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O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

2 de outubro de 2013

Poesia infinita


Artigo originalmente publicado no site da Academia Niteroiense de Letras


Novaes/

Num pedaço de papel qualquer, rabisco um poema. Posso estar na rua, no trabalho, na sala de espera de algum consultório médico, à espera de que aquela inspiração momentânea me traga algum conforto, alguma luz. Versos, nascidos assim, sem rumo nem prumo, isentos de racionalidade, são buracos negros que retiramos da alma e do corpo, como se o vazio se materializasse no papel. Estes vazios nos pesam, enquanto nos habitam. Escrevê-los é terapia, tratamento para a mente e o coração que, desafogado, parece respirar mais livre quando o poema se finda. A sensação é física, real. Poetas não vivem no mundo da Lua. Permitem-se ir à Lua. É diferente.

Alguns poetas vão à Lua para olhar o infinito. Estes nos levam a viajar pela escuridão, pelo desconhecido, pelas entranhas mais ocultas do ser humano, universos inexplorados, difíceis, temerários. São poetas do mistério. São, em geral, poemas difíceis de “caírem no gosto” do grande público, porque nem sempre se consegue embarcar naquela mesma “aeronave” do autor para vislumbrar o infinito através de seus olhos, a partir de sua perspectiva. Mas, é inegável, a boa poesia consegue que vejamos, naquele infinito, os nossos próprios “buracos negros”, a nossa infinita pequenez diante do Universo, ou a pequenez do nosso universo pessoal, constrangedoramente finito. Estranhamente, esse mergulho no desconhecido nos acrescenta, tanto quanto incomoda. É através dele que podemos, entre uma palpitação e outra, revelar descompassos entre nós e nossos sonhos, cutucar incongruências sentidas, mas ainda não elaboradas, refletir sobre as nossas questões pessoais.

Outros poetas visitam a Lua para, de lá, mirar a Terra. Vê-la a partir de outro ponto de vista. Estes são os que buscam um outro olhar sobre o conhecido, a realidade, a obra humana, às vezes corriqueira e cotidiana, enxergando no aparentemente trivial seu lado oculto, sua singularidade ou mesmo o que há de universal em seu caráter, possivelmente ainda não percebido pelo homem. Estes são os poetas da revelação. São, em geral, autores que estabelecem uma comunicação um pouco mais fácil com o leitor médio, pelo fato de que usam a realidade material ou factual como ponto de partida para suas observações poéticas. Isso em nada reduz a profundidade de sua obra e de suas percepções. Pelo contrário, os excelentes poetas deste tipo costumam descortinar o infinito de uma maneira contundente exatamente pelo fato de que partem, a princípio, do comum, do chão, dos pés na terra. Mas, neles, é como se a Lua fosse vista a partir de seu reflexo no mar. O dado de realidade – o mar – está ali apenas para tornar a visão mais deslumbrante, bela, fluida, enigmática, sem deixar de ser real. A combinação de um realismo que transcenda em descobertas é, também, para o leitor, um bálsamo enriquecedor. Todos nós gostaríamos de compreender o mundo, o homem e a nós mesmos nesse mundo, mesmo que não tenhamos muita consciência disso.

Em todos os casos, a poesia não é uma arte fácil. Escrever poesia, atividade que muitos jovens apaixonados ou reflexivos empreendem, é coisa aparentemente fácil de se começar. No entanto, nem todos esses jovens atingirão uma maturidade poética capaz de tirar seus poemas do chão ou do mundo da Lua. Começa-se, em geral, em um destes dois patamares, ambos insuficientes para que se possa definir o autor como poeta, no sentido profissional da palavra. A prática, o tempo e a dedicação à palavra – matéria-prima do poeta – é que conduzirão o jovem autor, ele mesmo, a ter consciência de ser poeta. Uma vez adquirida esta consciência, nada poderá alterar esse status. Não importa se arrumou um emprego, foi cuidar da vida e “nunca mais” escreveu. Um dia ele escreveu como um poeta, sentindo-se poeta, e a qualquer momento pode voltar a fazê-lo.

Também não é fácil ler a poesia. É acepipe para ser degustado em silêncio, solitariamente, preferencialmente à noite. Em outras situações – numa condução, por exemplo, durante o dia – pode até ser possível para algum leitor, mas este leitor haverá de estar cem porcento concentrado, apaixonado, mergulhado no livro como se não houvesse outro mundo à sua volta que não aquele dos versos. Caso contrário, se a leitura for apressada, ouviremos do leitor a clássica frase: “eu não gosto de poesia...” De fato, poesia não é fast food. É prato delicado, para saborear.


Talvez por isso, confrontando-se com os tempos atuais – rápidos, ligeiros, superficiais – tem sido dura a vida da poesia no mercado editorial. O recente estouro de vendas da coletânea “Toda poesia”, de Paulo Leminski, é, na verdade, a exceção que confirma a regra. É sabido que, na ordem de preferência das editoras, estão os romances, bem depois os livros de contos e crônicas e, bem lá no final da fila, quase desaparecendo, os livros de poesia. Será que a poesia não combina com a pressa consumista do mundo atual? É profunda demais? Não há interesse comercial em investir em novos valores? Ou não interessa ao status quo que uma literatura que revele infinitos seja incentivada e lida?

Só que há um detalhe. O Universo, infinito e misterioso, ama a poesia. É fato. Qualquer conspiração terrena contra a poesia esbarrará sempre neste fato insofismável. O Universo é amante da poesia e sabe que a Terra precisa que os poetas a fecundem. Não fosse isso, como explicar um Walt Whitman, um Vladimir Maiakóvski, um Pablo Neruda, um Drummond de Andrade? Como explicar que a poesia exista no mundo há tanto tempo e tenha semeado, além de poemas, também músicas, peças de teatro, prosas poéticas e até slogans de campanhas civis?

A poesia transcende. Ocupa espaços porque é infinita. Hoje, no Brasil, a poesia ignora o descaso das editoras e vibra nas ruas, nos Corujões da Poesia, nos saraus, nos cafés-concertos. Naquele momento em que as pessoas param alguns minutos ou algumas horas para relaxar. Boa hora para ouvir poesia! Ela renasce, num pedaço qualquer de papel ou, como no poema de Drummond, como uma flor no asfalto:

A flor e a náusea
(...)
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios
garanto que uma flor nasceu.
(...)
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade

9 comentários:

  1. Belo artigo, Novaes/. Traz sua marca pessoal e uma mensagem de levante e de esperança. Sou amante da poesia e tenho muita dificuldade em compreender como a maioria do nosso povo não se apaixona pelos versos que criam, recriam, nos teletransportam e abrem a cortina para um mundo melhor. Mas isso não importa, seria delicioso e desejável, mas não é de modo algum uma privação, nem mesmo uma barreira. Fico feliz que tenhamos clubes de leitura, amantes de literatura, promoters da poesia para deixar a vida sempre mais bela. Parabéns!

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  2. Belo texto do Newton. Fico orgulhoso por tê-lo provocado a participar da seção "Pensarte" da revista da ANL. Quanto à poesia, Rita, e qualquer tipo de arte, é preciso que sejam despertadas nas pessoas. Da mesma forma que chamamos a atenção para uma linda paisagem, de alguém que olha para o outro lado.
    Carlos.

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    1. Valeu Carlos Rosa! De fato, te agradeço muito o convite para escrever na seção Pensarte. Se não tivesse sido provocado, não teria refletido sobre o tema nem escrito o artigo. Valeu mesmo. Abs.

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  3. Novais/, fazer poesia é um dom, um superpoder, um desenvolvimento pessoal da forma de sentir o mundo, um mal estar ou inadequação à civilização, um romantismo, um 'savoir-vivre', um sabre crítico em relação aos rumos da humanidade, uma "frescura", uma técnica, um ofício, uma arte, um desabafo, ..., afinal, o que é a poesia?

    o chato perguntativo

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  4. Sr. Chato Perguntativo,

    O filósofo Karl Marx dizia que o ser humano não se coloca nenhuma questão para a qual ele já não tenha, no fundo, os elementos para respondê-la. Então, sua pergunta já contém a resposta: a poesia é um pouco disso tudo aí. Veja, quando pergunta se a poesia é "uma técnica, um ofício, uma arte, um desabafo"... como imaginá-la sem qualquer um desses componentes? Até o elemento "frescura" a ela é inerente, posto que não o seja, mas sim como percepção inevitável naqueles por ventura embrutecidos, incapazes de entender ou apreciar a sensibilidade.
    Uma observação: sua pergunta é bem-vinda; tire o "chato" do seu codinome. Abs!

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  5. Muito bom, Newton. Como sempre sua escrita vem afiada. Viva à poesia! Viva à Poesia Infinita!

    Abração,

    Antonio R

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  6. Caro Newton, gostei muito do seu excelente texto sobre a poesia. Creio que muitos dizem que não gostam de poesia por mero preconceito. Na verdade, penso, não gostam é do formato, da métrica, das rimas, do ritmo, mas, quando leem uma prosa poética ou poesia com versos livres, como os de Pessoa, de Manuel de Barros e outros, gostam e sensibilizam-se. Isso acontece até com grandes leitores.
    Parabéns!
    Elenir

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Tem razão, Elenir. A poesia encanta, mas a pessoa deve permitir encantar-se. Muito bem observado!
      Abs, N/

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