CLIc: uma janela aberta às mentalidades coletivas

A literary think tank

O Clube de leituras não obrigatórias

Fundado em 28 de Setembro de 1998

23 de maio de 2013

Da série temática Sonhos que não sonhamos (5, parte 1)


Sonho que se sonha junto...
(by Antonio Rodrigues)


"Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade."
(J. Lennon)


Ontem um menino que brincava me falou
Hoje é a semente do amanhã
Para não ter medo que este tempo vai passar
Não se desespere, nem pare de sonhar
Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
Nós podemos tudo, nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será
(Nunca pare de sonhar - Música de Gonzaguinha )




Eu
era um meninote quando a década de 90 amanheceu sob o céu cinzento da poeira levantada pela queda do Muro de Berlim. Nem podia compreender ainda a razão pela qual os profetas do Liberalismo saíram pelo mundo a proclamar o fim da história, como o fez Francis Fukuyama,  filósofo e cientista político norte-americano, em seu livro “O fim da história e o último homem”, no qual retomava velha tese hegeliana para proclamar a vitória do Capitalismo Liberal sobre o Socialismo Marxista. Aqui, o fim da história significa tão somente que os processos históricos caracterizados por mudanças e transformações acabaram. A história finalmente alcançou seu equilíbrio. Mas será mesmo que chegamos ao fim da história? Será o fim das utopias? O que será da esperança de se construírem sociedades mais humanas? Ficam aí as perguntas como provocação e estimulo ao espírito pensante que nos habita a todos. 
A mim interessa apenas partir desse contexto para propor uma tese. A historiografia contemporânea não tem dúvidas de que os eventos históricos do final dos anos 80 e início dos 90 desencadearam uma grave crise ideológica ainda não assimilada.  Defendo que também uma grave crise dos sonhos se instaurou na década de 90 e ainda permanece ativa e cada vez mais séria em nossos dias. Não se trata de uma crise dos sonhos individuais. Estes são cada vez mais abundantes e variados, embora muitos deles possam ser questionáveis. A crise a que me refiro diz respeito aos sonhos coletivos. Por opção pessoal, prefiro chamar os sonhos coletivos de sonhos-utopia.  Um sonho-utopia é aquele sonho capaz de nos impulsionar para frente e para o alto, e de nos salvar do atoleiro comum da mesmice e do pessimismo maledicente. O sonho-utopia é essencialmente coletivo porque diferente do sonho individual, que se encerra no sonhador, o sonho-utopia encontra sua concreção nos eventos coletivos, eventualmente históricos, e por isso mesmo carrega em si a energia transformadora da realidade e talvez do mundo. São estes sonhos cada vez mais raros. São estes os sonhos que não estamos sonhando. Proponho refletirmos sobre isto. 
E para impulsionar nossa reflexão, cito como exemplo de sonho-utopia o sonho de Martin Luther King, que no dia 28 de agosto de 1963, nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C., proferiu aquele que seria considerado por muitos como o melhor e mais importante discurso americano do século XX. "Eu Tenho um Sonho" (em inglês: I Have a Dream) é o nome popular dado ao histórico discurso de L. King no qual falava da necessidade de união e coexistência harmoniosa entre negros e brancos, construindo assim uma verdadeira democracia racial. O discurso fez parte da Marcha de Washington por Empregos e Liberdade e foi um momento decisivo na história do Movimento Americano pelos Direitos Civis. Mais de duzentas mil pessoas sonharam juntas com L. King naquele dia. Segundo o historiador brasileiro Voltaire Schilling, “O dr. King fizera um dos mais belos salmos políticos da língua inglesa.” E completa:  “Mataram-no a tiros uns anos depois, em Memphis, em 4 de abril de 1968. Como estará o sonho do dr. King?”

Continua... 

4 comentários:

  1. Parabéns, Antonio, pelo texto, excelente. Sim, acredito na tese apresentada e na crise existente. A reflexão sobre isso é pra lá de interessante. Por que será? Será que já nos tornamos todos escravos e estamos felizes com isso, como vaticinou o escritor?
    Um grande abraço.
    Carlos Rosa.

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  2. Parabéns, Antônio!
    Belo texto que nos leva à reflexão. Todos deveriam lê-lo. Obrigada!
    Abraços.
    Elenir

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  3. Antonio, seu texto é um chamamento, quase uma convocação. É preciso que acordemos, para então sonhar. Muito bom!

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  4. gostei muito Antonio..Vivenciei tb com muita intensidade esses momentos..Abs saudosos...ceci

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