CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

3 de julho de 2013

Conto integrante do livro do mês "letras rebeldes, fluidos insensatos"

TREVAS: novaes/


Não me é fácil falar. Vinha pela rua escura, cabisbaixa, pensativa, sob o peso da noite, da minha vida à meia-luz, nada é claro, claro, apenas minha angústia perene, sei lá de quando ela vem, houve um dia em que a vida parou, partiu-se em duas metades – uma verde, brilhante, esperançosa e sorridente, que ficou para trás, outra cinzenta, turva, disforme, essa metade em que vivo agora, vida pelo meio, pisando em chãos inseguros, em superfícies suspensas, cambaleantes, que não me permitem nada mais além desse andar vacilante. Apesar de todas as dúvidas em meu pensamento absorto, eu mantinha um passo que se tentava firme naquela noite, naquela rua deserta, mais por medo do que por decisão.
Pensei em Alberto. Não sei por que esse marido, na verdade ex, diria ex...tinto se pudesse, surgiu em minha vida e por que fez o que fez, sua covardia, seu medo, sua fraqueza. Se o desgraçado não estava preparado para um filho, para um filho com problemas, se o babaca não estava ciente do que é ser companheiro e do que é ser pai, por que diabos se apresentou à minha pessoa? Pelos meus belos olhos? Meu par de coxas? Minha bunda? Puta que pariu! Avisasse de seus limites e nós poderíamos ter feito uma troca mais justa, sexo por sexo, prazer por prazer – e ponto final. Sem devaneios de casamento, de filhos, de responsabilidades. Mas o energúmeno teve medo de que eu não quisesse essa troca simples, desejo puro, coisa de homens, ele deve ter pensado. Enredado nessa e noutras neuras masculinas, nutriu fantasias e se fez casar. E teve filho comigo talvez pensando em me fazer mãe, na acepção caseira da palavra, mulher comportada, atarefada com filho, para me ter em casa, “trabalhadora da família”, essa categoria ainda não classificada no Ministério do Trabalho, mas muito bem definida em mentes masculinas medíocres.
Pensava eu nesse estrupício de homem e concluí pelo despropósito de nosso casamento, faz tempo terminado – ele fugiu, como fogem os ratos. Entre uma passada e outra, no breu da rua sem vida, enxerguei que sempre estive só, sobretudo casada, pois aquela companhia foi apenas ilusão, não era nada, era pior que nada. Era muito pior que nada: me fez perder tempo, nem que fosse um tempo precioso comigo mesma. E fechou-me para um amor de verdade, usando uma chave de papel: aquela certidão de casamento. Não consigo explicar agora por que o papel, tão frágil, tão rasgável, tem esse poder todo que lhe damos. Até as minhas lágrimas poderiam ter desfigurado, destruído facilmente aquele papel, bastaria que caíssem, não dos olhos para o meu peito, que se manchava de dor, mas sobre aquele papel infeliz, que ali estava quase me dizendo: “eu não valho nada, chore em mim, cuspa em mim, ponha-me no meu lugar, picote-me!” – eu é que não ouvia, não traduzia suas palavras, pensando que aquele era um papel indestrutível, ou deveria ser. Eu sim, que me destruísse em pedacinhos, meu Deus, como foi fácil me destruir, me amassar, rasgar, cuspir em mim, enquanto aquele papel me parecia mais valioso do que eu mesma, do que a minha felicidade. Seria ele a me fazer feliz, eu pensava, e no dia em que tudo acabou, ah, naquele dia aquela certidão – deveria chamá-la de “erratidão”? – estava lá, olhava para mim e não dizia nada. Nada. Nem mais o que nela jazia escrito fazia mais sentido, se é que fez algum dia. Nem uma verdade factual aquilo não era mais. Um tempo depois, naquele mesmo papel, um carimbo no verso dizia-me divorciada. Quer dizer, virou um papel esquizofrênico, que pela frente diz uma coisa e por trás diz o oposto. Que papel é esse que me deram, meu Deus? Certamente ele sempre disse outra coisa por trás, em tinta invisível, mas indelével.
É. As trevas, pelo visto, não estavam apenas naquela rua sombria, naquela noite sem lua, estavam um pouco dentro de mim. Um negrume pegajoso, que deixei grudar na alma, e agora não consigo separar os fatos dos pensamentos, as dores dos medos, o passado do futuro. Mas eu preciso separá-los. Preciso trazer de volta a minha alma limpa. A minha beleza radiante.
Pensava nessas coisas, caminhando pela rua vazia, pela noite calada, quando me apareceu aquele sujeito. Não sei de onde ele tirou um fiapo de luz, mas foi o brilho que me fez ver a faca. Colocou-me contra a parede, num canto perdido, e exigiu silêncio e sexo. Veio das trevas, pensei. Ele repetia: silêncio e sexo, rápido, na escuridão sem sentido, em palavras descabidas que não ouso reproduzir. Aqueles segundos pareceram uma eternidade, uma viagem no tempo, silêncio e sexo, silêncio e sexo, rápido, como pode isso?, tudo o que Alberto sempre reivindicara, sutilmente, agora aquele homem colérico, agressivo, também queria, exigia, tentava impor desesperado valendo-se da lâmina brilhante. De minha parte, eu mais me surpreendia do que temia. Como era possível que as trevas me viessem assim, que insistissem em permanecer emaranhadas à minha vida, grudadas na minha alma, eu que acabara de decidir-me pela luz, pela integridade radiante do meu ser?
A premência do sujeito, aquelas ordens que lhe saíam violentas pela boca como se fossem a energia nervosa de seu próprio sêmen, uma ansiedade expressa pela saliva que espirrava gotas em meu rosto, fazendo-me sentir aquela urgência fluidal antes mesmo de qualquer ato sexual, tudo isso mais me paralisava, como se fosse um contraponto, uma resistência pela imobilidade. O sujeito nada entendeu quando larguei-lhe na cara uma risada nervosa, que logo interrompi, ainda mais apreensiva. Eu não disse a ele, mas é que pensei naquele momento que o meu contraponto precisava ser, naquela situação, um “contrapinto”, o que me fez rir absurda, numa hora impossível, e senti-me ridiculamente alheia àquele drama, como se dramas não mais me ferissem, tão acostumada eu estava com as trevas de minha vida cinzenta. Antes que o sujeito, que obviamente não estava achando graça, saísse de seus poucos segundos de estranhamento e desse cabo de sua raiva usando aquela faca que ele não parava de agitar, fingi que meu riso despropositado fazia parte da minha intenção de entregar-me àquele pretenso garanhão. Voltei a sorrir e encarei-o com desejo. Abri dois botões de cima da minha blusa. Dei um passo em sua direção, mirando-o. Sexo e silêncio? Só se for nas minhas condições, pensei. Avancei, com volúpia e decisão, fazendo-o vacilar. Quando, por cima de sua calça, cravei a mão firme sobre seu sexo e o encarei com a vontade mais determinada que consegui, ele fugiu, assustado e apressado como se tivesse visto o próprio demônio.

       Olhei para a noite deserta. Pensei em Alberto. Pensei nas trevas. Pensei em mim.


19 comentários:

  1. Excelente conto. Sua estreia na voz feminina não poderia ser melhor. Crível, sensível e até um ensinamento/sugestão oportunos para, Deus nos livre, uma experiência semelhante.

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  2. Newton, sua alma feminina surpreendeu-me e, ao iniciar a leitura, pensei até ser eu a protagonista do conto (rs). O final é engraçado e arrebatador. Parabéns. Continue sempre nos brindando com seus contos super interessantes. Com essa criatividade, você acaba fazendo uma versão do LIVRO DAS MIL E UMA NOITES, viu? Beijos Angela Ellias.

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  3. Um conto, realmente. Bom, bem escrito, com excelente final. Como disse a Rita Magnago, um "ensinamento/sugestão" vindo de uma alma feminina. Mas é preciso ter aquele estado de espírito da protagonista, forjada no sofrimento e na desesperança. Muito bom, Newton, parabéns.
    Carlos Rosa Moreira.

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  4. Éh! Você é um excelente camaleão para os leitores Newton. Tão escorregadio. Você é uma aposta certa num roteiro de viagem-aventura totalmente imprevisível (mesura- tiro o chapéu).

    o narrador-feminino - por isso o chamei de camaleão - a voz feminina é forte, mas no final me pareceu híbrida (um quê fálico por conta do impulso sexual da mulher naquela situação, não quero dizer que isso não seja possível, ao contrário, acho muito crível). Sei lá, só foi uma impressão, não sei analisar um texto, apenas ler, sentir e me dissolver de vez em quando nele.

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  5. Simplesmente...BRAVO!APLAUSOS.
    PATRÍCIA SIDI

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  6. Eu gosto muito de contos porque sempre apresentam uma alternativa ao final do relato.E o seu faz isso muito bem.Assim como a Helenecamille,também achei ambígua a a reação da mulher.Mas,afinal,tudo se pode esperar de uma pessoa em sofrimento que luta "pela luz e integridade".
    Angelica

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  7. Salve, moças. Salve Carlos. Obrigado pelos comentários.
    No famoso "A arte da guerra", o general Sun Tzu ensina que não se deve encurralar um tigre ferido. Ele diz que, sem alternativa, para não morrer o tigre atacará, já que não pode fugir.
    Acho que a heroína do conto teve uma das reações possíveis. Concordo que bem difícil de acontecer na vida real, mas confesso que a verossimilhança não é meu critério principal. Se uma história levar o leitor a pensar: "isto é impossível, a vida não é assim, mas... pensando melhor, bem que poderia ou deveria ser", fico satisfeito. Vejo a arte como uma forma de instigar o pensamento e a imaginação, não apenas "reproduzir a realidade".
    No caso em questão, a heroína se recusou a ser vítima. A continuar na posição de vítima que se colocara desde a separação do marido, melhor dizendo, do abandono do marido que a deixou sozinha com um filho com problemas para criar. Em seus pensamentos, decidira romper com esse passado vitimizado. Nesse momento aparece o estuprador. Ela não queria ser vítima novamente. E reage instintivamente. Ora, um estuprador, no fundo, não quer sexo. Ele quer uma vítima. Sexo como dominação. É essa sua libido. Se a mulher quiser ter participação ativa, como numa relação saudável, isso não interessa a ele. Vai brochar.
    Além disso, a "virada de jogo" feita pela não-mais-vítima, avançou o sinal (aos olhos assustados do estuprador) sendo ativa, tomando a iniciativa. Como se ela passasse, simbolicamente, a ser a estupradora dele. Talvez por isso ele tenha visto "o próprio demônio".
    Sobre mulheres que tomam a iniciativa sexual (ou afetiva, ou amorosa, como queiram), existem aos montes (e costumam assustar os homens...). Mas nossa personagem o fez mais impulsionada por seu momento, estava cansada de dores, e instintivamente "atacou", encurralada como o tigre que não quer morrer, usando por sinal uma boa dose de psicologia.
    Obrigado mais uma vez pela leitura e comentários. Abs, Newton

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  8. Só completando: já é senso comum, em combate ao machismo, que se ressalte que os homens têm o seu "lado feminino" e dele não precisam se esconder. É de se supor, então, que as mulheres também têm seu "lado masculino". São duas faces da mesma moeda. As duas percepções são fundamentais contra o machismo, pelo equilíbrio das pessoas e das relações. Abraços.

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    1. Muito boa a sua análise, Newton, concordo com você. Sobre o inusitado da situação, é verdade, não é comum tal reação de uma mulher. Porém, a comparação com o tigre acuado está perfeita. E acredito que a protagonista já estava acuada com seu sofrimento antes de se ver fisicamente subjugada. E embora seja uma situação especial, ela é bem possível. Quanto ao lado feminino dos homens, tenho dúvida. Acho que não é lado feminino, é masculino mesmo, com sentimentos que o machismo (na maioria das vezes, ensinado e provocado pelas próprias mulheres), repudia por serem delicados, e ser delicado é tido como feminino. Contudo, a delicadeza, muitas vezes, necessita de grande coragem e força, esse tipo de coragem e força que é comum e emocionante no sexo feminino.
      Um grande abraço.
      Carlos.

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  9. Newton, pena vc ter de explicar, ou melhor, compensador para muitos.Sei dessa história de quebrar o T do atacante com ataque, com uma reação inesperada.Realmente difícil pensar em tanto sangue frio, em não se ser tomado pelo medo,mas o ser humano tem mesmo reações inesperadas, não é?
    Muitas vezes caimos na gargalhada quando o que queremos é diferente. Cada um com seu mundo, com seu cada um.Muito bom! Parabéns.Penso que poderia ser melhor, mais simples...mas isso é coisa minha, acho que estou num mau dia!rsrsr
    Abraços.

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  10. Salve, Carlos. Tens toda a razão. O que se convencionou (bobamente) chamar "lado feminino" ou "lado masculino" na verdade somos nós, inteiros. Homens e Mulheres. Com todos os lados do ser humano: delicadeza, agressividade, gentileza, rudeza... etc. Todos temos isso! E cada um administra do seu jeito, de acordo inclusive com seu momento de vida.
    Elô, não creio que seja "explicar", mas sim debater, conversar. Gostei de sua observação sobre "quebrar o T do atacante com ataque". Perfeito. Nem sempre vai dar certo, é claro, mas em muitos casos daria. Sem dúvida concordo que o texto possa ficar melhor. Foi escrito outro dia. Precisa "decantar". Uma releitura futura indicará cortes e enxugamentos.
    Abs, NB

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  11. Vejamos como são as coisas. O ser humano é muito complexo e interpretar e entender o que o outro diz, também. Dai vem grande parte da nossa diversidade e riqueza. Eu entendi que a Elô se referiu a isso quando disse que 'poderia ser melhor', entendi que ela falava da vida, das coisas, das complicações, que poderiam ser mais simples, mais fácil de fluir. De qualquer forma é engraçado, porque um de nós entendeu errado. A comunicação é um problema seríssimo, agora se ela fluísse bem, perderíamos muito da boa literatura, como esse conto, não acham?

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    1. Rita, Newton me entendeu melhor, mas vc está certa...a comunicação é um problema que pode oferecer surpresas !Às vezes boas, como o conto em questão.

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  12. Newton, grande conto este. Você tem toda razão, a literatura, assim como a arte, penso eu, não é uma mera reprodução da realidade. Mesmo porque ainda se discute se há mesmo essa reprodução; creio que quando há, não passa de uma mera imitação. Se não me engano, foi Aristóteles quem disse que "Literatura é a arte que imita pela palavra."

    Gostei da forma que você escolheu para narrar o conto, um discurso forte, sincero e verdadeiro, numa voz feminina que pode ser a voz de qualquer mulher que se identifique na situação desta personagem. Quanto a depuração, acho que sempre é possível retirar excessos, mas na minha opinião, este já está perfeito do jeito que está. Parabéns, Newton, você está se tornando um grande contista.

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  13. Uau.....

    Conto bem escrito, sem o psicologismo, mas totalmente desvelando a psicologia feminina. Concordo com você, não há um inconsciente totalmente feminino ou masculino. Mas o mais comum, mesmo sem ferimento, seria a mulher entrar em pânico ou gritar a valer! É tudo o que quer o tarado.
    Pensei na sua veia rodrigueana, e achei que eu, nos contos de Nélson, preferiria morrer com o canivete. Mas não, a tigresa ferida, fez o anti – Nélson! A mulher, além de assustar com seus desejos, suas neuroses e comportamentos quase comandados pela cultura, também a imprevisibilidade está presente.

    Adorei o seu conto sobre vários pontos de vista. Newton dar essa saída foi espetacular, pois quase ninguém fala da capacidade da mulher defender-se diante de emergências terríveis e ameaças bárbaras, mas pode ter medo de ir à reunião de condomínio, defender o que é seu. Tem medo de trocar lâmpada! Um mistério!

    Sua fala tem algo plástico, como te disse: feito para o Teatro.
    Seu conto é poesia selvagem! A primeira parte, onde ela está só, no seu sofrimento, andando por ruas desertas, sinto que ela procurava inconscientemente uma invasão!
    Não necessariamente de um homem, mas alguém estranho que lhe tirasse da maldita neurose do casamento/descasamento. Esse grude é difícil de sair.......

    Havia um crítico de Nelson, que amava toda sua obra, e era um intelectual, não amigo, mas um homem que sabia fazer críticas. Ele dizia: “Com a obra de Nélson eu não consigo ficar crítico, eu fico de quatro.
    Como não fica bem, uma senhora de quatro, e sem ser crítica, eu digo: Newton, sua obra deixa-me babando!!!!!!!!!!!!
    Fátima

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  14. Maravilhoso. Ficou aquela sensação de quero mais. Parabéns!

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  15. Novaes,

    Venho para dizer que gostei do seu conto e que escrevi algumas observações sobre ele através do e-mail do clube. Trata-se de uma espécie de tabela de observações que escrevi enquanto lia o conto. Fui lendo e anotando ao lado as minhas impressões, e depois organizei (mais ou menos) tudo.

    Pensei em publicar aqui no blog, mas poderia desagradar pela forma de esquema em que se encontram as minhas observações, por isso mandei pelo e-mail.

    Este é apenas um resumo final do que escrevi no esquema:

    Uma mulher fragilizada, vítima da derrota amorosa, do abandono, vagando, abordada, atacada e submetida aos desejos de um criminoso que, assim como a vida e os sofrimentos que vivencia, a quer submeter a ele, dominá-la para servi-lo; e salva no instante crucial de sua inferioridade pela fúria silenciosa que lhe emana de dentro, do medo, e mais do que tudo, do nada, como um nada a perder. E o marginal foge, como fugiu seu marido, assustado com a força e imposição da mulher (como já tivemos notícias de outros casos semelhantes em que os estupradores desistem de estuprar se a vítima permitir consensualmente o ato).

    Enfim, o conto nos traz alguém que, subjugada pela vida que não esperava e que a maltratava e sucumbia na escuridão, acabou por se tornar a própria escuridão. Escuridão do abandono do outro, da vida e, por fim, de si mesma. E talvez daí – agora fazendo uma projeção não para a personagem do conto em si, tendo em vista que esta se nos desaparece aqui, ao fim da leitura; mas projetando para além, para outras mulheres em situações semelhantes –, talvez daí, eu dizia, essa mulher possa se libertar e acreditar que, para não mais ser subjugada pela vida e pelas suas forças contrárias, é preciso, e talvez seja o bastante, enfrentá-la de peito aberto como no enfrentamento com o marginal (“Abri dois botões de cima da minha blusa. Dei um passo em sua direção, mirando-o. [...] Avancei, com volúpia e decisão”), e partir para a vida sem dúvida, sem nada mais do meio-tom do início do texto, como explico nas minhas observações mandadas pelo e-mail do clube,

    Um abraço!

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  16. Salve William,

    Li com atenção e uma certa emoção seu comentário sobre o conto. Especialmente lá no grupo de e-mails, mais completo. Sua leitura desvenda caminhos e joga luz sobre aspectos que, para quem escreve, muitas vezes estão nas sombras do inconsciente, na meia-luz dos sentimentos, no gris da sensibilidade. Acredito que a análise literária profissional - como esta sua - é uma arte e uma competência para poucos, para os estudiosos, como você. Como não sou habilitado para tanto, limito-me a tentar escrever. E, claro, fico feliz quando os leitores, de uma forma ou de outra, embarcam na viagem que meu texto propõe. Que bom que o conto passou pelo crivo de uma análise assim, minuciosa, como a sua. Não posso negar que fiquei admirado com tudo, como uma criança que desmonta o brinquedo para ver o que tem dentro e se encanta com as engrenagens ocultas que fazem o boneco andar. Poderia destacar várias passagens interessantes de sua análise, muito bem sacadas, mas para escolher uma e não me alongar aqui, digo que gostei especialmente de sua análise sobre a força da mulher, expressa neste trecho: "talvez daí, eu dizia, essa mulher possa se libertar e acreditar que, para não mais ser subjugada pela vida e pelas suas forças contrárias, é preciso, e talvez seja o bastante, enfrentá-la de peito aberto como no enfrentamento com o marginal (“Abri dois botões de cima da minha blusa. Dei um passo em sua direção, mirando-o. [...] Avancei, com volúpia e decisão”), e partir para a vida sem dúvida, sem nada mais do meio-tom do início do texto." Esta sua avaliação traduz perfeitamente o meu sentimento para com a personagem: apesar do tom entristecido do conto e da vida da narradora, eu a vi, desde o início, como uma grande mulher. Tive carinho por ela desde o instante em que me veio a história. Não sei se me faço entender, mas é um pouco assim comigo, eu acabo me relacionando com os personagens, tento entender sua psique, sua forma de ser e de agir no mundo. Tento enxergar suas limitações, sua humanidade, sua incompletude, mas também seus sonhos, sua força, seu amor à vida. Agradeço a você pela gentileza da análise, que muito esclareceu, inclusive a mim.
    Um grande abraço,
    Novaes/

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    1. Caro Novaes,

      Agradeço imensamente a sua gentileza em comentar as minhas observações sobre seu conto, "Trevas" (hoje vi, por acaso, que tenho um poema com o mesmo nome, que já nem lembrava que o havia publicado em livro, rs! Mas trata de assunto diverso do seu conto) e fico feliz que as tenha recebido tão bem. Sei o que é para um escritor escrever - escrevo há mais de trinta anos, poesia, conto, crônica, ensaio e romance (este mais recentemente). Escrevemos e, muitas vezes ou sempre, somos tomados pelos personagens, pela história, somos levados como se eles, personagens e história, se escrevessem sozinhos; e por nesse momento, se distanciarem de nós, sentimos carinho por eles, sobretudo pelos personagens, como se não fossem nossa criação - se é que o são -, mas amigos, filhos, seres sob nossos olhos; olhamos para eles como pais olham os filhos crescendo, como admiradores olham os amigos ídolos, e talvez por não estarmos tão próximos deles como julgávamos estar ao escrevermos, não vemos certas qualidades que os envolvem. Como diz o filósofo italiano Giorgio Agamben, precisamos estar longe, olharmos de fora para vermos melhor a contemporaneidade - e no caso de nós, escritores, a contemporaneidade é nossa obra, nossos textos, nossa escrita; e quando outro nos fala do que acreditávamos ser nós mesmos, nossa obra, descobrimos com mais força que é uma parte outra, parte de nós, mas além, desprendida, e ficamos tocados, bem ou mal, por outro nos mostrar o que, do outro lado, não havíamos visto, escondido pela névoa da autoria, e ficamos ainda mais felizes quando esse outro descoberto, é uma beleza no texto que vai além de nossas expectativas.

      Você escreve muito bem Novaes, falo como leitor, escritor e ensaísta por paixão - não sei se mereço o título de profissional, escrevo por puro prazer e da única forma que acredito saber escrever, seja como autor literário, seja como ensaísta. Mas, enfim, escrever é um prazer não é?! - assim como ler bons escritos.

      Um grande abraço!

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