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O Clube de leituras não obrigatórias

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24 de julho de 2014

Memórias de Pão e Manteiga: Ilnéa País de Miranda




Quando se fala das agruras da Segunda Guerra - ou mesmo e quase sempre, de guerras outras, conflitos ou catástrofes - é comum dizer-se, até com certo orgulho, que o Brasil jamais passou por nenhum aperto resultante de semelhante maldição. O povo brasileiro, eleito de Deus, Dele só recebe benesses. E Deus, em Sua “infinita e direcionada misericórdia” fica responsável por nos curar todas as mazelas e por nos manter longe de toda e qualquer possibilidade de desgraça.

            Talvez não dê mesmo para comparar dores. Quem sente, sente; quem não sente só pode ser solidário. Mas isso é raciocínio de gente grande, de adulto que já aprendeu a pensar com a cabeça. Mas criança... criança “pensa” mesmo é com o coração, e com o estômago! Assim, as loucuras de Hitler, os arroubos assassinos de Mussolini, a perversa índole dos japoneses, eram coisas de ouvir falar nos rádios de capelinha  encarrapitados em etageres e cômodas, à volta dos quais sentavam família e amigos para escutar novidades do “conflito europeu”. 

           Crianças brincavam de roda e pique na rua, que era mais delas que dos carros poucos, ainda mais àquela hora já passada do jantar. Entravam afogueadas, para lavar pés, mãos e rosto, e tomar uma última refeição antes da cama:- um pouco de leite e... pão com manteiga. E aí as conseqüências da guerra faziam sentido para elas.: no pão, nos biscoitos, e em tudo mais que dependesse de trigo importado. E de manteiga. A palavra era racionamento. É, isso também tinha na Europa, lá onde as coisas estavam “pegando fogo”, e onde tinha um maluco baixinho, com um bigodinho esquisito, que cumprimentava levantando o braço direito, rijo, gritando “rairritler”.

          Aqui não tinha guerra. Mas tinha o tal racionamento, que fazia o avô ir até a padaria trocar uns pedaços de papel cheios de rabiscos cada um por um pão pequeno. Pequenos e horríveis! E era só um por pessoa por dia. Como criança não contava muito naquele tempo, talvez nem mesmo tivessem um papelzinho para elas. Mas dava-se um jeito. Partia-se e repartia-se e cada um comia um pedaço. Para completar a dieta, que tal fubá e farinha de milho? 

          Era isso que propugnava o baixinho  daqui. É. Também tínhamos um baixinho que não tinha bigode . Curiosamente também cumprimentava levantando o braço direito, acenando para o povo e falava com voz mansa aos trabalhadores. Só que, como o outro, também era ditador, e também subira por golpe. E, mansamente  nos aconselhava a comer mais milho. Bolo de milho era bom; broa de milho era bom - só não gostava da tal erva-doce que a gente acabava sempre mastigando um grãozinho “erk!!!!”. Mas era bom com manteiga. Manteiga?! Cadê a manteiga?!

      A guerra continuou escorrendo lá longe. Um dia... acabou. Aquela guerra. Muita festa, muita gritaria, muita felicidade jogando io-iô em meio às muitas toalhas de plástico com que - dizem - foi paga nossa “dívida de guerra”. Arrumando cristaleiras e guarda-comidas, quantos pães mofados foram encontrados?... Posso falar de pelo menos dois dentro da biscoiteira de cristal verde lá de casa. E derramei pranto sentido, enquanto tentava imaginar que dia teria sido aquele em que podia ter comido só mais um pedacinho... 


Ilnéa... 

lembrando ainda.

(com Norma Lannes ao fundo)


2 comentários:

  1. Ah Ilnea, em cada época e circunstância também temos nossos racionamentos, a minha não era por circunstância era por regra mesmo rsrsr Ah a vida, quantas lembranças, eu, criança, também não entendia a falta, eu queria comer mais pão misturado com leite, pois desse modo, ocupava mais espaço no estômago e íamos dormir iludidos kkkk, bons tempos, apesar do miserê.

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  2. Muito bom, Ilnéa, um pedaço de existência, um momento da sua história que faz parte da História do mundo. Uma visão sutil e interessante nas entrelinhas. Crônica da boa.
    Carlos Rosa Moreira.

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