala também da tristeza que é se ter apenas o diploma, da articulação da esquerda, enfim o livro é ótimo, obrigada por falar tanto nele e ter me despertado o interesse. Nos vemos em abril.

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    5. Rita fico feliz por você ter decidido trocar os números para juntar letras. Você é muito boa quando escreve.

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    6. Rose, achei aqui a passagem depois de você citar que era no início do capítulo VI. A tradução é de Olga Savary. Não li sobre os melhores tradutores em espanhol. Tinha lido que dois tradutores do espanhol, Josely Viana e Ernani Ssó foram finalistas de melhor tradução no Jabuti, mas não sei se um deles venceu. Em 2010, o Jabuti premiou a melhor tradução do espanhol para o português e os melhores foram Bernardo Ajzenberg, Luís Carlos Cabral, Eric Nepomuceno.
      A do meu livro é de Olga Savary, que disse que consultou Houaiss e Ferreira Goulart para seu trabalho..
      Realmente a sua passagem confirmou o que eu percebi, que faltavam vírgulas. O que me chamou a atenção foi no caso dos vocativos que eu citei, e aí nem é problema de tradução, mas sim de redação. Às vezes pode ter sido erro da edição, ou de quem revisou e quis retirar as vírgulas. A tradução está bem parecida mesmo, até porque nossas línguas são tão parecidas que não tinha como fugir muito. Por exemplo, seu livro traz "velho baixinho", enquanto o meu traz "velhote pequenino". Mas, além dessa passagem dos vocativos, eu estranhei logo no início, quando fala "(...) dizia Aída e Jacobo sim, pena que era hispanista...". Essa parte, assim como as que eu citei em que cita o magrelo, dá a impressão que quem escreve é o Saramago e não o Llosa, pois Saramago que evita pontuação e emenda frases atrás de outras. Na minha edição está "(...) dizia Aída e Jacobo: sim, pena que fosse hispanista...". Esses ":" entre "Jacobo" e "sim" muda tudo e é essencial.

      Sobre esse enrolo que você sentiu, eu também, mas principalmente quando o Llosa passa a intercalar diálogos intertemporais. Assim que apareceu esse traço narrativo, me embananei, tive que reler e aí vi do que se tratava e tive até que reler o interlocutor da fala anterior para ver com quem e o que se discutia. Achei isso fantástico, pois nunca tinha visto um autor usar uma narrativa assim. O modo como você definiu é perfeito: "a dinâmica das vozes".

      Só de ler esse final de sua mensagem, eu sinto feliz, pois eu tinha até parado de falar do livro, pois só encontrava resposta nos mesmos que ou já conheciam o livro ou que gostam do Llosa. Um abraço.

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    7. Benites eu acho que no fim do livro vou querer reler por conta da sacassão tardia da conversa intercalada e vou estar mais fa iliarizada com as personagens que vou querer reler, mas, PENSA, não vou querer reler esta edição que tem erros sérios de redação e que foram revistos por 3 profissionais.
      A pontuação faz toda a diferença com certeza e eu vou aproveitar para treinar o espanhol, vou comprar o livro em espanhol para relê-lo.
      Este é o meu primeiro livro do Llosa e pelo visto comecei pelo melhor. Abraço.

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    8. Escrever no blog não é fácil! Deixa eu ajudar no sentimento de culpa do M. le concièrge. Vou tentar repetir minha resposta aqui.
      Benites, a pontuação faz toda a diferença e a minha edição não é boa, apesar de 3 revisores.
      Também acho que no final do livro vou querer reler o início, já que a minha sacação da conversa intercalada se deu tardiamente, assim, PENSA, vou querer reencontrar as personagens que agora estão mais definidos para mim, só que vou fazê-lo diretamente do espanhol.
      Este é o meu primeiro livro Llhosa e pelo visto comecei pelo melhor de todos, obrigada mais uma vez pela dica. Abraço.

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    9. Rose, já pensei em ler Llosa no espanhol, para ver se eu conseguiria enxergar a grande literariedade do texto. Pensei nisso quando pensava em fazer um projeto visando doutoramento, mas acho que será difícil, pois teria que ler no mínimo três obras em espanhol para reforçar o projeto, ou então teria que me assegurar de ter em mãos a melhor tradução. Sinceramente, eu gostei da minha edição. O exemplar que está comigo hoje não é o mesmo que li nas primeiras vezes, mas é da mesma editora e edição que eu tinha lido. Foi uma edição do Círculo do Livro, mas como fala que tem licença da Livraria Francisco Alves Editora, imagino que essa tradução era da Francisco Alves. Durante o texto, a tradutora deixa algumas expressões em espanhol, e coloca uma nota de rodapé explicando o sentido. Claro que o ideal seria ler direto do espanhol, mas gostei dessa edição. Mas eu te apoio em reler o livro em espanhol. Se não conseguir encontrar uma edição em espanhol, eu te empresto a minha, que está bem castigada, pois foi comprada em sebo, mas eu a considero de boa qualidade. Ler um livro cheio de problemas de pontuação que não vale a pena.
      Meu primeiro Llosa foi o Pantaleón, que eu recomendaria, assim como recomendaria o outro livro que foi lido pelo Clube salvo engano em 2012, Tia Júlia e o escrevinhador. E outro que já li e também é muito bom é A cidade e os cachorros (que em outras edições brasileiras mais antigas aparece com o título de Batismo de Fogo). Tem também o Lituma dos Andes, que chegou a ser bem premiado, mas eu, minha opinião, achei que era inferior a esses que citei anteriormente.
      Aqui no Clube também lemos o Elogio da madrasta, mas embora tenha gostado, ainda acho que também é inferior a todos os outros. Sei que o clube já leu Travessuras de menina má, que não pude ler inteiro por falta de tempo e ter decidido ler em outra época, desde o início, mas gostei bastante do início e depois achei que ele caiu um pouco. E na época que lemos o Elogio da madrasta, alguns cliceanos citaram que leram Os cadernos de don Rigoberto, que intertextualiza com Elogio, mas esse eu não li.
      Por fim, tem dois que estão na minha lista: Guerra do fim do mundo, que conta sobre a Guerra dos Canudos, e não posso deixar de ler... e A Casa Verde, que lá na década de 80, quando li Conversa na Catedral, li um artigo comentando sobre ele, pois tinha sido o primeiro ou segundo livro do Llosa a ser premiado.

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    10. Boas dicas, minha lista de intenções só aumenta.

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    11. Rose..."Pantaleão e as Visitadoras, é genial!
      .Agora para colocar uma "babação em vc e no Benites,assisti uma palestra dele no CCBB
      e tenho um livro autografado.por ele...Gosto de LLosa mas ainda prefiro o Garcia Marques...Ceci

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  3. É possível viver no desespero sem desejar a morte?"Eu imaginava, por brincadeira,ler esta pergunta
    numa espécie de letreiro,que um imenso morcego com as asas abertas,parecido com aquele que se vê
    na gravura de Durer,"Melancolia",mantinha suspenso entre as garras,sobre o mar,enquanto o pequeno vapor
    se aproximava ràpidamente da ilha de Capri.Talvez fosse a atmosfera do temporal iminente que me sugeria a analogia com a gravura do pintor alemão.Como na gravura, um arco-iris curvava suas cores claras no fundo do céu negro e o grande penhasco vermelho da ilha se recortava a pino sobre um mar calmo e escuro que,aqui e ali,cintilava com reflexos ondulantes como uma placa de chumbo arranhada pela ponta de uma faca.................Contemplei por um instante essa paisagem,"infuenciado pela idéia" de Durer;depois abaixei os olhos e então vi,sentada no convés,bem à minha frente,uma mulher que me acenava com a cabeça,de maneira doce mas firme,como se dissesse:"Não, não crie ilusões,não é possivel,realmente não é," Acreditei ter visto mal,tornei a olhar com atenção e tive de convencer-me que a mulher de fato fazia que não com a cabeça,embora me olhasse fixamente,como se eu tivesse feito a pergunta em voz alta e a ela.De resto a ilusão era confirmada pela expressão dos olhos,que não parecia casual,mas inspirada por uma vontade precisa de comunicação.Naqueles olhos, o sentimento do desespero era ,de fato,tão claramente legível no olhar fosco e infeliz das grandes pupilas verdes,que a ligação com o aceno negativo da cabeça era inevitável .Sim,ela estava desesperada e queria que eu soubesse disso.Com aquele aceno de cabeça,parecia querer dizer-me:"Temos o mesmo sentimento.Mas tenho uma idéia diferente da sua"sentimento.....................

    1934...de Alberto Moravia
    postado por Ceci Lohmann..

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    1. Oi Ceci. O início deste livro que vc cita é muito forte e marcante realmente. A pergunta vai, volta, acho que a resposta depende do momento da vida em que nos encontramos, do quão desesperante é esse desespero, mas é belo o embate da consciência com a inconsciência, assim como a luta que travamos entre a parte que quer viver e a que não tem tanta certeza. Ah, a intemporalidade do drama humano, como diz Dília, não é fácil não. Bjs.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Essa passagem e a outra que postarei depois, eu já havia citado na minha entrevista conjunta com o Benito. É do conto "Alguém dorme nas cavernas", do livro de contos "O livro dos lobos", de Rubens Figueiredo, páginas 41-42.

    Cabelos molhados, tinha tomado banho antes do jantar. (...) Levei-a até o fundo do jardim, onde a Floresta recomeça. Fiquei no lugar de costume e disse para ela não se mexer, não fazer ruído, não ter medo. Nossos olhos começaram a se habituar à escuridão. Raquel de pé a meu lado, seu ombro às vezes encostando no meu. (...)
    - Não olhe nos olhos deles.
    Os lobos haviam parado, sentindo uma presença nova. Raquel ainda não percebia nada. Continuamos imóveis. (...) Raquel estremeceu. Repeti, cochichando:
    - Não olhe nos olhos deles.
    Os lobos vieram num ziguezague caprichoso, contornando barreiras invisíveis que eles mesmos inventavam no ar para se proteger. Um. Dois. O casal, a fêmea na frente. O macho atrás, (...) Experimentaram o cheiro novo, de Raquel, comedora de carne ela também. (...) Senti Raquel tremer, suar. Senti uma emoção palpitar dentro dela, respirar na sua pele. Lado a lado, boa parte do seu braço nu encostava no meu braço nu encostava no meu braço.(...)
    Não havia lua, mas algumas estrelas vigiavam no céu. Não havia vento, mas os lobos dominavam o ar com seus odores e suas narinas. Depois de terminarem os ossos, começaram a brincar. Os carinhos meio brutos, as mordidas atrás do pescoço, os focinhos se esfregando, trocando dentadas de leve. Rosnados.
    O cabelo de Raquel ainda estava molhado. Lentamente, pus minha boca e meu nariz atrás da sua orelha. Ela não se mexeu. Os lobos diante de nós. Corri os lábios na sua pele, um, dois centímetros enormes. Respirei pelos seus poros. Descobri uma penugem macia na pele que desce abaixo da orelha, por trás na direção da mandíbula. Com a ponta da língua, provei a suavidade daquela ilha de cabelos. Resvalando de leve com os lábios, mal tocando em Raquel, minha respiração era uma penugem ainda mais tênue. Senti que o impulso de um arrepio atravessava o corpo de Raquel, uma reviravolta na sua pele. Ela não se mexia.
    A frescura do seu cabelo molhado tocou um centímetro de minha pele, frio, em algum ponto da bochecha. Outra mecha refrescante deslizou um dedo na minha testa, deixando um rastro úmido, uma memória que ia se evaporar com o meu calor. Raquel não se mexia, mas seu cabelo de algum modo me acariciava. Os lobos a poucos metros de nós. Cochichei, sem saber por quê:
    - Agora somos dois casais.

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  6. Do mesmo conto, página 46.

    Raquel já estava há algum tempo no lago, cada vez mais à vontade. De vez em quando vinha até a margem pegar folhinhas aromáticas para esfregar na pele, no cabelo. Boiava, afundava, se mexia na água quase sem fazer ruído. Como um peixe no fundo do rio. Ela já não pensava em cavernas, não pensava em Timóteo, já não era Raquel. Ela era água, era folhas, (...)
    Rindo de mansinho, puxou-me pela mão, me fez entrar no poço, de calça, camisa, chapéu. De alguma forma, eu me desfiz disso tudo e Raquel passou a me esfregar as folhas aromáticas, quase tão macias quanto as suas mãos. Tentei não fazer ruído também, tentei ser água como ela. Procurei a ilha de penugem macia por trás do seu pescoço, abaixo da orelha. Raquel ria em silêncio. Escolhia pontos em meu corpo, distantes um do outro, no peito, nos ombros, onde apertava de leve o nariz ou tocava com a ponta de um dedo, e soprava. Suave, úmido. Duas ou trêsvezes pensei que eu fosse afogar no seu cabelo, mais água do que o poço. (...)
    Raquel havia estendido uma toalha na margem. Me levou até ali. Minhas mãos esmagaram as folhas cheirosas da relva. Acho que arfei e rosnei como um bicho. Antes de dormir.

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    1. Benites, eu já tinha lido as passagens quando da sua entrevista e reli agora. São realmente maravilhosas e me dá grande vontade de ler O livro dos lobos", de Rubens Figueiredo.

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    2. Você não vai se arrepender. E faço campanha para o Passageiro do fim do dia ser lido pelo CLIc.

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  7. "Aí vai, portanto, meu pensamento profundo do dia: é a primeira vez que encontro alguém que procura as pessoas e que vê além. Isso pode parecer trivial, mas acho, mesmo assim, que é profundo. Nunca vemos além de nossas certezas e, mais grave ainda, renunciamos ao encontro, apenas encontramos a nós mesmos sem nos reconhecer nesses espelhos permanentes. Se nos déssemos conta, se tomássemos consciência do fato de que sempre olhamos apenas para nós mesmos no outro, que estamos sozinhos no deserto, enlouqueceríamos. Quando minha mãe oferece petisfours da casa Ladurée à sra. de Broglie, conta a si mesma a história de sua vida e apenas mordisca seu próprio sabor; quando papai toma café e lê jornal, contempla-se num espelho do gênero manual de autoconvencimento; quando Colombe fala das aulas de Marian, deblatera sobre seu próprio reflexo, e quando as pessoas passam diante da concierge, só vêem o vazio porque ali não se reconhecem.

    De meu lado, suplico ao destino que me conceda a chance de ver além de mim mesma e encontrar alguém."

    "(...) o que é legal em Kakuro é que ele faz tudo com boa educação. É muito agradável ouvi-lo falar, mesmo se a gente está se lixando para o que conta, porque ele fala de verdade, se dirige a você. É a primeira vez que encontro alguém que se preocupa comigo quando fala comigo: não fica à espreita de aprovação ou desacordo, olha para mim com cara de quem diz: "Quem é você? Quer falar comigo? Que prazer eu tenho de estar com você!". É isso que eu queria dizer quando falei em boa educação, essa atitude de uma pessoa que dá à outra a impressão de estar ali."( "A elegância do ouriço", de Muriel Barvery, p.154 e 179)

    Cintia

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    1. Cintia, esse livro me emocionou muito. Ouvia falar tão bem no Clic que comprei e não me arrependi nadinha. É lindo, profundo e verdadeiro.

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    2. Esse livro foi o que tinha sido lido na semana anterior de quando cheguei ao CLIc e lembro da polêmica em torno dele, pois o Benito havia o espinafrado e havia a turma que o achara genial.

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    3. Ah, gostaria de ter estado lá neste dia para polemizar com o Benito sobre "A elegância do ouriço". Não posso imaginar que justificativas ele teria contra uma obra prima destas. Será que não achou crível?

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  8. De Memorial do Convento, José Saramago

    "Dom João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, dona Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça. Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canônica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total depois de retirar-se de si e da sua cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de dona Maria Ana. Mas Deus é grande.

    Quase tão grande como Deus é a Basílica de São Pedro de Roma que el-rei está a levantar." (pp. 9-10)

    "Deitaram-se, Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezenove anos, mas já não se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador umedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.

    Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro." (pp. 49-50)

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    1. Saramago é um mestre incomparável. Quando viajamos neste Natal, eu levei 3 livros para ler, mas no hotel em que ficamos tinha uma biblioteca magnífica e eu não resisti: deixei meus livros para depois e devorei um do Saramago, com o título "As intermitências da morte". Tiro certo, como também será o dia em que puder ler Memorial do Convento. Eu queria ser um gênio como o Dr. Reid da série Criminal Minds, ele lê rapidíssimo e grava tudo, linha por linha. Já pensou? Meu sonho de consumo.

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    2. Pela terceira vez tentando postar...rs... dando erro de cache...
      Eu comecei a ler "As intermitências ...", que recebi de presente da Lilian, e realmente é um tiro certo e tanto. Como disse o Benito, apoio a iniciativa de que o clube leia toda a obra de Saramago. O Ano da morte de Ricardo Reis foi uma cacetada bem dada em nossa cabeça, no bom sentido é claro... Como foi bom ler aquele livro! E tenho certeza absoluta de que você vai gostar de Memorial do convento. E falo do Saramago e desse livro, com inteira liberdade, pois eu não queria ler Saramago, pois tinha me antipatizado com ele por conta de uma entrevista dele no programa do Jô. Aí quando vi que o Memorial havia sido sorteado para que eu trabalhasse com ele, fiquei pensando o que fazer... Então fui conversar com alguns amigos portugueses, torcedores do Benfica, que mantinham contato comigo e vi que ele era uma figura bastante polêmica em Portugal. Então resolvi fazer uma pesquisa, passando um formulário para que além desses amigos, todos os outros participantes do fórum respondessem. Daí pude traçar um perfil da imagem que os portugueses tinham de Saramago. O início do livro é a primeira parte que eu citei e ali eu vi já o gênio que ele é, com uma ironia danada quando se referia aos poderosos e a Portugal também... uma escrita totalmente diferente. Lembro que o livro arrebatou não só os que fizeram o trabalho sobre ele, como todos de minha turma que assistiram à apresentação do trabalho, feito em três aulas, tanto que depois vários amigos foram comprar o livro. Por conta do sucesso do livro, acabei emprestando o livro para duas amigas, mas a segunda não me devolveu até hoje...rs... Tive que comprar outro, dessa vez no sebo.
      Mas não vou fazer campanha para ele. Vou deixar para o Benito ou você esse trabalho...rs.. Gostaria que ele fosse lido, mas não vou correr atrás. Se eu for fazer campanha, é capaz de que ele seja lido só no Rio, e aproveitando o título, dentro de um convento, onde teremos que falar baixo.... rs

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    3. Boa ideia! Pode ser o próximo tema do CLIc-Rio. Eu topo! Onde seria Rose? No mosteiro de São Bento?

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    4. Por mim está aprovado, melhor que isso só na Ilha que Saramago morava.

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    5. Evandro, não tente isso. Assim como Conversa na Catedral, Memorial do Convento merece ser lido pelo grupo inteiro do CLIc.

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  9. Mistério desvendado, nesta postagem temos os exemplos das contas do Benites que têm lhe confundido! Olá Benites, respondendo à sua reclamação feita no Facebook, sobre a confusão relacionada com a não aprovação automática de seus comentários no blog, confirmo que este comentário acima foi pela conta que você preferiu quando te enviei o convite de autor, que te permite comentar no blog sem necessidade de aprovação, e não a outra conta, dos dois comentários anteriores. Por alguma razão, que não entendi, você trocou a conta do convite original, o das mensagens anteriores, por outro email, desta conta, que não constava do seu cadastro no CLIc, lembra?, que é o email daquele amigo seu da UFF com quem você compartilha o acesso. UFA!

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  10. Evandro, eu compreendi a confusão das contas, mas não entendo porque o google me deixou nessa. Meu email benites@vm.uff.br, que é o que eu sempre usei para logar nas contas do google, e tenho há 15 anos mais ou menos, e continuo usando, ficou preso ao email do amigo. Eu contei pra ele, e pedi que ele consertasse a confusão, poiseu ele me pediu um email secundário para ele se cadastrar no gmail, já que sua conta havia sido hackeada, e precisava pra receber o link de confirmação. Só que nem ele e nem eu sabíamos que ao colocar como email secundário, meu email ficou preso ao email dele. Depois de contar a confusão que ele me meteu, ele acabou abandonando o email e abriu outro. Ele iria até cancelar, mas ele me disse que se fizesse isso, eu perderia minha conta no google do email do vm.uff.br. E eu ainda o uso para youtube, orkut (participo ainda de 3 comunidades, e não queria ter que abrir outra conta só para utilizar esses serviços e perder dados ligados a essas contas. Engraçado que no orkut aparece meu email vm.uff.br. No youtube, mesmo sem logar com aquele email maluco, aparece lá no alto o email criado pelo meu amigo.
    Ou seja, uma confusão danada que criei ao querer ajudar alguém. Já busquei links na ajuda do google, mas não achei nada.

    E sim, eu cadastrei minha segunda conta institucional de email da UFF, que eles fizeram convênio com o google e, assim, é ligada ao gmail (id.uff.br). É uma conta que pouco uso, pois deve ter só uns 5 anos, mas a coloquei ligada ao blog para ver se resolvia a questão de aparecer um email que nada tem a ver com meu nome. Ao postar as duas mensagens iniciais, eu antes fui na conta do orkut, que é ligada ao vm.uff.br, e pela confusão, colada ao email com o nome de meu amigo, e efetuei o logoff. Daí achei que estava deslogado aqui automaticamente e postei minha mensagem, achando que iriam pedir minha conta conta do google. Só que na verdade, descobri que ainda estava logado e daí veio o pedido de aguardar a liberação do comentário.

    Por falar nisso, parece que houve um erro momentâneo no google no início da madrugada, que não postou uma mensagem que fiz em resposta à mensagem da Rose, mas vou escrever novamente.

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    1. Valeu, Benites! Se você quiser, cadastro também esta outra conta.

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  11. FLOR DE MAIO

    "Entre tantas notícias do jornal - o crime do Sacopã, o disco voador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão, a angústia dos Barnabés - há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos os jornais publicam.

    Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta dágua, nem do Ministério da Guerra para insinuar que o país está em paz. Não conta incidentes de fronteira nem desastre de avião. É assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, e nos informa gravemente que a partir do dia 27 vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada 'flor de maio' está, efetivamente, em flor.

    Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa de redação e me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. Mas havia muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar. Agora, já desce a noite, e as plantas em flor devem ser vistas pela manhã ou à tarde quando há sol - ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no vento, e choram gotas e flores no chão.

    Suspiro e digo comigo mesmo - que amanhã acordarei cedo e irei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi - um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam. Qualquer destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então será tarde, não haverá mais 'flor de maio', e então pensarei que é preciso esperar a vinda de outro outono e no outro outono posso estar em outra cidade em que não haja outono em maio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidade haverá essa 'flor de maio'.

    No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém - uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples que tire desta crônica a sua única substância, a informação precisa e preciosa: do dia 27 em diante as 'flores de maio' do Jardim Botânico estão gloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindo de casa e indo diretamente ao Jardim Botânico ver a 'flor de maio' - talvez com a mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só.

    Ir só, no fim da tarde, ver a 'flor de maio'; aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões desgraçadas e tantas cofaps de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica."

    Rubem Braga no livro Borboleta amarela (Rio, maio de 1952)

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    1. Esse livro do Rubem Braga que vc cita acho que é o mesmo que Carlos Rosa também já indicou. Promete mesmo. A literatura nos chama à vida, nos sacode, nos impele. Ler é muito bom. É preciso vencer a inércia e fazer também, não é Cris? Estou neste caminho.

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    2. Realmente acho que nunca lemos Rubem Braga...boa sugestão...

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  12. FLOR DE MAIO

    "Entre tantas notícias do jornal - o crime do Sacopã, o disco voador em Bagé, a nova droga antituberculosa, o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão, a angústia dos Barnabés - há uma pequenina nota de três linhas, que nem todos os jornais publicam.

    Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta dágua, nem do Ministério da Guerra para insinuar que o país está em paz. Não conta incidentes de fronteira nem desastre de avião. É assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, e nos informa gravemente que a partir do dia 27 vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada 'flor de maio' está, efetivamente, em flor.

    Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa de redação e me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. Mas havia muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar. Agora, já desce a noite, e as plantas em flor devem ser vistas pela manhã ou à tarde quando há sol - ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no vento, e choram gotas e flores no chão.

    Suspiro e digo comigo mesmo - que amanhã acordarei cedo e irei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi - um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam. Qualquer destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então será tarde, não haverá mais 'flor de maio', e então pensarei que é preciso esperar a vinda de outro outono e no outro outono posso estar em outra cidade em que não haja outono em maio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidade haverá essa 'flor de maio'.

    No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém - uma pessoa melhor do que eu, alguma criatura correta e simples que tire desta crônica a sua única substância, a informação precisa e preciosa: do dia 27 em diante as 'flores de maio' do Jardim Botânico estão gloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindo de casa e indo diretamente ao Jardim Botânico ver a 'flor de maio' - talvez com a mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só.

    Ir só, no fim da tarde, ver a 'flor de maio'; aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões desgraçadas e tantas cofaps de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica."

    Rubem Braga no livro Borboleta amarela (Rio, maio de 1952)

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  13. “O amigo agora monta lanternas. Olhadas de longe são pirilampos, ele diz, e seus olhos faíscam. Por causa dessa ternura, os baloeiros me tocam. Também pelo desprendimento. Afinal, num tempo de posse, de egoísmo, mais os gratifica o balão ganhando os céus, fugindo-lhes das mãos e do campo visual. Exercício de apego e desapego! Liberdade compensando a perda!” Wanderlino Teixeira Leite Netto no livro Movimento Circulatório

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  14. TRECHO DA NOVELA "DESABRIGO", DE ANTÔNIO FRAGA (1916-1993)

    "Combinaram então vinte pontos de partido e começaram Logo de entrada desabrigo deu de florear jogando de tabela Tava crente que ia dar um banho no miquimba Não sabia que o outro tava tapiando o jogo só pelo gostinho de ganhar apertado Se tava! Teve até uma hora que pra não fazer carambola miquimba cuspiu no matapiolho e molhou a ponta do taco sem desabrigo ver Nem tem que ver! O taco espirrou ali em bruto e miquimba bancou que tava triste como quem perdeu a mãe (dele) Outra hora fez a bola repicar de propósito só pra desabrigo marcar mais uma virada Mas porém quando o tempo da partida ia se finindo miquimba tirou um fino impossível e deu um efeito ao contrário que até parecia cagada E cada bola seguida cada puxada que ele fez! E as últimas cinquentas carambolas – meu Deus do céu! – juntou as bolas tão bem que desabrigo falou aporrinhado
    – Tem jogo aí pruma semana"

    ("Desabrigo e Outras Narrativas", de Antônio Fraga, José Olympio Editora, 2009, Coleção Sabor Literário, página 45)

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    1. Interessante narrativa, Winter. A linguagem usada lembra a do João Antonio.

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  15. “Eu, Miguel Angelo, entalhador de pedra, desenhei nesta abóboda a imagem de um jovem de Florença que eu amava e que não existe mais. Ele está sentado numa atitude hostil e os seus braços dobrados parece esconderem o seu coração. Mas os mortos têm talvez um segredo que não querem que nós conheçamos.
    (...)
    Amamos porque não somos capazes de suportar estar sós. E é pela mesma razão que temos medo da morte. De todos os remorsos do homem, o mais cruel é aquilo que ficou por realizar.
    Amar alguém não é simplesmente querer que ele viva, é também espantar-se que ele deixe de viver, como se morrer não fosse natural. E no entanto, ser é um milagre mais surpreendente do que não ser; é diante daqueles que vivem que deveríamos ajoelhar como diante de um altar.
    Toda a minha vida procurei respostas a perguntas que talvez não tenham resposta e perscrutei o mármore como se a verdade se encontrasse no coração das pedras, e espalhei as cores para pintar muralhas como se se tratasse de fixar acordes sobre um enorme silêncio. Tudo se cala, até a nossa alma – ou então somos nós que não ouvimos.
    Querer imobilizar a vida é a danação do escultor.
    (...)
    O amor de alguém é um presente tão inesperado e tão pouco merecido que devemos espantar-nos que não no-lo retirem mais cedo. Não se possui ninguém e, sendo a arte a única forma de posse verdadeira, o que importa é recriar um ser e não prendê-lo.”
    Marguerite Yourcenar, “Tempo esse grande escultor”

    dília

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    1. Arrasou, Dília. Belíssimo trecho.

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    2. Muito bom, na minha caixa do pensamento eu tenho a seguinte citação dessa autora:
      "O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos."

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    3. Falar sb o Amor atv de Yourcenar,acrescido pela Dilia ..Ufa!!!!mexe com a gente
      ..

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  16. A VOLTA AO NATURAL.

    Clarice Lispector.

    Pois no Rio tinha um lugar com uma lareira. E quando ela percebeu que, além do frio, chovia nas árvores, não pode acreditar que tanto lhe fosse dado, O acordo do mundo com aquilo que ela nem sequer sabia que precisava como numa fome. O fogo acaso pisca para ela e para o homem. Ele, o homem, se ocupa do que ela nem sequer agradece: ele atiça o fogo na lareira, o que não lhe é senão dever de nascimento. E ela___ que é sempre inquieta, fazedora de coisas e experimentadora de curiosidades___ pois ela nem se lembra sequer de atiçar o fogo: não é seu papel, pois se tem o seu homem para isso. Não sendo donzela, que o homem cumpra sua missão. O mais que ela faz é às instiga-lo: "aquela acha", diz-lhe, "aquela ainda não pegou". E ele, um instante antes que ela acabe a frase que o esclareceria, ele, por ele mesmo já notara a acha, homem seu que é, e já está atiçando a acha. Não a comando seu, que é a mulher de um homem e que perderia seu estado se lhe desse ordem. A outra mão dele, a livre,,está ao alcance dela. Ela sabe , e não a toma. Quer a mão dele, sabe que quer, e não a toma. Tem exatamente o que precisa: pode ter.
    Ah, e dizer que isto vai acabar! que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente acaba e pode nunca mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja. Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja.

    Vera Lúcia Schubnell Freire

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    1. Nossa, Vera. Que trecho poderoso, lírico e forte. Excelente mesmo.

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    2. Oi Vera...Falando de Clarice vc está falando de vc.....

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  17. Alguns apontamentos selecionados em "Trem Noturno Para Lisboa", de Pascal Mercier:
    1-"As Sombras da Alma- As histórias que os outros contam sobre nós e as histórias que nós mesmos contamos--quais delas se aproximam mais da verdade? É tão certo assim que sejam as próprias histórias? Somos autoridades para nós mesmos? Mas não é essa a questão que me preocupa. A verdadeira questão é: existe, nessas histórias, alguma diferença entre o certo e errado? Nas histórias sobre coisas exteriores, sim. Mas quando tentamos compreender alguém em seu interior? Esta viagem algum dia chega ao fim? Será a alma um lugar de fatos? Ou seriam os supostos fatos apenas uma sombra fictícia das nossas histórias?" (pág.152)
    2--"Adoro túneis. Eles são, para mim, a imagem da esperança: em algum momento tudo voltará a ficar claro. Caso não seja noite." (pág.391)
    3--"A vida não é aquilo que vivemos, é aquilo que imaginamos viver" (pág.460).
    Lembra a epígrafe de "Viver para contar", de Gabriel Garcia Marques:" A vida não é a que a gente viveu, mas a que a gente recorda e como recorda para contá-la".
    Brindemos à vida! Real ou fictícia. Vivida ou imaginada. O que importa é que estejamos juntos, queridos amigos!. Embarcados no mesmo trem. Prosseguindo na mesma viagem.
    Beijos fraternos.
    Elenir.

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  18. Agora que escrevo,para outros,isto podia ter sido a roleta ou o hipódromo,mas não era dinheiro que eu procurava,em dado momento tinha começado a sentir,a decidir que uma vidraça de janela no metrô podia me trazer a resposta,o encontro com uma felicidade,precisamente aqui,onde tudo acontece sob o signo da mais implacãvel ruptura,dentro de um tempo subterrâneo que um trajeto entre estações desenha e limita assim inapelavelmente embaixo.Digo ruptura para compreender melhor (teria que compreender tantas coisas desde que comecei a jogar o jogo)aquela esperança de uma convergência que talvez me fosse dada no reflexo numa vidraça da janela.Ultrapassar a ruptura que as pessoas não parecem advertir embora quem sabe lá o que pensam essas pessoas agoniadas que sobem e descem dos vagões do metrô,o que procuraalém do transporte essa gente que sobe antes ou depois para descer depois ou antes,que só coincide numa zona do vagão onde tudo está decidido por antecipação sem que ninguem possa saber se sairemos juntos,se eu descerei em primeiro lugar ou esse homem magro com um rolo de papéis,se a velha de verde continurá ate o fim,se esses meninos descerão agora,é claro que descerão, porque recolhem seus cadernos e suas réguas,aproximam-se rindo e brincando da porta enquanto lá no ângulo uma jóvem se instala para demorar, para permanecer ainda por muitas estações no assento enfim livre,e aquela outra jóvem é imprevisível,Ana era imprevisível,mantinha-se muito tesa contra o encosto do assento na janela,já estava lá quando subi na estação Ettienne Marcel e um negro abando nou e a ninguem pareceu se interessar e eu pude escorregar com uma vaga desculpa por entre os joelhos dos dois passageiros sentados nos assentos externos e fiquei defronte de Ana e quase em seguida,porque tinha descido ao metrô para jogar mais uma vez o jogoprocurei o perfil de Margrit no reflexo da vidraça da janela e pensei que era bonita,que eu gostava do eu cabelo preto com uma espécie de asa breve que penteava em diagonal a testa................................

    "Manuscrito Achado num Bolso"...do livro de contos "Octaedro"
    Julio Cortázar

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  19. Amo a literatura latino-americana especialmente Cortázar; aqui "o real e o enigmático,coexistem pertubadoramente,formam intrigante unidade e se interpenetram de modo atordoador"......." o enigma permanece enigma.A realidade é o enigma que impressentido pelo homem,surge a qualquer momento sob as mais variadas formas e circunstância"..trechos da contra capa deste livro ,por Mario da Silva Brito (Edit. Civilização Brasileira-1975)

    O conto se refere à um personagem que faz um jogo,entrando num vagão de metro e acompanhando uma detreminada mulher a quem dá um nome fictício,imaginando que aquela que fizer o mesmo caminho dele,saltar na mesma estação e sair pelo mesmo lado(enfim qs o impossível,quanto mais no metrô de Paris),seria "a eleita"....Vale a pena lerem

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