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A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

1 de julho de 2014

Bob, o cachorro: Elenir Teixeira





Eu me chamo Bob. Mas, nem sempre tive esse nome. Era, apenas, um cão vira-latas. Passa, vira- lata! Saia,vira-lata! Assim me chamavam, empurrando-me, enxotando-me, chutando-me. Um cachorrinho vagabundo. Sem mãe, sem irmãos, sem dono, andando pelas ruas. Ás vezes, uma pessoa dava-me um prato de comida. Outras vezes, passava todo o dia faminto, procurando o que comer nas latas de lixo, ou o que sobrava nos pratos dos mendigos, meus companheiros de vagabundagem. Juntos, dormíamos nas soleiras das portas, sujos, cheirando mal. Assim, vivíamos. 

Certo dia, quando eu atravessava a rua, ví um carro preto correndo em minha direção. Não tive tempo de escapar. Ele parou em cima de mim. Fiquei muito machucado. Sangrava. Sentia dor. Chorava. Uma mulher bondosa levou-me com ela. Na casa, havia outros cachorros. Grandes, pequenos, velhos, novos, e muitas pessoas vestidas de branco cuidando deles. Era o “Abrigo dos Cachorros”. Fui tratado por aquela que me acolheu. Limpou meus ferimentos. Colocou remédio. Fez-me carinho. Havia água e comida, quanto quisesse. Dormi sossegado em uma caminha macia que ela preparou para mim. 

Passado algum tempo, quando eu já estava curado, alegre, com a barriguinha sempre cheia, dona Luiza, era o seu nome, disse que me levaria para um lugar chamado Campo de São Bento, onde alguém gostaria de mim e ia querer me adotar. Eu fiquei triste. Gostava dela, daquele lugar, dos meus companheiros Ali, nada me faltava e estava feliz. Mas tive que ir. 

No Campo, não demorou muito, ouvi um menino dizer: Olha mamãe que cachorrinho lindo! Vamos levar ele com a gente? Quero que se chame Bob! Eu fiquei alegre e comecei a abanar meu rabinho. Gostei do menino e da mãe dele. Após conversarem com dona Luiza, eles me levaram. São meus donos há dez anos. Estou velho, quase cego, manco de uma perna, muito gordo, mas ainda lato forte. Dá para assustar. Vigio bem a casa.

Agora, estou mais contente ainda, porque tenho uma companheira, a Tuty, que eles também adotaram. Branquinha, peluda, dá pulinhos quando anda, late acompanhando meus latidos. Às vezes, brigamos porque temos ciúmes de nossos donos. Por pouco tempo. Logo fazemos as pazes. Mas o que gosto mesmo é quando me deito no quintal, sobre o gramado, para tomar um banho de sol e ela vem, dando seus pulinhos, deita ao meu lado, encosta a cabecinha na minha barriga e, juntos, dormimos. 

Somos felizes.


Um comentário:

  1. Que lindo, Elenir! Tem lição para os humanos no que você escreveu. Às vezes somos resistentes a mudanças e quando damos um passo em direção a elas tudo se transforma para melhor. A Dona Luiza fez o trabalho dela e permaneceu firme quando chegou o momento de encaminhar o cachorro a outro dono. Bob sentiu a princípio, mas foi e se deu bem! Muito bom!

    Boa noite! Beijos!

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