CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

13 de outubro de 2013

Políticas de leitura: Profª Lilian Azevedo



Sei que muita gente vai dizer: lá vem ela levantar questões políticas onde não existem, mas depois de observar vários murais alusivos aos 100 anos de Vinícius de Moraes em algumas escolas da rede, penso cada vez mais sobre o papel que a leitura tem não só na FME, mas também na escola como um todo.

Há anos tenho defendido que o Sepe insista na luta pela criação de uma comissão para discutir e elaborar a proposta do Plano Municipal de Leitura, cujos objetivos precisam romper com a lógica das "atividades literárias", que historicamente tem funcionado quase como mero cumprimento de calendário de efemérides literárias.

Não me canso de insistir na luta por políticas públicas para a leitura, mas às vezes parece que vou morrer e não vou ver uma gestão abraçar essa causa com unhas e dentes!

Já sei! Vão novamente falar que a culpa é do governo Jorge? Desculpa, mas não quero ouvir tudo de novo, pois não é só dinheiro o cerne da questão.

É que sem investimento e sem a sistematização de uma proposta que aponte a leitura em contexto verdadeiramente prioritário, empreendendo ações num exercício cotidiano de incentivo à leitura literária e de um trabalho voltado para a emancipação do olhar e elevação dos níveis de letramento no Ensino Fundamental, jamais vamos sair do "lugar comum" dos concursos desconectados inclusive do projeto das Bibliotecas Escolares (que até hoje não existem, apesar dos inúmeros livrinhos de poesia publicados pela FME...). 

Depois desses meses todos de gestão, eu pergunto se a proposta é dar continuidade à mesma lógica que foi até hoje reproduzida pelo setor das "atividades literárias". 
Pergunto não como uma crítica, mas como curiosidade mesmo, até porque ainda não ficou clara a proposta de inovação desse importante setor na FME.
Alguém foi convidado a discutir o "magia de ler" e a nova proposta para a promoção da leitura na rede municipal?
Enquanto não formos convidados a discutir e participar da formulação de propostas, continuaremos curiosos, críticos e sonhando cada vez mais com um projeto verdadeiramente comprometido com a leitura.

Sim, nós sonhamos com a criação do Plano Municipal de Leitura, porque entendemos que leitura é muito mais que "atividades literárias".
Entendemos o incentivo à leitura como um processo que deveria começar na gestação, continuar na Educação Infantil e ser cotidianamente intensificada dentro e fora da escola e em todas as modalidades de ensino.

Quando pensamos em "atividades literárias", não conseguimos desconecta-las de uma política muito bem definida para criar, consolidar e ampliar uma Rede de Bibliotecas Escolares para gradativamente trabalhar a promoção da leitura no contexto escolar, na família e em outros espaços da comunidade.

O Plano Municipal de Leitura criaria condições objetivas de acesso dos niteroienses às Bibliotecas Escolares e às Bibliotecas Públicas que precisam ser implantadas em cada Bairro desta cidade, estruturando propostas para um gradativo e tão necessário trabalho de elevação dos níveis de leitura dos alunos da rede e da população de Niterói. O Plano também definiria parâmetros para a formação continuada dos Professores e mediadores de leitura dentro e fora da escola.

Observando boa parte dos trabalhos sobre os 100 anos de Vinícius de Moraes, só reforça o meu entendimento de que a aquisição plena da competência da leitura não exige só a aprendizagem da descodificação do texto e os colegas que estudam, pesquisam e se interessam pelo tema sabem bem o que eu quero dizer.

Ou será que só eu não me satisfaço e acho que daria para fazermos mais, muito mais com temas tão instigantes, se a escola tivesse mais livros, estrutura material e se a proposta que em geral chega da FME pudesse ser ampliada e construída coletivamente (inclusive com os meninos)?

Não sei se você concorda, mas todos os dias é preciso reafirmar que para atingirmos patamares superiores de letramento, é indispensável uma prática cotidiana de incentivo à leitura na sala de aula, nas Bibliotecas, em casa e tudo isso leva muitos anos pra acontecer.

Como se incentiva a leitura, como se eleva os níveis de letramento, se as escolas da rede nem sequer têm Bibliotecas, espaços agradáveis e livros para se ler? Como se incentiva a leitura se nós próprios temos cada vez menos tempo para ler e, consequentemente, deixamos de mostrar para os nossos alunos a paixão pela leitura?
Como não se indignar vendo que a educação pública municipal ainda não prioriza a questão da leitura nas escolas?

Desculpem, mas eu não fico feliz de ver aqueles murais desconectados da defesa intransigente por políticas públicas voltadas para a leitura e a imediata implantação das Bibliotecas Escolares.

E não, não me venham mais com essa de "coordenação de atividades literárias". Já cansamos desse modelo fragmentado que vê a leitura como um "gostinho" que damos aos meninos só de vez em quando.

Penso que se não forem criados ambientes, estruturas e propostas pedagógicas verdadeiramente favoráveis ao gosto pela leitura, vamos continuar por muito tempo comemorando as efemérides e reproduzindo aquilo que por tantos anos temos criticado nas propostas mirabolantes desenhadas nos gabinetes da FME.

Se querem saber, a meu ver Vinícius de Moraes, infelizmente foi precariamente lido e comemorado não só na escola, mas na cidade como um todo.

E para quem se deu por satisfeito, peço licença para dizer sobre o que vi, não só considerando o ponto de vista estético, mas sobretudo, dos referenciais pedagógicos:

"As muito feias que me perdoem 
Mas beleza é fundamental. É preciso 
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso..."


Um comentário:

  1. Lilian, bacana seu texto. Não sou da área pedagógica, mas tendo a concordar com seus argumentos. Tenho também uma visão de mãe sobre o assunto e acho que o estímulo à leitura deve vir de variadas fontes, a família é uma delas. Muitos pais continuam achando que a TV, e agora o PC e celulares e Cia, são babás muito práticas, não geram questionamento e entorpecem. Essa visão precisa ser combatida e o exemplo me parece a melhor 'arma'. Se uníssemos essas, desculpem a má palavra, política, na escola e em casa, que resultado ótimo poderíamos alcançar. Bem, lá em casa estamos fazendo a nossa parte e as meninas gostam e leem bastante. Na escola elas só tem acesso teórico à biblioteca, mas não há incentivo e, portanto, raramente frequentam e livros paradidáticos são apenas 2 por ano, cujos temas elas invariavelmente não gostam. Assunto muito pertinente. Parabéns!

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