CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

8 de fevereiro de 2015

Revivendo leituras passadas - Malagueta, Perus e Bacanaço: João Antônio





Os malandros estão chegando!


Vou mamujando a vida, meu companheiro. Vou marambaiando. Já que neste sistema fecal que nos rege sou tratado como um autêntico João. Enquanto aqui me roubam, me acusam, me desrespeitam, me caloteiam e até se impacientam, pois não pertenço a curriolas de nenhuma natureza, não aceito emprego público nem particular, não me escravizo a Klabins, a Malufs, a Niskiers, a Chagas e a outras porcarias. Xingo a direita de burra e sanguinolenta. Xingo a esquerda de bêbada e intolerante, de festeira e faladeira, de omissa e impopular. E enquanto a canalha babaquara e babujante acha que o realismo social é o único caminho, prego, defendo desbragadamente que o espaço cultural está aberto a todos os criadores [...]

É possível, ao homem de talento e trabalho, tecer como as aranhas uma obra-prima sobre a sombra da parede, sobre o arco-íris do céu ou sobre os massacrados trabalhadores do metrô. Viva a tolerância total! Viva a miscigenação, os malungos, os pingentes, os marginalizados, a mestiçagem completa e viva até à democracia (esse perigoso ardil dos "ismos" políticos), já que estamos longe, mui longe da anarquia lírico-criativa-sensual-desbragada-tropical-transcendente, modelo brasileiro único, incomparável e irrepetível, nosso, sem nenhuma importação ou impostação! Mas, abaixo também todo e qualquer tipo de nacionalismo, essa estupidez que gera Hitlers, Mussolinis e Perons. (ANTÔNIO apud MILLARCH, 1979)



João Antônio fala ao jornal Informação com propriedade da relação com o seu tema: 

Um antro de ladrões, prostitutas, cafetões. Assim, eu mesmo vivi muitas aventuras de meus livros. O que conto em Malagueta Perus e Bacanaço, foi experimentado por mim. Eu também estava junto com Malagueta, com Perus, com Bacanaço percorrendo as mesas de sinuca atrás de dinheiro. Esse é um negócio que precisa ficar bem claro. Por causa disso, não acho que minha literatura seja paternalista. Ocorre que tenho uma profunda admiração por homens que colocados na “marginalia” se portam como se portam. “Lá” é um ambiente onde não pode haver frescura, meio tom, meia palavra. A coisa é ou não é. (JOÃO... 30 set. 1976)


Fernanda, Mariana e Daniela estão lendo 
Malagueta, Perus e Bacanaço 
de João Antônio
Fonte

Luzes se apagaram nas ruas. Uma palpitação diferente, um movimento que acorda ia-se arrumando em Pinheiros.

Primeiros pardais passavam. Perus acompanhava os dois, mas olhava o céu como um menino num quieto demorado e com aquela coisa esquisita arranhando o peito. E que o menino Perus não dizia a ninguém. Contava muitas coisas a outros vagabundos. Até a intimidade de outras coisas suas. Mas aquela não contava. Aquele sentir, àquela hora, dia querendo nascer, era de um esquisito que arrepiava. E até julgava pela força estranha, que aquele sentimento não era coisa máscula, de homem.

Perus olhava. Agora a lua, só meia-lua e muito branca, bem no meio do céu. Marchava para o seu fim. Mas à direita, aparecia um toque sanguíneo. Era de um rosado impreciso, embaçado, inquieto, que entre duas cores se enlaçava e dolorosamente se mexia, se misturava entre o cinza e o branco do céu, buscava um tom definido, revolvia aqueles lados, pesadamente. Parecia um movimento doloroso, coisa querendo arrebentar, livre, forte, gritando de cor naquele céu.

Entrou no salão, mal reparou nas coisas, foi para a janela. Uma vontade besta. Não queria perder o instante do nascimento daquele vermelho. E não podia explicar aquele sentir aos companheiros. Seria zombado, Malagueta faria caretas, Bacanaço talvez lacrasse:

— Mas deixe de frescura, rapaz!

Foi para a janela, encostou-se ao peitoril, apoiou a cara nas mãos espalmadas, botou os olhos no céu e esperou, amorosamente.

Veio o vermelho. E se fez, enfim, vermelho como só ele no céu. E gritou, feriu, nascendo.

Já era um dia. O instante bulia nos pêlos do braço, doía na alma, passava uma doçura naquele menino, àquela janela, grudado.






Perus olhava. Agora a lua, só meia-lua e muito branca, bem no meio do céu.


Marchava para o seu fim. Mas à direita, aparecia um toque sanguíneo. Era de um rosado impreciso, embaçado, inquieto, que entre duas cores se enlaçava e dolorosamente se mexia, se misturava entre o cinza e o branco do céu, buscava um tom definido, revolvia aqueles lados, pesadamente.

Parecia um movimento doloroso, coisa querendo arrebentar, livre, forte, gritando de cor naquele céu.

[...]

Veio o vermelho. E se fez, enfim, vermelho como só ele no céu. E gritou, feriu, nascendo.








"Osso quebrado, nervo torcido, carne rendida, assim mesmo eu te cozo. Sai de mim, azar do capeta!"











Noite de sábado. Lapa, local excelente para jogar com apostas.... quando se tem dinheiro. Mas os 3 estavam quebrados. As pessoas chegam, a rua muda seu visual. Qual a vantagem disso sem dinheiro? Poderiam "arrancar" a grana dos mais bobinhos - se estes tivessem aceitado. Tava tudo pronto: Bacanaço seria o chefe, Malagueta e Perus fariam as jogadas e os 3 dividiriam a grana.... que era o que faltava para começar? ... Bacanaço tem uma idéia: vendeu seu relógio, arranjou a grana e vamos para o mundo! Na Água Branca, um joguinho fácil, o Vida (cada 1 tem uma bola, devendo derrubar as outras sem ter a sua derrubada). Com um pequenino esforço, Malagueta e Perus entram na partida. A grana cada vez mais alta. Malagueta arma as jogadas, que Perus arremata. Simples, alta fatura, se Lima, velho policial aposentado e inspetor do jogo não tivesse percebido. Mesmo pouco, dividem a grana. Continuam andando. A falta de jogo começa a deixar os 3 perturbados. Era sábado, eram malandros. Mas não em Barra Funda, bairro de rico. Malagueta sonhava com o dinheiro, que faria a vida dele e sua amante melhorar, ao menos um pouco... e ele deixar de ser como um cachorro, caçando o que comer. Continuaram andando. A cidade era dos que ganham a vida a noite ... O dia já estava raiando. Nenhum jogo, salão vazio. Iam começar a se desafiar quando Robertinho apareceu. Malandro na sinuca, começa perdendo para tirar até as calças. Perus sabia, mas não podia fazer nada. Malagueta e Perus se jogam no jogo. Perdem todo o dinheiro da noitada, pareciam não acreditar. Saíram, os 3, cabisbaixos. Sem grana até para o café. (Fonte: Wikipedia)


Tema:  

Dificuldade de sobrevivência (o texto é um ciclo de uma noite). Vida de malandro não é fácil (mas se segue por falta de opção). 

Malagueta: velho trapaceiro, bebum. A decadência do malandro. Nome, por conta da pimenta.
 

Perus: jovem, com passado meio complicado. Mostra que, para sonhar com futuro melhor, meninos do subúrbio devem entrar na malandragem. O principiante. Nome por conta do bairro em que vive.
 

Bacanaço: o auge. Seu nome é por ser bonitão.
 

Lima: inspetor aposentado. Ele é apresentado por mostrar que a policia gosta de agir com malandros e tenta persuadi-los.
 

Robertinho: malandro mor, bom jogador. Mostra também o código de fidelidade a sinuca (que não pode ser quebrado). Sabe também que o malandro pode ser pego por um malandro maior.
 

Marli: prostituta que morava com Bacanaço, tratada mal (ele batia nela, sempre brigava com ela, explorava, trancava quando ele era desobedecido à mostra que nesse mundo de malandragem, a violência e o medo é uma maneira de manter as relações entre as pessoas). (Fonte: Wikipedia)






Maior Dramaticidade:  

momento que se unem para ganhar, momento que estão perdendo. Os 3 resolvem andar porque fazia parte da vida deles (malandro tem um mundo invertido: dorme de dia, trabalha a noite, sem leis, etc.). Terminam na Lapa, pedindo café fiado; Eles começam o livro sem grana, tentando arranja-la (pra consegui-la, Bacanaço vende seu Movado). Silverinha ganha dinheiro do Bacanaço porque este (policial) estava ameaçando Perus, cobrando um pedágio (para continuar o jogo). Tal parte indica que os 2 tinham grande proximidade (grande malandro X policial corrupto). As 1º vitórias, na mesa do Lima, foram com trapaça à Malagueta defendia Perus, que atacava o resto: metáfora da vida - às vezes a gente se defende, às vezes a gente ataca. Um dos elementos simbólicos: na vida, as coisas são assim: ataque/defesa/vitória/perda. Bacanaço não joga por ser o chefe. Perus não jogou contra Robertinho pois pensaram que Robertinho era "franco" no taco. Eles não desistem do jogo por honra. A sinuca era vida/sobrevivência dos personagens. Perus foi tratado por Silverinha com ameaças, pisadas e esmagadas (com o taco) no pé. Joana Darc, o dia tá amanhecendo. Perus se sente meio angustiado, sem poder falar nada (malandro não pode sentir, afinal é frescura, etc.). Eles atuavam nos bares, comiam P.F. (mostrando o quanto a vida era difícil). Assobiavam garufa quando estavam bem. Calois: jogador que ficou jogado: ele bebeu demais, se viciou, perdeu a boa atuação, (mesmo malandro tem que manter algo, uma certa normalidade, ter dedicação para ser bom). Perus e Malagueta tão jogando com Lima, tendo sua tramóia percebida porque fica evidente que ele está defendendo. As prostitutas vivem mal também e para suportar se drogam. (Fonte: Wikipedia)





Resumo da obra

4 comentários:

  1. Muitos dos personagens de João Antônio foram criados diretamente de suas vivencias e observações in loco. Muitos existiram na realidade. A foto de João Antônio aqui é perfeita, pois foi nas mesas de sinuca que fez suas grandes descobertas, de onde retirou muito de seu material literário.

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  2. Não. A poesia, a verdadeira poesia, é outra religião da humanidade. Os
    poetas são feiticeiros disfarçados de pessoas que escrevem. Machado de
    Assis, por exemplo, se disfarçou de romancista, de contista, de cronista, de
    jornalista e até funcionário público, mas no fundo ele é apenas um mago das
    palavras, um poeta. Um Ariel mulato, no sentido de que o espírito dele era
    volátil, parecia querer escapar pela janela, como na lenda. Machado era um
    feiticeiro embriagado pela cocaína das palavras. É um escritor de idéias. É o
    maior escritor da América Latina em todos os tempos. Que Borges, que
    Cortazar, que Sábato, que nada! São bons escritores, sem dúvida, mas não
    se igualam a Machado, que fez o que fez há mais de um século. Outro
    grande feiticeiro é Guimarães Rosa. Ninguém me tira da cabeça que
    Guimarães Rosa não é um poeta no melhor sentido grego da palavra: poesis,
    invenção."
    Declaração de João Antônio a José Maria e Silva, sobre se fazia poesia em sua obra

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  3. Seria muito bom que as pessoas se manifestassem mais sobre o livro do m~es, aqui no blog. Acabo de receber e-mail pessoal de pessoa dizendo e agradecendo minhas postagens sobre o livro do mês, honestamente.Onde andao entusiasmo dos leitores do CLIc? Será que agora ele está voltado para seu próprio umbigo? Vamos participar com postagens sobre o livro do mês.Estou gostando, não estou gostando, porque sim, porque não. Está faltando uma injeção de alegria em nossos comentários. Desculpem o desabafo.Mas ele rflete o que alguns membros andam sentindo , mas não têm ânimo para declarar publicamente. Mais atenção às postagens, por favor.

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