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27 de julho de 2014

Boa Viagem, Ronaldo: Ilnéa Miranda


Ronaldo Mourão, a caminho das  Estrelas

Vejo Ronaldo Mourão sendo entrevistado na TV. Ronaldo Mourão e seus olhos peculiarmente brilhantes. Ronaldo Mourão tem certeza do sonho - ele e seus olhos de espreitar estrelas. Olhos de ver sempre azul-negro pontilhado de luz. O que será que os olhos de Ronaldo Mourão vêem de dia? Por certo não somente aquele estrelão afogueado que habita o céu do dia, fazendo-o pálido como um lençol e que, por não poder ser mais, contenta-se em alumiar este sistema falido, onde o único planeta vivo é esta desregrada Terra.

Penso que de dia os seus olhos dormem. Os meus sonham com a noite. Me sonho patinando nos anéis de Saturno ou jogando gude com Júpiter e sua cara de bola de vidro leitoso de primeira. Será que Ronaldo os vê assim no céu da noite? Será que se detém em poeira tão insignificante quando tem o infinito para espionar?

Feliz Ronaldo. Felizes astrônomos. Felizes astronautas. Viajam suas infindáveis estradas escuras pontilhadas de luz. Passeiam pelo infinito azul-negro-profundo como o veludo do meu vestido de gola de renda de Racine bege que tinha flores bordadas no lugar de estrelas.

Eu era pequena e já espreitava o céu. Tentava adivinhar o céu. Dos pontos luminosos me diziam: "São estrelas". Dos iluminados... planetas, satélites...

Difícil entender.

Estrelas me namoravam, piscando para mim. Os poucos iluminados, ficavam lá, estáticos. E não me namoravam nem que eu piscasse para eles. Ronaldo não namora estrelas: chega-lhes mais perto; perscruta-lhes as entranhas...pelo menos até onde o leva seu enorme telescópio.

Como serão as estrelas depois das estrelas? Será que também piscam? ou devora-lhes a luz o insaciável buraco negro?

Para Ronaldo a Via Láctea é logo ali. E aquela estrada luminosa do céu é não mais que uma galáxia com 200 bilhões de estrelas de grandezas várias e respectivos sistemas. 200 bilhões! 

Em Cruzeiros*, mesmo que Reais*, nem parece tanto...em dólares, uma bela fortuna...

Mas, quando se fala de estrelas, 200 bilhões não são mais que o começo.

Começo? Mortal e insensato  engano: para o infinito qualquer lugar é o meio.

Salve Ronaldo!...

...cujos olhos imensamente míopes escolheram enxergar além e, ávidos, mergulham longe e fundo na imensidão.


*----* - o texto é de 1991, que tinha esdrúxulos Cruzeiros Reais como moeda.


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